quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O cuidado necessário

Aline A. Moraes* 

Uma coisa que tem me chamado bastante a atenção nos últimos tempos é a quantidade de notícias envolvendo pessoas sendo atacadas por cães, especialmente pitbulls. 

E, antes que alguém interprete isso como uma crítica à raça: não, não é isso. 

Sempre fui e continuo sendo uma defensora dos animais. O que me incomoda é outra coisa: a falta de responsabilidade e de noção de alguns tutores.

Um pitbull não é, automaticamente, um cão agressivo com seres humanos. 

Comportamento não é tão simples assim. Existe genética, socialização, ambiente, experiências anteriores, treinamento e, principalmente, manejo. Mas existe também uma questão que não podemos ignorar: é um animal extremamente forte e potente. E, quando alguma coisa dá errado, as consequências podem ser muito diferentes das de um cão de pequeno porte. 

Lembro de uma situação que vivi em um evento. Havia várias pessoas no local e muitas crianças correndo pelo pátio, brincando e fazendo aquela algazarra típica de criança. Em determinado momento, o pitbull dos proprietários se soltou da coleira e começou a correr pelo espaço, indo na direção das crianças, provavelmente interessado na bola com que elas estavam brincando. 

Eu, com toda a educação e tentando não soar invasiva, perguntei à tutora: 

“Será que não é perigoso? Ele não conhece essas crianças e pode se assustar com os gritos ou com algum movimento delas?”. 

Percebi que ela não gostou muito do meu questionamento. Ainda assim, chamou o marido e pediu que o cachorro fosse preso novamente. 

E eu fiquei pensando sobre isso. 

Talvez o cachorro realmente só quisesse brincar. Talvez jamais tivesse intenção de machucar alguém. Talvez fosse dócil, bem socializado e perfeitamente acostumado com crianças. 

Mas, e se não fosse? 

É justamente aí que, para mim, entra a responsabilidade do tutor. 

Ter um animal não significa apenas amá-lo. Significa também conhecer suas características, compreender seus limites, antecipar situações de risco e proteger o próprio animal e as outras pessoas. 

Não acho razoável colocar sobre uma criança, que está correndo e brincando, a responsabilidade de saber como se comportar diante de um cachorro que ela não conhece. Também não acho razoável esperar que todo mundo ao redor simplesmente confie na frase: “Ele não faz nada.” 

Porque não se trata apenas de saber se o seu cachorro é bonzinho. Trata-se de reconhecer que você conhece o seu animal, mas as pessoas ao redor não conhecem. E que, diante de um animal de grande força física, prevenção não é preconceito. É responsabilidade. 

Defender os animais também é defender uma guarda responsável. 

E, talvez, seja justamente essa a parte que algumas pessoas ainda não entenderam: amar o seu cachorro não significa achar que todos os outros precisam confiar nele. E reconhecer os riscos não significa demonizar uma raça. Significa simplesmente ter bom senso. 

Talvez minha lógica esteja torta. Mas, sinceramente, entre correr o risco de parecer exagerada e correr o risco de uma criança ser machucada, eu ainda prefiro pecar pelo excesso de cuidado. 

******* 

* Psicóloga

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