Luis Fernando Veríssimo
O Paranoico chega em casa apressado.
‒ Temos que fazer as malas, depressa.
‒ Por quê? ‒ quer saber a mulher, assustada.
‒ Li nos jornais que o Governo vai agir com rigor contra a sonegação. Temos que sair da cidade.
‒ E ir para onde?
‒ Não sei, depois a gente vê. Vamos, depressa! A qualquer minuto batem na porta.
‒ Mas...
‒ Reúna as crianças e desligue a geladeira.
‒ Mas eu não sabia que você sonegava.
‒ Eu, sonegar? Eu não sonego nada. Não sonego nem informação. Aliás, volta e meia vou à delegacia, por minha própria vontade, só para informar que não fiz nada. No caso deles estarem pensando que eu fiz alguma coisa.
‒ Mas então por quê...
‒ Cadê aquela mala grande: Por que o quê?
‒ Se você não é sonegador, por que fugir?
‒ É mesmo!
Nisso, batem na porta. O Paranoico se abraça na mulher, apavorado.
‒ Nesse caso, o que será que eles querem comigo?
*******
O Megalomaníaco chega ao estádio um pouco atrasado. Ainda está subindo a rampa quando um time entra em campo. Ouvindo os gritos da multidão, o Megalo se pergunta:
‒ Ué, como é que sabem que estou chegando?
*******
O Paranoico viaja num ônibus lotado.
‒ Um passinho à frente, por favor ‒ pede o cobrador para os que estão de pé.
‒ Por que eu? Por que eu?
*******
O Megalo chega em casa no fim do noticiário da TV. Fingindo indiferença, pergunta:
‒ Alguma notícia sobre mim?
*******
(...)
Um dia o Paranoico e Megalomaníaco se encontram:
‒ Até Deus está contra mim.
‒ Eu?!
(Do livro “O Rei do Rock” de Luis Fernando Veríssimo)

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