sábado, 30 de junho de 2018

Antigas brincadeiras infantis

Brincar de roda, ainda Pode?

“... Oh! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!...”

(Casimiro de Abreu)


→ As brincadeiras antigas para crianças mais famosas eram: amarelinha, bolinha de gude, cantigas de roda, passa-anel, roda-pião, queimado, piques, pipa… Tudo isso fazia parte do seu cotidiano e assim elas se divertiam por horas e dias.

→ Mas hoje muitas de nossas crianças não devem imaginar o que são essas brincadeiras. A tecnologia transformou o mundo e trouxe à tona brinquedos que não exigem tanta criatividade, muito menos, esforço.

→ O que mais se vê atualmente são crianças dentro de apartamentos na frente do videogame, do computador ou da televisão. Parece que aquelas brincadeiras antigas e divertidas da nossa infância ficaram para trás, caíram no esquecimento. Quem não se lembra da turma toda que se encontrava depois da escola para brincar na rua ou numa praça perto de casa ou mesmo a ansiedade de chegar a hora do recreio?


→ Antigamente, os pequenos também podiam e se divertiam em espaços públicos e em convivência com várias crianças. Mas com a modificação da sociedade, esses espaços desapareceram, a violência aumentou e elas passaram a ficar mais com os brinquedos do que com os amiguinhos.

→ O maior problema dessa substituição é que as crianças acabam não brincando da maneira mais adequada, pois não há interação com outras pessoas.

→ Brincar faz parte do desenvolvimento infantil. Pesquisas já mostraram que crianças que brincam são mais criativas e as que se divertem em grupo têm menos problemas de ajuste social quando chegam à idade adulta.

→ O jogo é seu meio de comunicação e aprendizagem. Com isso, a criança terá a oportunidade de desenvolver melhor a imagem, o seu esquema corporal e outras habilidades.

→ As brincadeiras “antigas”, por exemplo, estão ligadas a costumes populares e ainda promovem a socialização, ajudam a desenvolver a coordenação motora, exploram o movimento, o equilíbrio, o respeito às regras e o lado intelectual das crianças.


→ Se você quer que seus filhos retomem as brincadeiras do passado, nada melhor do que tirar algum tempo e ensinar para eles que para brincar não é preciso gastar. Uma boa opção é mostrar as brincadeiras que você mais gostava e assim também brincar junto. Se não lembra mais ou está sem ideia, algumas dicas para ajudar:

Amarelinha → Esta é uma das brincadeiras mais clássicas e conhecidas do mundo inteiro. De acordo com alguns registros históricos, ela já era brincada por crianças na Roma Antiga. Faça um risco no chão e numere de 1 a 10, no último, faça um arco representando o céu. Pule com um pé só dentro de cada quadrado, sem errar.

Cinco Marias → É preciso achar cinco pedrinhas de mesmo tamanho ou até mesmo saquinhos feitos com arroz ou areia. Jogue todas as pedrinhas no chão e tire uma delas, depois com a mesma mão jogue para o alto e pegue uma das que ficaram no chão. Faça isso até ter pegado todas. Na segunda rodada, ao invés de pegar uma por vez, pegue duas. Na terceira rodada você pega três ao mesmo tempo e na última rodada todas de uma vez só.

Cabra-cega → Consiste em vendar uma pessoa que terá como principal objetivo capturar outros adversários dentro de um ambiente limitado. Esta brincadeira, em alguns lugares, também pode ser chamada de Gato Mia. Em algumas variações da brincadeira, a pessoa que está vendada, ao pegar alguém, precisa adivinhar o nome da pessoa, o que torna ainda mais interessante.

Pular corda → Também pode ser um excelente exercício para as crianças e para os adultos. Ela pode ser brincada tanto sozinha como também em grupo, o que torna a atividade ainda mais divertida. Para brincar, basta ter uma corda grande, em torno de uns três metros.

→ Se depois dessa sessão nostálgica você sentiu falta da sua brincadeira preferida, mande para a gente. E aproveite nossas dicas para brincar com as brincadeiras antigas de criança junto com seus filhos e relembrar um pouco os velhos tempos.

→ Vale ressaltar que as brincadeiras que não vemos mais entre os nossos filhos e netos fazem parte da construção do nosso legado cultural, construída e mantida por séculos. Contribuição de nossos antepassados, no que tinham de melhor a oferecer: uma infância que valia a pena.

→ E lembre-se: recordar é viver!Então, brincar de roda ainda pode? Pode e deve!

Maria Delfina é Professora da Rede Municipal
e responsável pelo Blog Família do Portal Rioeduca.
E-mail: mariadrodrigues@rioeduca.net
Twitter: @mariadelfina11

(Do Blog Rioeduca. Net)





sexta-feira, 29 de junho de 2018

Se você acha que seu nome é feio

Leia isso:

Estão registrados em cartórios de todo o Brasil.


A: Abecê Nogueira - Abrilina Décima Nona Caçapavana Piratininga de Almeida - Acheropita Papazone - Adegesto Pataca - Aeronauta Barata - Agrícola Beterraba - Alce Barbuda -Aldegunda Carames Mole - Aleluia Sarango - Além Mar Paranhos - Alfredo Prazeirozo Texugueiro - Alma de Vera Amado Amoroso - Amazonas Rio do Brasil Pimpão - América do Sul Brasil de Santana - Amim Amou Amado - Amor de Deus Rosales Brasil - Ana Maria Mosca - Analgesina Costa Pinto - Andrés Urdangarin Dorronsoro  -Angústias Árias - Antenor da Cotinha - Antônio Americano do Brasil Mineiro - Antonio Buceta Agudim - Antonio Camisão - Antônio Dodói - Antônio Ernane Cacique de New York - Antônio Manso Pacífico de Oliveira Sossegado - Antônio Noites e Dias - Antônio Pechincha -Antônio Treze de Junho de Mil Novecentos e Dezessete - Antônio Querido Fracasso -Antoniozin Fogaça - Apurinã da Floresta Brasileira - Araci do Precioso Sangue - Argonauta Sucupira - Aricléia Café Chá - Arnaldo Queijo - Arquiteclínio Petrocoquínio de Andrade - Asteróide Silvério - Audobrantina Moema Cearenciana - Ausêncio Nogueira – Avagina dos Santos (em homenagem a Ava Gardner e Gina Lolobrigida).

B:  Barrigudinha Seleida - Bende Sande - Branquinho Maracajá - Benemérita do Rêgo Grande - Benvinda Olga Boaventura Torrada - Bom Filho Persegonha - Brasil Paraná de Cristo - Brasil Valente - Brizabela Alves - Bronsibel Ribeiro de Sena.

C: Caius Marcius Africanus - Cafiaspirina Cruz - Capote Valente - Carabino Tiro Certo - Cavalo Antônio - Céu Azul do Sol Poente - Chevrolet da Silva Ford - Cibele Sol - Celene Lua - Colapso Cardíaco da Silva - Cólica de Jesus - Comigo é Nove na Garrucha Trouxada - Crisoprasso Compasso.

D: David Leão Pão Trigo - Delícia Costa Melo - Deus É Infinitamente Misericordioso - Deusarina Vênus de Milo - Dezêncio Feverêncio de Oitenta e Cinco - Diana Soppa - Dinossauro Carlos da Silva - Diva Gina Santos - Divina Anunciação.

E: Edna Boa Sorte - Elacervandro Gomes - Eliene Bubina Emerson Capaz - Eraldonclóbes - Espere em Deus Mateus - Éter Sulfúrico Amazonino - Eva Gina Melo.

F: Faraó do Egito de Souza - Fé Esperança e Caridade - Felicidade do Lar Brasileiro - Flávio Cavalcanti Rei da Televisão.

G: Galenogal de Silva - Gengis Khan Camargo - Gilete Queiroga de Castro - Gol Santana Silva.

H: Hepotamedes Maria Good God - Hidráulico Oliveira - Himeneu Casamenteiro das Dores Conjugais - Hiprafodito da Silva - Honesta Honestina Maria de Souza - Horinando Pedroso Ramos - Hypotenusa Pereira.

I: Inocêncio Coitadinho Sossegado - Irisdelfane Clei - Isabel Rainha da Hungria Portugal Silva.

J: Jacinto Leite Aquino Rêgo - Jacinto Pinto - Janeiro Fevereiro de Março Abril - João Bebe Água - João Cara de José - João Coelhinho Paes - João Cólica - João da Mesma Data - João Sem Sobrenome - Joaquim Pinto Molhadinho - José Casou de Calças Curtas - José Marciano Verdinho das Antenas Longas - José Maria Guardanapo - José Teodoro Pinto Tapado - Jovelina Ó Rosa Cheirosa - Jubiratan Carneiro.

L: Letsgo - Liberdade Igualdade Fraternidade Nova York Rocha - Lindulfo Colodônio - Loprefâncio Celestino Jacy de Almeida - Luciana Torpedo - Luis Grampeado.

M: Manoel Sovaco de Gambar - Manuelina Terebentina Capitulina de Jesus Amor Divino - Maria Cristina do Pinto Magro - Maria da Boa Morte - Maria da Segunda Distração - Maria do Seu Pereira - Maria do Sô Anternor - Maria Esposa de Jesus - Maria Panela - Maria Passa Cantando - Maria Tributina Prostituta Cataerva - Marília Bagdá Tostada - Marília dos Prazeres - Marimbondo da Trindade.

N: Naida Navinda Navolta Pereira - Napoleão Bonaparte Sem Medo e Sem Mácula - Necrotério Pereira da Silva.

P: Pália Pélia Pólia Púlia dos Guimarães Peixoto - Passos Dias Aguiar - Paulo Tapioca - Percilina Pretextata Predileta Protestante - Placenta Maricórnia da Letra Pi - Plácido e Seus Companheiros - Produto do Amor de Mariana e Maribel.

R: Remédio Amargo - Restos Mortais de Catarina - Rolando Caio da Rocha - Rolando Escada Abaixo - Renato Sé Bento.

S: Segundo Clenildo Rodrigues - Sete Rolos de Arame Farpado - Simplício Simplório da Simplicidade Simples.

T: Tertuliano Firgufino - Tigalphinezer Fernando Lima - Tom Mix Bala.

U: Última Delícia do Casal Carvalho - Um Dois Três de Oliveira Quatro.

V: Vicente Mais ou Menos de Sousa...

E o prêmio vai para... Última Delícia do Casal Carvalho...

Amigo é pra essas coisas...



Prezado amigo Ximenes.

Pensei muito antes de sentar-me aqui e escrever uma carta dirigida a você. Somos amigos de longa data e nossa amizade está alicerçada em bases seguras e fiéis.

Fomos jovens um dia e, juntos, cursamos a faculdade e sempre nos demos muito bem. Lembro quando você começou a namorar a Elizélia, aquela magrela, sem graça e com a qual você acabou se casando. Eu dei a maior força, porque sabia que era o que você queria. “Elizélia ou nada”, você dizia, brincando.

Depois, Ximenes, vieram os problemas com a firma e você começou a beber além do social, além do normal. Mas Elizélia, ao contrário, pés no chão, se cuidou, ficou mais robusta, mais bonita.

Por tudo isso, nossa amizade, fica tão difícil para eu traçar essas linhas, que sei, devem magoar você. Precisei reunir coragem para me sentar aqui e abrir meu coração, sabendo de antemão que você não me perdoará.

Sabe, amigo, naquelas noites em que você bebia de cair, era sempre eu quem o levava até sua casa. Lá, sempre éramos recebidos pela Elizélia, coitada, tirada da cama, com aquela roupa leve e transparente, belíssima, corpo sinuoso, cabelos desgrenhados, o que lhe dava um ar despojado e excitante, mas sempre com um sorriso luminoso nas faces róseas. Ah, Elizélia, eu saía de sua casa com os piores pensamentos possíveis.

Então, Ximenes, numa dessas noitadas irresponsáveis a que você se entrega, depois de jogá-lo na cama, fiquei na sala conversando com sua mulher e, infelizmente, não resisti e, curiosamente, ela também não. Chegamos às vias de fato e, Ximenes, vai me perdoar, mas sua mulher é um avião sem controlador de voo. Foi a primeira de muitas noites, porque você só vive bêbado e sempre precisa que alguém (eu), o leve em casa.

Como sou seu amigo, resolvi contar tudo a você e é o que faço agora, com muito pesar. A culpa é minha, eu sei, mas como resistir às coxas firmes e morenas da Elizélia, como resistir àquele olhar maroto, maldoso, insinuante? E como resistir àquelas roupinhas que ela insiste em usar e que me deixam louco? O simples ato de pensar nela me deixa enrubescido. Sinto o corpo tremer e o coração dispara.

Olha, Ximenes, gosto muito de você, mas não tem outro jeito: você vai continuar se embebedando e eu vou continuar a transar com aquela deusa que mora na sua casa. Sua mulher é tudo, Ximenes, tudo, e eu sou um fraco!

[Ruído de papel de carta sendo amassado...]

(Clarival Vilaça*, abril de 2007)

*Clarival Vilaça é um poeta e contista bissexto, foi militar, paraquedista do Exército. Possui vários textos no Facebook.


quinta-feira, 28 de junho de 2018

Poemas Marianos



Ave! Maria!

(Fagundes Varela)

A noite desce, lentas e tristes
Cobrem as sombras a serrania.
Calam-se as aves, choram os ventos,
Dizem os gênios: – Ave! Maria!

Na torre estreita do pobre templo
Ressoa o sino da freguesia,
Abrem-se as flores, Vésper desponta,
Cantam os anjos: – Ave! Maria!

No tosco albergue de seus maiores,
Onde só reinam paz e alegria,
Entre os filhinhos o bom colono
Repete as vozes: – Ave! Maria!

E longe, na velha estrada,
Para, e saudades à Pátria envia
Romeiro exausto que o céu contempla
E fala aos ermos: – Ave! Maria!

Incerto nauta por feios mares,
Onde se estende névoa sombria,
Se encosta ao mastro, descobre a fronte
Reza baixinho: – Ave! Maria!

Nas soledades, sem pão nem água,
Sem pouso e tenda, sem luz nem guia,
Triste mendigo, que nas praças busca,
Curva-se e clama: – Ave! Maria!

Só nas alcovas, nas salas dúbias,
Nas longas mesas de longa orgia
Não diz o ímpio, não diz o avaro,
Não diz o ingrato: – Ave! Maria!

Ave! Maria – No céu, na terra!
Luz da aliança! Doce harmonia!
Hora divina! Sublime estância!
Bendita sejas! Ave! Maria!

Ave-Maria

(Marly Guimarães Fróes)

Ave-Maria! Mãe piedosa e boa,
A cuja meiga sombra sacrossanta
Queremos repousar. Mãe! Abençoa
Todos os filhos teus e em coro canta,

Com todos os que sofrem, a prece santa
Que elevamos ao Pai. Prece que soa
Como eflúvio de amor e a alma levanta
Aos páramos divinos onde ecoa.

Ó doce Mãe do meigo Nazareno!
Consolação dos fracos! Luz radiosa
Que ao náufrago conduz em mar sereno!

Escuta compassiva a nossa voz,
Ó Máter pura e piedosa!
E estende a tua bênção sobre nós!

Ave-Maria

(Olavo Bilac)

Meu filho! termina o dia...
A primeira estrela brilha...
Procura a tua cartilha,
E reza a Ave-Maria!

O gado volta aos currais...
O sino canta na igreja...
Pede a Deus que te proteja
E que dê vida a teus pais!

Ave-Maria!... Ajoelhado,
Pede a Deus que generoso,
Te faça justo e bondoso,
Filho bom e homem honrado;

Que teus pais conserve aqui
Para que possas, um dia,
Pagar-lhes em alegria
O que sofreram por ti.

Reza, procura o teu leito,
Para adormecer contente;
Dormirás tranqüilamente,
Se disseres satisfeito:

“Hoje pratiquei o bem:
Não tive um dia vazio,
Trabalhei, não fui vadio,
E não fiz mal a ninguém.”

Ave-Maria

(Raimundo Corrêa)

Ave-Maria! Enquanto nas Campinas
As boas-noites abrem, misteriosas
Bocas exalam no ar frases divinas
Como suave emanação de rosas...

Ó noivas do infortúnio lacrimosas,
Crianças loiras, mórbidas meninas,
Órfãs de lar e beijos, que piedosas,
Erguei aos céus as magras mãos franzinas!

Quando rezais, às horas do sol posto,
A Ave-Maria, assim, no azul parece
Sorrir-se a Virgem-Mãe dos desvalidos;

Nossa Senhora inclina um pouco o rosto
Para escutar melhor tão meiga prece,
Hino tão doce e grato aos seus ouvidos.

Mater Admirabilis

(Djalma Andrade)

Quando eu entrei naquela igreja, estava
Nossa Senhora ao pé de Jesus Cristo;
Parecia que a santa me fitava
Como se nunca me tivesse visto.

– Não me conheces, Mãe? – É que eu pecava,
E vim te ver e te contristo:
O resto do teu filho o vício cava,
Mãe, minha Mãe, eis o que sou – sou isto!
Mas noto em teu olhar um certo brilho...
Deixe que eu beije a fímbria do teu manto,
Talvez tu reconheças o teu filho.

Talvez fosse ilusão tudo o que eu via:
Quando, de novo, olhei seu rosto santo,
Nossa Senhora para mim sorria...

Valha-me Nossa Senhora

(Folclore Cearense – Ariano Suassuna)

Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré!
A vaca mansa dá leite,
a braba dá quando quer.
A mansa dá sossegada,
a braba levanta o pé.

Já fui barco, fui navio,
mas hoje sou escaler.
Já fui menino, fui homem,
só me falta ser mulher.
Valha-me Nossa Senhora,
Mãe de Deus de Nazaré!

Catulo Tradicional Cearense

Eu vi minha mãe rezando
Aos pés da Virgem Maria:
Era uma santa escutando
O que outra santa dizia!

Maria

(Helder Duarte)

Se Maria, Mãe de Jesus,
Entre nós estivesse!
E falar, vos pudesse,
Oh gente sem luz,

Certamente vos diria:
O que vossa alma ouvir, não queria.
Eu não sou Deusa!
Adorai ao Deus do céu e da terra;

Ele é o Senhor;
Eu sou humana;
Ele é amor!

Só o Senhor é Deus!
D'ele tudo emana!
Adorai-o, oh santos seus!...
   



A Boca da Verdade

(La Bocca della Verità)


Esta curiosa escultura, supostamente uma tampa de esgoto da época de Nero, é uma das atrações turística da cidade de Roma.

Seu nome é devido à função de oráculo que lhe foi atribuída durante a Idade Média.

O oráculo assumia também a função de juiz popular nos casos de suspeita de infidelidade conjugal: o suspeito deveria meter a mão dentro da boca da figura e esta poderia decepá-la em caso de culpa.

Conta-se que um marido suspeitando, com razão, da fidelidade de sua mulher arrastou-a para o julgamento. Esta, porém, previamente havia combinado com o amante o seguinte plano: ele deveria aproximar-se dela fingindo-se de louco e abraçá-la na presença de todos. E assim foi feito.

Isto posto, a mulher meteu a mão na boca, jurando que nunca havia sido abraçada por outro homem senão seu marido e aquele sujeito louco.

E assim ela escapou da condenação, mas a boca a partir daquele momento ficou desacreditada, perdendo sua função de juiz.

A figura representada na escultura poderia ser uma divindade das águas, como o assim chamado “Marfório”, gigantesca estátua colocada num dos pátios do Museu dos Conservadores, no Capitólio.

Situada no pórtico da Igreja de Santa Maria in Cosmedin, a Bocca della Verità é um dos símbolos mais conhecidos de Roma.

Curiosamente, segundo estudos, pode haver sido uma calha de esgoto, talvez do século IV antes de Cristo, mas certamente não foi este passado sombrio que trouxe a fama da Bocca della Verità: a lenda que tornou esta escultura um ícone data da Idade Média.

Consta que a população local acreditava que a boca se fecharia destruindo a mão de quem declarasse uma mentira. Artifício útil para checar a fidelidade do cônjuge.

Muita gente continua testando a paciência da Bocca della Verità, até os dias de hoje. Digamos que não é um dos monumentos mais bonitos da cidade, mas vale pela curiosidade.

Os turistas fazem fila para proceder ao famoso teste. Até o fechamento deste texto não havia notícias de membros mutilados pela Bocca.

A mordida da Bocca della Verità

Talvez o mundo possa adotar a antiga e interessante “Bocca della Verità”.

Esculpida em pedra, nos tempos medievais, a “Bocca della Verità” ou boca da verdade, fica em Santa Maria in Cosmedim, na Itália. É famosa e sua figura exibe uma boca aberta.

Diz a lenda que o mentiroso que colocar a mão na abertura levará uma mordida.

Você colocaria a sua mão na “Bocca della Verità”?...

Ou a “Bocca della Verità” morderia a própria língua, por séculos e séculos a fio?

Bem, de qualquer maneira, acontece hoje um fenômeno interessante, que deixaria os nossos pensadores dos velhos tempos das mentiras, no mínimo confusos. Trata-se da supremacia dos antigos companheiros da mentira, que antes eram coadjuvantes e agora, nos novos tempos, tornam-se as estrelas, ofuscando a dita cuja.

Atualize-se:




Antes era: creme rinse
Agora é: condicionador
Antes era: obrigado
Agora é: valeu
Antes era: é complicado
Agora é: é foda
Antes era: collant
Agora é: body
Antes era: rouge
Agora é: blush
Antes era: velho e coroa
Agora é: Véi
Antes era: bailinho e discoteca
Agora é: balada
Antes era: japona
Agora é: jaqueta
Antes era: nos bastidores
Agora é: making off
Antes era: cafona
Agora é: brega
Antes era: programa de entrevistas
Agora é: talk-show
Antes era: reclame
Agora é: propaganda
Antes era: calça cocota
Agora é: calça cintura baixa
Antes era: flertar, paquerar
Agora é: dar mole
Antes era: oi, olá, como vai?
Agora é: e aê?
Antes era: cópia, imitação
Agora é: genérico
Antes era: curtir, zoar
Agora é: causar
Antes era: mamãe posso ir?
Agora é: véiaaaa, fui!
Antes era: legal, bacana
Agora é: manero, irado
Antes era: mulher de vida fácil
Agora é: garota de programa
Antes era: legal o negócio
Agora é: chapado o baguio
Antes era: pasta de dente
Agora é: creme dental
Antes era: cansaço
Agora é: estresse
Antes era: desculpe
Agora é: foi mal
Antes era: oi, tudo bem?
Agora é: e aê, belê?
Antes era: ficou chateada
Agora é: ficou bolada
Antes era: médico de senhoras
Agora é: gineco
Antes era: superlegal
Agora é: irado
Antes era: primário e ginásio
Agora é: ensino fundamental
Antes era: preste atenção
Agora é: se liga na bagaça
Antes era: por favor
Agora é: quebra essa
Antes era: recreio
Agora é: intervalo
Antes era: radinho de pilhas
Agora é: ipod
Antes era: manequim
Agora é: modelo e atriz
Antes era: retrato
Agora é: foto, self
Antes era: jardineira
Agora é: macacão
Antes era: mentira
Agora é: kaô
Antes era: saquei
Agora é: tô ligado
Antes era: entendeu?
Agora é: copiou?
Antes era: gafe
Agora é: mico
Antes era: fofoca
Agora é: babado
Antes era: há! há! há!
Agora é: rssssss
Antes era: impossível de cumprir
Agora é: nem fodendo!
Antes era: estragada
Agora é; bugado
Antes era: mocinha
Agora é: novinha
Antes era: gostar
Agora: shippar
Antes era: zoar
Agora é: zoas
Antes era: notícias falsas
Agora é. fake news

Antes era: fotocópia
Agora é: xérox
Antes era: brilho labial
Agora é: gloss
Antes era: bola ao cesto
Agora é: basquete
Antes era: folhinha
Agora é: calendário
Antes era: empregada doméstica
Agora é: secretária do lar
Antes era: faxineira
Agora é: diarista
Antes era: vou verificar
Agora é: vou estar verificando
Antes era: madureza
Agora é: supletivo
Antes era: vidro fumê
Agora é: insulfilm
Antes era: posso te ligar?
Agora é: posso te add?
Antes era: tingir uma roupa
Agora é: customizar
Antes era: dar no pé
Agora é: vazar
Antes era: embrulho
Agora é: pacote
Antes era: lycra
Agora é: stretch
Antes era: tristeza
Agora é: deprê
Antes era: beque
Agora é: zagueiro
Antes era: rádio patrulha
Agora é: viatura
Antes era: atlético
Agora é: sarado
Antes era: peituda
Agora é: siliconada
Antes era: professor de ginástica
Agora é: personal trainning
Antes era: quadro-negro
Agora é: lousa
Antes era: babosa
Agora é: aloe vera
Antes era: lepra
Agora é: hanseníase
Antes era: Ave Maria!
Agora é: Afffffe!
Antes era: Caramba!
Agora é: Caraca!
Antes era: namoro
Agora é: pegação
Antes era: laquê
Agora é: spray
Antes era: de montão
Agora é: pracarai!
Antes: derrame
Agora é: AVC
Antes era: chapa dos pulmões
Agora é: raio-x de tórax
Antes era: sua bênção, papai
Agora é: “qualé” coroa?
Antes era: você tem certeza?
Agora é: fala sério aê!
Antes era: banha
Agora é: gordura localizada
Antes era: casa de fundos
Agora é: edícula
Antes era: bar no fim do dia
Agora é: happy hour
Antes era: costureira
Agora é: estilista
Antes era: negro
Agora é: afro-descendente
Antes era: professora
Agora é: tia, profi
Antes era: aquele senhor
Agora é: aquele tiozinho
Antes era: bela bunda!
Agora é: que popozão!
Antes era: olha o barulho!
Agora é: ó o auê aí ô!
Antes era: amorrrrrrr!
Agora é: benhhêêêêê!
Antes era: rapaz
Agora é: boy
Antes era: legal
Agora é: mitou
Antes era: amigo
Agora é: parça
Antes era: estressado
Agora é: tiltatado
Antes era: arrasei
Agora: tombei
Antes era: risquei teu nome
Agora é: te deletei





O livro do destino

Malba Tahan


Certa vez - há muitos anos - quando de volta de Bagdá, aonde fora vender uma grande partida de peles e tapetes, encontrei num caravançará, perto de Damasco, velho árabe de Hedjaz que me chamou de certo modo a atenção. Falava agitado com os mercadores e peregrinos, gesticulando e praguejando sem cessar; fumava constantemente uma mistura forte de fumo e haxixe e quando ouvia de um dos companheiros uma censura qualquer, exclamava, apertando entre as mãos, o turbante esfarrapado:

- Mac Allah! Ó muçulmanos! Eu já fui poderoso! Eu já tive o Destino nesta mão!

- É um pobre diabo - diziam. - Não regula bem do miolo! Alá que o proteja!

Eu, porém - confesso - sentia irresistível atração pelo desconhecido do turbante esfarrapado. Procurei aproximar-me dele discretamente, falei-lhe várias vezes com brandura e ao fim de algumas horas já lhe havia captado inteiramente a confiança.

- Os homens da caravana me tomam por doido - ele me disse uma noite quando cavaqueamos a sós. - Não querem acreditar que já tive nas mãos o destino da humanidade inteira. Sim, senhor: o destino do gênero humano!

Esbugalhei os olhos assombrado. Aquela afirmação insistente de que havia sido senhor do Destino era característica do seu pobre estado de demência.

O desconhecido, porém, que parecia não perceber os meus sustos e desconfianças, continuou:

- Segundo ensina o Alcorão - o livro de Alá - a vida de todos nós está escrita - maktub! no grande “Livro do Destino”. Cada homem tem lá a sua página com tudo o que de bom ou de mau lhe vai acontecer. Todos os fatos que ocorrem na terra, desde o cair de uma folha seca, até à morte de um califa, estão escritos - estão fatalmente escritos - no Livro do Destino!

E sem esperar que eu o interrogasse narrou-me o seguinte:

- Em viagem pelo deserto sonhei, certa vez, com um velho feiticeiro que ia ser enforcado. Esse feiticeiro, em sinal de gratidão, deu-me um talismã raríssimo que possuía. E essa pedra maravilhosa permitia a entrada livre na famosa Gruta da Fatalidade, onde se acha - pela vontade de Alá - o Livro do Destino. Viajei dois anos a fim de chegar à gruta encantada. Um djinn − gênio bondoso que estava de sentinela à porta − deixou-me entrar, avisando-me, porém, de que só poderia permanecer na gruta por espaço de poucos minutos. Era minha intenção alterar o que estava escrito na página da minha vida e fazer de mim um homem rico e feliz. Bastava acrescentar com a pena que eu já levava. - “Terá muito dinheiro!” Lembrei-me, porém, dos meus inimigos. Poderia, naquele momento, fazer grande mal a todos eles. Movido pela ideia única do ódio e da vingança, abri a página de Ali Ben-Homed, o mercador. Li o que ia acontecer a esse meu rival! e acrescentei em baixo, sem hesitar, cheio de rancor: “Morrerá pobre, sofrendo os maiores tormentos!” Na página de Zalfah-el-Abarj escrevi, impiedoso, alterando-lhe a vida inteira: “Perderá todos os haveres; ficará cego e morrerá de fome e sede no deserto!”

- E, assim, sem piedade, arrasei, feri, retalhei a todos os meus desafetos!

- E na tua vida? - indaguei, curioso. - Que fizeste, ó muçulmano, na página em que estava escrita a tua própria existência?

- Ah! meu amigo! − prosseguiu o desconhecido, cheio de mágoa. − Nada fiz em meu favor. Preocupado em lazer o mal aos outros, esqueci-me de fazer o bem a mim mesmo. Agi como um miserável. Semeei largamente o infortúnio e a dor, e não colhi a menor parcela de felicidade. Quando me lembrei de mim, quando pensei em tornar feliz a minha vida, estava terminado o meu tempo. Sem que eu esperasse, surgiu-me pela frente um efrite - gênio feroz - que me agarrou fortemente e, depois de arrancar-me das mãos o talismã, me atirou fora da gruta. Caí entre as pedras e com a violência do choque perdi os sentidos. Quando recuperei a razão, achei-me ferido e faminto, muito longe da gruta, junto a pequeno oásis do deserto de Omã. Sem o talismã precioso, nunca mais pude descobrir o tortuoso caminho da Gruta do Destino. E concluiu, entre suspiros. numa atitude de profundo e irremediável desalento:

- Perdi a única oportunidade que tive de ser rico e feliz!

Seria verdadeira essa estranha aventura?

Até hoje ignoro. O certo é que o triste caso do velho árabe de Hedjaz encerrava grande e precioso ensinamento. Quantos homens há, no mundo, que preocupados em levar o mal a seus semelhantes, se esquecem do bem que poderiam fazer a si próprios... 

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Sensibilidade...



Phillippe de Rothschild

Consta que, certa noite, muitos anos atrás, um homem entrou com a namorada no restaurante Lucas Carton, em Paris e pediu uma garrafa de Mouton Rothschild, safra de 1928. O sommelier, em vez de trazer a garrafa para mostrar ao cliente, traz o decanter de cristal cheio de vinho e, depois de uma mesura, serve um pouco no cálice para o cliente provar.

O cliente, lentamente, leva o cálice ao nariz para sentir os aromas, fecha os olhos e cheira o vinho. Inesperadamente, franze a testa e, com expressão muito irritada, pousa o copo na mesa, comentando rispidamente:

- Isso aqui não é um Mouton de 1928!

O sommelier assegura-lhe que é. O cliente insiste que não é. Estabelece-se uma discussão e, rapidamente, cerca de 20 pessoas rodeiam a mesa, incluindo o chef de cuisine e o gerente do hotel que tentam convencer o intransigente consumidor de que o vinho é mesmo um Mouton de 1928.

De repente, alguém resolve perguntar-lhe como sabe, com tanta certeza, que aquele vinho não é um Mouton de 1928.

- O meu nome é Phillippe de Rothschild, diz o cliente modestamente, e fui eu que fiz esse vinho.

Consternação geral. O sommelier, então de cabeça baixa, dá um passo à frente, tosse, pigarreia, bagas de suor escorrem da testa e, por fim, admite que serviu na garrafa de decantação um Clerc Milon de 1928, mas explica seus motivos:

- Desculpe, mas não consegui suportar a ideia de servir a nossa última garrafa de Mouton 1928. De qualquer forma, a diferença é irrelevante. Afinal, o senhor também é proprietário dos vinhedos de Clerc Milon, que ficam na mesma aldeia do Mouton. O solo é o mesmo, a vindima é feita na mesma época, a poda é a mesma, e o esmagamento das uvas se faz na mesma ocasião, o mosto resultante vai para barris absolutamente idênticos. Ambos os vinhos são engarrafados ao mesmo tempo. Pode-se afirmar que os vinhos são iguais, apenas com uma pequeníssima diferença geográfica.

Rothschild, então, com a discrição que sempre foi a sua marca, puxa o sommelier pelo braço e murmura-lhe ao ouvido:

- Quando voltar para casa esta noite, peça à sua namorada para se despir completamente. Escolha duas regiões muito próximas do corpo dela e faça um teste de olfato. Você perceberá a diferença que pode haver numa pequeníssima diferença geográfica!

* * * * * * *

Mouton Rothschild. Essas duas palavras dispensam apresentações a qualquer amante do vinho. Com mais de 150 anos de história, a Mouton é um dos ícones do Velho Mundo. Uma das melhores produtoras de Bordeaux, a vinícola tem uma peculiaridade: cada safra tem seu rótulo desenhado por um artista. “Todo ano produzimos um vinho único, a baronesa Phillippine de Rothschild faz questão de escolhê-los pessoalmente”, diz o enólogo Phillip Dhalluin.

Em 1922, o Barão Phillippe de Rothschild fez história ao resolver engarrafar a bebida em sua propriedade mesmo, algo até então inédito na região de Medoc. “Para mim foi um orgulho sem tamanho quando comecei a trabalhar na vinícola”, afirma Dhalluin. “Nossos vinhos são poderosos, austeros, muitíssimo bem estruturados, dificilmente se encontrará algum outro com nossa qualidade”, diz Dhalluin, que trabalha na Mouton desde 2003. Todos os vinhos são um misto de Cabernet Sauvignon, Cabernet Franc e Merlot.

Músicas em que Roberto Carlos

 fala de seu acidente e de seus traumas infantis...


Roberto Carlos por Fraga

O Divã

Composição: Roberto Carlos - Erasmo Carlos

Relembro a casa com varanda,
Muitas flores na janela.
Minha mãe lá dentro dela
Me dizia num sorriso.
Mas na lágrima um aviso
Pra que eu tivesse cuidado
Na partida pro futuro.
Eu ainda era puro,
Mas num beijo disse adeus.

Minha casa era modesta,
Mas eu estava seguro,
Não tinha medo de nada,
Não tinha medo de escuro,
Não temia trovoada.
Meus irmãos à minha volta,
E meu pai sempre de volta
Trazia o suor no rosto.
Nenhum dinheiro no bolso,
Mas trazia esperança.
Essas recordações me matam,
Essas recordações me matam,
Essas recordações me matam,
Por isso eu venho aqui.

Relembro bem a festa, o apito,
E, na multidão, um grito.
O sangue no linho branco,
A paz de quem carregava
Em seus braços quem chorava.
E no céu ainda olhava,
E encontrava esperança
De um dia tão distante
Pelo menos por instantes
encontrar a paz sonhada.
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Por isso eu venho aqui.

Eu venho aqui me deito e falo
Pra você que só escuta
Não entende a minha luta
Afinal, de que me queixo
São problemas superados
Mas o meu passado vive
Em tudo que eu faço agora
Ele está no meu presente
Mas eu apenas desabafo
Confusões da minha mente.

Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam
Essas recordações me matam.

Traumas

Composição: Roberto Carlos/Erasmo Carlos

Meu pai um dia me falou
Pra que eu nunca mentisse,
Mas ele também se esqueceu
De me dizer a verdade,
Da realidade do mundo,
Que eu ia saber,
Dos traumas que a gente só sente
Depois de crescer.

Falou dos anjos que eu conheci
No delírio da febre que ardia
Do meu pequeno corpo que sofria
Sem nada entender
Minha mulher em certa noite
Ao ver meu sono estremecido
Falou que os pesadelos são
Algum problema adormecido
Durante o dia a gente tenta
Com sorrisos disfarçar
Alguma coisa que na alma
Conseguimos sufocar

Meu pai tentou encher de fantasia
E enfeitar as coisas que eu via
Mas aqueles anjos agora já se foram
Depois que eu cresci
Da minha infância agora tão distante
Aqueles anjos no tempo eu perdi
Meu pai sentia o que eu sinto agora
Depois que cresci
Agora eu sei o que meu pai
Queria me esconder
Às vezes as mentiras
Também ajudam a viver
Talvez um dia pro meu filho
Eu também tenha que mentir

Pra enfeitar os caminhos
Que ele um dia vai seguir
Meu pai tentou encher de fantasia
E enfeitar as coisas que eu via
Mas aqueles anjos agora já se foram
Depois que eu cresci
Da minha infância agora tão distante
Aqueles anjos no tempo eu perdi

Meu pai sentia,
Sentia o que eu sinto agora
Depois que cresci
Meu pai tentou
Tentou encher de fantasia... 

A história do lápis



O menino olhava a avó escrevendo uma carta. A certa altura, perguntou:

- Vovó, você está escrevendo uma história que aconteceu conosco? E por acaso, é uma história sobre mim?

A avó parou a carta, sorriu e comentou com o neto:

- Estou escrevendo sobre você, é verdade. Entretanto, mais importante do que as palavras, é o lápis que estou usando. Gostaria que você fosse como ele quando crescesse.

O menino olhou para o lápis, intrigado, e não viu nada de especial.

- Mas ele é igual a todos os lápis que vi em minha vida!

- Tudo depende do modo como você olha as coisas. Há cinco qualidades nele que, se você conseguir mantê-las, será sempre uma pessoa em paz com o mundo:

Primeira qualidade: você pode fazer grandes coisas, mas não deve esquecer nunca que existe uma Mão que guia seus passos. Esta mão nós chamamos de Deus, e Ele deve sempre conduzi-lo em direção à Sua vontade.

Segunda qualidade: de vez em quando eu preciso parar o que estou escrevendo, e usar o apontador. Isso faz com que o lápis sofra um pouco, mas no final, ele está mais afiado. Portanto, saiba suportar algumas dores, porque elas o farão ser uma pessoa melhor.

Terceira qualidade: o lápis sempre permite que usemos uma borracha para apagar aquilo que estava errado. Entenda que corrigir uma coisa que fizemos não é necessariamente algo mau, mas algo importante para nos manter no caminho da justiça.

Quarta qualidade: o que realmente importa no lápis não é a madeira ou sua forma exterior, mas o grafite que está dentro. Portanto, sempre cuide daquilo que acontece dentro de você.

Finalmente, a quinta qualidade do lápis: ele sempre deixa uma marca. Da mesma maneira, saiba que tudo que você fizer na vida irá deixar traços, e procure ser consciente de cada ação.


Autor desconhecido



Os camelos



Uma mãe e um bebê camelo estavam por ali, à toa, quando, de repente, o bebê camelo perguntou:

- Por que os camelos têm corcovas, mamãe?

- Bem, meu filhinho, nós somos animais do deserto, precisamos das corcovas para reservar água e por isso mesmo somos conhecidos por sobreviver sem água.

- Certo, e por que nossas pernas são longas e nossas patas arredondadas?

- Filho, certamente elas são assim para permitir caminhar no deserto. Sabe, com essas pernas longas, eu mantenho meu corpo mais longe do chão do deserto que é mais quente que a temperatura do ar e assim fico mais longe do calor. Quanto às patas arredondadas eu posso me movimentar melhor devido à consistência da areia! - disse a mãe.

- Certo! Então, por que nossos cílios são tão longos? De vez em quando eles atrapalham minha visão.

- Meu filho! Esses cílios longos e grossos são como uma capa protetora para os olhos. Eles ajudam na proteção dos seus olhos quando atingidos pela areia e pelo vento do deserto! - respondeu a mãe com orgulho.

- Tá. Então a corcova é para armazenar água enquanto cruzamos o deserto, as pernas para caminhar através do deserto e os cílios são para proteger meus olhos da areia do deserto. Então o que é que estamos fazendo aqui no Zoológico?

Moral da história:

“Habilidade, conhecimento, capacidade e experiências,
só são úteis se você estiver no lugar certo!”

Você está no lugar certo?

Mendigos

Nestor de Holanda


O mais honesto pedinte que encontrei estava, uma noite, na Cinelândia. Ele se aproximou cambaleante de nosso grupo – eu, Jaime Costa, Frazão, Delorges Caminha, Silva Filho, André Villon, Fernando Costa, Armando Rosas, Arlindo Costa, Santos Garcia e outros – e pediu:

− Dai uma esmola a um pobre bêbedo, pelo amor de Deus!... Outro, igualmente sincero, foi visto pelo Governador Eraldo Gueiros, recentemente, no interior de Pernambuco. Havia muitos anos que o mendigo posava de cego, nas feiras. Um dia, surgiu de aleijado. Perguntaram-lhe:

− Desistiu de ser cego, Zé?

− Desisti.

− Por quê?

− Porque me passavam muito dinheiro falso...

O comum dos que pedem na via pública, porém, é a insinceridade. Quando Joraci Camargo escreveu Deus lhe Pague, com o falso mendigo, filósofo e milionário, discutiram a realidade do tema. Entretanto, nada mais verossímil. Hoje, no Rio de Janeiro, a mendicância é comércio dos mais rendosos...

Ainda há dias, um motorista de praça me contou a história de uma dona que, todas as manhãs, vem pra cidade de táxi. Num quarto que alugou, veste o “uniforme de trabalho”. Pede esmola até a noite, e, depois, de tornar a meter o paisano, toma outro táxi, para regressar a casa. Ganha, em média, 100 cruzeiros por dia. Trabalhando cinco dias por semana (Porque ela faz “semana inglesa”...), fatura cerca de 2 mil cruzeiros por mês. Quase 12 salários mínimos...

Muitas alugam crianças e surgem, ante a caridade pública, caracterizadas de mãe infeliz. Há um mendigo na cidade, segundo me informaram, que mantém amante de luxo, em apartamento da Zona Sul, tal qual o personagem que Procópio criou, na famosa comédia de Joraci Camargo. E é fato corriqueiro a polícia descobrir que muitos têm conta no banco e são até proprietários de imóveis...

Por essas e outras, vi (e contei aqui) quando um pedinte, logo cedo, estendia o jornal velho num canto de calçada, perto do edifício do Ministério da Fazenda, para instalar-se. E um popular que passava:

− Está abrindo seu banquinho, hein?!...

Enfim, os fatos mostram que a situação está de tal maneira que não se pode confiar nos mendigos, porque, como o uísque, nunca se sabe quando são legítimos ou falsificados...

x.x.x.


Nestor de Holanda (Nestor de Hollanda Cavalcanti Neto) nasceu a 1º de dezembro de 1921, em Vitória de Santo Antão, Pernambuco e faleceu em 14 de novembro de 1970, no Rio de Janeiro.

Jornalista e escritor, tendo trabalhado em diversos jornais, rádios e televisões brasileiras. Pernambuco: tendo trabalhado na Gazeta do Recife, Jornal Pequeno, Jornal do Comércio e Diário da Manhã. É dessa época, a comédia-histórica Nassau, transmitida pela Rádio Clube de Pernambuco.

Trabalhou também como compositor de música popular, em parceria com Levino Ferreira, Ernani Reis, Nelson Ferreira e João Valença.

No Rio de Janeiro foi redator de A Cena Muda, Revista da Semana, Brasilidade, Vida, Deca, e das rádios Vera Cruz, Transmissora e Educadora.

Após a Guerra, trabalhou nos jornais: Folha Carioca, Democracia, O Imparcial, A Noite, Folha do Rio, Shopping News, Diário Carioca, Última Hora e Diário de Notícias; nas revistas: Manchete, A Noite Ilustrada, Carioca. nas estações de Rádio: Clube Fluminense, Cruzeiro do Sul, Clube do Brasil, Globo, Nacional e Ministério da Educação e Cultura. Nas emissoras de televisão: Continental, Excelsior, Rio.