quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Pílulas de sabedoria

O contrabando misterioso


Numa fábula de Nasreddin, ele atravessa a fronteira todos os dias com mulas carregadas de sacos. Cada vez, os sacos são revistados, mas não se encontra nada. Nasreddin continua a passar a fronteira com suas mulas. Muito tempo depois, alguém lhe pergunta o que contrabandeava. Nasreddin responde: “Mulas”.

Ser Mãe...


Caminhava com a minha filha de 4 anos, quando ela apanhou qualquer coisa do chão e ia pôr na boca. Expliquei a ela para nunca fazer isso.

- Mas por quê? - perguntou ela. - Respondi que se estava no chão estava sujo, cheio de micróbios que causam doenças.

Nesse momento, minha filha olhou-me com admiração e perguntou:

- Mamãe, como você sabe tudo isso? Você é tão inteligente!

Rapidamente, refleti e respondi-lhe:

- Todas as mamães sabem essas coisas. Quando alguém quer ser mamãe, tem que fazer um grande teste e tem que saber todas estas coisas, senão, não pode ser mãe.

Caminhamos em silêncio cerca de 2, 3 minutos. Vi que ela pensava ainda sobre o assunto e, de repente, disse:

- Ah, já entendi. Se você não passasse no teste, você seria o papai!

- Exatamente! - respondi com um enorme sorriso...

Velhinha esquecida
  
  
Um guarda de trânsito deteve uma senhora de idade avançada e disse:

- Senhora! Você ia em excesso de velocidade! Sabia?

A mulher se livrou da multa quando respondeu:

- Eu sei! É que tenho que chegar antes que eu me esqueça aonde eu vou!

Poesia Geométrica


Nesta divertida brincadeira com a Língua Portuguesa e a Geometria, Millôr Fernandes conta a história de amor ousada entre três figuras geométricas que desafiam as normas da sociedade. Será que o amor pode ser imoral?


Pontudo poliedro
Ao entrar numa equação
Encontrou um romboide exemplar
De ângulos sem par
E negra simetria linear.
“Eureka!”, estremeceu,
“Arquimedes,
Não me enredes!”
“Newton, me ajuda de verdade
Que perco a gravidade!”
Doido negreiro,
Roçou o seu cateto
Nas quinas do parceiro
E, ao se sentir enorme,
Disse baixinho, ao preto:
“Meu Deus, que cuneiforme!”
“Sou teu isógono”,
Disse o Romboide, lacônico,
“Mas pode me chamar de risogônico.”
E os dois se propuseram

E + MC2 – 3,1416(24) x 69   ou seja,
______________________
             477 a 15

Um teorema disforme
Com carícias ardentes
“Um amor trapeziforme
Bissectando linhas confluentes.”

Neste instante, porém, surgiu o Heptaedro,

Que, com olhar oblíquo,
Gargalhou a verdade pendular:
“Somos todos heterógonos
Isto é um triângulo sexangular!”
E cheio de apetite
Propôs uma unidade tripartite.

Mas a repressão é coisa séria:
Elementos cheios de hidrostática
Saltaram da quarta-matéria
E, com força Kinética,
Atacaram a proposta sexo-estética:
“Prendam esse trio amoral
Poligonal
Por movimentos secantes
Revoltantes,
Gestos esféricos
Histéricos,
E atitudes cotangentes
Indecentes!
E não venham com lérias
Galileu já falava
Da excrescência das matérias”.

“Amado Poliedro”, gemeu o Romboide,
“Essas figuras obtusas
Vão nos meter na hipotenusa!”
“Comigo aqui”,
Disse Poli
“Ninguém te fará mal, reto ou oblíquo!”
E, com socos ubíquos
Nos críticos
Golpes elípticos
Em moelas
Pernadas paralelas
Em deltoides
E pontapés ovoides
Em umbigos,
Se pôs a derrubar os inimigos.

E a força de tal paixão
Atraiu num instante
A patrulha angular policitante
Que transformou os atacantes numa nuvem etérea
Com alguns rojões de antimatéria.

E nossa história se encerra
Com a vitória do Amor-Verdade
Que não explode
A população da Terra.

Millôr Fernandes, em VEJA, junho de 1976.

  
Millôr Fernandes por Fraga
  
Millôr Fernandes nasceu em 1923 no Rio de Janeiro, cidade onde viveu e trabalhou até pouco antes de morrer, em 2012. Desenhista de impressionante variedade estilística, foi ainda escritor, jornalista, dramaturgo e tradutor, tornando-se referência em todas as áreas que atuou.


quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Cinco por cento




Tínhamos uma aula de Fisiologia na escola de medicina logo após a semana da Pátria. Como a maioria dos alunos havia viajado aproveitando o feriado prolongado, todos estavam ansiosos para contar as novidades aos colegas e a excitação era geral.

 Um velho professor entrou na sala e imediatamente percebeu que iria ter trabalho para conseguir silêncio. Com grande dose de paciência tentou começar a aula, mas você acha que minha turma correspondeu? Que nada. Com um certo constrangimento, o professor tornou a pedir silêncio educadamente. Não adiantou, ignoramos a solicitação e continuamos firmes na conversa. Foi aí que o velho professor perdeu a paciência e deu a maior bronca que eu já presenciei.

- Prestem atenção porque eu vou falar isso uma única vez, disse, levantando a voz e um silêncio carregado de culpa se instalou em toda a sala e o professor continuou. Desde que comecei a lecionar, isso já faz muito anos, descobri que nós, professores, trabalhamos apenas 5% dos alunos de uma turma.

Em todos esses anos observei que de cada cem alunos, apenas cinco são realmente aqueles que fazem alguma diferença no futuro; apenas cinco se tornam profissionais brilhantes e contribuem de forma significativa para melhorar a qualidade de vida das pessoas. Os outros 95% servem apenas para fazer volume; são medíocres e passam pela vida sem deixar nada de útil.

(O interessante é que esta percentagem vale para todo o mundo.)

Se vocês prestarem atenção notarão que de cem professores, apenas cinco são aqueles que fazem a diferença; de cem garçons, apenas cinco são excelentes; de cem motoristas de táxi, apenas cinco são verdadeiros profissionais; e podemos generalizar ainda mais: de cem pessoas, apenas cinco são verdadeiramente especiais.

É uma pena muito grande não termos como separar estes 5% do resto, pois se isso fosse possível, eu deixaria apenas os alunos especiais nesta sala e colocaria os demais para fora, então teria o silêncio necessário para dar uma boa aula e dormiria tranquilo sabendo ter investido nos melhores. Mas, infelizmente não há como saber quais de vocês são estes alunos. Só o tempo é capaz de mostrar isso.

Portanto, terei de me conformar e tentar dar uma aula para os alunos especiais, apesar da confusão que estará sendo feita pelo resto. Claro que cada um de vocês sempre pode escolher a qual grupo pertencerá. Obrigado pela atenção e vamos à aula de hoje.

Nem preciso dizer o silêncio que ficou na sala e o nível de atenção que o professor conseguiu após aquele discurso. Aliás, a bronca tocou fundo em todos nós, pois minha turma teve um comportamento exemplar em todas as aulas de Fisiologia durante todo o semestre; afinal quem gostaria de espontaneamente ser classificado como fazendo parte do resto?

Hoje não me lembro muita coisa das aulas de Fisiologia, mas a bronca do professor eu nunca mais esqueci. Para mim, aquele professor foi um dos 5% que fizeram a diferença em minha vida. De fato, percebi que ele tinha razão e, desde então, tenho feito de tudo para ficar sempre no grupo dos 5%, mas, como ele disse, não há como saber se estamos indo bem ou não; só o tempo dirá a que grupo pertencemos. Contudo, uma coisa é certa: se não tentarmos ser especiais em tudo que fazemos, se não tentarmos fazer tudo o melhor possível, seguramente sobraremos na turma do resto.

Autor desconhecido

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Um artista teuto-brasileiro

Ernest Zeuner

(1895-1967)


→ Nascido em Zwickau, nas proximidades da fronteira alemã com a República Tcheca, em 13 de agosto de 1895, Zeuner formou-se na Academia de Artes Gráficas de Leipzig. O artista deixou a Alemanha depois da Primeira Guerra Mundial, radicando-se em Porto Alegre.

→ Em 22 de outubro de 1922 foi contratado pela Livraria do Globo, como responsável pelo atelier de artes gráficas. Ali trabalhou por quase quatro décadas, de 1922 a 1960, sendo responsável, entre outras, pela capa do primeiro livro de Érico Veríssimo, “Viagem à aurora do mundo”, e de “As aventuras de Tibicuera”, este premiado pelo Ministério da Educação e Cultura.


A ilustração de Ernest Zeuner (1895-1967)

→ Ernest Zeuner foi um pintor, desenhista e ilustrador alemão, radicado no Brasil. Zeuner estudou na Academia de Artes Gráficas de Leipzig e veio para o Brasil em 1922, mais especificamente, para Porto Alegre, onde realizou um trabalho de orientação e formação de muitos artistas gráficos gaúchos.


Supermercado por Ernest Zeuner


Chegada dos alemães a São Leopoldo

→ Deslocado do centro da tela, um pouco para a esquerda, está, imponente em seu cavalo branco, um homem tipicamente trajado. Chapéu de aba larga, poncho e lenço branco no pescoço. Possivelmente seja José Tomás de Lima, o inspetor da Feitoria do Linho Cânhamo, recebendo o primeiro grupo de colonos alemães, recém chegados de Porto Alegre via rio dos Sinos. Tomás de Lima parece entender pouco o que gesticulam dois homens a frente de um pequeno grupo enquanto outro grupo, de mulheres e crianças, observa tudo mais afastado.

→ No rio, dois lanchões, um deles com as velas ainda içadas, aguardam para desembarcar enquanto um escravo se aproxima da margem com um terceiro barco. Em segundo plano, ao fundo, quase despercebida, uma carroça aguarda o carregamento dos pertences dos colonos, que serão enviados ao seu destino final depois de tão longa viagem, uma antiga senzala, rapidamente desocupada para a acomodação dos colonos.

→ A tela de Ernest Zeuner é o mais conhecido registro artístico da chegada dos colonos alemães a São Leopoldo, principalmente porque estampou a capa de uma das mais famosas obras sobre a imigração alemã, o livro do historiador gaúcho Carlos Henrique Hunsche. Zeuner não estava lá, nem viveu à época da imigração, mas a cena pintada magistralmente a óleo parece muito com o que realmente poderia se esperar daquele julho de 1824. Salvo a riqueza das roupas dos colonos; é mais provável que fossem velhos trapos do que jaquetões de corte fino.

→ A tela original, no tamanho trinta por quarenta centímetros, e uma reprodução com o dobro do tamanho, estão expostas no saguão de entrada do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, no vale dos Sinos. O quadro original do artista foi doado ao museu por Maria Luiza Gottschald Schmmeling.

→ Procurado para executar trabalhos particulares, desenhou órgãos do corpo humano para a Faculdade de Medicina de Porto Alegre, desenhos de embalagens para ovos de Páscoa e chocolates para a Neugebauer, desenhou também para a Fogões Geral e para Varig; desenhou para loterias, selos de impostos, bônus, desenhos técnicos, cartões, calendários e ilustrações para enciclopédias.

→ Teve destacado papel no desenvolvimento das artes gráficas no Rio Grande do Sul. Formou na Livraria do Globo uma verdadeira escola de artistas. Passaram por sua “escola” nomes como Edgar Koetz, João Mottini, Vitório Gheno, João Fahrion, João Faria Viana, entre outros conhecidos no Brasil e exterior.

→ Zeuner morreu em Porto Alegre, em 1967, aos 72 anos de idade.

Por Rodrigo Trespach


segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Nossa Senhora dos Navegantes



Foto de Celito Brugnara

Ave, Maria, que passas
cheia de graça levada nos braços
das gentes cantando louvores
às graças que vais alcançando,
no passar da vida,
na corredeira do existir.

Ave, Maria, que trazes nas redes
a bênção do alimento
e nas mãos a carícia das águas
por onde desliza
tua imagem suave como a luz
− tão leve − do amanhecer.

Ave, Maria, que acolhes
os joelhos feridos,
os pés descalços,
as rezas pungentes,
as crianças vestidas de anjo,
a fé inabalável,
os barcos enfeitados,
as bandeiras de todas as cores,
os navios apitando,
o choro comovido e sincero,
a velha senhora que veio de longe
agradecer a cura do netinho doente.

Ave, Maria,
Maria do porto,
Maria das flores,
Maria das frutas,
Maria dos peixes,
Maria das águas,
Maria dos barcos,
Maria dos pescadores,
Maria dos marinheiros,
Maria de toda a gente!

Mãe de Jesus,
rogai por nós todos navegantes,
deste rio da vida,
de onde ascendemos
e para o fundo do qual,
um dia, voltaremos.
Ave, Maria!
Nossa Mãe.
Abraça o teu filho:
João Antônio Pereira.*

(22.12.2013)

*o autor do poema

A passagem de Saint-Exupéry pelo Rio Grande do Sul



O homem que escreveu um dos livros mais vendidos do mundo, Antonie de Saint-Exupéry, autor de O Pequeno Príncipe, teria vindo ao Rio Grande do Sul. Mais que isso: teria trabalhado aqui, passeado, tomado banho no rio Gravataí e − para orgulho dos mais bairristas − até saboreado um churrasco gaúcho.

As evidências da passagem do escritor pelo Estado começam a ser descobertas por um estudo que pretende colocar o Estado no mapa do patrimônio material e imaterial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). O projeto, coordenado pela Fundação Latécoère, quer restaurar as primeiras escalas de voo no Brasil, que por aqui ficavam em Porto Alegre e Pelotas.

E Saint-Exupéry acaba aparecendo porque fora o trabalho nas letras, também era piloto e utilizaria essas pistas entre 1929 e 1931, período em que viveu em Buenos Aires. Não transportava gente, mas cartas da Europa para a América do Sul. Os aviões, ainda precários, não conseguiam percorrer longas distâncias, viviam quebrando e precisavam ir fazendo muitas paradas. Por isso, ele faria pousos periódicos nas cidades gaúchas. Os jornais da época alardeavam o feito dos “aparelhos possantes” que tinham feito viagem de Pelotas a Montevidéu em 3h40min. O mesmo trajeto hoje leva 40 minutos.

Atualmente, a parada de pouso em Pelotas, que contava com uma pista, oficina mecânica e uma casa, já não pode ser reconhecida. Ao invés disso, se amontoam lixo, laranjas podres, madeiras, porcos e cavalos de criação, onde hoje é erguida a casa de Luís Fernando Oliveira, 36 anos. O que era para ser um vão para guardar peças de aviões se transformou em uma piscina de água preta e parada.

− Já ouvi falar que era uma pista. Ainda tem um resto de concreto aqui − aponta no meio do mato, enquanto seus cães fuçam na sujeira em volta.

Mônica Cristina Corrêa, doutora em literatura comparada Brasil-França e pesquisadora da Fundação Latécoère, que está fazendo o levantamento dos locais onde passavam os pilotos franceses no Brasil, visitou o local e se espantou:
 
− É uma lástima que a memória seja tratada assim. Esse é um lugar histórico, há um livro de um mecânico que narra quando Exupéry teve que voltar à base por um defeito técnico, comprovando a presença dele em Pelotas.

Fora essa evidência, também se fala que havia a proposta de colocar o nome do aeroporto de Pelotas de Saint-Exupéry por sua ligação com a terra do doce. Agora, estudiosos buscam mais detalhes:

− Pedimos para que fossem abertos os livros do aeroclube, onde haveria assinatura dele e também estamos buscando relatos de moradores antigos − afirma o memorialista Ramão Costa.

Em Porto Alegre, a pesquisa deve começar no segundo semestre. A única pista da passagem de Exupéry vinha na obra Voos noturnos, em que ele citava o município. “Havia brumas para os lados de Porto Alegre”, escreveu.

Mas a possível confirmação chegou pelo testemunho do jornalista, escritor e advogado Nilo Ruschel, no livro Rua da Praia. Ele escreveu ter visto o francês tomando uma hidrolitol, espécie de refrigerante, nos cafés da Rua dos Andradas.

Nesse tempo, sequer tinha lançado sua obra prima e era reconhecido na cidade “pelos casacos de couro que os aviadores, e só eles, então vestiam”, descreveu. Ruschel deixou registrado que os aviadores foram a um assado na zona sul da Capital e deu seu palpite pessoal: “Oh, Saint-Exupéry adorava o céu de Porto Alegre, e Mermoz (outro piloto), as mulheres!”.

(Do jornal ZH, março de 2014)

domingo, 24 de fevereiro de 2019

Momentos da vida



Momentos bons, lindos e vividos,
saudades de tudo e de todos,
lembranças de ontem e de hoje,
passado, presente, futuro,
vidas vividas...
felicidade sentida...
são coisas que fazem parte da Vida!

Rauny Joe

Há dias tão lindos.
Há momentos tão simples.
O que nos move é essa sensação,
de sentir que alguém que se importa,
e gosta da gente de verdade.

Patty Vicensotti

Podemos prometer atos,
mas não podemos prometer sentimentos.
Atos são pássaros engaiolados.
Sentimentos são pássaros em voo.

Rubem Alves

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

Mario Quintana

O correr da vida embrulha tudo.
A vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem…

Guimarães Rosa

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam.
Para aqueles que buscam e tentam sempre.

Clarice Lispector

Se sou amado,
Quanto mais amado
Mais correspondo ao amor.
Se sou esquecido,
Devo esquecer também,
Pois amor é feito espelho:
Tem que ter reflexo.

Pablo Neruda

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão…
Eu passarinho!

Mario Quintana



sábado, 23 de fevereiro de 2019

Histórias de Almanaque



Amor à pele...

− Puxe por aqui! − bradou o coronel Cazuza ao João Barbeiro, encontrando este em namoro com a filha. Suma-se da minha vista!

− Mas, coronel, eu tenho boas intenções...

− Ora boas intenções! Então você pensa que eu vou casar minha filha com um barbeiro? Puxe!

O rapaz não era de brigas: meteu a viola no saco, e foi-se embora.

Passaram-se tempos.

Um dia, o velho Cazuza estava sendo barbeado, e a navalha deslizava-lhe pela altura do gogó, quando o barbeiro lhe disse:

− O coronel parece que não quer casar as filhas...

O velho esbugalhou os olhos, reconhecendo o antigo pretendente repelido. E com um sorrisozinho amarelo:

− Que diabo! Também você não aparece...

A vocação vem de berço.

A maior preocupação que assaltava a mente do pai amantíssimo era definir o futuro de seu filho, um menino de nove anos, do qual queria fazer um grande cidadão, orgulho da família. E, depois de estudar vários projetos, decidiu-se por um simples e prático, que lhe permitiria estabelecer quais eram as verdadeiras inclinações do garoto e qual poderia ser a sua futura atividade de homem.

- Verás, - disse à sua mulher - tenho uma ideia excelente para saber quais são as aptidões do nosso filho. E agora mesmo faremos a experiência, antes que venha do colégio.

E, ato contínuo, tomou as providências que o caso requeria. Sobre a mesa da sala de jantar, pôs uma nota de cem cruzeiros, uma garrafa de uísque e uma Bíblia.

- Agora, - explicou à sua esposa - vamos nos esconder para ver o que faz o nosso filho diante destes objetos, sem que ele nos veja. Sua curiosidade será atraída pelas três coisas que deixo sobre a mesa. Fatalmente escolherá uma, e essa decisão nos permitirá estabelecer a inclinação de nosso filho, que certamente será a que influirá poderosamente sobre o seu futuro.

Momentos mais tarde apareceu o menino no corredor. Aproximou-se da mesa, sem suspeitar que estava sendo vigiado. Olhou com curiosidade para as três coisas, tomou nas mãos a nota de cem cruzeiros, olhou-a contra a luz e tornou a deixá-la sobre a mesa. Em seguida, segurou a Bíblia e folheou-a rapidamente, colocando-a logo depois no mesmo lugar onde estava. A seguir, pegou a garrafa, olhou a etiqueta, desarrolhou-a e aspirou com prazer o cheiro do uísque. Depois tapou a garrafa, meteu-a de baixo do braço; pegou anota de cem cruzeiros e enfiou-a no bolso; segurou com a outra mão a Bíblia e a colocou debaixo do outro braço e, assim carregando, com a garrafa, a Bíblia e as cem pratas, abandonou a sala de jantar.

O pai olhou para a mãe com assombro, e deixando-se cair sobre uma cadeira de braços, exclamou:

- Deus dos Céus! Estamos fritos! O nosso filho vai ser político!...

(In, Almanaque do Barão de Itararé, 2° semestre de 1955)

Pequenas reflexões



Primeira história

Um garoto segurava em suas mãos duas maçãs. Seu pai se aproximou e lhe pediu com um belo sorriso:

− Filho, você poderia dar uma de suas belas maçãs para o papai?

O menino levantou os olhos para seu pai durante alguns segundos, e morde subitamente uma das maçãs e logo em seguida a outra. O pai sente seu rosto se esfriar e perde o sorriso. Ele tenta não mostrar sua profunda decepção, quando seu filho lhe dá uma de suas maçãs mordidas. O pequeno olha para seu pai com um sorriso de anjo e fala pra ele:

− Essa aqui é mais doce, papai!

Retarde sempre seu julgamento sobre as pessoas. Dê aos outros o privilégio de poder explicar, mesmo que a ação pareça errada, o motivo pode ser bom.

*****

Segunda história

Esta é uma história de um homem que contratou um carpinteiro para ajudar a arrumar algumas coisas na sua fazenda.

O primeiro dia do carpinteiro foi bem difícil. O pneu do seu carro furou, a serra elétrica quebrou, cortou o dedo, e ao final do dia o seu carro não funcionou.

O homem que contratou o carpinteiro ofereceu uma carona para casa.

Durante o caminho, o carpinteiro não falou nada.

Quando chegaram à sua casa, o carpinteiro convidou o homem para entrar e conhecer a sua família.

Quando os dois homens estavam caminhando para a porta da frente, o carpinteiro parou junto a uma pequena árvore e gentilmente tocou as pontas dos galhos com as duas mãos.

Depois de abrir a porta da sua casa, o carpinteiro transformou­-se.

Os traços tensos do seu rosto transformaram-­se em um grande sorriso, e ele abraçou os seus filhos e beijou a sua esposa.

Um pouco mais tarde, o carpinteiro acompanhou a sua visita até o carro.

Assim que eles passaram pela árvore, o homem perguntou:

– Por que você tocou na planta antes de entrar em casa?

O carpinteiro respondeu:

– Ah! Esta é a minha Árvore dos Problemas. Eu sei que não posso evitar ter problemas no meu trabalho, mas estes problemas não devem chegar até os meus filhos e minha esposa. Então, toda noite, eu deixo os meus problemas nesta árvore quando chego em casa, e os pego no dia seguinte; e você quer saber de uma coisa? Toda manhã, quando eu volto para buscar os meus problemas, eles não são nem metade do que eu me lembro de ter deixado na noite anterior.

*****

Terceira história

Um jovem descrente, desejando testar o conhecimento de um sábio, ergueu o punho fechado na frente do homem venerado.

− O que tenho em minha mão?  − perguntou o jovem.

− Uma borboleta, foi a resposta.

− Está viva ou morta? − inquiriu o rapaz.

O ancião sabia que o jovem estava brincando com ele. Se respondesse morta, o jovem abriria a mão e deixaria a borboleta voar. Se respondesse viva, o rapaz fecharia a mão e esmagaria a criatura. Então respondeu:

− Está em suas mãos – fazer aquilo que deseja com ela.

*****

Quarta história

Um velho morava em uma cidadezinha do interior, e todos ali estavam muito cansados dele. Ele estava constantemente fechado, mal-humorado e só se queixava. Quanto mais tempo ele vivia, mais amargo ficava, e suas palavras eram terríveis. Ninguém queria ouvi-lo. Na verdade, o que todos faziam mesmo era evitá-lo, porque ninguém queria para si aquele sentimento de infelicidade.

Mas um dia, quando ele chegou aos oitenta anos, algo incrível aconteceu. Instantaneamente todos começaram a ouvir um rumor e comentar: “O velho está feliz hoje, ele não se queixa de nada, sorri, e até mesmo seu semblante mudou, com uma aparência mais leve”.

Toda a aldeia se reuniu ao redor do homem e perguntou-lhe: “O que aconteceu com você?”.

O velho respondeu: “Nada de especial. Passei oitenta anos da minha vida correndo atrás da felicidade e agora vejo o quanto isso foi inútil. E, então, eu decidi viver sem felicidade e simplesmente aproveitar a vida. É por isso que estou feliz agora”.

Quinta história

Conta uma popular lenda do Oriente que um jovem chegou à beira de um oásis junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:

– Que tipo de pessoa vive neste lugar?

– Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem? – perguntou por sua vez o ancião.

– Oh, um grupo de egoístas e malvados – replicou o rapaz – estou satisfeito de haver saído de lá.

– A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui – replicou o velho.

No mesmo dia, um outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:

– Que tipo de pessoa vive por aqui?

O velho respondeu com a mesma pergunta:

– Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?

O rapaz respondeu:

– Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las.

– O mesmo encontrará por aqui – respondeu o ancião.

Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho:

– Como é possível dar respostas tão diferente à mesma pergunta?

Ao que o velho respondeu:

– Cada um carrega no seu coração o ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui, porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto.

Sexta história

Era uma vez um jovem que visitou um grande sábio para lhe perguntar como se deveria viver para adquirir a sabedoria.

O ancião, ao invés de responder, propôs um desafio:

− Encha uma colher de azeite e percorra todos os cantos deste lugar, mas não deixe derramar uma gota sequer.

Após ter concordado, o jovem saiu com a colher na mão, andando a passos pequenos, olhando fixamente para ela e segurando-a com muita firmeza. Ao voltar, orgulhoso por ter conseguido cumprir a tarefa, mostrou a colher ao ancião, que perguntou:

− Você viu as belíssimas árvores que havia no caminho? Sentiu o aroma das maravilhosas flores do jardim? Escutou o canto dos pássaros?
Sem entender muito o porquê disso tudo, o jovem respondeu que não e o ancião disse:

− Assim você nunca encontrará sabedoria na vida; vivendo apenas para cumprir suas obrigações sem usufruir das maravilhas do mundo. Assim nunca será sábio.

Em seguida, pediu para o jovem repetir a tarefa, mas desta vez observando tudo pelo caminho. E lá foi o rapaz com a colher na mão, olhando e se encantando com tudo. Esqueceu da colher e passou a observar as árvores, cheirar as flores e ouvir os pássaros. Ao voltar, o ancião perguntou se ele viu tudo e o jovem extasiado disse que sim. O velho sábio pediu para ver a colher e o jovem percebeu que tinha derramado todo o conteúdo pelo caminho.
Disse-lhe o ancião:

− Assim você nunca encontrará sabedoria na vida; vivendo para as alegrias do mundo sem cumprir suas obrigações. Assim nunca será sábio.

Para alcançar a sabedoria terá que cumprir suas obrigações sem perder a alegria de viver, fazendo pequenos estragos pela vida, somente assim conhecerá a verdadeira sabedoria.

Sétima história

Um sábio mestre conduz seu aprendiz pela floresta. Embora mais velho, caminha com agilidade, enquanto seu aprendiz escorrega e cai a todo instante. O aprendiz blasfema, levanta-se, cospe no chão traiçoeiro e continua a acompanhar seu mestre. Depois de longa caminhada, chegam a um lugar sagrado. Sem parar, o sábio mestre dá meia volta e começa a viagem de volta.

− Você não me ensinou nada hoje − diz o aprendiz, levando mais um tombo.

− Ensinei sim, mas você parece que não aprende. − responde o mestre. Estou tentando lhe ensinar como se lida com os erros da vida.

− E como lidar com eles?

− Como deveria lidar com seus tombos. − responde o mestre − em vez de ficar amaldiçoando o lugar onde caiu, devia procurar aquilo que o fez escorregar.

Oitava história

Um dia perguntei a um velho sábio o que era o amor, e ele, então, me mostrou uma flor e falou:

− Está vendo esta flor? Ela desabrocha aonde há solo fértil, ela cresce aonde há luz do sol e ela vive se você cuidar todos os dias dela. O amor nada mais é que uma flor no coração: se você plantá-lo em seu coração fértil, se ele tiver carinho esse amor irá desabrochar mas se não houver nada disso então ela nunca nascerá.

Nona história

Um turista americano, no século passado, foi visitar o famoso rabino polaco, Hofez Chaim.

Admirou-se ele ao ver que a casa do rabino era pouco mais que um quarto repleto de livros por toda a parte. De mobília, tinha só uma mesa e um banco.

−Mas, rabino, onde está a sua mobília? − pergunta o americano.

− E a sua, onde é que está? − ecoou o rabino. −A minha? Mas eu estou apenas de passagem; sou um visitante na cidade − responde o americano.

−Pois eu também estou só de passagem − concluiu o Rabino.

Décima história

Um menino pequeno estava se esforçando para mover um pesado armário, mas o móvel não cedia. Ele empurrava e puxava com toda sua força, mas não conseguia movê-lo nenhum centímetro. O pai, que ali chegava, parou para observar os esforços vãos do filho. Finalmente perguntou:

−Filho, está usando toda a sua força?

−Sim, estou! −gritou o garoto, exasperado.

− Não, disse calmamente o pai, você não está. Você não me pediu para ajudá-lo!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

O Velho Romualdo

          

O velho Romualdo, além de cego, era, também, meio surdo. Torcia fanaticamente pelo São João, o time amador da São João de Matãozinho.

Sentava-se num murinho baixo ao lado do campo, apoiado em sua bengala e só ficava ouvindo o que os torcedores falavam a seu redor. Sempre nervoso, gritando palavrões ao campo e sofria imensamente pelo time do seu coração.

O grande rival do São João era o time de Tirimbó, o time com mesmo nome de sua cidade, onde brilhava o grande goleador “Quem”, crioulo forte e dono de um chute potente.

Ao lado do velho Romualdo, sempre havia um moleque que narrava ao cego o que acontecia no campo.

Num ataque perigoso, o moleque gritou ao velho:

- Valha minha Nossa Senhor! Padrinho, o centroavante deles pegou a bola esta na cara do goleiro!

A torcida faz um “Hooooooo!!!”, e o velho, desesperado, pergunta:

- “Quem” fez o gol?

O moleque, feliz, diz ao velho:

- Ninguém fez o gol!

E o velho, colérico, gritava raivoso:

- Ninguém? Logo esse desgraçado vem me fazer um gol numa hora dessas?





Oração dos Animais



Meu São Francisco de Assis,
Protetor dos animais,
Olhai por nós que rogamos
Vossa bênção e muita paz.

Olhai os cães abandonados
Sofrendo agruras nas ruas
E os que puxam carroças
Açoitados nas ancas nuas.

Pelos pobres passarinhos
Que não podem mais voar,
Presos em rudes gaiolas
Só porque sabem cantar.

E as cobaias de laboratório
Que sofrem dores atrozes
Em experiências terríveis
Que lhes impõem seus algozes.

Pelos que são abatidos
Em matadouros insanos
Para servir de alimento
Aos que se dizem “humanos”.

Olhai aos que são perseguidos
Sem piedade nas florestas,
Só por causa da ambição
Dessas caçadas funestas.

Pelos animais de circo
Que não têm mais liberdade,
Presos em jaulas minúsculas
À mercê de crueldade.

Olhai os bois de rodeio
E os sangrados nas touradas
Barbárie e crimes impostos
Por pessoas desalmadas.

Pelos que têm de lutar
Até a morte nas rinhas,
Quando o Homem faz apostas
Em transações tão mesquinhas.

Olhai para os que são mortos
Nos macabros rituais
Em altares religiosos
Que usam sangue de animais.

Meu bondoso protetor,
Oro a vós por meus irmãos
Para que sua dor e tristeza
Não sejam sofrimentos vãos

(Ivana Maria França de Negri)

O chimarrão como símbolo da amizade e seu linguajar poético



O chimarrão também é rico em poesia, pois ao longo da sua história, ainda hoje em algumas regiões ele é utilizado como veículo sutil da comunicação com objetivos também sentimentais.

Mate com açúcar
Mate com açúcar queimado
Mate com canela
Mate com casca de laranja
Mate com mel
Mate frio
Mate lavado
Mate enchido pelo bico da bomba
Mate muito amargo (redomão)

Mate com sal
Mate muito longo
Mate curto
Mate servido com a mão esquerda
“só amizade”
“simpatia”
“só penso em ti”.
“vem buscar-me”
“quero casar contigo”
“desprezo”
“vá tomar mate noutra casa”
“está na hora de ir embora”
“chegaste tarde já tenho novo amor”
“não apareça mais aqui”
“a erva está acabando”
“pode prosear a vontade”
“a pessoa não é bem vinda”

Um causo

Certa ocasião, no interior do Rio Grande do Sul, lá pelas bandas do interior de Palmeira das Missões, avistou-se no alto de uma coxilha um caminhante a cavalo.

Era um viajante das bandas de São Paulo, com uma mochila cheia de secos e molhados. O vivente já vinha de língua de fora, cansado uma barbaridade. Chegou à porteira da Estância do Intendente Gabriel e gritou: “Ó de casa!” O peão abriu a porteira e o viajante pediu pousada.

O capataz o mandou entrar, desencilhar o cavalo e ficar a vontade. À noite, na hora da janta, conversa vai, conversa vem, até que o patrão falou ao capataz Juvenal:

− Trate bem o homem, Juvenal, hoje à noite dê a ele canjica, leite gordo, charque, salame, queijo, tudo de bom. E amanhã bem cedo não esqueça: o mate.

O viajante grelou os olhos que nem cusco dentro de canoa e só observava os movimentos. Em alta madrugada, quando o galo cantou, o viajante paulista levantou bem devagarito, foi até o galpão, pegou o cavalo, juntou todos os trastes, botou o pé na estrada e saiu deitando o cabelo em desabalada carreira.


Aquarela de José Lutzenberger

(Do livro “A Importância Social do Chimarrão”, 
de Luiz Rotilli Teixeira)


Aprenda aqui como preparar chimarrão



1) Realiza uma higiene completa (com água fervida) na cuia e na bomba e, após, enxugá-las bem; a cuia pode ficar emborcada até secar.


2) Põe-se uma quantidade de erva-mate na cuia, mais ou menos uns dois terços da capacidade da mesma.


3) Ajeita a erva de um lado da cuia, protegendo com uma das mãos abertas sobre a boca do porongo para que não caia fora a erva, pois a cuia deve ficar em posição inclinada. Pode-se utilizar a própria bomba para acomodar a erva. Deixar acumular um maior volume de erva, o barranquinho do lado desejado, de preferência à esquerda, deixando o espaço vazio à direita, espaço esse desde a borda até o fundo.


4) Continua apoiando o topete, o barranquinho, com a mão e despeja vagarosamente um pouco de água morna ou fria no espaço entre a erva e a lateral da cuia (nunca se usa água muito quente para começar, pois ela queima a erva, ocasionando um gosto muito amargo e logo deixa o mate lavado).

Após colocada a água até a metade mais ou menos, continua apoiando bem a erva, e inclina-se em horizontal a cuia, até que a água chegue à borda do barranquinho, então parasse um movimento nessa posição; com este processo, a erva firma-se em sentido vertical, como se fosse cimento na parede.


5) Deixa a cuia recostada por alguns instantes, por meia dúzia de minutos mais ou menos, até que a erva inche.


6) Após, coloca a bomba ao fundo, tapando o bico da mesma com o dedo polegar, e absorve o pouco de água que ainda resta, cuspindo-a fora.


7) Permanece com a cuia apoiada no suporte, e, novamente, tapar o bico da bomba, daí então se despeja água quente, começando a roda.


O primeiro mate, antes de começar a roda, é chamado “Mate do Zonzo” ou “Veneno do Mate”. Geralmente, o responsável pelo mate sorve o primeiro, cuspindo-o fora, até roncar a cuia; se necessário, enche outro até ficar no ponto.

Tudo feito, erva bem ajeitada na cuia, a bomba no lugar certo o mate amargo está pronto para ser servido, para começar a roda de diálogo, de prosa, de namoro ou de concentração mental.

(Do livro “A Importância Social do Chimarrão”, 
de Luiz Rotilli Teixeira)





quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

A origem da palavra baderna



Marietta Baderna

Nascida na Itália, em 1828, na cidade de Piacenza, filha do médico e músico Antônio Baderna, Marietta foi aluna do coreógrafo Carlo Blasis. Estreou aos 12 anos em sua cidade natal, e logo integrava a companhia de dança do teatro Scala de Milão. Nessa época a Itália estava fervendo politicamente, buscando a unificação, e ocupada pela Áustria. Marietta era militante, seguidora de Giuseppe Mazzini, e obedecia a ordem da diretiva revolucionária de não participar da vida artística enquanto os austríacos estivessem na Itália.

Por perseguição política, exilou-se com o pai no Brasil, em 1849. Estabeleceram-se no Rio imperial, e Marietta fez um sucesso danado no palco, conquistando o público do Teatro São Pedro de Alcântara. Talentosa, de espírito rebelde e contestador, arrebatava o coração dos jovens “badernistas”, que era um grupo criado por fãs em homenagem a ela.

Segundo biógrafos, no início os cariocas usavam o termo baderna para indicar coisas muito belas. Somente depois da dança ser considerada fator de corrupção da juventude, a palavra assume os significados atuais.

Sempre à frente de seu tempo, Marietta Baderna se interessou pelos ritmos afro-brasileiros e saiu às ruas para ver o requebrar das mulatas. Em pouco tempo foi considerada a musa do lundum, da cachuca e da umbigada, danças com movimentos bastante ousados para a época de dom Pedro 2º. Era uma estrela de grande porte, rivalizando até com as divas do canto lírico.

Interessante que sempre que os moralistas tentavam boicotá-la (diminuindo seu tempo no palco, ou a colocando em segundo plano), os badernistas protestavam, batendo os pés no chão e interrompendo o espetáculo. Ao término da apresentação, saíam do teatro batendo os pés e gritando o nome da musa: Baderna.

Havia quem dissesse que Marietta bebia demais e era viciada em absinto, além de ser muito namoradeira. Triste que seu estilo transgressor e libertário tenha perdido para o conservadorismo. Voltou com o pai para a Itália, e sua carreira entrou em decadência.

Morreu em 1870

Hoje seu nome é sinônimo de bagunça, confusão, desordem pública, rolo, briga, pândega, estúrdia, súcia, farra.

(Mulheres Que Honram o Rolê)