quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Febrônio Índio do Brasil



Um assassino em série brasileiro

Febrônio Índio do Brasil (1895−1984) acreditava ser o “Filho da Luz”. Sua missão era atacar e marcar jovens com tatuagens purificadoras.

Retrato Falado: o serial killer tatuador brasileiro

Por Danilo Cezar Cabral*

01. Febrônio Índio do Brasil era o segundo filho de uma família com 14 irmãos. Natural de Jequitinhonha (MG), aos 21 anos já demonstrava ter tendências criminosas, com seus pequenos furtos, roubos, fraudes, chantagens e vadiagem. Desde jovem, já colecionava idas e vindas na cadeia.

02. Em 1920, durante uma de suas prisões, na Colônia Correcional de Ilha Grande, no Rio de Janeiro, ele teve uma visão: uma mulher loira o batizou de “Filho da Luz” e disse que sua missão na Terra era purificar os jovens, marcando-os com tatuagens.

03. Após sair da cadeia, em 1921, mudou o nome para Bruno Ferreira Gabina, usando um diploma roubado de um dentista – que nunca mais foi visto. No mesmo ano, mudou-se para a Bahia e, depois, para o Espírito Santo. Lá, exercendo a função de médico, foi responsabilizado pela morte de duas crianças e fugiu para o Rio de Janeiro.

04. Na capital carioca, começou a ter delírios. Em outubro de 1926, foi preso enquanto dançava sem roupa no topo do Pão de Açúcar. No Hospital Nacional de Psicopatas, Índio foi diagnosticado com distúrbios mentais. Por não ter condições financeiras, recebeu alta e ficou à solta novamente.

05. Em janeiro de 1927, foi encarcerado mais uma vez e atacou sexualmente dois jovens em sua cela. Um terceiro detento, Djalma Rosa, tentou resistir e acabou espancado até a morte. O assassinato foi considerado um acidente e Febrônio foi liberado de novo.

06. Meses depois, outra alucinação o levou de volta à prisão. Pintado de amarelo, ele foi flagrado dançando pelado em frente a um garoto amarrado em uma árvore, no Corcovado. O episódio, somado ao depoimento de uma testemunha, que presenciou Febrônio cozinhando a cabeça de um defunto, lhe rendeu outra visita ao Hospital Nacional de Psicopatas.

07. Índio escapou do hospício semanas após ser internado. E levou consigo dois garotos de 17 anos. Seguindo as revelações da loira de seus sonhos, ele tatuou no peito dos meninos as letras DCVXVI – que significam Deus, Caridade, Virtude, Santidade, Vida e Ímã da Vida. Depois do ritual, ambos conseguiram escapar do psicopata.


Jacob Edelman, sobrevivente a ataque de Febrônio Índio do Brasil, acusado de matar e estuprar garotos no Rio de Janeiro na década de 30. Febrônio tatuou no rapaz a inscrição DCVXVI, que, segundo o criminoso, significava “o Deus vivo”.

08. Ele foi detido mais uma vez, ao tatuar um garoto de 18 anos nas ruas do Rio de Janeiro. Mas o rapaz desapareceu e Índio foi liberado por falta de provas. Saiu da prisão usando uma farda azul e um boné de marca furtados. O look peculiar chamou a atenção da polícia.

09. Em liberdade, ele atacou e tatuou um rapaz de 20 anos, Altamiro José Ribeiro. O jovem tentou resistir, mas foi estrangulado com um cipó. Dois dias depois, Febrônio tatuou um garotinho de 10 anos, “Jonjoca” Ferreira, estuprado e morto em Jacarepaguá.

10. Investigadores encontraram o corpo de Altamiro e, ao lado dele, recolheram um boné. O acessório foi reconhecido pelo policial que fez o registro da última prisão de Índio. E a identidade foi confirmada pelos pais de “Jonjoca”. Após uma perseguição, o criminoso foi preso em uma estação de trem em Barão de Mauá. Ao confessar dois de seus crimes, ele alegava ter oferecido a vida das vítimas em holocausto a Deus.


Febrônio, à direita, sentado, depondo numa delegacia.

Que fim levou?

Febrônio foi enviado ao Manicômio Judiciário do Rio. Em 1935, ele tentou uma última fuga, mas foi capturado no mesmo dia. Quarenta e nove anos depois, aos 89, morreu de enfisema pulmonar na instituição, em 27 de agosto de 1984. Seu corpo foi discretamente inumado em 5 de setembro de 1984, no Cemitério do Caju.

FONTES: Sites Rede Globo e Serial Killer e livro Arquivo Serial Killers, de Ilana Casoy.

*Revista Super Interessante, de julho de 2018.

P.S. Do seu livro ‘Revelações do Príncipe de Fogo’, só restou uma cópia, que está na biblioteca particular de Mario de Andrade, no Instituto de Estudos Brasileiros, na Universidade de São Paulo.

Um mundo de paz



Onde quer que você esteja, seja a alma deste lugar...

Discutir não alimenta.
Reclamar não resolve.
Revolta não auxilia.

Desespero não ilumina.
Tristeza não leva a nada.
Lágrima não substitui suor.

Irritação intoxica.
Deserção agrava.
Calúnia responde sempre com o pior.

Para todos os males,
só existe um medicamento de eficiência comprovada.
Continuar na paz, compreendendo, ajudando,
aguardando o concurso sábio do Tempo,
na certeza de que o que não for bom para os outros,
não será bom para nós...

Pessoas feridas ferem pessoas.
Pessoas curadas curam pessoas.
Pessoas amadas amam pessoas.
Pessoas transformadas transformam pessoas.
Pessoas chatas chateiam pessoas.
Pessoas amarguradas amarguram pessoas.
Pessoas santificadas santificam pessoas.

Quem eu sou interfere diretamente naqueles que estão ao meu redor.

Acorde…

Se cubra de Gratidão, se encha de Amor e recomece…

O que for bênção pra sua vida, Deus te entregará,

e o que não for, ele te livrará!

Um dia bonito nem sempre é um dia de sol...

Mas com certeza é um dia de Paz.

Chico Xavier
   
    
Francisco Cândido Xavier, mais conhecido como Chico Xavier (Pedro Leopoldo, 2 de abril de 1910Uberaba, 30 de junho de 2002), foi um médium, filantropo e um dos mais importantes expoentes do Espiritismo. Seu nome de batismo, Francisco de Paula Cândido, em homenagem ao santo do dia de seu nascimento, foi substituído pelo nome paterno de Francisco Cândido Xavier.

Em 2012, ele foi eleito O Maior Brasileiro de Todos os Tempos, em um concurso homônimo realizado pelo SBT e pela BBC, cujo objetivo foi “eleger aquele que fez mais pela nação, que se destacou pelo seu legado à sociedade”.

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Um poeta do samba

Luiz Carlos da Vila


Caricatura de Carlos Wolfgram

Luiz Carlos Baptista, conhecido como Luiz Carlos da Vila (Rio de Janeiro, 21 de julho de 1949 − Rio de Janeiro, 20 de outubro de 2008), foi um compositor e sambista brasileiro, conhecido por sua passagem pela ala de compositores da Vila Isabel. Foi um dos compositores do samba-enredo Kizomba, a Festa da Raça, que consagrou a escola em 1988. Também compôs Samba que nem Rita, à Dora, gravada por Seu Jorge.

Sempre acesa

Tudo bem, veja bem,
Eu prometo, até juro,
Não vou insistir.
O amor acontece,
É uma prece, e, sem fé,
É melhor nem pedir.

Quem partiu, quem ficou,
Não interessa, acabou,
Outro dia já vem.

É manter sempre acesa
A chama que apaga e acende também.

Hoje nós percebemos
Que nós já não temos nenhuma razão.
Se não temos assunto, pra que ficar juntos?
É o fim da questão.

Foi um tempo tão bom de alegrias
E com o amor que é capaz
De fazer com que a gente não esqueça
O que se passou, nunca mais.

Por isso, então, eu digo:
Que a gente tem é que tentar ser feliz.
Enquanto há vida há esperança no amor.
Se está bom, a gente até pede bis.
Mas se não está, é bom pensar.
Que o amor verdadeiro
É lobo e cordeiro, é vidro e rubi.
Sendo assim, até mais,
De repente, a gente ainda pode curtir.

Enquanto eu puder sonhar,
Eu não vou desistir.
Vou sorrir, vou cantar,
Vou tentar ser feliz outra vez por aí...

P.S. Está música está disponível na internet.

“A maior invenção do homem é a roda.
A segunda é a roda de samba”.

(Luiz Carlos da Vila)


O poeta Luiz Carlos da Vila nos deixou, mas deixou uma lição muito importante, não importa o que aconteça a nossa vida sempre será um grande show e todos os shows, vocês já sabem, tem que continuar!

Atualmente, no Rio de Janeiro, há um viaduto na Penha e uma escola estadual em Manguinhos recebem o nome do poeta.

Leitor contumaz de Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa, Luiz Carlos é de fato o poeta do samba, mesmo que rejeitasse a ideia de ser poeta, argumentando que apenas traduzia as imagens para o papel.

Luiz Carlos da Vila, ou das Vilas, como gostava de chamá-lo Nei Lopes, é um dos principais nomes da geração Cacique de Ramos, primeiro grupo de compositores de samba que surge à margem das escolas. O Cacique é um bloco fundado no começo dos anos 1960.

Luiz Carlos da Vila era conhecido como o Poeta do Samba e sabia tocar acordeon e violão. Frequentava o Cacique de Ramos, onde apresentava seus sambas. Além de Kizomba, suas músicas mais conhecidas são O Sonho não acabou - uma homenagem a Candeia − O Show tem que continuar, Além da Razão e Doce Refúgio − um poema dedicado ao Cacique de Ramos. A música Por um dia de graça se tornou um dos hinos das "Diretas Já". Seu disco de estreia, que tinha seu nome como título, foi produzido por Martinho da Vila, em 1983. O último solo, de 2005, Um Cantar à Vontade, traz uma coletânea de sua obra, registrada ao vivo.

Luiz Carlos da Vila tem músicas gravadas por Simone, Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Beth Carvalho, Alcione, Jair Rodrigues e Jorge Aragão, entre outros. Orgulhoso, exaltou em seus poemas a negritude e a mistura de raças. Poucos compositores fizeram no samba, ou em qualquer outro gênero, esta grande festa da raça negra.

Livro sobre o sambista Luiz Carlos da Vila tem a cidade do Rio como ponto de partida. Compositor de 'Kizomba, a festa da raça' é tema de biografia de Luiz Antonio Simas e Diogo Cunha: “Princípio do infinito − Um perfil de Luiz Carlos da Vila”.

No dia 20 de outubro de 2008, ele faleceu, aos 59 anos. Deste dia, fez-se um dia de luto para o samba. Nascido em Ramos, viveu entre as Vilas Kenedy e da Penha e, por isso mesmo, recebeu este apelido.
   
(Textos de vários blogs da internet)




O poema e o poema do poema


Vou-me Embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
− Lá sou amigo do rei −
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
   
O poema do poema

Antipasárgada

José Nedel

Para Pasárgada não mais irei,
Não me atrai a suposta mordomia.
Nem mais certeza sólida eu teria
De verdadeiro amigo ser do rei.

Eu próprio a minha microeconomia,
Malhando com afinco, construirei.
De amigos tenho aqui seleta grei
Que em práticas de bem a mim se alia.

Pretender redenção e outro destino
Numa utopia, é puro desatino,
Contra o que a História tem-nos ensinado.

Cá no real é que se trama a vida,
Em luta às vezes mais do que renhida,
Sempre com o pé no duro chão colado.





terça-feira, 29 de outubro de 2019

Sambas pras Ritas



Desenho de Lan

Rita

Chico Buarque
   
A Rita levou meu sorriso,
No sorriso dela,
Meu assunto.
Levou junto com ela
E o que me é de direito,
Arrancou-me do peito
E tem mais,
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de São Francisco
E um bom disco de Noel.

A Rita matou nosso amor
De vingança,
Nem herança deixou.
Não levou um tostão,
Porque não tinha não,
Mas causou perdas e danos.
Levou os meus planos,
Meu pobres enganos,
Os meus vinte anos,
O meu coração,
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão.

Samba que nem Rita, à Dora.

Luís Carlos da Vila

O Chico falou que a Rita levou
O sorriso dele e o assunto.
Eu sofri seu sofrer, mas pergunto:
Se o meu ele iria aguentar,
A quem tanto queria um presunto,
Dei meu corpo morrendo de amar,
Onde havia um horizonte defunto,
Pus o sol a brilhar. (Bis)

Num instante eu tirei
Suas mãos lá do tanque,
Presenteei...
Máquina de lavar,
Contratei pra passar
Dona Sebastiana!
Testemunha ocular do esforço que fiz
Para ver tudo azul,
Que até carvão e giz,
Teriam final feliz na África do Sul.

Acontece, ô Chico,
Você mesmo disse
Que a Rita levou o que era de direito,
Acontece que a Dora sem ter o direito
Levou tudo que eu já iria lhe dar.

Se não deu pra formar um conjunto,
O meu som não podia dançar.
Se não deu pra gente ficar junto,
É um lá, outro cá!

Lhe dediquei!
Uma trova, um soneto e um samba-canção,
Mas é que essa danada não tem coração.
Tem não! Tem não!
Sem mais, sem menos, resolveu ir embora. (bis)

P.S. A gravação das duas músicas está na internet.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Orgasmo multilingue



Um amigo meu, carioca de passagem por Lisboa − vamos chamá-lo de Guilherme, embora este seja o seu verdadeiro nome, arranjou uma namorada portuguesa. Depois de um revigorante bacalhau com grelos numa tasca sobre o Tejo, foi para o berço com a cachopa. No melhor da festa, quando as apaixonadas piruetas se encaminharam para o inexorável e delirante clímax, a garota começou a exclamar:

“Ai, que me vem! Ai, que me vem!”

Guilherme levou um susto. Nunca tinha ouvido aquilo. Achou que ela estava tendo um troço. Na verdade, estava. Estava tendo um lindo orgasmo, à melhor maneira alfacinha.

Quando Guilherme voltou ao Rio e me contou a história, fiquei pensando sobre como, mesmo quando se trata de sexo, que é uma das poucas atividades humanas em que todos falam mais ou menos a mesma língua, você às vezes precisa de intérprete. «Ai, que me vem! Ai, que me vem!», com seu sabor tão 1890, à Eça ou Camilo, significa o nosso «Estou gozando! Estou gozando!», só que muito mais delicado e poético. As brasileiras bem que podiam adotá-lo.

Outro conhecido meu, que andou pela Indonésia a negócios, certamente escusos, foi surpreendido quando, numa situação idêntica, a moça se pôs a gritar: «Aku keluar! Aku keluar!». O fulano quase caiu da cama, temendo estar infringido algum tabu local. Mas, não, a moça estava apenas verbalizando o prazer que aquele honesto papai-mamãe lhe provocava.

Bem, para me precaver de possíveis mal-entendidos em situação semelhante, consultei minhas amigas internacionais mais versadas em línguas, a própria e a dos outros. Eu queria saber as variações nacionais na linguagem do prazer. Uivos, bufados e ruídos imorais, como «Uuuuuu!», «Grmmmphkk!» ou «Brjjwwkk!», comuns a todas as culturas, foram descartados, assim como interjeições medíocres como «Yeah! Yeah!», «Oui! Oui!» e «Ja wohl! Ja wohl!», que americanas, francesas e alemãs sem imaginação disparam quando a coisa lhes está a vir. Concentrei-me nas declarações de mulheres que levam seu orgasmo a sério, e descobri que a maneira pela qual este ou aquele povo declara «Estou gozando! Estou gozando!» ajuda a entender o receptivo temperamento nacional.

Evidente que, para as línguas mais manjadas, não precisei consultar ninguém.  A americana diz «I'm coming! I'm coming!». A francesa, «Je viens! Je viens!». A alemã, «Ich kamme! Ich kamme!». Tudo isso significa, literalmente, «Estou vindo! Estou vindo!» ou «Estou chegando! Estou chegando!» Como se vê, a ideia de que o orgasmo é um fluido em movimento, que está a caminho e não demora, é universal. Mas há povos que conseguem exprimi-lo de modo mais enfático. A espanhola grita «Estoy corriendo! Estoy corriendo!» – o que pode levar um brasileiro incauto a pensar que a moça vai pular da cama e correr em direção à porta, porque não o achou grande coisa na cama.

Já a japonesa é tão reservada, que só deixa para falar depois e, mesmo assim, delicadamente: «Itchatta yo» – significando «acabei de ir». E só diz isso uma vez, sem ponto de exclamação, donde fique atento. Pode ser meio frustrante para o parceiro, mas, se ela declara que já foi, é porque está tudo bem – e você que trate de ir também, antes que ela resolva voltar. Em hebraico é a mesma coisa, com a diferença de que a mulher diz «Ani gomeret» – que significa um simples e sóbrio «terminei», só faltando assinar e reconhecer a firma. Está certo – afinal, o que há de tão excepcional em gozar? Compare isso com o carnaval feito por uma italiana, ao sentir que vai gozar, proclama triunfante, «Arriva!!! Arriva!!! Arriva!!!» – assim mesmo, em triplicata e o homem tem a sensação de que, sozinho, vale por um batalhão do Garibaldi, todo embandeirado.

Diante disso, passei a encarar carinhosamente o nosso «Estou gozando! Estou gozando!» É alegre, amoroso e ligeiramente sacana. Mesmo porque, gozar tem vários outros sentidos no Brasil, e cada qual mais agradável: rir, fazer graça, sentir prazer, desfrutar de uma coisa boa, viver satisfeito. Serve também para você se arriscar a levar uma gozada da mulher, se não a fizer gozar.

(Do livro “Amestrando orgasmos”, de Ruy Castro,
Editora Objetiva)


domingo, 27 de outubro de 2019

A mosca



A mosca saiu do açucareiro.

Zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz.

Pousou numa xícara. O homem espantou-a com a mão.

Zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz.

Parou perto de outra mosca. Conversaram!

− Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz!

− Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz?

− Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz zzzzzzzzz...

− Zzzzzzzzzz zzzzzzzzz!

− Zzzzzzzzz zzzz!

− Z.

E voltaram as duas.

Zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz.

O homem tornou a afastá-las.

Zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz zz.

Elas tornaram a voltar. Agora eram três.

Zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz zzz.

O homem se levantou e foi embora.

Moral:

É mais fácil uma mosca espantar um homem
 do que um homem espantar uma mosca.

(Leon Eliachar)



A Benzedeira Deolinda

Por Beraldo Figueiredo


O Fredo morava na Vila do Suspiro, lá pelos anos 50, ele não sabe como, nem lembra, só sabe que sentiu uma comichão nas paletas, começou a coçar, era uma bolha cheia d’água. No outro dia, amanheceu com trinta bolhas; à tardinha, eram mais de trezentas, coçava, coçava e sua mãe, Ernestina, perguntou:

− Homem de Deus! Isso é cobreiro e é de sapo, de aranha ou de cobra. Onde tu andou, guri?

− Não me lembro, pode ter sido na pescaria, na mangueira, no cercado...

− Homem, eu já te disse: não deixa a roupa no chão, tem bicho que tem veneno e tu pega cobreiro.

No outro dia, um vergão dos grandes se alastrava pelas costas, e a vó Josefa disse:

− Menino de Deus, isso é cobreiro dos brabos, têm duas pontas se alastrando. Se tu deixar uma ponta tocar na outra, tu vai morrer, meu neto, procura a Dona Deolinda, ela cura isso.

A coceira virou ardência, que virou dor, até a camisa, se encostasse, causava dores incômodas, nada podia tocar. Ele deitava de bruços, estava ficando insuportável.

− Vó, onde mora a Dona Deolinda? – Perguntou Fredo.

− Olha, filho, faz uns vinte anos que eu não vejo ela, mas fica no passo das Mercedes a mais de vinte quilômetros daqui. Lá todo mundo conhece ela, é só chegar no bolicho da Dona Mercedes, que ela logo te informa.

Fredo encilhou o cavalo e se mandou para o Oeste, onde ficava as Mercedes, e andou horas até que viu um arvoredo com laranjeiras, bergamoteiras, limoeiros, galinhas no quintal e um cusco latindo, uma casa de torrão com santa fé e viu a fumaça saindo pela chaminé e foi logo gritando:

− Ô de casa! Ô de casa!

Nisso, saiu uma velha com cacunda, devia ter mais de cem anos, pensou Fredo, cabelos enredados, brancos que nem neve, olhar torto e dentes falhados, foi logo dizendo:

− Que te a sucedi, menino?

− Procuro, a mando da minha vó Josefa, a Dona Deolinda!

− Sou eu. Aquela velha tá viva?

− Tá vivinha da silva, dona Deolinda, mas que idade a senhora tem?

− Se não errei nas contas, cento de dez, mas tira uns quinze... he, he. Já vi que o moço tá com problema, porque quando um moço procura uma velha só pode ser cobreiro ou doença ruim.

− Ah, a senhora é engraçada, mas meu caso é coisa séria, tô com cobreiro nas costas.

− Desce, guri, vamos vê essa coisa.

Fredo entrou na casa tosca, um fogão com uma chapa de ferro, o resto feito de saibro amarelo, ervas e pedaços de ossos pendurados e uma caveira pendurada em cima da porta. Sentou num cepo de corticeira.

− Tira a camisa e senta de costa para o lado da cabeça da terra.*

Deolinda pegou uma faca, entre as orações, recitava passando o fio da faca sobre as costas sem tocar nas feridas:

− Ave Maria, Mãe do Menino Deus, olhe esse menino com o mal do cobreiro e me dê a graça de Tua força para curar esse andarilho. Recebo a força dos astros do mundo, que vem da cabeça da terra e se faz, aqui no aço da faca que vai cortar.

Então pegou a faca, fez o sinal da cruz com ela e falou:

− O que eu corto? Cabeça, meio e rabo. – Continuava:

− O que eu benzo?

− Cobreiro brabo, corto no rabo, em nome de Deus e da Virgem Maria. – Repetia três vezes.

− Cobreiro brabo, corto na cabeça, em nome de Deus e da Virgem Maria. – Repetia três vezes.

− Depois, pegava um galho verde de arruda e repetia em forma de cruz e repetia três vezes:

− O que eu corto?

− Cobra, cobrão, aranha, aranhão, sapo, sapão. Corto a cabeça e corto o rabo. − e logo passa o galho em toda a ferida e joga fora.

− Quanto custa, Dona Deolinda? – perguntou o Fredo.

− Custa nada, moço, quem cura é Deus eu só sou instrumento. – respondeu a benzedeira.

Pois as bolhas foram secando, o vergão diminuindo, o tal cobreiro minguando e tão logo acabando.

Dentro de três dias estava curado, e a mãe do Fredo disse:

− Vou fazer uns bolinhos de sonho, tu pega teu cavalo e leva pra Dona Deolinda, pois ela te curou, menino. Também leva essa barrigueira de charque e esse pote de sal, leva arroz, feijão e batata doce como paga pela cura.

Prontamente, Fredo pegou todos os presentes colocou, numa mala de garupa feito de pano grosso e montou no seu cavalo e, a trotezito, foi indo para a casa de Dona Deolinda. Atravessou o banhado, subiu duas coxilhas, desceu pelo costado de um capão e, de longe, viu a casa de torrão. Foi se achegando, se achegando e, para sua surpresa, quanto mais perto chegava, mais impressionado ficava.

Não tinha nenhum arvoredo, a não ser árvores mortas, nem cusco e nem galinhas. Tudo se resumia a uma triste tapera de torrão sem porta, sem janela e só paredes que nada lembravam o que viu.

Desceu do cavalo e foi entrando. Só terra, só lembrança do que ali viveu, nada tinha, apenas o mistério de tudo que passou, mas reconheceu o fogão de chapa enferrujado, ainda via a caveira e logo adiante pedaços de ossos que estavam pendurados.

Subiu no cavalo e seguiu adiante, queria mais explicações, foi se achegando num bolicho à beira da estrada, perto de um passo de um rio, logo soube se tratava do bolicho da Mercedes, apeou do cavalo e entrou:

− Buenas, como vai, minha senhora?

− Vai se indo, moço, na vida a gente diz que vai tudo bem, porque se reclamar Deus castiga.

 − Me diga uma coisa, dona Mercedes, a Dona Deolinda, a benzedeira, onde a encontro?

− No cemitério a uns trezentos metros daqui. Mas por que pergunta se a velha já morreu há quinze anos.

− Nada não, porque se eu lhe contar não vai mesmo acreditar.

− Ah, pois é, tem gente que vê ela por aí, sei que a tapera dela é assombrada.

Fredo, então, pegou o cavalo e voltou para casa, mas pensou. Vou deixar estes presentes lá no cemitério, afinal, era pra ela.

Chegando ao cemitério, foi se achegando e viu uma idosa com uma moça e um menino rezando no túmulo sem marca com uma cruz.

Perguntou logo:

− Minha senhora, onde é o túmulo da Dona Deolinda?

− Esse aqui que estou rezando!

− É parente dela, senhora?

− Sim, sou filha, essa é neta e aquele ali o bisneto e vim pedir ajuda, pois tenho passado fome, meu marido faz dois meses que não aparece, foi trabalhar na charqueada e não voltou mais.

Fredo, então, percebeu o enlace do destino.

− Pois sua mãe me mandou te entregar isso.

Fredo foi até o cavalo e deu a ela os mantimentos que trouxera para a Deolinda.

− Mas, moço, que Deus te abençoe, mas minha mãe é falecida, como poderia mandar me entregar?

− Pois nem eu sei, minha senhora, e é melhor a gente nem tentar entender...

*****

*Cabeça da Terra - sentido Norte.

Um ato desesperado de amor

Pai Quati

Autor desconhecido


Lá pelas bandas de Catuçaba, nos campos que a vista se perde, entre São Gabriel e Santa Maria*, num tempo muito distante, numa estância grande, tempo rigoroso da escravatura, que a lei permitia que homens brancos fossem donos de homens negros. Negros roubados de sua querência, vendidos por Reis negros aos escravagistas brancos, que os carregavam em porões fétidos de navios negreiros.

Foi nesta Fazenda (estância) que uma negra escrava entrou em trabalho de parto, nasceu um menino forte, valente que foi crescendo, brincando com todos, alegre e disposto.

O sinhozinho era um homem rude, gostava ele mesmo pegar o chicote e retalhar costas negras amarradas num tronco, o ato mais vil e covarde de um homem é amarrá-lo e ainda batê-lo pelas costas.

O menino negro, com doze anos, viu uma gritaria que vinha do tronco. Era sua mãe que estava sendo açoitada pelo Sinhozinho, homem forte, que tinha a mão pesada com o chicote impiedoso. Batia com precisão e, na medida em que via o couro romper as fibras das costas de sua mãezinha, sua indignação e revolta foi mais forte que o medo e a submissão e isso mexeu forte com ele que a tudo assistia. Então, numa agilidade espantosa, arrancou a faca da cintura do Sinhozinho e desferiu um golpe mortal em sua barriga.

Na mesma hora, os capangas correram atrás dele, que, muito veloz, sumiu na mata imensa que cobria aquela região.

Assim virou lenda, misturada com verdade, pois os anos foram passando, e ele foi vivendo no mato, visto por muitos vestido com peles do animal, ganhou o apelido de Quati, pela pele que lhe servia de roupa.

Virou homem-bicho, tinha medo dos brancos, dormia nas árvores como macaco, tinha uma imensa barba e cabelo negros como sua pele. Nas noites sem lua, viam um tição em brasa correndo pela mata cerrada, era o Pai Quati se locomovendo com sua tocha.

Tinha hábitos marcantes, como entrar na madrugada nas mangueiras para mamar nas tetas das vacas com terneiros, com alguns até trocava carne fresca por sal, mas sempre à distância, nunca ninguém o via, deixava a carne numa clareira e alguns simpatizantes, deixavam sal, que ele só recolhia à noite, para evitar emboscadas.

Porém o tempo, que não leva ninguém de compadre, envelheceu também Pai Quati, judiado pela vida, já não tinha a mesma habilidade e velocidade de fugir da peonada, que o perseguia. Um dia foi pego no laço, amarrada e levado para a mesma estância de que um dia fugiu. Os netos do homem que ele matou, conheceram a lenda viva do Pai Quati. A cabresto, como um animal xucro, urrando e berrando, pois perdera a capacidade de falar, apenas grunhia, foi enjaulado num quarto bem fechado.

Pai Quati, pela pequena janelinha, olhava a mata, os campos, sentia saudade dos seus recantos, não comeu, não bebeu, mesmo que insistissem, escolheu ficar olhando para a janela, e morrer de fome e sede sem trocar sua liberdade e voltar a ser escravo.

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O lendário Pai Quati hoje é homenageado em São Gabriel pelo CTG Querência do Pai Quati (hoje CTG Pai Quati), representa que a liberdade jamais será negociada e é uma homenagem nativista ao legendário crioulo das plagas, que trocou uma vida nas casas, para defender, com honra, o amor que nutria pela sua mãe.

Resumo da passagem do Pai Quati do Livro “Causos, Lendas e Assombrações”, de Osório Santana Figueiredo.

Compilado por Beraldo Figueiredo.

* Cidades gaúchas.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Saindo da rotina



A insistência dos leitores em querer saber como é que os compositores gaúchos começaram a agradar o público me fez sair um pouco da rotina, para dar uma explicação. Para isso, tenho de voltar um pouco no tempo e falar novamente da composição Se acaso você chegasse, que foi a música que abriu o caminho no centro do país para as gravações dos compositores do Rio Grande do Sul.

A história é a seguinte: no ano de 1935, surgiu em Porto Alegre a Rádio Farroupilha, dirigida pelo grande radialista Arnaldo Balvê, que procurou promover os compositores “Prata da Casa”. Foi nessa época que eu, para brincar com um amigo, Heitor Barros*, já falecido, fiz o samba Se acaso você chegasse. Os marinheiros que seguidamente aqui chegavam, vendo que muita gente cantava aquela música, resolveram incluí-la no repertório da orquestra dos navios, espalhando-a para todo o Brasil, sem que ninguém soubesse quem era o seu autor. O pessoal de uma gravadora, que ouviu o meu samba e testemunhou o sucesso que fazia, resolveu edita-la, à espera que seu autor aparecesse. Foi com grande dificuldade que consegui provar que a música era minha, porque ninguém acreditava que um gaúcho pudesse compor um samba tipicamente carioca. Depois, os jornais de todo o Brasil começaram a publicar que no Rio Grande do Sul também se compunha samba, fazendo com que os editores de discos começassem a se interessar por nossas músicas.

Depois dessa conversa toda, vai de novo a letra do meu samba.

Se acaso você chegasse

Lupicínio Rodrigues e Felisberto Martins

(Lupi, falando ao amigo Heitor Barros)

Se acaso você chegasse,
No meu chatô e encontrasse
Aquela mulher
Que você gostou.
Será que tinha coragem
De trocar nossa amizade
Por ela que já lhe abandonou?

(Agora, Lupi, depois da pergunta feita acima,
ele diz ao amigo o porquê da pergunta.)

Eu falo porque essa dona
Já mora no meu barraco
À beira de um regato
E de um bosque em flor.
De dia me lava a roupa,
De noite me beija a boca,
E assim nós vamos vivendo de amor.

(Do livro “Foi assim − 
o cronista Lupicínio conta as histórias das suas músicas”,
de Lupicínio Rodrigues − L&PM)

*Samba de 1938 foi uma forma de propor paz ao amigo Heitor Barros, de quem ele roubara a mulher. Heitor gostou tanto da música que perdoou Lupicínio, pois este sabia que agira mal e temia perder o amigo, que muito prezava.


segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Algumas marchinhas de Carnaval

...com palavras de duplo sentido...


Eu Dei...

Ary Barroso

Cantado por Carmem Miranda


Eu dei...
O que foi que você deu, meu bem?
Eu dei...
Guarde um pouco para mim também.
Não sei
Se você fala por falar sem meditar.
Eu dei...
Diga logo, diga logo, é demais!
Não digo, e adivinhe se é capaz!

Você deu seu coração?
Não dei, não dei!
Sem nenhuma condição?
Não dei, não dei!
O meu coração não tem dono
Vive sozinho,
Coitadinho, no abandono.

Foi um terno e longo beijo?
Se foi, se foi!
Desses beijos que eu desejo?
Pois foi, pois foi!
Guarde para mim unzinho,
Que mais tarde
Pagarei com um jurinho.

Pó de Mico

A. Souza / Dora Lopes / Renato Araújo

Vem cá, seu guarda,
Bota pra fora esse moço,
Que está no salão brincando
Com pó-de-mico no bolso! (Bis)

Foi ele! Foi ele sim!
Foi ele quem jogou*
O pó* em mim! (Bis)

*Nos salões se cantava: foi ele quem botou o p... em mim.

Mulata Bossa Nova
(Mulata Iê Iê Iê)

João Roberto kelly

Mulata bossa nova,
Caiu no Hully Gully,
E só dá ela.
Iê iê iê iê iê iê iê iê,
Na passarela.* (Bis)

A boneca está
Cheia de fiu-fiu,
Esnobando as loiras
E as morenas do Brasil.

*Nos salões se cantava: Na b... dela.

A Pipa do Vovô

Manoel Ferreira / Ruth Amaral

A pipa* do vovô não sobe mais
A pipa do vovô não sobe mais
Apesar de fazer muita força,
O vovô foi passado pra trás! (Bis)

Ele tentou mais uma empinadinha,
A pipa não deu nenhuma subidinha.
Ele tentou mais uma empinadinha,
A pipa não deu nenhuma subidinha.

*Nos salões se cantava a pica do vovô.

Marcha do Remador

Antonio Almeida / Oldemar Magalhães

Se a canoa* não virar
Olê! Olê! Olá!
Eu chego lá! (bis)

Rema, rema, rema, remador!
Quero ver depressa o meu amor.
Se eu chegar depois do sol raiar,
Ela bota outro em meu lugar!

*Nos salões se cantava: Se essa porra não virar.
  
Mamãe, eu quero

Jararaca e Vicente Paiva

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar*
Dá a chupeta, dá a chupeta,*
Dá a chupeta pro bebê não chorar. (Bis)

Dorme, filhinho, do meu coração,
Pega a mamadeira e entra no meu cordão.
Eu tenho uma irmã que se chama Ana,
De piscar o olho, já ficou sem a pestana.

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero
Mamãe, eu quero mamar.
Dá a chupeta, dá a chupeta,
Dá a chupeta pro bebê não chorar.

Olho as pequenas, mas daquele jeito
Tenho muita pena não ser criança de peito
Eu tenho uma irmã que é fenomenal
Ela é da bossa e o marido é um boçal.

Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero.
Mamãe, eu quero mamar,
Dá a chupeta, dá a chupeta,
Dá a chupeta pro bebê não chorar.

*Nos salões se trocavam as palavras chorar por gozar; e chupeta ou por outra da mesma rima...

Cabeleira do Zezé

João Roberto Kelly e Roberto Faissal

Olha a cabeleira do Zezé,
Será que ele é?
Será que ele é? (Bis)

Será que ele é bossa nova?
Será que ele é Maomé?
Parece que é transviado,*
Mas isso eu não sei se ele é.

Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!
Corta o cabelo dele!

*Nos salões se cantava: Parece que é viado...

Diabo sem rabo

Haroldo Lobo / Milton de Oliveira

A minha fantasia de diabo,
Só falta o rabo, só falta o rabo.

Eu vou botar um anúncio no jornal:
“Precisa-se de um rabo
Pra brincar no carnaval”. (bi)

Já comprei lança
Carapuça, comprei tudo.
Até o pé de pato
E capa de veludo.

Mas, que diabo!
Puxa, puxa, que diabo!
Depois de tudo pronto
Eu notei que falta o rabo.

Uma letra do Carnaval de 1919

Esta música de carnaval cantada por homens e mulheres na década de 20 já deixava clara a nossa aptidão para a sacanagem carnavalesca de duplo sentido:
  
Cavalheiros: Na minha casa não se racha lenha.
Damas:         Na minha racha! Na minha racha!

Cavalheiros: Na minha casa não há falta d′água.
Damas:         Na minha abunda! Na minha abunda!

Damas:         Na minha casa não se pica fumo.
Cavalheiros: Na minha pica! Na minha pica!

No livro “A Música Popular no Romance Brasileiro − volume III”, José Ramos Tinhorão explica que esta música foi colhida pelo escritor e jornalista Mário Filho no carnaval carioca de 1919.

O carnaval de 1919 foi o primeiro depois que a cidade se recuperava da epidemia de gripe espanhola, daí essa explosão especial de alegria.

(Do blog BuzzFeed)

Saiba a engraçada história por trás da marchinha de carnaval

Índio quer apito

Índio quer apito” é umas músicas mais tocadas nas ruas do Brasil durante o carnaval. Segundo o cantor baiano Walter Levita, numa visita a uma comunidade indígena, a esposa do então Presidente Juscelino Kubitschek, Sarah, havia levado muitas bugigangas para agradar os índios.

Na hora em que ela tentava colocar um colar no pescoço do chefe índio (que era bem mais alto do que ela), a primeira-dama soltou um leve “pum”. Aí o chefe, inocentemente, ou sacanamente, teria dito a famosa frase que passaria a circular no anedotário do carioca.

− Índio não quer colar, índio quer apito!

Em 1961 os dois excelentes compositores carnavalescos, Haroldo Lobo e Milton de Oliveira, aproveitando essa fofocaria do povo, driblaram a censura lançando a maliciosa marchinha “Índio quer apito”.

Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer!
Ê, ê, ê, ê, ê, Índio quer apito
Se não der, pau vai comer! (Bis)

Lá no bananal mulher de branco
Levou pra índio colar esquisito.
Índio viu presente mais bonito,
Índio não quer colar! Índio quer apito!




domingo, 20 de outubro de 2019

Façanha com o laço



Não é lenda. É uma história real que ocorreu em dezembro de 1951, no interior de Santa Maria,  Rio Grande do Sul, e teve grande repercussão. No começo de 1952, a revista O Cruzeiro reproduziu o episódio em cinco páginas ilustradas e, daí para frente, a insólita notícia se espalhou pelo mundo, figurando até na Time americana. O autor da façanha: o peão Euclides Guterres (foto abaixo). A façanha: laçou um avião em pleno voo.


Tudo começou quando o piloto Irineu Noal, do aeroclube de Santa Maria, pegou um teco-teco Paulistinha e decolou rumo à fazenda de Cacildo Pena Xavier, em Tronqueiras, e passou a tirar rasantes sobre as coxilhas. No alto de uma delas, Euclides cuidava de uma novilha e achou que o voo era alguma provocação. Armou o laço de 13 braças e atirou em direção ao bico do teco-teco. Quando percebeu que tinha acertado, largou o laço, “para não ser levado pelo avião”, mas a hélice já o havia cortado. O piloto, assustado, tratou de pousar na base de Camobi. O peão Euclides, morto em 1981, relatou na época: “Eu não fiz por maldade, não acreditava que pudesse pegar o aviãozinho pelas guampas num tiro de laço”.


(Do livro “Almanaque Gaúcho O Livro”)




O Prefeito Macaco Tião


 (...) 

A impaciência carioca com governantes não se limita aos humanos. Por algum motivo, um prefeito do Rio no início dos anos 90 teve de fazer uma série de visitas ao zoológico da cidade. Em todas foi alvejado com fezes pelo estimado macaco Tião, uma das atrações do zoo. Macacos costumam fazer isso com o público, mas Tião era seletivo. Ao ver o grupo de autoridades e repórteres diante de sua jaula, o chipanzé munia-se dos bolos de fabricação própria e concentrava os disparos no prefeito. No dia seguinte, os jornais se deliciavam − porque Tião estava fazendo o que muitos cidadãos gostariam de fazer. Como prêmio, o macaco recebeu nas eleições seguintes uma votação que superou a de vários políticos veteranos.

(Do livro:
 “Carnaval no fogo Crônicas de uma cidade excitante demais”,
de Ruy Castro)

Cacareco, macaco Tião e prefeito mosquito:
voto de protesto na cédula de papel

Além dos inúmeros relatos de fraudes, as cédulas eleitorais de papel protagonizaram os maiores micos da política brasileira e deram espaço aos insatisfeitos para eleger candidatos bizarros. Nasceu assim, em 1959, o voto de protesto, que colocou o Rinoceronte Cacareco como vereador de São Paulo. Anos depois, em 1988, o macaco Tião ficou em terceiro na disputa pela prefeitura do Rio de Janeiro.

Macaco Tião


Reprodução/O Globo

Anos depois, em 1988, o jornal “O Planeta Diário” e a revista “Casseta Popular” lançaram no Zoológico do Rio de Janeiro, na zona norte, a candidatura do chimpanzé Tião à Prefeitura da cidade. Os profissionais promoveram uma grande festa para libertar “o último preso político”. Cantores da MPB, como Ed Motta, fizeram até um show de lançamento da candidatura do macaco como protesto já que o Brasil enfrentava um importante período de transição democrática pós-ditadura.

Macaco Tião virou celebridade no Brasil
 e estava presente nas páginas dos jornais.


Antes mesmo da candidatura inusitada, Tião ganhou fama pelo seu temperamento ruim. Chamado de mal-humorado, ele foi parar nas páginas dos jornais após atirar fezes e lama nos visitantes do zoológico - até o ex-prefeito Marcello Alencar foi alvo do animal.

Estima-se que o Macaco Tião tenha recebido naquele pleito mais de 400 mil dos votos dos eleitores, alcançando o que seria equivalente ao terceiro lugar entre 12 candidatos. Com 1,52 de altura e 70 kg, ele virou uma celebridade no Brasil. E o feito foi parar no "Guinness World Records" como o chimpanzé a receber mais votos no mundo.

Tião morreu de diabetes em 23 de dezembro de 1996, aos 34 anos. Foi decretado luto oficial de três dias no município do Rio de Janeiro.

(Do blog Último Segundo)


A estátua do macaco Tião no Jardim Zoológico do Rio de Janeiro

sábado, 19 de outubro de 2019

O primeiro diretor da Escola Normal


Joaquim Cacique de Barros

Joaquim de Barros nasceu em Salvador (Bahia), a 18 de agosto de 1831, de respeitável e conhecida família daquele estado. Filho de Raymundo de Barros e de Dª Alexandrina Rosa de Barros, tinha duas irmãs.

Depois de completar o curso de Preparatórios, entrou para o Seminário Episcopal da diocese baiana, onde concluiu brilhantemente o curso de Teologia. Porém, não tinha idade para ser ordenado. Começou, então, a lecionar História, Geografia e Cosmografia no Ginásio Baiano.

Em 1853, com 22 anos de idade, foi ordenado, mas tendo a saúde alterada, procurou outro lugar para viver. Partiu para o Rio de Janeiro onde lecionou no Colégio Pedro II e no Mosteiro de São Bento, e, ao mesmo tempo, concluiu o curso de Matemática na Escola Central.

Novamente sua saúde mostrou-se abalada e ele veio para o Rio Grande do Sul em 1862, em busca de um clima melhor. Ficou instalado no Palácio Episcopal e logo foi nomeado professor de Teologia no Seminário São Feliciano.

O bispo D. Sebastião Dias Laranjeira costumava distribuir esmolas aos pobres todos os sábados, e o Padre Cacique, numa dessas ocasiões, observou uma menina muito frágil, de aspecto doentio que, com sua mãe inválida, ali fora receber esmola. Nesse momento teve uma inspiração: veio-lhe à mente a ideia de fundar um asilo para acolher meninas órfãs e desamparadas.

Esta foi a origem do Colégio de Santa Teresa, que iria absorver o tempo, as energias e toda a dedicação do Padre Cacique, em foto abaixo do busto em sua homenagem.


Um pedido comovente

Pesquisando a respeito da Instituição Pública no RS encontrei, na relação de formandos das primeiras turmas da Escola Normal, várias alunas-mestras como sobrenome “de Barros”. Talvez fossem da mesma família, pensei. Irmãs? Primas? E certo dia apareceu a explicação, pois um dos biógrafos do Padre Cacique conta-nos que, sabendo as educandas do Colégio de Santa Teresa o quanto o Padre Cacique respeitava os dias sagrados da Paixão, reuniram-se em uma Sexta-feira Santa e apresentaram-lhe, por escrito, um pedido: permissão para chamarem-no de Pai e para juntar a seus nomes o sobrenome dele − “De Barros”.

Comovido em extremo, o sensível sacerdote abraçou-as chorando ao vê-las e, em só movimento, todas beijaram sua mão caritativa. Desde essa ocasião − uma das mais felizes de sua vida − abençoava-as com decidido amor, como se a natureza o tivesse agraciado, fazendo-o patriarca daquela numerosa prole.

Por Regina Portella Schneider*
no Correio do Povo, outubro de 2019.

*Historiadora, ex-aluna e ex-professora do Instituto de Educação Flores da Cunha.


Colégio Santa Teresa

O Conjunto Arquitetônico da Fase é parte do complexo criado pelo Padre Cacique em prol dos menos favorecidos no séc. XIX.

O tombamento do conjunto arquitetônico da FASE (Fundação de Atendimento Sócio Educativo) inclui, além de uma área arborizada junto à Avenida Padre Cacique, os prédios: 1. Antigo Asilo São Joaquim, hoje sede administrativa da FASE; e 2. Antiga Escola Santa Teresa, foto acima, atual Centro de Atendimento Sócio-Educativo (CASE Padre Cacique).

A área tombada faz parte do complexo criado por Joaquim Cacique de Barros, o Padre Cacique, sendo um testemunho das ações realizadas em prol dos menos favorecidos iniciadas no século XIX. O Asilo Padre Cacique, também fundado pelo Padre, foi tombado pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre em 2007 e não faz parte do tombamento estadual.

A Escola Santa Teresa era uma escola para meninas, fundada por D. Pedro II como homenagem à Imperatriz Teresa Cristina. A edificação foi projetada pelo arquiteto francês Grandjean de Montigny, que havia chegado ao Brasil em 1816 com a Missão Artística Francesa, tornando-se o principal arquiteto do império até sua morte, em 1850, e um dos responsáveis pala difusão da arquitetura neoclássica no Brasil, contribuindo para o abandono das velhas soluções coloniais. O colégio foi um dos dois únicos prédios projetados por Montigny fora do Rio de Janeiro. A construção foi feita por etapas, tendo iniciado em 1846. Foi concluída apenas em 1864 pelo Padre Cacique, que se empenhou na conclusão das obras, inaugurando ali uma escola para meninas órfãs.

Dando continuidade a sua obra assistencial, em 1880 começou a erguer o prédio que abrigaria o Asilo de Mendicidade, atual Asilo Padre Cacique. Em 1898 a construção foi concluída, e o asilo aberto para receber os mendigos da cidade. Hoje se destina ao atendimento de idosos.

Ainda em vida, o padre registrou uma empresa jurídica, para que o trabalho assistencial iniciado por ele tivesse continuidade. Dessa forma foi criada a Sociedade Humanitária Padre Cacique, mantenedora do atual Asilo. Nesta ocasião a fundação possuía a Escola Santa Teresa – responsável pela educação de meninas órfãs – e o Asilo de Mendicidade. No entanto, o padre não conseguiu realizar em vida o asilo para meninos órfãos, e apenas em 1932, um ano após o centenário de seu nascimento, a fundação inaugurou o Asilo São Joaquim, destinado à educação de meninos. Com isso, realizou-se o sonho do padre: uma escola/orfanato para meninas, um asilo de mendicidade e uma escola/orfanato para meninos.

Ao longo das décadas de 1930 e 1940 a fundação teve dificuldades financeiras para manter ativas as três unidades assistenciais, já que o governo estadual estava reduzindo gradualmente suas doações para a fundação. Em 1945, a Escola Santa Teresa já não ocupava o prédio projetado por Grandjean de Montigny, e as meninas estavam alojadas no prédio do Asilo São Joaquim. Nesse momento, houve uma intervenção na instituição, sendo encampada pelo estado a área de 74 hectares que incluía os prédios, sob protestos da fundação e da sociedade gaúcha.

Em 1948 o local abrigava o SESME-RS – Serviço Social de Menores, que ocupou os prédios e começou uma reforma para adaptá-los à sua nova função. Após uma ação judicial ajuizada pela Sociedade Humanitária Padre Cacique, em 1949 o Governo do Estado devolveu ao impetrante apenas o prédio do Asilo de Mendicidade. Na década de sessenta, durante a intervenção militar, o complexo abrigou, além de menores, presos políticos. Com o fim do regime militar, o local voltou a atender somente menores abrigados pela extinta FEBEM (atual FASE), fato que se mantém até hoje.

As edificações existentes na área (fotos abaixo) foram alteradas em relação aos aspectos estéticos e técnicos, de maneira diferenciada. No prédio da Antiga Escola Santa Teresa, foram eliminadas as características originais das fachadas, como elementos decorativos e esquadrias, restando apenas as grossas paredes das alas originais, como um testemunho da técnica construtiva utilizada no século XIX. Quanto ao antigo asilo para meninos, apesar das alterações e acréscimos posteriores que descaracterizaram o prédio, ainda são reconhecíveis na fachada principal os elementos ornamentais ali presentes, constituindo um exemplo da arquitetura eclética produzida no estado no início do século XX.

Fonte: IPHAE.


Foto acima e abaixo, o que restou do conjunto arquitetônico.


Do blog ipatrimônio
patrimônio cultural brasileiro