quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Quem cai na dança, não se “alembra” de mais nada

Anônimo (folclore popular)


Assim se costuma dizer, e é bem certo. Ora, eu lhe conto: uma vez um capitão soube que muitos praças de sua companhia estavam num cateretê ferrado, longe do quartel, bebendo, dançando, brigando, pintando os sete demônios.

Chamou a ordenança e mandou buscar a soldadesca. Mas, o camarada em lá chegando, vendo que o pagode estava mesmo bom, com cada cabocla xodó, de trazer água na boca, e com um violeiro que botar no verso e no ponteá não havia outro − esqueceu-se da ordem, e caiu também na dança.

O capitão cansado de esperar e vendo que nem os praças, nem o ordenança voltavam, chamou o cabo e o mandou atrás do pessoal. Mas, o cabo foi, e aconteceu a mesma coisa: caiu na dança, e também não voltou. O capitão já estava ardendo de raiva. E vai daí, mandou o furriel. Mas o furriel fez o mesmo: caiu na dança, e era um dia...

O capitão queimava. Estava mesmo para arrancar as barbas de bode. E mandou o sargento, com ordem de trazer todo aquele povo na chincha.

Mas, o sargento não era de ferro... e vendo tanta mulata de pega pra saí, entrou na roda: Eta! Rapaziada boa!

O capitão, brabo que nem cobra na hora da queimada, chispou o alferes em busca da negrada.

Mas o alferes − que havia de fazer? Era dos tais que não podem ver defunto sem chorar, e caiu na pândega, com os galões e tudo. E espera pra lá, capitão do inferno!

E o capitão apois mandou que o tenente trouxesse tudo de cambulhada, e, já sabia, trinta por sessenta na canalha.

E vai o tenente pegou da espada e foi bufando por ali afora, que parecia um raio.

Mas, então a coisa é que estava mesmo boa. Eta sapateado de remelexo! E o tenente deu a espada pru cabo e... entra, Juca! Aquilo ia correndo trinta por um mês, que era um regalo.

A corneta tocou, mas, nada! Ninguém apareceu na revista da companhia. Então é que o capitão quase tira as calças e pisa nelas. E resolveu ele mesmo ir buscar a rapaziada. Havia de pegá-la pra Judas! Riscou nos calcanhos, como caititu na trilha com cachorrada atrás...

Mas chegando ao pagode... Eh! Maria Chica danada pra dançar! Quando ela avistou o capitão, fez uma chamada com o lencinho bordado, estalou os dedinhos pra banda dele e o bicho entrou na dança, como sapa n′água.


Fechou a roda. A companhia inteira dançava que era uma gostosura. E o violeiro então pegou a cantar:

Venha ver, ó minha gente,
Como é boa esta função.
Viola, dança e mulata
Prende inté seu capitão.

No outro dia o tenente perguntou ao oficial:

− Pronto, meu capitão: quantas cadeias pra negrada?

− Deixa disso, tenente. Quem cai na dança, não se alembra de mais nada...

E pegaram a rir, e tudo acabou em santa paz.

*****

(Do livro “Aquarelas do Brasil – Contos da Nossa Música Popular”,
de Flávio Moreira da Costa.


Joubert – Maringá

(Excertos)*

João Antônio


Gravura de Raimundo Cela

(1890-1954)

(...) um toque de sua história diferente, eletriza mito e lenda, auréola da realidade fadosa, um quê bem fadado no seu gostoso cantar − é Joubert de Carvalho;** tudo porque em 1930, Getúlio no poder no Distrito Federal, ele compôs uma gostosura dolente, acaboclada, uma canção de um jeito e outro nos catou a alma e foi daí, então, extrapolou de tão cantada pela boca do povo, ganhou as ruas largas e os barracos dos morros e percorreu o mundo dos sabidos; 12 anos mais tarde, no tempo da guerra, diretores da Companhia de Terras Norte do Paraná não achavam um nome de batismo para a cidade em construção, a mulher de um deles, uma Elisabeth Thomas (...) sugeriu o nome de uma canção, os trabalhadores suados meio que merencórios naquele pó vermelho costumavam cantar e com que se distraíam na luta braba da construção, suor, e, de assim, Joubert de Carvalho que nada tinha a ver entrou para a história toda no imponderável do acaso, como por acaso a mão do mestre trabalha, uma ciência de força estranha galopa embutida, tinha feito a música só para agradecer um favor, a sua nomeação para o instituto dos marítimos lá no Rio de Janeiro e, nas rodas, largando boquiabertos os que ouviam, a história saiu mesma inteira de sua boca (...)

Rui Carneiro, depois senador, sugeriu que Joubert fizesse uma composição sobre o nordeste calcinado e penando miséria, pois ele era oficial de gabinete do ministro que gramava com um problema grave dos graves, a seca e naquele momento, de estalo, Joubert viu o invisível ou viu o que a ele só era visível. A música latejou à sua frente, clara e pronta, dançando na cabeça, embalando, criada, e perguntou a Rui Carneiro de onde era José Américo,*** era de Areias, já nas serras da Paraíba. Não gostou. Areias não era musical, achou o poeta, e quis saber onde Rui tinhas nascido − Pombal − e, daí, o Rio antigo, os versos escorreram pelos dedos, vieram crescidos, dolente, sem cautela, cheios, lavor fino. Nasceram feitos.

Antigamente
Uma alegria sem igual
Dominava aquela gente
Da cidade de Pombal.
Mas veio a seca
Toda a chuva foi-se embora
Só restando então as águas
Dos meus olhos quando chora.

Êpa; jorrou! Mas não tudo. Tinha mais mágica no fundo do baú e mais carne debaixo do angu, que em toda história sempre entra uma mulher e, na sequência, pensei, tenho que botar uma Maria aqui, porque vida sem Maria... mas ela vai embora, deixando um caboclo apaixonado, e de onde seria Maria? Joubert perguntou a Rui onde a seca castigava mais tirana e ele disse vários municípios, o de Ingá, inclusive. Aí, baixa a iluminação de estalo e o poeta pensa em Maria do Ingá e cortei, deu Maringá.

Foi numa leva
Que a cabocla Maringá
Ficou sendo a retirante
Que mais dava o que falá
E junto dela
Veio alguém que suplicou
Pra que nunca se esquecesse
De um caboclo que ficou.

Maringá, Maringá,
Depois que tu partiste
Tudo aqui ficou tão triste
Que eu ʽgarrei a imagináʼ
Maringá, Maringá,
Pra haver felicidade
É preciso que a saudade
Vá bater noutro lugar.

Maringá, Maringá,
Volta aqui pro sertão,
Pra de novo o coração
De um caboclo assussegá.

Antigamente
Uma alegria sem igual
Dominavam aquela gente
Da cidade de Pombal.
Mas veio a seca
Toda a chuva foi-se embora
Só restando então as águas
Dos meus olhos quando chora.


*Excertos: partes do texto.

**Joubert de Carvalho, (Uberaba, 6 de março de 1900Rio de Janeiro, 20 de setembro de 1977) foi um médico e compositor brasileiro, autor de canções como “Maringá” e  “Taí”.

*** José Américo de Almeida (1887-1980) foi um escritor e político brasileiro. Sua obra “A Bagaceira” deu início à “Geração Regionalista do Nordeste”. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 27 de outubro de 1966, ocupando a cadeira 38. Foi também advogado, professor universitário, folclorista e sociólogo.

José Américo de Almeida (1887-1980) nasceu no engenho Olho d'Água, município de Areias, Paraíba, no dia 10 de janeiro de 1887.

Observações finais:

A canção Maringá, de Joubert de Carvalho foi feita para homenagear a cidade de Ingá, no interior da Paraíba, onde nasceu o seu amigo, Rui Carneiro; 

a cidade de Maringá, interior do Paraná, recebeu esse nome em virtude da música Maringá, do autor citado acima, que os trabalhadores cantavam no seu dia a dia.

terça-feira, 27 de novembro de 2018

Perfume Siamês*

Altay Veloso e Paulo Feital


Mas que prazer te rever, que bom te encontrar.
Ah! Nesses anos a vida te fez remoçar.
Não, não precisa fingir, nunca foi o teu forte fingir pra agradar,
Pra mim o tempo passou, mas vamos sentar e sair da calçada.

Sem colarinho e com fé, que é pra gente esquentar.
Uma porção de filé e um conhaque Dubar.
Não, nunca vou me mudar, é a mesma casinha onde fomos morar,
Vê se vai me visitar, as coisas continuam no mesmo lugar.

O salgueiro que você plantou
De chorar quase morreu, resistiu e cresceu,
Mas o cão adoeceu, sentiu tua falta demais,
E a roseira lá de trás, deu rosa e concebeu, sem espinhos uma flor,
Que tem teu cheiro e o meu.

Garçom, me traga mais dois que é pra comemorar,
Traz um traçado depois que é pro santo agradar.
Eu não perdi a mania, ainda durmo fumando,
Ainda queimo o colchão.
Claro que lembro do dia, em que quase morri
E ninguém me acordava.

Nossos retratos de amor, eu não pude rasgar,
Quando você se casou, pensei em me matar.
Tua loucura foi tanta, casar por vingança só mesmo você!
Mas não perdi a esperança,
As coisas continuam no mesmo lugar...

O salgueiro que você plantou
De chorar quase morreu, resistiu e cresceu,
Mas o cão adoeceu, sentiu tua falta demais,
E a roseira, lá de trás, deu rosa e concebeu,
Sem espinhos uma flor que tem teu cheiro e o meu. (bis)

Pede a conta, meu amor, e volta pro que é teu...


*Há, na internet, uma gravação dessa música na voz de Emílio Santiago.

Nas Ruas de Porto Alegre



Rua da Praia

Porto Alegre, tuas ruas têm infinitas histórias
E em todas tuas rotas, vejo o poeta e a poesia;
O escrito e o escrevente, descrito nesta memória
Como o revoar das pombas, das torres da reitoria...

Quem me dera, se eu fosse um filho de Veríssimo
Ou um neto de Quintana, bem que eu poderia ser
Para dar-te, Porto Alegre, um verso muito ilustríssimo
E neles ilustrados as tuas ruas, em teu lindo amanhecer...

Eu bem que poderia ser mais um ipê da Redenção
E, num domingo de Bric, desfolhar-me na Bonifácio
Anunciando o outono, no final de mais um verão,
Enfeitando de flores as linhas deste meu prefácio...

E de lá iria com o vento, ou, quem sabe, ele eu seria
E assim eu correria pelo Guaíba, do Gasômetro a Ipanema
E, assim, atravessaria os morros da Glória até a Serraria
E, em Porto Alegre, eu me esparramaria como um simples poema...

E minhas palavras chegariam até o Moinhos de Vento
E passeariam pela Goethe até findar-se na Mariante
E esboçariam, em palavras, este meu grande sentimento
Depositadas em rimas, como uma flor lapidada em diamante...

Porto Alegre, quem me dera se tuas ruas falassem
E, no adentrar da noite, tuas histórias pudesse me contar
Falar-me-iam dos passos na madrugada, como se cantassem
As pegadas de Bebeto Alves, nas ondas sonoras soltas no ar...

Há, em mim, um pouco do Menino Deus, andando pela Getúlio,
Há, também, um pouco do punk, desfilando pela Osvaldo,
Há todo aquele frio do vento na Andradas nas manhãs de julho
E o caminho da Farrapos, do centro até o São Geraldo...

Porto Alegre, lá me vou pela Borges seguindo ao Beira-Rio
Ou, quem sabe, pela Azenha até o Olímpico Monumental.
O vermelho e o azul equilibrando-se ao teu meio-fio,
Em nessas tuas sendas, a história de um outro Gre-Nal...

Nas tuas esquinas, meninos vendem o Correio e a Zero Hora,
Trazem as notícias do que foi ontem, mas não preveem o futuro.
Ah, Porto Alegre, os meus passos eu firmo em ti agora
E observo, na Mauá, o detalhe de um artista pintado no muro...

Ah, Porto Alegre, em tuas ruas um povo que luta e protesta,
Os caras pintadas, colonos sem terra, professores e suas sinetas.
Também há comemoração, trilegal tuas ruas sempre abertas
Magia simples, casas antigas, venezianas nas venetas...

Porto Alegre, quem me dera morrer, e, assim, virar poeira
Esparramando-me pelas solas dos sapatos, nas noites sem lua.
Assim, estaria nos teus caminhos planos, até em tuas ladeiras
         E me eternizaria, feliz, nos ladrilhos de tuas ruas...

Marcos Ramos



terça-feira, 20 de novembro de 2018

Virgínia Victorino

uma poetisa portuguesa


As palavras

Seja alegria, seja mágoa, ciúme
Pena de amor, ou grito de revolta
Tudo a palavra humana em si resume
Tudo arrasta suspenso à sua volta!
Palavras:
Céu e inferno!
Cinza e lume!
Mistério que a nossa alma traz envolta!
Umas, consolação!

Outras, queixume…
Todas correndo como o vento à solta!

Tudo as palavras dizem:
A verdade, a mentira, a crueldade…
Mas afinal, o que perturba e espanta
É o drama das que nunca foram ditas
Das palavras pequenas e infinitas
Que morrem sufocadas na garganta!

 Virgínia Villa-Nova de Sousa Victorino
(Alcobaça a 13 de agosto de 1898 - Lisboa em 1967)

Virgínia Victorino
  
Virgínia Villa Nova de Sousa Victorino (1898-1967) é poetisa e dramaturga.

Esteve no Brasil, a convite de Getúlio Vargas, em 1937. A sua obra mais famosa é “Namorados” (1918), com catorze edições.

Outras obras: “A Volta” (peça teatral em três atos foi representada, pela primeira vez, no Teatro Nacional de Lisboa, a 13 de Maio de 1931).

Medo

Ouve o grande silêncio destas horas!
Há quanto tempo não dizemos nada...
Tens no sorriso uma expressão magoada,
tens lágrimas nos olhos, e não choras!

As tuas mãos nas minhas mãos demoras
numa eloquência muda, apaixonada...
Se o meu sombrio olhar de amargurada
procura o teu, sucumbes e descoras...

O momento mais triste de uma vida
é o momento fatal da despedida,
- Vê como o medo cresce em mim, latente...

Que assustadora, enorme sombra escura!
Eis afinal, amor, toda a tortura:
- vejo-te ainda, e já te sinto ausente!

Orgulho

És orgulhoso e altivo, também eu...
Nem sei bem qual de nós o será mais...
As nossas duas forças são rivais:
Se é grande o teu poder, maior é o meu...

Tão alto anda esse orgulho!... Toca o céu.
Nem eu quebro, nem tu. Somos iguais.
Cremo-nos inimigos... Como tais,
Nenhum de nós ainda se rendeu...

Ontem, quando nos vimos, frente a frente,
Fingiste bem esse ar indiferente,
E eu, desdenhosa, ri sem descorar...

Mas, que lágrimas devo àquele riso,
E quanto, quanto esforço foi preciso,
Para, na tua frente, não chorar...

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Réu Primário

Luís Fernando Veríssimo


Pegaram o cara em flagrante roubando galinhas de um galinheiro e levaram para a delegacia.

- Que vida mansa, hein, vagabundo? Roubando galinha para ter o que comer sem precisar trabalhar. Vai para a cadeia!

- Não era para mim não. Era para vender.

- Pior. Venda de artigo roubado. Concorrência desleal com o comércio estabelecido. Sem-vergonha!

- Mas eu vendia mais caro.

- Mais caro?

- Espalhei o boato que as galinhas do galinheiro eram bichadas e as minhas galinhas não. E que as do galinheiro botavam ovos brancos enquanto as minhas botavam ovos marrons.

- Mas eram as mesmas galinhas, safado.

- Os ovos das minhas eu pintava.

- Que grande pilantra... Mas já havia um certo respeito no tom do delegado. Ainda bem que tu vais preso. Se o dono do galinheiro te pega...

- Já me pegou. Fiz um acerto com ele. Me comprometi a não espalhar mais boato sobre as galinhas dele, e ele se comprometeu a aumentar os preços dos produtos dele para ficarem iguais aos meus. Convidamos outros donos de galinheiro a entrar no nosso esquema. Formamos um oligopólio. Ou, no caso, um ovigopólio.

- E o que você faz com o lucro do seu negócio?

- Especulo com dólar. Invisto alguma coisa no tráfico de drogas. Comprei alguns deputados. Dois ou três ministros. Consegui exclusividade no suprimento de galinhas e ovos para programas de alimentação do governo e superfaturo os preços.

O delegado mandou pedir um cafezinho para o preso e perguntou se a cadeira estava confortável, se ele não queria uma almofada. Depois perguntou:

- Doutor, não me leve a mal, mas, com tudo isso, o senhor não está milionário?

- Trilionário. Sem contar o que eu sonego de Imposto de Renda e o que tenho depositado ilegalmente no exterior.

- E, com tudo isso, o senhor continua roubando galinhas?

- Às vezes! Sabe como é!

- Não sei não, excelência. Me explique.

- É que, em todas essas minhas atividades, eu sinto falta de uma coisa. O risco, entende? Daquela sensação de perigo, de estar fazendo uma coisa proibida, da iminência do castigo. Só roubando galinhas eu me sinto realmente um ladrão, e isso é excitante. Como agora. Fui preso, finalmente. Vou para a cadeia. É uma experiência nova.

- O que é isso, excelência? O senhor não vai ser preso não.

- Mas fui pego em flagrante pulando a cerca do galinheiro!

- Sim. Mas primário, e com esses antecedentes...

Belíssimo


Esse certamente foi um dos melhores anúncios para solteiros já editados nos EUA. Saiu no Atlanta Journal.

“Feminina, solteira, procura companhia masculina, aspectos étnicos sem a menor importância. 

Sou uma menina bem-humorada que adora brincadeiras de todo tipo. 

Adoro longas caminhadas nos bosques, andar de caminhonete em sua companhia para caçadas, acampamentos e pescarias, e/ou ficar noites inteiras, gostosas, ao ar livre, deitada com você junto a fogueiras. 

Jantares à luz de velas me farão comer na sua mão. 

Estarei na porta de entrada, a sua espera quando você chegar de um dia cansativo de trabalho, usando tão somente o que a natureza me deu. 

Telefone para (404) 875-6420 e chame por Annie. Estarei lhe esperando!”






Mais de 150 homens ligaram para a Sociedade Humanitária de Atlanta...

A Sociedade Protetora dos Animas...



Ode ao Cume

Laurindo Rabelo


No cume daquela serra,
Eu plantei uma roseira.
Quanto mais as rosas brotam,
Tanto mais o cume cheira.

À tarde, quando o sol posto,
E o cume ao vento adeja,
Vem travessa borboleta
E as rosas do cume beija.

No tempo das invernadas,
Que as plantas do cume lavam,
Quanto mais molhadas eram,
Tanto mais no cume davam.

Mas se as águas vêm correntes,
E o sujo do cume limpam,
Os botões do cume abrem,
As rosas do cume brincam.

Tenho, pois, certeza agora
Que no tempo de tal rega,
Arbusto por mais mimoso
Plantado no cume, pega.

Vem, porém, o sol brilhante
E seca logo a catadupa;
O mesmo sol a terra abrasa
E as águas do cume chupa.

A rosa do cume fica
no mais alto da montanha
A rosa do cume pica
A rosa do cume arranha.

As rosas do cume espreitam
entre as folhagens d'além
trazidos na fresca brisa
os cheiros do cume vêm.

No cume duma montanha
tem um olho d'água à beira.
É uma água tão cheirosa
que a multidão ansiosa
o olho do cume cheira.

“As rosas do cume” e outros poemas obscenos de Laurindo Rabelo foram publicados em Poesias livres (1882), opúsculo de encadernação e papel baratos que se tornou raridade. Atualmente, conheço apenas quatro acervos que possuem exemplares desse livro: a Biblioteca José de Alencar, da Faculdade de Letras (UFRJ); as coleções particulares de Antonio Carlos Secchin – poeta, professor e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) – e de Israel Souza Lima, biógrafo dos patronos da ABL; e o acervo José Ramos Tinhorão, do Instituto Moreira Salles.

Ainda sobre “As rosas do cume”, além de sua publicação em Poesias livres, há um histórico registro fonográfico do poema. Trata-se da gravação feita no início do século XX pelo ator e cançonetista português Franco d’Almeida, que a equipe da Coordenadoria de Música do IMS digitalizou a partir de um disco 76 rpm, pertencente também ao acervo José Ramos Tinhorão, disponível para audição aqui no blog do IMS.

Laurindo José da Silva Rabelo
(1826-1864)


Laurindo José da Silva Rabelo (Rio de Janeiro, 8 de julho de 1826 − Rio de Janeiro, 28 de setembro de 1864) foi um médico, professor e poeta romântico brasileiro, patrono da Academia Brasileira de Letras.

Apesar da origem humilde, conseguiu com dificuldade vencer as barreiras sociais, e formar-se em Medicina. Antes, porém, chegara a cursar o Seminário de São José, ainda no Rio de Janeiro, pensando em tornar-se padre. Vítima de preconceito e perfídias pelos colegas, decide abandonar o internato. Almejou a carreira militar, mas da mesma forma desistiu.

Na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro iniciou o curso, que concluiu em Salvador, no ano de 1856.

No ano seguinte ingressa no Corpo de Saúde do Exército, seguindo para o Rio Grande do Sul, onde permanece até 1863. Em 1860 tinha se casado com Adelaide Luísa Cordeiro. De volta ao Rio, leciona no curso preparatório para a Escola Militar as disciplinas de História, Geografia e Português.

Apreciava a vida boêmia, gozando de grande talento satírico e capacidade de improviso, fazendo repentes e composições de modinhas − o que lhe granjeou grande popularidade e a alcunha de “Poeta Lagartixa” − dada sua constituição física, “magro e desengonçado”.

Rabelo teve morte prematura, de problemas cardíacos, com apenas trinta e oito anos de vida.

P.S. Ainda sobre “As rosas do cume”, além de sua publicação em Poesias livres, há um histórico registro fonográfico do poema. Trata-se da gravação feita no início do século XX pelo ator e cançonetista português Franco d’Almeida, que a equipe da Coordenadoria de Música do IMS digitalizou a partir de um disco 76 rpm, pertencente também ao acervo José Ramos Tinhorão, disponível para audição no blog do IMS.


A partilha*



Cantava, e as lágrimas rolavam-lhe em dois fios ao longo da face magra e pálida. Sofria, mas, como era preciso que o pequenino adormecesse, cantava, indo e vindo, devagar, embalando nos braços a criança. O mais velho – três anos − olhava-a risonho e, de quando em quando, cantarolava: “Estou com fome, mamãe! Estou com fome..” E o pequenito, insone, muito esperto, a boquinha colada ao peito, sugava. “Estou com fome, mamãe...”: cantarolava o outro.

Ia alta a manhã; mas, se o sol alegrava o quintalejo, que tristeza em casa! Viúva, tísica, desfigurada pela moléstia e pela fome, tímida demais para pedir esmolas, que havia de fazer a desgraçada? “Estou com fome, mamãe”; cantarolava o mais velho.

− Espera filho! Espera!

Como o pequenino adormecesse, a mãe foi pé ante pé, e deitou-o sobre um fofo colchão de panos, a um canto da casa: e o mais velho, seguindo-a, cantarolava sempre: “Estou com fome, mamãe...”

− Não faças bulha, filho: espera. E, acenando-lhe, passou à cozinha. Mas que havia de fazer?

Ardia a derradeira acha: e a mãe, os olhos rasos d‘água, pôs-se a soprar a lenha para atear o lume, enquanto o filho, que se lhe agarrava às saias, cantarolava: “Minha mãezinha... estou com fome”, − mas já contente, vendo que a chaleirinha fumegava. À mesa, porém, quando a mãe lhe apresentou a tigela e o pedacinho de pão da véspera, o pequeno fitou-a com espanto:

− Só café, mamãe?

− Só meu filho...

O pequeno, levando a colher à boca, foi repelindo a tigela, com um beicinho, prestes a chorar.

− Não chores: olha que vais acordar o maninho! Espera!

E, desabotoando o corpinho, tirou o seio farto, pojado de leite e espremeu-o, trincando os lábios descorados por onde as lágrimas corriam fio a fio, e, entregando a tigela ao filho:

− Toma, e não faças bulha!

E o pequeno, arregalando os olhos, satisfeito: “Agora sim!” pôs-se a cantarolar.

Baixinho, então, a mãe lhe disse:

− E não peças mais, ouviste? o outro é para o maninho. − E foi, pé ante pé, espiar o filho que dormia.

*****

*Do livro “Contos pátrios”, autoria de Olavo Bilac e Coelho Neto, com lições maravilhosas de educação moral e cívica, com desenhos de Vasco Lima, edição da Livraria Francisco Alves, 24ª edição, Rio de Janeiro, 1928.


A colocação dos pronomes



João Ribeiro, in Língua Nacional
  
O brasileiro diz comumente:

− Me diga... me faça o favor...

É esse um modo de dizer de grande suavidade e doçura, ao passo que o − diga-mefaça-me − duros e imperativos.

O modo brasileiro é um pedido; o modo português é uma ordem.

Em − me diga − pede-se; em − diga-me − ordena-se. Assim, pois, somos inimigos da ênfase e mais inclinados às intimidades.

Eis o suposto erro que, afinal, é a expressão diversa da personalidade. E se quisermos uma prova decisiva nesta matéria, temo-la no uso chamado português que também fazemos, quando há necessidade, imperativas de mando ou de ênfase. Então, nesses casos, praticamos, sem o saber, a vernaculidade dos pronomes.

Se, entre brasileiros, um ordena que outro se retire, diz logo:

− Safe-se! Raspe-se! Suma-se!

É a ênfase que vernaculiza a expressão, e eis porque não a admitimos onde seria imprópria, excessiva e contrária à nossa índole.

− “Me passe os cobres...” é a fórmula de uma cobrança amigável.

− “Passe-me os cobres...” é já uma intimação violenta, judicial, manu militari.

Que interesse temos, pois, em reduzir duas fórmulas a uma única e em comprimir dois sentimentos diversos numa só expressão?

Em geral todas as mutilações por amor da vernaculidade (ou antes portuguesismo) envolvem qualquer sacrifício dalma, destroem os meios-tons, os matizes criados sob a luz e o céu americano.

*******


João Ribeiro (João Batista Ribeiro de Andrade Fernandes), jornalista, crítico, filólogo, historiador, pintor, tradutor, nasceu em Laranjeiras, SE, em 24 de junho de 1860, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 13 de abril de 1934.

domingo, 18 de novembro de 2018

O Circulo de Hitler



→ Adolf Hitler era poderoso, envolvente e dominava a Alemanha com mão de ferro. Tinha na mão um grupo de fanáticos que o seguia e dizia ʽsimʼ a qualquer coisa. Todos estão ligados ao holocausto. Eles constituíram o ʽcírculo do malʼ do Führer.

Joseph Goebbels


→ Ministro da Propaganda: Controlava as informações que chegavam à população. Em reuniões matinais com jornalista de Berlim determinava quais notícias deveriam ser publicadas ou ignoradas. Também supervisionava artes, música, teatro, literatura, rádio e cinema. Suicidou-se em 1945, em Berlim, junto coma esposa, depois de envenenar os seis filhos.

Wilhelm Keitel


→ Marechal das Forças Armadas. Depois de Hitler, era o homem mais poderoso da máquina militar nazista, ajudando a dirigir a maioria das campanhas militares alemãs durante a guerra. Alguns historiadores o consideram o principal estrategista militar da Alemanha nazista. Capturado pelos aliados em 1945, Keitel foi condenado ao enforcamento, morrendo em 1946.

Rudolph Hess


→ Ministro sem pasta. Grande amigo de Hitler, com quem esteve preso na década de 1920, Hess era uma espécie de confidente e secretário particular do ditador. Praticamente nenhuma lei nazista foi promulgada sem a assinatura desse ex-militar. Capturado pelos britânicos em 1941, Hess foi condenado à prisão perpétua e morreu em 1987.

Hermann Goering


→ Chefe Militar da Força Aérea. Herói na 1ª Guerra Mundial, foi líder da Força Aérea de Hitler. Goering tinha poderes para dirigir a economia e os esforços de guerra. Foi designado em 1939 para suceder o Führer caso o líder viesse a morrer. Depois de render-se aos americanos no fim da 2ª Guerra, em 1945, Goering foi condenado à morte, mas suicidou-se por envenenamento enquanto aguardava sua execução.

Reinhard Heydrich


→ Chefe do Escritório central de Segurança. Auxiliar direto de Himmler na chefia dos serviços de segurança, Heydrich deixou triste marca quando foi nomeado governador de territórios da atual República Tcheca, em 1941. No cargo, promoveu execuções em massa de judeus para eliminar a resistência aos nazistas. Morreu em 1942 em decorrência de ferimentos em um atentado a granada contra seu carro.

Albert Speer


→ Ministro dos Armamentos e da Produção de Guerra: À frente de seu ministério, Speer usou trabalhos forçados e mão de obra escrava dos campos de concentração, permitindo à Alemanha nazista ampliar sua produção de armas durante boa parte da guerra. Capturado ao fim da guerra e julgado pelos aliados, Speer admitiu a culpa e cumpriu 20 anos de prisão. Foi libertado em 1966 e morreu em 1981.

Heinrich Himmler


→ Diretor do Serviço Policial e Militar. Chefe supremo da polícia secreta (a Gestapo) e das  forças militares do partido nazista (as SS), Himmler era também responsável pelos campos de concentração. Ele foi um dos principais formuladores da política de extermínio de milhões de judeus e outras minorias. Capturado pelos aliados, Himmler suicidou-se com veneno em 23 de maio de 1945.

Joachim Von Ribbentrop


→ Ministro das Relações Exteriores. Em seu cargo, esse velho amigo de Hitler exerceu uma política de pressão constante contra os países vizinhos da Alemanha para obrigá-los a adotar medidas repressivas contra os judeus e aceitar a implantação de políticas de apoio aos nazistas. Capturado pelos britânicos em 1945, Ribbentrop foi julgado e condenado à morte. Morreu na forca em 1946.

(Texto de Eugênio Bortolon, para uma matéria no Correio do Povo, 
novembro de 2018)

Inteligência emocional

Larissa Roso*


Apenas observando alguém, você percebe que aquela pessoa está em um dia ruim: o amigo costumeiramente comunicativo chegou para o almoço da turma mais retraído, com sorriso não tão largo e o semblante mais tenso. Quando você acha um momento propício, sem tanta gente à volta, aborda-o para uma conversa:

− Aconteceu alguma coisa?

Sua capacidade de ler esses sinais não verbais é um dos principais componentes da inteligência emocional, a habilidade de identificar e regular as emoções em si mesmo e nos outros. Indivíduos com alta inteligência emocional são capazes de nomear corretamente o que sentem, entender o que os outros estão sentindo e agir de forma a beneficiar os envolvidos. Trata-se de uma competência que vai sendo construída desde o princípio da vida. Pense na criança que, sem querer, quebra o brinquedo de um colega de escolinha. Frente à tristeza do outro, ela pega algo seu e dá ao amigo, como forma de compensá-lo pela perda. Outro exemplo: você foi ríspido no trato com seu parceiro. Pouco depois, percebe que ele ficou chateado e retoma a conversa para recolocar o que gostaria de dizer, em outras palavras, tentando fazer com que ele se sinta melhor.

− Quando as pessoas não têm alta inteligência emocional, as emoções saem descontroladas. Elas podem ter um ataque de raiva ou se isolar. Passamos por várias situações ao longo do nosso dia que vão nos tirando da nossa linha de base. Algumas pessoas usam agressão física, outras, gritos, ou então uma estratégia para resolver a situação, acalmar a emoção e voltar à linha de base − explica a psicóloga Adriane Arteche, doutora em Psicologia do Desenvolvimento e professora do programa de pós-graduação em Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Rio grande do Sul (PUCRS).

(...)

− A empatia, a capacidade de se colocar no lugar de alguém, entendendo seus sentimentos e perspectivas, é um dos componentes-chave da inteligência emocional. Como melhorar nesse aspecto? Em termos práticos, tem algo que todos nós podemos fazer: conversar com um estranho uma vez por semana − é prática do ato de ouvir. É assim que começamos a nos conectar com os outros, entendendo como eles veem o mundo e desafiando nossos preconceitos e suposições.

(...)

E quando você estiver animado, tem de aproveitar esse estado emocional, mesmo que seja só com você, mesmo que não venha um elogio público. Precisamos usar esse material interno emocional para nos alavancar.

*jornalista de Zero Hora


Em que perfil você se encaixa?

Pessoa com alto nível de inteligência emocional:

→ Sabe identificar corretamente as suas próprias emoções e as das outras pessoas também.

→ Consegue regular seus sentimentos. Não se trata de se impedir de senti-los, mas de saber manejá-los.

→ Faz a leitura não verbal do comportamento de quem a cerca.

→ Adapta-se aos diferentes ambientes, interagindo de acordo com o que se exige em cada um deles.

→ É assertiva,* empática,* de fácil acesso e atenta aos outros.

→ Sabe o momento certo para se impor e para ceder.

→ Relaciona-se com facilidade.

→ Apresenta mais facilidades para lidar com emoções intensas, suas e dos demais.

→ Tem bom humor e autocontrole.

→ Abraça tarefas difíceis sem listar inúmeros impedimentos para realizá-los antes mesmo de saber exatamente do que se trata.

→ Conhece-se bem, conseguindo identificar seus maus momentos e evitando interações mais próximas ou tomadas de decisão complexas nesses dias.

→ Enfrenta o dia a dia com mais facilidade, tornando-se mais feliz.

Pessoa com baixo nível de inteligência emocional:

→ Não sabe ouvir, não estando disponível ou apenas fazendo de conta que está prestando atenção no que está lhe sendo dito.

→ Tem a sensação de que não é entendida ou de que não consegue entender as outras pessoas.

→ É o indivíduo a quem se costuma chamar de “difícil”.

→ Demonstra pouca ou nenhuma empatia e não consegue se aproximar dos demais.

→ Pode ter dificuldade para lidar com emoções intensas, suas e de terceiros.

→ Não estabelece uma conversa em um nível de cooperação. Perde o prumo, grita, descontrola-se.

→ Enxerga apenas fatos e dados, ignorando valores e emoções.

 → Utiliza-se da negação “escondendo” emoções desagradáveis para não ter de encará-las e senti-las.

→ Tende a sofrer com alto nível de estresse, o que pode acarretar adoecimento mental e físico.

*******

Fontes: Adriane Arteche, psicóloga, doutora em psicologia do desenvolvimento e professora do programa de pós-graduação em Psicologia da PUCRS, e Alessandra Rodrigues Gonzaga, especialista em inteligência emocional, mestre em psicologia clínica e coordenadora técnica do pós-MBA em inteligência emocional nas Organizações da Universidade La Salle.

(Do caderno Vida, jornal Zero Hora, novembro de 2018)

*Assertiva: Uma pessoa assertiva, de acordo com a psicologia comportamental, consiste no modo seguro e confiante de agir, ou seja, um indivíduo que está certo de suas ações, atitudes e comportamento. Ainda de acordo com os estudos psicológicos, o comportamento das pessoas pode ser dividido em quatro principais categorias: agressivo, passivo, agressivo-passivo e o assertivo.

*Empática: É a pessoa quem tem uma grande capacidade de compreender o psicológico de outras pessoas. É a capacidade de se colocar no lugar de outra pessoa, com o objetivo de entender seus sentimentos e perspectivas, e usar esse conhecimento para orientar nossas ações.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

O primeiro golpe

Eduardo Bueno


Marechal Deodoro da Fonseca
(05.08.1827 - 23.08.1892)

Não houve um só tiro − quer dizer, houve dois, mas como ninguém os ouve em meio à gritaria, é como se nada tivesse havido. Pois se ao menos esse dois estampidos ecoassem em seus ouvidos, então os soldados do 1º Regimento de Cavalaria e seus colegas do 9º Batalhão, agrupados em desordem unida em meio ao Campo de Santana, no Rio de Janeiro, talvez percebessem que não estavam ali a participar de uma improvável parada militar e sim... para derrubar um regime.

Mas quem iria supor que o velho Deodoro da Fonseca, sob os achaques da idade e com a dispneia a abalá-lo, fosse sair da cama para dar um golpe − ainda mais um golpe republicano? Além de legalista, ele sempre fora a favor da monarquia. Tanto é que mal se passavam 60 dias desde que o provecto homem de caserna dissera:

− República no Brasil é coisa impossível, pois será verdadeira desgraça. Os brasileiros estão e estarão muito mal-educados para republicanos. O único sustentáculo do nosso Brasil é a monarquia. Se mal com ela, pior sem ela.

Não é de estranhar, portanto, que ele tenha esbofeteado o cadete que ousar lançar o grito supostamente entalado nas gargantas: “Viva a República”. Não há prova de que Deodoro tenha revidado com um “Viva o imperador”, como as más línguas espalhariam depois. Mas o fato é que, em meio àquela confusa quartelada no raiar de 15 de novembro de 1889 − o futuro marechal não destituiu Dom Pedro II. “O imperador é meu amigo”, disse ele. “Devo-lhe favores.” E assim, quem caiu, mais com um suspiro do que um estrondo, foi o chefe do gabinete dos ministros, o Visconde de Ouro Preto − que, aliás, escreveria o livro Advento da Ditadura Militar no Brasil, no exílio em Paris, em 1891.

Mas Dom Pedro II não duraria muito em seu abalado trono. Naquele mesmo dia, embora já na calada da noite, Deodoro, na cama e de pijamas, foi ludibriado por seus companheiros golpistas: eles lhe disseram que o gaúcho Gaspar Silveira Martins, seu inimigo de morte, seria o substituto de Ouro Preto. E então, quase sem fôlego, o velho soldado balbuciou: “Digam ao povo que a República foi feita”, concretizando, sem tiros, sem sustos e sem muito senso a queda do império naquele que viria a ser o primeiro golpe militar de nossa história, embora, como o “movimento” (de tropas) de 1964, ele tenha passado à História com nome mais pomposo: Proclamação da República.

Ainda assim, foi uma proclamação “provisória”, pois ficou decidido que “se aguardaria o pronunciamento da nação, livremente expressado por sufrágio popular”. E não é que um plebiscito foi mesmo convocado? Sim, em 21 de abril de 1993, com 104 anos de atraso, quando o Brasil provisoriamente republicano já havia vivido pelos menos mais três golpes, que, como o primeiro, não ousaram dizer seu nome, apelidado de revolução de 30, de Estado Novo e de revolução de 1964. Ah, morrendo e aprendendo na escola sem partido...
  
(Em Zero Hora, novembro de 2018)


Visconde de Ouro Preto
(21.02.1836 - 21.02.1912)