sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Monólogo

 

Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher disse para despejar todas na pia, porque senão... 

‒ Assim seja! Seja feita a vossa vontade – disse eu, humildemente, e comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa. 

Tirei a rolha da primeira garrafa e despejei o seu conteúdo na pia, com exceção de um copo que bebi. 

Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo que virei. 

Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo que empinei. 

Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa que bebi. 

Apanhei a quinta rolha na pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa por exceção. 

Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha. 

Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção. 

Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito de acordo com as ordens de minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem. 

Segurei, então, a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram, ao todo, exatamente 39. Para me certificar de que não havia engano, contei tudo outra vez e quando terminei já encontrei um total 93, o que dá certo, quando as coisas andam de perna para o ar. Como a casa nesse momento passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para controlar minhas contas e recontei todas as casas, copos, rolhas, pias e garrafas, menos aquelas duas que escondi no banheiro e que eu acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca... 

(Máximas e Mínimas do Barão de Itararé) 

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