domingo, 21 de setembro de 2014

José do Patrocínio Filho


José do Patrocínio Filho, assim como Sylvio Floreal ou Benjamin Constallat são uma dessas figuras difíceis de definir. Autênticos outsiders da literatura. José do Patrocínio Filho (1885-1929) foi jornalista e escritor. Foi dono também dono de personalidade controvertida, foi uma figuraça que de tanto mentir, já não distinguia verdade de mentira. Foi uma dessas personagens que criaram para si um alter ego dos mais surpreendentes, para não se sabe bem por que justificar suas ações mais teratológicas possíveis. Dizem que mentia com a mais absoluta naturalidade, e que envolvido por suas próprias histórias era o primeiro a crer em suas cabotinagens.

José do Patrocínio Filho, “Zeca” para os íntimos, jornalista e escritor, dono de personalidade controvertida, para dizer o mínimo, e vida tumultuada, foi uma figuraça. Era O Fabuloso Patrocínio Filho, para repetir o título da biografia escrita na década de 50 por Raimundo Magalhães Júnior, e “fabuloso” em dois sentidos: no de pessoa prodigiosa e no de pessoa que fabula, isto é, inventa, cria ou, se preferir, mente.

Os últimos momentos...

Na clínica aonde fora levado, dois dias antes de morrer, fraquíssimo, não suportando outro alimento, o médico ordenou que lhe dessem leite de peito.
- Vira uma ama com o parelho próprio para tirar o leite. A senhora vá servindo às colherinhas.
- Doutor, estou tão nervosa peço-lhe: mande vir a ama e ensine-me como devo fazer.
Veio a ama.
O médico desnudou-lhe o peito branco, branco, de seios muito bonitos; começa a colocar o parelho, e Zeca encantado com derradeira luz nos olhos, e a voz que já era uma sombra de voz, gemeu:
- Doutor...
O médico aproximou-se da cama:
- Meu amigo?
- Não é melhor eu mamar?

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Além do que deixou esquecido na imprensa do Rio e dos Estados, escreveu: Mundo, Diabo & Carne, crônicas; A Sinistra Aventura, romance vivido nas prisões da Inglaterra: O Homem que passa, crônicas; Quarenta anos de má vida do vagabundo José, romance; O Pó, poema da cocaína; La Pente, romance.

A morte

Em 1929, aos 44 anos, Zeca morre de meningite. Em Paris, como convinha a um bom megalômano. Álvaro Moreyra jura que, depois de o médico ter receitado leite humano como único alimento possível para alimentar o moribundo, Zeca não resistiu diante da ama de leite parisiense de quem iam extrair-lhe o alimento e perguntou: “Não é melhor eu mamar?” Pouco mais de um mês depois, o corpo embalsamado de Zeca chega ao Rio e, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, acontece um velório impagável, com Sinhô batucando um samba no caixão e suspeitas de que o morto havia se mexido, tudo registrado por Manuel Bandeira numa das “Crônicas da Província do Brasil”.

No enterro de Zeca, Manuel Bandeira conhece Sinhô

O poeta e o sambista Sinhô se conheceram no velório do escritor e jornalista boêmio Zeca Patrocínio – filho do “Tigre da Abolição”, José do Patrocínio (1853-1905). Foi imediata a identificação poética de Bandeira com o músico popular. Sua crônica revela um encantamento tipicamente modernista: a descoberta de um representante genuíno do povo brasileiro, cuja linguagem era tão prezada por Manuel Bandeira, que num de seus poemas ele faz a apologia da “língua errada do povo, da língua certa do povo, porque ele é que fala gostoso o português do Brasil”.

José Carlos do Patrocínio Filho, jornalista e escritor brasileiro (Rio de Janeiro, RJ, 1885 - Paris, 1929). De obra fragmentária, o filho de José do Patrocínio foi um dos primeiros escritores brasileiros a colaborar diretamente com o cinema então nascente, quando escreveu, em 1910, dois filmes musicais, Paz e Amor e Logo Cedo.


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