Affonso e Marina
As histórias de amor são sempre lindas. Entre poetas, então, nem se fala. Não deu um mês dela, ele agora também se encanta. Quase na mesma luz.
Aqui a carta da filha:
“Chegou o dia. O apartamento de Ipanema está vazio agora. Hoje bati a porta da casa da minha infância e não havia ninguém lá dentro. Vazia pela primeira vez em muitos anos. Depois que meus pais adoeceram, sempre tinha gente em casa. Sobrevivem soberanos, porém, um sem-número de livros, todas as lembranças e uma pequena coleção de grandes lutos.
Hoje, vi pela última vez, em carne e osso, esse pai maravilhoso, singular, que me ensinou tanto sobre presença e nobreza de espírito, que me habilitou a puxar papos jocosos com garçonetes, frentistas e ascensoristas, que me introduziu no universo dos trocadilhos infames, que me explicou tudo sobre Idade Média, Renascimento e Barroco com rabiscos toscos de didática fantástica.
Hoje, esse pai poeta, doce, piadista, protestante, self-made intelectual e pedreiro de casa de boneca embarcou para a margem de lá da vida.
Na beira do cais, em meio às nuvens, cantam e empunham bandeirolas, na maior expectativa e alegria, vovó Maria, vovô Jorge, tio Carlos, tio Duílio, tio Pedro, minha irmã Fabiana, nossa cachorrinha Pixie e a flor maior, amor e alma gêmea, Marina Colasanti.
Espreitam sorridentes duas nuvens acima: Clarice, Drummond, Sabino e Rubem Braga, entre outros comparsas.”
(Rio de Janeiro, 4 de março de 2025.)
Crítico e poeta morto pouco mais de um mês depois de Marina Colasanti, sua companheira de vida e literatura, não recuava frente uma polêmica e dizia que 'o autoritarismo estético e o ideológico são siameses'.
Vão-se os bons e seu legado é tarefa de quem fica. A partida de Affonso Romano de Sant'Anna, pouco mais de um mês depois da morte de Marina Colasanti, sua companheira de vida e literatura, nos deixa essa tarefa em dose dupla, e não apenas isso: também a comoção de ver esse famoso casal das letras tornar-se história de uma era e uma estirpe que vão se finando. Uma era e uma estirpe de intelectuais, de ampla atuação no campo da literatura, bem como de amplas conexões entre as artes e as ciências humanas e sociais.
Marina Colasanti:
26 de setembro de 1937 ‒ 28 de
janeiro de 2025
Affonso Romano de Sant’Ana:
27 de março de 1937 ‒ 4 de
março de 2025
Sair de cena
Mas
se eu for, quando me for,
terei
dado certos sinais precisos.
Sair
de cena de modo abrupto
seria
indelicadeza com os demais.
O
que iriam dizer de mim meus poemas e objetos
quando lessem a notícia nos jornais?
Affonso Romano de Sant'anna
(27/03/37 – 04/03/25)
*Poema
publicado no livro “O Lado Esquerdo do Meu Peito ‒ Livro de Aprendizagens”, 1992.
O
que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeus-se.”
(Affonso Romano de Sant Anna)



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