segunda-feira, 31 de março de 2025

A intensidade do amor

 (Um belo poema que circula na internet)

Você vai deixar de me amar,

muitas vezes,

e eu não me importo.

Não quero que você viva preso à paixão,

não quero que me ame apenas nos dias fáceis.

O que me importa é que, entre todas as dúvidas,

entre todas as tempestades,

entre todas as chances de ir embora…

você ainda escolha ficar,

mesmo que esteja zangado,

mesmo que esteja triste,

mesmo que o cansaço pese nos seus ombros,

que o dia termine,

e, no silêncio da noite,

você suspire e diga:

“É ela…

não sei por quê,

mas é ela,

mil vezes ela!”



domingo, 30 de março de 2025

A escola de antigamente

Na escola de antigamente, se alguém chegasse atrasado, não entrava, tinha, também, que estar com uniforme impecável senão a Diretora mandava ir embora. Às vezes, o guarda até dava uma aliviada. Não tínhamos telefone celular nessa época, éramos acostumados a usar o famoso orelhão… As pesquisas eram feitas na biblioteca, e como era divertido ir até a biblioteca andando e contando histórias com os amigos. 

O trabalho era escrito à mão e numa folha de papel almaço, a capa era feita em papel sulfite… (com todo capricho), os livros eram encapados com o que tinha na frente, até sacola de arroz valia, ou aquele xadrez com vermelho ou azul, o importante era cuidar bem do nosso caderno. 

Tinha dever de casa e a Educação Física era esperada por todos! E como era esperada. 

Na escola, tinha o Gordo, o Magrelo o Zoreia, o Quatrozoio, o Cabeção, o Baixinho, o Olívia Palito, o Negão (tinha vários apelidos ótimos também) e nada disso era uma ofensa! 

Todo mundo era zoado, às vezes até brigávamos por isso, mas logo estava tudo resolvido e seguia a amizade normalmente… Tudo era brincadeira e ninguém se queixava de bullyng. Existia o valentão e a valentona, mas também existia quem nos defendesse. 

Merenda? Ah, o arroz com carne moída e feijão, macarronada, arroz laranjado com frango, sopas, salada de frutas, macarrão com salsinha. Tinha também o Nescau na caneca azul, que era um luxo, a fila era gigante, gigante mesmo e mesmo assim a gente repetia 2, 3 vezes… 

A rede social da época eram os cadernos de pergunta e resposta que circulavam pela sala para contarmos algo sobre nós, e também sabermos um pouco mais um dos outros! 

Íamos para a escola a pé, e, na saída, adorávamos quando alguém fazia aniversário… Era ovo, farinha, e o que tinha pela frente para sujar o aniversariante. 

No final de ano, não víamos a hora de acabarem as aulas, para que os colegas escrevessem nas nossas camisetas algo para guardarmos de recordação! Ou no gesso de quem estava com algo quebrado! 

Sem falar os campeonatos no ginásio esportivo, que íamos, rindo, brincando, vibrando. Como era bom competir e ganhar uma medalha, que saudades! 

A frase “Peraí, mãe” era para ficarmos mais tempo na rua e não no computador ou no celular como hoje… Colecionávamos figurinhas, selos, papel de carta, cartão de orelhão, moedas antigas... 

Comíamos na rua mesmo, bebíamos água da torneira do vizinho, as moedas, que ganhávamos do troco do mercado, eram guardadas para comprar geladinho na tia da esquina, andávamos descalços e vivíamos no sol, sem protetor. 

Não importava se nossos amigos eram negros, brancos, pardos, ricos, pobres, meninos ou meninas. Todo mundo brincava junto e como tudo era bom. Bom não, era maravilhoso! Filmes, só assistíamos na TV e não víamos a hora de passar a sessão da tarde. 

Educação aprendíamos em casa, até porque, ai da gente se a mãe tivesse que ir à escola por aprontarmos algo. E na escola, o nosso maior medo era assinar o temido “Livro Preto” de advertência. 

Nada de chegar em casa com algo que não fosse nosso, desrespeitar alguém mais velho ou se meter em alguma conversa da vida alheia. 

Fico me perguntando... Quando foi que tudo mudou? E os valores, quando se perderam e se inverteram, está difícil saber.  Quem não sente saudade dessa época. Quantas coisas boas deixadas pra trás, quantos valores, que para esta geração atual, não valem nada. 

******* 

Autoria desconhecida

A água doce que não era doce

 

Eu fui a Água Doce e tomei uma cachaça da boa, mas tão boa que resolvi levar 10 garrafas para casa, mas Dona Patroa me obrigou a jogar tudo fora. 

Peguei a primeira garrafa, bebi um copo e joguei o resto na pia. 

Peguei a segunda garrafa, bebi outro copo e joguei o resto na pia. 

Peguei a terceira garrafa, bebi o resto e joguei o copo na pia. 

Peguei a quarta garrafa, bebi na pia e joguei o resto no copo. 

Peguei o quinto copo, joguei a rolha na pia e bebi a garrafa. 

Peguei a sexta pia, bebi a garrafa e joguei o copo no resto. 

A sétima garrafa eu peguei no resto e bebi a pia. 

Peguei no copo, bebi no resto e joguei a pia na oitava garrafa. 

Joguei a nona pia no copo, peguei a garrafa e bebi o resto. 

O décimo copo, eu peguei a garrafa no resto e me joguei na pia. 

Só não me lembro o que fiz com a Patroa? 


A um bruxo, com amor

 Carlos Drummond de Andrade*

Em certa casa da Rua Cosme Velho

(que se abre no vazio)

venho visitar-te; e me recebes

na sala trajestada com simplicidade

onde pensamentos idos e vividos

perdem o amarelo

de novo interrogando o céu e a noite. 

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.

Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,

uma luz que não vem de parte alguma

pois todos os castiçais

estão apagados. 

Contas a meia voz

maneiras de amar e de compor os ministérios

e deitá-los abaixo, entre malinas

e bruxelas.

Conheces a fundo

a geologia moral dos Lobo Neves

e essa espécie de olhos derramados

que não foram feitos para ciumentos. 

E ficas mirando o ratinho meio cadáver

com a polida, minuciosa curiosidade

de quem saboreia por tabela

o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.

Olhas para a guerra, o murro, a facada

como para uma simples quebra da monotonia universal

e tens no rosto antigo

uma expressão a que não acho nome certo

(das sensações do mundo a mais sutil):

volúpia do aborrecimento?

ou, grande lascivo, do nada? 

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,

e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,

tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,

mostra que os homens morreram.

A terra está nua deles.

Contudo, em longe recanto,

a ramagem começa a sussurrar alguma coisa

que não se entende logo

e parece a canção das manhãs novas.

Bem a distingo, ronda clara:

É Flora,

com olhos dotados de um mover particular

ente mavioso e pensativo;

Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);

Virgília,

cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;

Mariana, que os tem redondos e namorados;

e Sancha, de olhos intimativos;

e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,

o mar que fala a mesma linguagem

obscura e nova de D ͣ. Severina

e das chinelinhas de alcova de Conceição.

A todas decifrastes íris e braços

e delas disseste a razão última e refolhada

moça, flor mulher flor

canção de manhã nova...

E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)

o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica

entre loucos que riem de ser loucos

e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.

O eflúvio da manhã,

quem o pede ao crepúsculo da tarde?

Uma presença, o clarineta,

vai pé ante pé procurar o remédio,

mas haverá remédio para existir

senão existir?

E, para os dias mais ásperos, além

da cocaína moral dos bons livros?

Que crime cometemos além de viver

e porventura o de amar

não se sabe a quem, mas amar? 

Todos os cemitérios se parecem,

e não pousas em nenhum deles, mas onde a dúvida

apalpa o mármore da verdade, a descobrir

a fenda necessária;

onde o diabo joga dama com o destino,

estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,

que resolves em mim tantos enigmas. 

Um som remoto e brando

rompe em meio a embriões e ruínas,

eternas exéquias e aleluias eternas,

e chega ao despistamento de teu pencenê.

O estribeiro Oblivion

bate à porta e chama ao espetáculo

promovido para divertir o planeta Saturno.

Dás volta à chave,

envolves-te na capa,

e qual novo Ariel, sem mais resposta,

sais pela janela, dissolves-te no ar.

*******

*Poema em homenagem a Machado de Assis

sexta-feira, 28 de março de 2025

O que o amor pode realizar

 

No primeiro dia de aula, Dona Teresa se levantou diante da turma e disse com um sorriso: 

‒ Prometo tratar todos vocês com muito carinho e respeito. Todos são especiais para mim. 

Mas, logo nos primeiros dias, ela percebeu que não seria tão fácil assim. 

Entre tantos alunos, um chamava a atenção: Rafael. Ele chegava com a roupa suja, não fazia os deveres, dormia durante a aula ou, simplesmente, atrapalhava os colegas. Dona Teresa sentia que já tinha feito de tudo para ajudá-lo, mas nada parecia funcionar. 

Exausta, procurou a diretora e desabafou: 

‒ Não sei mais o que fazer! Esse menino não quer aprender. Eu sou professora, não babá de criança mimada! 

A diretora, em silêncio, abriu uma gaveta e entregou a Dona Teresa um envelope com o histórico escolar de Rafael. 

Sem muito interesse, ela começou a ler. Mas, conforme avançava, sentiu o coração apertar. 

Primeira série: “Rafael é um menino brilhante e muito querido pelos colegas.” 

Segunda série: “Continua sendo um ótimo aluno, mas anda mais triste. Sua mãe está muito doente.” 

Terceira série: “A morte da mãe foi um golpe terrível para ele. Rafael perdeu o interesse na escola. Seu pai parece não se importar com ele e, suspeita-se, pode ser violento.” 

Quarta série: “Cada vez mais isolado. Não tem amigos. Parece se esconder dentro de si mesmo.” 

Dona Teresa sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto. Pela primeira vez, ela via Rafael de verdade. Ele não era um menino problemático. Ele era apenas um menino machucado, perdido, pedindo ajuda da única forma que sabia. 

No dia seguinte, os alunos chegaram animados para a troca de presentes de Natal. Todos traziam embrulhos bonitos e coloridos. Rafael, tímido, colocou seu presente sobre a mesa de Dona Teresa. Era um saco de papel amassado. 

Os colegas riram. Mas Dona Teresa abriu com carinho. Dentro, havia uma pulseira velha, faltando algumas pedrinhas, e um frasco quase vazio de perfume. 

As risadas aumentaram. Mas, sem hesitar, Dona Teresa colocou a pulseira no pulso e borrifou o perfume no pescoço. As risadas cessaram. 

Rafael ficou por último na sala. Antes de sair, olhou para ela e, com a voz baixinha, disse: 

‒ Hoje, a senhora está cheirando como a minha mãe. 

Naquele momento, Dona Teresa entendeu tudo. E chorou. 

A partir daquele dia, algo mudou. Ela decidiu que ensinaria Rafael não apenas a ler e a fazer contas, mas também a acreditar novamente no amor. 

Quando as aulas voltaram, ela usava a pulseira e o perfume. Rafael notou. E, pela primeira vez, sorriu. 

Com o tempo, ele começou a se esforçar mais. Voltou a prestar atenção, fazer os deveres, tirar boas notas. No final do ano, Dona Teresa tinha certeza: Rafael era seu aluno mais especial. 

Os anos se passaram. 

Até que, um dia, Dona Teresa recebeu uma carta. Suas mãos tremiam ao abrir. Era de Rafael. 

“Querida professora, 

Hoje sou médico. Vou me casar. E não consigo pensar em ninguém melhor para ser minha madrinha do que a senhora.” 

No dia do casamento, Dona Teresa apareceu com a mesma pulseira e o mesmo perfume da mãe de Rafael. Quando ele a viu, seus olhos brilharam. Sem pensar duas vezes, correu para abraçá-la. 

Com a voz embargada, disse: 

‒ Tudo o que sou, devo à senhora. 

E, com lágrimas nos olhos, ela respondeu: 

‒ Não, Rafael. Foi você quem me ensinou a maior lição da minha vida: me ensinou a ser professora. 

******* 

Esta história já foi contada sempre da mesma forma, mas com nomes diferentes. O importante é a mensagem que ela quer nos transmitir: a carência emocional de um aluno depois de uma perda familiar e o entendimento do drama do aluno por sua professora.  

Depois de alguns anos, a volta por cima que o aluno deu, tornando-se um cidadão exemplar e o reconhecimento profissional da evolução didática e  humana de sua antiga professora.

quinta-feira, 27 de março de 2025

Lendas do Céu e da Terra

 Malba Tahan

 

Os Três Amigos do Homem

Era uma vez um homem que tinha três amigos. A todos dedicava grande interesse e não os esquecia um só momento. 

Um dia, o homem foi chamado a comparecer, ao Tribunal, perante o grande Juiz.

Assustado, na incerteza do que poderia acontecer, procurou o primeiro amigo e pediu-lhe auxílio. 

‒ Nada posso fazer em favor ‒ respondeu o primeiro amigo. ‒ Pagarei, apenas, as despesas de tua viagem! 

O homem recorreu ao segundo. Este lhe disse: 

‒ Tenho muito medo desse Juiz que vai decidir sobre teu destino. Só levar-te, meu caro, até a porta do Tribunal. 

Diante do embaraço em que se achava, apelou o homem para o último amigo que lhe restava. 

O terceiro amigo atendeu, sem hesitar, ao pedido do homem; acompanhou-o até a presença do Juiz e esforço-se, com dedicação e carinho, pela sua absolvição. 

Sabes quais são os três amigos do homem? 

O primeiro é o Dinheiro; o segundo, a Família e o terceiro, as Boas Ações. 

Quando o homem morre, e é levado ao Tribunal de Deus, o Dinheiro não o acompanha; a Família vai levá-lo ao cemitério; as Boas Ações é que vão com ele ao Supremo Julgador. 

Lenda da Embriaguez

Reza uma lenda antiga que Noé, ao plantar a vinha, regou a terra com o sangue de quatro animais que foram, para este fim, tirados da Arca: o macaco, o leão, o porco e o cordeiro. 

Em consequência desse capricho do patriarca, aquele que se entrega ao vício vergonhoso da embriaguez recorda, forçosamente, um daqueles quatro animais: ou põe-se a fazer esgares e trejeitos de símios; ou fica exaltado e brutal como um leão; ou sonolento como um cordeiro; ou estúpido como um porco. 

Covardia 

Passeavam dois amigos numa floresta, quando apareceu um urso feroz e se lançou sobre eles. 

Um deles trepou em uma árvore e escondeu-se, enquanto o outro ficava no caminho. Deixando-se cair ao solo fingiu-se morto.

O urso aproximou-se e cheirou o homem, mas como este retinha a respiração, julgou-o morto e afastou-se. 

Quando a fera estava longe, o outro desceu da árvore e perguntou, a gracejar, ao companheiro: 

‒ Que te disse o urso ao ouvido? 

‒ Disse-me que aquele que abandona o seu amigo no perigo é um covarde. 

******* 

(Lendas do Céu e da Terra – Malba Tahan) 

A Ambição Superada

 Millôr Fernandes

Certo dia uma rica senhora viu, num antiquário, uma cadeira que era uma beleza. Negra, feita de mogno e cedro, custava uma fortuna. Era, porém, tão bela, que a mulher não titubeou – entrou, pagou, levou para casa. 

A cadeira era tão bonita que os outros móveis, antes tão lindos, começaram a parecer insuportáveis à simpática senhora. (Era simpática). 

Ela então resolveu vender todos os móveis e comprar outros que pudessem se equiparar à maravilhosa cadeira. E vendeu-os e comprou outros. 

Mas, então a casa que antes parecia tão bonita, ficou tão bem mobiliada que se estabeleceu uma desarmonia flagrante entre casa e móveis. E a senhora começou a achar a casa horrível. 

E vendeu a casa e comprou uma outra maravilhosa. 

Mas dentro daquela casa magnífica, mobiliada de maneira esplendorosa, a mulher começou, pouco a pouco, a achar seu marido mesquinho. E trocou de marido. 

Mas mesmo assim não conseguia ser feliz. Pois naquela casa magnífica, com aqueles móveis admiráveis e aquele marido fabuloso, todo mundo começou a achá-la extremamente vulgar.

Um dia de cão

 Millôr Fernandes

Chegou em casa pelas últimas. Não aguentava mais. Jogou a pasta no chão da sala, jogou-se ele próprio em cima do sofá sem nem tirar o paletó e, quando o filho entrou vindo da rua, estranhando ele ali, desolado, na semiescuridão da sala, perguntou, assustado: “Que é que foi, papai, o senhor tem alguma coisa?”. Ele, pela primeira vez na vida desabafou, atirou tudo que tinha dentro de si em cima do garoto de oito anos, de olhos arregalados: “Ah, meu filho, coitado de teu pai: foi um dia terrível! Eu e a tua mãe, você sabe, ela te telefonou, logo de manhã assinamos o desquite. Eu esperava que o juiz mandasse dar a ela 6.000 por mês, mas ele decretou 12.000 e eu ainda tive que pagar, na hora, todas as despesas do advogado, meu e dela: 83.000,73 cruzeiros. Assinei ali mesmo uns cheques pré-datados que ambos os advogados aceitaram.

“Ao sair, batido, descobri, na rua, que meu carro tinha sido rebocado. Quando consegui localizar o carro na inspetoria, os desgraçados tinham, ao rebocá-lo, amassado toda a frente e quebrado a caixa de mudança. Mas disseram que é assim mesmo, que isso às vezes acontece. Paguei multa, reboque, seguro obrigatório atrasado, fiz novo exame de vista – de agora em diante vou ter de guiar com óculos – e deixei o carro na oficina, pra consertar.

“Quando cheguei ao escritório soube que vão mesmo desapropriar o prédio por causa do metrô, tendo que me mudar em quinze dias. Minha secretária, grávida de seis meses, que só estava esperando essa decisão, demitiu-se na mesma hora.

“Do laboratório, o médico telefonou e disse que tenho que tomar muito cuidado com a minha pressão porque, com minha diabete e um princípio de anemia, qualquer coisa no coração pode ser fatal. Liguei pro meu corretor pra vender umas ações a fim de pagar todas as despesas do dia, mas ele me disse, aborrecido, que a corretora tinha sofrido uma intervenção devido a inúmeras irregularidades, inclusive desfalques. Eu então resolvi não trabalhar mais – na verdade não tinha trabalhado nada – e vir para casa, mas não consegui nem um táxi porque começou a chover torrencialmente.

“Vim a pé da cidade até aqui, embaixo da maior chuva, mas, quando cheguei aí na esquina, lembrei-me de que tinha esquecido as chaves no escritório. Aí eu não aguentei e comecei a chorar em plena rua. Ah, meu filho, foi o dia mais terrível da minha vida!”

O menino, tristíssimo, perguntou apenas: “Mas, papai, quando é assim, por que é que o senhor não muda de canal?”

Moral da história: 

A salvação está na tecnologia.

terça-feira, 25 de março de 2025

Diálogo entre dois chatos

 

- Querido, você me acha bonita? 

- Eu não diria bonita, pois se trata de um conceito adotado pelas classes dominantes para classificar animais humanos dentro de padrões de beleza culturalmente pré-estabelecidos. 

- Isso quer dizer que sou feia? 

- Esteticamente diferente é o termo mais adequado. 

- Mas você ainda me ama? 

- O amor é um sentimento inventado pela burguesia com intuito de subjugar o individuo, em um único modo de pensar da sociedade, tirando-lhes a razão e o senso crítico. 

- E daí? 

– Daí que nutro por você um sentimento de co-participação em interesses de ordem habitacional, econômica e sexual.   

– O quê? Quer dizer que você me quer como faxineira e prostituta! 

– Não se diz faxineira, e sim higienizadora ambiental. E tratar parceiras sexuais alugadas como prostitutas não é politicamente correto...  

– Você deve estar louco! 

– Emocionalmente fora do padrão normal. 

– Bem que me avisaram quer você era um tremendo chato! 

– Chato não, pessoa interessante que pensa de maneira diferente. 

– Como fui cega... 

– Desprovida de capacidade visual é o termo mais correto. 

  – Não sei por que casei com você! 

– Você não sabe porque se submeteu a uma prostituição oficializada. 

– Idiota paranoico! 

– Pessoa anormal com ideia fixa. 

‒ Você não tem cérebro! 

‒ Acéfalo é a palavra certa. 

– Pra mim chega! Vou procurar um amante que me queira! 

segunda-feira, 24 de março de 2025

Demência digital

 Carpinejar

Você sofre de amnésia digital? 

Se você somente usa o Waze para se deslocar e não guarda mais nenhuma rua ou caminho. 

Se você não suporta qualquer lapso e já recorre ao Google. 

Se você não conserva nomes de filmes, atores, atrizes e diretores, muito menos de canções e seus artistas, e exige várias dicas, como se estivesse jogando Imagem&Ação. 

Se você perde objetos com frequência pela casa, nunca determinando ao certo onde os colocou. 

Se você não se recorda direito de shows aos quais assistiu porque passou o espetáculo inteiro filmando. 

Se você não sabe mais nenhum telefone de cabeça, só o seu. 

Se você precisa conferir as fotos para recapitular onde estava nas férias. 

Se você não lembra como se chama a pessoa para quem acabou de se apresentar, pois salvou o contato no celular e não se prestou a visualizar na mente. 

Se você não tem mais noção da passagem dos anos, acha que aquilo que ocorreu há três anos foi no ano passado. 

Se você não emprega a sua caligrafia, apenas digita. Sem o amparo do corretor ortográfico, é capaz de errar a grafia das palavras mais fáceis. 

Se você não dispõe mais de paciência para conversar sem pesquisar nos dispositivos eletrônicos. 

Se você depende do Facebook ou Instagram para cumprimentar aniversariantes. 

Se você não consegue mais ler um livro. 

Se toda a sua existência mora no celular, dados bancários e pessoais, e não há como pedir ajuda ou socorro na ausência dele. 

Então, você é vítima da exposição prolongada das telas, a um passo da demência virtual. 

A terceirização da memória para recursos tecnológicos vem enfraquecendo o nosso raciocínio. Os riscos são graves: redução da neuroplasticidade dos cérebros em desenvolvimento e deterioração da saúde mental e das funções cognitivas. 

Padecemos da preguiça de pensar por nossa conta e juízo. É uma anti-Renascença, período de trevas do intelecto. 

O que deveria nos auxiliar está ocupando o nosso lugar. 

Com a transferência da memória, a nossa vida se torna também mais acelerada. Solucionamos rapidamente os incômodos e não enfrentamos o tempo das dúvidas. Agimos no automático, confundindo conhecimento (processo íntimo) com informação (processo genérico). 

Não desfrutamos da plenitude dos acontecimentos. As experiências não ficam na nossa posteridade interior, pois não nos esforçamos para fixar as lembranças. Não há trabalho e vínculo. Fatos grandes ou pequenos têm o mesmo peso e valor, sem proporcionalidade. 

Não armazenamos descobertas e lições. Não mais nos comovemos, quando lembrar é se emocionar, é dar cor, cheiro e sensações ao passado. Nossa erudição e sapiência agora partem de fora, não de dentro. 

Assim os relacionamentos estão cada vez mais descartáveis, porque sentimos cada vez menos saudade ‒ a saudade se encontra à beira da extinção. 

Se você vive no celular, você não vive o outro, não olha o outro, não registra as características do outro. Você não tem memória, portanto não tem saudade, portanto não vai amar ninguém. 

(Do jornal Zero Hora, março de 2025) 

Regras básicas de educação

 

01. Nunca aperte a mão de alguém sentado. 

02. Nunca fale mal da comida quando você é o convidado. 

03. Não coma o último pedaço de algo que você não comprou. 

04. Proteja quem está atrás de você e respeite quem está ao seu lado. 

05. Nunca faça a primeira oferta em uma negociação. 

06. Não fique com o crédito pelo trabalho que você não fez. 

07. Vista-se bem, não importa a ocasião. 

08. Fale honestamente: diga o que pensa, mas pense bem o que diz. 

09. Pergunte mais do que responder. 

10. Deixe a linguagem obscena para os menos educados. 

11. Evite colocar o telefone na mesa quando você comer com alguém. 

12. Ouça, sorria e, acima de tudo, faça contato visual. 

13. Se não for convidado, não peça para ir. 

14. Nunca tenha vergonha de onde você veio. 

16. Não implore por um relacionamento. 

17. Em cinemas e em teatros, mantenha-se em silêncio. 

18. Em transportes públicos, respeite os assentos dos idosos. 

19. Em público, ao conversar com amigos, evite a linguagem chula. 

20. E tudo aquilo que você ler e gostar, comente com sinceridade e educação.

domingo, 23 de março de 2025

A sabedoria básica

 

Num belo dia, teria eu onze anos, o professor disse a meu pai: 

‒ O rapaz está pronto. Já sabe ler, escrever, fazer as operações e já na semana passada fez o último problema. Já pode mandá-lo para caixeiro. 

Na época, o maior grau de sapiência era saber resolver o último problema. O problema era de arrepiar, mas a ciência que a tabuada nos oferecia abria-nos o caminho. 

O professor, elucidando-nos, dizia: 

‒ A tonelada tem treze quintais e meio... 

E logo todos nós, em coro, respondíamos: 

‒ O quintal tem quatro arrobas; a arroba, trinta e dois arrateis; o arratel, quatro quartas; a quarta, quatro onças; a onça, oito oitavas; a oitava, três escrúpulos e o escrúpulo, vinte e quatro grãos de trigo seco. 

‒ Ora, tornava o senhor mestre, como cada formiga pode elevar ao cimo da torre um grão de bico? 

Não era preciso mais nada. Esta elucidação era como um raio de luz que entrava nas nossas cabeças e íamos logo lestos resolver o problema, enchendo um papel com multiplicações, indo depois, triunfantes, mostrar ao professor. 

A partir desse momento, estávamos aptos a entrar na luta pela vida! 

Francisco Serrano, 1919 (adaptado)

* O arrátel foi a unidade de peso fundamental do antigo sistema português de medidas. Até à adoção do sistema métrico, no século XIX, o arrátel foi usado em Portugal, no Brasil e em outros territórios do Ultramar Português.


sábado, 22 de março de 2025

Aconteceu num país sul-americano

 

No final do ano 2022, um candidato a presidente de um país da América do Sul não aceitou sua derrota numa eleição limpa e democrática, e resolveu dar um golpe de estado se impondo, apesar da sua derrota nas urnas, com presidente daquele país. 

Uns militares golpistas acreditaram na sua versão e o puseram no poder. 

Políticos da oposição tiveram seus mandatos cassados, empastelaram jornais, intelectuais foram presos, jornalistas foram censurados. Um caos total tomou conta desse lindo e abençoado país. 

Muita gente fugiu para outros países mais democráticos. Um jornalista, combativo e corajoso, ficou para dar notícias do que estava acontecendo na terra natal. 

Os amigos pediram que ele não deixasse de escrever. 

‒ Vocês estão loucos, o pessoal da repressão censura até a correspondência. 

Os amigos, então, combinam um código: verdade seria escrita em azul; mentira seria escrita em verde. 

Depois de bastante tempo, chegou uma carta toda escrita em azul: 

“Caros amigos, a vida aqui está uma maravilha! O presidente é amado pelo povo, não ofende as mulheres, jornalistas e políticos da oposição. O presidente é amado pelo povo e se perpetuará no poder, para a alegria dos cidadãos do agronegócio e dos cidadãos da região Sul. Reinam a paz e a tranquilidade. Aqui encontra-se tudo o que desejar. Absolutamente tudo. Exceto tinta verde...” 

sexta-feira, 21 de março de 2025

Uma foto histórica

 Pesquisa de Fernando Rabelo

Foto de Walter Firmo dos sambistas Cartola e Carlos Cachaça no Morro da Mangueira, Rio de Janeiro, no ano de 1974.

Nesta foto do mestre Walter Firmo*, aparecem dois grandes sambistas que fizeram história, Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola (1908-1980) e Carlos Moreira de Castro, o Carlos Cachaça (1902-1999). 

Em 2018, eu pedi ao Firmo que me escrevesse algumas linhas sobre esse maravilhoso registro. 

“O ano preciso não lembro, mas deve ter sido ali por volta de 1974, quando investia de forma maciça no projeto dos sambistas, entre eles essa memorável dupla de velhos amigos, compadres e parceiros. Procurava um ‘background’ que tivesse haver com o mundo deles, moradores da Mangueira, tangida na simplicidade em sua maneira de ser, quando descobri, numa viela do morro, roupas dependuradas secando no varal. Foi quando, então, a poesia se fez”, escreveu Walter Firmo.

*Walter Firmo: Nascido em 1937 no Rio de Janeiro, Walter Firmo conta que desde garoto sonhava em fotografar. Ingressou no fotojornalismo em 1955, como aprendiz, no jornal Última Hora, e não parou mais. Trabalhou em diversos jornais e revistas e construiu uma carreira longeva, reconhecida por prêmios. Um deles foi o Esso de Reportagem, em 1963, conquistado por “Cem dias na Amazônia de ninguém”, matéria publicada no Jornal do Brasil com fotos e texto seus. Chamado de “mestre da cor”, Firmo é autor de retratos memoráveis de ícones da música brasileira como Pixinguinha, Dona Ivone Lara, Cartola. Outra vertente bastante conhecida de seu trabalho são as imagens de festas populares registradas por todo o Brasil, do carnaval do Rio de Janeiro ao bumba meu boi no Maranhão. Desde 2018 o Instituto Moreira Salles abriga, em regime de comodato, aproximadamente 145 mil fotos feitas por Firmo ao longo de várias décadas. O material estabelece um diálogo direto com outros grandes nomes do acervo do IMS, como José Medeiros, com quem Firmo trabalhou, e Marcel Gautherot.

“Eu ando preferindo o silêncio cada vez mais, racionalizar tudo que eu fiz, é como se eu pusesse um farol alto não na frente do meu carro, mas lá atrás ((risos)), como se visualizasse meu passado. E para que isso aconteça eu preciso estar sozinho. Eu gosto muito de estar sozinho. Perdi um pouco do entusiasmo que eu tinha com as pessoas, de ser mais uma delas. Minha vida é simples”.  

Walter Firmo

quinta-feira, 20 de março de 2025

Lambreta e Pinho Sol

 Ivan Carvalho

Darci e Dorci bem que poderiam ter nomes trocados. Existem várias mulheres chamadas Darci e tive, certa vez, um vizinho chamado Dorci. Mas isto não vem ao caso. O fato é que eram casados há muitos anos. Uma quarta feira ele pegou uma bacia d'água, colocou meio copo de Pinho Sol e lavou os pés no capricho. Depois fez a barba, encharcou-se de Aqua Velva, vestiu-se. Pegou a lambreta e saiu. Dorci ficou embasbacada com aquilo. Nunca vira o marido desinfetar os pés em mais de 15 anos. 

Foi correndo na concunhada, que morava duas casas à esquerda, e relatou o ocorrido. Odete, este o nome dela, amarrou os cabelos com uma borrachinha de dinheiro, fez um certo suspense de quem é calejada no ramo e sentenciou: 

‒ Mulher, minha filha, mulher... 

‒ Mas tu achas mesmo? 

‒ Clarineta! Ninguém lava os pés com pinho sol por nada. Conheço a peça, é como o traste do irmão. Nunca lavou nem com sabão Rola! Tem piranha nesse rio. 

Dorci voltou para casa cheia de certeza. Desde que o marido comprara aquela lambreta de segunda mão, andava cismada. O que dá de um quarentão, baixinho e de nariz pontudo, virar lambreteiro? 

O Brasil fervilhava naquele 1º de abril. Brizola gritava no rádio que o Jango estava chegando. Mas Dorci só pensava nos pés lavados com pinho sol e numa maneira de revidar a traição. 

Darci, segundo consta, voltou e levou, de entrada, uma vassourada na nuca. A lambreta foi agraciada com um litro de querosene e um fósforo. Queimou enquanto Darci gritava e pulava como um índio de filme, procurando um balde. Odete não deixou Dante, o irmão e cunhado, ajudar. 

1964 foi, literalmente, fogo! A propósito, Jango nunca voltou. 


O protocolo

 Mário Corso

‒ Bom dia, eu gostaria de encerrar minha conta. 

‒ Qual é o número do seu protocolo? 

‒ Que protocolo? 

‒ Se o senhor não tem o número do protocolo, não é possível lhe ajudar. Vou estar passando sua ligação para o setor de protocolo. 

‒ Por gentileza, eu queria obter o número do protocolo.       

‒ Não é mais aqui. Mudou mês passado, não tenho o novo ramal. Vou lhe passar para o Maurício que  pode lhe dizer qual o número. 

‒ Bom dia, Maurício, eu preciso que você me redirecione para ramal que fornece o número do protocolo. 

‒ Oi, é a Valéria, o Maurício deu uma saída. Eu não sei qual o ramal. Vou lhe direcionar para a central. Lá eles sabem. 

‒ Bom dia, eu preciso falar com o setor que fornece o número do protocolo. 

‒ O senhor já forneceu seus dados? 

‒ Não. 

‒ Sem seu cadastro eles não vão lhe atender. O senhor me diga seu CPF, o número da identidade, o endereço, o número do Pis-Pasep, o número do certificado de reservista, sua data de nascimento, seu signo no calendário chinês, e a média harmônica do índice do seu colesterol da última década. 

‒ Poderia fazer isso presencialmente? 

‒ Sim, no nosso escritório no Amapá. 

‒ Vou lhe passar os números. 

Quarenta minutos depois. 

‒ Perfeito, senhor Antônio. Seus dados estão no sistema. Vou lhe transferir para o setor de  pré-agendamento, seu número é PQP239-67. 

‒ É o número do protocolo? 

‒ Não, é pré-agendamento para conseguir o número do protocolo. Vou lhe passar para o ramal. 

‒ Bom dia, eu tenho o número PQP239/67. 

‒ Perfeito, qual o seu nome completo, CPF e Carteira de Identidade e o cologaritmo do seu título eleitoral. 

‒ Mas eu recém passei para vocês esses números. 

‒ O senhor passou os números para uma terceirizada. Eles não compartilham os dados conosco. 

‒ Se eu lhe passar, você fornece o número do protocolo? 

‒ Não senhor, vou lhe passar o código do agenciamento, do registro da tramitação do processo, de adquirir o protocolo. 

Se você já passou por algo semelhante, cada atendente te empurrando para outro e ninguém resolvia, isso mudou. Agora é uma máquina que te tortura. Digite 1 para... Digite 2 para... 

A burocracia se atualiza, mas nunca se humaniza. O desrespeito conosco e com nosso tempo segue igual.  

(Do jornal Zero Hora, março de 2025)

quarta-feira, 19 de março de 2025

Epônimo 2

Genericamente, é aquele ou aquilo que dá seu nome a uma coisa ou pessoa. 

Diz-se de ou nome atributivo, nome alcunhado, sobrenome lisonjeiro (mas, por vezes, denegridor) de deuses e deusas, cidades etc. 

01. acacianismo: retórica pomposa e vazia (alusão ao Conselheiro Acácio, personagem de Eça de Queirós em “O Primo Basílio”, paradigma da mediocridade. 

02. ampere:  unidade de medida da corrente elétrica (homenagem ao matemático e físico francês André Marie Ampère, 1775-1836). 

03. astracã: tipo de pele para fazer agasalho (alusão à cidade de Ástrakhan, no delta do Rio Volga, onde artesãos trabalham a pele de certo carneiro. 

04. bauxita: rocha rica em alumínio (da cidade francesa Baux-en-Provence, onde a rocha foi identificada pela primeira vez em 1821). 

05. begônia: nome de uma planta (do nome do naturalista francês Michel Bégon, 1638-1710, que a levou de São Domingo para a Europa). 

06. benjamin: o filho mais novo (alusão ao 12ͦ  filho de Jacó e de Raquel, conforme o Gênese, livro da bíblia). 

07. beócio: muito estúpido (de Beócia, antiga região da Grécia, cujos habitantes eram considerados pouco esclarecidos pelos atenienses). 

08. carolíngio: estilo artístico medieval (alusão ao imperador Carlos Magno, 742-814, em cujo reinado desenvolveram-se notavelmente as atividades artísticas). 

09. cirílico: diz-se de certo alfabeto (desenvolvido por São Cirilo para escrever o Evangelho em sua língua). 

10. draconiano:  excessivamente severo (alusão a Drákon, legislador grego, século 7 a.C., que instituiu um código implacável. 

11. lacônico: que se exprime por poucas palavras (de Lacônia, região da Grécia antiga, cujo duro estilo de vida dos habitantes lhes impunha pouca comunicação com forasteiros). 

12. liliputiano: extremamente pequeno (de Lilliput, país onde tudo era diminuto, imaginado por Jonatham Swift, 1667-1745, nas “Viagens de Gulliver”). 

13. meandro: sinuosidade (na raiz, o grego Maíandros, rio cheio de volteios, da Cária). 

14. musselina: tecido muito fino (pelo francês atual mousseline (do antigo mosulin, gentílico da cidade de Mossul, no norte do atual Iraque, de onde vinha o tecido). 

15. quasímodo: pessoa muito feia (alusão ao personagem homônimo de Victor Hugo, 1802-1885, em “Notre Dame de Paris”). 

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Do artigo Enriqueça o seu Vocabulário, de Ricardo Salles, na Seleções do Reader’s Digest, julho de 2005. 

Epônimo 1

Genericamente, é aquele ou aquilo que dá seu nome a uma coisa ou pessoa. 

Diz-se de ou nome atributivo, nome alcunhado, sobrenome lisonjeiro (mas, por vezes, denegridor) de deuses e deusas, cidades etc. 

Dicas de Português-G1 

Gente que famosa virando coisa 

Sérgio Nogueira* 

Irmã-Paula

É a pessoa muito generosa, caridosa. 

A irmã Paula existiu no Brasil. Era uma freira francesa, da Congregação das Irmãs de São Vicente de Paulo de Gysegem. Seu nome de batismo: Antoinette Vincent. 

Morreu em 1945, no Rio de Janeiro, e ficou famosa por suas obras de caridade. 

Linchar

Veio do inglês (to) lynch, linchar. 

A palavra inglesa se originou do sobrenome de William Lynch, fazendeiro e juiz de paz do condado de Pittsylvania, no estado norte-americano da Virgínia. 

No começo do século XIX, Mr. Lynch tomou a justiça nas mãos e constituiu um tribunal privado para julgar sumariamente criminosos e suspeitos ‒ o juiz fazia questão de não diferenciar uns dos outros. Seu método tosco e implacável de fazer justiça foi chamado de lei de Lynch (Lynch’s law) e daí veio o verbo em inglês. 

Nicotina 

Veio do francês nicotine. 

Em 1560, Jean Nicot, embaixador francês em Lisboa, recebeu de navegantes portugueses umas sementes de tabaco trazidas da Flórida (Estados Unidos). Ele enviou as primeiras amostras para a rainha Catarina de Médicis. Em homenagem a Nicot, a planta recebeu o nome científico de Nicotiana tabacum. 

No início do século XIX, a nicotina foi isolada do tabaco e ficou assim chamada em homenagem a Nicot. 

Sanduíche 

Veio do inglês sandwich. 

Em 1762, John Montagu, o quarto conde de Sandwich, um antigo vilarejo em Kent, na Inglaterra, passou 24 horas numa mesa de jogo de cartas. A fim de não ter de parar de jogar para comer, Sandwich ordenou que lhe servissem carne, presunto e outros comestíveis entre dois pedaços de pão. Com isso, ele pôde simultaneamente comer, sem sujar as mãos, e continuar jogando. 

Em 1778, o capitão inglês James Cook descobriu na Polinésia um arquipélago que batizou de ilhas Sandwich em homenagem ao conde, por seu incentivo à navegação inglesa. Depois o nome do lugar foi trocado para Havaí, que, em 1959, passou a ser oficialmente o 50º estado dos Estados Unidos. Por isso é que a famosa série de TV se chama “Havaí Cinco Zero”. 

Saxofone 

Veio do francês saxophone, formado de sax + o + phone (som). 

Sax era o sobrenome do belga, naturalizado francês, Antoine-Joseph Sax, que inventou o saxofone e outros instrumentos. 

Silhueta 

Veio do francês silhouette. 

Em 1759, a França teve provavelmente o pior ministro das Finanças de todos os tempos: Étienne de Silhouette. Suas ideias ingênuas e seus ridículos planos econômicos não lhe permitiram mais de nove meses no ministério. 

Em sua homenagem, os franceses imortalizaram-no na expressão à la silhouette. Tudo que era mal feito, precária e superficialmente, era considerado feito à la silhouette, isto é, ao estilo de Silhouette. 

Posteriormente veio a expressão profil à la silhouette, uma descrição ligeira de alguém. Finalmente silhouette passou a designar o desenho genérico do perfil de uma pessoa ou de um objeto, marcado apenas pelos contornos projetados por sua sombra. 

Xumbrega 

Uma coisa xumbrega ou chumbrega é algo ordinário, de má qualidade. 

A palavra chomberga, com o sentido de homem elegante e afetado, apareceu na língua portuguesa graças ao general alemão Friedrich Hermann Schönberg, um aventureiro que foi parar em Portugal para reorganizar e comandar as tropas portuguesas (de 1661 a 1668) na luta contra os espanhóis na Guerra da Restauração. 

O nome do general foi aportuguesado Frederico Armando Schomberg. Sua imagem se transformou em padrão de elegância para a moda masculina da época, especialmente na roupa, no chapéu e no vistosíssimo bigode. 

O sobrenome Schomberg é a origem de chomberga e das seguintes expressões: 

(a) chambergo: chapéu militar de feltro, com uma pluma; 

(b) chumbergas: o imitador do general na roupa ou no bigode; indivíduo extravagante; 

(c) chamborgas: com o sentido pejorativo de fanfarrão; 

(d) à chomberga, expressão usada para designar a moda, principalmente militar, introduzida pelo alemão (casaca à chomberga, bigodes à chomberga...). 

A palavra original sofreu no Brasil a má influência do governador de Pernambuco Jerônimo de Mendonça Furtado, que em 1666, por força de sua extraordinária impopularidade, foi detido pelos senhores de engenho em Olinda, deposto e remetido para Lisboa. Por que era impopular? O cidadão bebia sem parar e era odiadíssimo por seus desmandos. Seu apelido: Chumbergas (ou Xumbergas) por ostentar vastos bigodes à chomberga. 

E, assim, surgiram no Brasil as seguintes palavras: 

(a) xumberga: embriaguez; 

(b) xumbrega (também grafado chumbrega): ordinário, reles; pessoa ou coisa de mau gosto. 

Alguns etimólogos sustentam que a palavra brega (cafona) é forma reduzida de xumbrega.