quinta-feira, 30 de outubro de 2025

Ditados Gaúchos:

 

Quieto no canto como guri cagado... 

Mais ligado que rádio de preso. 

Mais curto que coice de porco. 

Firme que nem prego em polenta. 

Mais curto que estribo de anão. 

Calmo que nem água de poço. 

Mais amontoado que uva em cacho. 

Mais perdido que cego em tiroteio. 

Mais perdido que cachorro em dia de mudança. 

Mais angustiado que barata de ponta-cabeça. 

Mais por fora que quarto de empregada. 

Mais por fora que surdo em bingo. 

Mais sofrido que joelho de freira em semana Santa. 

Mais baixo que voo de marreca choca. 

Mais bonita que laranja de amostra. 

Mais comprido que cuspe de bêbado. 

Devagarinho como enterro de político. 

Mais difícil que nadar de poncho. 

Mais faceiro que mosca em tampa de xarope. 

Mais feio que briga de foice no escuro. 

Mais por fora que cotovelo de caminhoneiro. 

Mais grosso que rolha de poço. 

Mais informado que gerente de funerária. 

Mais medroso que cascudo atravessando galinheiro. 

Quente que nem frigideira sem cabo. 

Mais sujo que pau de galinheiro. 

Mais gorduroso que telefone de açougueiro. 

Mais perdido que cebola em salada de frutas. 

Mais perdido que cusco em tiroteio. 

Tranquilo que nem cozinheiro de hospício.  

Grudado como bosta em tamanco.

Agarrado como carrapato em culhão de touro. 

De boca aberta que nem burro que comeu urtiga. 

Assanhada como solteirona em festa de casamento. 

Cobiçada como anca de viúva nova e bonita. 

Mais comprido que bombacha de gringo. 

Mais duro que salame de colônia. 

Mais perdido que peido em bombacha. 

Esperto que nem gringo de venda. 

Extraviado que nem chinelo de bêbado. 

Mais fedorento que arroto de corvo. 

Mais faceiro que guri de calça nova. 

Mais firme que catarro em parede. 

Mais grosso que cagalhão de tropeiro. 

Mais metido que dedo em nariz de piá. 

Mais metido que merda em chinelo de dedo. 

Mais inútil que mijar em incêndio. 

Molhado como peido de caganeira. 

Mais perigoso que briga de foice apartada por gadanha. 

Mais usado que pronome oblíquo em conversa de professor. 

Mais sem graça que dançar com a irmã em baile. 

Mais boca mole que veia sem chapa. 

Decálogo da boemia consciente e sustentável

 Por Xico Sá

Para Rê Bordosa (by Angeli), minha bêbada inesquecível

“Culus bebedorum dominus non habet” 

I) Não apenas por hoje, o dia sem carro. Faça como este pedestre e flâneur inveterado, se vai beber, esqueça o automóvel. E ande sempre com o endereço e o seu nome completo pendurado na correntinha do pescoço para facilitar a volta ao lar doce lar. 

II) É de bom-tom sempre guardar o nome dos garçons, afinal de contas é no ombro deles que vais chorar, ao som de “Nervos de Aço”, a inevitável, acachapante e humaníssima dor de corno. 

III) Na saúde e na doença, a culpa será sempre do tira-gosto, ah, aquela calabresa, aquele torresmo, aquele caldinho, aquela moela, aquela azeitona me fez mal à beça... Jamais a culpa será da cachaça, da tequila ou do uísque. 

IV) Boemia é como futebol, exige ritmo de jogo, sequência; se você a larga por uns dias, ela te pega na curva, te dá um caldo, uma rasteira... mesmo que peças, suplicante, de volta, a tua nova inscrição. 

V) A divisão do tempo da prosa, na mesa de um bar, deve obedecer ao seguinte critério: 50% sobre mulheres, 40% sobre futebol e 10% sobre a antologia de ressacas monstruosas, a nostalgia precoce das quedas anteriores. Advertimos, porém: depois dos 45 anos a ressaca não se resume à bela inércia improdutiva ‒ vira uma espécie de dengue existencialista, mesmo que você seja um resistente macho-jurubeba. 

VI) Procure sentar sempre nas primeiras mesas do botequim, se possível na calçada, lá colado na sarjeta, pois todos os dias, alguma mulher irada sai de casa, revoltada com o miserável consorte, e diz assim, muito resolvida: “Hoje eu vou dar para o primeiro que encontrar”. Se bem colocado, este primeiro serás tu, bravo boêmio. 

VII) Direito máximo do consumidor: desde que o freguês não se incomode com água e sabão nos pés, poderá ficar no recinto até a descida do portão de ferro. 

VIII) É livre o “pindura”, data vênia, para fregueses com mais de cinco anos de casa, como reza a lei do usucapião. 

IX) Meu bar/meu mar... É permitido nadar no seco beijando os pés das moças por debaixo das mesas. Mesmo que você, amigo, não seja um macho-tupperware, aquele macho-tupperware, aquele bêbado que a mulher guarda para comer no dia seguinte. 

X) No país da impunidade, a saideira é como a lei, existe para ser desobedecida. Seu garçom faça o favor, mais uma. E nem me diga qual foi o resultado daquela pelada do São Paulo x Corinthians. 

Agora é a sua vez, irmã(o) de copo e boemia, de ampliar esses mandamentos. Que outras dicas poderíamos acrescentar nesta tábua sagrada? 

******* 

Francisco Reginaldo de Sá Menezes (6.10.1962), mais conhecido como Xico Sá, é um jornalista e escritor brasileiro. É ganhador de importantes prêmios do jornalismo, como Esso, Folha, Abril e Comunique-se.

Regras de abreviaturas

 

A maioria das pessoas, quando vão abreviar as palavras o fazem de qualquer maneira, mas os mais cuidadosos devem se perguntar: como eu faço para abreviar esta palavra? Existe regra pra isso? 

A resposta é simples. Existem algumas regras para abreviar as palavras, porém a maioria das abreviaturas que ganham o gosto do público são aquelas que, mesmo sem seguir as regras preditas pela gramática, são usuais, práticas. É o caso, por exemplo, do famoso “VC”, criado nos sites de bate-papo. Esta abreviatura não é reconhecida pela gramática como norma, porém é reconhecida por todos nós, usuários da língua. 

Vejamos, pois, algumas regras para se fazer uma abreviatura da maneira correta (prevista na gramática). 

Regra geral: 

A primeira sílaba da palavra + a primeira letra da sílaba seguinte + ponto abreviativo. Exemplos: adj. (adjetivo), num. (numeral). 

Outras regras: 

a) Nunca se deve cortar a palavra numa vogal, sempre na consoante. Caso a primeira letra da segunda sílaba seja vogal, escreve-se até a consoante. 

b) Se a palavra tiver acento na primeira sílaba, ele é conservado. núm. (número), lóg. (lógica). 

c) Caso a segunda sílaba se inicie por duas consoantes, utiliza-se as duas na abreviatura. Constr. (construção) Secr. (secretário). 

d) O ponto abreviativo também serve como ponto final, sendo assim, se a abreviatura estiver no final da frase, não há necessidade de se utilizar outro ponto. Ex: Comprei frutas, verduras, legumes, etc. 

e) Alguns gramáticos não admitem que as flexões sejam marcadas na abreviatura. Profª  (professora), págs. (páginas). 

Algumas palavras, mesmo não seguindo as regras descritas acima, são aceitas pela gramática normativa, é o caso de: 

a.C. ou A.C. (antes de Cristo)

ap. ou apto. (apartamento)

bel. (bacharel)

cel. (coronel)

Cia. (Companhia)

cx. (caixa)

D. (Dom, Dona)

Ilmo. (Ilustríssimo)

Ltda. (Limitada)

p. ou pág. (página) e pp. Págs. (páginas)

pg. (pago)

vv. (versos, versículos) 

Mesmo sabendo que estas siglas são permitidas e reconhecidas pela gramática, ao escrevermos textos oficiais, artigos, trabalhos, redações, não devemos utilizá-las abusivamente, pois acabará atrapalhando a clareza da comunicação. Em textos informais, no entanto, não há nenhuma restrição, a abreviatura pode ser utilizada quando quisermos. 

Sigla 

Existe uma outra maneira de abreviarmos, a sigla. Esta é também reconhecida por muitos gramáticos como um processo de formação de palavras, pois a sigla acaba tomando um significado próprio. As siglas são a junção das letras iniciais de um termo composto por mais de uma palavra: 

EUA (Estados Unidos da América)

USA (United States af America)

P.S. (pós escrito = escrito depois)

S.A. (Sociedade Anônima)

S.O.S. (Save Our Souls = Salvai Nossas Almas)

IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) 

Convencionou-se dizer que se a sigla tiver até três letras, ou se todas as letras forem pronunciadas individualmente, todas ficam Maiúsculas. ONU, MEC, USP, PM, PMDB, INSS, CNBB, RS. RS, RJ, MG. 

Se, porém, a sigla tiver a partir de quatro letras, e nem todas forem pronunciadas separadamente, apenas a primeira letra será maiúsculas, e as seguintes minúsculas: Aids, Embrapa, Detran, Unesco. 


Gramática Normativa da Língua Portuguesa 

(Rocha Lima) 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Trânsito interrompido

Ontem, o operário Rivelino da Silva dirigiu-se ao trabalho apreensivo. Após o almoço, durante a construção de uma parede no oitavo andar de um futuro prédio de apartamentos, Rivelino desequilibrou-se e caiu no meio da Avenida Ipiranga. O trânsito foi imediatamente interrompido.

Veja agora a versão poética em forma de música da mesma notícia: 

Construção 

Chico Buarque de Holanda 

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido 

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima 

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado 

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão atrapalhando o tráfego 

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passo bêbado 

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego 

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

E tropeçou no céu como se ouvisse música 

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público 

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

terça-feira, 28 de outubro de 2025

Maravilhas do Centro

 Nílson Souza

Mercado Público

Já estou com a mochila nas costas para o meu passeio preferido pelo centro de Porto Alegre neste final de outubro rosa, lilás, amarelo e multicor ‒ generosidade dos ipês, jacarandás e flamboyants das ruas e praças da Capital. Antes de chegar ao meu destino, no Largo da Quitanda, farei um rolê aleatório e fictício por esquinas esquisitas onde jamais passarei. Descerei a Rua do Ouvidor, atravessarei o Beco da Garapa até alcançar a Rua das Flores. De lá, seguirei até o Beco do Fanha, dobrando à esquerda e subindo novamente, até a Rua do Cotovelo. Então, retornarei por ela passando pela Rua Clara e pela Rua dos Sete Pecados Mortais, até chegar ao rio. 

Sete, também, são as maravilhas do mundo. 

Aproveitei o passeio imaginário para eleger minhas sete maravilhas do Centro Histórico. Número 1: o Guaíba, de preferência ao pôr do sol. Sem ele a cidade não existiria. Número 2: a Usina do Gasômetro, com seu dedo (chaminé) de 117 metros apontado para os céus que Mário Quintana sonhava levar para o céu. Número 3: o Mercado Público, com seus cheiros, sabores, cores e louvores a todos credos. Número 4: a Casa de Cultura (Mário Quintana) do poeta que virou anjo e subiu pela fumaça de seu cigarro. Número 5: a Basílica (da Igreja) das Dores, templo de oração e dor, por seus mais de 200 anos, pelos 63 degraus da escadaria e pela alma dos escravos sacrificados no Largo da Forca. Número 6: o Theatro São Pedro, pelo seu lustre e pelos ilustres que já pisaram nos seu multipalcos, encantando plateias de todos os tempos. Número 7: o Viaduto Otávio Rocha, pela arquitetura, pelas belas arcadas e pelos quatro acessos que representam as estações do ano. 

São minhas escolhas. Não pretendo que sejam consensuais, nem definitivas. Aceito até revisá-las, se o distinto leitor e a amável leitora me mandarem as suas pelo e-mail desta coluna. 

P.S.: Rua do Ouvidor e Beco da Garapa são nomes antigos da (atual) General Câmara*, Rua das Flores virou Siqueira Campos, a (atual) Caldas Júnior já foi o Beco do Fanha, Rua do Cotovelo era um dos trechos da (atual) Riachuelo, Rua Clara era o nome da (atual) João Manuel e a (atual) Bento Martins já foi Rua dos Sete Pecados Mortais. E Largo da Quitanda é a (atual) Praça da Alfândega, dos livros e de todas as maravilhas. 

(Do jornal Zero Hora, 28.10.2025) 

*A atual General Câmara tinha, também, mais os seguintes nomes: Rua da Ladeira e Beco do João Inácio.  

Navegue

 

Navegue, descubra tesouros,

mas não os tire do fundo do mar, o lugar deles é lá.

Admire a lua, sonhe com ela,

mas não queira trazê-la para a terra.

Curta o sol, se deixe acariciar por ele,

mas lembre-se que o seu calor é para todos.

Sonhe com as estrelas, apenas sonhe, elas só podem brilhar no céu.

Não tente deter o vento, ele precisa correr por toda parte,

ele tem pressa de chegar sabe-se lá onde.

Não apare a chuva, ela quer cair e molhar muitos rostos,

não pode molhar só o seu.

As lágrimas?

Não as seque, elas precisam correr na minha, na sua, em todas as faces.

O sorriso!

Esse você deve segurar, não o deixe ir embora, agarre-o!

Quem você ama?

Guarde dentro de um porta-joias, tranque, perca a chave!

Quem você ama é a maior joia que você possui, a mais valiosa.

Não importa se a estação do ano muda, se o século vira,

se o milênio é outro, se a idade aumenta...

Conserve a vontade de viver, não se chega à parte alguma sem ela.

Abra todas as janelas que encontrar e as portas também.

Persiga um sonho, mas não o deixe viver sozinho.

Alimente sua alma com amor, cure suas feridas com carinho.

Descubra-se todos os dias, deixe-se levar pelas vontades,

mas não enlouqueça por elas.

Procure, sempre procure o fim de uma história, seja ela qual for.

Dê um sorriso para quem esqueceu como se faz isso.

Acelere seus pensamentos, mas não permita que eles te consumam.

Olhe para o lado, alguém precisa de você.

Abasteça seu coração de fé, não a perca nunca.

Mergulhe de cabeça nos seus desejos e satisfaça-os.

Agonize de dor por um amigo,

só saia dessa agonia se conseguir tirá-lo também.

Procure os seus caminhos,

mas não magoe ninguém nessa procura.

Arrependa-se, volte atrás, peça perdão!

não se acostume com o que não o faz feliz,

revolte-se quando julgar necessário.

Alague seu coração de esperanças,

mas não deixe que ele se afogue nelas.

Se achar que precisa voltar, volte!

Se perceber que deve seguir, siga!

Se estiver tudo errado, comece novamente.

Se estiver tudo certo, continue.

Se sentir saudades, mate-a.

Se perder um amor. não se perca!

Se achá-lo, segure-o!

Circunda-te de rosas, ama, bebe e cala. 

O mais é nada. 

(Autor desconhecido)

O enigma do garçom picareta

 

Três amigos foram comer num restaurante e, no final, a conta deu R$ 30,00. Fizeram o seguinte: cada um deu 10 reais... 

Amigo 1: R$ 10,00

Amigo 2: R$ 10,00

Amigo 3: R$ 10,00 

O garçom levou o dinheiro até o caixa, e o dono do restaurante disse o seguinte: 

‒ Esses três são clientes antigos do restaurante, então vou devolver R$ 5,00 para eles! 

E entregou ao garçom cinco notas de R$ 1,00. 

O garçom, muito esperto, fez o seguinte: pegou R$ 2,00 para ele e deu R$ 1,00 para cada um dos amigos. No final ficou assim: 

Amigo 1: R$ 10,00 (-R$ 1,00 que foi devolvido) = Gastou R$ 9,00.

Amigo 2: R$ 10,00 (-R$ 1,00 que foi devolvido) = Gastou R$ 9,00.

Amigo 3: R$ 10,00 (-R$ 1,00 que foi devolvido) = Gastou R$ 9,00. 

Logo, se cada um dos amigos gastou R$ 9,00, o que os três gastaram juntos foi R$ 27,00. E se o garçom pegou R$ 2,00 para ele, temos o seguinte: 

Três amigos:  R$ 27,00

Garçom:         R$   2,00

TOTAL:         R$ 29,00 

Pergunta-se: Onde foi parar a droga do outro R$ 1,00? 

(A solução acima é uma falácia!) 

Solução: 

(Para quem ainda não entendeu.) 

O dono do bar ficou com 25 reais; 

O garçom ficou com 2 reais; 

Total do dono do bar e do garçom = 27 reais. 

Cada amigo recebeu 1 real = 3 

27 reais + 3 reais = 30 reais. 

segunda-feira, 27 de outubro de 2025

Onde anda meu Amor?

 Laércia Dantas

‒ Garçom!

‒ Oi!

‒ Tem Pitu?

‒ Tem.

‒ Traz. 

‒ Garçom!

‒ Opa!

‒ Meu amor não andou aqui hoje?

‒ Não.

‒ Não?

‒ Não. 

Onde anda meu amor.

Diga, por favor,

O que está fazendo agora.

Será que nunca me amou?

Também se enganou,

Tá sozinha, agora chora. 

A saudade, a solidão

Aperta o coração,

As horas quase não passam.

Vou vivendo por viver

Longe de você,

As lembranças me maltratam. 

Volta, meu amor,

Vem me adoçar com teus beijos

Volta, meu amor, meu amor.

Meu coração por ti chama.

Volta, meu amor, (arrocha, mamãe).

Se também for seu desejo. (volta, bebê). 

******* 

P.S. Essa música está na internet. 

Apelo

 

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, e até o canário ficou mudo. Para não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite e eles se iam e eu ficava só, sem o perdão de sua presença a todas as aflições do dia, como a última luz na varanda.

E comecei a sentir falta das pequenas brigas por causa do tempero na salada − o meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa, calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolhas? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

*******

Dalton Trevisan. “Mistérios de Curitiba”,

5ª edição ‒ Rio de Janeiro: Record, 1996.

domingo, 26 de outubro de 2025

Cuidado com as respostas

 

O cara está preso na delegacia, todo arrebentado e com um dos olhos muito ferido. 

O advogado comparece para libertá-lo, e pergunta o que havia acontecido. 

O cliente, então, começa a explicar: 

‒ Bem, eu estava passando na rua e, de repente, vi um monte de gente correndo assustadas. As pessoas estavam socorrendo uma prostituta de um bordel, que acabara de dar a luz a um lindo menino. 

Solidário, comprei um pacote de fraldas para presentear a prostituta. Então, um PM, com 2 metros de altura e 3 de circunferência, se aproximou e, vendo o pacote de fraldas nas minhas mãos, perguntou, desconfiado: 

‒ Pra onde vai isso? 

E eu respondi: 

‒ Vai pra puta que pariu... 

Depois disso, não me lembro de mais nada, mas já estou conseguindo abrir um olho, mas não estou entendendo o porquê da agressão...

Duelo de Adagas

 Letra de Luiz Coronel e Música de Éwerton Ferreira

Imagem da internet

Eram dois irmãos calados

‒ um tropeça e outro cai ‒

o queixo duro da mãe,

o mesmo silêncio do pai. 

       As fainas do dia a dia

       carregavam ombro a ombro.

       E tão bem se entendiam

       qual o vulto e sua sombra. 

Apostavam no mesmo baio,

mateavam horas a fio.

No mundo não há quem explique

as razões do desafio. 

       Por questões de sesmarias

       ou por afago de fêmea?

       Ou quem sabe o braço afoito

       ou mesmo a boca blasfema? 

Beberam jarras de ódio,

comeram rações de avareza.

A loucura e a ganância

sentaram na mesma mesa. 

      Poncho atado um no outro

      e as adagas de um bom corte.

      Enlaçados pelo ódio,

      abraçados pela morte. 

Duas vertentes de sangue

se encontraram logo em seguida.

Nem mesmo a morte separa

os rumos daquelas vidas 

Do Caderno Sábado, Correio do Povo, 25.10.2025

sábado, 25 de outubro de 2025

Você sempre poderá mudar o seu destino

Durante os trinta anos em que lecionei, mais do que dar aulas, dei exemplos de vida. Lecionei em duas escolas públicas e uma particular simultaneamente. Dizia que havia três formas de uma pessoa vencer e, conseqüentemente, ganhar dinheiro na vida: uma, apostando na loteria e ganhando sozinho um prêmio fantástico; outra, descobrir que era o único herdeiro de tio rico e desconhecido, como acontece muito nas novelas; e, por último, estudar. Perguntava aos alunos qual era a hipótese mais lógica. A resposta todos vocês já sabem.

À medida que eu ia envelhecendo, ia encontrando meus ex-alunos, ia encontrando ganhadores e perdedores. Encontrei alunos nas mais variadas profissões liberais. A maioria ganhando muito mais do que eu, e em profissões muito mais importantes do que a minha. Isso me deixava imensamente feliz. Mas um exemplo deixou-me surpreendido. 

Numa aula noturna de uma Escola Municipal, alguém bateu na minha porta. Interrompi a aula e fui atender. Deparei, na minha frente, com um jovem vestido com uma farda verde-oliva, com as insígnias de terceiro sargento do Exército, perfilado, dando-me continência, visivelmente emocionado. Olhei-o e recordei-me de quem se tratava: 

- Não pode ser, logo você, Airton! Como você conseguiu isso? 

- Por um filme que o senhor passou na sala de audiovisual. 

- Que filme, cara, não estou lembrando... 

- “A Força do Destino”. Esse filme mudou a minha vida.

Lembrei, então, do filme que, inclusive em mim, deixou grandes impressões. 

Nos anos 80, eu fui um professor pioneiro, nas escolas municipais, a utilizar o videocassete em sala de aula. Eu havia comprado um vídeo Betamax, julgando ser o melhor e que logo saiu de estoque por ter uma tecnologia Sony exclusiva, e uma televisão de 14 polegadas. Uma vez por mês, eu escolhia um filme de impacto psicológico e com uma temática de vencedor para passar aos alunos. Escolhi o filme “A força do destino” (An officer and a gentleman) com Richard Gere. O filme, para quem não o assistiu, trata de um jovem desajustado, morando com um pai putanheiro, que resolve ser um oficial aviador da Marinha Americana. Apesar de ser um jovem saudável e bom desportista, ele é um grande trambiqueiro, ganhando dinheiro num comércio ilegal dentro da Academia. É descoberto por um sargento durão que resolve fazer tudo para que ele peça desligamento voluntário. Aplica nele castigos físicos cruéis para mandá-lo embora, quando o personagem, na passagem mais dramática do filme, diz: 

- Eu não tenho nada! Eu não tenho ninguém! Eu não tenho para onde ir! 

Recebe mais uma chance e se torna oficial. 

Quando o aluno Airton começou a me dar problemas em sala de aula, consultei a sua ficha de avaliação psicológica, e vi que ele tinha um pai autoritário e violento, que lhe aplicava algumas surras constantemente. No filme, ele se viu na figura do personagem e de sua família, percebendo que a vida poderia lhe dar uma chance, e ele tinha que aproveitá-la. 

Terminou o primeiro grau. Foi estudar na Escola Técnica Parobé, uma das melhores de Porto Alegre. Quando foi servir, já havia praticamente terminado o segundo grau, e já sabia o que queria ser. 

Ele me abraçou. Foi embora, me pedindo uma cópia do filme. 

A partir daquela noite, eu já não fui mais o mesmo. Sabia que havia mudado uma vida e a minha vida seria um pouco mais feliz.

Obs.: O DVD desse filme faz parte da minha coleção particular.


sexta-feira, 24 de outubro de 2025

Conto erótico n ͦ 1

 Luís Fernando Veríssimo

Assim?

‒ É. Assim.

‒ Mais depressa?

‒ Não. Assim está bem. Um pouco mais para...

‒ Assim?

‒ Não, espere.

‒ Você disse que...

‒ Para o lado. Para o lado!

‒ Querido...

‒ Estava bem mas você...

‒ Eu sei. Vamos recomeçar. Diga quando estiver bem.

‒ Estava perfeito e você...

‒ Desculpe.

‒ Você se descontrolou e perdeu o...

‒ Eu já pedi desculpas!

‒ Está bem. Vamos tentar outra vez. Agora.

‒ Assim?

‒ Um pouco mais para cima.

‒ Aqui?

‒ Quase. Está quase!

‒ Me diga como você quer. Oh, querido...

‒ Um pouco mais para baixo.

‒ Sim.

‒ Agora para o lado. Rápido!

‒ Amor, eu...

‒ Para cima! Um pouquinho...

‒ Assim?

‒ Ai! Ai!

‒ Está bom?

‒ Sim. Oh, sim. Oh yes, sim.

‒ Pronto.

‒ Não! Continue.

‒ Puxa, mas você...

‒ Olha aí. Agora você...

‒ Deixa ver...

‒ Não, não. Mais para cima.

‒ Aqui?

‒ Mais. Agora para o lado.

‒ Assim?

‒ Para a esquerda. O lado esquerdo!

‒ Aqui?

‒ Isso! Agora coça. 

 

Do livro “O Rei do Rock”, de Luis Fernando Veríssimo

RBS/ Editora Globo

Como dar um comprimido a um gato

 em 14 facílimos passos! 

Veja como é fácil!

01. Pegue o gato e coloque-o em seu braço esquerdo como se estivesse segurando um bebê. Posicione o dedo indicador e o polegar da mão esquerda em cada canto da boca do gato. Pressione levemente para que ele abra a boca. Tão logo isto aconteça, coloque o comprimido em sua boca. Permita que o gato feche a boca e engula a pílula. 

02. Pegue a pílula do chão e o gato de trás do sofá. Encaixe-o no seu braço esquerdo e repita o processo. 

03. Apanhe o gato no quarto e jogue fora o comprimido encharcado. 

04. Pegue um novo comprimido, coloque o gato em seu braço esquerdo e segure as patas traseiras com a mão esquerda. Force-o a abrir a boca e empurre o comprimido até a garganta com o indicador. Feche a sua boca imediatamente e conte até 10 antes de soltá-lo. 

05. Apanhe o comprimido de dentro do aquário e o gato de cima do guarda-roupa. Peça ajuda a um amigo. 

06. Ajoelhe-se no chão com o gato preso firmemente entre os joelhos, segurando suas quatro patas. Ignore os grunhidos emitidos pelo gato. Coloque uma espátula de madeira o mais fundo que puder. Deixe o comprimido escorregar pela espátula e esfregue a garganta vigorosamente. 

07. Apanhe o gato que está grudado no trilho da cortina e pegue outro comprimido. Lembre-se de comprar uma nova espátula e remendar a cortina. Cuidadosamente enrole o gato numa toalha de modo que apenas sua cabeça fique de fora. Peça para o amigo mantê-lo assim. Dissolva o comprimido em pouco de água, abra a boca do gato com o auxílio de um lápis e despeje o líquido em sua boca. 

08. Veja na bula do remédio se ele é nocivo para seres humanos. Beba um pouco de água para se acalmar. Faça um curativo no braço do amigo e limpe o sangue do tapete com água morna e sabão. 

09. Busque o gato no vizinho. Pegue um novo comprimido. Bote o gato dentro do armário da cozinha e feche a porta, mantendo a cabeça do gato para o lado de fora. Abra sua boca com o auxílio de uma colher de sobremesa. Jogue o comprimido pra dentro da boca com o auxílio de um estilingue. 

10. Vá até a garagem e apanhe uma chave de fenda para colocar a porta do armário no lugar. Coloque uma compressa fria nos arranhões do seu rosto e cheque quando tomou pela última vez a vacina antitetânica. Jogue a camiseta fora e pegue outra em seu quarto. 

11. Chame o corpo de bombeiros para pegar o gato do alto da árvore do outro lado da rua. Peça desculpas ao vizinho que se machucou tentando desviar-se do gato. Pegue o último comprimido do frasco. 

12. Amarre as patas dianteiras nas traseiras com a corda do varal e prenda o gato no pé da mesa de jantar. Coloque luvas de jardinagem. Abra a boca do gato com uma chave inglesa. Coloque o comprimido seguido de um pedaço de filé mignon. Segure a cabeça dele na vertical e derrame meio copo de água para ajudá-lo a engolir o comprimido. 

13. Peça ao seu amigo para levá-lo ao pronto socorro mais próximo. Sente-se tranquilamente enquanto o médico sutura seus dedos e braços e remove partes do comprimido que ficaram encravadas no seu olho direito. Pare na primeira loja de móveis no caminho de casa e encomende uma nova mesa de jantar. 

14. Procure um veterinário que faça atendimento a domicílio.


quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O megalo e o paranoico

 Luis Fernando Veríssimo

O Paranoico chega em casa apressado. 

‒ Temos que fazer as malas, depressa. 

‒ Por quê? ‒ quer saber a mulher, assustada. 

‒ Li nos jornais que o Governo vai agir com rigor contra a sonegação. Temos que sair da cidade. 

‒ E ir para onde? 

‒ Não sei, depois a gente vê. Vamos, depressa! A qualquer minuto batem na porta. 

‒ Mas... 

‒ Reúna as crianças e desligue a geladeira. 

‒ Mas eu não sabia que você sonegava. 

‒ Eu, sonegar? Eu não sonego nada. Não sonego nem informação. Aliás, volta e meia vou à delegacia, por minha própria vontade, só para informar que não fiz nada. No caso deles estarem pensando que eu fiz alguma coisa. 

‒ Mas então por quê... 

‒ Cadê aquela mala grande: Por que o quê? 

‒ Se você não é sonegador, por que fugir? 

‒ É mesmo! 

Nisso, batem na porta. O Paranoico se abraça na mulher, apavorado. 

‒ Nesse caso, o que será que eles querem comigo? 

******* 

O Megalomaníaco chega ao estádio um pouco atrasado. Ainda está subindo a rampa quando um time entra em campo. Ouvindo os gritos da multidão, o Megalo se pergunta: 

‒ Ué, como é que sabem que estou chegando? 

******* 

O Paranoico viaja num ônibus lotado. 

‒ Um passinho à frente, por favor ‒ pede o cobrador para os que estão de pé. 

‒ Por que eu? Por que eu? 

******* 

O Megalo chega em casa no fim do noticiário da TV. Fingindo indiferença, pergunta: 

‒ Alguma notícia sobre mim? 

******* 

(...) 

Um dia o Paranoico e Megalomaníaco se encontram: 

‒ Até Deus está contra mim. 

‒ Eu?! 

(Do livro “O Rei do Rock” de Luis Fernando Veríssimo)

Pedido desnecessário

 

Sou sócio do Sport Club Internacional há mais de 40 anos. Nesta semana recebi um comunicado da direção do clube pedindo, encarecidamente, que os torcedores não jogassem nada no campo, pois isso os jogadores já estão fazendo há vários jogos: Não estão jogando nada!

******* 

Recebi uma notícia de um amigo colorado que a PF fez uma batida no Centro de Treinamento do Internacional e encontrou um monte de  “drogas”, só não encontrou “crak”.

quarta-feira, 22 de outubro de 2025

Mandamentos

Nílson Souza

Depois de 40 dias e 40 noites ‒ ou muitos mais ‒ recebendo vídeos engraçadinhos, mensagens indesejadas e outros despautérios digitalizados, resolvi escalar um Monte Sinai virtual e pedi ao Senhor GPT que me ajudasse e formular dez mandamentos para usuários de internet e redes sociais, mantendo o espírito ético e moral dos originais bíblicos. Recebi o que solicitei. Ele não gravou em pedra, mas os artigos ficaram tão espirituosos e adequados que me permito compartilhá-los com os leitores deste espaço. Aí vão: 

 1. Amarás a verdade acima de todas as curtidas. 

     Não idolatres seguidores, fama ou algoritmos ‒ valoriza o que é verdadeiro, não o que é viral. 

  2. Não usarás o nome alheio em vão. 

      Evita perfis falsos, calúnias e o uso indevido de imagens, vozes ou identidades de outras pessoas. 

 3. Guardarás um tempo offline. 

     Desconecta-te aos domingos (ou quando possível) para lembrar que há vida além da tela e conexões que não dependem de Wi-Fi. 

 4. Honrarás teus pais ‒ e também teus avós ‒ nas redes. 

     Ensina-os com paciência, protege-os de golpes e respeita suas opiniões, mesmo quando digitadas em caixa alta. 

 5. Não matarás com palavras. 

     Comentários cruéis, humilhações e cancelamentos ferem tanto quanto armas. Usa o teclado com empatia. 

 6. Não pecarás contra a privacidade. 

     Respeita os limites da intimidade alheia: o que é pessoal, permanece pessoal ‒ mesmo que dê muitos views. 

 7. Não furtarás conteúdo. 

     Credita sempre o autor, o fotógrafo, o artista, o criador. A internet é de todos, mas o trabalho tem dono. 

 8. Não levantarás fake news. 

     Antes de compartilhar, verifica. A mentira digital pode destruir reputações reais. 

 9. Não desejarás o perfil do próximo. 

     Não invejes a vida editada dos outros ‒ ninguém posta os dias nublados no feed. 

10. Não cobiçarás os likes alheios. 

     Busca conexões sinceras, não validação numérica. A melhor curtida é a paz interior.

 

P.S. (ou P.GPT.): Em respeito ao sétimo mandamento do decálogo tradicional ‒ e também desta sátira ‒, reitero que não sou o autor de nenhuma dessas pérolas. Apenas fiz a provocação. 

(Do jornal Zero Hora, 21.10.2025)


terça-feira, 21 de outubro de 2025

O segundo coração

 O músculo invisível que salva vidas 

O seu “segundo coração”

Você sabia que sua panturrilha é chamada de “segundo coração” pelos cardiologistas? 

É que ela ajuda a bombear o sangue de volta ao coração, especialmente das pernas. E isso é fundamental para prevenir trombose, varizes e inchaço. 

Ao caminhar, subir escadas ou se alongar, você ativa esse “músculo invisível” que trabalha em silêncio pela sua saúde. 

Curiosidade: pessoas que ficam muito tempo sentadas ou em pé precisam dar atenção extra a esse músculo. Mexer as pernas regularmente é essencial! 

Fonte: 

Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular 

(SBACV) 

De “Apenas Dicas Online” 

Observação:

Deitado ou sentado numa cadeira, mexa os dois pés contraindo e descontraindo os músculos da barriga das pernas (panturrilhas) umas dez a vinte vezes diariamente, isso ativará o seu segundo coração.