quinta-feira, 29 de junho de 2017

Cris Negão – Cristiane Jordan

O Madame Satã* de São Paulo

* Madame Satã (1900-1976) homossexual e famoso cafetão da Lapa, Rio de Janeiro, dos anos 30 a 60.


Kaká di Poli e Cris Negão,
com suas diversas marcas de tiros e facadas na Prohibidu's

→ Cristiane Jordan, ou Cris Negão como era chamada, foi uma travesti cafetina do centro de São Paulo conhecida por seus métodos violentos de controle das outras travestis. Odiada e temida por uma legião, ela também tinha seus fãs, até que tragicamente foi assassinada com dois tiros na cabeça. O filme é um mergulho no universo das travestis, a partir dessa figura lendária do submundo de São Paulo. 

(Sinopse do filme “Quem tem medo de Cris Negão?”)

→ “Um moleque de um metro e meio, de bermuda e chinelo, chegou, deu três tiros na cara da Cris Negão e saiu andando. Sei lá se foi encomendado, se foi acerto de contas, problema com ex-marido...”, conta a drag e amiga Kaká di Poli. Acabava aí a conturbada vida de Cristiane Jordan, como preferia ser chamada a travesti que sucedeu Andreia de Maio no comando do movimento em torno da prostituição de travestis do centro de São Paulo. Cris foi baleada na noite de 6 de setembro de 2007, em frente ao bar Elenice, na rua Rego Freitas.

→ Na foto que ilustra esse texto (uma das raras imagens de Cris), dá pra ver algumas das marcas de facadas e tiros que ela tinha pelo corpo todo, marcas das diversas tentativas de assassinato que sofreu. “Diziam que ela tinha o corpo fechado do pescoço pra baixo, e, por isso, não morria. Falavam que só iria embora se fosse atingida no rosto, o que aconteceu. Nessa noite, eu estava em casa com uns amigos e ouvimos uns fogos. Pensamos que era jogo de futebol, mas estavam comemorando o assassinato dela”, relembra o pesquisador de imagens Aldrin Ferraz, que mora na região há quase duas décadas. “Ela era muito violenta, o povo tinha medo. Cris tinha muitas inimizades na rua.”

→ Para quase todos que conheceram as duas chefonas, a poderosa Andreia de Maio, respeitada e temida em todo canto no centro, parecia um doce de coco se comparada a Cris Negão. Ambas cafetinavam travestis e conseguiam, cada uma a seu modo, manter certa ordem naquele submundo de transexuais, michês, clientes, policiais, traficantes e trombadinhas que compunham a região da rua Amaral Gurgel. “A Andreia ainda tinha essa história de ser uma personagem, aquela coisa romântica. Mas da Cris as pessoas não gostavam mesmo, tinham medo”, relembra Marcelo Ferrari, que dá vida à drag Marcelona. “E a Cris não era nada disso que a Andreia era, não tinha essa coisa assim de ser considerada uma personagem. Era apenas mais uma...”, relativiza a atriz transexual Claudia Wonder.

Multas e peruca

→ Com a morte de Andreia de Maio, em maio de 2000, Cris passou a comandar tudo com mão de ferro. Diferentemente de Andreia, bebia bastante, abusava da força e tinha o costume de sair cobrando o que chamava de “multas” (em dinheiro ou objetos), assim, do nada. “Uma vez, saindo com uma amiga drag de uma boate, ela chegou transtornada, nos parou sem motivo e falou assim: 'Nossa Pietra, adorei a minha peruca na sua cabeça'. Minha amiga entendeu o recado, sacou na hora as madeixas postiças da cabeça e deu pra ela”, lembra Aldrin. “Cris era isso mesmo: meio bandida, traficante e tudo mais. Mas punha ordem naquele pedaço”.

→ Depois que Cris se foi, encerrou-se de vez o ciclo de cafetinas-travestis-poderosas no centrão paulistano. Alguns ficaram aliviados, mas colegas como Kaká lamentam a perda. “Ela cafetinava, falava assim: 'você vai parar nesse ponto, trabalhar e tudo bem, mas vai me pagar R$ 30 por noite'. A bicha pagava, trabalhava e não tinha ninguém enchendo o saco. E, se aparecesse alguém pra encher, a Cris tocava dali”, relembra a drag. “Essas aí da rua hoje vivem sendo assaltadas, vivem apanhando, não tem mais ninguém pra proteger. A rua ficou solta, muita bandidagem. Esse mito da guardiã da noite das travestis e dos michês terminou mesmo com a Cris Negão”.

(Do blog Trip News)

Documentário “Quem tem medo de Cris Negão?”, do diretor René Guerra

→ Cristiane Jordan, a última cafetina travesti da região paulista da Amaral Gurgel, foi assassinada, com dois tiros na cabeça, na noite de 06 de setembro de 2007, em frente ao bar Elenice, na Rua Rego Freitas. Cris Negão, como era conhecida (apesar de preferir ser chamada por Cristiane ou Cris Jordan), comandava o movimento em torno da prostituição de travestis no centro de São Paulo. Para isso, abusava da força e tinha o costume de cobrar “multas” por motivos aleatórios.

→ Através de depoimentos de algumas travestis que conviveram com ela nas ruas da capital, conhecemos a personalidade e irreverência dessa figura odiada e temida pela maioria, mas que também tinha uma legião de fãs. São histórias emocionantes e, ao mesmo tempo, engraçadas. Contam lembranças das ruas, por que Cris era temida, descrevem como foi a última vez em que estiveram com ela e o que estavam fazendo na noite de seu assassinato.

→ O documentário é uma espécie de interrogatório. “Quero saber se é um policial ou um jornalista, porque aí a entrevista é diferente”, fala uma das travestis logo no início do curta. “É um policial”, responde uma voz de homem que se repete poucas vezes ao longo das cenas. Outra prostituta conta que, na noite do assassinato, Cris iria dormir na casa de sua Mãe de Santo, mas sem maiores explicações, decidiu que precisava cuidar da rua. Pouco tempo depois, um menino de um metro e meio chegou por trás de Cris e lhe deu dois tiros na nuca. “Ela ainda teve a pachorra de virar para trás e dar uma bolsada no garoto. Essa era Cris Negão!”, revela.

(Jornal Comunicação – jornal laboratório
da Universidade Federal do Paraná)


Nenê, Valério Araújo, Cris Negão, Kaká di Poli e uma amiga
na Val Improviso.


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