terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Segredo de Natal


Ivan Angelo*


Desde o Natal passado, a pequena Vivian guarda um segredo maior do que poderia acomodar, tanto que o dividiu em dois: esconde parte no coração e parte no cerebrozinho esperto. Não pensou nele o ano inteiro, nem poderia; na verdade esqueceu-o, mas no início de dezembro, ao perceber nas cores, nas luzes, nas músicas, na televisão, na escolinha, nos shoppings e no rebuliço geral os sinais de um novo Natal, o segredo voltou a deixá-la intensa, porque possuidora de um conhecimento que as outras crianças não tinham.

Na escolinha, coleguinhas diziam bem alto:       
                           
– Papai Noel não existe!

Como se soubessem do que estavam falando! Ouvi-los era a confirmação íntima de que só ela sabia o segredo. Se vinham dizer-lhe pessoalmente que Papai Noel não existia, iluminava-se poderosa, única, não conseguia esconder um quase sorriso de superioridade, e rebatia com firmeza:

– Claro que existe! Eu conheço ele.

Tanta segurança numa criança de nem 4 anos abala certezas. Os meninos, que confiam e desconfiam mais depressa do que as meninas, queriam saber detalhes, para decidir se tomavam nova posição nessa questão. Mesmo aquelas crianças cujas certezas vinham de pais que não estimulam mitos e encantos, mesmo essas ficaram acesas, atentas. Saber ou não saber é crucial na infância. Quem nada sabe subordina-se; quem sabe é general.

– Conhece ele? Como é que conhece, se ele não existe?

– Conheço e pronto – afirmou Vívian como se não pudesse dizer mais nada, como se tivesse chegado a um limite.

– Você viu ele? – perguntou umazinha, coadjuvante natural.

– Vi e vejo – confirmou Vívian, inabalável em sua segurança.

– Vê nada! Vê onde? Todos são de mentira – desafiou o mais atrevido, apresentando um dado concreto para desmentir a impostora.

– Sei muito bem que esses do shopping são de mentira. Não é desses que estou falando.

– De qual, então?

– Não posso contar – disse Vívian, e diante dos muxoxos de dúvida acrescentou com inquebrável ética: – Ele pediu para eu não contar. Disse que é o nosso segredo.

Entre crianças, estava explicado. Segredo é segredo.

Vívian vivera intensamente aquele segredo nos dias que se seguiram ao Natal passado. Sorria para o Papai Noel, que continuava em sua casa disfarçado de pai, sem que ninguém adivinhasse, e ele sorria de volta, confirmando, pensava ela, confirmando o compromisso. "É o nosso segredo", ele havia dito. Que poderia fazer senão calar-se maravilhada, se havia descoberto contra a vontade dele o seu mistério? Naquele mágico Natal passado, entre músicas e primos, quando recebeu das mãos do Papai Noel exatamente o presente que havia pedido e o abraçou, sentiu nele aquele cheiro bom de todas as noites, olhou primeiro intrigada, depois devassadora e inescapável, olhou o homem por trás dos óculos, da barba, do bigode, abriu os olhos de espanto e falou ainda presa ao abraço:

– Papai Noel, você é o meu...

– Psiu! Ninguém sabe! É segredo. É o nosso segredo!

Guardou com fervor o segredo. "Ninguém sabe" foram palavras mágicas. Então aquele era o Papai Noel de verdade! Ninguém sabe. Se alguém mais soubesse, se fosse uma coisa que todos soubessem, ele seria como os outros! E era em sua casa que ele vivia! Ninguém sabia, nem a mãe, nem o irmão, nem os primos, nem os amiguinhos da escola – só ela! O segredo inundou-a de uma responsabilidade enorme e de medo de se trair. Tinha de prestar muita atenção para não errar. Esteve tensa e cansada durante muitos dias, mas aos poucos esqueceu.

E então veio dezembro novamente, e trouxe de volta prenúncios de Natal e a responsabilidade insuportável. Não, não, não! Não queria viver aquilo de novo, decidiu. Pensou, secreta e maliciosa: naquele Natal, ia contar para todo mundo.


Do livro “Crônica Brasileira Contemporânea”, 
organização e seleção de Manuel da Costa Pinto


*Ivan Ângelo (Barbacena, 4 de fevereiro de 1936) é um jornalista, cronista e romancista brasileiro.


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