Juliana Paganelli
No Dia dos Pais, há presentes, abraços rápidos, churrasco no quintal, piadas repetidas, histórias que já ouvimos mil vezes ‒ e, mesmo assim, ele conta como se fosse a primeira. Ele sorri, mesmo que os joelhos doam, mesmo que ninguém pergunte se está tudo bem.
Os pais também envelhecem. Mas, diferente das mães, eles aprendem a esconder mais. O silêncio, a dor, o cansaço. Foram ensinados a ser fortes. A não chorar. A não pedir ajuda. E seguem assim ‒ firmes ‒ mesmo quando tudo dentro deles já clama por descanso.
São homens que aprenderam a amar com gestos: um carro consertado, uma lâmpada trocada, uma porta fechada pra proteger do vento. Homens que se fizeram de ferro para segurar o mundo nas costas e, ironicamente, ficaram invisíveis dentro de casa.
O pai, que hoje se perde no meio de uma frase, é o mesmo que, um dia, sabia responder tudo. O que hoje pede ajuda com o celular, é o mesmo que consertava tudo sem manual. O que se senta mais devagar é o mesmo que correu atrás de você na sua primeira bicicleta. O que hoje esquece onde colocou as chaves, é o mesmo que sabia exatamente onde você guardava seus medos.
Os pais também cansam, mas não falam. Ficam acordados esperando o portão abrir, mesmo sem dizer “eu te amo” toda hora porque, para eles, o amor sempre esteve mais nos gestos do que nas palavras. E, no fim, os filhos lembram do cheiro do churrasco, da mão firme no volante, dos conselhos meio rudes, mas sempre certos. E esquecem de dar um tempo pra ouvir ‒ hoje ‒ antes que ele pare de contar.
Os filhos acreditam que o pai estará sempre ali, no mesmo lugar, com o mesmo olhar, com a mesma força, vigor e memória. Os filhos não percebem que o herói guerreiro também cansa, também envelhece. Não percebem que ele também espera um gesto, uma escuta, um pouco de gentileza.
Os filhos não percebem que o tempo vai tornando-o tudo mais frágil: as pernas, a memória, os olhos, e, às vezes, até o orgulho. Mas há um lugar que permanece intacto: o coração que ainda bate forte quando você chega, mesmo sem avisar. Só que, às vezes, você não chega. Ou chega com pressa e não percebe que, dentro daquele corpo que um dia foi tão forte, agora mora um homem que precisa ser cuidado também.
Talvez, no segundo domingo de agosto ‒ o dia que o comércio inventou para ele ‒ o melhor presente não seja um par de meias, uma camisa nova, nem um relógio caro. Mas um tempo juntos. Um café com conversa. Um abraço demorado. Uma escuta sem julgamento.
Talvez, neste Dia dos Pais, não seja preciso dizer muito, apenas se sentar ao lado dele. Em silêncio, se for o caso. Olhar nos olhos como quem olha o tempo passar e, por um instante, tentar segurá-lo com as mãos.
Os pais também envelhecem. Mas antes de se tornarem lembrança, querem ‒ ainda que não digam ‒ ser presença. Querem ser lembrados enquanto ainda estão aqui. Enquanto ainda contam suas histórias pela décima vez. Enquanto ainda olham pela janela, esperando que alguém volte.
O melhor presente não se compra. É presença. É escuta. É o interesse sincero. É a vontade de estar disponível e fazer perguntas que o faça se sentir valorizado. É mostrar que você se importa. É perguntar com o coração aberto:
“Pai, do que você sente falta?”
“O que você nunca teve coragem de me dizer?”
“Que sonhos você deseja realizar?”
Porque um dia ‒ e esse dia sempre chega ‒ o lugar vazio à mesa vai doer de um jeito que nenhum presente vai conseguir consolar.
Os pais também envelhecem. E tudo o que querem ‒ no fundo ‒ é que os filhos percebam isso. E fiquem. Fiquem um pouco mais com ele.


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