sábado, 31 de agosto de 2024

Só sei falar de amor

 Liana Ferraz* 

Impressão minha ou você me prefere triste?

Tenho reparado nos cuidados. Tenho reparado muito. Nos carinhos e nos beijos. Tenho reparado nos olhos. E no lugar longe que habita quando eu me expando demais. No sorriso que some. Na tensão nos ombros. 

Tenho reparado que minha voz, num volume alto, incomoda. E minha gargalhada parece escandalosa demais, E eu, quando fico solta, quando solto os cabelos, quando solto o verbo, a verdade, a opinião, a proposta. Eu, quando estou solta, percebo seu desconforto. É visível. É uma boca diferente. Eu reconheço seu grunhido. Eu sou fluente nesse idioma. Traduz-se: seja mais discreta. 

Eu, triste, sou uma pessoa tão quieta e cheia de sussurros. Sou tão precisada de palavras suas. Sou triste e cheia de pequenos desesperos. Furos. Machucadinhos. 

Tenho reparado no orgulho que fica quando coloca um curativo numa tristeza minha. Quando mistura esse amor-cuidado com o poder de ter a cura, o antídoto, de me arrancar um sorriso breve. De me fazer levantar da cama. E quando manipula a dose sem tanta alegria para que não escape essa pessoa morninha, inofensiva e mansa que sou quando estou triste. Sou mais sua. Sou mais bichinho carente e domesticado. 

(recupero o fôlego agora) 

Para recusar, é preciso conhecer. Para escolher, é preciso saber. Este não é um texto triste, afinal. Triste é confundir controle com amor. Este é um recado-chamado-atenção às mulheres que têm se tornado mais tristes para receber migalhas de algo que pode se disfarçar de amor. 

* Liana Ferraz é escritora e atriz. 

(Da revista Cláudia, agosto de 2024) 

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

Para refletir

 

Um dia, um jovem perguntou ao avô como ele poderia viver antes... 

- Sem tecnologia

- Sem internet

- Sem computadores

- Sem drones

- Sem tik-tok

- Sem instagram

- Sem facebook 

O avô respondeu: 

‒  Assim como sua geração vive hoje... 

- Sem orações

- Sem dignidade

- Sem compaixão

- Sem vergonha

- Sem hombridade

- Sem respeito

- Sem personalidade

- Sem caráter

- Sem amor próprio

- Sem modéstia

- Sem honra 

- Sem resiliência

Nós, os nascidos entre 1940 e 1990, somos abençoados, nossa vida é a prova viva disso. 

• Quando andávamos de bicicleta, nunca usávamos capacetes, se nos machucávamos, o mercurocromo curava tudo. 

• Depois da escola, fazíamos nossa lição de casa e saímos para brincar até o anoitecer. 

• Cada pai nos chamava para casa com seu próprio apito e sem nos questionar. 

• Jogávamos com amigos de verdade, não com amigos da internet. 

• Se alguma vez sentíamos sede, bebíamos água da torneira, não água engarrafada. 

• Nunca ficávamos doentes ao compartilhar o mesmo copo com nossos amigos. 

• Nunca engordamos comendo pratos de arroz e feijão todos os dias e goiabada com pão. 

• Nada aconteceu aos nossos pés, apesar de andarmos descalços por horas. 

• Nunca usamos suplementos dietéticos para nos mantermos saudáveis. 

• Costumávamos criar nossos próprios brinquedos e brincar com eles. 

• Nossos pais não eram ricos. Eles nos deram amor, não materiais mundanos.

• Nunca tivemos telemóveis, dvd, playstation, xbox, videogames, computadores pessoais, iphone, ipad, netflix, internet... mas tínhamos amigos de verdade e não amigos virtuais. 

• Visitávamos a casa de nossos amigos sem ter sido convidados e almoçávamos com eles. 

• Membros da família moravam perto para aproveitar o tempo com a família. 

• Podemos ter estado em fotos em preto e branco, mas podemos encontrar memórias muito coloridas nessas fotos. 

• Somos uma geração única e mais compreensiva, porque somos a última geração a ouvir os seus pais. 

E também a primeira que teve que ouvir seus filhos. 

Pense nisso! 

Um Conselho do Seu Ombro Amigo. 

(Autor desconhecido)

quinta-feira, 29 de agosto de 2024

Wilson, Geraldo e Noel

 João Nogueira

Desenho de Fernada Massotti 

Eu bem que sabia
Que o samba que eu tinha na mente
Era diferente, com jeito de Wilson, Geraldo, Noel.

Puxei a cadeira, não bati mais papo,
Peguei a caneta e o guardanapo,
Passei o samba pro papel.

Nos versos, joguei a malícia lá da malandragem,
Correr da polícia tem que ter coragem,
Malandro que dorme vai cedo pro céu.

Peguei o meu samba e fui logo mostrando
À meiga Elizeth, ela disse sorrindo:
‒ Nego tem tupeti,
Já pode sambar lá em Vila Isabel.

Daí em diante, eu já fui consagrado,
Ó meiga Elizeth, o meu muito obrigado
E do outro lado,
Obrigado a Wilson, Geraldo, Noel.
 

(Repete) 

Eu bem que sabia
Sabia que o samba que eu tinha na mente
Era diferente, com jeito de Wilson, Geraldo, Noel.

Puxei a cadeira, não bati mais papo,
Peguei a caneta e o guardanapo,
Passei o samba pro papel.

Nos versos, joguei a malícia lá da malandragem,
Correr da polícia tem que ter coragem.
Malandro que dorme vai cedo pro céu.

Peguei o meu samba e fui logo mostrando
À meiga Elizeth, ela disse sorrindo:
‒ Nego tem tupeti,
Já pode sambar lá em Vila Isabel.

Daí em diante, eu já fui consagrado.
Ó meiga Elizeth, o meu muito obrigado
E do outro lado,
Obrigado a Wilson, Geraldo, Noel

E do outro lado
Obrigado a Wilson, Geraldo, Noel.

Eu bem que sabia, né, João! 

P.S. Escute, na internet, esse samba na voz de Gisa Nogueira, irmã de João Nogueira. Cantora, compositora, filha de Dona Neuza, cantora amadora, e de João Batista Nogueira, advogado e músico que pertenceu ao Regional de Rogério Guimarães, e chamado por Pixinguinha de mestre no violão.

Wilson Batista

(1913-1968)

Geraldo Pereira

(1918-1955)


Noel Rosa

(1910-1937)

terça-feira, 27 de agosto de 2024

O reencontro entre professor e aluno

 Carpinejar

A gratidão é desinteressada. 

Você terá não por quem esteve sempre ao seu lado, mas por quem passou pela sua história e você ajudou sem perceber. 

É comum professor reencontrar um aluno 10, 15, 20 anos depois da sala de aula. Enfrenta, inclusive, dificuldade para reconhecer aquele estudante que foi criança ou foi jovem em sua turma, agora na feição madura. Leva um susto da saudade, do imprevisto, do esbarrão. Está aposentado, a escola desponta lá longe, lá trás, num carimbo inofensivo na carteira de trabalho, e o aluno mexe com as reminiscências: 

‒ Você salvou a minha vida! 

‒ Você mudou a minha vida! 

‒ Você ressignificou a minha vida! 

‒ Eu escolhi a minha profissão pela sua disciplina. 

O professor se espanta com a revelação, não se lembra do que ele falou, nem das circunstâncias da conversa, muito menos do contexto da lição e da ordem das frases. 

E não importa a amnésia dos detalhes, o obscurecimento da face de centenas de alunos que se sentaram em sua classe, que povoaram a sua lista de chamada. E até natural ficar confuso. 

Mesmo que ele não se recorde de todos em particular, cada um se recorda dele de modo único. 

O aluno se lembra de tudo: o professor o marcou decisivamente. Retoma vírgula por vírgula do seu pronunciamento, o que estava vestindo, que dia era. O aluno devolve elogio. Restitui a descrição exata do momento. 

A boca do mestre soprou coragem quando o aluno mais necessitava, o coração do mestre disparou confiança quando o aluno se mostrava desacreditado, o peito do mestre emoldurou uma veemente recomendação quando o aluno sofria bulling. 

Nossa estrada não é apenas ida. 

Você planta memórias para os demais ao seu redor, não somente para si. Quantas memórias já fincamos na terra, não imaginando qual seria a colheita? 

Largamos sementes e não notamos o quanto elas floresceram. Pusemos o grão ali e seguimos adiante. 

Se você pensa que não tem valor, se você se vê em crise de identidade, se você se sente inútil: pegue a sua estrada e faça o caminho de volta.  Retorne ao lugar de onde você veio, regresse para a sua origem, recupere os seus contatos antigos, visite a sua família, a casa em que nasceu, o bairro da infância, os seus primeiros empregos, o território de sua formação. 

Descobrirá uma diversidade de existências erguidas e de carreiras iniciadas pelo seu incentivo, de sonhos empurrados pelas suas palavras. 

E se fascinará com a sombra do bosque, com as árvores frondosas enfileiradas, todas filhas de seu gesto, todas germinadas de suas mãos. 

Sem jamais cogitar, você possui a escolta de uma floresta humana. Sem dimensionar, você possui um exército de aliados. Não guardava a mínima noção do impacto de suas ideias, de seu amor, de suas aspirações, de sua vocação em tantos íntimos desconhecidos. 

Não pode mais chamar o que viveu de fracasso. Não pode mais chamar o que viveu de rumo perdido. Não pode mais chamar o que viveu de derrota. 

Como você andava obsessivamente para a frente, não havia colhido os resultados da sua interação com o universo. Não conhecia a força do seu legado, a complexidade de seu comportamento, a influência que exerceu sobre várias trajetórias. 

É por isso que grandes revoluções pessoais costumam acontecer quando você realiza o caminho de volta. 

Você volta para se enxergar nos outros. 

(Do jornal Zero Hora, agosto de 2024)

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

A Mentira

 João Ribeiro

Sei da história de um pastor americano ou escocês (já não me recordo o hemisfério desse conto), o qual, uma vez, ao largo e atento auditório que costumava ouvi-lo, fez saber que no dia seguinte iria falar sobre o feio pecado da mentira:             

– Vou pregar amanhã sobre a mentira, advertiu o bom pastor. 

– Peço, porém, a todos os meus queridos ouvintes que, para melhor preparação do que irei dizer, leiam todos o capítulo dezessete de São Marcos. Considero indispensável essa leitura prévia. 

No dia seguinte, compareceram todos. E logo, o pastor inquiriu previamente: 

– Aqueles que leram o capítulo XVII de São Marcos, conforme a minha recomendação, queiram levantar-se. 

Levantaram-se todos como um só homem. E o pastor prosseguiu: 

– Sois vós realmente os verdadeiros ouvintes do meu sermão de hoje sobre a mentira, porque, em verdade, não existe o capítulo dezessete. O evangelho de São Marcos tem apenas dezesseis capítulos. 

Ouvindo falar de Deus

 

Olhando para os céus e observando as estrelas, ou olhando para as flores e prestando atenção nos seus detalhes, ou, ainda, acompanhando a gestação, o nascimento e crescimento de uma criança, não há como evitar nosso reconhecimento ao Criador da vida. Ouvir sobre as conquistas científicas feitas por Willian Morton, com a descoberta da anestesia cirúrgica, ou por Alexander Fleming, que descobriu a penicilina. Lembrando Howard Florey e Ernst Chain, que conseguiram purificar a penicilina, uma etapa importante para seu uso mais seguro em seres humanos. Von Mehring e Minkowski e a descoberta da insulina; Robert Hooke, que construiu o primeiro microscópio. Alexander Graham Nell, que inventou o telefone e Santos Dumont e a invenção do avião... É ouvir falar de Deus.

Ouvir falar das ações nobilíssimas de madre Teresa de Calcutá e sua dedicação aos pobres em todo o mundo; de Martin Luther King e sua luta pelos direitos dos negros. Lembrar de Kofi Annam, secretário geral da ONU, e sua luta pela paz entre as nações. Pensar em Dalai Lama, e sua pregação pela vida em harmonia; em Shirin Ebadi e seus esforços pela democracia e os direitos humanos, especialmente por sua luta pelos direitos das mulheres e das crianças, em Chico Xavier e sua vida dedicada à caridade... É ouvir falar de Deus. 

Ouvir falar das ações humanitárias da campanha internacional de banimento das minas terrestres e da organização “médicos sem fronteiras”...  É ouvir falar de Deus. Cada país, cada região do mundo, por intermédio de ditos e feitos nas mais variadas áreas do pensamento e da ação humana, de maior ou menor expressão, terá ouvido falar de Deus, com certeza. 

No entanto, a história da humanidade não é feita somente com grandes realizações. Ela é composta, principalmente, pelas ações quase anônimas, que acontecem dentro dos lares, nas relações fraternas entre as pessoas, no dia-a-dia de cada um. Por menores que sejam serão importantes para a vida, desde que nossas ações possam também falar de Deus a quem as presencia ou delas tome conhecimento. Assim, reveja sua auto-estima, veja-se na condição de quem está auxiliando na construção do mundo, e nunca diga “impossível” para seus planos, sempre que estiverem alicerçados em bons propósitos. 

Pense nisso!

Não existe nada mais horrível do que gente que diz: “é impossível”. Com sua postura altiva reprovam qualquer tentativa. Não vêem a menor validade na história da humanidade. Por eles não haveria a invenção do carro, do rádio, da televisão, nem do computador e sua memória. Viveríamos na pré-história. 

Se as pessoas que dizem: “impossível”, governassem, o mundo seria um lugar bem sem graça. Descortine a janela da alma com mãos operosas no bem, para que ali se faça mais presente o sol da vida. Retire as vendas do preconceito dos olhos para que possa enxergar a vida em toda a sua verdadeira grandeza, e você entenderá muito bem a assertiva de Jesus de que é preciso ter olhos de ver e ouvidos de ouvir. E, com olhos de ver e ouvidos de ouvir, você mais e mais encontrará Deus em sua vida. “A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho original”, ensinou Albert Einstein.

 (Do “Livro das Virtudes para Crianças” de Wlliam J Bennett.)


Frases de Sêneca

 Para Viver com Sabedoria e Equilíbrio

Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que ela já passou por nós sem que tivéssemos percebido. O fato é o seguinte: não recebemos uma vida breve, mas a fazemos, nem somos dela carentes, mas esbanjadores. Sêneca – Sobre a Brevidade da Vida. 

10 Frases de Sêneca para Aplicar a Filosofia Estoica na Prática. 

Sêneca foi um filósofo romano que viveu entre 4 a.C e 65 d.C.  

Ficou conhecido por ser um dos principais representantes do estoicismo, filosofia que valoriza a razão, a virtude e a busca pela tranquilidade como forma de alcançar a felicidade.  

Veja essas 10 frases de Sêneca para aplicar a filosofia estoica na prática: 

01. Apressa-te a viver bem e pense que cada dia é, por si só, uma vida. 

02. Enquanto você viver, continue aprendendo a viver. 

03. As pessoas são frugais na guarda de seus bens pessoais; mas quando o assunto é desperdiçar o tempo, perdem muito daquilo em que é certo ser mesquinho. 

04. Frequentemente, um homem muito velho não tem outra prova de sua longa vida além de sua idade. 

05. Enquanto esperamos pela vida, a vida passa. 

06. A parte da vida que realmente vivemos é pequena. Pois todo o resto da existência não é vida, mas apenas tempo. 

07. Vocês agem como mortais em tudo o que temem e como imortais em tudo o que desejam. 

08. Como é um conto, assim também é a vida: não importa quanto tempo dura, mas quão boa é. 

09. Esperar é o maior obstáculo para viver. Esperando o amanhã, perdemos o hoje. 

10. Nenhuma pessoa tem o poder de ter tudo o que deseja. Mas está em seu poder não querer o que não tem, e fazer bom uso do que tem. 

Frases de Sêneca para Refletir Profundamente 

O estoicismo influenciou não apenas a filosofia, mas também a política e a cultura romana. 

Por isso, teve uma grande influência na cultura ocidental, e pode ser considerada uma das correntes filosóficas mais importantes e influentes da história. 

Veja a seguir 15 frases de Sêneca para refletir profundamente: 

01. Toda crueldade surge de uma fraqueza. 

02. Muitas vezes, até mesmo viver pode ser um ato de coragem. 

03. Sofremos mais na imaginação do que na realidade. 

04. Sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade. 

05. As dificuldades fortalecem a mente, assim como o trabalho fortalece o corpo. 

06. Aquele que é corajoso, é livre. 

07. Ninguém se torna sábio por apenas uma ocasião. 

08. Só o tempo pode curar aquilo que a razão não pode. 

09; Se um homem não sabe para que porto embarca, nenhum vento é favorável. 

10. A riqueza é escrava de um homem sábio e mestre de um homem tolo. 

11. O mais poderoso é aquele que tem a si mesmo em seu próprio poder. 

12. Aquele que poupa os ímpios prejudica os bons.

13. Desfrute dos prazeres presentes de forma a não prejudicar os futuros. 

14. Não é o homem que tem muito pouco, mas sim o homem que anseia por mais, que é pobre. 

15. Uma espada nunca matou ninguém; é apenas uma ferramenta nas mãos do assassino. 

(Cadernos Filosóficos)

sábado, 24 de agosto de 2024

O valor da generosidade

 

Uma vez, quando eu era adolescente, meu pai e eu estávamos na fila para comprar ingressos para o circo, havia apenas uma outra família entre nós e o balcão de passagens. Esta família causou uma grande impressão em mim. 

Eram oito crianças, todas provavelmente com menos de 12 anos. Pela maneira como se vestiam, dava para ver que não tinham muito dinheiro, mas suas roupas eram arrumadas e limpas. As crianças eram bem comportadas, todas em fila, duas a duas atrás dos pais, de mãos dadas. Eles estavam tagarelando excitadamente sobre os palhaços, animais e todos os atos que veriam naquela noite. Pela empolgação deles, você podia sentir que eles nunca haviam ido ao circo antes. Seria um ponto alto de suas vidas. 

O pai e a mãe estavam à frente da matilha, orgulhosos como poderiam estar. A mãe segurava a mão do marido, olhando para ele como se dissesse: “Você é meu cavaleiro de armadura brilhante”. Ele estava sorrindo e gostando de ver sua família feliz. 

A bilheteira perguntou ao homem quantos bilhetes ele queria? 

Ele respondeu com orgulho: 

‒ Gostaria de comprar oito ingressos para crianças e dois ingressos para adultos, para poder levar minha família ao circo. 

A senhora do bilhete indicou o preço. 

A esposa do homem largou sua mão, sua cabeça caiu, os lábios do homem começaram a tremer. Então ele se inclinou um pouco mais perto e perguntou: 

‒ Quanto você disse? 

A senhora do bilhete voltou a indicar o preço. 

O homem não tinha dinheiro suficiente. 

Como ele deveria se virar e dizer a seus oito filhos que não tinha dinheiro suficiente para levá-los ao circo? 

Vendo o que estava acontecendo, meu pai enfiou a mão no bolso, tirou uma nota de 20 dólares e a jogou no chão. (Não éramos ricos em nenhum sentido da palavra!) 

Meu pai se abaixou, pegou a nota de 20 dólares, deu um tapinha no ombro do homem e disse: 

‒ Com licença, senhor, isso caiu do seu bolso. 

O homem entendeu o que estava acontecendo. Ele não estava implorando por uma esmola, mas certamente apreciou a ajuda em uma situação desesperadora, dolorosa e constrangedora. 

Ele olhou direto nos olhos do meu pai, pegou a mão dele entre as suas, apertou com força a nota de 20 dólares e, com o lábio tremendo e uma lágrima escorrendo pelo rosto, ele respondeu: 

‒ Obrigado, obrigado, senhor. Isso realmente significa muito para mim e minha família. 

Meu pai e eu voltamos para o nosso carro e dirigimos para casa. 

Os 20 dólares que meu pai doou eram com que íamos comprar nossos próprios ingressos. Embora não tenhamos conseguido ver o circo naquela noite, nós dois sentimos uma alegria dentro de nós muito maior do que ver o circo e o que ele poderia nos proporcionar. 

Naquele dia, aprendi o valor de Dar. O Doador é maior do que o Receptor. Se você quer ser grande, maior do que a vida, aprenda a dar. O amor não tem nada a ver com o que você espera receber ‒ apenas com o que espera dar ‒ que é tudo. A importância de dar e abençoar os outros nunca pode ser superestimada porque sempre há alegria em dar. 

“Aprenda a fazer alguém feliz por meio de atos de generosidade.” 

História atribuída à atriz Katharine Hepburn 

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

O significado de cada beijo

 Carpinejar

O beijo tem um idioma, um repertório, uma variedade. Cada beijo traz um significado, uma intenção, uma virtude, uma mensagem específica. 

Não paramos para meditar sobre a dimensão espiritual no ato de pressionar os lábios, o que há por trás da engrenagem que move o rosto por uma necessidade maior e silenciosa de comunicação. 

Talvez nenhum movimento do corpo faça com que nos sintamos tão reais, tão amados, tão traduzidos. 

A escritora francesa George Sand concebia o beijo como uma forma de diálogo. O poeta chileno Pablo Neruda encontrava nele um jeito de calar o medo. 

Ambos os autores destacavam o gesto supremo de falar tudo falando cada vez menos. 

Eu decidi listar tipos tradicionais de beijo e seus enunciados: 

Benção ‒ Beijo na mão é respeito. Você beija a mão para homenagear alguém mais velho: um pai, uma mãe, um vô, uma avó, um mestre. É como solicitar a bênção, numa reverência que denota uma vontade de ser parecido em termos de princípios e retidão de caráter. A prostração humilde está longe de representar submissão. Possui uma função de espelho, de aprendiz diante da sabedoria. 

Licença ‒ Beijo na mão, de joelhos, é admiração. Você beija a mão na hora de pedir quem ama em casamento. É um licença para viver junto, uma autorização para dividir o espaço. 

Proteção ‒ Beijo na testa é proteção. É ser telhado para algum rosto. Você faz com os filhos, você recebe dos pais. Significa assumir a tutela, adotar a responsabilidade com orgulho, mostrar-se disponível para o cuidado. Garante uma retaguarda do que vier pela frente, um estímulo para a coragem: “vá com fé, não estará sozinho”. 

Janela da alma ‒ Beijo nas pálpebras é gratidão pela existência do outro. É o beijo de compreensão, da cumplicidade, do conforto: “eu entendo quem você é”. É como atravessar a janela dos olhos para enxergar a alma. Você umedece levemente as pálpebras, iluminando o mundo interior. O beijo se transforma em lágrima da felicidade. Costuma ocorrer em comemorações e superação de adversidades. 

Brincadeira ‒ Beijo na ponta do nariz é uma comicidade inesperada, uma brincadeira, quando se busca chamar atenção e distrair aquele que carrega uma tristeza ou um aborrecimento. Funciona como um chamado para sair da introspeção, para se animar e não se abater pelos pensamentos pessimistas. 

Segredo ‒ Beijo na nuca é intimidade. Trata-se de um beijo secreto do casal, a sós, distanciado de qualquer testemunha. Um convite para o enlace, para o enamoramento. Provoca arrepio, ardências do desejo. 

Lealdade ‒ Beijo no pescoço retrata fidelidade, uma sintonia de comportamento, um alinhamento de dedicação. Você renova os votos, inspira confiança. É um toque suave, apartado dos dentes, em que transparece reciprocidade. 

Afeição ‒ De conhecimento comum, beijo no rosto é amizade, destinado ao seu círculo de afetos. Não cobiça a boca. Nem chega perto. Tem o carimbo certeiro das bochechas em rápido estalar. Dependendo da convenção social da região, podem ser um, dois ou três beijos. 

Soma de tudo ‒ Beijo na boca reúne todos os beijos dentro do amor: é bênção, é admiração, é proteção, é gratidão, é incentivo, é intimidade, é fidelidade, é amizade. É quando você se vê, sem distinção, beijando e sendo beijado ao mesmo tempo. 

(Do jornal Zero Hora, agosto de 2024)

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

Como fazer amor

 Gabriel García Márquez

‒ Então o que vamos fazer?

‒ O Amor.

‒ Tem certeza?

‒ Sím.

‒ Bem, vou me despindo.

‒ E por que você está tirando sua roupa?

‒ Então, para fazer.

‒ Quem te disse que você tem que se despir para FAZER AMOR?

‒ Pois que eu saiba é assim que se faz.

‒ Não, essa não é a única maneira de fazer Amor.

‒ E como é então?

‒ Apenas deixe a roupa vestida e conversemos até cansarmos, riamos por nada e por tudo, olhemos devagar até tentarmos decifrar.

Comigo você não precisa se despir de corpo, mas de alma, apenas nos olhar até ficarmos sem palavras, e ali, nesse instante em que as palavras são insuficientes para explicar o que sentimos, nesse silêncio infinito finalmente poderemos nos tocar. Percebes?

‒ Tocar-nos?

‒ Sim, tocar-nos com a ternura dócil de uma carícia que se expanda docemente até morrer num abraço.

‒ Ai, que lindo.

‒ Olha, deixa eu segurar a sua mão?

‒ Sim.

‒ Sente? essa é uma das maneiras de fazer amor.

É sobre isso.

Você apenas deixe a roupa vestida e vamos conversar até cansar, vamos só olhar a boca, os cílios, os lábios por um tempo e se o beijo for necessário virá sem pedir licença.

Vamos conversar até conhecermos todas as nossas memórias, até sabermos os nossos segredos mais profundos, apenas deixe-me olhar para você até o mais extremo e requintado deleite, deixe-me ver a ALMA até o cansaço, até que estes olhos se rendam e me obriguem a baixar as pálpebras me incitando a dormir.

‒ E você vai forçá-los a ficar abertos?

‒ Sim, para olhá-la a noite toda...

Só você. 

(Depósito literário)

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

O ‛gol olímpico’ agora está na regra

 

A história de um dos lances mais raros do futebol passou pelas páginas do Correio. Na edição de 20 de agosto de 1924, uma nota à página 6 trazia a novidade: gol direto de escanteio agora vale. 

A notícia fazia referência a uma decisão de algumas semanas antes de se efetivar o lance no corpo da regra. Logo depois, em 2 de outubro daquele ano, o argentino Cesáreo Onzari marcou desta forma contra os uruguaios na vitória de sua equipe por 2 a 1. A fim de ironizar os rivais platinos, que haviam acabado de se sagrar campeões olímpicos em Paris, junho de 1924, os argentinos chamaram o gol de Onzari exatamente de “olímpico”. 

“Com a última resolução da Amateur Association Foot-Ball, da Inglaterra, resolução tomada após a realização do Campeonato Olympico Foot-Ball, todo o gol direto de córner (diretamente da cobrança de escanteio) é, doravante, válido. A Federação Internacional de Foot-Ball Association homologou essa decisão e introduziu-a no seu regulamento. Assim, fica o nosso público esportivo sabendo que o gol direto de córner é válido.” 

Do jornal Correio do Povo, 20 de agosto de 2024)

terça-feira, 20 de agosto de 2024

Hoje a saudade me abraçou

 Andrea Domingues

É que eu sou de uma época.

Que contava estrelas no céu,

Onde o cheirinho de terra molhada

Era a alegria estampada no olhar. 

Que correr atrás de vaga-lume,

Fechar o guarda chuva de propósito,

Apertar às campainhas,

Subir no pé de fruta,

Sentar na beira do fogão à lenha

Era a maior riqueza do mundo. 

Que andar descalço não dava nenhum resfriado.

No máximo bichinho de pé, oh coceira boa! 

Não tinha essa de marcar horário de ir para rua.

A gente ia e todos estavam lá.

Ah, se a gente soubesse que aquele dia seria a última brincadeira de infância.

A gente teria, pelo menos, dado um adeus.

Três beijinhos no rosto e um abraço de urso tipo quebra ossos. 

Ah, se a gente soubesse...

Bater o dedinho no móvel dói.

Ralar os joelhos no chão dói.

Cair da bicicleta dói.

Mas, quanto dói uma saudade?

Telepatia entre amigos

Telepatia: habilidade de adquirir informação acerca dos pensamentos, sentimentos ou atividades de outro ser consciente, sem o uso de ferramentas tais como a linguagem verbal, corporal, de sinais ou a escrita...


Agora irei demonstrar a vocês como se brinca de telepatia com seus amiguinhos. Um garoto será o telepata, com os olhos vendados para não enxergar nada. Um outro garoto fará o papel de assistente, que dará dicas ao telepata. 

A brincadeira consiste no seguinte: O menino-telepata senta-se numa cadeira de costas para uma mesa, onde podem estar três bolinhas de cores diferentes: à sua direita, uma bolina de cor amarela; no meio, uma bolinha de cor vermelha; na sua esquerda, uma bolinha de cor verde. 

O menino-assistente irá perguntar a um dos amiguinhos presentes que indiquem, apontado com o dedo, uma das bolinhas, sem falar nada. O auxiliar se comunica verbalmente com o telepata, que diz qual foi a cor da bolinha apontada, com 100% de acerto. 

E como acontece a telepatia? 

Suponhamos que um menino aponte a bolinha amarela, o assistente falará alto ao telepata: Mestre, pronto! 

Suponhamos que um menino aponte a bolinha vermelha, o assistente falará alto ao telepata: Mestre, pode adivinhar! 

Suponhamos que um menino aponte a bolinha verde, o assistente falará alto ao telepata: Mestre, qual bolinha apontada? 

O jogo também poderá ser feito com caixinhas de fósforo, sendo que o telepata dirá: a caixinha apontada é da minha esquerda; ou a caixinha do meio; ou da minha direita, com o assistente dizendo ao “telepata” as mesmas palavras acima: 

O segredo consiste em dizer: 

Mestre, pronto! → para a bolinha amarela e a caixinha à sua esquerda. 

Mestre, pode adivinhar! → para a bolina vermelha e a caixinha no meio. 

Mestre, qual caixinha apontada! → para a bolinha verde e a caixinha à sua direita. 

P.S. A cada dia e para turmas diferentes ou mesmo para a mesma turma, trocam-se as palavras, com que o assistente se comunica com o “telepata”, dando a ilusão que o “telepata” recebe o aviso do seu “assistente” por ondas mentais.

O importante, ainda, é que o assistente não erre as palavras ditas ao “telepata” senão este errará a cor da bolina e a caixa de fósforos apontada.

Observação final: O menino que faz o papel de telepata fará uma encenação como se realmente estivesse recebendo uma mensagem, e o menino que faz o papel de assistente fará outra encenação como se estivesse mandando uma mensagem pelo pensamento ao “telepata”. 

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

Chimarrão longe de casa

 

Um caminhoneiro gaúcho chega num restaurante de beira de estrada, na região sudeste do Brasil, e pede uma refeição. Um gaiato, vendo a sua indumentária típica do Sul, pergunta a ele: 

− Aí, meu irmão, é verdade que vocês tomam uma bebida amarga pra cacete e ainda por cima quente pra caramba? 

− É claro, tchê, chimarrão é bebida de macho! 

A seguir, ele pede ao atendente do restaurante que esquente uma água para ele tomar o seu mate antes do almoço. 

O atendente ferve a água na temperatura máxima e a dá ao gauchão. 

Este, não percebendo a fervura da água, olhando a todos com ar superior, dá uma tragada com toda a força. 

Ao perceber a sacanagem, ele aguenta a fervura no osso do peito. A água está tão quente que ele chegar a encher os olhos de lágrimas. 

Um gaiato, só pra sacanear, pergunta: 

− Esta quente a água, compadre? 

− Que nada, tchê, quando tomo chimarrão longe de casa me dá uma saudade do Pago... 

domingo, 18 de agosto de 2024

Imunizar anualmente

 

O que é H1N1 e como evolui para broncopneumonia, causa da morte de Silvio Santos? 

Apresentador e dono do SBT estava internado desde o início de agosto devido a complicações associadas a um quadro de gripe. 

Por Roberta Jansen 

(17.08.2024) 

O apresentador Sílvio Santos, de 93 anos, morreu no fim da madrugada deste sábado, 17.08.2024, às 4h50min, no Hospital Israelita Albert Einstein, onde estava internado há dezessete dias. Comunicado assinado por quatro médicos do hospital e divulgado pouco antes das 11h informou que Senor Abravanel morreu em decorrência de uma broncopneumonia após infecção por influenza A (H1N1). 

O empresário e apresentador Silvio Santos morreu devido a uma broncopneumonia após infecção por H1N1 

Em julho, o apresentador já havia sido internado no hospital por quatro dias, após ser diagnosticado com gripe H1N1. No dia primeiro de agosto ele retornou ao hospital já apresentando complicações decorrentes da gripe. 

Após uma infecção viral pelo H1N1 o paciente tende a ficar mais suscetível a uma infecção pulmonar bacteriana, desenvolvendo uma pneumonia. No caso da broncopneumonia, um subtipo da infecção, se estabelece uma inflamação nos alvéolos, estruturas pulmonares responsáveis pela troca de oxigênio com o sangue. 

O que é a influenza H1N1 

A influenza A (H1N1) é um subtipo do influenzavírus A e a causa mais comum de gripe em seres humanos. Por diferentes mutações, esse subtipo deu origem às mais diversas cepas, entre elas algumas mais virulentas, como a que provocou a epidemia de gripe espanhola em 1918. O H1N1 costuma estar por trás da maioria das internações por síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no País. 

Os principais sintomas da influenza A são febre, dor de garganta, tosse, dor no corpo, dor de cabeça, diarreia, vômito, fadiga, rouquidão, entre outros. 

A evolução da doença varia muito de acordo com o perfil do paciente. Pessoas com doenças crônicas, idosos e crianças menores de 2 anos são os mais vulneráveis e sujeitos a complicações, como a pneumonia.

A vacinação é uma das principais medidas de prevenção da gripe. Como o vírus influenza é altamente mutável, a vacina é atualizada anualmente para que possa proteger contra os três subtipos do micro-organismo que mais circularam durante o último ano, incluindo a cepa mais recente do H1N1. 

Por isso, é importante se imunizar anualmente. O SUS disponibiliza a vacina gratuitamente para os grupos prioritários. Quando sobram vacinas, como foi neste ano, a campanha é aberta para toda a população. Para se vacinar, basta procurar a Unidade Básica de Saúde mais perto da sua casa. 

Outras medidas de prevenção são: lavar as mãos regularmente com água e sabão ou álcool em gel; evitar tocar os olhos, o nariz e a boca; cobrir o nariz e a boca ao espirrar e evitar o compartilhamento de objetos de uso pessoal, como talheres, pratos, copos e garrafas. Outra medida importante é manter os ambientes ventilados e evitar o contato próximo com pessoas que apresentem sinais ou sintomas de gripe. 

Se a gripe for diagnosticada cedo, remédios antivirais podem ser administrados para o tratamento. Outras recomendações incluem ingerir muito líquido e se manter em isolamento para evitar a transmissão do vírus. Já a pneumonia bacteriana pode ser tratada com antibióticos. 

O curto comunicado médico divulgado pelo Albert Einstein sobre Silvio Santos na manhã deste sábado foi assinado por quatro médicos: o geriatra Gabriel Truppel Constantino, o geriatra Victor José Dornelas Melo, o cirurgião José Curado, e o diretor médico do hospital, Miguel Cendrorogio Neto. 

(Matéria do Estadão ‒ Saúde)

Existe vacina contra pneumonia?

Sim, existem vacinas contra a pneumonia:  

VPC10 

Disponível nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) para crianças de 2 meses a 4 anos e nos serviços privados de vacinação para crianças de 2 meses a 5 anos e pessoas com mais de 60 anos. 

A VPC10 protege contra 10 variações da bactéria pneumococo, que pode causar pneumonia, meningite, sinusite e otite. 

A vacina pode manter a proteção de 5 a 10 anos. 

O preço da vacina nos serviços privados de vacinação varia de região para região, é necessário consultar diretamente com o laboratório de sua escolha. 

Várias clínicas de vacinas e algumas farmácias particulares fazem essa vacina. 

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P.S. Este texto foi colocado neste almanaque como advertência para que as pessoas saibam que a gripe e a pneumonia, doenças fatais, podem ser bloqueadas no corpo do ser humano com vacinas eficazes. 

Se a gripe e a pneumonia atingiram uma das pessoas mais ricas e carismáticas do nosso país, elas podem atingir e matar qualquer pessoa. 

Portanto, vacine-se!

sábado, 17 de agosto de 2024

Dois pesos e a mesma medida

Um pequeno agricultor vendia manteiga em uma cidade muito pequena do interior.

O padeiro era um dos seus clientes mais fiéis. Mas um dia este começou a suspeitar que a barra de manteiga pesava menos do que estava pagando pela libra. 

Então, decidiu pesar a barra de manteiga na balança do seu próprio negócio e descobriu que seus medos não eram infundados. 

Reuniu outros padeiros testemunhas e encaminhou uma documentação ao tribunal para processar o fazendeiro. 

Uma vez lá, o juiz perguntou ao agricultor se ele usava uma medida para vender as libras de manteiga. 

Com uma voz segura e com muita coragem, o réu respondeu que, ao trabalhar com instrumentos primitivos, não tinha um mecanismo para pesar a sua mercadoria. No entanto, tinha um método que usava como escala. 

‒ Senhor juiz, muito antes do padeiro começar a comprar-me manteiga, eu compro-lhe um quilo de pão todos os dias. Ele traz-mo de manhã cedo, o que eu faço é colocá-lo em uma balança e dou-lhe a mesma quantidade de manteiga pelo peso que ele me dá de pão. 

Todos reclinaram o corpo para trás e olharam depreciativamente para o padeiro. 

Este decidiu retirar as acusações e nunca mais se queixou sobre o peso da manteiga. 

Moral: 

“Não faça aos outros o que você não quer que eles façam a você.”



sexta-feira, 16 de agosto de 2024

A Maria que batizou a bolacha

 Leandro Staudt

Com o popular nome feminino, a bolacha Maria é um sucesso entre muitas gerações. Mesmo muito antiga, continua atual. Os pacotes, de diferentes fabricantes, estão em todos os mercados, dos pequenos aos grandes. Além de ingredientes na torta, ela pode ser comida pura. Uns preferem acompanhar o lanche com um café, leite ou chá. Talvez vocês coloquem cobertura ou colem uma na outra com o saboroso recheio. 

A torta de bolacha Maria é a minha preferida. É daquelas memórias da infância, e não pode faltar nos aniversários. Sem qualquer dificuldade, também aprendi a fazer uma deliciosa torta. Sempre me perguntei quem foi a Maria da bolacha. Imaginava que era um produto brasileiro, mas estava enganado. Não foi nenhuma Maria das nossas cozinhas.

A bolacha parece uma medalha. Não é coincidência. A origem do produto está na homenagem a um casamento real na Inglaterra. A fabricante de bolachas Peek Frean a fez para celebrar o matrimônio, em 1874, da grã-duquesa Maria Alexandrovna, filha do czar russo Alexandre II, com o duque de Edimburgo, Alfredo Ernesto Alberto, segundo filho da rainha Vitória. A cerimônia do enlace das duas famílias reais ocorreu em São Petersburgo, na Rússia. 

A Marie biscuit, nome original em inglês, ficou popular na Inglaterra e rompeu fronteiras. Ela foi uma versão mais sofisticada do biscoito Rich Tea. O nome da homenageada, Maria ou Marie, está no centro da bolacha doce e redonda. Nas bordas, a fabricante colocou um desenho em padrão grego. 

A Maria produzida em vários países, com diferentes nomes. Na Espanha, a galleta María virou símbolo de recuperação econômica depois da guerra civil, no final da década de 1930. 

A bolacha Maria já estava no Brasil no início do século 20. Em 1904, o jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, publicou um texto do médico Carlos F. de Abreu que aconselhava a inclusão do biscoito na dieta para desmame de bebês de aproximadamente um ano. Em 1918, o jornal gaúcho A Federação publicou nota sobre o fornecimento de produtos para a Brigada Militar, desde cachaça até a bolacha Maria, da fábrica Leal Santos. 

Grã-duquesa da Rússia, duquesa de Saxe-Coburgo-Gota e duquesa de Edimburgo, Maria Alexandrovna, a Maria da bolacha, morreu em 1920, aos 67 anos. 

Do Almanaque Gaúcho, de Zero Hora, agosto de 2024