Essa também se passa numa pequena cidade do interior gaúcho, numa época de eleições municipais. Um senhor, pequeno comerciante da comunidade, sorridente e simpático, começa, timidamente, o seu discurso para uma pequena plateia de curiosos na pacata pracinha da cidade:
‒ Meus senhores, minhas senhoras, povo desta comunidade!
Alguém, no meio do pequeno grupo, grita só de sacanagem:
‒ Cala a boca, velho!
O senhor para de falar, encara a pequena plateia e diz alto e convicto de suas palavras:
‒ Meu futuro correligionário, ser velho é uma condição que vai além da idade cronológica, envolvendo construções sociais, psicológicas e biológicas, entendeu? Mas como eu ia dizendo...
Mais uma vez, um desocupado grita bem alto:
‒ Não incomoda, ancião!
‒ Meu jovem, ser ancião abrange tanto a ideia de maturidade e sabedoria ligada à idade avançada quanto o papel de liderança espiritual e comunitária, vê se aprende esta lição. Volto ao meu discurso, meus senhores e minhas senhoras...
Novamente, um gaiato grita no meio das poucas pessoas presentes no local:
‒ Cala a boca, decrépito!
O velhinho responde, encarando a galera:
‒ Meu amigo, se ser decrépito é referir-se ao estado de decadência física, mental ou estrutural extrema, geralmente causado pelo envelhecimento avançado ou por profundo desgaste natural, eu não sou nada disso. Falei!
O velho candidato começa a ficar impaciente e nervoso. Seu rosto já está ficando vermelho de raiva. Então, ele recomeça a sua fala:
‒ Mas como eu ia dizendo, se não for mais uma vez interrompido, meus senhores e minhas senhoras!
Quando um sacana resolve pegar pesado com o velhinho:
‒ Cala a boca, velho brocha!
O idoso, que já tinha esgotado todo o seu repertório de argumentos bonitos, encara a plateia, olha bem para o sacana e descarrega sua cólera, agora sem medir as suas palavras:
‒ Velho brocha! Brocha é a puta que o pariu!
