domingo, 7 de setembro de 2014

Trovas e Músicas na História do Brasil



 Em 1901 a vetusta rua do Ouvidor se agita com os bandos e cordões cantando:

“Viva o Zé–Pereira
Que a ninguém faz mal
E viva a bebedeira
Que hoje é carnaval.”

 Em 1902, tragédia no carnaval: dois blocos carnavalescos rivais se defrontam na Praia de Botafogo. Pancadaria grossa e dois mortos. Nos velórios, os foliões são enterrados ao som de uma marcha de Candinho, singela na letra, mas alegríssima.

“Que bela rosa
Que lindo jasmim
Eu vi o triunfo
Lá no meu jardim.”

 Em 1903 chega ao Rio, vitorioso, Santos Dumont. Saudado com faixa no Pão-de-Açúcar e ouvindo o povo cantar a quadra de Eduardo das Neves:

“A Europa curvou-se ante o Brasil
E clamou parabéns em meigo tom
Brilhou lá no céu mais uma estrela
E apareceu Santos Dumont.”

 Em 1904, o êxito do carnaval não foi nem a marchinha recém-inventada nem o velho lundu. Foi a polca política em gozação à campanha de desratização de Oswaldo Cruz:

“Rato, rato, rato
Por que motivo tu roeste meu baú
Rato, rato, rato
Audacioso e malfazejo gabiru.”

 Em 1905 o carnaval de cordões e de entrudo alegra a cidade, desafiando a proibição policial.

“Eu vou beber
Eu vou me embriagar
Eu vou fazer barulho
Pra polícia me pegar.”

 Em 1906, o melhor maxixe é o de Arquimedes de Oliveira e Bastos Tigre, que proclamavam, em alto e bom som, contra Tenentes e Fenianos:

“Vem cá mulata
Não vou lá não
Sou Democrata
Sou Democrata, de coração.

→ Em 1907, o sucesso do carnaval foi um comentário bem-humorado ao crime bárbaro que meses antes dois italianos cometeram na Rua da Carioca e que estarreceu a opinião pública:

“Mandei fazer um terno de jaquetão
Pra ver Carletto e Rocca na Detenção
Mandei fazer um terno de jaquetinha
Pra ver Carletto e Rocca na carrocinha.”

 Em 1909, Oliveira Lima – diplomata mais gordo e mais monarquista. Emílio Menezes compõe para ele estes versos:

“De pele flácida
diante de sua própria
como oliveira não dá azeitona
e como lima parece uma melancia.”

 Em 1910 o êxito do carnaval é uma polca de gozação contra o presidente Hermes da Fonseca “o seu Dudu”

“Ah, Filomena, se eu fosse tu
Tirava a urucubaca da careca do Dudu.

 Em 1911 o general Dantas Barreto, derrotado nas eleições, mas apoiado por Hermes da Fonseca, depõe o governado Rosa e Silva. O povo canta:

“O país rolou, caiu
Rosa desceu
Dantas subiu.”

 Em 1912 o carnaval é proibido e adiado no Rio para assinalar a morte do barão do Rio Branco. O povo aproveita a faz dois carnavais, cantando:

Com a morte do barão
Tivemos dois carnavá
Ai que bom. Ai que gostoso
Se morresse o marechá.”

 Em 1913 o sucesso carnavalesco é a polca Dengo-Dengo, que deu nome a uma revista de grande sucesso na Praça Tiradentes:

“Dengo, dengo, dengo
Ó maninha
É e caruru
Quem matou baeta, ó maninha
Foi carapicu.”

 Em 1914 o grande escândalo nacional: a esposa do presidente da República, Nair de Teffé, num baile do catete, toca ao violão o maxixe Corta Jaca, de Chiquinha Gonzaga:

“Ai! Ai! Que bom cortar a jaca
Ai! Sim! meu bem, ataca
Sem descansar.”

→ Em 1917, com a moda da propaganda rimada, Emílio e Menezes comete um soneto com este fecho:

“Da horrível tosse que me pôs febril
Dei cabo, usando apenas a metade
De um milagroso frasco de Bromil.”

 Em 1918 todos leram, pela primeira vez, o reclame escrito por Bastos Tigre pregado em todos os bondes do Rio de janeiro:

“Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem a seu lado.
No entanto acredite
Quase morreu de bronquite
Salvou-o o Rhum Creosotado.”

 Em 1919, no carnaval, os irmãos Pixinguinha e China dão a resposta musical a Sinhô, o Rei do Samba, que no ano anterior apresentara “Quem são eles” (referência aos dois), “Já te digo” traça o retrato do desafeto:

“Ele é alto, magro e feio
É desdentado
Ele fala do mundo inteiro
E já está avacalhado
No Rio de Janeiro.”

 Em 1920, no carnaval, o povo volta a satirizar a política. Sinhô sai com seu admirável “Fala meu Louro”, referência ao mutismo de Rui Barbosa, batido nas urnas por Epitácio Pessoa:

“Papagaio louro
De bico dourado
Tu falavas tanto
Qual a razão
Que vives calado?”

 Em 1921, os bondes do rio se enchem com este verso de reclame:

“A noiva do meu vizinho
Entre ternura e carinho
Me disse um dia essa frase:
Se quiser minha alegria
Cura tua blenorragia
Com uso de Ganostase.”

 Em 1924, o sucesso no carnaval é “Pai Adão”, outra vitória de Eduardo Souto que a censura engole, inaugurando o ciclo dos adãos e das evas na permissividade:

“Gozar, até cansar
Ai como é bom viver
E como Pai Adão pecar
Pecar, pecar
Gozar, gozar, gozar,
Até cansar.”

 Em 1925, o êxito do carnaval é “Sai Cartola”, de Raul Silva. Uma sátira ao chapéu-coco, indistintamente usado. Até pelas mulheres. É um beliscão na bestice da grã-finagem:

“Sai, Cartola
Sai, Cartola
Camisa de peito
Sapato pedindo sola.”

 Em 1926, no carnaval a censura age ferozmente contra os compositores populares. O chefe de polícia estabelece na Avenida Rio Branco mão e contramão para evitar as bolinações. José Francisco de Freitas sai com esta marcha:

“Zizinha, Zizinha
Ó, vem comigo
Minha santinha, vem
Eu também quero uma casquinha.”

 Em 1927, Emílio de Menezes, danado por perder um concurso de quadrinhas de reclame, protesta:

“Se o concurso era de tretas
Por que não me preveniu?
Vai vender fazendas pretas
Lá na puta-que-o-pariu! “

 Em 1929 a campanha eleitoral se trava aos gemidos da tuba que sopra um jingle de Luiz Peixoto, musicado por Heckel Tavares:

“Getúlio
Fon, fon, fon, fon
Você esta comendo bola
Não se meta com seu Júlio
Que seu Júlio tem escola.”

 Em 1931 começa a glorificação de Getúlio Vargas com a marchinha de Lamartine Babo:

“Gê-e-é: Gê
Tê-e-ú: Tu
Lê-e-i: Li, ô
Ge-tú-li-o.”


 Em 1932 Wilson Batista deixa o ofício decadente de acendedor de lampião a gás para inaugurar uma prodigiosa carreira de cantor da malandragem carioca:

“Eu passo gingando
Provoco desafio
Eu tenho orgulho
de ser vadio.”

 Em 1936 Jorge de Lima se assume como negro e adere à negritude em quatro poemas:

“Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos
E a quarta e a quinta geração de teu sangue sofredor
Tentarão apagar a tua cor! “

 Em 1937 Pixinguinha grava, com piano, flauta, duas clarinetas, contrabaixo, violão, cavaquinho, bateria e voz de Orlando Silva, “Carinhoso”, letra de João de Barro – Braguinha:

“Meu coração
não sei por quê,
bate feliz
quando te vê.”

 Em 1941 o governo, no afã propagandista do Estado Novo, promove e incentiva grupos musicais a cantar o trabalho, em vez da malandragem. Wilson Batista e Ataulfo Alves saem com “O Bonde São Januário”, e Geraldo Pereira com:

“De manhã deixo o barracão
Vou pro ponto de seção
Cheio de alegria
Pego o bonde Piedade
desembarco na cidade
Em busca do pão de cada dia.”

 Em 1944 o êxito do ano é a “Canção do Expedicionário”(pracinha), de Guilherme de Almeida musicada por Spartaco Rossi:

“Por mais terras que percorra
não permitas Deus que eu morra
Sem volte para lá;
sem que leve por divisa
esse “V” que simboliza
a vitória que virá.”

 Em 1945, no carnaval, Grande Otelo e Herivelto Martins profeticamente lançam o brado da esperança:

“Canta, samba, canta,
muita alegria nós precisamos.
Está terminando a tirania alemã.
A guerra acaba amanhã.”

→ Em 1946 o grande sucesso é de João de Barro e Alberto Ribeiro, com “Copacabana”, cantada por Dick Farney, que inaugura o samba-canção:

“Copacabana, princesinha do mar
pelas manhãs, tu és a vida a cantar
e à tardinha, ao sol poente,
deixas sempre uma saudade na gente.”

 Em 1949, o malandro Wilson Batista quem define, com perfeição, o problema social da moradia:

“Você conhece o pedreiro Waldemar?
Não conhece?
Mas eu vou lhe apresentar.
De madrugada toma o trem da circular
Faz tanta casa e não tem casa pra morar.”

 Em 1950 a marchinha mais cantada é mesmo a marchinha getulista de João de Barro e José Maria de Abreu:

“Ai, Gegê!
Ai, Gegê, que saudades
que nós temos de você.”

 Em 1951, com a vitória nas urnas, a marchinha de Haroldo Lobo e Marino Pinto, na voz de Francisco Alves é a mais cantada no Brasil:

“Bota o retrato do velho,
outra vez,
Bota no mesmo lugar.
O sorriso do velhinho
faz a gente trabalhar.”

 Em 1952, com o empreguismo na capital federal, Arnaldo Cavalcanti e Klecius Caldas, na voz de Blecaute, lançam a marchinha crítica:

“Maria Candelária
É alta funcionária
saltou de pára-quedas
Caiu na letra Ó
Ó, Ó, Ó, Ó, Ó.”

 Em 1953 o filme “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, premiado em Cannes abre a fase profissional histórica do cinema brasileiro. Vanja Orico encanta o Brasil cantando:

“Olé, mulhé rendeira
Olé, mulhé rendá
Tu me ensina a fazer renda
Que eu te ensino a namorá.”

 Em 1956 Vinicius de Moraes é apresentado a Tom Jobim (por Lúcio Rangel), no Bar Vilarinho, Daí passam a escrever novas composições. Vinicius lança seu mais belo poema-canção: “A Serenata do Adeus” gravado por Elizeteh Cardoso:

“Oh, minha amada
Que olhos os teus!
São cais noturnos
Cheios de adeus.”

 Em 1958 para por fim ao furor conspirativo da Aeronáutica, JK compra dos ingleses um porta-aviões de sucata, e o batiza com o nome Minas Gerais. Mas o povo o apelida de Belo Antônio (bonito mas não funciona). Juca Chaves canta:

“O Brasil já vai à guerra
Comprou porta-aviões
Um viva para a Inglaterra!
Oitenta e dois milhões:
mas que ladrões!”

 Em 1963 Antônio Almeida dá o toque e reforça as posições de Jango, cantando:

“Mulata latifundiária
Pra que tanta ambição
Faz logo a reforma agrária
Reparte o teu coração.”

 Em 1964, no carnaval, o povo ainda não havia percebido o golpe militar, satiriza a guerra da lagosta, na marcha de Jorge Washington:

“Faço uma proposta pra você
Faço um acordo de irmão
Traga uma francesa pra mim
E leve tudo, lagosta,
até meu camarão.”

 Em 1965, Zé Kéti compõe e difunde, apesar de não ter sido gravada, a canção mais cantada no reveillon:

“Marchou com Deus pela democracia
Agora chia. Agora chia.”

 Em 1968, realiza-se no Rio a passeata dos cem mil, encabeçada por estudantes, intelectuais e artistas, expressando a esperança de uma abertura democrática com as seguintes palavras de ordem:

“Nesse luto começa a nossa luta.”
“O povo unido jamais será vencido.”
“Não fique aí parado, você é explorado.”

 Em 1970, na Copa do Mundo realizada no México, após a vitória do Brasil contra a Inglaterra, o povo canta nas ruas:

“É canja. É canja. É canja
é canja de galinha
A nossa seleção
Pôs na bunda da rainha.”

 Em 1975, apesar da Ditadura, o Brasil volta a poetar alto com Ferreira Gullar em “Dentro da Noite Veloz”:

“Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena.”

 Em 1979, com a Anistia, Prestes é recebido no galeão por milhares de pessoas que cantam:

“De Norte a Sul
De Leste a Oeste
O povo todo grita:
Luís Carlos Prestes.”

 Em 1980, a música popular se renova e vira espetáculo com o rock nativo, irreverente e irrefreável de Rita Lee, toda feita de talento e audácia:

“Não tenho grana pra pagar motel
Papai, me empresta o carro
Pra eu tirar um sarro
com meu bem.”

*****

(Do livro “Aos Trancos e Barrancos”- como o Brasil deu no que deu.)
Darcy Ribeiro – Editora Guanabara






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