sábado, 29 de junho de 2024

A resposta de Bertrand Russell:

 Quem foram os quatro indivíduos mais poderosos da história?

Bertrand Russell, imagem de 1954.  

“Se eu tivesse que selecionar quatro homens que tiveram mais poder do que quaisquer outros, mencionaria Buda e Cristo, Pitágoras e Galileu. Nenhum dos quatro teve muito sucesso durante sua vida. Nenhum destes quatro teve o apoio do Estado até que as suas crenças e propaganda tivessem alcançado grande sucesso. Nenhum dos quatro teria afetado a vida humana como fez se o poder fosse o seu objetivo principal. Nenhum dos quatro procurou o tipo de poder que escraviza os outros, mas sim o tipo que os liberta – no caso dos dois primeiros, mostrando como dominar os desejos que levam à luta e, assim, derrotar a escravatura e a sujeição; no caso dos dois segundos, apontando o caminho para o controle das forças naturais. Em última análise, não é pela violência e pela guerra que os homens são governados, mas pela sabedoria daqueles que apelam aos desejos comuns da humanidade, à felicidade, à paz interior e exterior, e à compreensão do mundo em que, sem escolha nossa, temos que viver.” 

Bertrand Russell, Poder: Uma Nova Análise Social (1938), Capítulo: XVII: A Ética do Poder, pág. 284. 

De Divulgação de fatos e conhecimento: ciências e afins.

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Odorico das Flores:

 entre vendas de rosas, comerciante dá “canja musical”

nos bares de Porto Alegre há 50 anos. 

Por Tiago Boff*

A pétala de rosas caída sob o portão de Odorico Félix se explica: desde 1973, o vendedor de flores deixa seu imóvel, no bairro Restinga, para dar uma forcinha aos casais na noite de Porto Alegre. Com experiência de 50 anos no riscado, chega sorridente à mesa e solta uma das suas tantas brincadeiras:

‒ Ô diretoria, vamos investir na primeira-dama? Ela merece uma rosa ‒ incentiva, em uma das sua maneiras de abordagem. 

O início do périplo pelas casas noturnas foi incentivo de um chefe, quando trabalhou como office-boy na Livraria do Globo, no centro da Capital. O patrão havia retornado de uma viagem ao Rio de Janeiro ‒ acompanhado, segundo Odorico, pela Miss Universo Ieda Maria Vargas. Ao chegar ao Rio Grande do Sul, disse ao funcionário que havia deparado com homens de smoking oferecendo o presente nos mais finos restaurantes cariocas. Odorico comprou a ideia e nunca mais parou. 

‒ Enquanto tiver saúde, eu vou para a noite. Se parar, vou sentir falta ‒ complementa. 

(...) 

‒ Ele precisa se cuidar, ou eu puxo a orelha ‒ afirma a neta, Evelin de Souza Félix, 33 anos, sobre as saídas do idoso. 

Evelin também faz a contabilidade do avô: é pelo Pix cadastrado no celular dela que os clientes podem pagar por parte do buquê. As flores são buscadas na Ceasa pelo filho Fábio. 

Odorico frequenta, em especial, os bairros Moinhos de Vento, Higienópolis e Jardim Europa. As casas já o conhecem e o acesso é facilitado. Ele também diz ter desenvolvido técnicas para distinguir quem está se conhecendo dos já namorados ou com matrimônio selado. Nem mesmo os amantes escapam ao seu olhar treinado. 

* Matéria do jornal Zero Hora, de 17 de julho de 2022. 

Um personagem da noite de Porto Alegre 

Odorico das flores

Conheço o Odorico Félix há mais de quarenta anos,* sempre impecável, com seu smoking preto, da melhor qualidade. Sorriso cativante, voz grave, rouca e aconchegante. Tivesse tentado a carreira de cantor, certamente não deixaria nada a dever para Tim Maia ou Louis Armstrong. Odorico das Flores, hoje com mais de 60 anos*, nasceu em Porto Alegre. Começou trabalhando como office-boy da Revista do Globo. Na época, meu amigo Flávio Carneiro era editor da publicação e foi ele quem deu a ideia e o smoking para Odorico vender as flores, inspirado no Pedro das Flores, do Rio de Janeiro, personagem de crônica de Sérgio Porto, o “Estanislaw Ponte Preta”. 

O nosso “das Flores” começou a trabalhar nos anos 70, no Encouraçado Butikin. Já nesse tempo atravessava a noite de bar em bar, com carisma, simpatia e um grande buquê de rosas vermelhas. Percorria mais de quinze estabelecimentos por noite, entre quarta-feira e sábado, das 21h até o final da madrugada. Já vendeu perto de oitenta botões de rosas por jornada. Na realidade, o Odorico não vende: a pessoa dá o que quiser e ele tira o sustento da família com o que render. 

Como ele próprio sempre diz, Odorico se formou na faculdade da noite. Negro, órfão aos 13 anos, perdeu contato com os irmãos. Casado com a auxiliar de enfermagem Jussara, pai de Fábio, avô de Evelin, Aléxis e Carolina, suas paixões. 

(...) 

Suas rosas já iniciaram muitos namoros, celebraram casamentos, jantares de Dia dos Namorados e continuam até hoje a emoldurar paixões. 

Laroiê, Odorico! 

(Do livro “Na ponta da agulha”, de Claudinho Pereira) 

* Anos e idade que ele tinha da edição do livro que foi em 2012. 

PS: Conheci Odorico das Flores em alguns bares de Porto Alegre. Sujeito simpático, não forçava ninguém a comprar suas rosas, mas o sujeito abordado, para fazer uma média com a sua acompanhante, sempre comprava uma de suas rosas vermelhas. 

No começo deste ano, ou no final do ano passado, não tenho bem certeza, ao descer uma escada rolante de um shoping de Porto Alegre, encontro-o com seu inseparável buquê de rosas. Cumprimento-o efusivamente dizendo o seu nome: “Grande, Odorico das Flores!” Ao ver que alguém, ainda se lembra dele com carinho, ele me oferece uma de suas rosas vermelhas, tento pagar, mas ele não aceita o pagamento, dizendo: “É um presente meu.” 

(NSM)

quinta-feira, 27 de junho de 2024

O verbo “FOR”

 João Ubaldo Ribeiro

Vestibular de verdade era no meu tempo. Já estou chegando, ou já cheguei, à altura da vida em que tudo de bom era no meu tempo; meu e dos outros coroas. Acho inadmissível e mesmo chocante (no sentido antigo) um coroa não ser reacionário.

Somos uma força histórica de grande valor. Se não agíssemos com o vigor necessário ‒ evidentemente o condizente com a nossa condição provecta ‒, tudo sairia fora de controle, mais do que já está. 

O vestibular, é claro, jamais voltará ao que era outrora e talvez até desapareça, mas julgo necessário falar do antigo às novas gerações e lembrá-lo às minhas cevas (ao dicionário outra vez; domingo, dia de exercício). 

O vestibular de Direito a que me submeti, na velha Faculdade de Direito da Bahia, tinha só quatro matérias: português, latim, francês ou inglês e sociologia, sendo que esta não constava dos currículos do curso secundário e a gente tinha que se virar por fora. 

Nada de cruzinhas, múltipla escolha ou matérias que não interessassem diretamente à carreira. Tudo escrito tão ruybarbosianamente quanto possível, com citações decoradas, preferivelmente. Os textos em latim eram As Catilinárias ou a Eneida, dos quais até hoje sei o comecinho. 

Havia provas escritas e orais. A escrita já dava nervosismo, da oral muitos nunca se recuperaram inteiramente, pela vida afora. Tirava-se o ponto (sorteava-se o assunto) e partia-se para o martírio, insuperável por qualquer esporte radical desta juventude de hoje. 

A oral de latim era particularmente espetacular, porque se juntava uma multidão, para assistir à performance do saudoso mestre de Direito Romano Evandro Baltazar de Silveira. Franzino, sempre de colete e olhar vulpino (dicionário, dicionário), o mestre não perdoava. 

- Traduza aí quousque tandem, Catilina, patientia nostra ‒ dizia ele ao entanguido vestibulando. 

- “Catilina, quanta paciência tens?” ‒ retrucava o infeliz. 

Era o bastante para o mestre se levantar, pôr as mãos sobre o estômago, olhar para a plateia como quem pede solidariedade e dar uma carreirinha em direção à porta da sala. 

- Ai, minha barriga! ‒ exclamava ele. ‒ Deus, oh Deus, que fiz eu para ouvir tamanha asnice? Que pecados cometi, que ofensas Vos dirigi? Salvai essa alma de alimária. Senhor meu Pai! 

Pode-se imaginar o resto do exame. Um amigo meu, que por sinal passou, chegou a enfiar, sem sentir, as unhas nas palmas das mãos, quando o mestre sentiu duas dores de barriga seguidas, na sua prova oral. Comigo, a coisa foi um pouco melhor, eu falava um latinzinho e ele me deu seis, nota do mais alto coturno em seu elenco. 

O maior público das provas orais era o que já tinha ouvido falar alguma coisa do candidato e vinha vê-lo “dar um show”. Eu dei show de português e inglês. O de português até que foi moleza, em certo sentido. O professor José Lima, de pé e tomando um cafezinho, me dirigiu as seguintes palavras aladas: 

- Dou-lhe dez, se o senhor me disser qual é o sujeito da primeira oração do Hino Nacional! 

- As margens plácidas ‒ respondi instantaneamente e o mestre quase deixa cair a xícara. 

- Por que não é indeterminado, “ouviram, etc.”? 

- Porque o “as” de “as margens plácidas” não é craseado. Quem ouviu foram as margens plácidas. É uma anástrofe, entre as muitas que existem no hino. “Nem teme quem te adora a própria morte”: sujeito: “quem te adora.” Se pusermos na ordem direta... 

- Chega! ‒ berrou ele. ‒ Dez! Vá para a glória! A Bahia será sempre a Bahia! 

Quis o irônico destino, uns anos mais tarde, que eu fosse professor da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia e me designassem para a banca de português, com prova oral e tudo. Eu tinha fama de professor carrasco, que até hoje considero injustíssima, e ficava muito incomodado com aqueles rapazes e moças pálidos e trêmulos diante de mim. 

Uma bela vez, chegou um sem o menor sinal de nervosismo, muito elegante, paletó, gravata e abotoaduras vistosas. A prova oral era bestíssima. Mandava-se o candidato ler umas dez linhas em voz alta (sim, porque alguns não sabiam ler) e depois se perguntava o que queria dizer uma palavra trivial ou outra, qual era o plural de outra e assim por diante. 

Esse mal sabia ler, mas não perdia a pose. Não acertou a responder nada. Então, eu, carrasco fictício, peguei no texto uma frase em que a palavra "for" tanto podia ser do verbo “ser” quanto do verbo “ir”. Pronto, pensei. Se ele distinguir qual é o verbo, considero-o um gênio, dou quatro, ele passa e seja o que Deus quiser. 

- Esse “for” aí, que verbo é esse? 

Ele considerou a frase longamente, como se eu estivesse pedindo que resolvesse a quadratura do círculo, depois ajeitou as abotoaduras e me encarou sorridente. 

- Verbo for. 

- Verbo o quê? 

- Verbo for. 

- Conjugue aí o presente do indicativo desse verbo. 

- Eu fonho, tu fões, ele fõe ‒ recitou ele, impávido. ‒ Nós fomos, vós fondes, eles fõem. 

Não, dessa vez ele não passou. Mas, se perseverou, deve ter acabado passando e hoje há de estar num posto qualquer do Ministério da Administração ou na equipe econômica, ou ainda aposentado como marajá, ou as três coisas. 

Vestibular, no meu tempo, era muito mais divertido do que hoje e, nos dias que correm, devidamente diplomado, ele deve estar fondo para quebrar. Fões tu? Com quase toda a certeza, não. Eu tampouco fonho. Mas ele fõe. 

*******

Esta crônica foi publicada no jornal “O Globo” (e em outros jornais) na edição de domingo, 13 de setembro de 1998 e integra o livro “O Conselheiro Come”, Editor. Nova Fronteira ‒ Rio de Janeiro, 2000, pág. 20.

quarta-feira, 26 de junho de 2024

Os sete sapatos sujos

 que devemos descalçar na vida:

Conhece Mia Couto? Moçambicano, ele estudou medicina e biologia. Mas se dedica às letras. Tem leitores cativos em Europa, França e Bahia. Os brasileiros o prestigiam em lançamentos, palestras e tietagens. Os patriotas também. Outro dia, convidaram-no para abrir o ano letivo do Instituto Superior de Ciências de Moçambique. O tema: os sapatos sujos da modernidade.

Ele justificou a escolha do assunto assim: “Não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. À porta da modernidade, precisamos nos descalçar. Contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos modernos. Haverá muitos. Mas eu tinha de escolher. E sete é número mágico”. 

► Primeiro Sapato: A ideia de que os culpados são sempre os outros e nós somos vitimas. 

► Segundo Sapato: A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho. 

► Terceiro Sapato: O preconceito de que quem critica é um inimigo. 

► Quarto Sapato: A ideia de que mudar as palavras muda a realidade. 

► Quinto Sapato: A vergonha de ser pobre e o culto das aparências. 

► Sexto Sapato: A passividade perante a injustiça. 

► Sétimo Sapato: A ideia de que, para sermos modernos, temos que imitar os outros. 

Qual é o teu sapato? 

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Por: Mia Couto. 2019. In “Quem lê um livro nunca é a mesma pessoa”

terça-feira, 25 de junho de 2024

Histórias de Paraquedistas XXXVI

 O avião e a morte de um paraquedista


O avião acima é um Avro C-91, inglês − (A VARIG teve um desse tipo também). Provavelmente, isso foi só um teste. Só a título de curiosidade, esse motor é o mesmo usado nos Fokker 27 o Dart Harald, o primeiro turbohélice operacional do mundo.

Ý

Reginaldo Palazzo 

Foi num avião desses que o Sargento paraquedista do Exército Sílvio Gonçalves Dutra, pqdt 14494, 1963/3, MS 1687, SL 192, MSSL 59, companheiro nosso do Batalhão, faleceu num salto livre no Campo dos Afonsos, em 11 de fevereiro de 1977. Ele bateu na “asa” traseira (com nível mais baixo que o piso da porta e que aparece um pedaço na foto acima), desmaiou e não acionou o punho (ou hang plog). O Silvio foi meu companheiro. Alguns perguntavam se ele era meu irmão, pois éramos muito parecidos e fizemos o CFC/66 no BTL junto com o Baramenko, o Peixoto e outros. Depois cada um seguiu seu rumo no EB.

Ý

Sérgio Mattos 

Nesse dia, eu estava na ZL do Campo dos Afonsos para saltar mais um gancho. Foi exatamente isso que aconteceu. O avião era um Avro que veio para teste, e, ao saltar, ele bateu com a cabeça no profundor traseiro, e ficou desacordado. Segundo a perícia, indo cair na Cota 30, rente a Xavier Curado com Benedito da Silveira, em Marechal Hermes.

Ý

Ávila 

Descrição da morte, segundo o livro “Memória Histórica da Brigada de Infantaria Pára-quedista”, de D F Gonçalves, Pqdt 2696 – 56/8. Þ “Em teste para lançamento da aeronave “Avro”. Deu muito impulso ao sair, batendo com a cabeça no profundor, perdendo os sentidos, o que impediu o acionamento do paraquedas.” 

O Avro, como é conhecido na FAB, foi desenvolvido no final da década de 50, para substituir os C-47, C-46 e toda a linha dos CONVAIR. Pela sua versatilidade é utilizado por inúmeros países em tarefas militares. Também foi fabricado pela Índia. 

No Brasil, realizou missões de transporte de carga, passageiros e até lançamento de paraquedistas militares.  

PS 1: MS = Mestre de Salto – SL = Salto Livre – MSSL = Mestre de Salto de Salto Livre. 

PS 2: O sargento Sílvio deu uma forte impulsão para o alto e para frente, por este fato bateu com a cabeça no profundor do avião, desmaiando na queda. Por isso não fez uso do punho de abertura do seu paraquedas principal.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Frases inspiradoras de Roberto Shinyashiki

 

● Você tem mais valor do que qualquer cargo. 

● A vida muda quando você muda. 

● É importante perceber que o despertar depende de você. 

● Para viver intensamente é necessário conviver com os riscos. 

● Não se compare à maioria, pois, infelizmente, ela não é modelo de sucesso. 

● A felicidade é uma experiência ligada à sabedoria. Sua vida muda quando você muda. 

● Para transformar sua vida, antes de mais nada, você precisa ter vontade genuína de mudar. 

● Se eu preciso que os outros digam que sou o melhor, minha autoestima está baixa. 

● Tudo que um sonho precisa para ser realizado é alguém que acredite que ele possa ser realizado. 

● Ser amigo de si próprio é compreender seus erros e ser seu cúmplice para enfrentar os desafios. 

● Lembre-se: você é do tamanho dos seus sonhos. 

● Seja seu próprio motor de ignição. 

● Se você faz o que todo mundo faz, chega aonde todos chegam. Se você quer chegar aonde a maioria não chega, precisa fazer algo que a maioria não faz. 

● A pessoa que comete erros e não consegue assumi-los e mudar de atitude, faz de sua vida um campo de batalha. 

● Busque agir para o bem, enquanto você dispõe de tempo. É perigoso guardar uma cabeça cheia de sonhos, com as mãos e o coração desocupados. 

● Às vezes os problemas são sinais de que chegou a hora de o guerreiro iniciar uma nova batalha. 

● É preciso saber lutar como um leão, mas lutar por sonhos que valham a pena. 

● Sonhar é de graça, mas realizá-lo custa muito. 

● Sua vida é consequência do que você é. 

● Uma das armadilhas mais comuns da infelicidade é o adiantamento. 

Um Meio ou uma Desculpa 

Roberto Shinyashiki

Não conheço ninguém que conseguiu realizar seu sonho, sem sacrificar feriados e domingos pelo menos uma centena de vezes. 

O sucesso é construído à noite! 

Durante o dia você faz o que todos fazem

Mas, para obter um resultado diferente da maioria, você tem que ser especial. 

Se fizer igual a todo mundo, obterá os mesmos resultados. 

Não se compare à maioria, pois, infelizmente, ela não é modelo de sucesso. 

Se você quiser atingir uma meta especial, terá que estudar no horário em que os outros estão tomando chope com batatas fritas. 

Terá de planejar, enquanto os outros permanecem à frente da televisão. 

Terá de trabalhar, enquanto os outros tomam sol à beira da piscina. 

A realização de um sonho depende de dedicação, há muita gente que espera que o sonho se realize por mágica, mas toda mágica é ilusão, e a ilusão não tira ninguém de onde está, em verdade a ilusão é combustível dos perdedores pois... 

Quem quer fazer alguma coisa, encontra um MEIO. 

Quem não quer fazer nada, encontra uma DESCULPA. 

******* 

Roberto Tadeu Shinyashiki:

Santos, Estado de São Paulo, 11 de fevereiro de 1952, é um médico, palestrante, empresário e psiquiatra brasileiro.


domingo, 23 de junho de 2024

Como praticar esportes

 

Paraquedismo

Para praticar o paraquedismo, a pessoa tem que ter muita queda. É o esporte preferido dos bebuns, porque para praticar com segurança, o sujeito tem que estar bem alto. 

Tênis

O sucesso do tênis está nas bolas. Se, antes de sacar, você enfiar a mão no bolso e ficar mexendo carinhosamente nas bolinhas do saque, vai sentir o seu tênis crescendo cada vez mais. 

Boxe

Se você é uma pessoa traumatizada com problemas de segurança, não deve praticar boxe, porque é um esporte que tem um assalto atrás do outro. 

Sinuca

A sinuca só é bem jogada se tivermos um parceiro, mas não tem nada a ver com sexo. Aliás, é exatamente o contrário. Quando você joga, as bolas é que entram na caçapa e o taco fica do lado de fora. 

Basquete

Jogadores de basquetes que têm problemas com o alcoolismo, precisam tomar muito cuidado quando entrarem no garrafão. 

Xadrez

Xadrez é uma coisa que prende a gente, mas exige muito cuidado porque, se você pensa que tem o rei na barriga, pode cair do cavalo e aí, não adianta se queixar para o bispo.

Invernias

 Luiz Coronel

Venta o vento no arvoredo,

chove a chuva na cumeeira.

No quarto da noite escuta,

é teu corpo minha lareira.


A cidade está dormindo,

não despertem sua atenção.

A cidade está coberta

com as colchas da cerração.

 

Chove chuva chuvinheira

no riacho da calçada.

O barquinho vai levando

minha infância rua abaixo...

 

Ontem à meia-noite,

quem estaca acordado assistiu

moradores de rua e estátuas

espirrando de tanto frio.

 

No aquário dos sapatos,

sinto os pés como dois peixes.

Há três dias que nas calhas

lê a chuva o mesmo texto.

 

A lua nova, lá no alto,

com o inverno se depara,

por isso ela se enrosca

no poncho das nuvens claras.

 

A neve vinha de leve

flutuando no céu assim.

Pensei, estão depenando

arcanjos e querubins.

 

No cinza da tarde cinza,

teu sorriso claro deparo.

Tuas mãos são minhas luvas

e teu corpo, meu amparo.

 

sábado, 22 de junho de 2024

Casa arrumada

 Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

Casa arrumada é assim: Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz. 

Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela. 

Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas... 

Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida... 

Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar. 

Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha. 

Sofá sem mancha? 

Tapete sem fio puxado? 

Mesa sem marca de copo? 

Tá na cara que é casa sem festa. 

E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança. 

Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde. 

Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante, passaporte e vela de aniversário, tudo junto...

 Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda. 

A que está sempre pronta pros amigos, filhos, netos, pros vizinhos... 

E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia. 

Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente. 

Arrume a sua casa todos os dias... 

Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela... 

E reconhecer nela o seu lugar. 

Um beijo, meu pai

 

Harry Belafonte” era “amigo de Cuba”. Mas este depoimento não é sobre Cuba nem sobre política. Falo de nomes, nomes inventados, cidades inventadas, das brincadeiras com tudo isso. Harry Belafonte, para mim, era um nome tão bom que só poderia ser inventado pela cabeça do meu pai. Mas Belafonte existia, assim como as princesas com nomes falsos. 

Quando eu tinha 10 anos, era apaixonada por “Força estranha”, do Caetano, na voz da Gal Costa. Quando tive que fazer uma prova de geografia muito decoreba, sobre municípios do Estado do Rio de Janeiro, meu pai me salvou ao fazer uma nova letra para aquela canção. 

Só me lembro do começo. O original é: “Eu vi o menino correndo/ eu vi o tempo/ brincando ao redor do caminho daquele menino...” E vinha ele: “Existem cinco distritos/ em Cantagalo/ é o que tem mais gente e o resto eu já falo...” 

O mais triste é que não guardei um manuscrito, porque era uma música inteirinha. Mas isso ilustra o lado lúdico do meu pai, presente em todos os lugares, para criar filhas também. Porque as coisas eram muito no mundo paralelo, no mundo dele. 

Tinha um jeito de contar histórias para criança... 

Por exemplo, quando contava da ditadura militar, dos opressores, dizia: “Os mandalhões.” Falava: “Os mandalhões não me deixam cantar a música tal no show.” A gente não sabia de tortura, de morte, mas sabia que tinha opressão, censura e “mandalhões”. 

Tudo do meu pai é gozado porque é meio inventado. Somos parecidos. Não nisso. Eu gosto mais do mundo real, ele gosta das suposições. Ambos temos insônia, angústias, temos medo da morte, conversamos muito. Meu melhor amigo. 

Vai, desse jeito desajeito que também é um pouco herança, minha declaração de amor. Mas o mais lindo foi ele cantarolar por dias, há anos, “Ev'ry time we say goodbye” (de Cole Porter). Perguntei o porquê da insistência. Ele respondeu algo como: “Porque, talvez, essa seja a música mais linda do mundo.” 

Ele diz que fazer 80 anos não é mais que sua obrigação. Um beijo, meu pai. 

Silvia Buarque em O Globo 

19/06/2024

sexta-feira, 21 de junho de 2024

A invenção da caneta esferográfica

Em 1930, um inventor húngaro observou crianças brincando com bolinhas de gude em uma poça, notando que as bolas deixavam um rastro de água em seu caminho. Então surgiu a ideia: por que não usar uma ponta de metal em formato de bola para escrever? Assim nasceu a caneta esferográfica.

László József Biro compartilhou sua ideia com seu irmão György, químico, e juntos começaram a pesquisar e experimentar para criar um novo tipo de caneta baseado neste conceito.

Finalmente encontraram a combinação perfeita: uma tinta viscosa e uma ponta com uma bolinha que girava livremente, evitando que a tinta secasse e controlando seu fluxo. Eles apresentaram sua invenção na Feira Internacional de Budapeste em 1931 e a patentearam em 1938, embora não tenham conseguido comercializá-la imediatamente. 

Com o início da Segunda Guerra Mundial, os irmãos emigraram para a Argentina, onde fundaram uma empresa numa garagem. Embora inicialmente não tenham tido sucesso devido ao alto custo do produto, conseguiram um contrato com a Força Aérea Britânica, o que aumentou sua popularidade.

Em 1943, sua invenção foi alugada para Eversharp Faber, nos Estados Unidos, por US$ 2 milhões. 

Em 1950, Marcel Bich adquiriu os direitos e, por recomendação de um publicitário, retirou o “h” do sobrenome e fundou a empresa BIC Group. 

Nesse ano lançaram o primeiro Crystal BIC, um dos designs mais perfeitos já criados, do qual mais de 20 milhões de unidades são vendidas todos os dias em todo o mundo. 

Desde 1953, mais de 100 bilhões de Crystal BICs foram fabricadas, tornando-a a caneta mais vendida de todos os tempos.


Historinhas de bebês

 

Homem, totalmente alienado, recebe o seguinte pedido da mulher: 

‒ Toma, troca o bebê! 

O sujeito, segurando a criança, pergunta para a mulher: 

‒ Mas eu posso fazer isso? 

A mulher responde: 

‒ Claro, você é o pai! 

O cara vai para o computador e digita o seguinte texto: 

“Troco bebê por moto, aceito proposta.” 

@abacaxisublimatico 

No hospital, mulher na cama, convalescendo do parto, pede ao marido para “trocar” o bebê. Depois de alguns minutos, ele chega ao quarto com uma criança limpinha. A mulher, ao olhar o bebê, diz ao marido: 

‒ Mas este não é o nosso filho! 

Responde o marido: 

‒ Claro que não, “troquei” por um mais gordinho... 

quinta-feira, 20 de junho de 2024

Mudando de conversa

 Mauricio Gomes e Hermínio Bello de Carvalho

Mudando de conversa,

onde foi que ficou aquela velha amizade,
aquele papo furado todo fim de noite,
num bar do Leblon,

meu Deus do céu, que tempo bom!
Tanto chope gelado, confissões à bessa,

meu Deus, quem diria que isso ia se acabar

e acabava em samba,

que é a melhor maneira de se conversar. (bis) 

Mas tudo mudou,

eu sinto tanta pena de não ser a mesma,

perdi a vontade de tomar meu chope,

de escrever meu samba,

me perdi de mim, não achei mais nada,

o que vou fazer? 

Mas eu queria tanto,

precisava mesmo de abraçar você,
de dizer as coisas que se acumularam,
que estão se perdendo sem explicação,
e sem mais razão e sem mais por quê.

PS: Escute essa música nas vozes de Dóris Monteiro e Lúcio Alves.


A lição de um pai

 

Passei uma hora no banco com meu pai, pois ele teve que transferir algum dinheiro. 

Não resisti e perguntei-lhe... 

‒ Pai, por que você não começa usar o banco on-line? 

‒ Por que eu faria isso? ‒ perguntou. 

‒ Você não teria que passar uma hora aqui para fazer uma transferência. Você pode até fazer suas compras on-line. Tudo vai ser tão fácil! 

Estava tão animado para inserir meu pai no mundo da tecnologia on-line... 

Ele, novamente, perguntou: 

‒ Se eu fizer isso, não terei que sair de casa? 

‒ Sim, sim ‒ disse, você não precisará sair! 

Disse-lhe mais ainda: 

‒ Pai, agora você também pode receber até a mercearia na porta de sua casa, existe a Amazon, mercado livre... e outras várias lojas on-line que lhe oferecem tudo em casa. 

Sua resposta me deixou sem palavras. 

‒ Te entendo, porém desde que entrei neste banco hoje, encontrei quatro amigos meus, conversei um pouco com o pessoal do banco que me conhece muito bem já algum tempo. Você sabe, filho, que eu estou sozinho... Eu preciso de companhia, de pessoas. Gosto de me arrumar e ir ao banco. Eu tenho tempo suficiente e é a presença física que eu desejo. Lembra que há alguns dias, adoeci? O dono da loja, de quem eu compro frutas, veio me ver, sentou-se ao lado da minha cama e chorou comigo. 

Quando sua mãe caiu, há dois anos antes de morrer, enquanto caminhava de manhã, nosso lojista local viu-a e imediatamente a colocou no seu carro apressou-se a trazê-la para casa, pois sabia onde eu morava. 

Teria essa presença “humana” se fizesse tudo e pedisse on-line? 

Por que eu iria querer tudo entregue em casa, interagindo apenas com o meu celular ou computador? 

Gosto de conhecer a pessoa com quem estou lidando e não apenas o “vendedor”. Isso cria links e relações entre pessoas, que cada dia se perdem mais e mais. 

Lojas on-line também oferecem tudo isso? 

Não tinha mais nada a dizer. Meu pai mais uma vez tinha razão... 

Tecnologia não é vida, tecnologia ferrou a vida e a comunicação, o sentimento afetivo, o contato, a amizade... muito se perdeu. Cuidado! 

Maria Silva, no Facebook

Atchim e espirro

 

Inflamações que provocam caos nas vias aéreas, das cavidades do crânio ao pulmão. 

Qual é a diferença entre asma, bronquite, rinite e sinusite? 

Rinite 

Região atingida: Mucosas que revestem as cavidades do crânio.

Inflamada, a mucosa incha, o nariz entope e produz coriza.

Tratamento: Uma boa assoada já expele o agente invasor. Se o problema persistir, pode ser necessário usar descongestionante e antiinflamatórios.

Curiosidade: Os ácaros, parentes microscópios das aranhas que vivem em locais quentes das casas, são vilões da rinite. 

Sinusite 

Região atingida: Seios faciais (buracos ao redor do nariz, maçãs do rosto e olhos). Inflamadas, essas cavidades acumulam secreções, entopem e dão dor de cabeça, febre e coriza espessa.

Tratamento: Descongestionantes e antiinflamatórios. Nos casos mais graves, antibióticos são necessários.

Curiosidade: O agente não sai com uma assoada, e, por isso, pode causar uma inflamação maior ou cair no sangue e se espalhar. 

Bronquite 

Região atingida: Brônquios (tubos que conduzem o ar da traqueia até os alvéolos). Ficam contraídos e cheios de secreção.

Tratamento: Antiinflamatórios e broncodilatadores, que abrem os brônquios e melhoram o fluxo de ar. Xaropes expectorantes ajudam muito.

Curiosidade: Mais de 90% dos casos de bronquite crônica estão relacionados ao tabagismo. Os fumantes com a doença tossem o tempo todo.   

Asma 

Região atingida: Brônquios, que, contraídos, dificultam a passagem do ar.

Tratamento: Usam-se broncodilatadores (que podem vir na forma das famosas bombinhas) e  antiinflamatórios.

Curiosidade: Nem sempre alguém tem uma crise numa situação nervosa. O gatilho é sempre algo físico, como a poeira.

  

(Matéria da revista Mundo estranho, agosto de 2008)

quarta-feira, 19 de junho de 2024

Textos de Marcos Bulhões

 

Sexo nos primeiros encontros é o novo modelo de relacionamento. Uma mensagem, um olhar, algumas palavras e pronto! O sexo ganhou um novo pseudônimo; o aclamado: “foda”. 

Então prepare o preservativo que a noite vai ser de prazer. 

Mas a preservação não é só por uma gravidez inesperada ou uma DST, também nos preservamos do compromisso, do apego, das cobranças e também do AMOR. Não existe mais o conhecer, acontecer pela paixão. Não existe mais história antes do acontecer, só existe foda. 

É mais fácil tirar a roupa do que o sorriso. Tocar corpo do que o coração. 

Preferimos alguém pra comer em uma noite, a alguém que fique para comer com a gente no café da manhã todos os dias. Estamos tão fragilizados com compromissos que matamos o prazer de se envolver enquanto a carência nos enterra. 

Houve um tempo em que as pessoas faziam amor, e eram felizes. Havia antes uma história, uma conquista, um desencontro para levar a um encontro. Sexo vinha depois, hoje chega antes, pois é muito fácil, não há entrega, não existe paixão, não há conquista, porque hoje, todos fodem. Não fazem amor. Foder é fácil demais. 

E talvez por isso exista pouca gente feliz e tanta gente fodida. 

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Todo mundo tem um quase amor. Uma história que por capricho do destino ou por desleixo nosso não aconteceu. Mas o problema não é isso. O problema é o que isso faz com a gente. 

Como pode uma história que não chegou a acontecer, não deixar que outras aconteçam? Como pode um amor que deu errado, fazer com que pensemos que nenhum mais dará certo. 

Quando a gente é criança, a gente tem medo de fantasmas, de espíritos de gente que já morreu. Mas, quando a gente cresce, a gente percebe que os fantasmas são outros! Fantasmas de gente que morreu dentro da gente, mas que ainda nos visitam! E o que mais assusta não é a sua presença. O que mais assusta é a ausência que essa presença faz... 

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Eu quero um amor simples, sem muita gritaria, nem a necessidade de postar a cada 10 minutos que tenho alguém. Eu quero um amor tranquilo, onde possamos sentar e conversar sobre o que não se encaixa, ao invés de fazer joguinhos emocionais e disputar no fim quem está mais ferido. Eu quero um amor sereno, daqueles que a gente pode sentar em um sofá num sábado à noite e pegar pipoca, cevada e chocolate para assistir qualquer coisa legal, sem a sensação de estar perdendo tempo. Eu quero um amor real, longe de qualquer perfeição, com seus erros, para consertarmos juntos, com seus medos para confiarmos juntos, porque amor é amor, o resto é gritaria desnecessária.

terça-feira, 18 de junho de 2024

Sei que tenho menos para viver

 

Sei que tenho menos para viver do que aquilo que vivi. 

Sinto-me como uma criança que ganhou uma caixa de chocolates. Ele gosta de comê-los e, ao ver que não sobrou muito, começa a comê-los com um sabor especial. 

Não tenho tempo para palestras intermináveis ​​sobre direito público, nada vai mudar. E não há desejo de discutir com tolos que não agem de acordo com sua idade. E não há tempo para brigar com o cinza. Não participo de reuniões onde os egos estão inflados e não suporto manipuladores. 

Incomodam-me os invejosos que tentam caluniar aqueles que são mais capazes de tirar seus cargos, talentos e conquistas. 

Tenho muito pouco tempo para discutir títulos: minha alma está com pressa. 

Restam muito poucos doces na caixa. 

Estou interessado em pessoas humanas. As pessoas que riem dos seus erros são as que têm sucesso, as que entendem a sua vocação e não se escondem das responsabilidades. Que defende a dignidade humana e quer estar do lado da verdade, da justiça, da justiça. É para isso que serve a vida. 

Quero me cercar de pessoas que saibam tocar o coração dos outros. Que, através dos golpes do destino, soube elevar-se e manter a suavidade da alma. 

Sim, tenho pressa, tenho pressa de viver com a intensidade que só a maturidade pode dar. Comerei todos os doces que sobrarem, terão um sabor melhor do que os que já comi. 

Meu objetivo é chegar ao fim dessa jornada em harmonia comigo mesmo, com meus entes queridos e com minha consciência.

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*Texto atribuído ao ator Anthony Hopkins...

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Os campos de futebol,

 a bola e o saudosismo 

Foi lançado nesta semana (segunda quinzena do mês de junho de 2024), no Chalé da Praça XV, o livro “Viva a Várzea”. Tem assinatura de 17 autores. Entre eles, Piero D′Alascio, autor de “A várzea movimentava os campos de Petrópolis” dividido em segmentos. Um deles. Trata sobre campos.

“Durante as décadas de 50 e 60 havia uma grande quantidade de terrenos baldios em Porto Alegre o que permitia a quase totalidade dos clubes alugar ou tomar emprestado um desses terrenos, para instalar-se seus campos oficiais ‒ com rosetas, guanxumas e tudo que tinham direito. Os clubes com campo eram quase sempre filiados à FGF. O status do clube mudava. Além disso, permitia o desenvolvimento das hoje denominadas categorias de base, que na época eram: mirim, infantil, infanto-juvenil e juvenil (sem esquecer do famoso 2º quadro)! 

A qualidade média dos campos era baixa, tinha de tudo: areão, rosetas, tufos de grama, carecas e, pasmem, até alguns com aclives/declives acentuados. E havia os valões por perto. Poucos tinham alambrados, a maioria não tinha nada e alguns contavam com uma espécie de cerca com um parapeito de madeira, como nas raias do Jockey Clube. 

É difícil estabelecer um marco temporal na paixão pelo futebol quando se nasce na frente de uma praça com campo de futebol. Desde que me conheço eu e meus dois irmãos, Luciano e Paulo Alberto, freqüentávamos o campo da Praça Tamandaré, entre as ruas Caçapava e Taquara, no bairro Petrópolis. Aos poucos fomos conhecendo outros campos de várzea em Porto Alegre e arredores. Essa paixão pelo futebol fazia com que as condições do “gramado” (careca, embarrado ou seco, com ou sem rosetas) fosse secundária. E quase todos os campos se assemelhavam, especialmente nos defeitos.” 

A bola 

Dias atrás escrevi sobre os campinhos de futebol que o frenesi imobiliário engoliu. Hoje, falo sobre a bola do meu tempo de guri na minha querida Garibaldi. 

A bola tinha uma importância fundamental entre a gurizada. Mais do que esta parafernália tecnológica para a garotada de hoje. O dono de uma bola número 5 garantia lugar certo no time e escolhia posição. Porque havia poucas bolas número 5. 

Mesmo sendo um notório perna-de-pau o dono da uma bola número 5 determinava sua escalação como atacante se assim decidisse. Não fosse o dono, iria para o gol. Todo perna-de-pau tinha lugar garantido no gol. 

Como só havia um goleiro e muitos pernas-de-pau, os demais iam para a zaga. 

Do meio para a frente jogavam os melhores. Respeitavam-se esta hierarquia. O dono da bola era o bambambã e também o dono do jogo. 

As bolas tinham todas a mesma cor alaranjada e eu ganhava uma a cada Natal. Tinha status de titular, portanto. Onde há um menino e uma bola, a imaginação voa. 

(...) 

Para a bola durar um ano era preciso cuidado. Os gomos de couro eram unidos por costura feita à mão e eu passava sebo nos fios para evitar a penetração da água. 

Para encher a câmara, passava num posto de gasolina e usava o calibrador de pneus. 

E toda atenção do mundo para não estourar a câmara. 

Muitas vezes era difícil encontra o ventil da câmara e, neste caso, recorria a alguém que possuía uma bomba específica. Poucos tinham. 

Em dias de chuva o couro encharcava e a bola parecia pesar quilos e mais quilos. Cabecear tornava-se um ato de heroísmo. 

A bola era uma relíquia. Resta a lembrança de tempos que não voltam mais e recorro a uma letra de Paulinho Nogueira, “Menino Jogando Bola”. 

Jogando bola!

Que alegria que ele tem!

Sou gente grande,

Que é que tem isso?

Eu quero ir jogar também...

Tenho pena de quem cresceu demais

E perdeu a vontade de brincar...

A maior lembrança deste mundo, eu sei,

É reviver uma saudade que agente tem... 

Hiltor Mombach 

******* 

(Do Correio do Povo, 17 de junho de 2024)