Martha Medeiros
Irmandade era aquilo. Lula disputava com Collor, com Brizola, com Fernando Henrique, com José Serra, perdia, ganhava, e o povo sempre esperando mais, equilibrando-se entre dias melhores e dias piores, a política decepcionando como praxe. Mas ninguém jurava o outro de morte e todos gostavam de Chico Buarque.
Até que amanheceu o dia 17 de abril de 2016, e durante a transmissão do julgamento do Impeachment da Dilma (Rousseff), um deputado (Jair Messias Bolsonaro) até então desconhecido fez uma homenagem a um torturador, e não a qualquer um, e sim àquele que supliciou a presidente, que foi obrigada a escutar essa afronta presencialmente. Ali foi cruzada uma linha civilizatória.
Fosse um deputado com algum verniz, teria pedido desculpas no dia seguinte, alegando um excesso verbal no calor da hora, afinal, já tinha cumprido seu objetivo, ganhara os holofotes e as manchetes, não era mais um desconhecido. Em vez disso, ele fez de suas blasfêmias o símbolo de uma nova era e recebeu o apoio da metade da população, que logo o elegeria para o cargo máximo do Executivo.
Os analistas políticos acharam por bem divulgar a rachadura como sendo entre a esquerda e a direita, assim ficava mais fácil escrever editorias e cada eleitor reconheceria o seu lado. Uma leviandade. A questão era ‒ e é ‒ mais profunda e mais incômoda. Tem nada a ver com economia em um canto do ringue, pautas sociais no outro. Tudo isso pode coexistir. O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável, a tal linha civilizatória que nos separa da barbárie. Ao rompê-la, destranca-se a porta que conduz ao caos. Deixa de existir acordo de cavalheiros, compostura básica, respeito constitucional. A nação fica fraturada e refém de bandidos.
A tortura é a falência da condição humana. Já lemos livros a respeito, vimos cenas no cinema, escutamos os depoimentos das vítimas, e o horror embrulha o estômago: só o que se quer é fugir do assunto. No rol dos crimes hediondo, matar fica em segundo lugar. Provocar dor física dilacerante em outro ser humano, sem chance de defesa, é um ato animalesco que difere a besta do homem.
Eu seria louca se achasse que metade dos brasileiros relativiza a tortura. É óbvio que não. Mas somos seres psicológicos, manipuláveis, levados a sublimar. A ver coragem onde há covardia. A ver heroísmos onde há vileza.
Naquele fatídico dia, parte do Brasil fez uma opção funesta ‒ fingir que aquilo não estava acontecendo dentro do Congresso Nacional. E assim chegamos ao hoje, em que fazemos de conta que estamos passando apenas por uma trivial briga de torcidas. Somos todos, essencialmente, pessoas boas. Porém, alguns tão “bons” que preferiram, diante daquele perigoso precedente, ignorar o que viram.
Do caderno donna,
do jornal Zero Hora,
de 11.10.2026.
“Estarrecedor”. “Execrável”. “Deprimente”. Esses foram alguns dos termos usados por ativistas de direitos humanos ao comentarem a homenagem feita pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ao coronel Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido pela Justiça brasileira como torturador.
A menção foi feita durante a votação no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, ocorrida na noite de domingo na Câmara dos Deputados.
“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra*, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim!” – foi o trecho final do discurso de Bolsonaro, em meio a vaias e aplausos.
“Ver essa homenagem ao Ustra deveria chocar e entristecer a todos que prezam a democracia, independentemente da posição política”, afirmou à BBC Brasil Átila Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil.
Durante o regime militar, entre 1970 e 1974, Ustra foi o chefe do DOI-Codi do Exército de São Paulo, órgão de repressão política do governo militar. Ali, sob o comando do coronel, ao menos 50 pessoas foram assassinadas ou desapareceram e outras 500 foram torturadas, segundo a Comissão Nacional da Verdade.
P.S.: Carlos Alberto Brilhante Ustra (Major Tibirça), Santa Maria-RS: 26.7.1932 ‒ Brasília-DF: 15.10.2015, foi um militar brasileiro. Foi coronel da ativa do Exército Brasileiro e chefe dos centros de tortura e assassinato de pessoas que se opunham à ditadura militar, o DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil.
















