terça-feira, 7 de outubro de 2025

A morte de Zumbi

 Por Luís da Câmara Cascudo

Na serra da Barriga, Alagoas, durante 63 anos viveram negros livres, no Quilombo dos Palmares. Fugiram de fazendas, engenhos, cidades e vilas e fundaram um Estado autônomo. Elegiam, vitaliciamente, um Zumbi, senhor da força militar e da lei tradicional. Não havia ricos nem pobres, furtos nem injustiças. Famílias nasceram e, com elas, cidadãos palmarinos. 

No pátio central, aringa africana (campo fortificado), residia Zumbi. Ali, distribuía justiça, exercitava tropas, comandava festas e acompanhava o culto, religião espontânea, aculturação de catolicismo com rituais do continente negro. Atraia esperança de todos os escravos chibateados que, de todos os cantos, vinham parase juntar a Zumbi. 

Em 1695, sete mil veteranos, comandados por grandes chefes de guerra, marcharam sobre Palmares. Zumbi venceu o combate. O inimigo recompunha-se, incendiava, prendia, trucidava. 

Quando a derradeira cerca se espatifou, Zumbi correu até o ponto mais alto, de onde o panorama era completo. Com seus companheiros, olhou o final da batalha. Brandiu a lança e saltou para o abismo. Seus generais o acompanharam, fiéis ao Rei e ao Reino vencidos. A data é dada como 20 de novembro de 1695. 

Em certos pontos da serra ainda estão visíveis as pedras negras das fortificações. E vive a lembrança do último Zumbi, Rei dos Palmares, guerreiro que viveu na morte seu direito de liberdade e de heroísmo.

 

20/11 é o Dia Nacional da Consciência Negra. 

Cascudo, Luís da Câmara. Lendas brasileiras. São Paulo: Global Editora, 2001. Almanaque Brasil, São Paulo, n ͦ 6, novembro de 2003, pág. 40. 

Fonte: Português – José de Nicola – ensino médio – Volume 1 – 1ª edição, São Paulo, 2009. Editora Scipione. pág. 92.

 

Luís da Câmara Cascudo é um dos maiores cientistas sociais do país, responsável por disciplinar o conhecimento popular enquanto ciência. Cascudo nasceu na cidade de Natal (RN), em 30 de dezembro 1898, vindo a falecer em 30 de julho de 1986. Veio de uma família tradicional, cursou Direito e chegou a ocupar cargos públicos como o de secretário do Tribunal de Justiça e consultor jurídico. Também chegou a lecionar na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Contudo, é o estudo do folclore e da cultura popular o maior legado de Cascudo. Sua vida foi dedicada a mostrar a importância da cultura popular e da tradição oral em época que os próprios agentes da cultura popular negavam validade às suas práticas perante a cultura letrada. É difícil buscar uma definição para Cascudo. Ele de fato foi um cientista social, com estudos ligados à Antropologia, contudo Cascudo abominava ser chamado de Antropólogo Cultural, ele se denominava como Etnógrafo, que se caracteriza por “estudar a origem e estabelecimento, modificação e vitalidade das culturas humanas” (CASCUDO, 1983a, p.26).

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