quinta-feira, 23 de outubro de 2025

O megalo e o paranoico

 Luis Fernando Veríssimo

O Paranoico chega em casa apressado. 

‒ Temos que fazer as malas, depressa. 

‒ Por quê? ‒ quer saber a mulher, assustada. 

‒ Li nos jornais que o Governo vai agir com rigor contra a sonegação. Temos que sair da cidade. 

‒ E ir para onde? 

‒ Não sei, depois a gente vê. Vamos, depressa! A qualquer minuto batem na porta. 

‒ Mas... 

‒ Reúna as crianças e desligue a geladeira. 

‒ Mas eu não sabia que você sonegava. 

‒ Eu, sonegar? Eu não sonego nada. Não sonego nem informação. Aliás, volta e meia vou à delegacia, por minha própria vontade, só para informar que não fiz nada. No caso deles estarem pensando que eu fiz alguma coisa. 

‒ Mas então por quê... 

‒ Cadê aquela mala grande: Por que o quê? 

‒ Se você não é sonegador, por que fugir? 

‒ É mesmo! 

Nisso, batem na porta. O Paranoico se abraça na mulher, apavorado. 

‒ Nesse caso, o que será que eles querem comigo? 

******* 

O Megalomaníaco chega ao estádio um pouco atrasado. Ainda está subindo a rampa quando um time entra em campo. Ouvindo os gritos da multidão, o Megalo se pergunta: 

‒ Ué, como é que sabem que estou chegando? 

******* 

O Paranoico viaja num ônibus lotado. 

‒ Um passinho à frente, por favor ‒ pede o cobrador para os que estão de pé. 

‒ Por que eu? Por que eu? 

******* 

O Megalo chega em casa no fim do noticiário da TV. Fingindo indiferença, pergunta: 

‒ Alguma notícia sobre mim? 

******* 

(...) 

Um dia o Paranoico e Megalomaníaco se encontram: 

‒ Até Deus está contra mim. 

‒ Eu?! 

(Do livro “O Rei do Rock” de Luis Fernando Veríssimo)

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