domingo, 19 de fevereiro de 2017

Fabulinha Tecnocrática


A bênção, Millôr...


Estavam os tecnocrata do País do Sonho reunidos para encontrar uma fórmula de aumentar o seu PNB, sem que o povo abrisse a boca. – Tenho uma ideia, disse o primeiro tecnocrata. A gente sobe o preço de tudo e baixa a lenha... – Nada disso, disse o segundo tecnocrata. Muito arriscado. O melhor, então, é ordenarmos às fábricas de pasta de dente que esvaziem os potes e encham os tubos de todos com cola. Assim, toda vez que alguém for escovar os dentes, cola a boca. – Cala a boca, corrigiu o primeiro tecnocrata. Mas e os que não tiverem dentes e, portanto, não os escovam? – É... concordou o terceiro tecnocrata. Plano furado e, além disso, antieconômico. Sejamos mais pragmáticos. O melhor é lançarmos no mercado um novo tipo de calças que, ao invés da cintura, vá até o pescoço. Assim, toda vez que se mandar o povo apertar a cinta, tapa-se-lhe a boca. E ao mesmo tempo incentiva-se o aumento do consumo de tecido – aumentando-se as calças, aumenta-se também a quantidade de tecido para fazê-las, correto? Isso sem falar no pano pras mangas e outros insumos... – Corretíssimo, genial mesmo, mestre – disse o primeiro tecnocrata. – Sensacional – disse o segundo tecnocrata. Mas tenho duas dúvidas: e os que usam calças e não usam cintas? E os  que usam cintas, mas não usam calças? – Bobagem – atalhou o terceiro tecnocrata. Tanto no primeiro caso como no vice-versa, ambos serão considerados imorais e serão presos. – Perfeito, disse o primeiro tecnocrata. – E mais – continuou o terceiro tecnocrata – para que a nossa medida seja, antes de tudo, essencialmente democrática, decreta-se que cada um que use a calça que quiser com a cinta que tiver, desde que com a boca fechada. Concordam? – Totalmente, responderam em coro o primeiro e o segundo tecnocrata. E assim foi. No outro dia, para o bem do povo e a felicidade geral da nação, decretou-se no País do Sonho que subissem as calças e apertassem as cintas. Revogando-se as disposições em contrário.

Moral:

Como a cinta, cada usa a que tem. O importante é que ninguém ande sem calças, segundo os tecnocratas.


(Pacheco, no livro QI 14 – Editora Garatuja – 1975)*


*Esse livro ainda poderá ser encontrado em algum sebo de Porto Alegre.

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