quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Uma Fábula da Natureza


Nas coisas simples, por mais insignificantes que sejam,
há sempre um grande valor.


Um dia, uma linda jovem princesa teve uma grave doença. Seu pai, um rei muito poderoso, consultou todos os sábios e curandeiros do reino e não logrou cura para sua filha. Procurou famosos médicos nos reinos vizinhos e em toda a parte, onde seus enviados pudessem chegar, e, mesmo assim, todos julgaram o caso muito difícil de cura; outros, até impossível.

Uma noite, depois de estar durante todo dia ao lado do leito da jovem princesa, o rei, de cansaço, adormeceu. Durante seu sono, começou a ter um sonho fantástico. Uma fada apareceu-lhe e indagou-o sobre a sua profunda tristeza. O rei contou da doença incurável da sua única filha, e disse que faria tudo o que fosse possível para que ela voltasse a viver alegre e feliz, como vivera até então.

Após ouvir todo relato dramático do rei, a fada condoeu-se da sua dor. E disse-lhe o seguinte: “Faça, sem segundas intenções, uma boa ação de real valor, e, então, por este gesto puro e singelo, sua filha estará curada.”

O rei acordou sobressaltado e esperançoso, pois fora muito intenso e verdadeiro o seu sonho. No outro dia, chamou todos os poucos mendigos do reino e distribuiu entre eles muitas moedas de ouro. Voltou ao castelo, e sua filha continuava na mesma. Resolveu dar aos pobres todas as suas roupas de pouco uso, dar presentes aos filhos dos empregados do reino, mas nada acontecia em relação à doença da sua amada filha.

Numa tarde, caminhado no jardim do castelo, o rei chorava baixinho e suspirava sem esperanças quanto ao futuro da saúde da filha amada. No chão, no seu caminho, cruzou por ele uma pequeníssima formiga. O rei ia esmagá-la com sua pesada bota, mas parou e, contemplando aquela pequenina fórmula de vida, desviou o passo deixando-a seguir o seu caminho, viva.

Ele, então, dirigiu-se ao seu castelo e foi direto ao quarto da filha. Ela estava acordada, sorrindo, transparecendo e vendendo saúde e felicidade. Ela, radiante com que estava acontecendo, disse ao rei:

− Pai, tive um lindo sonho, em que uma fada me falou o seguinte: “Seu pai, finalmente, percebeu que nas coisas insignificantes da natureza é que estão as coisas de grande valor na vida.”

O rei entendeu a lição e nunca mais foi o mesmo. O seu reino se tornou o mais florido de toda a região em que ele vivia. Suas fontes naturais foram preservadas, os animais não foram mais caçados e ele plantou centenas de árvores e sua filha viveu o resto da sua vida, muito saudável e feliz.


(Nilo Moraes)



Um texto e um poema

Depoimento do mineiro atropelado


Seu Zé, mineirinho, pensou bem e decidiu que os ferimentos que sofreu num acidente de trânsito eram sérios o suficiente para levar o dono do outro carro ao tribunal.

No tribunal, o advogado do réu começou a inquirir seu Zé:

- O Senhor não disse na hora do acidente “Estou ótimo?”.

 E seu Zé responde:

- Bem, vou lhe contar o que aconteceu. Eu tinha acabado de colocar minha mula favorita na caminhonete e...

- Eu não pedi detalhes! – interrompeu o advogado − Só responda à pergunta: − O Senhor não disse na cena do acidente: “Estou ótimo?”.

- Bem, eu coloquei a mula na caminhonete e estava descendo a rodovia...

O advogado interrompe novamente e diz:

- Meritíssimo, estou tentando estabelecer os fatos aqui. Na cena do acidente este homem disse ao patrulheiro rodoviário que estava bem. Agora, várias semanas após o acidente ele está tentando processar meu cliente, e isso é uma fraude. Por favor, poderia dizer a ele que simplesmente responda à pergunta?

Mas, a essa altura, o Juiz estava muito interessado na resposta de seu Zé e disse ao advogado:

- Eu gostaria de ouvir o que ele tem a dizer.

Seu Zé agradeceu ao Juiz e prosseguiu:

 - Como  eu estava dizendo, coloquei a mula na caminhonete e estava descendo a rodovia quando uma pick-up  atravessou o sinal vermelho e bateu na minha caminhonete bem na lateral. Eu fui lançado fora do carro para um lado da rodovia e a mula foi lançada pro outro lado.  Eu estava muito ferido e não podia me mover. De qualquer forma, eu podia ouvir a mula zurrando e grunhindo e, pelo barulho, eu pude perceber que o estado dela era muito ruim. Logo após o acidente, o patrulheiro rodoviário chegou ao local. Ele ouviu a mula gritando e zurrando e foi até onde ela estava. Depois de dar uma olhada nela, ele pegou a arma e atirou três vezes bem entre os olhos do animal. Então, o policial atravessou a estrada com a arma na mão, olhou para mim e disse:

- “Sua mula estava muito mal e eu tive que atirar nela. Como o senhor está se sentindo?”.

− O que o senhor responderia, meritíssimo?!


Poema sensual...


Quando eu te encontrar,
possuir-te-ei.
Quando eu te encontrar,
levar-te-ei até a cama.
Sem pedir licença;
tocar-te-ei em todo o teu corpo e te possuirei...
Vou te deixar com uma enorme sensação de cansaço,
entregue inteirinho.
Lentamente, vou te fazer sentir arrepios,
fazer-te suar profundamente.
Irás gemer, até chorar.
Deixar-te-ei ofegante,
tirar-te-ei o ar, a tua cabeça pulsará.
Da cama não conseguirás sair!
E quando eu terminar,
irei embora sem me despedir,
e com a certeza de que voltarei!

Assinado: “A sua Gripe”


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Fatos da Guerra de Canudos

(1896-1897)


O povo vencido de Canudos – as mulheres guerreiras:
 Foto de Flávio de Barros - Museu da República

→ Esta fotografia (acima) de Flávio de Barros, feita no dia 2 de outubro de 1897, é uma dos registros mais emblemáticos dos conflitos e contradições da sociedade brasileira na passagem do Império para a República. Talvez uma das nossas mais expressivas fotografias de guerra, ela diverge radicalmente da maior parte dos registros realizados pelo fotógrafo, que estava em Canudos a serviço do Exército, durante a última expedição que, em 5 de outubro daquele ano, aniquilou definitivamente a resistência dos conselheiristas. A imagem registra o momento em que mulheres, feridos, velhos e crianças se entregam ao Exército, numa provável estratégia de resistência final dos poucos conselheiristas restantes, os quais permaneceram entrincheirados e em combate até o fim da guerra, como indica Euclides da Cunha no magistral “Os Sertões”.

→ A chamada Guerra de Canudos, Revolução de Canudos ou Insurreição de Canudos, foi o confronto entre um movimento popular de fundo sócio-religioso e o Exército da República, que durou de 1896 a 1897, na então comunidade de Canudos, no interior do estado da Bahia, no Brasil.

→ O episódio foi fruto de uma série de fatores como a grave crise econômica e social em que encontrava a região à época, historicamente caracterizada pela presença de latifúndios improdutivos, situação essa agravada pela ocorrência de secas cíclicas, de desemprego crônico; pela crença numa salvação milagrosa que pouparia os humildes habitantes do sertão dos flagelos do clima e da exclusão econômica e social.

→ Inicialmente, em Canudos, os sertanejos não contestavam o regime republicano recém-adotado no país; houve apenas mobilizações esporádicas contra a municipalização da cobrança de impostos. A imprensa, o clero e os latifundiários da região incomodaram-se com uma nova cidade independente e com a constante migração de pessoas e valores para aquele novo local passaram a acusá-los disso, ganhando, desse modo, o apoio da opinião pública do país para justificar a guerra movida contra o arraial de Canudos e os seus habitantes.

→ Aos poucos, construiu-se em torno de Antônio Conselheiro e seus adeptos uma imagem equivocada de que todos eram “perigosos monarquistas” a serviço de potências estrangeiras, querendo restaurar no país o regime imperial, devido, entre outros ao fato de o Exército Brasileiro sair derrotado em três expedições, incluindo uma comandada pelo Coronel Antônio Moreira César, também conhecido como "corta-cabeças" pela fama de ter mandado executar mais de cem pessoas na repressão à Revolução Federalista em Santa Catarina, expedição que contou com mais de mil homens. A derrota das tropas do Exército nas primeiras expedições contra o povoado apavorou o país, e deu legitimidade para a perpetração deste massacre que culminou com a morte de mais de seis mil sertanejos. Todas as casas foram queimadas e destruídas.

(Do Blog Só História)


A artilharia republicana

Combatentes gaúchos em Canudos


Lanceiros gaúchos

→ Apenas o Esquadrão de Lanceiros agia com algum efeito. Partia diariamente em batidas longas pelos arredores. Montando cavalos estropiados, que rengueavam sob a espora, os gaúchos faziam façanhas de peleadores. Largavam, sem medir distâncias e perigos, pela região desconhecida; e, conseguindo sopear na carreira os bois esquivos, lançavam-nos em tropel todas as tardes, para dentro de uma caiçara, à ilharga do acampamento. O inimigo perturbava-lhes a montaria. Além do trabalho de reunir as reses espantadiças, tinham o de impedir a sua dispersão ante súbitos assaltos. E nestes reencontros rápidos e violentos, contendo do mesmo passo os bois alvorotados prestes a se espalhar por toda a banda, e replicando, a disparos de mosquetão, às tocaias que os aferroavam; caindo surpresos, numa tocaia ao transpor uma baixada, alvejados por um tiroteio subitamente partindo do alto; e não abandonando nunca a presa irrequieta; circulando-a, arremessando-a para diante e ao mesmo tempo contendo-a pelos flancos, fizeram prodígios de equitação e bravura.

(Do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha)

O assalto dos Lanceiros Gaúchos

→ Revelou-o o Esquadrão de Lanceiros num reconhecimento temerário. Precipitando-se velozmente naquela direção, deu de chofre no tombar de uma encosta com cerca de oitenta jagunços. Estava, dentro de um curral, de onde atiravam de soslaio sobre a tropa. Dispersou-os a pontaços de lança e a patas de cavalos, numa carga violenta. Subia depois a galope, perseguindo-os por uma ladeira menos abrupta, até ao alto de um dilatado platô, em rechã distendida para nordeste. E arraial, a menos de trezentos metros, apareceu-lhe inopinadamente na frente.

(Idem)

Combatentes republicanos X Mulheres de Canudos

→ Famintos e agoniados de sede, ao penetrarem as pequenas vivendas dentro das quais no primeiro minuto nada distinguiam, na penumbra dos cômodos estreitos e sem janelas, olvidavam o morador. Percorriam-nos, tateantes, em busca de uma moringa d′água ou um cabaz de farinha. E baqueavam, não raro, por um disparo à queima-roupa. Soldados possantes que vinham resfolegando de uma luta de quatro horas, caíram, alguns mortos por mulheres frágeis. Algumas valiam homens. Velhas megeras de tez baça, faces murchas, olhares afuzilando faúlhas, cabelos corredios e soltos, arremetiam com os invasores num delírio de fúrias. E quando se dobravam sob o pulso daqueles, juguladas e quase estranguladas pelas mãos potentes, arrastadas pelos cabelos, atiradas ao chão e calcadas pelo tacão dos coturnos – não fraqueavam, morriam num estertor de feras, cuspindo-lhes em cima, um esconjuro doloroso e trágico...

(Idem)

Os feridos e o último lance heroico

→ No entanto, a expedição atravessara violentíssima crise. Tivera cerca de mil homens, 947, entre mortos e feridos, e estes com os caídos nos recontros anteriores, reduziam-na consideravelmente. Impressionavam-na, ademais, os resultados imediatos do acontecimento. Três comandantes de brigadas, Carlos Teles, Serra Martins e Antonino Néri, que viera à tarde com a 7ª, estavam fora de combate. Numa escala ascendente, avultavam baixas de oficiais menos graduados e praças. Alferes e tenentes haviam, com desassombro incrível, malbaratado a vida em toda a linha. De alguns citavam-se, depois, os arrojados lances: Cunha Lima, estudante da Escola Militar de Porto Alegre, que, ferido em pleno peito numa carga de lanceiros, concentrara os alentos no último arremesso da lança caindo, em cheio, sobre o inimigo, feito um dardo; Wanderley que, precipitando-se a galope pela encosta aspérrima da última colina, fora abatido ao mesmo tempo em que o cavalo, no topo da escarpa, rolando por ela abaixo em queda prodigiosa de titã fulminado; e outros, baqueando todos, valentemente – entre vivas retumbantes à República – haviam dado à refrega um traço singular de heroicidade antiga, revivendo o desprendimento doentio dos místicos lidadores da média idade.


O inimigo
  
“O sertanejo é, antes de tudo, um forte.”

Euclides da Cunha
  
→ Mas o jagunço não era efeito à luta regular. Fora até demasia de frase caracterizá-lo inimigo, termo extemporâneo, esquisito eufemismo suplantando o “bandido famigerado” da literatura marcial das ordens do dia. O sertanejo defendia o lar invadido, nada mais. Enquanto os que lho ameaçavam permaneciam distantes, rodeava-os de ciladas que lhes tolhessem o passo. Mas quando eles, ao cabo, lhe bateram às portas, e arrombaram-lhes a coices de armas, aventou-se-lhes, como único expediente, a resistência a pé firme, afrontando-os face a face, adstrito à preocupação digna de defesa e ao nobre compromisso da desforra. Canudos só seria conquistado casa por casa. Toda a expedição iria despender três meses para a travessia de cem metros, que a separavam do apside da igreja nova. E no último dia de sua resistência inconcebível, com bem poucas idênticas na história, os seus últimos defensores, três ou quatro anônimos, três ou quatro magros titãs famintos e andrajosos, iriam queimar os últimos cartuchos em cima de seis mil homens!

(Idem)

Termina a Guerra de Canudos


Canudos: arraial destruído, corpos mutilados.

→ No dia 5 de outubro de 1897 terminava a Guerra de Canudos ou Campanha de Canudos, confronto entre o Exército Brasileiro e os integrantes de um movimento popular liderado por Antônio Conselheiro. O conflito teve início em 1896 na então comunidade de Canudos, no interior da Bahia. Após a derrota de três expedições militares contra Canudos, a destruição total do arraial tornou-se prioridade para o governo brasileiro. O resultado da ofensiva foi a legitimidade do massacre de até 20 mil sertanejos. Além disso, estima-se que cinco mil militares tenham morrido. A guerra terminou com a destruição total de Canudos, a degola de muitos prisioneiros de guerra, e o incêndio de todas as casas do arraial.

→ Canudos era uma pequena aldeia que surgiu durante o século XVIII. Com a chegada de Antônio Conselheiro, em 1893, o local cresceu rapidamente e, em poucos anos, contava com 25 mil habitantes. A imprensa, o clero e os latifundiários da região incomodaram-se com a nova cidade independente e com a constante migração de pessoas para o local. Desta maneira, construiu-se uma imagem ruim de Antônio Conselheiro e uma guerra contra os habitantes do arraial de Canudos acabou ganhando o apoio da opinião pública.

→ A escravidão havia acabado fazia pouco tempo no país e, pelas estradas e sertões, grupos de ex-escravos vagavam, excluídos do acesso à terra e com reduzidas oportunidades de trabalho. Assim, como os caboclos sertanejos, essas pessoas acreditaram no discurso do peregrino Antônio Conselheiro, que surgia como alguém que poderia tirá-las da pobreza ou garantir-lhes a salvação eterna na outra vida.

(Do Blog Hoje na História)

Epílogo

Texto final de Euclides da Cunha, do livro “Os Sertões”

Fechemos este livro.

Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a História, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.

(...)

Caiu o arraial a 5. No dia 6 acabaram de o destruir desmanchando-lhe as casas, 5200, cuidadosamente contadas.

Antes do amanhecer daquele dia, comissão adrede escolhida descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro.*


Corpo exumado de Antônio Conselheiro:
Imagem de Flávio de Barros, fotógrafo do Exército

Jazia num dos casebres anexos à latada, e foi encontrado graças à indicação de um prisioneiro. Removida breve camada de terra, apareceu no triste sudário de um lençol imundo, em que mãos piedosas haviam disparzido algumas flores murchas, e repousando sobre uma esteira velha, de tábua, o corpo do “famigerado e bárbaro” agitador. Estava hediondo. Envolto no velho hábito azul de brim americano, mãos cruzadas ao peito, rosto tumefacto e esquálido, olhos fundos cheios de terra – mal o reconheceram os que mais de perto o haviam tratado durante a vida.

Desenterram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa – único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! – faziam-se mister os máximos resguardos para que se não desarticulasse ou deformasse, reduzindo-se a uma massa angulhenta de tecidos decompostos.

Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava afinal extinto aquele terribilíssimo antagonista.

Restituíram-no à cova. Pensaram, porém, depois, em guardar a sua cabeça tantas vezes maldita – e como fora malbaratar o tempo exumando-o de novo, uma faca jeitosamente brandida, naquela mesma atitude, cortou-lha; e a face horrenda, empastada de escaras e de sânie, apareceu ainda uma vez ante aqueles triunfadores...

Trouxeram depois para o litoral, onde deliravam multidões em festa, aquele crânio. Que a ciência dissesse a última palavra. Ali estavam, no relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da loucura...

FIM


A foto final dos vencedores


Soldados republicanos e crianças famintas e órfãs...

A destruição do Arraial de Canudos


Soldados republicanos


O que restou da Igreja de Bom Jesus...


... e também da Igreja de Santo Antônio.


Conselheirista ferida na maca


Conselheirista preso, notem, em frangalhos,
o fardamentos dos soldados da República.


Flávio de Barros - fotógrafo do Exército
Museu da República

E a cidadela que, segundo o Exército, tinha 5.200 casebres, é incendiada e totalmente destruída. Cerca de 20 mil sertanejos são massacrados e prisioneiros de guerra, degolados. Além disso, estima-se que cerca de cinco mil militares morreram durante o conflito, que termina em 5 de outubro. O presidente Prudente de Morais elogia a campanha do Exército (Gazeta de Notícias, de 9 de outubro de 1897, na quarta coluna).

Mas tudo, no Brasil, sempre acaba em samba...

Samba Enredo

(1976)

Os Sertões

Em Cima da Hora

Marcado pela própria natureza,
O Nordeste do meu Brasil,
Oh! solitário sertão,
De sofrimento e solidão.
A terra é seca,
Mal se pode cultivar.
Morrem as plantas e foge o ar,
A vida é triste nesse lugar.

Sertanejo é forte,
Supera miséria sem fim,
Sertanejo homem forte,
Dizia o Poeta assim: (bis)

Foi no século passado,
No interior da Bahia,
O Homem revoltado com a sorte
do mundo em que vivia.
Ocultou-se no sertão,
espalhando a rebeldia.
Se revoltando contra a lei,
Que a sociedade oferecia.

Os Jagunços lutaram
Até o final,
Defendendo Canudos,
Naquela guerra fatal. (bis)


sábado, 24 de fevereiro de 2018

Tolerância Zero – Relembrando Seu Saraiva…



01 – Você está pescando quando alguém passa e questiona:

– Você pescou todos esses peixes?
– Não! Esses são peixes suicidas que se atiraram no balde!

02 – Você está em um ponto de parada de ônibus quando um amigo pergunta:

– O que você está fazendo aqui?
– Estou esperando o próximo metrô passar para ir pra casa

03 – Você está no caixa e tira um talão de cheques e o caixa olha e pergunta:

– Vai pagar em cheque?
– Não! Vou fazer um poema nessa folhinha!

04 – Você acaba de olhar no relógio e alguém te pergunta:

– Viu as horas?
– Imagina, estava assistindo  à novela!

05 – Você está indo com uma bola em direção ao campo quando alguém fala:

– Vai jogar?
– Não, vou estourar pipoca!

06 – Você pede para uma pessoa assinar um documento e ela diz:

– Assinar o meu nome?
– Não, assinar a fórmula de Báskara ou o que você quiser…

07 – Numa loja para comprar veneno para ratos:

– Tem veneno pra ratos?
– Tenho, sim senhor! Vai levar?
– Não! Vou trazer os ratos pra comerem aqui!

08 – Casal abraçadinho, entrando no barzinho romântico.

– Mesa para dois?
– Não, mesa para quatro, duas são pra colocar os pés.

09 – Sujeito no caixa do cinema.

– Quer uma entrada?
– Não, é que eu vi essa fila imensa e queria saber aonde ia chegar.

10 – Sujeito na praia, fumando um cigarro.

– Ora, ora! Mas você fuma?
– Não eu gosto de bronzear os pulmões também.

11 – Velhinha pergunta ao cobrador:

– Moço, como faço para ir ao cemitério Jardim da Saudade?
– Morra!

12 – Numa padaria:

– Padeiro, esse pão é de hoje?
– Não, é de trigo!

13 – Funcionário perguntando ao patrão:

– Vou ter folga nos dias dos jogos do Brasil na Copa?
– Por quê? Você foi convocado?

14 – Namorado pergunta à namorada:

– Qual será a posição sexual que mais gera crianças feias?
– Não sei, pergunta pra sua mãe!

15 – Numa pizzaria;

– Garçom, embrulha para eu levar!
– Pra viagem?
– Não, pra presente!

16 – Num supermercado, depois de uma compra imensa:

– Vai precisar de sacolas:
– Não, vou levar tudo no bolso!

17 – Senhor de idade na porta de um elevador no térreo:

– O senhor vai subir?
– Não, estou esperando o meu apartamento descer pra me pegar!

18 – Garota, alegre, dando uma boa notícia a um amigo:

– Entrei na faculdade, vou fazer Medicina!
– Vai ser médica?
– Não, vou ser revendedora Jequiti!

19 – Sujeito completamente careca encontra um amigo:

– Cortou o cabelo?
– Não, tirei todo ele para lavar!

20 – Pai falando com a filha pequena:

– Ô filha, será que a sua professora não desconfia que eu a ajudo nos temas de casa?
– Acho que sim, papai, ela falou que é impossível que eu cometa tantos erros sozinha!

21 – Sujeito, numa farmácia, falando com empregado de uniforme:

– Você trabalha aqui?
– Não, acordei cedo, saí de casa, coloquei esse uniforme porque é divertido!

22 – Namorado à namorada:

– Vamos ao cinema?
– Assistir a qual filme?
– Tubarões assassinos.
– Sobre o quê?
– Um cavalo que quer ser cantor!

23 – Velhinho, bem velhinho, falando uma velhinha, bem velhinha:

– Por que você  usa sutiã com esses peitos murchos e caídos?
– Pelo motivo que você usa cueca!

24 – Senhora numa parada de ônibus:

– Demorou, hei, motorista!
– Não sabia que tinha marcado encontro com a senhora!

25 – Mulher falando com um homem:

– Você tem um rosto tão lindo, por que não emagrece?
– E você tem uma língua tão grande, por que não a corta?

26 – Um caminhão tombado numa estrada:

– Foi acidente?
– Não! Meu caminhão estava cansado da viagem e resolveu deitar um pouquinho!

27 – Amigo falando com amigo:

– Cara, eu posso ser honesto com você?
– Não, eu prefiro que você não minta!

28 – Homem, defronte a sua casa, lavando seu carro:

– Lavando o carro?
– Não, estou regando pra ver se ele cresce e vira um ônibus!

29 – Mulher lavando a louça:

– Lavando os pratos?
– Não, estou fazendo carinhos nos pratos!

30 – Marido à mulher:

– Vamos ao cinema?
– Fazer o quê?
– Comprar carne!

31 – Dois conhecidos conversando:

−Ai, você gastou mais de mil reais nesse celular? Se fosse eu, guardava o dinheiro.
− Amigo, você não guarda nem sua opinião, vai querer guardar dinheiro?

32 − Senhor, na porta de um edifico, a um conhecido:

− Vai sair nesta chuva?
− Não, vou sair na próxima...

33 − Seu amigo liga para sua casa e pergunta:

− Onde você está?
− No Polo Norte! Um furacão levou a minha casa pra lá!

34 − Numa fila enorme para entrar num teatro, ao último da fila:

− É aqui o fim da fila?
− Não, aqui é o começo, é que estamos todos andando de costa...
  
35 −Sujeito caiu de cara no cimento duro de uma calçada:

− Caiu?
− Não! É que eu gosto de cheirar o cimento!



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

As marchinhas de Carnaval



As marchinhas de Carnaval adaptadas para o cenário político

Cante com a gente!

(Cabeleira do Zezé)

Olha o helicóptero do Zezé!
E o pó de quem é?
E o pó de quem é?

(Índio quer apito)

Ê ê ê ê ê
Para ser ministra
Vale até vídeo fazer.

(Cidade Maravilhosa)

Cidade mais perigosa,
Cheia de riscos mil,
Quem pega a Linha Amarela,
Leva um tiro de fuzil!

(Me dá um dinheiro aí)

Ei, você aí!
Me dá um dinheiro aí?
Me dá um dinheiro aí?
Não vou dar,
Não vou dar não,
Depois você me entrega,
Em delação.
Eu vou fugir, fugir até sumir.
Me dá, me dá, me dá, oi!
Me dá um dinheiro aí?

(Mamãe, eu quero)

Moro eu quero, Moro eu quero,
Moro, eu quero mamar!
Dá o auxílio pra moradia,
Dá o auxílio pro juiz não chorar.

(Você pensa que cachaça é água)
.
Você acha que São Paulo tem água,
São Paulo não tem água, não.
A água vem do Cantareira,
E o nível já voltou pro chão.

(Allah-lá-ô)

Alá lá ô, ooô, ooô,
Mas que caô, ooô, ooô.
Nós trabalhamos de carteira assinada,
Mas pra se aposentar
Só em idade avançada.

(A pipa do vovô)

O ibope do vovô não sobe mais,
O ibope do vovô não sobe mais;
Seis por cento é até muita coisa,
O vovô vai cair ainda mais.

(Ó jardineira)

Ô Luiz Inácio,
por que estás tão triste?
Mas o que foi que te aconteceu?
− Foi a turma do TRF-4,
Eles decidiram
Que o apê é meu.

(Ó abre alas)

Ô abre celas,
Que eu quero soltar,
Ô abre celas,
Que eu quero soltar,
O habeas-corpus
Eu não vou negar,
Sou do Supremo,
Eu sou o Gilmar.

(Taí)

(Pra você gostar de mim)

Jair,
Eu fiz tudo para tentar te ouvir,
Mas você só
Fala de corrupção.
Você tem?
Você tem?
Proposta pra educação?


Publicado em VEJA de 14 de fevereiro de 2018, edição nº 2569


O Monólogo do F


Texto de Ary Toledo

(Garçom chega a um freguês sentado à mesa.)


Garçom: − Que prazer ter o senhor de volta ao nosso restaurante!

Freguês: − Fala, figura fina!

G: − Não está me reconhecendo?

F: − Fisionomia... familiar...

G: − Eu sou o garçom Fernando, atendi o senhor há uns tempos aqui, é que agora engordei, me chamam de Fernandão, o cabelo também caiu...

F: − Foi fato. Ficou forte, fofão... floresta foi, ficaram fiozinhos fininhos e fracos fazendo figuração no forro.

G: − E o senhor, como está?

F: − Forte, firme, feliz e faminto!

G: − Há uma mesa vazia lá fora...

F: − Fora é frio, ficam os fumantes fazendo fumaceira forte, fico na frente, é fresquinho, faz favor...

G: − Seu nome é?

F: − Francisco Freire Fernão Fernaz Fernandes Figueira Furtado Franco Ferreira de Figueiredo Falcão, facinho de falar e fácil de fixar.

G: − Já escolheu o que vai comer?

F: − Favorito!

G: − Qual é o favorito?

F: − Filé de frango à francesa com fricassé de fubá, farofa, fritas, feijão, fatiazinha de fígado, frito com farinha fina na frigideira, fica finíssimo, falou, filhão!

G: − E pra beber?...

F: − Fisga no fundo do freezer uma fermentada fresquinha fazendo fumaça!

(Após trazer a cerveja, diz:)

G: − De férias aqui em Frutal, seu Francisco?

F: − Faturando o feijão dos filhos...

G: − E de braço engessado! O que foi? Acidente de carro?

F: − Foi.

G: − Onde?

F: − Friburgo.

G: − Como foi?

F: − Fresco num FIAT fedorento, fuleiro, feio, ferrugento, fazendo frescura frente ao footing, falhou o freio, findou de frente na fronte de um fusca, o fusca me fechando, fiquei fora da faixa, furei o farol fechado, fui de frente a um furgão.

G: − Porrada violenta!

F: − Felizmente foi fraco. O furgão ficou fixo e fervendo à fricção, fui freando. Fiz uns ferimentozinhos, feri a fronte, a face e fraturei a falange.

G: −Tá cheio de assinatura aí no gesso, de quem é?

F: − Filhos!

G: − (Espertamente) Quantos filhos o senhor têm?

F: − (Pensativo) Five! Fabinho, Flávio, Fernando, Fátima e Fabiana!

G: − A Fabiana! Sua filha mais velha estava estudando, já se formou?

F: − Formou! Fez faculdade em Friburgo, formou-se em Filosofia. Fiz festa de formatura fantástica! Fabiana ficou feliz.

G: − Ela até ajudava o senhor na sua indústria aqui não é? O senhor não tem uma indústria?

F: − Fabriquinha...

G: − De que era mesmo?

F: − Fundição. Fazia forno de flandres, ferrete, ferradura, ferrolho, fechadura, faca, foice, facão, fivela, funil, formão, fieira, fio farpado, fabricava ferramentas fundidas em ferro forjado.

G: − Ainda tem a fábrica?

F: − Fechei...

G: − Por quê?

F: − Faliu... faltou financiamento... fator financeiro foi fundamental. Fora fiscais federais fazendo fiscalização feroz... Fornecedores falhando, funcionários ficando em férias forçadas, faturamento fraquíssimo... o ferro ficou faltando. Fui à falência! Foi feio o fracasso e fui forçado a fechar a firma...

G: − E agora o senhor trabalha em quê?

F: − Faço feiras e festas! Feriadão de finados fui a Fortaleza, fiz a festa das felinas, foi formidável. Fui a Florianópolis, fiz o Festival do Figo em Floripa. Fui a Franca fazer a famosa feira Francal. Finalmente, fui fiscal nas firmas franqueadas da feira filantrópica de fomento à fundição de Frutal.

G: − O senhor está morando aqui em Frutal?

F: − A fim de facilitar Fabiana, fixei-me em Friburgo.

G:  − Facilitar o quê?

F: − Fica focado, Fernando! Fósforo, fosfato fixa, filho. Eu falei! Faculdade Filosofia Fabiana fazia, Friburgo fiquei.

G: − Onde tem aquele time fazendo sucesso no Carioca?

F: − Friburguense!

G: − Torce pra ele?

F: − Falhou Feio! Futebol, Flamengo, fiquei fã fanático e fervoroso!

G: − Tá mal o time, né?

F: − Fase! Flamengão na final não falha! Na finalíssima é fogo. Fica feito furacão, faz a felicidade da família flamenguista fazendo fla-flu final. Faz a faixa fácil! Fluminense é freguês. Fazendo futebol fajuto, feio, fraquinho, fica fora facilmente fazendo figuração. Flamengão flamejante faz a festa final!

G: − Por falar em festa, teve festa aqui semana passada... O senhor foi?

F: − Fui. Festa à fantasia, fiquei fascinado! Fêmeas fantásticas, Fernandão, fiquei flertando...

G: − Mas o senhor não é casado?

F: − Fui!

G: − E a esposa, dona...

F: − Filomena. Faleceu. Fevereiro

G: − De quê?

F: − Fumo.

G: − Pulmão?

F: − Faringe.

G: − Enfisema?

F: − Fibrose.

G: − Fumava muito?

F: − Famigeradamente!

G: − Por que não falava para ela parar?

F: − Falava frequentemente. Fumante é fogo! Falar que fumo é fatal fica uma fera. Falava: Filó, fumo fissura a faringe, forma fibrose. Filó não fazia fé no que eu falava, fumava feito fornalha, Fernando. Foi um flagelo! Foi ficando fina, fragilizada, fininha, frequentemente febril, foi ficando em frangalhos, foi fatal, faleceu. Fiz um funeral à falecida, familiar fechado, foi uma fatalidade, fico falando de Filozinha, fico na fossa, Fernando!

G: − O senhor perdeu uma grande esposa, é natural...

F: − Foi. Filó foi figura fantástica, forte, firme, fiel, fissurada nos filhos, fêmea de fibra. Fernando, faz falta a falecida...

G: − Vamos mudar de assunto... agora que já almoçou... a sobremesa?

F: − Frutas frescas: Figo, framboesa flambada... fica finíssimo.

G: − Perfeitamente... depois, vou trazer um cafezinho da hora.

F: − Falou, Fernandão.

(Após o café:)

G: − Que tal?

F: − Formidável! Fresquinho, forte e fervendo. Não ficou o famoso fraco fedido e fino, feio e fedorento, feito em filtro furado, no fundo formiga fazendo festa fazendo freguês ficar furioso.

G: − Seu Francisco, para encerrar, o senhor fala tudo com efe, é impressionante sua facilidade!

F: − Fato a facilidade, falar em fé fichinha, falo fluentemente sem fazer força, forma de falar, frases fluem facilmente, fico falando de farra.

G: − Então, eu proponho um desafio: se o senhor falar quinze palavras com f sobre o almoço, não precisa pagar a conta.

F: − Feito: Filé de frango à francesa fatiado em fatias finas, fritando na frigideira, ficando fiado, fico feliz, freguês é fiel...

G: − Se ferrou! Eu contei, só deu 14!

F: − Foda-se!

(E se foi.)


A roupa faz a diferença?



Sem maiores preocupações com o vestir, o médico conversava descontraidamente com o enfermeiro e o motorista da ambulância, quando uma senhora elegante chega e, de forma ríspida, pergunta:

− Vocês sabem onde está o médico do hospital?

Com tranquilidade, o médico respondeu:

− Boa tarde, senhora! Em que posso ser útil?

E ela, ríspida, retorquiu:

− Será que o senhor é surdo? Não ouviu que estou procurando pelo médico?

Mantendo-se calmo, ele contestou:

− Boa tarde, senhora! O médico sou eu, em que posso ajudá-la?!

− Como?! O senhor?! Com essa roupa?!...

− Ah, Senhora! Desculpe-me! Pensei que a senhora estivesse procurando um médico e não uma vestimenta...

− Oh! Desculpe, doutor! Boa tarde! É que... Vestido assim, o senhor nem parece um médico...

− Veja bem, minha senhora, como são as coisas... − disse o médico − as vestes parece não dizer muitas verdades sobre as pessoas, pois quando a vi chegando, tão bem vestida, tão elegante, pensei que a senhora fosse sorrir educadamente para todos e depois daria um simpaticíssimo “boa tarde!”; após isso perguntaria pelo médico, como se vê, as roupas nem sempre dizem muito sobre a educação das pessoas...

*****

Um dos mais belos trajes da alma é a educação; sabemos que a roupa faz a diferença, mas o que não podemos negar é que a falta de educação, a arrogância, a falta de humildade, e pessoas que se julgam donas do mundo e da verdade, grosseria e outras “qualidades” derrubam qualquer vestimenta. Basta, às vezes, apenas cinco minutos de conversa para que o ouro da vestimenta se transforme em barro. Educação é tudo! Sorria Sempre... A vida é feita de agir, reagir, corrigir, mas o melhor mesmo é “sorrir”. Sorria sempre! A vida com bons modos e educação fica mais bela!

Desta vida nada se leva... Só se deixa! Então, deixo-lhe o meu melhor: Meu melhor sorriso, meu maior abraço, minha melhor história, minha melhor intenção, toda minha compreensão e, do meu amor, a maior porção. Só quero ficar na memória de alguém como outro alguém que era do bem!


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Café de chaleira


Raul Annes Gonçalves


Quatro gaúchos, desde a madrugada, troteavam estrada afora com um lote de cavalos por diante. Às nove horas acamparam junto a uma sanga, onde havia algumas árvores, para tomarem café e mudarem de cavalo.

Improvisaram uma forma contra um aramado e pegaram os cavalos para muda. Fizeram fogo e puseram as chicolateiras com água para esquentar. Depois, desencilharam os montados, tirando das malas de garupa o café, as bolachas e o açúcar.

Naquele tempo o café era composto, isto é, com açúcar dava uma tintura preta com um forte e agradável cheiro. Em geral, os tropeiros costumavam dividir as obrigações do fogão entre si. A um tocava fazer café, outro era o assador de carne; a um terceiro cabia fazer e encher o mate, a outro, a responsabilidade de juntar lenha; desta maneira tornava-se fácil e até mesmo divertido o trabalho.

O encarregado de fazer café naquela manhã, assim que ferveu uma das chicolateiras, a retirou do fogo e despejou dentro dela duas colheres de café em pó. Mexeu-o bem com a ponta da faca até dissolver todo; depois tornou a pôr a chicolateira no fogo. Quando levantou nova fervura, deixou que transbordasse um pouco do líquido pela beira da vasilha. Em seguida, retirou-a do fogo e meteu um tição aceso dentro do café, que provocou nova ebulição. Ali o manteve por segundos.

Isso feito, com as costas da faca, deu algumas pancadinhas por fora, na chicolateira. Estava pronto o café. Quando não há tição, por exemplo, em fogo de gravetos, ou em zona que existe lenha e o fogo é feito com corunilha, isto é, esterco seco de gado, nestes casos, pondo água fria na fervura do café, ajuda a sentar a borra.

Feito o café em chicolateiras ou cambonas, ficava à disposição dos tropeiros. Estes serviam-se despejando o café em seus canecos alouçados ou guampas onde botavam açúcar a seu contento.

Depois de servidos, com uma bolacha na mão e o copo de café na outra, sentavam nos arreios ou nos pelegos dobrados, às vezes colocados em cima de uma caveira de vaca, já limpa pelo tempo, ou de alguma pedra, fazendo às vezes de banco. Alguns preferiam ficar acocorados nos “garrões”, como é hábito entre nosso homem do campo, e, assim acomodados, tomavam tranquilamente, o café da manhã.

Finda esta ligeira refeição, lavavam os copos e guardavam na mala de garupa o açúcar, bolacha e o café em pó. A sobra do café nas cambonas era posto fora e as vasilhas bem lavadas na sanga. Estas mesmas chicolateiras ou cambonas serviam para, ao meio-dia, aquentar a água para o amargo, como também para preparar a salmoura para o assado. Levantando o acampamento, os tropeiros seguiam a trote chasqueiro, estrada afora, pitando um crioulo.

Os gaúchos viajavam dias, fazendo 10 a 15 léguas diárias sem se aborrecerem. Nem se davam conta do tempo perdido nestas jornadas. Para eles a questão do tempo era indiferente; depois de um dia vinha outro; o importante, sim, era o serviço que estavam incumbidos de fazer.

Do livro “Mala de Garupa – Costumes Campeiros”,
de Raul Annes Gonçalves”. Martins Livreiro Editor. 1999.

Vocabulário Gaúcho do texto:

Cambona → Pava* – recipiente que serve para aquecer líquidos.


Chicolateira → Pava ou recipiente (obra de funileiro) que serve para aquecer líquidos. Figura abaixo:


*Pava → É recipiente onde se verte em cima água quente proveniente de um recipiente esquentado ao fogo denominado “pava” (chaleira).

Garrões → Tornozelos.


Mala de garupa → Estas peças da indumentária campeira se chamam “mala de garupa”, porque originalmente eram colocadas sobre o lombo do cavalo. Eram feitas em couro, e o seu nome era “peçuelos”.

Pitar um crioulo → Fazer um cigarro de palha com fumo picado.

Chasqueiro → Diz-se do trote largo e incômodo dos cavalos.

Sanga → Pequeno curso d’água menor que um regato ou arroio.