quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

O Grito

 

Pode ser muito mais do que um simples berro, por mais alto que seja. Também significa clamor, invocação. O grito de D. Pedro I proferido às margens do Ipiranga foi um marco na história do Brasil. O Barão de Pindamonhangaba, que lá estava, assim descreveu o momento em que ecoou o Grito da Independência: 

Vinha o príncipe na frente. Vendo-o

voltar-se para o nosso lado, saímos ao seu

encontro. Diante da guarda, que descrevia

um semicírculo, estacou o seu animal e, de

espada desembainhada, bradou: 

“Amigos! Estão, para sempre, quebrados

os laços que nos ligavam ao governo

português! E, quanto aos topes daquela

nação, convido-os a fazer assim”. E,

arrancando do chapéu que ali trazia a fita

azul e branca, a arrojou no chão, sendo

nisto acompanhado por toda a guarda que,

tirando dos braços o mesmo distintivo,

lhe deu igual destino. 

“E viva o Brasil livre e independente!”,

gritou D. Pedro. Ao que, desembainhando

também nossas espadas, respondemos:

“Viva o Brasil livre e independente!

Viva D. Pedro, seu defensor perpétuo!”

E bradou ainda o príncipe: 

“Será nossa divisa de ora em diante:

Independência ou morte!”.

Por nossa parte, e com o mais vivo entusiasmo,

repetimos: “Independência ou morte!”. 

Do livro:

“Eduardo Bueno Dicionário da Independência 200 anos

 em 200 verbetes”

Laços 

Depois do célebre grito de “Independência ou morte!”, D. Pedro ordenou à sua guarda “laços fora”, tirando do chapéu e jogando ao chão o tope português. Ao mesmo tempo, todos os presentes arrancaram e alguns cortaram em pedaços os laços azuis que tinham no braço esquerdo. O príncipe então anunciou: “Doravante traremos todos outros laços de fita verde e amarela, e essas serão as cores do Brasil”. Até hoje se usa a expressão “romper os laços” quando pessoas ou países rompem relações. 

Séquito 

Grupo que acompanha uma pessoa importante para honrá-la ou servi-la. Em 14 de agosto (1822), o séquito que partiu com D. Pedro I na viagem que culminaria na Proclamação da Independência era composto por sete homens: Luís de Saldanha da Gama, ministro e secretário de Estado, acompanhava o príncipe para expedir ordens e despachos; João de Castro Canto e Melo, pai de Domitila de Castro Canto e Melo, amigo pessoal de D. Pedro; Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, amigo e secretário de D. Pedro; os cavaleiros João de Carvalho Raposo e João Carlota, o padre Belchior e o tenente-coronel Joaquim Aranha

(Do livro citado acima)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2020

Quarentena

 Somos o que pesquisamos

Mário Corso 

Coluna inspirada, quase roubada, de um texto de Júlia Corso*. 

Pesquisa Google: Sintomas covid-19

Pesquisa Google: Fazer álcool gel 70%

Pesquisa Google: Comprar máscara cirúrgica

Pesquisa Google: Auxílio emergencial

Pesquisa Google: Máscara facial feita de meia

Pesquisa Google: Assar pão em casa

Pesquisa Google: Telebebidas Porto Alegre

Pesquisa Google: O que é cloroquina?

Pesquisa Google: Tutorial de respiração ioga

Pesquisa Google: Dowload Zoom

Pesquisa Google: Arroz soltinho

Pesquisa Google: Delivery comida saudável

Pesquisa Google: Gatos para adoção

Pesquisa Google: Comprar meias antiderrapantes

Pesquisa Google: Recomendação OMS

Pesquisa Google: Número de mortos covid-19 Brasil

Pesquisa Google: Mercado Livre tripé para celular

Pesquisa Google: Chás calmantes naturais

Pesquisa Google: Cadeira boa para as costas

Pesquisa Google: Recomendação de série

Pesquisa Google: Jackson Galaxy educação para gatos

Pesquisa Google: Como cortar a própria franja

Pesquisa Google: Meditação contra insônia

Pesquisa Google: Comércio aberto

Pesquisa Google: Dancinha Tik Tok

Pesquisa Google: Feng Shui afasta vírus?

Pesquisa Google: Como saber se torci o tornozelo?

Pesquisa Google: Pérolas escondidas no catálogo da Netflix

Pesquisa Google: Diferença entre ansiedade e depressão

Pesquisa Google: Horta em casa

Pesquisa Google: Retorno do Brasileirão

Pesquisa Google: Organização Marie Kondo

Pesquisa Google: Dor de cabeça muito tempo no computador

Pesquisa Google: Abraço de máscara pode?

Pesquisa Google: Teletrabalho e burnout

Pesquisa Google: Terapia online

Pesquisa Google: Vacina covid-19

Pesquisa Google: Vai ficar tudo bem? 

Cada um fez uma lista dessas, afinal, somos o que pesquisamos. 

Qual é a sua? 

*Júlia Corso é filha do colunista. 

(Em Zero Hora, dezembro de 2020)


 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Reações diferentes

 Reação de um homem, uma mulher e um gay 

diante de várias situações:

Diante de uma barata: 

Homem:     - Que merda! Se eu não estivesse descalço.

Mulher:      - Socorro! Uma barata!

Gay:           - Alô? É do Corpo de Bombeiros? 

Diante de um homem bonito: 

Homem:     - É veado...

Mulher:      - É um Deus!

Gay:           - É meu. 

Diante de uma mulher bonita: 

Homem:     - Gostosa!

Mulher:      - Gorda!

Gay:           - Traveca! 

Quando estão amando: 

Homem:     - Pede o que você quiser, meu amor!

Mulher:      - Eu te amo!

Gay:           - Como você reagiria se soubesse que outro homem está gostando de você? 

Assistindo a uma partida de futebol: 

Homem:     - Que golaço!

Mulher:      - Que saco!

Gay:           - Que coxas! 

No cabeleireiro:

Homem:     - Corta.

Mulher:      - Apara só as pontas...

Gay:           - Eu quero igualzinho ao dela...    

Quando acordam pela manhã: 

Homem:     - Tô morto de fome!

Mulher:      - Tô horrível!

Gay:           - Onde estou? 

Quando estão entediados: 

Homem:     - Vou dar uma volta...

Mulher:      - Vou dar um telefonema...

Gay:           - Vou dar qualquer coisa... 

Num estádio de futebol: 

Homem:     - Juiz ladrão!

Mulher:      - Por que ninguém passa a bola para aquele que está com o apito?

Gay:         - “Até a pé nós iremos para o quer der e vier, mas o certo é que nós estaremos com o Grêmio, onde o Grêmio estiver”.* 

***** 

Texto interpretado por Jô Soares no seu programa de TV.

*No programa do Jô, ele cantava: "Sou tricolor de coração..." parte do hino do Fluminense.


segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Assassinato ou suicídio?

 

Getúlio Vargas, morto, com o furo da bala em seu peito. 

A morte de Getúlio Vargas continua despertando interesse e polêmica. Volta e meia, alguém me pergunta se o presidente se matou ou foi assassinado. Tudo aconteceu em 24 de agosto de 1954, há exatos 56 anos*. A teoria do assassinato sempre teve defensores. Nunca encontrou, no entanto, evidências. Apaixona. Vargas tinha muitos inimigos. Estava no meio de um “mar de lama”. Mas, dificilmente, poderia ser assassinado em seu quarto, no Palácio do Catete, cercado de amigos, familiares e seguranças, ao final de uma noite histórica na qual aceitara pedir um afastamento temporário do governo. As teorias conspiratórias sempre fascinam. Em meu livro “Getúlio”, esse fantasma está presente. Falando nisso, se me permitem a gabolice, meu “Getúlio” vai sair no Japão, com tradução de Hamaoka, um apaixonado pelo Brasil. 

Quando reescrevi esta passagem de “Getúlio”, no Rio de Janeiro, numa madrugada de Carnaval, fui às lágrimas: 

- Um tiro! − exclama Barbosa.

- Foi aqui?, pergunta o major Hélio Dornelles.

- Foi. 

- Alzira, seu pai, grita uma voz quase estranha, talvez pelo pânico, sacudindo, pelos ombros a filha de Vargas. 

Precipitam-se todos para o quarto. Estendido na cama, braços abertos, uma perna para fora do leito, Getúlio agoniza. Dornelles é um dos primeiros a vê-lo assim. Quando Alzira entra, Getúlio ainda lhe sorri, enquanto o sangue que salta do orifício no pijama de listras inunda-lhe a blusa. A filha repete como um autômato: “Não pode ser, não pode ser, tu me prometeste”. Adalgisa chega com Dona Darcy e ainda sente os últimos espasmos do corpo. Getúlio busca, com os olhos congestionados, o rosto de Darcy. Caiado de Castro irrompe e desmaia. Horas depois, dirá: “Getúlio Vargas morreu de um coice de Bejo Vargas”. Amaral Peixoto socorre a sua mulher. Lutero, acordado por Zarattini, em prantos, examina o corpo do pai, toma-lhe o pulso, pede ao doutor Flávio que ausculte o moribundo. Acabou. 

Guilherme Arinos olha para o cadáver e sente a pior dor da sua vida, a dor da perda do homem que lhe mudara para sempre a vida. Lá fora, a multidão já reza. Arísio Viana, diretor do Dasp e amigo de Getúlio, grita que não podiam ter deixado o presidente sozinho. Depois, prático, começa a tirar-lhe o pijama. Chegam o médico e os legistas. Lutero quer uma autópsia. Toca o telefone na Redação da Última Hora. Luís Costa, titular da coluna “O Dia do Presidente”, berra para um Samuel Wainer repentinamente incapaz de ouvir bem: “O presidente acaba de se dar um tiro no coração”. O Profeta corre à oficina do jornal, recupera a página composta do dia anterior e prepara uma “cartola”, um simples “chapéu” para o título da edição morta: “Ele cumpriu a promessa - Só morto sairei do Catete”. Depois, senta-se e chora convulsivamente. A Tribuna da Imprensa preferiu um quase discreto e neutro “Suicidou-se Getúlio Vargas”. 

Contei essa história a um amigo de esquerda. Ele me gozou: “Você chorou por um ex-ditador”, disse. Que coisa! 

Juremir Machado da Silva

Correio do Povo de 24 de agosto de 2010. 

*Ano da publicação da crônica. 

“cartola” – “chapéu” gíria jornalística para títulos de última hora para a edição de um jornal


Como não socorrer um acidentado

 

Ontem, passei na rodovia por um motoqueiro atropelado por um carro. Pensei em parar e ligar para o socorro, mas vi, de imediato, várias pessoas fazendo isso pelo celular. Pensei em parar e manter a vítima imóvel, mas vi duas coisas que me tranqüilizaram: primeiro, vi que ele se moveu, encolhendo a perna, no que foi contido por um homem ao seu lado, e, em seguida, vi o mesmo homem, que estava agachado ao seu lado, impedindo que ele se erguesse ou se movesse. Tudo o que é previsto num acidente estava sendo feito, felizmente, e nem precisei parar para ajudar. 

O que ocorre, às vezes, é que as pessoas, no afã de ajudar, fazem com que a vítima tente se levantar, mexer os membros, etc. o que é desaconselhável. Podem causar com isso um desastre maior do que o sofrido pelo cidadão. Pude seguir em frente com a consciência tranquila. 

Clarival Vilaça* 

Certa ocasião, eu estava de plantão no Hospital Militar de Porto Alegre, fui informado que um cabo se acidentara num campo de treinamento. Avisei que iria lá, que não mexesse no acidentado. 

Entrei com a ambulância no estádio, colocamos o cabo numa maca e o levei para o Pronto Socorro da capital. Lá no Raio X, vimos que a coluna cervical estava luxada, quase dois cm, quase “atingindo a medula”. Assisti ao neuro salvar o cabo de um desastre. Ele colocou no Raio X uma coroa no crânio, tracionando com dois tijolos pendurados na coroa, sem anestesia. O cabo não foi retirado da maca da ambulância militar. Vi que a redução começara ali. O cabo movia as mãos e os dedos, eu sabia que ele quase ficara “tetraplégico”. 

Acidentado não deve se mexer ou ser mexido até que o socorro adequado seja providenciado. 

Dr. Paulo Cezar Fagundes* 

Todos devem se lembrar das imagens da televisão, quando aquela moça estudante da Faculdade Estácio de Sá foi baleada na coluna. Um desses desavisados pegou a moça e saiu correndo com ela no colo. Aquilo foi tudo o que NÃO se deve fazer em casos de ferimento na coluna. Quase em frente, há a um hospital da Casa de Portugal. Era só aguardar um pouco e, talvez, a situação da moça hoje fosse menos dolorosa. 

Sérgio Mattos* 

Socorro de Acidentados 

Os cuidados dispensados no momento de socorrer um acidentado, seja ele automobilístico, esportivo ou qualquer que seja a causa do acidente, frequentemente faz a diferença entre uma recuperação completa ou graves sequelas. 

Um bom exemplo é Emerson Fittipaldi. Ele sofreu um acidente na Fórmula Indy e em decorrência desse acidente, sua coluna vertebral (parte óssea) foi seriamente afetada. Por sorte, porém, sua medula não foi comprometida. Entretanto, caso a equipe de socorro não tivesse tomado os cuidados necessários ao retirá-lo do carro e levá-lo para o hospital, os resultados muito provavelmente seriam trágicos. 

Em vista desse exemplo, devemos ter em mente ao socorrer um acidentado e quando não houver equipe especializada em socorro disponível, a pensar na possibilidade dessa pessoa que iremos socorrer possuir algum traumatismo em nível de coluna vertebral. Antes de remover esse acidentado, procure estabilizar o pescoço do indivíduo (use um pano e envolva-o ao redor do pescoço). Mantenha o corpo, a cabeça e as pernas alinhadas, apoie a cabeça do acidentado com a mão para que ela não faça movimentos pendulares. Mantenha também o tronco reto devido ao risco de haver fraturas em nível de coluna torácica ou lombar. Sendo necessário, seja enérgico e grite com o acidentado para que ele se mantenha imóvel e siga suas orientações. 

Todos esses cuidados têm como objetivo reduzir (ou não agravar) os danos medulares caso a coluna vertebral esteja comprometida, pois quando isso ocorre, a medula fica muito vulnerável a uma grave lesão. 

Ao chegar ao hospital com um acidentado suspeito ou com risco de ter sofrido traumatismo na coluna vertebral, previna os profissionais que prestarem o primeiro atendimento dessa possibilidade e exija que os cuidados adequados sejam tomados (colocação de colete cervical, etc). 

*Todos os depoimentos foram dados por ex-militares da Brigada de Infantaria Paraquedista.

A Bíblia e o Celular

  

Já imaginou o que aconteceria se tratássemos a nossa Bíblia do jeito que tratamos o nosso celular?

E se sempre carregássemos a nossa Bíblia no bolso ou na bolsa?
E se déssemos uma olhada nela várias vezes ao dia?
E se voltássemos para apanhá-la quando a esquecemos em casa, no escritório?
E se a usássemos para enviar mensagens aos nossos amigos?
E se a tratássemos como se não pudéssemos viver sem ela?
E se a déssemos de presente às crianças?
E se a usássemos quando viajamos?
E se lançássemos mão dela em caso de emergência?

Mais uma coisa:

Ao contrário do celular, a Bíblia não fica sem sinal. Ela 'pega' em qualquer lugar. Não é preciso se preocupar com a falta de crédito porque Jesus já pagou a conta e os créditos não têm fim. E o melhor de tudo: não cai a ligação e a carga da bateria é para toda a vida. 'Buscai ao Senhor enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto'! 

Jesus...

O maior Homem na história, Jesus Cristo,

Não teve nenhum empregado, no entanto chamaram-no Soberano.
Não teve nenhum diploma, no entanto chamaram-no professor.
Não tinha nenhum medicamento, no entanto chamaram-no Doutor.
Não teve nenhum exército, no entanto os reis temeram-no.
Não ganhou nenhuma batalha militar, no entanto conquistou o mundo.
Não cometeu nenhum crime, no entanto o crucificaram.
Foi enterrado num túmulo, no entanto vive hoje.

Sinto-me honrado por servir tal chefe que me Ama!


Então queres ser um escritor?

 Charles Bukowski

Se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças,

a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.

Se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.

Se o fazes por dinheiro ou fama,
não o faças.
Se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.

Se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
Se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.

Se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

Se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
Se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.
 

Se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.
 

Não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de pessoas

que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido

e pedante, não te consumas com autodevoção.
As bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até adormecer com os da tua espécie.
Não sejas mais um,
não o faças.
A menos que saia da tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças,
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.
 

Quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa
e nunca houve.
 

Tradução: Manuel A. Domingos

Henry Charles Bukowski Jr. (nascido Heinrich Karl Bukowski; Andernach, 16 de agosto de 1920 − Los Angeles, 9 de março de 1994) foi um poeta, contista e romancista estadunidense nascido na Alemanha. Sua obra, de caráter inicialmente obsceno e estilo totalmente coloquial, com descrições de trabalhos braçais, porres e relacionamentos baratos, fascinou gerações que buscavam uma obra com a qual pudessem se identificar. 

Bukowski tem sido erroneamente identificado com a Geração Beat, por certos temas e estilo correlatos, mas sua vida e obra nunca mostraram essa inclinação. Jim Chisty, autor do livro The Buk Book, disse em uma vez que “ele havia sido um vagabundo, um imprestável, um proletário, um bêbado; bem, que fosse. Claro, outros trabalharam o mesmo território, mas o que diferenciava Bukowski do resto deles − os Knut Hamsun, Jack London, Maxim Gorky e Jim Tully − era que Bukowski era engraçado.” Trabalhando esta imagem, Bukowski conseguiu criar um mito ao seu redor. 

domingo, 27 de dezembro de 2020

Vai logo

 Que ninguém te aguenta mais 

Cláudia Tajes

Vai que já vai tarde, 2020. Vai e leva junto tudo o que não deu para fazer neste ano. Todos os planos que, de repente, sumiram. As viagens que não saíram pela porta. As ideias que ficaram só na vontade. Os abraços e os beijos que se acumularam dentro da gente. A saudade de um mundo que até podia ser cheio de defeitos, mas que era nosso. 

Vai que já vai tarde, 2020. Não foi fácil chegar até o teu fim. O mais estranho é que os dias, que pareciam não passar nunca, passaram. Tanto que estamos aqui, desejando que 2020 logo seja só mais uma folha arrancada do calendário. 

Vai que já vai tarde, 2020. 

Se possível, arrasta contigo todos os negacionistas que encontrar pelo caminho. Para parecer que esse tsumani de ignorância que varreu o Brasil não passou de um pesadelo − longo demais, é verdade, mas um pesadelo. Antes isso que uma condenação ao retrocesso. Bons tempos em que nos chamavam de “país do futuro”. 

Vai que já vai tarde, 2020. Embora a tua saída de cena jamais vá apagar os quase 200 mil mortos que se espalham pelos teus meses. 

Vai que já vai tarde, 2020. 

(...) 

Vem logo, 2021. E traze contigo a vacina, a esperança, a retomada, o horizonte. Se o nosso coração fez o que fez neste 2020 − que já vai tarde −, imagina do que vai ser capaz quando o mundo voltar para a gente. 

(No caderno Donna, Zero Hora, último domingo de 2020)



sábado, 26 de dezembro de 2020

Dicas para segurança digital pessoal

 

→ Não ter senhas iguais. 

→ Ter antivírus instalado. 

→ No caso das senhas, sempre utilizar termos mais complexos, nunca usar nome de gato, cachorro, data de nascimento, data de casamento, etc. 

→ Sempre colocar informações diferentes que sejam fáceis de lembrar. 

→ Sempre baixar aplicativos de lojas oficiais. 

→ Se for acessar banco, sempre digite o nome do site e não clique em links que cheguem por e-mail. 

→ Quando receber por e-mail um link encurtado, para o cursor em cima para ver aonde aquele link o leva. É possível verificar a informação na parte de baixo do navegador, onde você vai ver o link estendido. 

→ Sempre que receber um e-mail, olhe de onde está vindo. O texto diz que é uma cobrança de um banco, mas veja qual o e-mail que lhe encaminhou aquela cobrança. 

→ Observe os e-mails que você recebe e fique atento a esse tipo de situação. As fraudes podem não ser fáceis de diagnosticar e, na tentativa de exploração, nem sempre percebemos. 

→ Em caso de e-mail duvidoso, não abra anexos, não clique em links que não pareçam confiáveis, desconfie de todos os arquivos “estranhos”. Se for realmente importante alguém vai te ligar. 

→ Em caso de dúvidas, procure no site daquela empresa ou ligue para saber se realmente há algum problema com a sua conta bancária ou com uma compra feita pela internet. 

→ Sempre mantenha todos os sistemas dos dispositivos atualizados, seja computador, televisão, celulares. 

→ Não acesse os aplicativos de banco ou qualquer outra coisa que seja sensível através de uma lan house ou internet de algum local público. Preferencialmente faça os acessos do 3G/4G do seu celular, pois há garantia maior. Não sabemos se em determinado estabelecimento a rede está sendo monitorada, se estão coletando os dados que estão passando por ela. Podem estar roubando as informações. 

(Correio do Povo, dezembro de 2020) 

Observação final:

Todo dia, ao amanhecer, acorda um falsário, um hacker da internet, e vai direto para o computador para pegar um incauto, para não dizer um otário. 

Todo dia, ao amanhecer, acorda um incauto (otário) e vai direto para o computador para comprar alguma coisa. 

Em alguma parte do dia, eles irão se encontrar num site da internet.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Chavões sortidos

 

O homem com total abstinência  

Tô na secura.

Ando só na vontade.

Só fico na ideia.

Isso é novo pra mim.

Nem estou me reconhecendo.

Estou matando cachorro a grito.

Estou subindo pelas paredes.

Estou chamando urubu de meu louro.

Estou só comendo com os olhos.

É que estou no meu inferno astral.

Estou subindo parede de azulejo lambuzada de manteiga. 

Solteirona com total abstinência

 

Antes só do que mal acompanhada.

Homem pra quê? Pra escutar ordens o dia inteiro?

São todos uns cafajeste/cachorros/vagabundos não querem nada sério.

Não quero ficar com qualquer um na balada. (Variação sutil: Cansei de ficar com qualquer um na balada.)

Estou muito bem sozinha, obrigada. 

O onanismo 

Sexo solitário.

Cinco contra um.

Faça sexo seguro: faça sozinho.

Descabelar o palhaço.

Fazer justiça com as próprias mãos.

Sacrifício manual.

Descascar a banana.

Depenar o sabiá.

Enforcar o careca. 

O enredo clichê dos filmes pornô: 

- Olá (para moça vestida em trajes sumários) eu sou o encanador, o eletricista, o policial, o jardineiro, o operário, o vizinho, o motorista, o médico, etc.

- Oi – diz a moça, chupando um picolé.

- Eu vim (desentupir o encanamento/colocar o plug na tomada/prendê-la/cortar a grama/levantar a viga/dar as boas vindas/colocar o carro na garagem/examinar você a fundo, etc.)

Ela fica com calor, derrama suco gelado nele “sem querer”, a música brega aumenta, ela tira as roupas dos dois e rolam todas as modalidades obrigatórias de sexo.

Em seguida, tudo se repete, mas em vez de um cara vem uma outra garota, uma garota e um cara, dois caras e ela, ela sozinha e todas as permutações possíveis. 

FIM

Como fazer sexo no linguajar comum: 

Afogar o ganso.

Dar uma bimbada.

Bater manteiga.

Dar um tapa na boneca.

Descarregar a bateria.

Dar uma chinelada.

Desfolhar a margarida.

Dar uma paulada.

Bater o ponto.

Dar uma machucada.

Fazer nenê.

Procurar a perseguida

Fazer barba, cabelo e bigode.

Mandar brasa.

Molhar o biscoito.

Tirar o atraso.

Trocar o óleo.

Dar uma estilingada.

Dar um tapa na peteca.

Rolar um fight.

Dar um tiro na coruja.

Dar minhoca pra aranha.

Dar a do mês.

Humor de Max Nunes

 

 1º texto 

Cliente: − Estou tão nervosa, doutor!

Dentista: − Não há motivo, madame. 

Cliente: − Esse é o primeiro dente que eu arranco!

Dentista: − E eu também. 

2º texto

Careca: − Me dá um vidro de loção para crescer cabelo.

Caixeiro: − Grande ou pequeno?

Careca: − Pequeno, que eu não gosto de cabelo muito comprido. 

3º texto

Professora: − Menino, você precisa aprender inglês.

Aluno: − Pra quê?

Professora: − Porque metade do mundo fala essa língua!

Aluno: − E não chega? 

Fonte: Max Nunes. Em: Ruy Castro (Org.). Uma pulga na camisola: o máximo de Max Nunes. 

Fla-Flu

 Max Nunes 

Agonizava,

Mas com o radinho

Junto à orelha.

O jogo do seu time ele escutava.

Esperando

E agonizando,

Ele torcia

E não morria.

Mas quando aconteceu o gol,

Ele morreu feliz,

Feliz morreu.

E nem ficou sabendo

Que o gol que ele esperava

Não valeu.

Frases de Max Nunes 

1. “O famoso explorador inglês bebia tanto que, quando os antropófagos o almoçaram, não tiveram indigestão. Tiveram uma bebedeira.” 

2. “O beijo nada mais é do que a uma contração da boca provocada por uma dilatação do coração.” 

3. “Quem pede a palavra nem sempre a devolve em condições.” 

4. “Comprador: Eu gostaria de ver alguns carros de segunda mão realmente bons. Vendedor: Eu também.” 

5. “O difícil de confundir alhos com bugalhos é que ninguém sabe o que são bugalhos.” 

6.  “Quando a professora contou ao pai que seu filho havia roubado uma nota de 100 reais da sua bolsa, o pai exultou de contentamento: era a primeira nota alta que o filho tirava na escola.” 

7. “Há casais que se detestam tanto que não se separam só pra não dar esse prazer ao outro.” 

8. “ − Menino, como se chama aquela pessoa que mata o pai e a mãe? – Órfão?” 

9. “Hoje, numa sala de aula, o verdadeiro quadro negro é o salário do professor.” 

10. “Por que não cruzam um pombo-correio com um papagaio? Assim, em vez de levar um bilhete, ele já dava logo o recado.” 

Homeopoesia

(Texto de Max Nunes sobre a homeopatia) 

Não sei se a homeopatia cura ou não. Mas acho lindos os nomes de seus remédios. Eis alguns, colhidos no velho Guia Homeopático de Almeida Cardoso, de 1938: 

Bórax − Lembra nome de âncora de telejornal, mas resolve a falta do leite materno. 

Briônia − Uma rainha da antiga Babilônia? Não. É um remédio para problemas da bexiga e suores noturnos. 

Dulcâmara − Para dores reumáticas ou nome de mucama em filme brasileiro de época. 

Gelsemium − Remédio para senhoras histéricas. Cairia igualmente bem como nome de parlamentar corrupto. 

Ipecacuanha − Serve para bronquite catarral ou para batizar cidade do interior paulista. 

Jucaína − Remédio que não informam muito bem para o que serve, mas cujo nome seria ideal para índia de novela. 

Lobélia − Poderia ser o título de um balé do Bolshoi com coreografia de Roland Peti, mas também cura sarna. 

Stramonium − Ficaria melhor como nome de compositor russo, mas é remédio para insônia. Uma certeza: enquanto houver homeopatia, não vai faltar poesia. 

Uma certeza: enquanto houver homeopatia, não vai faltar poesia. 

Novos provérbios

(Max Nunes)

Quem não deve não treme. 

Quem tudo quer tudo pede. 

Um dia a caspa cai. 

O creme não compensa.

Max Nunes nasceu no Rio de Janeiro, em 1922. Foi o criador de Balança, Mas Não Cai (1968), e roteirista dos humorísticos Satiricom (1973), Planeta dos Homens (1976) e Viva o Gordo (1981). Também contribuiu com o texto do Programa do Jô, entre 2000 e 2014. Morreu em 2014, aos 92 anos. 

Max Nunes era adepto, como costumava dizer, do humor satírico e “limpo” – ou “do umbigo para cima”. Ele criou, na Globo, o líder de audiência Balança Mas Não Cai (1968), programa que reeditou um sucesso da Rádio Nacional nos anos 1950, colocando no ar quadros e personagens queridos do público, como Fernandinho e Ofélia, aquela que só abria a boca quando tinha certeza. Com Haroldo Barbosa – “o único sujeito do mundo que andava na chuva sem desviar da poça”, escreveu Faça Humor, Não Faça Guerra (1970), Satiricom (1973) e Planeta dos Homens (1976). Max Nunes foi padrinho de casamento de Jô Soares e também acompanhou o amigo ao longo da carreira, em diferentes emissoras. De Viva o Gordo (1981) ao Programa do Jô (2000), Max trabalhou com Jô até falecer, em 2014, aos 92 anos de idade.


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Quem realmente é pobre?

 

Um dia, um pai de família rica, grande empresário, levou seu filho para viajar até um lugarejo com o firme propósito de mostrar o quanto as pessoas podem ser pobres. 

O objetivo era convencer o filho da necessidade de valorizar os bens materiais que possuía, o status, o prestígio social; o pai queria desde cedo passar esses valores para seu herdeiro.

Eles ficaram um dia e uma noite numa pequena casa de taipa, de um morador da fazenda de seu primo... 

Quando retornavam da viagem, o pai perguntou ao filho:

− E aí, filhão, como foi a viagem para você?

− Muito boa, papai.

− Você viu a diferença entre viver com riqueza e viver na pobreza?

− Sim, pai! Retrucou o filho, pensativamente.

− E o que você aprendeu com tudo o que viu naquele lugar tão paupérrimo?

O menino respondeu:

− É, pai, eu vi que nós temos só um cachorro em casa, e eles têm quatro. Nós temos uma piscina que alcança o meio do jardim, eles têm um riacho que não tem fim. Nós temos uma varanda coberta e iluminada com lâmpadas fluorescentes e eles têm as estrelas e a lua no céu. Nosso quintal vai até o portão de entrada e eles têm uma floresta inteirinha. Nós temos alguns canários em uma gaiola, eles têm todas as aves que a natureza pode oferecer-lhes, soltas! 

O filho suspirou e continuou:

− E além do mais, papai, observei que eles oram antes de qualquer refeição, enquanto que nós, em casa, sentamos à mesa falando de negócios, dólar, eventos sociais, daí comemos, empurramos o prato e pronto! 

No quarto onde fui dormir com o Tonho, passei vergonha, pois não sabia sequer orar, enquanto que ele se ajoelhou e agradeceu a Deus por tudo, inclusive a nossa visita na casa deles. Lá em casa, vamos para o quarto, deitamos, assistimos televisão e dormimos. 

Outra coisa, papai, dormi na rede do Tonho, enquanto que ele dormiu no chão, pois não havia uma rede para cada um de nós. 

Na nossa casa, colocamos a Maristela, nossa empregada, para dormir naquele quarto onde guardamos entulhos, sem nenhum conforto, apesar de termos camas macias e cheirosas sobrando. 

Conforme o garoto falava, seu pai ficava estupefato, sem graça e envergonhado.

O filho na sua sábia ingenuidade e no seu brilhante desabafo, levantou-se, abraçou o pai e ainda acrescentou:

− Obrigado, papai, por me haver mostrado o quanto nós somos pobres! 

***** 

(Autoria desconhecida)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Charadas matemáticas

 

1 − Quantas patas têm um pato fiel?


2 − O que é que aumenta 50% do seu valor quanto está de cabeça para baixo?


3 − Quantos ovos o gigante Golias podia comer quando estava de estomago vazio?


4 − Se você for bom de matemática adivinhe: Sete enxadas e uma foice. Quantos objetos são?


5 − Um senhor de 80 kg e duas filhas com 40 kg precisam atravessar uma ilha com um barco. Só que tem um problema, o barco só suporta 80 Kg. Como farão para atravessar?


6 − Qual o mês mais curto?


7 − O rato roeu a roupa do rei de Roma, quantos erres têm nisso?


8 − Qual o mês que tem 28 dias?


9 − O que é que destrói tudo com três letras?

Respostas das charadas matemáticas

1 - Uma.
2
- O número seis.
3
- Um, depois ele já não está de estômago vazio.
4
- Seis, uma foi-se.

5 - Ele deve mandar as duas filhas, depois um filha deve voltar com o barco; agora ele vai, manda a outra filha voltar também, e por fim irão as duas filhas juntas.

6 - Maio (apenas 4 letras).
7
- Nenhum. Nisso não tem erre.
8
- Todos os meses têm 28 dias.
9
- Fim.


Como se educa a “Molhadinha”

 

O coco do coco 

Aldir Blanc e Guinga 

Moça donzela não renega um bom coco,

Nem a mãe dela, nem as tia, nem madrinha.

Num coco toco quem faz muito e acha pouco,

Em rala-rala é que se educa a molhadinha*. (bis) 


Se tu não peca, meu bem, cai a peteca, neném,

Vira polícia da xereca da vizinha.

Se tu se guarda e não tem,

Tá encruada que nem ovo no cu da galinha. 


Não tem cinismo quem diz entre a santa e a meretriz.

Só muda a forma com que as duas se arreganha.

Eu só me queixo se criar teia de aranha,

Quem nega tá de manha ou faz pouco que gozou. 


No tempo em que casei de véu com meu marido,

Era virgem no ouvido e ele nunca reclamou,

Pra ser sincero eu acho que isso inté facilitou. 

O Coco do Coco, lançado originalmente em 1996 pela paraense Leila Pinheiro. E lá se vai para a fogueira mais uma obra artística atentatória da “moral e dos bons costumes. Não é só O Coco do Coco. Letrista visado pela censura da ditadura anterior, o carioca Aldir Blanc teria parte substancial de uma obra colossal destroçada pelos dentes arreganhados e o ouvido que tudo escuta do neofascismo popular brasileiro. Vale para as ásperas parcerias mais recentes com o também carioca Guinga, como O Coco do Coco, e para a série histórica de arranhões musicais dos anos 1970 e 1980 em dupla com o mineiro João Bosco. 

(Do blog Vermelho A esquerda bem informada) 

*Molhadinha é a... eu tinha o nome na ponta da língua... 

P.S. A gravação dessa música está na internet na voz de Leila Pinheiro. Linda embolada com melodia linda e letra  escrachada, mas um escracho muito elegante.