domingo, 31 de agosto de 2025

O Homem Trocado

 Por Luis Fernando Veríssimo

Ilustração: Ricardo Machado

O homem acorda da anestesia e olha em volta. Ainda está na sala de recuperação. Há uma enfermeira do seu lado. Ele pergunta se foi tudo bem. 

– Tudo perfeito – diz a enfermeira, sorrindo. 

– Eu estava com medo desta operação… 

– Por quê? Não havia risco nenhum. 

– Comigo, sempre há risco. Minha vida tem sido uma série de enganos… E conta que os enganos começaram com seu nascimento. 

Houve uma troca de bebês no berçário e ele foi criado até os dez anos por um casal de orientais, que nunca entenderam o fato de terem um filho claro com olhos redondos. Descoberto o erro, ele fora viver com seus verdadeiros pais. Ou com sua verdadeira mãe, pois o pai abandonara a mulher depois que esta não soubera explicar o nascimento de um bebê chinês. 

– E o meu nome? Outro engano. 

– Seu nome não é Lírio? 

– Era para ser Lauro. Se enganaram no cartório e… Os enganos se sucediam. 

Na escola, vivia recebendo castigo pelo que não fazia. Fizera o vestibular com sucesso, mas não conseguira entrar na universidade. O computador se enganara, seu nome não apareceu na lista. 

– Há anos que a minha conta do telefone vem com cifras incríveis. No mês passado tive que pagar mais de R$ 3 mil. 

– O senhor não faz chamadas interurbanas? 

– Eu não tenho telefone! 

Conhecera sua mulher por engano. Ela o confundira com outro. Não foram felizes. 

– Por quê? 

– Ela me enganava. 

Fora preso por engano. Várias vezes. Recebia intimações para pagar dívidas que não fazia. Até tivera uma breve, louca alegria, quando ouvira o médico dizer: – O senhor está desenganado. Mas também fora um engano do médico. Não era tão grave assim. Uma simples apendicite. 

– Se você diz que a operação foi bem… 

A enfermeira parou de sorrir. 

– Apendicite? – perguntou, hesitante. 

– É. A operação era para tirar o apêndice. 

– Não era para trocar de sexo? 

(Do jornal Extra Classe)

Não me acorde

 

O passado é prólogo. 

Certos acontecimentos dão força a essa frase, transforma tudo que veio antes em preliminar, em mero antecedente, ou para usar outro termo literário, em prefácio. 

Você se da conta de que tudo que houve até ali, toda uma vida, toda uma história foi simplesmente preparação para aquele certo momento, depois do qual, nada será como era. 

E o passado ganha uma lógica que não tinha. Você passa a entender tudo em retrospecto, tudo tinha um sentido em que você apenas não perceberá, na falta do momento máximo. 

A vitória do Grêmio, em Tókio em 1983 nos anos medíocres, o quase rebaixamento, as finais desperdiçadas, os vexames, as desilusões, tudo era prólogo para ontem. 

Agora ficou claro, agora ficou lógico. O próprio destaque como melhores do mundo, conquistado pelo Barcelona e pelo Ronaldinho fazia parte da preparação para o nosso 17 de dezembro que não teria o mesmo gosto épico se o adversário fosse outro. 

Tudo era armação para aumentar o brilho e o drama do nosso momento máximo, tudo se encaixava, ou você pensa que a saída do Pato e do Fernandão foi obra do acaso, esse autor sem imaginação? 

O resultado veio sendo construído aos poucos, desde antes da fundação do Internacional, antes de Pedro Álvares Cabral, antes de Onero e das Pirâmides, e eu sabia que havia uma justificativa histórica para o topete do Gabiru! 

Há dias a leitora Poliana Lopes me lembrou de um texto que eu tinha escrito e esquecido, ela teve a gentileza de me mandar o texto e eu peço licença para repeti–lo a gora, era assim: 

“Meu caro Colorado, desculpe essa carta a céu aberto, é por que não sei seu nome nem seu endereço. Na verdade, só vi você na rua de mãos dadas com seu pai e cercado pelos seus irmãos que vestiam a camiseta do Grêmio, suponho que fossem seu pai e seus irmãos. Você estava com a camiseta do Internacional, quase parei o carro para olhar melhor, mas não era miragem. Você tinha uns quatro ou cinco anos e estava de camiseta vermelha, seu pai vestia uma camiseta branca exemplarmente neutra, mas posso imaginar como tem sido a sua vida em casa. As provocações, os petelecos, a flauta, o martírio. E lá estava você de camiseta vermelha o antigo escudo orgulhosamente no peito, desafiando todas as provações. Não sei se você sabe que vários colorados da sua geração não aguentaram, e trocaram de time. Levaram pais e avós ao desespero, mas não suportaram a pressão do sucesso gremista, você aguentou! Você não sabe, mas é um herói. E fiquei pensando que quando for a nossa vez de novo teremos certamente a torcida mais dedicada, fiel, convicta e feliz do Brasil. Por que será a torcida dos que resistiram! Aguente só mais um pouco, meus respeitos.” 

Mas isso tudo também pode ser um sonho, se for, por favor, não me acorde! 

******* 

Crônica de Luis Fernando Verissimo retirada do jornal Zero Hora do dia 18 de dezembro de 2006, um dia após o Internacional se tornar campeão mundial.

sábado, 30 de agosto de 2025

A primeira vez que Verissimo nos fez chorar

 Fabrício Carpinejar

Luis Fernando Veríssimo por Baptistão

Antes de Luis Fernando Verissimo, a crônica se centrava na primeira pessoa, no tom confessional, nas nuances biográficas, envolvido no gênero do “eu”. 

Depois dele, nada mais foi igual. Surgiram os tipos universais: o amigo, a vizinha, o professor, o policial, o viajante. Virou o território ficcional da terceira pessoa, capaz de retratar qualquer um, inclusive secretamente o próprio Verissimo. 

Verissimo é inimitável, o maior cronista brasileiro pós-Rubem Braga, com cerca de 80 obras e mais de 5 milhões de exemplares vendidos. 

Começou com o horóscopo e o copidesque no jornal Zero Hora, em 1966, e arrebatou colunas nas principais publicações do país, como Veja, O Estado de S.Paulo e O Globo. 

Com sua fama estrondosa, o mítico Erico Verissimo passou a ser lembrado por ter sido o pai de Luis Fernando. 

Em poucas linhas, ele desvendava dilemas comportamentais. Escrevia como quem desenhava: rápido, certeiro, irônico. O poder de síntese se aproximava de uma epifania. 

Quem nunca se sentiu parte da Família Brasil, seus esquetes humorísticos satirizando a classe média nos anos 70 e 80? 

Quem não se politizou com as tirinhas das Cobras, protagonizadas por animais rastejantes que conversavam entre si sobre os destinos do país?

Quem não se compadeceu da Velhinha de Taubaté, que foi concebida durante a ditadura militar e ficou famosa por ser “a última no Brasil que ainda acreditava no governo”? 

Quem não riu com o Analista de Bagé, mais ortodoxo que pomada Minancora, um psicanalista freudiano que resolvia mimimi com o joelhaço? 

Quem não viu alguma tia representada na Dorinha e seu cortejo de socialites, buscando a eterna juventude por incansáveis intervenções estéticas? 

Quem não desistiu de recorrer à espionagem acompanhando as peripécias de Ed Mort, um detetive particular pobre e trapalhão? 

Quem não se valeu dos exemplos das Comédias da Vida Privada para não levar a sério os desentendimentos de casal?  

Os dados oficiais professam que Verissimo faleceu aos 88 anos, no sábado (30.08.2025), no Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre. Mas ele não morreu. É impossível que morra. 

Se Luis Fernando nos fez esquecer que a morte existe, que ela seja educada e faça o mesmo. Ele sempre nos fez rir, é a primeira vez que nos faz chorar. 

(Do jornal Zero Hora, 01.09.2025)

Luis Fernando Verissimo,

 mestre da crônica e do humor,

morre aos 88 anos.


26.09.1936 - 30.08.2025

Escritor e cartunista criou personagens inesquecíveis como o Analista de Bagé, a Velhinha de Taubaté e a Família Brasil. 

Verissimo estava internado desde 11/08/2025) na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Moinhos de Vento em Porto Alegre (RS), com princípio de pneumonia. 

O escritor gaúcho, nascido em Porto Alegre em 26 de setembro de 1936, enfrentava há anos uma série de complicações de saúde que incluíam a doença de Parkinson, sequelas de um Acidente Vascular Cerebral sofrido em 2021, além de problemas cardíacos. 

Ao fim da vida, enfrentava dificuldades de fala e as poucas palavras que ainda balbuciava, eram em inglês, conforme relato de Lúcia Verissimo, de 81 anos e esposa do escritor por 61 deles, à Folha de S.Paulo. 

Filho de Mafalda e Érico Verissimo (1905-1975), também escritor, Luis Fernando Verissimo mudou-se aos 16 anos para os Estados Unidos, onde o pai trabalhou como professor na Universidade da Califórnia, de 1943 a 1945. 

Em solo americano, Verissimo começou a desenvolver suas habilidades literárias e seu amor pelo jazz, tornando-se mais tarde saxofonista e integrante da banda Jazz 6. 

Durante sua extensa carreira, o escritor construiu um vasto legado com mais de 70 livros publicados e 5,6 milhões de cópias vendidas. 

Sua produção literária abrangeu gêneros diversos, desde crônicas humorísticas até contos e romances que retrataram com graça e maestria o cotidiano brasileiro. Além dos livros publicados, Verissimo também teve presença cativa na imprensa nacional, colaborando como colunista em veículos como O Estado de S.Paulo, O Globo, Veja e Zero Hora. 

Entre as principais obras do escritor, estão O Analista de Bagé (1981), A Grande Mulher Nua (1975), Ed Mort e Outras Histórias (1979), O Santinho (1991) e Comédias da Vida Privada (1994), livro de crônicas que foi adaptado para uma série de televisão pela Rede Globo, entre 1996 e 1997. 

“Eu comecei a escrever tarde, com mais de 30 anos. Até então só tinha feito algumas traduções do inglês e não tinha a menor intenção de ser jornalista ou escritor”, lembrou Verissimo, então aos 80 anos, em entrevista à revista Época, em 2016. 

“Quando me deram um espaço assinado no jornal, eu, por assim dizer, me descobri. (...) O resto, os contos e os romances são decorrências do trabalho como cronista. Na música, apenas realizei o sonho de ser jazzista, ou pelo menos poder brincar de ser jazzista”, completou. 

Nos EUA, Verissimo começou a desenvolver suas habilidades literárias e seu amor pelo jazz, tornando-se mais tarde saxofonista e integrante da banda Jazz 6. 

Conhecido por seu posicionamento político de esquerda, Verissimo foi um duro crítico do governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e sempre elogiou os primeiros governos petistas pela inclusão social e diminuição da desigualdade no Brasil. Ele também defendia que “todo mundo deve ter lado, e deixar claro qual é”. 

“Talvez ingenuamente, eu não entendo como uma pessoa que enxerga o país à sua volta, vive suas desigualdades e sabe a causa das suas misérias pode não ser de esquerda. Ser de esquerda não é uma opção, é uma decorrência”, disse o escritor, em entrevista à Folha de S.Paulo em 2020. 

Sucesso das páginas às telas 

Além de sua prolífica carreira como escritor e cronista, Verissimo teve uma significativa participação na televisão brasileira, com trabalhos como roteirista e criador de séries de sucesso. 

Na rede Globo, foi redator de programas como Planeta dos homens, Viva o gordo e TV Pirata. 

Mas seu maior sucesso nas telas veio com A Comédia da Vida Privada, série de 21 episódios, exibida pela Globo entre 1995 e 1997. 

Criada por Jorge Furtado e Guel Arraes, teve roteiros de grandes nomes Pedro Cardoso, Fernanda Young, Guel Arraes e do próprio Verissimo, que teve suas crônicas adaptadas e também escreveu roteiros originais para alguns episódios. Exibida às terça-férias, a série tinha como enredo histórias do cotidiano de pessoas da classe média brasileira, com um estelar elenco de mestre da comédia nacional, como Marco Nanini, Pedro Cardoso, Fernanda Torres, Marieta Severo, Andréa Beltrão, Luiz Fernando Guimarães, entre outros. 

“Diálogos ágeis e engraçados, edição rápida, efeitos eletrônicos e interpretação teatral de texto baseado na obra do escritor Luis Fernando Verissimo fazem o sucesso do programa. Mesmo que muitos dos termos e situações abordadas estejam há muito fora de circulação. Ou talvez por isso mesmo”, escreveu a crítica Esther Hamburger sobre a série. 

Verissimo teve ainda suas crônica adaptadas em quadros de humor no programa dominical Fantástico, e nas séries Sexo Frágil (Globo, 2003-2004), Aventuras da Família Brasil (RBS, 2009) e Amor Verissimo (GNT, 2014-2015). 

“Sou um gigolô das palavras. Vivo à custa delas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas”, escreveu Verissimo sobre seu ofício, na crônica O gigolô das palavras. 

Frases de Veríssimo sobre a morte 

Na velhice, já debilitado pelos anos e pelos sucessivos problemas de saúde, o escritor falava da morte com um misto de tristeza e doçura, com a leveza típica de sua obra. 

“A morte é uma injustiça, esse é a melhor descrição. Mas a gente tem de conviver com isso”, disse ele à Folha de S.Paulo, em 2011. 

“A gente vai ficando mais lento de pensamento. Nesse sentido, estou sentindo a velhice. Mas aí é tentar aproveitar a vida da melhor maneira. Enquanto der para aproveitar a nossa neta, ir ao cinema, viajar, a gente vai levando.” 

Em 2013, após deixar o hospital onde havia sido internado na UTI, em função e um gripe que evoluiu para um quadro de infecção generalizada, foi ainda mais radical, em nova declaração à Folha. 

“A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra.” 

BBC News Brasil 


sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Frases de Millôr Fernandes

 

Tome nota, amigo: as aparências não enganam. 

As mulheres são mais irritáveis porque os homens são mais irritantes

Quem sai aos seus não endireita mais. 

Celebridade é um idiota qualquer que apareceu no Faustão. 

Sem essa, ô meu! Eu não cheguei até aqui na escala animal pra ser incorruptível. 

Você pode evitar descendentes. Mas não há nenhuma pílula para evitar certos antepassados. 

A alma enruga antes da pele. 

Há homens que devem à esposa tudo o que são, mas em geral, os homens devem à esposa tudo o que devem.

Quando o homem sabe que certa mulher já cedeu a alguém, ele não resiste em verificar se a história se repete.

 A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar, ao amigo, de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades. 

Uma fábula fabulosa de Millôr Fernandes 

A decadência dos costumes 

Kismet Assan, o grande advogado, décimo oitavo filho do poderoso Kismet Ibnen Assan, foi chegando em casa, tarde da noite, cansado do trabalho, e descobriu, pelo odor, que havia um ladrão em seu quarto de dormir (em árabe: camara da letto). Pegou um bacamarte e avançou, passo a passo, silenciosamente, em todas as direções ao mesmo tempo. Mas o ladrão, mais silencioso do que ele, percebeu o seu silêncio, e saltou pela janela de dez metros de altura, na coragem do medo. Ao fugir, porém, deixou sobre a cama uma sacola, com dois candelabros de prata que havia roubado de alguma outra casa. 

Com muita advocacia Kismet pensou com o pensamento dialético próprio da profissão: “Bem, tomarei isto como honorários pela ação de fuga que impus ao malfeitor'”. E, com olhar cúpido de conhecedor, pelo resto da noite ficou contemplando as duas belas peças. 

Na noite seguinte, na noite imediatamente seguinte a essa, e em muitas noites consequentes, umas atrás da outras, Kismet chegava em casa até mais cedo, na esperança de encontrar de novo o ladrão ou outro ladrão com igual butim. Mas isso não aconteceu nunca mais e, oitenta e cinco dias depois, Kismet concluiu, melancólico: “Realmente, não sei onde este país vai parar”. 

Moral: 

Invectiva o mal, mas cobra o bem.

Piadas de Matemática

 

Lógica Matemática 

Nada é melhor que a felicidade eterna.
Um tomate já é melhor do que nada.
Logo, um tomate é melhor que a felicidade eterna.
 

Tudo o que é raro é caro.
É raro uma coisa boa e barata.
Logo, o que é bom e barato, é caro!
  

Avaliação nos dias de hoje 

A. Exercício: 

6 + 7 = 18 

B. Análise: 

A grafia do número seis está absolutamente correta;

O mesmo se pode concluir quanto ao número sete;

O sinal operacional + indica-nos, corretamente, que se trata de uma adição;

Quanto ao resultado, verifica-se que o primeiro algarismo (1) está corretamente escrito: corresponde ao primeiro algarismo da soma pedida. O segundo algarismo pode muito bem ser entendido como um três escrito simetricamente ‒ repare-se na simetria, considerando-se um eixo vertical!

Assim, o aluno enriqueceu o exercício recorrendo a outros conhecimentos... a sua intenção era, portanto, boa. 

C. Avaliação: 

Do conjunto de considerações tecidas nesta análise, podemos concluir que: A atitude do aluno foi positiva: ele tentou! 

Os procedimentos estão corretamente encadeados: os elementos estão dispostos pela ordem precisa. Nos conceitos, só se enganou (?) num dos seis elementos que formam o exercício, o que é perfeitamente negligenciável. 

Na verdade, o aluno acrescentou uma mais-valia ao exercício ao trazer para a proposta de resolução outros conceitos estudados - as simetrias... - realçando as conexões matemáticas que sempre coexistem em qualquer exercício... 

Em conseqüência, podemos atribuir-lhe um... “Excelente”... e afirmar que o aluno... “Progride Adequadamente!”.  

Questões de Idades 

Um pequeno truque com idades

Pensa na tua idade e multiplica por 7. Multiplica o resultado por 1443.

Que resultado obténs? A tua idade repetida 3 vezes!

Se a idade for 27 anos, virá: 27 x 7 = 189 x 1443 = 272727

Se a idade for 15 anos, virá: 15 x 7 = 105 x 1443 = 151515

Na realidade, o que estamos a fazer é uma multiplicação por 10101!

Repara que 7 x 1443 = 10101

O psicanalista ao alcance de todos

 

Imagem da internet 

‒ Sonho sempre em inglês, mas o sonho vem sem legenda e não entendo patavina, doutor. 

‒ O senhor é muito vivo, doutor, no Carnaval só se fantasia de paciente. 

‒ Minha mulher cismou que é automóvel, doutor, e o pior é que foi rebocada ontem por estacionamento proibido. 

‒ Sempre conto carneirinhos na hora de dormir, mas ontem foi o diabo, doutor: quando cheguei a dezenove foi que percebi que tinha deixado a outra porta do quarto fechada. 

‒ Aquele doente mental está ficando louco, meu caro, temos de lhe dar alta. 

‒ Engoli um parafuso, o senhor ainda acha que tenho um a menos? 

‒ Meu caro psicanalista, tenho a mania de comprar divãs. Levo esse? 

‒ Me diga sinceramente, doutor, o que é que o senhor acha que eu acho do senhor? 

‒ Não sei se estou errado, mas acho que vocês psicanalistas se cumprimentam meio desconfiados um do outro. 

‒ Deixe de bobagem, você está bonzinho, sente-se naquele espelho e espere um pouco que preciso conhecer bem os seus reflexos. 

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(Do livro “Homem ao Cubo”, de Leon Eliachar)

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Vacina pode reduzir risco de infarto e AVC

 

Vacina contra herpes-zóster pode reduzir risco de infarto e AVC, aponta estudo. Meta-análise global sugere queda de até 18% nos eventos cardiovasculares; especialista alerta que dados ainda são observacionais e reforça necessidade de mais pesquisas. 

Por Talyta Vespa, g1 

28/08/2025 

Frio aumenta risco de infarto e AVC em até 30% no inverno. 

Um estudo global apresentado nesta quinta-feira (28.08.2025) no Congresso Europeu de Cardiologia (ESC 2025), em Madri, aponta que a vacinação contra o herpes-zóster — popularmente conhecido como cobreiro ‒ está associada a uma redução significativa no risco de infarto e acidente vascular cerebral (AVC). 

A pesquisa avaliou dados de quase duas décadas de estudos e encontrou uma diminuição de 18% nos eventos cardiovasculares em adultos acima de 18 anos e de 16% entre pessoas com mais de 50 anos. 

O que mostra o estudo 

A meta-análise reuniu 19 trabalhos científicos (incluindo ensaios clínicos e estudos observacionais) e é a primeira a compilar evidências globais sobre o impacto da vacina do zóster na saúde cardiovascular. 

De acordo com os pesquisadores responsáveis pelo estudo, a aplicação da vacina ‒ seja a versão recombinante ou a atenuada ‒ foi associada a 1,2 a 2,2 eventos cardiovasculares a menos por mil pessoas vacinadas por ano. Na prática, isso significa que, a cada mil pessoas vacinadas, de 1 a 2 casos de infarto ou AVC deixam de acontecer por ano. 

Apesar dos resultados, os autores destacam que a maior parte das evidências vem de estudos observacionais, sujeitos a viés. Isso significa que, embora exista associação, ainda não é possível afirmar que a vacina seja a causa direta da redução de infartos e AVCs. 

Como isso acontece? 

Para o médico infectologista Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), o trabalho reforça um conceito já observado com outras vacinas, como a da gripe: 

“Essas doenças virais podem aumentar a resposta inflamatória do organismo e desencadear complicações cardiovasculares. Prevenir essas infecções é também uma forma de proteger o coração.” 

Segundo ele, o processo inflamatório gerado por vírus como influenza, coronavírus, vírus sincicial respiratório e o próprio herpes-zóster pode desestabilizar placas de gordura nas artérias, favorecendo o desprendimento e levando a eventos graves como AVC e infarto. 

Ainda assim, Kfouri pondera: “É preciso considerar que se trata de um estudo financiado pelo produtor da vacina, o que exige uma leitura crítica. Mas é um dado importante que fortalece a visão de que a vacinação é parte da estratégia de prevenção cardiovascular”. 

Situação no Brasil 

Atualmente, a vacina contra o zóster está disponível no Brasil apenas na rede privada. A SBIm recomenda a aplicação rotineira a partir dos 60 anos e considera a partir dos 50. Já para pessoas imunocomprometidas ‒ como transplantados, pacientes em diálise ou que usam imunossupressores ‒ a indicação pode começar aos 18 anos. 

A inclusão no Programa Nacional de Imunizações (PNI) ainda não tem previsão. “É uma vacina cara e, se for introduzida, provavelmente começará pelos grupos mais vulneráveis, como os imunossuprimidos e idosos”, explica Kfouri. 

Por que isso importa 

Doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, responsáveis por mais de 3 milhões de óbitos por ano, segundo a Sociedade Europeia de Cardiologia. 

A entidade publicou em 2025 um consenso clínico defendendo que as vacinas passem a ser consideradas o “quarto pilar” da prevenção cardiovascular, ao lado de medicamentos contra hipertensão, colesterol e diabetes.

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Dormindo com o inimigo

 Mário Corso

Igor Eduardo Pereira Cabral, ex-jogador de basquete, é o desqualificado que destruiu o rosto da sua namorada com 61 socos. O crime gerou revolta nacional. Juliana Garcia dos Santos ainda está no processo de reconstrução da face. A estupidez do ato trouxe algo insólito, Igor recebeu cerca de 1,5 mil (o número já deve ser maior) de e-mails de mulheres amorosamente interessadas nele. Depois dele mostrar tanta covardia e crueldade, o que elas querem com ele? 

O fenômeno é velho conhecido da comunidade psi. Acontece em todo o mundo e chama-se hibristofilia ‒ paixão por criminosos. Homens também apaixonam-se por bandidas, porém esse comportamento choca mais quando há mulheres envolvidas. Elas são em maior número, até porque criminosos homens abundam. 

Certos esportes radicais zombam da morte. Por exemplo, o Everest é um cemitério de aventureiros. Casar com um psicopata seria como um esporte radical? 

A questão não é tão simples. Freud disse que uma das formas de paixão (no caso narcísica) se dá por amar alguém que nos representa, que já fomos ou que gostaríamos de ser. Um criminoso é quem fez algo que a maioria só faz em fantasia, dar total vazão a sua agressividade. 

Para pessoas com muita agressividade reprimida, um criminoso é um herói íntimo. Além do mais, ele seria verdadeiro, afinal, não esconde ‒ como elas ‒ a brutalidade que traz dentro de si. Quem se apaixona por um criminoso, apaixona-se pela vontade de potência que supõe nele e quer usufruir deste poder. 

Como se as contradições fossem poucas, quem se enamora do criminoso quer também redimi-lo, quer provar que pode neutralizar seus malfeitos. No caso do Igor, as apaixonadas acreditam, delirantemente, que o efeito de sua presença amorosa operaria tais transformações. Elas supõem que a mulher que apanhou falhou onde elas não falharão. Elas saberiam entender e domar o monstro, e quanto maior o monstro, maior será o orgulho pela rendição da besta. 

Quem pratica esportes radicais não quer morrer, mas só sente a intensidade da vida desafiando a morte. Quem busca um psicopata, também busca intensidade, o perigo faz parte do encanto. Colocar em risco a integridade é o preço dessa aventura.

 

(Artigo do jornal Zero Hora, de 27 de agosto de 2025)

terça-feira, 26 de agosto de 2025

A ressurreição de Cartola

 

Era madrugada, em meados dos anos 1950; chovia fino e a cidade parecia suspensa. Os carros dormiam ao longo da calçada e, no pátio da Garagem Oceânica, em Ipanema, a espuma recém-enxaguada corria em fios, levando poeira e graxa. No botequim ao lado, um homem magro aquecia a xícara entre as duas mãos, como quem protege uma brasa acesa; macacão encharcado, cheiro de gasolina e sabão, as unhas escuras de serviço e frio. Não era um mendigo; era um trabalhador invisível. Muitos já o davam por morto; Sérgio Porto, cronista do Rio e voz de rádio, também quase o perdera da memória. Entrou, estacou, e o espanto veio antes das palavras: “Você não é o Cartola da Mangueira?”. Como ele contaria depois, a xícara tremeu, os olhos aceitaram de volta o próprio nome. Naquela mesa barata, entre gasolina e maresia, a madrugada mudou de eixo; dali em diante, a cidade recobrou a memória, e um país, sem saber, começava a recuperar a voz que lhe faltava. 

Antes dessa madrugada, houve outra paisagem: Catete e Laranjeiras, o violão que o pai colocou no colo do menino registrado Angenor, com um “n” a mais; depois, o morro. O orçamento curto apertava a casa; a cidade se fechava para quem nela crescia. Na construção civil, o cimento caía da laje como neve áspera; para proteger o cabelo, o rapaz adotou um chapéu-coco, e os colegas viram nele uma cartolinha que virou nome. No alto, a gravidade era festa e disciplina; o Bloco dos Arengueiros dava corpo às rodas e, ao lado de parceiros como Carlos Cachaça, o samba encontrava endereço. Em 1928, nasceu a Estação Primeira de Mangueira, verde e rosa, herança de ranchos e promessa de avenida, e, ali, Cartola começou a circular de boca em boca, de barraco em barraco, até que o seu nome coubesse inteiro na cidade. 

Revista Bula

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Paulo Coelho encontra Irmã Dulce

 

Em “O Mago”, biografia de Paulo Coelho escrita por Fernando Morais (Editora Planeta, 2008), consta a descrição de um episódio decisivo na trajetória do autor brasileiro mais lido e mais traduzido do mundo. 

Ele já foi um mendigo na fila de Irmã Dulce, em Salvador. 

Tinha escapado do sanatório psiquiátrico aos 19 anos, ao lado de um interno, sem nada nos bolsos, somente com a roupa do corpo. De carona, ambos viajaram para a Bahia. Penaram com fome, dormiram na rua, sobreviveram de esmolas e sobras de lixo, até que não lhes restou saída a não ser pedir socorro à Padroeira dos Pobres. 

Paulo suportou uma longa romaria de horas, de pé, na obra social instalada no bairro de Roma, nas dependências do convento e do hospital que ainda estavam sendo erguidos na época, e conseguiu se aproximar dela. Recebeu um prato de sopa quente e os olhares úmidos da beata magra e franzina, de 1m48cm. 

Ela perguntou do que mais precisava. 

Ele respondeu: voltar ao Rio de Janeiro. 

Irmã Dulce alegou que não tinha dinheiro, apenas palavra. E palavra, garantiu, durava mais. 

Pegou papel e caneta e anotou: “Vale dois bilhetes de ônibus para o Rio”. Carimbou com selo das Obras Sociais e assinou. 

Paulo acreditou no manuscrito, que guarda como relíquia até hoje. Apresentou-o a um motorista na rodoviária no Largo dos Dois Leões. O condutor sequer questionou a autoridade mortal daquelas linhas: ordenou que a dupla embarcasse. 

Nesse momento, Paulo experimentou sua virada de chave. Talvez tenha sido um dos milagres silenciosos de Irmã Dulce, que se tornaria a primeira Santa do Brasil. 

Desde então, não foi posto novamente em camisa de força pelos pais. Havia fugido da terceira internação, em que sofrera choques elétricos e tratamento desumano. 

Respirou sua arte sem a censura e o tolhimento familiar. Pôde enfim levar uma vida autônoma, mergulhando no jornalismo e no universo do teatro e da música. Viria a ser parceiro criativo de Raul Seixas, mudando a cena roqueira com as letras de Sociedade Alternativa e Eu Nasci Há Dez Mil Asnos Atrás. Em seguida, começou a apostar em sua carreira solo literária, publicando sua trinca de grande sucesso. O Diário de um Mago (1987), O Alquimista (1988) ‒ que venderia mais do que O Pequeno Príncipe ‒ e Brida (1990). 

O que o destino dá, o destino devolve. 

Consagrado como escritor de brilho planetário, com 350 milhões de livros comercializados, vertidos para 88 idiomas e presente em 170 países, transformou-se em um dos mais generosos benfeitores das obras de caridade de Irmã Dulce. 

‒ Doei a quem me deu de comer ‒ afirmou Paulo Coelho. 

E não se tratava simplesmente de pão, mas de outro alimento: o da alma, feito dos nutrientes eternos da confiança, da fé, da esperança. 

Paulo e Dulce nunca mais se viram pessoalmente. Não foi necessário. Na gratidão, é possível repetir o encontro incansavelmente na memória. 

Da crônica “Paulo Coelho na fila de mendigos”,

de Carpinejar, no jornal Zero Hora, 25.08. 2025.


domingo, 24 de agosto de 2025

Você não vai passar

 Eunice da Silva Moreira

Você passa.

Ficarão pelo chão as marcas dos seus passos.

Você passa.

Ficarão os seus anseios,

Ficarão seus temores,

Ficará o tom da sua voz...

A inflexão que lhe foi emprestada em momentos de grande emoção.

Você passa.

Ficarão seus conselhos,

Sua virtude sem par.

Ficarão palavras proferidas,

Atitudes assumidas

Que nem mesmo você saberia explicar.

Você passa.

Ficará o ritus da sua boca...

A dureza do seu rosto,

A fria expressão do seu olhar

Ficará registrado o desgosto sentido.

Você passa.

Ficará sua postura,

A generosidade da sua mão

Estendida na minha direção.

Ficará a referência,

Ficará a preferência

Por um modelo a ser imitado

Ficará um modelo a ser imitado.

Você passa.

Ficará aventura de tê-lo conhecido,

De poder ter convivido com você.

Você passa?

Ou será que somos nós a passar por sua vida?

Que nos importa agora esta reflexão?

Digamos que foi você quem passou pela nossa,

Ou, então, que fomos nós a passar pela sua.

Não somos nós etapas de uma mesma história?

Você passa.

Nós também.

Há de ficar na sucessão de lembranças

Arquivadas no tempo e no espaço

Oscilando, flutuando ‒ indo e voltando ‒

Imagens que jamais poderão ser apagadas

Enquanto você passa!

 

Mensagem dos alunos

da Escola Municipal Senador Alberto Pasqualini,

de Porto Alegre, RS,

aos seus professores.

A droga

 Luiz Coronel

A droga

te leva às nuvens

e te põe na lama.

Promete asas

e põe algemas.

 

A droga

convoca ao mergulho

e te arrasta na correnteza.

Fecha a porta

de tua casa

e te leva ao exílio.

 

A droga

confere o êxtase no caos

e depois te rouba

de ti mesmo.

 

A droga

te filia

ao Partido dos Derrotados

e à seita dos náufragos.

 

A droga

Profana o corpo

e marginaliza a alma.

Proclama que és livre

e te ata à soga.

 

Sente o aroma das frutas,

o veludo da pele,

o milagre das estações.

E não deixes que as drogas

passem, um só dia,

pelas ruas

de teu corpo. 

*******

(Do Correio do Povo, 23 de agosto de 2025)


sábado, 23 de agosto de 2025

Dia da Língua Portuguesa

 5 de maio 

Texto de Eduardo Affonso

Volta e meia alguém olha atravessado quando escrevo “leiaute”, “becape” ou “apigreide” – possivelmente uma pessoa que não se avexa de escrever “futebol”, “nocaute” e “sanduíche”. 

Deve se achar um craque no idioma, me esnobando sem saber que “craque” se escrevia “crack” no tempo em que “gol” era “goal”, “beque” era “back” e “pênalti” era “penalty”. E possivelmente ignorando que esnobar venha de “snob”. 

Quem é contra a invasão das palavras estrangeiras (ou do seu aportuguesamento) parece desconsiderar que todas as línguas do mundo se tocam, como se falar fosse um enorme beijo planetário. 

As palavras saltam de uma língua para outra, gotículas de saliva circulando em beijos mais ou menos ardentes, dependendo da afinidade entre os falantes. E o português é uma língua que beija bem. 

Quando falamos “azul”, estamos falando árabe. E quando folheamos um almanaque, procuramos um alfaiate, subimos uma alvenaria, colocamos um fio de azeite, espetamos um alfinete na almofada, anotamos um algarismo. 

Falamos francês quando vamos ao balé, usamos casaco marrom, fazemos uma maquete com vidro fumê, quando comemos um croquete ou pedimos uma omelete ao garçom; quando acendemos o abajur pra tomar um champanhe reclinados no divã ou quando um sutiã provoca um frisson. 

Falamos tupi ao pedir um açaí, um suco de abacaxi ou de pitanga; quando vemos um urubu ou um sabiá, ficamos de tocaia, votamos no Tiririca, botamos o braço na tipoia, armamos um sururu, comemos mandioca (ou aipim), regamos uma samambaia, deixamos a peteca cair. Quando comemos moqueca capixaba, tocamos cuíca, cantamos a Garota de Ipanema. 

Dá pra imaginar a Bahia sem a capoeira, o acarajé, o dendê, o vatapá, o axé, o afoxé, os orixás, o agogô, os atabaques, os abadás, os babalorixás, as mandingas, os balangandãs? Tudo isso veio no coração dos infames “navios negreiros”. 

As palavras estrangeiras sempre entraram sem pedir licença, feito uma tsunami. E muitas vezes nos pegando de surpresa, como numa blitz. 

Posso estar falando grego, e estou mesmo. Sou ateu, apoio a eutanásia, gosto de metáforas, adoro bibliotecas, detesto conversar ao telefone, já passei por várias cirurgias. E não consigo imaginar que palavras usaríamos para a pizza, a lasanha, o risoto, se a máfia da língua italiana não tivesse contrabandeado esse vocabulário junto com a sua culinária. 

Há, claro, os exageros. Ninguém precisa de um “delivery” se pode fazer uma “entrega”, ou anunciar uma “sale” se se trata de uma “liquidação”. Pra que sair pra night de bike, se dava tranquilamente pra sair pra noite de bicicleta? 

Mas a língua portuguesa também se insinua dentro das bocas falantes de outros idiomas. Os japoneses chamam capitão de “kapitan”, copo de “koppu”, pão de “pan”, sabão de “shabon”. Tudo culpa nossa. Como o café, que deixou de ser apenas o grão e a bebida, para ser também o lugar onde é bebido. E a banana, tão fácil de pronunciar quanto de descascar, e que por isso foi incorporada tal e qual a um sem-fim de idiomas. E o caju, que virou “cashew” em inglês (eles nunca iam acertar a pronúncia mesmo). 

“Fetish” vem do nosso fetiche, e não o contrário. “Mandarim”, seja o idioma, seja o funcionário que manda, vem do portuguesíssimo verbo “mandar”. O americano chama melaço de “molasses”, mosquito de “mosquito” e piranha, de “piranha” – não chega a ser a conquista da América, mas é um começo. 

Tudo isso é a propósito do 5 de maio, Dia da Língua Portuguesa, cada vez mais inculta e nem por isso menos bela. Uma língua viva, vibrante, maleável, promíscua – vai de boca em boca, bebendo de todas as fontes, lambendo o que vê pela frente.

Mais de oitocentos anos, e com um tesão de vinte e poucos.

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

O ciclo da fofoca

 A bisbilhotice da vida alheia

O ilustrador norte-americano Norman Rockwell (1894-1978) foi um cronista dos costumes. Na capa que desenhou para uma revista semanal norte-americana, tematizou a bisbilhotice da vida alheia. A maledicência diverte as pessoas, menos aquele que foi objeto dela: seria esse, no entanto, um costume inofensivo e sem consequências?

Norman Rockwell (Nova Iorque, 3 de fevereiro de 1894 ‒ Stockbridge, Massachusetts, 8 de novembro de 1978) foi um pintor e ilustrador estadunidense.

Rockwell era muito popular nos Estados Unidos , especialmente em razão das 323 capas da revista The Saturday Evening Post que realizou durante mais de quatro décadas, e das ilustrações de cenas da vida estadunidense nas pequenas cidades.

Pintou os retratos dos presidentes Eisenhower, John Kennedy, Lyndon Johnson e Richard Nixon, assim como o de outras importantes figuras mundiais, tais como Gamal Abdel Nasser.

Norman Rockwell – autorretrato 

Triplo Autorretrato, (Inglês: Triple Self-Portrait), é uma pintura do ilustrador norte-americano Norman Rockwell criada para a capa da edição de 13 de fevereiro de 1960 do The Saturday Evening Post. 

É uma pintura é um óleo sobre tela medindo 34,5 por 44,5 polegadas (88 cm × 113 cm). Situado em um vazio branco, ele retrata um Rockwell retrovisor sentado em um cavalete produzindo um autorretrato. Um espelho emoldurado a ouro coberto com uma águia é colocado à esquerda em uma cadeira; Rockwell pode ser visto em seu reflexo como um homem magro e de óculos. Na cadeira em frente ao espelho está um copo de Coca-Cola e um livro aberto. 

Na tela em frente ao ilustrador há um esboço inacabado de si mesmo em seu estilo de arte idealizada. No lado direito da tela, Rockwell fixou autorretratos de Albrecht Durer, Rembrandt, Vincent van Gogh e Picasso. Um pedaço de papel com esboços fica à esquerda. No total, são sete autorretratos retratados na obra. 

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Os pais também envelhecem.

 Juliana Paganelli

No Dia dos Pais, há presentes, abraços rápidos, churrasco no quintal, piadas repetidas, histórias que já ouvimos mil vezes ‒ e, mesmo assim, ele conta como se fosse a primeira. Ele sorri, mesmo que os joelhos doam, mesmo que ninguém pergunte se está tudo bem. 

Os pais também envelhecem. Mas, diferente das mães, eles aprendem a esconder mais. O silêncio, a dor, o cansaço. Foram ensinados a ser fortes. A não chorar. A não pedir ajuda. E seguem assim ‒ firmes ‒ mesmo quando tudo dentro deles já clama por descanso. 

São homens que aprenderam a amar com gestos: um carro consertado, uma lâmpada trocada, uma porta fechada pra proteger do vento. Homens que se fizeram de ferro para segurar o mundo nas costas e, ironicamente, ficaram invisíveis dentro de casa. 

O pai, que hoje se perde no meio de uma frase, é o mesmo que, um dia, sabia responder tudo. O que hoje pede ajuda com o celular, é o mesmo que consertava tudo sem manual. O que se senta mais devagar é o mesmo que correu atrás de você na sua primeira bicicleta. O que hoje esquece onde colocou as chaves, é o mesmo que sabia exatamente onde você guardava seus medos. 

Os pais também cansam, mas não falam. Ficam acordados esperando o portão abrir, mesmo sem dizer “eu te amo” toda hora porque, para eles, o amor sempre esteve mais nos gestos do que nas palavras. E, no fim, os filhos lembram do cheiro do churrasco, da mão firme no volante, dos conselhos meio rudes, mas sempre certos. E esquecem de dar um tempo pra ouvir ‒ hoje ‒ antes que ele pare de contar. 

Os filhos acreditam que o pai estará sempre ali, no mesmo lugar, com o mesmo olhar, com a mesma força, vigor e memória. Os filhos não percebem que o herói guerreiro também cansa, também envelhece. Não percebem que ele também espera um gesto, uma escuta, um pouco de gentileza. 

Os filhos não percebem que o tempo vai tornando-o tudo mais frágil: as pernas, a memória, os olhos, e, às vezes, até o orgulho. Mas há um lugar que permanece intacto: o coração que ainda bate forte quando você chega, mesmo sem avisar. Só que, às vezes, você não chega. Ou chega com pressa e não percebe que, dentro daquele corpo que um dia foi tão forte, agora mora um homem que precisa ser cuidado também. 

Talvez, no segundo domingo de agosto ‒ o dia que o comércio inventou para ele ‒ o melhor presente não seja um par de meias, uma camisa nova, nem um relógio caro. Mas um tempo juntos. Um café com conversa. Um abraço demorado. Uma escuta sem julgamento. 

Talvez, neste Dia dos Pais, não seja preciso dizer muito, apenas se sentar ao lado dele. Em silêncio, se for o caso. Olhar nos olhos como quem olha o tempo passar e, por um instante, tentar segurá-lo com as mãos. 

Os pais também envelhecem. Mas antes de se tornarem lembrança, querem ‒ ainda que não digam ‒ ser presença. Querem ser lembrados enquanto ainda estão aqui. Enquanto ainda contam suas histórias pela décima vez. Enquanto ainda olham pela janela, esperando que alguém volte. 

O melhor presente não se compra. É presença. É escuta. É o interesse sincero. É a vontade de estar disponível e fazer perguntas que o faça se sentir valorizado. É mostrar que você se importa. É perguntar com o coração aberto: 

“Pai, do que você sente falta?” 

“O que você nunca teve coragem de me dizer?” 

“Que sonhos você deseja realizar?” 

Porque um dia ‒ e esse dia sempre chega ‒ o lugar vazio à mesa vai doer de um jeito que nenhum presente vai conseguir consolar. 

Os pais também envelhecem. E tudo o que querem ‒ no fundo ‒ é que os filhos percebam isso. E fiquem. Fiquem um pouco mais com ele.

Resumo de autores gaúchos contemporâneos

 

01. Cyro Martins (1908-1995) 

Trilogia do gaúcho a pé: 

Sem Rumo” (De piazito abandonado a peão e daí ao desemprego, eis a trajetória de Chiru, vítima de maquinações políticas que não chega a compreender.) 

Porteira Fechada” (Obra-prima de Cyro Martins, registrada a expulsão do posteiro Guedes da fazenda modernizada. Guedes dirige-se para a cidade e no processo de absoluto empobrecimento, é levado ao roubo e depois à prisão e ao suicídio.) 

Estrada Nova” (Ainda o processo de expulsão da terra, mas agora atenuado pela perspectiva de uma sociedade mais justa.) 

Características gerais: 

neorrealismo;

valor documental;

denúncia social explícita. 


02. Dyonélio Machado (1895-1985) 

O Louco do Cati (Considerado uma obra-prima de Dyonélio, é um dos livros mais insólitos da literatura brasileira do século XX. Aqui, Machado aprofundou sua visão literária dos marginalizados e deslocados, trazendo à cena o anti-herói de uma espécie de epopeia às avessas. Um livro sobre a condição humana.)

Os Ratos” (Narrativa que se passa em 24 horas. Os Ratos tem como personagem central um modesto burocrata que precisa arranjar dinheiro para pagar o leiteiro. Dessa história trivial, Dyonélio extraiu drama ao mesmo tempo psicológico e social. Acompanharemos angustiado a luta de Naziazeno, enquanto o autor vai construindo ‒ como pano de fundo ‒ a cidade de Porto Alegre dos anos 30.) 


03. Aureliano de Figueiredo Pinto (1898-1959) 

Memórias do Coronel Falcão” (1973) (escrito nos anos 30, mas publicado postumamente, Memórias do Coronel Falcão é um romance instigante por analisar a decadência da sociedade tradicional gaúcha, na pecuária. Além disso, traça um quadro convincente da ditadura de Borges de Medeiros, que, sob ideário positivista, durou mais de vinte anos no Rio Grande do Sul.) 


04. Ivan Pedro de Martins (1914-2003) 

Fronteira Agreste” (1942) (Registro oral lírico, ora contundente de uma fazenda de gado do Rio Grande do Sul, vista pelo olhar de um escritor capixaba. Proibido durante o Estado Novo, seja pela miséria que o autor encontrou no campo, seja pelo ideário liberal que enuncia no texto, Fronteira Agreste vem tendo sucessivas edições. Hoje, no entanto, os senões literários do romance são visíveis. Deverá permanecer como documento social.) 


05. Josué Guimarães (1921-1986) 

A Ferro e a Fogo” (Dois volumes clássicos sobre a colonização alemã do Rio Grande do Sul.) 

Os Tambores Silenciosos” (Em uma pequena cidade do interior, durante o Estado Novo, prefeito proíbe a circulação de notícias, gerando o surgimento de situações degradadas como, por exemplo, os tambores fascistas do integralismo.) 

Camilo Mortágua” (Romance de um personagem oligárquico decadente que triunfa no universo burguês de Porto Alegre e depois decai. Toda a ação da narrativa é vista por Camilo no cinema onde o filme de sua vida substitui o filme de verdade.) 

Enquanto a Noite não Chega” (Dois velhinhos e mais o coveiro esperam pela morte numa cidade-fantasma da qual são os últimos moradores.) 

Características gerais: 

presença do realismo tradicional;

domínio do romance histórico. 


06. Moacyr Scliar (1937-2011) 

Carnaval dos Animais ‒ “A Balada do Falso Messias” ‒  “A Orelha de Van Gogh” (contos onde o humor mescla-se com situações aparentemente absurdas.) 

O Exército de um Homem Só” – “O Centauro no Jardim” – “A Estranha Nação de Rafael Mendes” (Romances centrados em personagens jovens, divididos entre o ideal e o real, vendo suas utopias destruídas pela realidade brasileira. O gosto pelo fantástico e pela alegoria encontram neles uma perfeita cristalização. Também a ironia se presentifica como característica central do estilo de Scliar.) 


07. Tabajara Ruas (1942-       ) 

Os Varões Assinalados” (Romance desmistificador sobre a Revolução Farroupilha.) 

Perseguição e Cerco a Juvêncio Gutierrez” (Novela sobre o drama de um adolescente que sabe da morte anunciada de um tio que ama e idolatra.) 


08. Charles Kiefer (1958-     ) 

O Pêndulo do Relógio” ‒ “Valsa para Bruno Stein” – “Quem faz gemer a terra”. (Romances sobre os excluídos e os derrotados pela modernização agrícola no Rio Grande do Sul ‒ a partir dos anos 80. O último deles é sobre os colonos sem terra.) 


09. Luiz Antônio de Assis Brasil (1945-    ) 

Um Quarto de Légua em Quadro” (Dramas dos açorianos que povoaram Porto Alegre, no século XVIII, vistos sob a ótica de médico que acompanha a expedição.) 

A Prole do Corvo” (Visão desmistificadora da Revolução Farroupilha através da trajetória de um pobre diabo arrebanhado à força para lutar no confronto.) 

Manhã Transfigurada” ‒ “As Virtudes da Casa” (Romances sobre paixões interditas e exacerbadas pela rigidez moral das épocas passadas.) 

Cães da Província” (Relato situado em Porto Alegre, 2ª metade do século XIX, justapõe duas histórias de “loucuras”: a do famoso professor e teatrólogo Quorpo Santo e do açougueiro da Rua do Arvoredo que assassinou vários homens interessados na sua mulher.) 

Videiras de Cristal” (Visão romanceada do confronto conhecido como a “Guerra dos Muckers” que ensangüentou a zona colonial alemã.) 

Um Castelo no Pampa” (Perversas famílias ‒ Pedra da Memória ‒ Os Senhores do Século). (Trilogia sobre as velhas elites oligárquicas que dominaram o Rio Grande, sob uma perspectiva duramente crítica, vezes satírica do autor.) 

Características gerais: 

predominância do romance histórico;

estrutura neo-realista;

linguagem tradicional;

visão crítica e desmistificadora do passado. 


10. José Clemente Pozenato (1938-2024) 

O Quatrilho” (Romance da imigração italiana em que casais errados ‒ como no jogo que dá origem ao título do livro ‒ reagrupam-se em novos pares.) 


11. Laury Maciel (1924-2002) 

Noites do Sobrado” ‒ “Rosas de Papel Crepom” (Romances de tendência histórica onde o autor reconstitui a vida cotidiana na antiga cidade de Mundo Novo ‒ Taquara.) 


12.  Sérgio Faraco (1940-    ) 

Hombre” – “Manilha de Espadas” – “Doce Paraíso” (Belos e tensos contos ‒ passados em sua maioria no pampa fronteiriço onde velhos valores como honra, coragem e solidariedade são postos à prova.) 


13. Lya Luft (1938-2021) 

As Parceiras” – “Reunião de Família” – “Quarto Fechado” – “Asa Esquerda do Anjo” (Novelas introspectivas onde mulheres buscam desesperadamente seus papéis na vida afetiva e social.) 


14. João Gilberto Noll (1946-2017) 

Hotel Atlântico” – “Rastros de Verão” – “Harmada” (Narrativas pós-modernas onde personagens vagam por Porto Alegre ou pelo país sem passado, sem futuro, nem alternativas. Desabadas todas as crenças e utopias, o mundo perde o sentido e a existência torna-se absurda.) 


15. Caio Fernando Abreu (1948-1996) 

Pedras de Calcutá” – “Morangos Mofados” – “Os Dragões não Conhecem o Paraíso” (Contos de alto refinamento psicológico onde o autor trata de forma cética o mundo urbano brasileiro, centrando-se em tipos que vivem à margem do sistema burguês.)


16. Luis Fernando Veríssimo 

O Analista de Bagé” – “Ed Mort” ‒ “O Gigolô das Palavras” – “O Popular” – “Comédias da vida Privada” (Crônicas de fino humor, onde o absurdo e o imprevisto da existência são desvelados.)