segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Histórias do Carnaval

Luís Fernando Veríssimo


Alcebíades compra um pacote de confete e guarda em casa. Passa todo o carnaval na frente da televisão. Dia e noite. Na quarta-feira de cinzas coloca confete em vários e bem escolhidos recessos da sua roupa – bolsos, a bainha das calças – e vai para o trabalho. Na repartição todos notam que seu Alcebíades tem os olhos injetados. E não demora alguém detectar um confete acusador: Seu Alcebíades andou na farra! Ele fecha a cara e diz que não está para brincadeiras. O que pensam que ele é? Todos os anos é a mesma coisa.

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O casal chega do baile, sol alto. Ele já está na segunda ressaca, mergulha na cama sem nem tirar o seu tirolês estilizado. Ela começa a tirar o seu sarong. De repente, ele se dá conta.
– Como é que você mudou de fantasia no meio do baile?
– Vá dormir. Você está bêbado.
– Não. Pera um pouquinho. Você estava com um sarong vermelho e agora está com um verde. Pera um pouquinho.
– Que história é essa? Fui e voltei de sarong verde. Vai dizer que você não notou!
Ele geme baixinho e enterra a cara no travesseiro. De quem seria o traseiro vermelho que ele apertou com tanto entusiasmo no melhor do baile, pensando quem fosse a sua mulher? Meu Deus, eu estou comprometido e nem sei com quem.

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O casal do baile, sol alto. Ela se deita sem tirar o sarong vermelho. O marido, organizado como sempre, dobra as calças, bota o pijama e escova os dentes antes de deitar também. A mulher, quase dormindo, chega no seu ouvido e diz:
– Como é?
– Como é o quê?
– Ué, no baile não parou de me apertar e agora nem tá?
– Eu não parei de apertar você?!
Mas a mulher já está dormindo. E o homem não consegue dormir. Fica pensando: se não fui eu, então quem foi?

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Quinta-feira, depois do carnaval, na repartição, Jorge e Jamir conversam sobre um cafezinho. Jamir se queixa:
– Não tenho mais idade para o carnaval.
Jorge não concorda:
– Pois eu cada ano me animo mais. O baile da terça foi um estouro. Só sinto que o carnaval acabou. Estou pronto para outro.
– As mulheres, parece que gostaram também – diz Jamir, sem olhar para Jorge.
– Gostaram mesmo. Brincaram a noite inteira.
– A Beatriz de verde e a Dalma de vermelho...
Jorge quase se engasga com o cafezinho. Olha rapidamente para Jamir. Então era a Dalma! Mas por que será que fez questão de dizer que a mulher dele estava de vermelho? Uma frase completamente gratuita. É porque ele sabe. É isso. A Dalma contou para ele. (“Olha, bem. Eu sei que ele é seu amigo e colega, mas o Jorge passou toda a noite me apertando o traseiro. Eu sou muito amiga da Beatriz e não posso admitir uma coisa dessas. Tome uma atitude.”) E se eu disser: “Ah, então foi o traseiro da sua mulher que eu apertei por engano?” Fica horrível. Melhor não falar nada.

E o Jamir pensa: Foi ele. Claro que foi ele. Ou será que não foi? Eu posso cometer uma injustiça. Se eu disser: “Pô, Jorge, logo com a minha mulher”, ele pode se insultar. E é claro que eu não posso perguntar: “Escuta aqui: você apertou ou não o traseiro da Dalma?” Fica horrível. Melhor não falar nada.

Os dois terminam o cafezinho e vão ver por que o pessoal na outra sala está rindo tanto. Ah, é o Alcebíades.
– Então, na farra, hein, malandro?
– Olha o respeito.


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