José Roberto Torero
Decidi ver como seria a Copa de 2098. Então, seguindo o “Manual do vidente sem mestre” escrito por Nostradamus, enchi uma bacia, coloquei uma vela de cada lado e comecei a olhar para a água a fim de enxergar o futuro.
Depois de muita concentração, vi torcedores sendo teletransportados para os estádios, para confortáveis poltronas, acompanhando as estatísticas dos jogos em terminais e ainda podendo rever os melhores lances em holografias.
No campo, vi um futebol mais que total, com os jogadores, apenas oito de cada lado, correndo e perdendo seis quilos por jogo. As marcas das chuteiras estavam escritas em néon e piscavam. Havia anúncios nas traves e até nas bandeirinhas dos assistentes.
Olhando mais fixamente pude ver os enormes placares eletrônicos e juízes-robôs marcando faltas e impedimentos com precisão absoluta.
Cada atleta tinha em sua cabeça uma minicâmera, o que deve ter deixado as transmissões de TV bem interessantes. A grama era sintética. As roupas, de um tecido diferente, impossível de ser puxado por qualquer Júnior Baiano.
Porém quando um atacante ia disparar um petardo com sua perna biônica, fui atrapalhado por Zidane, meu cachorro, que entrou na sala e bebeu um pouco de água da bacia. Esperei as marolas acabarem e continuei meu exercício de vidente, vendo mais algumas coisas da última Copa do século 21, coisas que descreverei aqui num inigualável furo de reportagem:
a) Como a clonagem está bem avançada em 2098, a Fifa é dirigida por Havelange 4º e na CBF estará sob o comando de Ricardo 6º.
b) Por determinação deles, os jogadores brasileiros, ao fim de cada Copa, serão obrigados a exibir espontaneamente uma faixa de agradecimento ao grande Havelange 4º e Ricardo 6º pelos grandes serviços prestados ao futebol.
c) Por determinação de Havelange 4º, os jogos só serão exibidos por pay-per-view.
d) As seleções não representarão mais países, pois o nacionalismo será considerado uma praga do século 20, causa de guerras, ódios e revoluções. Em vez disso, a Copa será disputada entre marcas de tênis, divididas assim:
Grupo 1: Nike, Mizuno, Adidas e...
Grupo 2: Reebok, All-Star, Le Coq...
e) Por determinação de Havelange 4º e Ricardo 6º, nenhum atleta poderá ficar doente ou indisposto antes de partidas importantes.
f) Os comentaristas esportivos serão substituídos por computadores que avaliarão as disposições táticas.
g) Antes de cada jogo não serão mais tocados os hinos nacionais dos países, mas apenas os jingles comerciais das marcas que disputam a competição. Então Zidane decidiu tomar banho na minha bacia e não vi mais nada.
Alguns podem estar pensando que eu inventei tudo isso. A esses incrédulos eu poderia dizer; “Quem viver verá!” Mas como é pouco provável que alguém que está lendo esta crônica agora esteja vivo em 2098, só posso desejar uma coisa, que não vejamos nada parecido com isso enquanto ainda estivermos por aqui.
Folha de S. Paulo, 18 de julho de 1998.
Vocabulário*
holografia: imagem fotográfica tridimensional obtida com o uso de raios laser.
néon: tipo de iluminação.
Júnior Baiano: zagueiro que ficou famoso por ter puxado a camisa de um adversário na Copa de 1998, provocando um pênalti e a consequente derrota do time brasileiro na partida.
petardo: chute violento.
biônica: no texto, com sentido de movida por força eletrônica.
clonagem: processo biológico de obtenção de um clone, isto é, uma cópia originada de uma célula matriz por meio da engenharia genética.
Fifa: sigla de Federação Internacional de Futebol Association.
Havelange: referência a João Havelange, dirigente da Fifa por longos anos.
CBF: sigla de Confederação Brasileira de Futebol.
Ricardo: referência a Ricardo Teixeira, dirigente da CBF por longos anos.
pay-per-view: programa transmitido por canal a cabo e só acessível mediante pagamento de uma taxa.
jingle: mensagem de propaganda musicada.
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* Do livro didático “História em Documento Imagem e Texto”, de Joelza Ester Rodrigue.





















