quinta-feira, 30 de novembro de 2017

O homem e a montanha

(Fábulas e Lendas Japonesas)


Certo dia, ao anoitecer, voltava para casa um montanhês que vivia de quebrar pedras. Sentia-se todo dolorido pelo dia exaustivo de trabalho. Passando diante de uma venda, viu atrás do balcão um homem gordo, de pele lisa e brilhante. Pensou:

 “Bom mesmo é ser comerciante.”

Nesse momento, ouviu uma voz que lhe disse:

- Então você será comerciante.

Em pouco tempo, ele também engordou atrás do balcão de uma venda. Seus negócios iam muito bem e tinha até tempo de ficar na porta da venda observando as pessoas que passavam. Um dia viu passar um mandarim em sua liteira:

“Bom mesmo é ser mandarim”, pensou.

E a mesma voz se fez ouvir, persuasiva:

- Então você será um mandarim.

Envolto em vestes de seda, sua vida passou a ser movimentada, ele corria para todos os lados seguindo as ordens do Filho do Sol, o imperador. Apesar de satisfeito com a nova vida, pensou:

“Bom mesmo é ser Filho do Sol.”

E no ar, a mesma voz de sempre:

- Então você vai ser Filho do Sol.

Sempre que saía de seu reino, o novo imperador se sentia castigado pelos raios ardentes do sol.

“O Pai é mais poderoso que o Filho. Bom mesmo é ser o Sol.”

E de novo aquela voz poderosa:

- Então você será o Sol.

Esplêndido, todo dourado, aureolado de raios resplendentes, eis o Sol no meio do céu. Mas passa uma nuvem que o esconde.

“A nuvem é mais poderosa que o Sol. Bom mesmo é ser nuvem.”

E a mesma voz sussurrou:

- Então você vai ser uma nuvem.

Transformado em nuvem, navegava tranqüilamente pelo céu quando um vento forte o empurrou, dissipando-o.

“O vento é mais forte que a nuvem. Bom mesmo é ser vento.”

E de novo a voz sibilante:

- Então você será vento.

Correu como louco, dissipando nuvens, perturbando mares, arrastando árvores, destelhando casas. Mas, ao atingir a montanha, percebeu que nada a transtornava, ela continuava firme e impassível. Claro que a montanha era mais forte que o vento.

“Bom mesmo é ser montanha.”

E a mesma voz lhe disse:

- Então você será uma montanha.

Firme e inabalável, ali estava a montanha.

Mas, certo dia, ouviu um martelar que parecia vir de suas encostas.

A montanha parou para escutar aquele som insistente. Os golpes continuavam, regulares. A pedra se fendia e as rochas pareciam despregar das encostas.

“Será que existe alguém mais forte que a pedra?”, pensou a montanha. “Quem será?”

Olhou, olhou bem e viu... Viu um homem que martelava, martelava. Então se lembrou de que ele também quebrava pedras e pensou:

“Eu era o mais forte e não o sabia.”

Desta vez a voz não apareceu. O homem voltou a ser o que era e passou a martelar a pedra da montanha com sua velha picareta.

Vanguardeiros

A arte dos anos 90... 2000... 2010.. 2017...


Liane Blaun → Irrequieta coreógrafa. Há anos desenvolve, com seu grupo de dança, um trabalho que extrai movimentos do estático. Em seus espetáculos os bailarinos ficam horas parados na mesma posição, apesar dos ovos vindos da plateia.


Teixeira Eiras → Cineasta de vanguarda. Já realizou três longas metragens que para serem entendidos têm que projetá-los de trás para frente, um em seguida do outro. Autor também de vários curtas, uns com trinta centímetros, outros com quinze, dez... e por aí em diante.


Holly Vett → Escritor de ficção. Descobriu a maneira de só escrever best sellers, dando títulos como: “Best Sellers Texas”, “Best Sellers Now” e, finalmente o mais moderno, “Best Sellers Sky”. Mesmo assim é fracasso em vendagem. Não paga nem o aluguel.


Seik Spir → Diretor e ator de teatro dos mais modernos. Não deixa espaço para o tradicionalismo nas peças que dirige, dispensando a utilização do palco, da iluminação, dos atores, do script e inclusive do público. Aliás, ele nem sai de casa. Fica lá tomando umas bramas, coçando o saco... e o teatro que se foda.


Tell Tilt → Artista ultracontemporâneo. Utiliza em suas performances cinco terminais de computador ligados a dois sintetizadores, acoplados a sete monitores de TV, nove liquidificadores, duas britadeiras que desembocam num big dum autorama de oito pistas. Apesar desse arsenal, seu trabalho continua inédito porque quando liga isso tudo na tomada, sai de lado que sempre explode.


Jan Lip Hardy → Músico que mistura Stock Hausen com Steinheger, Frank Zappa com Jararaca e Ratinho, Steve Reich com Willian Reich, Chiclete com Banana, alhos com bugalhos... e outras misturas não muito agradáveis de falarmos aqui.


Mag Magal → Poetisa pós-modernérima. Descobriu a fórmula de fazer poesia sem o uso das palavras Nem uminha. Seus livros “Nada de Nada” e “Oco”, têm grande penetração entre a modernidade paulistana. A crítica a acusa de inconsistente, e outros afirmam que está com tudo.


Gil Paleta → Pintor transvanguardérrimo. Interessou-se pelas artes plásticas quando uma tia, cansada de ver o sobrinho bundando o tempo todo, vivendo da mesada da família, deu-lhe tintas, pincéis e disse: “Vê se faz alguma merda na vida”. Gil, obediente, pegou o pincel e pintou uma merda qualquer. Daí tudo mudou. Hoje é cotadíssimo no mercado de arte, pintando as mesmas merdas de sempre.


Leon Néon → Escultor. Ficou impossibilitado de trabalhar há alguns anos quando, ao tentar fazer sua primeira escultura em néon, deu muita asa à sua imaginação e acabou preso em sua própria arte. Hoje perambula por aí acendendo e apagando pelos bares. É conhecido como artista de uma obra só.

(Texto do “Chiclete com Banana”, do Angeli, dezembro de 1986)


quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Maria Chorona

Uma personagem da Porto Alegre antiga...


Maria Chorona

Pergunto a você: a voz de Maria Chorona, que impressão lhe dava?

Lembro bem o pregão que ela soltava lá na esquina da Ladeira. A voz lamentosa, não sei por quê, trazia-me à lembrança noites de inverno já sumidas, quando o vento espichava longos gemidos nos lampiões a gás. E compunha o mais tristonho dueto que já ouvi, com os vendedores noturnos – “Pinhão quente!... Tá quentinho o pinhão!” No sótão da velha casa da Rua da Igreja a gente se encolhia entre as cobertas. O minuano galopava solto pelas ruas.

A voz de Maria Chorona me parecia assim, gemido de lampião, pinhão quente gritando no frio.

Dona do lugar, ela enxotava os pequenos vendedores de jornais que lhe faziam concorrência. O pregão era desolado e sóbrio: “Correio... Diá...” mal a rua amanhecia. Os outros, mais ágeis e imaginosos, infiltravam-se pelos grupos, gritando manchetes que pareciam pingar sangue: “A Fôia!... o retrato da vítima!”. Mesmo assim a Maria tinha clientela particular, que caminhava mais um pouco para buscar na pilha dela o seu jornal. Enrolada em panos, enfrentava o cruzamento frio da esquina, misturando lamentos ao tinir das campainhas lotéricas, ao rumor do povo, ao apito do guarda.

Passa mais uma lufada e também ela é carregada pelo vento.

(Do livro “Rua da Praia, de Nilo Ruschel)


Rua da Praia, Largo dos Medeiros e Rua da Ladeira,
local onde Maria Chorona vendia seus jornais.


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Os Skrotinhos



O que você faria se, de repente, numa festa, dois sujeitinhos estranhos se postassem ao seu lado e o descascasse como uma banana ali mesmo, em público? O que você diria se dois baixinhos estranhos, em apenas 15 minutos de conversa, conseguissem arrancar lá do fundo do seu ser tudo aquilo que você, a duras penas, tenta esconder? Essa gosma nojenta composta de distorções de personalidade, pequenas vergonhas, defeitos irremediáveis, travas, taras, invejas e um monte de histeria típicas de nós humanos. Na certa, você ficaria um tanto incomodado. Falando português claro, se sentiria mal pra cacete. Acharia aqueles dois baixinhos estranhos uns tremendos escrotos. Pois é isso mesmo. Acertou em cheio.

Os Skrotinhos não são mau caráter, muito menos bons. Eles simplesmente não têm caráter algum. Nem um pingo sequer. Talvez por isso transitem livremente tanto pela esquerda, quanto pela direita e caminham com incrível desenvoltura por cima do muro. Afinal, eles têm lama para todo mundo. Homem, mulher, artista, criancinha, banqueiro, cachorrinho, yuppiezinho... qualquer um pode ser a próxima vitima.

Idades indefinidas, filiação desconhecida. Não se sabe se são irmãos gêmeos, primos em 1º grau ou apenas bons amigos. São o resultado de alguma experiência genética mal sucedida ou frutos rebeldes do excesso de seriedade que a humanidade atravessa? O mais certo é afirmar que são dois pequenos, como Átila, o bárbaro, por onde passam, não nasce grama.

(Texto de Angeli para o “Chiclete com Banana”, junho de 1991)












segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Viva a criançada brasileira!


Poemas de Cecília Alves Pinto, a Ciça.


Confusão

Um gato mia, um pinto pia.
O tigre ruge, a vaca muge.
O burro zurra, a onça esturra.
Um macaquinho guincha,
e o cavalo relincha.
Mas, se fosse o contrário?
E se trina um dromedário?
E se um camundongo urra?
Já pensou se o burro esturra?
 E depois, se o tigre muge?
Se o macaquinho relincha,
enquanto o cavalo guincha,
o gato pia e pinto mia?
Não ia ter nenhum sentido
– seria mesmo maluco
 – se um elefante avoado,
Em vez de dar seu barrido,
piasse feito um macuco!                                         

Falange, Falanginha, Falangeta

− A gente tem duas mãozinhas.
E nas duas, dez dedinhos.
Em cada dedo, uns ossinhos.
E cada ossinho, um nominho:
é falange, e falanginha,
e tem também falangeta.
Então, pergunta a Marieta,
curiosa e bem xereta:
− Se falanges tenho dez
e também de falanginhas
(quer saber a Marieta),
por que, então, minhas mãozinhas
só têm oito falangetas?

Deprê

A Cris está numa crise.
O Luiz, muito infeliz.
O Dado, desconsolado.
A Jandira só suspira.
A Dora agora só chora.
A Helena me dá pena.
O Fausto se sente exausto.
A Rosa está pesarosa.
O Heitor, de mau humor.
O João, na frustração.
A Rita só vive aflita.
A Mônica, catatônica.
A Vivi teve um piti.
O Fernando anda penando.
A Fátima está uma lástima.
E o Raimundo, furibundo.
Imagine, seu Romeu:
O pior aconteceu...
Nosso time foi pro fundo.
O nosso time perdeu!

(Do “O Livro Nó na Língua” – no “Na Poltrona”, 
Revista do Grupo Itapemirim, outubro de 2004)


O mais terrível



O mais terrível não era a menina me chamando de “tio” e pedindo um trocado, ela de pé no chão, no asfalto, e eu no meu carro de bacana. O mais terrível não era eu escolhendo a cara e a voz para dizer que não tinha trocado, desculpe, como se a vergonha tivesse um protocolo que a absolvesse. O mais terrível não foi nem a naturalidade com que ela cuspiu na minha cara. O mais terrível foi que ela era tão pequena que a cusparada não me atingiu.

Somos boas pessoas, bons cidadãos e bons pais, mas somos tios relapsos. Nossas sobrinhas e nossos sobrinhos enchem as ruas das nossas cidades, cercam nossos carros, invadem nossas vidas e insistem que são da nossa família, e não temos nada para lhes dar ou dizer, além de esmola ou “desculpe”. Na família brasileira “tios” e sobrinhos têm um diálogo de ameaça e medo, revolta e remorso, e poucas palavras. Nenhum consolo possível, nenhuma esperança, nenhuma explicação. O que dizer a uma sobrinha cuja cabeça mal chega à janela do carro e tenta cuspir na cara do tio? Feio. Falta de educação. Papai do céu castiga. Paciência, minha filha, este é apenas um ciclo econômico e a nossa geração foi a escolhida para este vexame, você aí desse tamanho pedindo esmola e eu aqui sem nada para te dizer, agora afasta que abriu o sinal. Não pergunte ao titio quem fez a escolha, é tudo muito complicado e, mesmo, você não entenderia a teoria. Vai cheirar cola, para passar. Vai morrer, para esquecer. Ou vai crescer, para me matar na próxima esquina.

A História, dizem, terminou, e os mocinhos ganharam. Os realistas, os antiutópicos, os racionais. Ficou provado que a solidariedade é antinatural e que cada um deve cuidar dos apetites dos seus. O seja: ninguém é “tio” de ninguém. A família humana é um mito, o sofrimento alheio é um estorvo e se a miséria a tua volta te incomoda, compra uma antena parabólica. Ninguém é insensível, dizem os mocinhos, mas a compaixão fracassou. Essa é a lição destes dias, a compaixão não funciona. Todos esses anos de convivência com a dor dos outros, que deviam ter nos educado para a compaixão, nos educaram para autodefesa, para cuspir primeiro. Os bons sentimentos faliram, dizem os mocinhos. Confiemos o futuro ao mercado, que não tem sentimentos, que tritura gerações entre seus dedos invisíveis, pra que se envolver? Afasta do carro que abriu o sinal.

Mas mais terrível do que tudo é eu ficar aqui, escolhendo frases para encher papel, até cuidando o estilo, já que é domingo. Como se fizesse alguma diferença. Como se isso fosse nos salvar, o tio da sua impotência e cumplicidade e sobrinha anônima do seu destino. Desculpe.

(Paulo Santa, Zero Hora, 1992)


domingo, 26 de novembro de 2017

Rê Bordosa



Rê Bordosa é uma personagem criada pelo cartunista Angeli em 1984, quando surge já com cerca de 30 anos, nas tiras que foram publicadas no jornal "Folha de São Paulo" até 1987, quando Angeli "assassinou" Rê Bordosa.


Rê Bordosa tinha todos os problemas existenciais da mulher urbana da época, um pouco mais insana. Drogas, sexo livre, muito cigarro e álcool, além de noites mal-dormidas eram as brincadeiras prediletas da Rê Bordosa. Mas ela não morreu de overdose ou qualquer coisa parecida. Angeli resolveu dar um sumiço nela pra não virar um autor de um personagem só.


Rê Bordosa é uma personagem fictícia de histórias em quadrinhos humorísticas criados pelo cartunista Angeli, e que abrilhantou as páginas da extinta revista Chiclete com Banana. Rê é uma mulher de aproximadamente 40 anos, alcoólatra, ninfomaníaca, desbocada e desprovida de bom senso, cujas histórias giram em torno de suas manias e desejos.

Tiras com a Rê Bordosa








Frases da Rê Bordosa

“Do cristianismo só gosto do vinho e dos pecados.”

“Se a vida se resumisse em apenas um copo vazio... tudo seria fácil, mas não... Tem sempre uma garrafa cheia pra atrapalhar.”

“Mais um dia começa, e lá vou eu sexo, drogas e... espera aí, mas já são 22 horas! Me fudi de novo.”

“Puta que pariu! De quem é esse apartamento?”


Depois da quinta dose...
Homem:
− Opa, aqui é o banheiro dos homens!
Rê Bordosa:
− E daí?
Homem:
− Mas... mulher não faz xixi de pé!
Rê Bordosa:
− Meu filho... Depois da quinta dose, faço coisas que até Deus duvida...


Rê Bordosa:
− Garçom, me coma!
Garçom:
− Sinto muito, mas não quero comê-la;
Rê Bordosa:
− Então... me beba!


Rê Bordosa no banheiro:
− Toda vez que estou no bidê, sentindo este jatinho quente me acariciando, chego à conclusão de que... homem não serve pra porra nenhuma!




Um hierofante* em Porto Alegre



Os vaticínios do major João Eustáquio

Soube a nossa reportagem que, há dias, vindo do Rio de Janeiro, o major João Eustáquio, cujas profecias por muito tempo foram publicadas na imprensa carioca e algumas da quais tivemos ocasião de transcrever.

Um dos nossos companheiros começou logo a procurá-lo insistentemente, no que gastou muitos dias, até que, na quarta-feira última, pôde encontrá-lo.

O major hierophante está hospedado em uma casinhola situada na rua Sertório, nos Navegantes, quase à beira do rio.

É um homem que aparenta ter 60 anos de idade, gordo, alto, forte ainda, apesar dos anos; usa barbas longas e fuma cachimbo, um grande cachimbo simbólico, cujo canudo representa uma cobra, com duas ou três cabeças.

Quando nosso companheiro aproximou-se da figura popética estava ele sentado num tosco banco, feito de figueira do mato.

Sem que o repórter do Correio do Povo se anunciasse, hierofante, sem mudar de posição ou sequer responder a saudação que lhe fora dirigida, disser vagarosamente:

- Já o esperava por aqui, meu amigo.

E continuou, como estava, a chupar o seu grande cachimbo, soltando grossas nuvens de fumo, cujas espirais acompanhava com o olhar, atentamente, até elas desaparecerem por completo.

No mesmo tom de voz com que recebera nosso companheiro, foi dizendo:

- Você é jornalista e quer que eu lhe diga alguma coisa para o seu jornal.

- Se não houver nisso algum inconveniente...

- Ah, hoje não pode ser. Venha sexta-feira ao meio-dia, que encontrará tudo pronto sem ter nenhum trabalho.

O repórter do Correio agradeceu a gentileza e retirou-se sem lhe apertar a mão.

Sexta-feira, à hora marcada, malgrado a chuva que caía, o nosso companheiro foi ter com o hierofante major, que apertava, entre os dentes amarelados, o seu simbólico cachimbo.

Depois de poucas palavras, o repórter desta folha tomou assento junto a uma mesa preta, de três pés.

- Escreva, disse o major imperiosamente.

Imediatamente, o nosso companheiro tirou do bolso algumas tiras de papel róseo, o major Eustáquio lançou Mao de uma, e, guardando-a, começou os seus vaticínios:

- Deixará de existir uma folha vespertina. Surgirá outra, de grande formato e de pequena duração.

- Um golpe rude sofrerá o comércio, coma fuga, para o exterior, de três comerciantes. Grandes prejuízos na praça.

- No mesmo dia, diversos sentenciados evadir-se-ão, assim como alguns doidos do Hospício São Pedro. Esse fato colocará em pânico a população desta capital, por muitos dias.

- Haverá uma grande inundação no Guaíba, causando enormes prejuízos.

- Um sportsman* querido e vitorioso em vários campeonatos terá um fim tristíssimo, em plena arena.

- Será roubado, misteriosamente, um riquíssimo negociante.

- A atual crise política preocupará, seriamente, a população desta cidade, trazendo em constante sobressalto muita gente graúda.

- Este ano será por demais aziago para muitos operários devido ao incêndio de diversas fábricas.

- Os que mourejam na imprensa não serão muito felizes. Um entrará para o hospício, outro morrerá em duelo e um terceiro terá que mudar de terra.

- Em plena festa, nos últimos volteios de uma valsa, morrerá subitamente, um dos rapazes mais smarts* de Porto Alegre.

- Uma noiva, ao entrar na igreja, matará o noivo com três punhaladas.

- Os bondes elétricos farão diversas vítimas: dois padres, um forte capitalista, um militar de alta patente e um velho funcionário público.

- Desabará um andaime, matando algumas pessoas.

- Pavoroso incêndio destruirá três grandes trapiches e alguns armazéns.

- Conflito entre estudantes e povo, por questões políticas.

- Haverá greves, arruaças e os açougueiros cometerão desatinos.

- A magistratura verá desaparecer alguns de seus membros, sendo dois aposentados.

- Prejuízos incalculáveis com a destruição de um grande arquivo.

- Em agosto e setembro, os médicos terão muito que fazer, a fim de debilitarem uma forte epidemia.

- Um automóvel, em vertiginosa carreira, precipitar-se-á no Guaíba. Morrerá aí uma família inteira.

- Na doca haverá um verdadeiro combate entre lenhadores, carroceiros e policiais.

- Na porta de um cinema haverá um grosso sarilho. Escândalo sem nome.

- Famosa viela, em uma noite frigidíssima, terá o alargamento sonhado há tanto tempo.

- Desastres de estradas de ferro fará correr muitas lágrimas.

- Uma tragédia pugentíssima tornará malsinada, para sempre, uma das ilhas fronteiras.

Nessa altura, o nosso companheiro horrorizado com todas essas desgraças, prestes a cair sobre nós e já com medo que o hierofante dissesse que o mundo acabar-se-ia no dia 31 de dezembro deste ano, como remate a tantos males, foi tratando de retirar-se da residência do tremendo adivinho, benzendo-se com a canhota e mandando para bem longe a lembrança que tivera de ouvir do major João Eustáquio.

Entrevista** publicada no Correio do Povo de 4 de junho de 1913

* Hierofante é o termo usado para designar os sacerdotes da alta hierarquia dos mistérios da Grécia e do Egito. É o sacerdote supremo, que pode ser chamado também de Sumo Sacerdote. O exemplo mais popular de alguém que pode ser chamado de Grande Hierofante é o líder supremo da Igreja Católica Apostólica Romana, o Papa, também chamado de Sumo Pontífice.

* Sporstman: desportista.

* Smart: polido, esperto, enfeitado.

** É claro que esta “entrevista” trata-se de uma grande gozação de algum cronista da época. Os fatos enumerados acima como tragédias deviam ser comuns na época, início do século XX, na nossa cidade. Ou, ainda, de uma brincadeira com as “previsões” que Múcio Teixeira*** fazia seguidamente na imprensa.


*** Múcio Scevola Lopes Teixeira (Porto Alegre, 13 de setembro de 1857 - Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1926) foi um escritor, jornalista, diplomata e poeta brasileiro. Nos seus últimos anos, dedicando-se ao ocultismo, escreveu sob o pseudônimo Barão Ergonte. É patrono de uma das cadeiras da Academia Rio-Grandense de Letras e da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. Foi um dos autores mais prolíficos de seu tempo, escrevendo mais de setenta obras, entre ensaios, romances, dramas e biografias.

Antes e agora



Antes, ouvia com nitidez os sons repetidos da vida.
Agora, nem a campanhia estridentes do celular consegue escutar.

Antes, beijava com ardor e volúpia.
Agora, só respeitosos beijinhos na bochecha.

Antes, era tido como um bom atleta.
Agora, é driblado com facilidade pelo veloz neto de sete anos.

Antes, guiava com segurança e destreza.
Agora, é só carona.

Antes, usava óculos para barrar esteticamente o brilho do sol.
Agora, enfrenta a catarata.

Antes, reuniam-separa ouvir seus planos e propostas.
Agora, repete para poucos, as poucas histórias que sobraram na memória.

Antes, pela aparência, diziam que, no futuro, seria um viúvo.
Agora, aposta-se mais na viúva.

Antes, ia ao médico só para checapes anuais, que finalizavam com OKs quase monótonos.
Agora, é escravo dos exames laboratoriais e foge do tubo fúnebre da ressonância magnética.

Antes, o jornal era leitura obrigatória, de cabo a rabo.
Agora, dá-se por satisfeito passando os olhos, com interesse e temor, no obituário.

Antes, usava galochas.
Agora, não se adapta às havaianas.

Antes, sua intimidade era respeitada.
Agora, na mão das jovens enfermeiras, de fisioterapeutas perdeu sua privacidade

Antes, para ter privilégios dos idosos exigiam-lhe documentos comprobatórios.
Agora, os “documentos” são as rugas de um trôpego.

Antes, não precisava testar sua privilegiada memória.
Agora, às vezes até esquece que o esquecimento é seu companheiro.

Antes, tivera filhos obedientes.
Agora, submete-se às imposições anárquicas dos netos.

Antes, a cerveja gelada no verão e o vinho tinto no inverno não respeitavam lei seca.
Agora, só água para tomar as coloridas pílulas para diversas doenças.

Antes, tremia quando das grandes emoções.
Agora, a culpa é do Parkinson.

Antes, o coletivo era família.
Agora, vigora o individualismo competitivo.

Antes, bonita era a alvorada.
Agora, acompanha, sentimental, ao lado da companheira amorosa, o declínio do pôr-do-sol.


(Carlos Alberto Chiarelli)

El Greco e a luz



Numa agradável tarde de primavera, um amigo foi visitar o pintor El Greco*. Para sua surpresa, encontrou-o em seu atelier, com todas as cortinas fechadas.

Greco trabalhava num quadro que tinha como tema central a Virgem Maria, usando apenas uma vela para iluminar o ambiente. Surpreso, o amigo comentou:

– Sempre ouvi dizer que os pintores gostam do sol para escolher direito as cores que vão usar. Por que você não abre as cortinas?

– Agora não – respondeu El Greco. – Perturbaria o fogo brilhante da inspiração que está incendiando minha alma, e enchendo de luz tudo a minha volta.

* Domenikos Theotokopoulos: 1541–1614


Outra paródia de um poema

Mal Secreto

Raimundo Correa

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!

Mal Discreto

Bastos Tigre

Se a prontidão, a pinda, a quebradeira.
E os vários males desta mesma classe,
Tudo o que punge a tísica algibeira,
Sobre o rosto do “pronto” se estampasse;

Se se pudesse a crise financeira
Ler “através da máscara da face”,
Quanta gente, talvez, que, da primeira
Fila, então, para a última passasse...

Quanta gente nós vemos, quanta gente,
Cuja gravata, cautelosamente,
Uma camisa enxovalhada esconde!...

Quanto moço elegante e perfumado
Que anda, imponente, de automóvel... fiado,
Porque lhe faltam níqueis para o bonde!



Manuel Bastos Tigre (Recife, 12 de março de 1882  Rio de Janeiro, 1º de agosto de 1957) foi um bibliotecário, jornalista, poeta, compositor, humorista e destacado publicitário brasileiro.

Estudou no Colégio Diocesano de Olinda, onde compôs os primeiros versos e criou o jornalzinho humorístico O Vigia. Diplomou-se pela Escola Politécnica, em 1906. Trabalhou como engenheiro da General Electric e depois foi ajudante de geólogo nas Obras Contra as Secas, no Ceará.

Foi homem de múltiplos talentos, pois foi jornalista, poeta, compositor, teatrólogo, humorista, publicitário, além de engenheiro e bibliotecário. E em todas as áreas obteve sucesso, especialmente como publicitário. "É dele, por exemplo, o slogan da Bayer que correu o mundo, garantindo a qualidade dos produtos daquela empresa: "Se é Bayer é bom". Foi ele ainda quem fez a letra para Ary Barroso musicar e Orlando Silva cantar, em 1934, o "Chopp em Garrafa", inspirado no produto que a Brahma passou a engarrafar naquele ano, e veio a constituir-se no primeiro jingle publicitário, entre nós." (As vidas..., p. 16).

Prestou concurso para Bibliotecário do Museu Nacional (1915) com tese sobre a Classificação Decimal. Mais tarde, transferiu-se para a Biblioteca Central da Universidade do Brasil, onde serviu por mais de 20 anos.

Exerceu a profissão de bibliotecário por 40 anos, é considerado o primeiro bibliotecário por concurso, no Brasil.

No dia 12 de março é comemorado o Dia do Bibliotecário, que foi instituído em sua homenagem.

Fonte: wikepedia

sábado, 25 de novembro de 2017

O Sublime Alguém



Divaldo Pereira Franco

Ninguém poderá carregar o fardo de suas dores. Eduque-se com o sofrimento.

Ninguém entenderá os problemas complexos de sua existência. Exercite o silêncio.

Ninguém seguirá com você indefinidamente. Acostume-se com a solidão.

Ninguém acreditará que suas aflições sejam maiores do que as do vizinho. Liberte-se delas com o trabalho de autoiluminação.

Ninguém lhe atenderá todas as necessidades. Subordine-se apenas ao que você tem.

Ninguém responderá por seus erros. Tenha cuidado no proceder.

Ninguém suportará suas exigências. Faça-se brando e simples.

Ninguém o libertará do arrependimento após o crime. Medite na paciência e domine os impulsos.

Ninguém compreenderá seus sacrifícios e renúncias para a manutenção de uma vida modesta e honrada. Persevere no dever bem cumprido.

Sábio é todo aquele que reconhece a infinita pequenez ante a infinita grandeza da vida. Embora ninguém possa servi-lo sempre, você encontrará um sublime Alguém, que tem para cada anseio de sua alma uma alternativa de amor.

Por você, Ele carregou o fardo do mundo...

Compreendeu os conflitos da vida...

Caminhou com todos...

Socorreu todos que O buscaram...

Matou a fome, saciou a sede e ouviu as multidões inquietas...

Atendeu à viúva de Naim, ao apelo materno em Caná...

Carregou a cruz da injustiça sem nenhuma reclamação...

Perdoou a traição de Judas, desculpou as negativas de Pedro e a ambos libertou do remorso com a concessão do trabalho em novos avatares...

Compreendeu as lutas da mulher atormentada, sedenta de paz; esclareceu o enfático doutor do Sinédrio, sedento de saber; arrancou das trevas o cego Bartimeu, sedento de claridade...

Ensinou que diante do amor todos os enigmas do Universo se aclaram, por ser o Pai Celeste a Suprema Fonte do Amor.

Não se imponha, pois, a ninguém. Embora você dependa de todos, nada aguarde dos outros.

Receba e agradeça o que lhe chegue e como chegue, ajude e passe...

Aprenda que a luta é a lição de cada hora no abençoado livro da existência planetária, e siga adiante com Ele, que “jamais se escusava”.


sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O Palácio da Intendência



Conforme noticiamos, terminou, a 15 do corrente, a mudança da intendência municipal para o belo palácio que acaba de ser construído, expressamente para aquela repartição, à Praça 15 de Novembro.

Visitamo-lo anteontem. Embora poucos momentos nos tenhamos demorado no magnífico edifício, causou-nos tudo quanto vimos a mais agradável impressão; e supomos mesmo que em todo o Estado não há construção que lhe sobreleve em beleza arquitetônica, nobreza e proporções de linhas, disposição de salas e dependências e condições de higiene, de ar e de luz.

Logo ao transpor o formoso peristilo, admira-se o amplo e alteroso átrio pavimentado a mosaico, e cujo plafond repousa sobre colunas dóricas o qual dá acesso ao suntuoso vestíbulo de onde sobe, em dois corpos laterais, a luxuosa escadaria de mármore branco que vai ter ao sobrado, e sobre o qual se projeta a farta claridade de uma ampla claraboia.

Essa parte da construção, aformoseada, ainda, em volta, por galerias com colunas conjugadas de ordem coríntia, é incontestavelmente soberba e tem mesmo uma certa majestade.

Todas as seções em que se subdivide o serviço intendencial, as do conselho, secretaria, contabilidade, tesouraria, impostos, águas e esgotos, etc.; e as do arquivo, inspetoria de veículos, assistência pública, 1º posto policial, etc., acham-se convenientemente instaladas em salas adaptáveis, por completo, já pelas dimensões, já pela sua organização e mobiliário, ao respectivo regular funcionamento.

Releva, entretanto, destacar aqui o salão destinado às sessões do conselho, o que é um primor.

O assoalho, caprichosamente batido, é um bonito mosaico de madeira lustrada; as paredes apresentam lindíssimo aspecto na sua artística pintura decorativa; e completa o esplendor do conjunto o raro gosto dos lavores do estuque, traçado de filetes dourados que põem num suave destaque as cores claras e esmaecidas das tintas, predominando o rosa e o azul: um mimo!

No rez de chaussée fica o xadrez do 1º posto, espaçoso, claro e bem ventilado, dispondo de latrinas que são a última palavra do invento, para ser mantido o mais completo asseio; e nas mesmas condições são as water closet destinadas ao pessoal da repartição e as reservadas para os funcionários superiores, apenas distinguindo-se das primeiras pela maior confortabilidade e melhor aparência, passando os depósitos de todas ao esgoto, depurados pelo processo de reservatório sanitário.

Para o serviço hidráulico e de iluminação a gás e à eletricidade, todo o encanamento e fios condutores são internos, como se usa em todas as construções modernas.

A não ser os lustres e as arandelas que foram mandadas vir da Europa e que simultaneamente se prestam à iluminação elétrica e a do gás carbônico, intensada por bicos Auer, tudo o quanto há na importante construção é produto de nossa florescente indústria local; e, entre outros trabalhos dignos de nota, a porta principal, toda em finos entalhes, uma custosa escada de caracol que comunica o sobrado às dependências superiores e o alteroso portão de grade que abre para a rua das Flores, fazem honra às acreditadas oficinas dos reputados industrialistas Steigleder Sobrinho, E. Berta e Viúva Hugo.

Essa decidida e justíssima preferência à indústria rio-grandense é mais um relevante atestado de muito amor que à nossa terra dedica o ilustre intendente Dr. Montaury de Aguiar Leitão que, em boa hora, resolveu assentar aqui a sua tenda de trabalho.

Enfim, o palácio da intendência municipal de Porto Alegre é digno de uma grande cidade culta, civilizada e progressista.

(Correio do Povo, de 19/5/1901)


José Montaury, nascido na Província do Rio de Janeiro e formado em engenharia civil, fora para o Rio Grande do Sul trabalhar na Comissão de Terras e Estabelecimento de Imigrantes, órgão ligado ao Ministério da Agricultura. Seguidor da doutrina positivista desde seus tempos de estudante, conheceu em Veranópolis, onde era Inspetor da Comissão, o então Presidente do Estado, Júlio de Castilhos, no ano de 1895.

Comungando do mesmo ideal filosófico, Júlio de Castilhos resolve convidá-lo para se candidatar ao cargo de Intendente de Porto Alegre. Eleito em 1896, Montaury só tomou posse no ano seguinte, impossibilitado que estava de afastar-se de suas funções em Veranópolis. Reeleito por seis vezes, permaneceria no cargo até 1924.

Também em 1895, Júlio de Castilhos foi apresentado a outro adepto da escola filosófica de Auguste Comte, o engenheiro João Antonio Luiz Carrara Colfosco, a quem encarregou de projetar o prédio da Intendência.

O local escolhido para erguer o paço foi o aterro da antiga doca do carvão, às margens do rio Guaíba, no centro da cidade, onde se concentrava a vida econômica e social de Porto Alegre. Ficava situado entre a rua 7 de Setembro (para qual ficou voltada a sua fachada principal); a rua das Flores (que começava a se formar e é a atual Siqueira Campos); a do Comércio (atual Uruguai); e o Mercado Público (ainda não fora aberta a avenida Borges de Medeiros). À sua frente, em um espaço não urbanizado, surgiria a Praça Municipal, hoje Praça Montevidéu.


1895, a antiga Doca do Carvão, ao lado do Mercado Público, pouco tempo antes de ser aterrada para que no local fosse construída a Prefeitura de Porto Alegre.


Praça Montevidéu

A partir da construção do paço Municipal, inaugurado em maio de 1901, a área* começou a ser chamada de praça Municipal. Seu nome foi mudado para praça Montevidéu pelo Ato nº132, de 25/9/1916.

A construção e o ajardinamento de uma elipse verde em frente ao paço Municipal foi obra do Intendente Otávio Rocha, em 1927. Posteriormente, ao ensejo do Centenário da Revolução Farroupilha, ali foi implantado a bela fonte de azulejos, proveniente de Talavera, Espanha, que foi oferecido à cidade pela colônia espanhola.


(Sérgio da Costa Franco, “Porto Alegre: Guia Histórico”)


Posto de Pronto Socorro, anexo, no térreo da Prefeitura.

Nichos com bustos de Deodoro da Fonseca e José Bonifácio, além de medalhões com imagens de Júlio de Castilhos e Floriano Peixoto, compõem o frontispício do Paço. Em 1906 foram colocados os leões de mármore que adornam a entrada principal do prédio, criados por Carlos Fossati.

A decoração interna foi executada entre abril e setembro de 1901. A pintura decorativa ficou a cargo de Ferdinand Schlater. No salão de honra foram colocadas tapeçarias, telas e bustos de personalidades da história brasileira. Em 1904, o saguão do pavimento superior ganhou os vitrais executados por Joseph Wollmann, introdutor dessa arte no Rio Grande do Sul. Novidades tecnológicas como o telefone e a iluminação elétrica foram instaladas no Paço.

Alterações internas e externas foram sendo feitas no prédio com o passar do tempo. O pátio interno, de 100 m², desapareceu para dar lugar a novas dependências e o portão de ferro da rua Siqueira Campos foi retirado.

Com a inauguração em 1948 de um novo edifício na rua Siqueira Campos, localizado imediatamente atrás do Paço, várias repartições foram para lá transferidas.

Em 1973, ano do bicentenário da transformação de Porto Alegre em sede da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul, o prédio da Prefeitura passa a ser chamado de Paço dos Açorianos.

Homenageava-se, assim, os imigrantes que, trazidos pela Coroa portuguesa para povoar o sul do país por volta da metade do século XVIII, fixaram-se na margem esquerda do Guaíba e, segundo Miguel Ângelo Blasco – que por ali passara entre 1754 e 1755 – formaram “um arroio de casas de palha habitadas de casais das ilhas (de Açores)”, embrião da cidade de Porto Alegre.


Os leões de mármore, colocados em 1906.


Prédio da Intendência com pintura nova


À direita, Salão Nobre e, à esquerda, escadaria de mármore branco.


Imagens do subterrâneo da Prefeitura de Porto Alegre