Paulo Mendes
Era uma linda manhã de setembro, quando alguns clientes já haviam chegado ao bolicho. Alguns vizinhos vieram a pé, enquanto seu Neto tinha chegado em seu cavalo moro. O Lampião estacionara o jipe debaixo dos cinamomos, enquanto o Bibo viera de bicicleta, e o Surdinho, em um velho trator John Deere. Foi quando um casal de sabiás-laranjeira empreendeu um voo em dueto desde a tronqueira da cerca da Esquina Maboni, subiu aos ares em um bailado de negaceios de penas e bicos, passou por cima das taquareiras, realizou manobras acrobáticas sobre a antiga estrada real e enveredou num voo rasante em direção à porta da venda, onde entrou de supetão e pousou no balcão engraxado. Os amantes alados abriram as asas felizes e cantaram. Seu Turíbio fez menção de rir, mas se conteve e disse:
‒ Chegou a primavera.
Setembro sempre aspergia cheiros de graxa pingando nas brasas, havia um sorriso maroto no rosto dos moços que sonhavam nesta época com alguns amores proibidos. Nesta época, nós, os adolescentes, nos cortávamos com aparelhos de barbear dos pais, querendo ser adultos. As jovens estudantes retiravam dos cadernos pétalas perfumadas de flores e esperavam o ônibus exalando cheiros de Cashemere Bouquet roubados das mães e avós. Os homens engraxavam botas, adelgaçavam cavalos e passavam em frente ao bolicho bem pilchados rumo aos desfiles e alvoroços.
As senhoras vestiam roupas novas, enrolavam os cabelos, faziam máscaras e toucas, se enfeitavam e, à noite, se banhavam antes de se deitar. A proximidade da primavera inundava o ar de malícias, gritos de guerra, exaltações, fanfarronices e mitologias gauchescas. Meu tio Carrapicho aparecia montado numa petiça gateada e estendia causos de antigas tropeadas e histórias de assombrações, de domas de cavalos xucros e de noites de ronda.
Depois das friagens do inverno, das geadas que a tudo tirava o viço, das chuvas guasqueadas nas tardes curtas, um sol ameno aparecia pelos oitões do rancheiro. O povo voltava a matear debaixo dos arvoredos, ligavam os rádios e, no bolicho, recomeçavam a jogar bochas, a atirar a tava, pediam a chave da mesa de Mini Snooker. À noite, os velhos puxavam a fumaça de palheiros bem sovados, coçavam as barbas brancas e começavam a ter pena de morrer. Voltavam os jogos de bola no campinho das rosetas, a mãe fazia de novo os assados no domingo. Eu lia contos de Simões Lopes Neto e ensaiava declamar de cor uns versos amorosos de Aureliano de Figueiredo Pinto.
Setembro existia para nos lembrar que nem tudo era tristeza sobre a terra. Era um mês que chegava meio apaixonado, trazendo flores nos alforjes e milhares de esperanças na garupa. Em setembro, quando dormíamos, tínhamos a sensação de que navegávamos sozinhos numa jangada, como Ulisses, o grego, de volta para casa em busca de sua eternidade.
(Da coluna Campereada, jornal Correio do Povo, 06.09.2026)

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