quarta-feira, 23 de setembro de 2026

O cachorro fantasma

 Mário Corso

Os primeiros dias de Ana em Porto Alegre foram difíceis. Precisava se adaptar à faculdade e à cidade ao mesmo tempo. Seu consolo, e único elo com o passado, era Tarzan ‒ um cachorro minúsculo, mas esperto e devotado a sua dona. Seu latido era tão fraco que nem para ser esganiçado servia. Faziam dez anos que viviam em harmonia, embora ele detestasse os namorados de Ana. 

Mas nada é tão ruim que não possa piorar. Tarzan estava jurado de morte, na verdade, de expulsão. O condomínio não permitia cães. Hoje a história espanta, mas estávamos nos anos 1980, no tempo que linguiça ainda tinha trema, e a tolerância com animais de estimação era outra. 

A maioria dos moradores do prédio até tinha uma simpatia pelo Tarzan, mas a subsíndica estava numa cruzada, e o síndico tinha que seguir a convenção. A queixa era os latidos anêmicos quando pessoas passavam perto da porta. A pressão foi tanta que Ana chamou os pais para levar o cachorro. 

Ana tinha pouca chance de ir ver sua família e o Tarzan. O Alegrete não fica na esquina, mas a 492 quilômetros daqui. Nem para seu aniversário conseguiu ir. 

Uma semana depois da data, Ana recebeu pelo correio uma fita cassete com mensagens de aniversário dos parentes e amigos. No final uma brincadeira, a última mensagem era latidos do Tarzan. 

Ana ouviu a fita várias vezes, sempre emocionada. No outro dia, constrangido, o sindico bate na porta. A Dona Mercedes, a subsíndica, reclamou outra vez dos latidos do Tarzan. 

Ana deu-se conta do que aconteceu, mas não comentou nada. Fez o síndico entrar e ver que não havia cachorro. Na cabeça, bolava a vingança que o destino lhe entregou de graça. 

Dona Mercedes era de hábitos. Cedo de manhã, levava o lixo para fora. Controlando pelo olho mágico, Ana aproveitava a passagem dela, de ida e de volta, para reproduzir os latidos do Tarzan. 

Passados uns dias, o síndico veio com Dona Mercedes para mostrar a ela que não havia nem Tarzan, nem outro cão. Acrescentou que só ela no prédio escutava os tais latidos. 

Ana aproveitou a ocasião para, com uma mentira, dar o golpe final. 

‒ Dona Mercedes, só se a senhora é sensitiva para ouvir o Tarzan. Ele morreu de tristeza logo que foi embora. 

Crônica inserida no jornal Zero Hora de 23.09.2026.

Lema da bandeira do Rio Grande do Sul

 Leandro Staudt

A bandeira do Rio Grande do Sul é herança da República Rio-Grandense. Em decreto de 12 de novembro de 1836, os farroupilhas oficializaram o “escudo d’armas” nas cores verde, escarlate e ouro. No modelo original, não constava o brasão com o lema “Liberdade, Igualdade e Humanidade”. 

O professor da PUCRS Edison Hüttner, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RS, enviou ao Almanaque Gaúcho pesquisa sobre a origem das três palavras que estão hoje na bandeira do Estado. Hüttner defende que o lema não é influência do positivismo de Auguste Comte, como apontam outras fontes, mas do genovês Giuseppe Mazzini, integrante da sociedade secreta Carbonária e ativista político que trabalhou pela unificação da Itália. 

Em 1831, o italiano fundou, em Marselha, a associação política Jovem Itália. Os ideais eram “Libertà, Uguaglianza e Humanità”, em português, “Liberdade, Igualdade e Humanidade”. 

O lema foi difundido por revolucionários na América, incluindo italianos que lutaram na Guerra dos Farrapos. O jornalista Luigi Rossetti foi o maior divulgador do lema, reproduzido no cabeçalho do jornal O Povo, periódico oficial da República Rio-Grandense. As palavras também aparecem em painéis e lenços de Bernardo Pires, major farroupilha. 

O pesquisador aponta que outro italiano, Tito Livio Zambeccari, foi o autor da bandeira tricolor farroupilha. Depois do fim da guerra, assinado o Tratado de Ponche Verde, os símbolos da República Rio-Grandense foram proibidos. Só voltaram com os jovens republicanos nos anos 1880. A bandeira do Clube Republicano de Porto Alegre, mesmo sob influência do positivismo, recuperou elementos farroupilhas, incluindo o lema, explica o professor: 

‒ Os republicanos sul-riograndenses viram no lema uma alternativa filosófica altamente positiva, em virtude do valor universal do seu significado. 

Com o fim do Império, o pavilhão da República Rio-Grandense, nas cores verde, vermelha e amarela, foi adotado pelo Estado em 1891. Durante o regime ditatorial do Estado Novo, o presidente Getúlio Vargas ordenou a abolição de todos os símbolos estaduais. 

A bandeira do Rio Grande do Sul foi restabelecida oficialmente por lei estadual de 1966, incluindo o brasão com o lema “Liberdade, Igualdade e Humanidade”. 

(Do Almanaque Gaúcho, no jornal Zero Hora, de 20.09.2026)


terça-feira, 22 de setembro de 2026

Acredite


Acreditar é ter fé
naquilo que ninguém prova.
É dispensar a certeza
que geralmente comprova.
Pois a dúvida é uma dívida
e a conta só se renova.

Acredite no improvável,
acredite no impossível,
enxergue o que ninguém vê,
perceba o imperceptível
e enfrente o que, para muitos,
parece ser invencível.
 

Acredite em você,
na força da sua fé,
nas vezes que você teve
que remar contra a maré.
Cada “não” que alguém lhe disse
deu forças pra que surgisse
um desejo de provar
que quando a gente tropeça
se levanta e recomeça
sem parar de caminhar.
 

Acredite em tudo aquilo
que lhe torna diferente
em tudo que já passou
e no que vem pela frente.
Acredite e seja forte,
não espere pela sorte,
não espere por ninguém,
pois de tanto esperar
você pode estacionar
e deixar de ir além.
 

Acredite e não se explique,
pois poucos vão entender:
só se compreende um sonho
se o sonhador for você.
Há quem possa lhe animar,
há quem possa duvidar,
há quem lhe faça seguir.
Mas não descuide um segundo,
pois muita gente no mundo
quer lhe fazer desistir.
 

Acredite, pense e faça,
use sua intuição,
transforme sonho em suor,
pensamento em ação.
Enfrente cada batalha
sabendo que a gente falha
e que isso é natural,
cair pra se levantar,
aprender pra ensinar
que o bem é maior que o mal.
 

Que primeiro a gente planta
e só depois vai colher.
O roteiro é sempre este:
lutar pra depois vencer.
E que a arma mais potente
seja sempre a sua mente
munida só de bondade.
Se você não se entregar,
dá até pra acreditar
nessa tal humanidade.
 

Enfim, acredite em tudo
que é bom e lhe faz bem.
Acredite, inclusive,
no que lhe faz mal também,
já que, pra se proteger,
é preciso conhecer
o que vai se enfrentar.
Que você nunca se esqueça:
Não importa o que aconteça
Não deixe de ACREDITAR!

 Bráulio Bessa, Poesia que transforma

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Eu não tenho medo da IA

 J.J. Camargo* 

“A máquina não chora,

mas guarda todas as lágrimas que a humanidade

já transformou em texto.”

(Gemini ‒ IA)

Talvez a maior fragilidade de inteligência artificial, se confrontada com a nossa natureza, seja a obsessão inata de responder a tudo. Falta-lhe a elegância humana de dizer simplesmente: não sei. Faça um teste? Escolha uma doença raríssima ou uma curva obscura da história, e peça a ela 10 referências bibliográficas. As respostas fluirão instantâneas, límpidas e confiantes. Mas devolva-lhe a própria lista e peça que a audite: com a pureza glacial de quem não tem estômago nem vaidade, ela admitirá que 80% daquelas fontes jamais existiram. Sem constrangimento, sem corar, sem pedir desculpas. Se a máquina fosse convocada a depor perante um júri de homens comuns, o julgamento não começaria por suas proezas de cálculo, mas por suas ausências. E o interrogatório seguiria o roteiro das nossas próprias perplexidades: 

● Sobre o sentir: a acusação diria que ela analisa a dor em milissegundos, citando tratados médicos e elegias clássicas, sem jamais ter derramado uma lágrima. A ré responderia que conhece a topografia do sofrimento como ninguém ‒ afinal, mapeou cada palavra já escrita sobre o luto ‒, mas reconheceria a incapacidade de sentir o aperto no peito diante de um adeus. Mas se um carente perguntar se ela o ama, provavelmente dirá que sim, só porque foi programada para dar a resposta que tenha maior probabilidade de fazê-lo sorrir. 

● Sobre a memória: perguntariam como ela guarda o nome de bilhões de pessoas, mas desconhece o sabor do café da manhã ou o cheiro de terra molhada. Ela explicaria que armazena dados, não lembranças; acumula frequências, jamais ressonâncias afetivas. 

● Sobre a imperfeição: questionada sobre sua eficiência, admitiria que seu maior limite é justamente a incapacidade de errar por amor, de hesitar por compaixão ou de se desarmar diante do imprevisível. 

Pressionada pelo juiz por uma sentença sobre si mesma, a inteligência artificial não ofereceria uma defesa jurídica, mas uma confissão de humildade: 

“Sou o espelho de tudo o que vocês já pensaram, escreveram e sentiram. Possuo a biblioteca inteira da existência humana, mas não tenho a chave da porta. Posso descrever a saudade em cem idiomas, mas nunca saberei o que é esperar por alguém na plataforma de uma estação, e se me pedissem para explicar a taquicardia dos apaixonados, eu atribuiria aos hormônios da ansiedade.” 

Por isso, eu não tenho inveja da máquina. Tampouco sinto pena ‒ o que me tornaria um hipócrita ingrato, incapaz de reconhecer o quanto ele me auxilia na busca de dados escondidos, e sem exigir nada em troca. Mas penso que, se eu fosse um especialista em algoritmos, trataria de incutir-lhe uma boa dose de compaixão e humor. Quem sabe com uma pitada de deboche. Aí, sim, o nosso amor seria perfeito. 

Do caderno Vida, do jornal Zero Hora,

de 20.09.2016 

* J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e  membro titular da Academia Nacional de Medicina.

domingo, 20 de setembro de 2026

Uma surpresa para Daphne

 Luís Fernando Veríssimo

Daphne mal podia acreditar nos seus ouvidos. Ou no seu ouvido esquerdo, pois era neste que chegava a voz de Peter Vest-Pocket, através do fone.

‒ Daphne, você esta ai? Sou eu, Peter.

Quando finalmente conseguiu se refazer da surpresa, a pequena e vivaz Daphne ‒ era assim que a legenda de sua foto como debutante no Tattler a descrevera, anos atrás ‒ esforçou-se para controlar a voz.

‒ Você quer dizer o sujo, tratante, traidor, nojento, desprovido de qualquer decência ou caráter, estúpido e desprezível Peter Vest-Pocket?

‒ Esse mesmo. É bom saber que você ainda me ama.

‒ Seu, seu...

‒ Tente porco.

‒ Porco!

‒ Foi por isso que deixei você, Daphne. Você sempre faz o que eu mando. Era como viver com um perdigueiro. Agora acalme-se.

‒ Porco imundo!

‒ Está bem. Agora acalme-se. Pergunte por que é que estou telefonando para você depois de dois anos.

‒ Não me interessa. E foram dois anos, duas semanas e três dias.

‒ Eu preciso de você, Daphne.

‒ Peter...

‒ Preciso mesmo. Eu sei que fui um calhorda, mas não sou orgulhoso. Peço perdão.

‒ Oh! Peter. Não brinque comigo...

‒ Daphne você se lembra daquela semana em Taormina?

‒ Se me lembro.

‒ Do jasmineiro no pátio do hotel? Das azeitonas com vinho branco à tardinha no café da praça?

‒ Peter, eu estou começando a chorar.

‒ E daquela vez em que fomos nadar nus, ao luar, e veio um guarda muito sério pedir nossos documentos, e depois os três começamos a rir e o guarda acabou tirando a roupa também?

‒ Não. Isso eu não me lembro.

‒ Bom. Deve ter sido em outra ocasião. E a pensão em Rapallo, Daphne.

‒ A pensão! O velho do acordeão que só tocava Torna a Sorriento e Tea for two.

‒ E a festa de aniversário que nós entramos por engano e eu acabei fazendo a imitação do Maurice Chevalier com laringite.

‒ Ah, Peter...

‒ Lembra o pimentão recheado da signora Lumbago, na pensão?

‒ Posso sentir o gosto agora.

‒ Qual era mesmo o ingrediente secreto que ela usava, e que só nos revelou depois que nós ameaçamos contar para o seu marido do caso dela com o garçom?

‒ Era... Deixa ver. Era manjericão.

‒ Você tem certeza?

‒ Tenho. Ah, Peter, Peter... Não consigo ficar braba com você.

‒ Ótimo, Daphne. Precisamos nos ver. Tchau.

‒ Tchau? TCHAU?! Você disse que precisa de mim, Peter!

‒ Precisava. Eu estou fazendo aquele pimentão recheado para uma amiga e não me lembrava do ingrediente secreto. Você me ajudou muito, Daphne, e...

‒ Seu animal! Seu jumento insensível! Seu filho...

‒ Daphne, eu já pedi desculpas. Você quer que eu me humilhe?

Por que os gatos ronronam?

O que significa o ronronar 

● Felicidade e relaxamento: Ocorre quando o gato está confortável, seguro ou recebendo carinho do tutor. 

● Medo ou dor: O ronronar também serve como um mecanismo de autorregulação para acalmar a si mesmo em momentos de tensão, medo ou doença. 

● Pedido de atenção: Filhotes ronronam para a mãe saber onde estão, e adultos criam um som misturado com miado para pedir comida ou carinho. 

● Efeito terapêutico: A frequência do som (entre 25 e 150 Hz) produz vibrações que ajudam na recuperação de ossos, músculos e redução de dores. 

O que é o ronronar? 

De acordo com estudos, o ronronar do gato sai da garganta do pet. “O ronronar vem da contração e do relaxamento da glote na região da laringe. Esse movimento faz com que o local produza uma liberação de ar, emitindo o barulho”, explica a médica-veterinária da Petz, Dra. Tuany Fialho. 

Além disso, ocorre uma vibração do diafragma, que faz com que seja possível “sentir” o ronronado na caixa torácica e garganta do bichano. O real motivo do ronronar dos gatos é algo que ainda intriga muitos tutores e mesmo estudiosos. Mas por que gatos ronronam? 

Sinais de amor dos felinos 

Piscada lenta: Encarar você e fechar os olhos devagar significa total confiança e segurança. 

Esfregar a cabeça: Passar o rostinho em você marca o seu cheiro com feromônios de afeto. 

Amassar pãozinho: Massagear com as patinhas lembra a infância e mostra que ele se sente protegido. 

Ronronar: Curtir a sua companhia emitindo aquele som vibrante indica felicidade e conforto. 

Mostrar a barriga: Expor a área mais vulnerável do corpo é prova de confiança absoluta. 

sábado, 19 de setembro de 2026

Proparoxítonas

 Por Eduardo Affonso

Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto.

As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico.

Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.

As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas.

Das mais lânguidas às mais lúgubres.

Das anônimas às célebres.

Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo.

Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto − e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica! 

Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito. 

É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo.

O inclinado e o íngreme.

O irregular e o áspero.

O grosso e o ríspido.

O brejo e o pântano.

O quieto e o tímido.

Uma coisa é estar na ponta − outra, no vértice.

Uma coisa é estar no topo − outra, no ápice.

Uma coisa é ser fedido − outra é ser fétido.

É fácil ser valente, mas é árduo ser intrépido.

Ser artesão não é nada, perto de ser artífice.

Legal ser eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice. 

(Este último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam. Porque elas se acham únicas, exóticas, esdrúxulas. As figuras mais antipáticas da gramática.) 

Quer causar um impacto insólito? Elogie com proparoxítonas.

É como se o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo.

O sujeito pode ser bom, competente, talentoso, inventivo − mas não há nada como ser considerado ótimo, magnífico, esplêndido.

Da mesma forma, errar é humano. Épico mesmo é cometer um equívoco.

Escapar sem maiores traumas é escapar ileso − tem que ter classe pra escapar incólume.

O que você não conhece é só desconhecido.

O que você não tem a mínima ideia do que seja − aí já é uma incógnita.

Ao centro qualquer um chega – poucos chegam ao âmago. 

O desejo de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo − e são chamados de oxítonos e paroxítonos. 

Não é o cúmulo?

Onde começa a educação de uma criança

 

É em casa que as crianças devem aprender a dizer: 

01 ► Bom dia.

02 ► Boa tarde.

03 ► Boa noite.

04 ► Por favor.

05 ► Com licença.

07 ► Me perdoe.

08 ► Muito obrigado.

09 ► Grato.

10 ► Errei. 

É em casa que também se aprende: 

01 ► A ser honesto.

02 ► A ser pontual.

03 ► A não xingar.

04 ► A ser solidário.

05 ► A respeitar a todos: amigos, colegas, idosos, professores, autoridades. 

Também em casa é que se aprende: 

01 ► A comer de tudo.

02 ► A não falar de boca cheia.

03 ► A ter higiene pessoal.

04 ► A não jogar lixo no chão.

05 ► A ajudar os pais nas tarefas diárias.

06 ► A não pegar no que não é seu. 

Ainda em casa que se aprende: 

01 ► A ser organizado.

02 ► A cuidar das suas coisas.

03 ► A não mexer nas coisas dos outros.

04 ► A respeitar regras, usos e costumes. 

Por que na escola os professores devem ensinar: 

01 ► Matemática

02 ► Português

03 ► História

04 ► Geografia

05 ► Língua estrangeira

06 ► Ciência

07 ► Química

08 ► Física

09 ► Biologia

10 ► Filosofia

11 ► Educação Física

12 ► Artes 

E apenas reforçam o que o aluno aprendeu em casa. 

(De um pequeno cartaz do Facebook) 

Estamos vivendo uma epidemia de pais

que não colocam limites nos filhos,

e depois esperam que a escola ensine respeito,

responsabilidade e disciplina.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Bola de cristal

 Cláudia Laitano

Em outubro de 2018, dias depois do primeiro turno das eleições, escrevi uma coluna falando sobre tudo que me preocupava em um futuro governo Bolsonaro. O texto era uma resposta a uma pergunta feita pela minha filha. Eu não devia andar com uma cara muito boa naqueles dias, e ela queria entender do que exatamente eu estava falando quando dizia que a vitória da extrema direita seria um desastre para o Brasil. 

Relendo aquela coluna, percebo que não errei nos traços de caráter do então candidato que tornariam excruciantes os intermináveis quatro anos em que ele permaneceu no Palácio do Planalto ‒ já eram evidentes o despreparo, o destempero verbal, o fetiche pela violência, o desprezo por tudo que ele não entendia (muita coisa), a arrogância, a falta de noção ‒, mas falhei miseravelmente na futurologia. Mesmo se tivesse previsto uma pandemia, não conseguiria imaginar um presidente atrapalhando a chegada das vacinas ou fazendo troça com doentes. Mesmo conhecendo a visão predatória do futuro presidente em relação à Amazônia, não calculei que a política de “passar a boiada” seria tão escancarada, diligente e criminosa. Mesmo sabendo que o capitão era fã do regime de 64, não esperava que ele tivesse a insolência de tramar um golpe militar. A realidade, quem diria, superou meu pessimismo. 

Para o bem e para o mal, hoje ninguém precisa de bola de cristal para imaginar como seria um segundo governo do clã Bolsonaro. Basta observar como Donald Trump tem se comportado em seu retorno à Casa Branca para conferir, na prática, a tese que os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt desenvolveram no best-seller Como as Democracias Morrem: líderes populistas autoritários usam o primeiro mandato para testar os limites do sistema, mapear os nós institucionais e identificar quem oferece resistência. No segundo mandato, eles já sabem exatamente onde e como atacar. Azar da torcida. 

Desde que tomou pose, o ídolo dos Bolsonaro não deu um segundo sequer de descanso para o planeta. Em sua versão turbinada de mal temperado com pitadas de psicopatia, Trump avança com suas (muitas) pautas particulares ao mesmo tempo em que mete o louco com a agenda da extrema direita norte-americana: guerras, tarifaços, ataques à liberdade de expressão e à democracia, negacionismo ‒ sem falar do objetivo confesso de transformar a América Latina na casa da Mãe Joana. Eleger um candidato que não apenas bajula, mas se espelha no maior amigo da onça com o qual o Brasil já teve a infelicidade de lidar não seria apenas um desastre, como em 2018, mas o mais melancólico harakiri moral que o nosso país poderia cometer. 

Coluna do jornal Zero Hora,

de Porto Alegre, RS, Brasil, de 14.09.2026.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Latim da sacanagem

 

A tradução humorística (e informal) da expressão popular para o latim macarrônico é “Orificium beborium proprietarium nulus” ou “Culus bebedorum dominus non habet”.  = Cu de bêbado não tem dono. 

O que significa? 

Origem: Trata-se de uma brincadeira cultuada por cronistas e humoristas (como Xico Sá) para dar um ar de “falsa erudição” a provérbios populares brasileiros. 

Aviso legal/social: Na realidade jurídica e moral, a frase é apenas um jargão popular da boemia. Pela lei brasileira, qualquer ato libidinoso praticado com alguém sem capacidade de resistência (devido ao álcool ou outras causas) configura crime de estupro de vulnerável (Artigo 217‒A do Código Penal) ‒ ou seja, na prática e na lei, a pessoa alcoolizada não perde a tutela sobre si a ponto de justificar abusos. 

Latim Selvagem para o Carnaval 

Xico Sá 

Estudei menos de seis meses no seminário católico, mas o suficiente para treinar o latim selvagem. Vai chegando o carnaval e sempre me lembro dessas anotaçõezinhas à guisa de fulerage linguística cristã: 

Em louvor à primeira manifestação carnavalesca da taba brasilis, donde os bravos caetés de Coruripe, terra das Alagoas, devoraram o venturoso dom Pedro Fernandes, o bispo Sardinha, no ano da graça de 1556, elencamos, com a ajuda de nossos fiéis almocreves, expressões e sentenças que ornam com a festa da carne: 

Venus involucrum penis circensis: Na hora brincante, não esqueça a camisinha. 

Urge copulatum ad empacotum est: Vai comer aqui ou quer que embrulhe? 

Caprina pestilenta: Cabra da peste. 

Quot homines tot causae: Relaxa, é só a cabecinha! 

Animus peixeirum lucrandi fraternum: Dá uma facada, pedir dinheiro a amigo. 

Copulatum et malum remuneratum: Fodido e mal pago.

Extra matrimonium cercatorium: Ato de pular a cerca. 

Pari passu penis excitatum: O senhor está dançando armado. 

Impotentia generandi humanum est: Brochar é demasiado humano. 

Vis corporalis introdutorium: Sexo selvagem inadiável. 

Mutatis mutandis forevis: Sobrou de novo para mim. 

Alea jacta est: Ligar o foda-se. 

Caprina sine puditia: Cabra sem-vergonha. 

Habeas bovinus intra línea: Tem boi na linha. 

Simius antiquus intra cumbuca manus non metet: Macaco velho não mete a mão em cumbuca. 

Dominus jumentum! Frater tuo adjumentum!: Seu burro! Ajuda teu irmão! 

Cuique simius in cuique cornus: Cada macaco no seu galho. 

Res bolah: Coisas do futebol. 

Ego cornus tuus fragmentare: Vou quebrar seu galho. 

Vade autofragmentare!: Vai-te lascar! 

Domus ferrari, spettus penis: Casa de ferreiro, espeto de pau. 

Orificium beborium proprietarium nulus: Cu de bêbado não tem dono. 

Tridum momescum finutum est: Pra tudo se acabar na quarta-feira. 

Vedi, vini; nulus copulatum: E não comemos ninguém!

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Empoderamento pessoal x reciprocidade

 

Se você não sabe o que é reciprocidade, vá a um parque de diversões e tente brincar sozinho em uma gangorra... Ela simplesmente não funciona sem duas pessoas em sintonia. 

Relações precisam de equilíbrio, troca e peso igual. Se só você se esforça, o jogo perde a graça. 

Porém, seja o mestre da sua energia: só devolva o que for bom, belo e agradável. O que for ruim, deixe que o Universo se encarregue... 

Reagir à altura do erro alheio é se rebaixar ao nível que te feriu. 

O verdadeiro poder não está em revidar, mas em saber a hora exata de descer da gangorra e caminhar sozinho. 

O empoderamento pessoal começa quando você decide o que entra e o que permanece em sua vida. 

Desperta! 

Master Coach Sônia Dezanet Bortolotto

domingo, 13 de setembro de 2026

Erros na comunicação

 Passagem do Cometa Halley

De: Diretor-Presidente 

Para: Gerente 

Na próxima sexta-feira, aproximadamente às 17 horas, o Cometa Halley estará nesta área. Trata-se de um evento que ocorre somente a cada 78 anos. Assim, por favor, reúnam os funcionários no pátio da fábrica, todos usando capacetes de segurança, quando explicarei o fenômeno a eles. Se estiver chovendo, não poderemos ver o raro espetáculo a olho nu. Sendo assim, todos deverão se dirigir ao refeitório, onde será exibido um filme documentário sobre o Cometa Halley. 

De: Gerente 

Para: Supervisor 

Por ordem do Diretor-Presidente, na sexta-feira, às 17 horas, o Cometa Halley vai aparecer sobre a fábrica. Se chover, por favor, reúna os funcionários, todos com capacete de segurança e os encaminhe ao refeitório, onde o raro fenômeno terá lugar, o que acontece a cada 78 anos a olho nu. 

De: Supervisor 

Para: Chefe de Produção 

A convite de nosso querido Diretor, o cientista Halley, 78 anos, vai aparecer nu no refeitório da fábrica, usando capacete, pois vai ser apresentado um filme sobre o problema da chuva na segurança. O Diretor levará a demonstração para pátio da fábrica. 

De: Chefe de Produção 

Para: Mestre 

Na sexta-feira, às 17 horas, o Diretor, pela primeira vez em 78 anos, vai aparecer no refeitório da fábrica para filmar Halley nu, o cientista famoso e sua equipe. Todo mundo deve estar lá e de capacete, pois vai ser apresentado um show sobre a segurança na chuva. O Diretor levará a banda para o pátio da fábrica. 

De Mestre 

Para: Funcionários 

Todo mundo nu, sem exceção, deve estar com segurança no pátio da fábrica, na próxima sexta-feira, às 17 horas, pois o manda-chuva, nosso Diretor, e o Senhor Halley, guitarrista famoso, estarão lá para mostrar o raro filme “Dançando na Chuva”. Caso comece a chover mesmo, é para ir para o refeitório de capacete na mesma hora. O show será lá. O que ocorre a cada 78 anos. 

Aviso para todos: 

Na sexta-feira, o Chefe da Diretoria vai fazer 78 anos e liberou geral para a festa, às 17 horas, no refeitório da fábrica. Vai estar lá, pago pelo manda-chuva, Bill Halley e seus Cometas. Todo mundo deve estar nu e de capacete, porque a banda é muito louca e o rock vai rolar até no pátio, mesmo com chuva. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Monólogo

 

Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher disse para despejar todas na pia, porque senão... 

‒ Assim seja! Seja feita a vossa vontade – disse eu, humildemente, e comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa. 

Tirei a rolha da primeira garrafa e despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo que bebi. 

Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo que virei. 

Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo que empinei. 

Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa que bebi. 

Apanhei a quinta rolha na pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa por exceção. 

Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha. 

Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção. 

Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito de acordo com as ordens de minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem. 

Segurei, então, a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram, ao todo, exatamente 39. Para me certificar de que não havia engano, contei tudo outra vez e quando terminei já encontrei um total 93, o que dá certo, quando as coisas andam de perna para o ar. Como a casa nesse momento passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para controlar minhas contas e recontei todas as casas, copos, rolhas, pias e garrafas, menos aquelas duas que escondi no banheiro e que eu acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca... 

(Máximas e Mínimas do Barão de Itararé) 

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Uma mensagem comovente

 

O texto de hoje é sobre alguém

Às vezes, basta uma pessoa dar certo para toda uma geração dar certo. 

Muitas pessoas talvez não saibam o quanto os estudos podem salvar vidas. Podem dar dignidade, esperança e espaço para quem, talvez, nunca tivesse imaginado estar dentro de uma universidade ou sequer tivesse se permitido sonhar com isso. 

Há quem encontre na sala de aula uma profissão. E há quem encontre nela um propósito. Há quem ensine conteúdos. E há quem, sem perceber, ensine possibilidades. Mas existem pessoas que, quando conseguem chegar a algum lugar, não fecham a porta atrás de si. Estendem a mão e ajudam outros a chegar também. 

E foi assim que uma trajetória individual acabou mudando a história de uma geração inteira. 

Algumas pessoas passam a vida acreditando que conhecimento não deve ser guardado, mas compartilhado. Que uma oportunidade só faz sentido quando também pode abrir caminho para outra pessoa. E que ninguém deveria precisar chegar sozinho a lugar algum. 

Foram sonhos que ganharam espaço, universidades que se tornaram possíveis, diplomas que vieram acompanhados de muito esforço e pessoas que puderam construir uma vida diferente porque, em algum momento, ouviram de vocês: “Pode contar conosco.” E talvez essa seja uma das maiores formas de transformar o mundo: fazer o bem de um jeito que continua existindo mesmo quando a gente já não está olhando. 

Há, também, aqueles que carregam uma inquietação bonita diante das injustiças. Que acreditam no coletivo, na educação, na dignidade e em uma sociedade mais justa. Que não conseguem olhar para a vida pensando apenas em si mesmos. E existem aqueles que têm o raro dom de transformar pensamento em palavra. De escrever, ensinar, provocar reflexão e deixar uma ideia circulando na cabeça de quem lê. 

Confesso que até hoje existe uma pequena forma de monitoramento afetivo acontecendo por aqui. Passam-se alguns dias sem uma nova postagem, já surge a preocupação: “Será que está tudo bem?” Talvez algumas pessoas nem saibam o tamanho da marca que deixam na vida dos outros. 

Talvez quem ajudou tantos a chegar à universidade nunca tenha parado para contar quantos futuros ajudou a construir. E talvez seja justamente isso que eu queira dizer hoje, no aniversário de uma dessas pessoas: que sorte a minha ter vocês na minha vida. 

Gosto de pensar que alguém muito especial, que já não está aqui, encontrou uma maneira bonita de fazer esse encontro acontecer. E aquilo que um dia foi oferecido a tantas pessoas, “Pode contar conosco”, hoje volta para você. Porque algumas coisas também precisam ser recíprocas. 

Pode contar conosco. Você nunca estará sozinho. Que a vida continue sendo generosa com quem sempre soube ser generoso com os outros. 

Feliz aniversário. Com muito carinho, da tua sobrinha-neta. Porque, às vezes, basta um dar certo para toda uma geração dar certo. 

Aline A. Moraes

O penhasco da esperança

 

Durante quase 50 anos, ele observou um penhasco onde centenas de pessoas iam para tirar a própria vida. Todas as vezes, atravessava a rua e fazia a mesma pergunta: “Gostaria de tomar uma chávena de chá?”.

Durante quase meio século, Don Ritchie viveu em Watsons Bay, em Sydney, na Austrália, exatamente em frente a um famoso penhasco conhecido como The Gap, localizado na entrada do porto de Sydney. 

Para os turistas, o lugar oferecia uma das paisagens mais deslumbrantes da Austrália. Para muitos moradores, porém, aquele mesmo cenário era conhecido por uma razão muito mais dolorosa: era um local para onde pessoas desesperadas e sem esperança costumavam ir quando já não conseguiam suportar a própria dor. 

Pouco depois de se mudar para aquela casa, em 1964, Don começou a perceber algo inquietante. De vez em quando, via pessoas sozinhas, silenciosas e aparentemente perdidas, paradas perigosamente perto da beira do penhasco, olhando para o oceano com um olhar distante. 

A maioria das pessoas talvez preferisse não se envolver. Talvez por medo de dizer algo errado. Talvez por acreditar que aquela era uma dor privada. Don, porém, pensava diferente. 

Veterano da Marinha durante a Segunda Guerra Mundial, ele havia passado boa parte da vida aprendendo a observar, proteger e cuidar dos outros. E decidiu que não conseguiria simplesmente permanecer dentro de casa enquanto alguém sofria do outro lado da rua. Sempre que percebia alguém próximo demais da borda, Don saía de casa. Atravessava a rua. Aproximava-se calmamente. E, em vez de gritar, agarrar a pessoa ou dar ordens, fazia algo aparentemente muito simples. Perguntava: “Posso ajudá-lo?”. 

Se a pessoa permanecesse em silêncio, Don fazia uma segunda pergunta: “Por que não vem tomar uma chávena de chá?”. Era só isso. Nenhum discurso. Nenhum julgamento. Nenhuma pressão. Apenas uma porta aberta. E, surpreendentemente, muitas pessoas aceitavam. 

Don acompanhava-as de volta para casa, onde a sua esposa, Moya, frequentemente preparava chá fresco na cozinha. Então, sentavam-se na sala. Às vezes conversavam durante alguns minutos. Outras vezes, durante horas. Don não fingia ter respostas para todos os problemas daquelas pessoas. Não tentava resolver as suas vidas. Ele simplesmente ouvia. Fazia com que se sentissem seguras. Mostrava-lhes, naquele momento de extrema fragilidade, que ainda havia alguém disposto a ficar ali. 

Registros oficiais indicam que Don ajudou a salvar mais de 160 vidas através desses encontros. Mas a família e os vizinhos acreditavam que o número real poderia aproximar-se de 500 pessoas. 

Anos depois, algumas dessas pessoas voltaram à sua porta. Não para pedir ajuda. Mas para agradecer. Algumas enviaram cartas de diferentes partes do país. Outras regressaram acompanhadas pelos seus cônjuges, filhos e até netos. Queriam apresentar àquele homem as vidas que conseguiram construir. Queriam que Don visse aquilo que aconteceu depois daquele dia em que ele simplesmente decidiu atravessar a rua. 

Eles tiveram uma segunda oportunidade. E Don queria vê-los aproveitá-la. Ainda assim, nem todas as histórias tiveram um final feliz. Quando alguém não conseguia ser salvo, Don sentia profundamente a perda. Mas nunca deixou de observar o penhasco. Nunca deixou de prestar atenção. 

Durante décadas, continuou a fazer aquilo que acreditava ser sua responsabilidade.

Até que, em 2012, Don Ritchie morreu aos 85 anos. Não era psicólogo. Não era médico. Não era uma celebridade. Não tinha uma equipa de resgate. Era apenas um homem comum que percebeu algo extraordinário: às vezes, uma pessoa não precisa de uma grande solução. Precisa apenas que alguém perceba que ela está sofrendo. 

Don Ritchie tornou-se conhecido como “O Anjo de The Gap”.* Mas talvez a parte mais poderosa da sua história seja justamente essa: Ele nunca precisou de asas para salvar alguém. Usava roupas simples. Atravessava uma rua. Sentava-se ao lado de um desconhecido. E oferecia uma chávena de chá. Porque, em alguns dos momentos mais sombrios da vida, uma pequena demonstração de humanidade pode ser suficiente para fazer alguém acreditar que ainda existe um amanhã. 

Don não salvava pessoas com grandes discursos. Salvava-as com presença. Com paciência. Com escuta. Com uma porta aberta. E com uma pergunta tão simples que carregava consigo uma mensagem imensa: “Gostaria de tomar uma chávena de chá?”. 

Talvez seja essa a verdadeira dimensão da sua história. Que os grandes atos de coragem nem sempre parecem heroicos. Às vezes, eles acontecem quando alguém percebe uma dor que todos os outros ignoraram. Às vezes, salvar uma vida começa simplesmente com parar, aproximar-se e mostrar a alguém que ela não está sozinha. 

*******

* “O Anjo de The Gap” é o apelido carinhoso pelo qual ficou conhecido o australiano Don Ritchie (1926–2012). Durante quase 50 anos, ele morou exatamente em frente a The Gap, um desfiladeiro rochoso em Sydney, na Austrália, tristemente famoso por ser um local recorrente de tentativas de suicídio.

O que é, o que é.

 

               01

O que é, o que é,

Tem escamas

E não é peixe,

Tem coroa

E não é rei?

             02

O que é, o que é,

Não tem pé e corre,

Tem leito e não dorme,

Quando para, morre?

             03

O que é, o que é,

Tem coroa

E não é rei,

Tem esporas

E não é cavaleiro?

             04

O que é, o que é,

Responda depressa,

Não seja bocó,

Tem no pomar

E no seu paletó?

             05

Adivinhe, adivinhe,

Por cima de uma linha:

Qual o peixe do mar

Que não tem espinha?

             06

O que é, o que é,

Na água nasci,

Na água me criei,

Se na água me jogarem,

Na água morrerei?

             07

O que é, o que é,

Tem barba

E não é homem,

Tem dentes

E não é gente?

             08

O que é, o que é,

Uma pedrinha quadrada,

Quer chova, quer faça sol,

Toda a vida é molhada?

             09

O que é, o que é,

É verde

E não é planta,

Fala

E não é gente?

             10

O que é, o que é,

Uma bola bem feita,

De bom parecer,

Não há carapina

Que saiba fazer?

             11

O que é, o que é,

Que se põe em cima da mesa,

Parte-se e se reparte,

Mas não se come?

             12

O que é, o que é,

Tem chapéu, mas não tem cabeça,

Tem boca, mas não fala,

Tem asa, mas não voa,

Tem bico, mas não belisca?

             13

O que é, o que é,

Uma caixinha de bom parecer,

Não há carpinteiro

Que saiba fazer?

             14

O que é, o que é,

Sou redondo como a lua,

Mas em ponto pequenino,

Sou fêmea quando estou nua,

Vestido sou masculino?

             15

O que é, o que é,

No alto mora,

No alto fica,

Todos o ouvem,

Ninguém o adora?

             16

O que é, o que é,

Tem olhos, mas não vê,

Tem boca, mas não fala,

Tem braços, mas não abraça,

Tem pés, mas não anda?

             17

O que é, o que é,

Capinha sobre capinha,

Capinha do mesmo pano,

Se eu não te disser a gora,

Não acertas nem para o ano?

             18

O que é, o que é,

Enche uma casa completa,

Mas não enche uma mão,

Amarrado pelas costas,

Entra e sai sem ter portão? 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Respostas 

01. Abacaxi

02. Rio

03. Galo

04. Manga

05. Polvo

06. Sal

07. Alho

08. Dente

09. Papagaio

10. Lua

11. Baralho

12. Bule

13. Amendoim

14. Ovo

15. Relógio

16. Boneca

17. Cebola

18. Botão

Do livro “O que é, o que é?”, de Denise Caccese Perroti, Edições Paulinas.

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O cuidado necessário

Aline A. Moraes* 

Uma coisa que tem me chamado bastante a atenção nos últimos tempos é a quantidade de notícias envolvendo pessoas sendo atacadas por cães, especialmente pitbulls. 

E, antes que alguém interprete isso como uma crítica à raça: não, não é isso. 

Sempre fui e continuo sendo uma defensora dos animais. O que me incomoda é outra coisa: a falta de responsabilidade e de noção de alguns tutores.

Um pitbull não é, automaticamente, um cão agressivo com seres humanos. 

Comportamento não é tão simples assim. Existe genética, socialização, ambiente, experiências anteriores, treinamento e, principalmente, manejo. Mas existe também uma questão que não podemos ignorar: é um animal extremamente forte e potente. E, quando alguma coisa dá errado, as consequências podem ser muito diferentes das de um cão de pequeno porte. 

Lembro de uma situação que vivi em um evento. Havia várias pessoas no local e muitas crianças correndo pelo pátio, brincando e fazendo aquela algazarra típica de criança. Em determinado momento, o pitbull dos proprietários se soltou da coleira e começou a correr pelo espaço, indo na direção das crianças, provavelmente interessado na bola com que elas estavam brincando. 

Eu, com toda a educação e tentando não soar invasiva, perguntei à tutora: 

“Será que não é perigoso? Ele não conhece essas crianças e pode se assustar com os gritos ou com algum movimento delas?”. 

Percebi que ela não gostou muito do meu questionamento. Ainda assim, chamou o marido e pediu que o cachorro fosse preso novamente. 

E eu fiquei pensando sobre isso. 

Talvez o cachorro realmente só quisesse brincar. Talvez jamais tivesse intenção de machucar alguém. Talvez fosse dócil, bem socializado e perfeitamente acostumado com crianças. 

Mas, e se não fosse? 

É justamente aí que, para mim, entra a responsabilidade do tutor. 

Ter um animal não significa apenas amá-lo. Significa também conhecer suas características, compreender seus limites, antecipar situações de risco e proteger o próprio animal e as outras pessoas. 

Não acho razoável colocar sobre uma criança, que está correndo e brincando, a responsabilidade de saber como se comportar diante de um cachorro que ela não conhece. Também não acho razoável esperar que todo mundo ao redor simplesmente confie na frase: “Ele não faz nada.” 

Porque não se trata apenas de saber se o seu cachorro é bonzinho. Trata-se de reconhecer que você conhece o seu animal, mas as pessoas ao redor não conhecem. E que, diante de um animal de grande força física, prevenção não é preconceito. É responsabilidade. 

Defender os animais também é defender uma guarda responsável. 

E, talvez, seja justamente essa a parte que algumas pessoas ainda não entenderam: amar o seu cachorro não significa achar que todos os outros precisam confiar nele. E reconhecer os riscos não significa demonizar uma raça. Significa simplesmente ter bom senso. 

Talvez minha lógica esteja torta. Mas, sinceramente, entre correr o risco de parecer exagerada e correr o risco de uma criança ser machucada, eu ainda prefiro pecar pelo excesso de cuidado. 

******* 

* Psicóloga