sexta-feira, 31 de maio de 2024

Precisamos falar mais

 Daniel Scola

Sobre poluição. Sobre responsabilidade nossa e dos governos. Sobre meio ambiente. Sobre a natureza. Sobre leis ambientais. Sobre desmatamento. Sobre lixo. Sobre como fazemos o descarte. Sobre efeito estufa. Sobre dióxido de carbono. Sobre esgoto. Sobre drenagem. Sobre encanamento. Sobre mudança climática. Sobre reconstrução. Sobre energia. Sobre alternativas. Sobre bioma. Sobre vidas. Sobre plano de contingência. Sobre prioridades. 

Sobre o muro da Mauá. Sobre medidas preventivas. Sobre a forma como gastamos nosso dinheiro. Sobre casas construídas em locais ameaçados. Sobre infraestrutura em transporte. Sobre fornecimento de água. Sobre serviços públicos em geral. Sobre casas de bombas. Sobre morar à beira de rios e açudes. Sobre morar no térreo de prédios. Sobre garagens subterrâneas. Sobre riscos. Sobre comunicação pública. Sobre esclarecimento. Sobre transparência. Sobre capacidade. Sobre competência. Sobre reação. Sobre drenagem. Sobre desmatamento. 

Sobre dragagem. Sobre assoreamento. Sobre adaptação. Sobre cheias. Sobre rios. Sobre o Arroio Dilúvio. Sobre alertas. Sobre líderes. Sobre ciência. Sobre leptospirose. Sobre previsão do tempo. Sobre escoamento. Sobre saúde. Sobre culpados. Sobre diques de contenção. 

Algumas pessoas já discutem esses temas. Mas todos nós, sem exceção, precisamos incluí-los no nosso roteiro diário e discuti-los à exaustão. Quem ainda não fez isso, precisa começar do zero e parar de jogar a culpa no próximo. E devemos entender que todos temos que saber lidar com isso. O dedo da culpa está apontado para todos nós. O Rio Grande do Sul vive um momento crítico, e passou da hora de falarmos sobre tudo isso para depois ninguém se eximir de culpa. 

Quanto mais aberto for o debate, melhor. É preciso parar com a polarização e com partidarização, como se tudo fosse um jogo de interesses mirando a próxima eleição. Estamos todos saturados com isso. Agora ninguém se acha culpado e todo mundo tem a fórmula pronta. Mas, se existia caminho, por que não se fez? Por que alertar só agora? É cômodo julgar depois da tragédia! Por isso e muito mais, precisamos falar de tudo. E com muita seriedade, pois a enchente de 2024 pode se repetir. 

(Do jornal Zero Hora, 31 de maio de 2024)

quinta-feira, 30 de maio de 2024

Abobados da enchente

 

Excerto* 

Ouvi o dito popular há muitos anos atrás, mas nunca tinha me interessado na averiguação da sua origem. Agora descobri, lendo as reminiscências do Dr. Sérgio da Costa Franco. Nas “Memórias de Um Escritor de Província”, aquele notável historiador, ao comentar a grande enchente de outono de 1941, em Porto Alegre, fala do desamparo das vítimas da calamidade, gerando nelas tamanho assombro que fez nascer na cidade a expressão o abobado da enchente. 

As pessoas ficavam dias e dias fora de casa, com a perda de quase todos os pertences. Dos lugares mais altos, livres da inundação, olhavam sem esperança as águas subirem cada vez mais, num estado de estupefação que se confundia com a debilidade mental. Explica o escritor que, por muito tempo, qualquer palermice que alguém cometesse era explicada com crueldade: “Coitado, ele é abobado da enchente!”. 

* Parte de texto Afif Jorge Simões Neto 

Abobados da enchente 

Foi em 1941 que surgiu a expressão “abobado da enchente”, criada pela cheia do Rio Guaíba que avançou sobre o centro de Porto Alegre deixando 70 mil pessoas flageladas, nos meses de abril e maio. 

Dizem que um surto de leptospirose fez a população da Capital entrar em pânico e a boataria se encarregou de divulgar os sintomas da doença – febre alta, calafrios, urina turva e nos casos mais graves uma hemorragia em alguns órgãos do corpo que acabavam em óbito. 

Quem vacilava ou se mostrava ter um comportamento anormal era denominado de “abobado da enchente”. 

Abobados da enchente 

Claudio Dilda 

A enchente de abril e maio de 1941 ‒ há oito décadas ‒ resultou de precipitações de 791 milímetros. O lago Guaíba atingiu a cota de 4,75 metros, inundando Porto Alegre. Tal foi o impacto sobre a população que gerou a expressão ‘abobados da enchente’. A construção do Muro da Mauá, no início dos anos 1970, com 2.647 metros de comprimento e três metros a partir da superfície, constituiu-se em proteção e em obstáculo para o acesso e a visão, dos pedestres, de um dos mais belos cenários naturais do Parque Delta do Jacuí. Daí também ser conhecido como muro da discórdia.

Cais do porto, em 1941, sem muro de proteção


Um amor que a água levou

 Mário Corso

Querida chuva: 

Eu te amava. Você sabia que eu te esperava com prazer. Apreciava teu aroma quando o vento te anunciava. Depois da despedida, saboreava o hálito verde da terra, agradecendo-te a água recebida. Tu eras generosa. 

Gostava do teu barulho dedilhando as telhas, a melhor música para dormir. Ouvia-se uma sinfonia de pingos, era um som na pedra, outro no balde, outro no zinco. 

Eras uma vassoura do pó do mundo, lavavas as calçadas diligente, fazias as folhas brilharem outra vez. Tua atmosfera de frescor deixava o ar agradável, limpo, melhor pra respirar. 

Comentei contigo que algum recôndito pedaço da minha alma é de planta. Ficava saciado com tua umidade mágica. 

Um que outro não gostava de ti. Diziam que estragavas festas no jardim, não deixavas a roupa secar, fazias barro, atrapalhavas o trânsito, resfriavas os velhinhos, mas eu sempre estive do teu lado. 

Eu tive a sorte de ter um bom teto, sem furos, mas até as goteiras, quando apareciam, acompanhavam teu charme. Era um pouquinho de ti dentro de casa. 

Tu eras vida, felicidade, um convite para molhar-se. Nunca decidi se o melhor era jogar futebol na lama, ou andar de bicicleta contigo, aproveitando para levantar a água das poças que criavas. Tudo em ti era benfazejo e renovador. 

Quando me visitavas no inverno, estava trancado em casa. Era o prenúncio de bolinhos ‒ que levam teu nome ‒ e conversas ao redor do fogão à lenha. 

Por esses dias, tudo mudou. O amor que sentia por ti transformou-se em medo. Não te reconheço. O que foi feito da tua suavidade? 

Hoje, quando o céu escurece, fico inquieto. Perdi a alegria de te receber. É triste constatar que agora só me trazes dor. 

Como sempre fomos sinceros, posso te dizer: perdestes a educação que tinhas. Agora, chegas de visita e não sabes a hora de partir. Perdeste também a mão, a ponderação, só vens como chuva grossa, excessiva, malvada. 

Tu tanto choves, que agora chove tristeza dentro mim e dos meus. Antes tu acariciavas nosso rosto com pingos, hoje nos açoitas, derrubas, carregas.  

Tuas águas levaram as boas memórias de quando estivemos juntos. Em dias de tantas perdas, foi difícil despedir-me do amor que tinha por ti. 

(Crônica do jornal Zero Hora, 29 de maio de 2024)

quarta-feira, 29 de maio de 2024

Parabéns a você

 

Bertha Celeste

Por Max Gehringer

(...) 

A música Parabéns a você ela é, com certeza, a melodia mais conhecida e mais cantada no país em todos os tempos, e dificilmente, algum dia, terá uma concorrente à altura. 

Sua história começa nos Estados Uniudos, em 1875. Duas professoras primárias de Louisville, no Estado de Kentucky, as irmãs Mildred e Patrícia Smith Hill, resolveram compor uma quadrinha para seus alunos cantarem quando chegassem à escola. O resultado foi Good Morning To All (Bom dia para todos), uma simples e despretensiosa melodia em que o título era também a letra inteira, repetida quatro vezes em tons levemente diferentes. 

Em 1924, uma editora musical americana lançou um livro de partituras, o Celebration Songs. Como na época não havia uma música própria para ser tocada em aniversários, a editora “emprestou” a melodia das irmãs Smith Hill e rebatizou-a como Happy Birthday To You (Feliz aniversário para você). De novo, quase nada aconteceu. Mas, nove anos depois, em 1933, a canção foi usada como tema de uma peça teatral na Broadway, em Nova York, não por acaso intitulada Happy Birthday To You. 

A música se espalhou pelo mundo e chegou ao Brasil no final da década de 30. Aqui era cantada nas festinhas das famílias abonadas, em inglês mesmo. A letra original tinha apenas uma frase, happy birthday to you, repetida quatro vezes, sendo que, na terceira linha, o to you era substituído por um dear, mais o nome do aniversariante. Só que tinha alguém que não estava achando graça nenhuma naquela invasão musical alienígena. Era o cantor Almirante, pseudônimo de Henrique Foréis Domingues, que também apresentava, na Rádio Tupí do Rio de Janeiro, um programa de grande audiência sobre música brasileira. Nacionalista fervoroso, Almirante se sentia incomodado com aquela coisa de brasileiro ficar enrolando a língua e, em 1942, decidiu promover um concurso com o objetivo de escolher uma letra “mais nossa” para a melodia americana. 

Uma das 5000 cartas que chegaram à rádio veio da cidade paulista de Pindamonhangaba. Foi escrita em apenas cinco minutos por Bertha Celeste Homem de Mello, filha única de um casal de fazendeiros, formada em Farmácia, casada e mãe de uma filha. O júri encarregado da escolha era composto de membros da Academia Brasileira de Letras: Olegário Mariano, Cassiano Ricardo e Múcio Leão, e os três se encantaram com os versinhos de Bertha Celeste. Por dois motivos: era um dos poucos que tinha quatro linhas diferentes (a maioria preferiu repetir a mesma frase quatro vezes). Dava de goleada até na letra original... 

Bertha tinha 40 anos quando escreveu a quadrinha de Parabéns a Você. Depois de se tornar conhecida em todo o Brasil, doutorou-se em Letras e dedicou-se à poesia (a coletânea da sua obra está no livro Devaneios). Aos 54 anos de idade mudou-se para a cidade vizinha de Jacareí, onde viria a falecer em agosto de 1999 aos 97 anos. 

Bertha insistia para que as pessoas o cantassem direito. Quem canta ‒ como muita gente faz ‒ “Parabéns pra você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida”, está cometendo três erros: na primeira linha, o certo é “Parabéns a você”. Na segunda, o correto é “nesta”, e não “nessa”. E, na terceira, “muita felicidade” é singular e não plural. Ah, e aquela coisa de “é pique-pique-pique, é hora, é hora, é hora” depois do “Parabéns a Você” não tem nada a ver nem com a melodia original nem com dona Bertha. Poetisa de respeito, ela jamais escreveria uma barbaridade dessas... 

(Do Almanaque 2003 ‒ Super Interessante)

terça-feira, 28 de maio de 2024

Uma questão filosófica

 

Velhinho está lendo tranquilamente seu jornal sentado em seu sofá. Sua senhora, também idosa, vem por trás dele e fala no seu ouvido: 

‒ Você vai fazer alguma coisa amanhã? 

O velhinho responde à pergunta: 

‒ Essa é uma interessante questão filosófica. Um sábio uma vez disse que você não pode fazer algo ontem ou amanhã. O único dia que se pode fazer algo é hoje. 

Então, a velha senhora prossegue na sua pergunta: 

‒ Bem, eu ia lhe pedir para ir ao shopping comigo amanhã, mas parece que é melhor fazer isso hoje. 

O idoso, vestindo o seu casaco, pronto para cumprir uma tarefa desagradável, fala: 

‒ Que sábio idiota! 

******** 

PS: Texto, com leves adaptações, retirado de uma história em quadrinhos da internet. 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Discussão de casal

 

Uma mulher, irritada, esculacha o marido: 

‒ Você não passa de um abelhudo, abutre, agarrado, agiota, agressivo, alcoviteiro, aleivoso, amalucado, amaricado, amigo-da-onça, analfabeto,  animal,  anormal, aparvalhado, apóstata, arrogante, arruaceiro, asno, asqueroso, assassino, atarantado, atrasado mental, atraso de vida!

E tem a mais: 

‒ Você é um idiota, ignorante, imaturo, imbecil, impertinente, impostor, incapaz, incompetente, inconveniente, indecente, indigente, indolente, inepto, infame, infeliz, infiel, imprudente, invejoso, insensível, insignificante, insípido, insolente, intolerante, intriguista, inútil, irritante. 

Faz uma pausa, e continua: 

‒ Você ainda é um sacana, sacripanta, sádico, safado, safardana, salafrário, sarnento, sebento, seboso, sem classe, sem vergonha, sodomita, sonso, sórdido, sovina, suíno, sujo, tacanho, tagarela, tarado, teimoso, tinhoso, tísico, títere, toleirão, tolo, tonto, torpe, tosco, traiçoeiro, traidor, trambolho, trapaceiro, trapalhão, traste, tratante, tresloucado, triste, troglodita, trombudo, trouxa, unha de fome, untuoso, urso, gordo, vadio, vagabundo, vaidoso, valdevino, vândalo, velhaco, vendido, verme, vesgo, víbora, viciado, vigarista, vil, vilão, vingativo, vira-casacas, xenófobo, zarolho, zé-ninguém,  zero à esquerda! 

E tem mais, prefiro ficar calada, para não me incomodar!

Os gaúchos

 Arnaldo Jabor

O Rio Grande do Sul é como aquele filho que sai muito diferente do resto da família. A gente gosta, mas estranha. O Rio Grande do Sul entrou tarde no mapa do Brasil. Até o começo do século XIX, espanhóis e portugueses ainda se esfolavam para saber quem era o dono da terra gaúcha. Talvez por ter chegado depois, o Estado ficou com um jeito diferente de ser.

Começa que diverge no clima: um Brasil onde faz frio e venta, com pinheiros em vez de coqueiros, é tão fora do padrão quanto um Canadá que fosse à praia. Depois, tem a mania de tocar sanfona, que lá no RS chamam de gaita, e de tomar mate em vez de café. Mas o mais original de tudo é a personalidade forte do gaúcho. A gente rigorosa do sul não sabe nada do riso fácil e da fala mansa dos brasileiros do litoral, como cariocas e baianos. Em lugar do calorzinho da praia, o gaúcho tem o vazio e o silêncio do pampa, que precisou ser conquistado à unha dos espanhóis.

Há quem interprete que foi o desamparo diante desses abismos horizontais de espaço que gerou, como reação, o famoso temperamento belicoso dos sulinos.

É uma teoria ‒ mas conta com o precioso aval de um certo Analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Veríssimo que recebia seus pacientes de bombacha e esporas, berrando: “Mas que frescura é essa de neurose, tchê?”

Todo gaúcho ama sua terra acima de tudo e está sempre a postos para defendê-la. Mesmo que tenha de pagar o preço em sangue e luta.

Gaúcho que se preze já nasce montado no bagual (cavalo bravo). E, antes de trocar os dentes de leite, já é especialista em dar tiros de laço. Ou seja, saber laçar novilhos à moda gaúcha, que é diferente do jeito americano, porque laço é de couro trançado em vez de corda, e o tamanho da laçada, ou armada, é bem maior, com oito metros de diâmetro, em vez de dois ou três.

Mas por baixo do poncho bate um coração capaz de se emocionar até as lágrimas em uma reunião de um Centro de Tradições Gaúchas, o CTG, criado para preservar os usos e costumes locais. Neles, os durões se derretem: cantam, dançam e até declamam versinhos em honra da garrucha, da erva-mate e outros gauchismos. Um dos poemas prediletos é “Chimarrão”, do tradicionalista Glauco Saraiva, que tem estrofes como: “E a cuia, seio moreno/que passa de mão em mão/traduz no meu chimarrão/a velha hospitalidade da gente do meu rincão.” (bem, tirando o machismo do seio moreno, passando de mão em mão, até que é bonito). 

Esse regionalismo exacerbado costuma criar problemas de imagem para os gaúchos, sempre acusados de se sentir superiores ao resto do País.

Não é verdade ‒ mas poderia ser, a julgar por alguns dados e estatísticas.

O Rio Grande do Sul é possuidor do melhor índice de desenvolvimento humano do Brasil, de acordo com a ONU, do menor índice de analfabetismo do País, segundo o IBGE e o da população mais longeva da América Latina, (tendo Veranópolis a terceira cidade do mundo em longevidade), segundo a Organização Mundial da Saúde. E ainda tem as mulheres mais bonitas do País, segundo a Agência Ford Models. (Eu já sabia!) Além do gaúcho, chamado de “machista”, qual outro povo que valoriza a mulher a ponto de chamá-la de prenda (que quer dizer algo de muito valor)? 

Macanudo, tchê. Ou, como se diz em outras praças: “legal às pampas”, uma expressão que, por sinal, veio de lá.

Aos meus amigos gaúchos e não gaúchos, um forte abraço!

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Arnaldo Jabor (12.12.1940 – 15.02.2022) foi um cineasta, roteirista, diretor de cinema e TV, produtor cinematográfico, dramaturgo, crítico, jornalista e escritor brasileiro.

Kafka e a menina da boneca

 

Capa do livro 

Aos 40 anos, Franz Kafka (1883-1924), que nunca se casou e não teve filhos, passeava por um parque de Berlim quando conheceu uma menina que chorava porque havia perdido sua boneca favorita. 

Ela e Kafka procuraram pela boneca sem sucesso. 

Kafka disse a ela para encontrá-lo lá no dia seguinte e eles voltariam para procurá-la. 

No dia seguinte, quando ainda não haviam encontrado a boneca, Kafka entregou à menina uma carta "escrita" pela boneca dizendo “por favor, não chore. Fiz uma viagem para conhecer o mundo. Vou escrever para você sobre minhas aventuras”. 

Assim começou uma história que continuou até o fim da vida de Kafka. 

Durante os encontros, Kafka lia as cartas da boneca cuidadosamente escritas com aventuras e conversas que a menina achava adoráveis. 

Por fim, Kafka trouxe de volta a boneca (comprou uma) que havia retornado a Berlim. 

“Não se parece em nada com a minha boneca”, disse a menina. 

Kafka entregou-lhe outra carta na qual a boneca escrevia: “minhas viagens me mudaram”. A menina abraçou a nova boneca e a trouxe consigo para seu lar feliz. 

Um ano depois, Kafka morreu. 

Muitos anos depois, a menina, agora adulta, encontrou uma carta dentro da boneca. 

Na minúscula carta assinada por Kafka estava escrito: 

“Tudo o que você ama provavelmente será perdido, mas no final o amor retornará de outra forma diferente.” 

******* 

PS: Um ano antes de sua morte, Franz Kafka viveu uma experiência singular. Passeando pelo parque de Steglitz, em Berlim, encontrou uma menina chorando porque havia perdido sua boneca. Para acalmar a garotinha, inventou uma história: a boneca não estava perdida, mas viajara, e ele, um “carteiro de bonecas”, tinha uma carta em seu poder que lhe entregaria no dia seguinte. Naquela noite, ele escreveu a primeira de muitas cartas que, durante três semanas, entregou pontualmente à menina, narrando as peripécias da boneca vividas em todos os cantos do mundo. Inspirado por essa história pouco conhecida de Kafka, contada por Dora Dymant, companheira do escritor na época, Jordi Sierra i Fabra recria as cartas nunca encontradas e que constituem um dos mistérios mais belos da narrativa do século XX.

Quase amigos

 

Esta pequena narrativa foi retirada de uma história em quadrinhos. 

Hägar, o Horrível, viking norueguês, está num lugar desconhecido para ele, então ele grita a pleno pulmões: 

‒ Posso derrotar qualquer homem neste país nojento! 

Um sujeito o escuta e responde a provocação: 

‒ Quero ver! 

Os dois, de espada na mão, partem com tudo para cima um do outro. 

Ao chegarem perto, e se reconhecerem, com alegria no rosto, gritam um para o outro: 

‒ Svenson! 

‒ Hägar! 

‒ Não vejo você desde que lhe apresentei aquela moça chamada Helga, há vinte anos! O que aconteceu com ela? 

Hagar, eufórico: 

‒ Casei com ela! 

Hägar pensa um pouco... e corre de espada na mão, morro abaixo,  atrás do “amigo”. 

******* 

“Hägar, o Horrível” é uma história em quadrinhos (HQ) criada em 1973 pelo cartunista norte-americano Dik Browne. As narrativas se passam na Noruega na Idade Média e focam a família e o trabalho de um guerreiro viking.

domingo, 26 de maio de 2024

Heroína

 

Em 1973, Sacheen Littlefeather, foto acima, subiu ao palco para rejeitar um Oscar de melhor ator em nome de Marlon Brando. Foram-lhe dados 60 segundos no palco para fazer o seguinte discurso: 

“Olá! O meu nome é Sacheen Littlefeather. Sou Apache e sou presidente do Comitê Nacional de Imagem Afirmativa dos Nativos Americanos. Estou a representar Marlon Brando esta noite, e ele pediu-me que vos dissesse, num longo discurso, que não posso partilhar convosco neste momento por causa do tempo, mas que terei todo o prazer em partilhar com a imprensa mais tarde, que lamentavelmente não pode aceitar este prêmio tão generoso. 

As razões para tal prendem-se com o tratamento dado atualmente aos índios americanos pela indústria cinematográfica ‒ desculpem ‒ e pela televisão, nas repetições de filmes, e também com os recentes acontecimentos em Wounded Knee. Espero não vos ter estragado a noite e que no futuro, os nossos corações e os nossos entendimentos se encontrem com amor e generosidade. Obrigado em nome de Marlon Brando”. 

Manteve toda a compostura, apesar das vaias e dos apupos vindos do público. John Wayne teve de ser contido pelos seguranças porque queria agredi-la fisicamente quando ela saiu do palco. Clint Eastwood gozou com ela dizendo que estava a entregar o prêmio em nome de “todos os cowboys mortos em todos os westerns de John Ford”. Posteriormente, Littlefeather foi colocada na lista negra de Hollywood e nunca mais trabalhou na indústria cinematográfica. 

Do blog: Filme do momento: 

PS: Em 1973, Marlon Brando fez história de uma maneira bastante inesperada durante a 45ª cerimônia do Oscar. Ao vencer o prêmio de Melhor Ator por sua icônica atuação como Vito Corleone em “O Poderoso Chefão”, Brando escolheu não comparecer à cerimônia.

Uma noite à luz de vela

 

Encontrei uma pessoa que me confessou que a sua família, uma vez por semana, passa uma noite à luz da vela. 

Tudo começou num dia em que a eletricidade faltou. Nessa noite não houve televisão, nem rádio, nem computador. Pais e filhos ficaram juntos em redor de uma vela acesa. O serão foi divertidíssimo, conversou-se, contaram-se histórias e o tempo passou serenamente. A experiência agradou e a família, a partir desse dia decidiu passar uma vez por semana, a noite à luz da vela. 

Atualmente, durante o dia, se retiramos o tempo de sono, as famílias dispõem pouco mais de três a quatro horas para estarem juntas. Habitualmente o (des)encontro tem início ao jantar. As refeições são feitas de televisão ligada para se ver as notícias. Este momento de partilha por excelência, é assim desperdiçado: a televisão intromete-se, como se de um muro se tratasse. A seguir ao jantar, enquanto os mais novos se isolam no quarto a ouvir música, a jogar no computador ou a navegar na Internet, os pais continuam hipnotizados pelo televisor, distraindo-se com a novela ou com o reality show do momento. O tempo passa e, sem darem conta, às quatro horas foram consumidas num ápice. No outro dia, a rotina repete-se. 

Para existir intimidade entre as pessoas é indispensável que haja partilha. É importante revelar os pequenos acontecimentos que ocorreram durante o dia. Os momentos bons, os maus, as dúvidas, os desejos, as frustrações, enfim..., é preciso partilhar. De que outra forma é que nos podemos conhecer uns aos outros? Se perdermos este hábito como é que os pais podem acompanhar o que se passa com os filhos? E o casal, como é que pode ter intimidade se não existir diálogo? No dias de hoje não se discutem em casa os vários assuntos da atualidade; assistimos na televisão aos debates que os outros fazem por nós. As crianças têm cada vez mais menos espaço para a imaginação. Não brincam de policiais e ladrões, ou de príncipe e princesas, preferem jogar em frente a uma tela um jogo que alguém imaginou para eles. Os adolescentes não procuram pedir aos pais opiniões e conselhos, em vez disso pesquisam na Internet. Acaba por ser mais cômodo para os pais, porque assim, pelo menos não os aborrecem com perguntas difíceis. 

Se refletirmos um pouco, percebemos que vivemos numa sociedade de consumo que procura a todo o custo apoderar-se do nosso tempo livre e captar a nossa atenção, apenas com um objetivo: obrigar-nos a consumir. É assustador o número cada vez maior de horas que os adultos, jovens e até as crianças passam por dia a ver televisão e em frente ao computador. O tempo acaba por ser destinado quase em exclusividade para satisfazer necessidades narcíseas já que a outra pessoa fica excluída. Ninguém tem dúvidas que isto tem conseqüências na relação entre pais e filhos. Mas, a relação entre o casal também fica atingida. Muitos casamentos acabam por definhar com o tempo, por que não há comunicação. O diálogo e a partilha são indispensáveis para que haja intimidade entre as pessoas. Há coisas que têm que ser ditas. Em alguns casos o silêncio pode ser corrosivo e devastador. 

Um casal que atravessava uma grave crise conjugal apresentou-se ao médico para tentar uma terapia de casal. Uma das queixas apresentadas pela mulher era que estava casada há trinta anos e o marido nunca lhe tinha dito, durante aquele tempo, que a amava. Por isso, ela sentia-se profundamente infeliz e insegura. O marido com alguma indiferença respondeu: Disse-lhe que a amava no dia do casamento, como não mudei de ideia, não vejo a necessidade de repetir. 

Prescrição médica: 

Uma noite por semana à luz de vela. 

Autor do texto: Pedro Afonso

Metáfora ambiental

 

Sobre vaca, bernes e política.

Era uma vez uma vaca feliz, saudável e bonita. Mas nem tudo é perfeito. A vaca tinha hóspedes. Alguns bernes se hospedaram nela e alimentavam-se da sua carne. Mas os bernes eram poucos e pequenos... A vaca e os bernes viviam em paz. 

Aconteceu, entretanto, que os bernes começaram a se multiplicar. Os bernes aumentavam, mas a vaca não aumentava, confirmando a lei de Malthus, que disse que “os alimentos crescem em razão aritmética, enquanto as bocas crescem em razão geométrica.” O couro da vaca se encheu de calombos que indicavam a presença dos bernes. Mesmo assim, a vaca continuava saudável. Ela tinha muita carne de sobra. 

Foi, então, que uma coisa inesperada aconteceu: alguns bernes sofreram uma mutação genética e passaram a crescer em tamanho. Foram crescendo, ficando cada vez maiores, e com uma voracidade também cada vez maior. Os vermes magrelas ficaram com inveja dos vermes grandes e trataram de tomar providências para que eles crescessem também. O corpo da pobre vaca passou a ser uma orgia de crescimento. Os bernes só falavam numa coisa: “É preciso crescer!” Mas a vaca não crescia. Ficava do mesmo tamanho. De tanto ser comida pelos bernes, a vaca ficou doente. Emagreceu. Mas os bernes nada sabiam sobre a vaca em que moravam. Para perceberem, seria preciso que eles estivessem do lado de fora. Os bernes estavam dentro da vaca. Assim, não percebiam que sua voracidade estava matando-a. A vaca morreu!... E com ela, morreram os bernes!... 

Fizeram autópsia da vaca. O relatório do legista observou que os bernes mortos eram excepcionalmente grandes, bem nutridos, muitos deles chegando à obesidade. “James Lovelock é um cientista que sugeriu que a nossa Terra é um organismo vivo, como a vaca da parábola. Sendo uma coisa viva, ela pode ter saúde ou ficar doente.” 

Sua conclusão é que nós, os bernes, já estragamos a Terra, “a nossa vaca,” além de qualquer possibilidade de cura. A Terra está doente. O crescimento das nações está provocando profundas mudanças climáticas irreversíveis: a atmosfera está se aquecendo, as geleiras estão derretendo, a poluição do meio ambiente aumenta, acontecem catástrofes naturais numa intensidade desconhecida. Esses são os sintomas dos estertores da nossa Terra, destruída pela voracidade dos bernes. “E o pior está por acontecer, ele diz. Ecossistemas inteiros serão extintos, e os sobreviventes terão de se adaptar a um clima infernal...” (Folha de S.Paulo, caderno Mais, 22/ 01/06, pág. 9). 

Observando as discussões políticas, não vejo nenhum político que fale sobre a saúde da vaca. Ao contrário, os políticos, tanto de direita quanto de esquerda, só fazem prometer aos bernes um engordamento cada vez maior. Por uma boa razão: os eleitores são os bernes e não a vaca. O candidato que falar sobre a saúde da vaca e o emagrecimento dos bernes, com toda certeza, perderá a eleição. Quando o que está em jogo é a saúde da vaca, não se pode confiar nos bernes... Esta nossa Mãe ‒ Terra, é um organismo vivo, como a vaca da parábola... e nós a estamos MATANDO!

O gol que ninguém viu*

 O gol de placa de Pelé

‒ No dia 5 de março de 1961, mais de cem mil pessoas lotavam o estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. Era o torneio Rio-São Paulo e o Fluminense jogava contra o Santos. Imaginem o espetáculo... 

(...) 

‒ O Santos estava vencendo por 1 a 0, quando aos 41 minutos do primeiro tempo, começou bate-rebate dentro da área santista... e a bola sobra para o Pelé pelo lado direito próxima  à meia-lua da grande área, quase na intermediária do seu campo defensivo. 

(...) 

‒ Sob o olhar atento da multidão, Pelé domina a bola, entre a meia-lua e a intermediária. Na sua postura tradicional, costas e joelhos curvados, ele ergue a cabeça e arranca para o ataque! Em lance inédito, ora ele toca a bola na frente, utilizando-se de sua velocidade, ora dribla um... dois... três... quatro... cinco... seis adversários, em diferentes lugares do gramado! 

‒ Tem gente que afirma que certos jogadores do time carioca foram driblados mais de uma vez! 

‒ E aí, meus jovens, diante de olhares incrédulos, tanto da plateia quanto dos jogadores de ambos os times, Pelé fica na frente do goleiro Castilho, que nada pode fazer quando a bola é tocada no canto direito, a não ser ir buscá-la, perplexo, no fundo da rede! 

‒ As mais de cem mil pessoas, a maioria, claro, torcedores do Fluminense, fizeram alguns segundos de silêncio, após a conclusão da jogada. Depois, aconteceu uma ovação nunca vista. Comovido, Pelé levantou os braços e agradeceu ao público. 

(...) Naquele momento, o clube para o qual torciam deixou de ser relevante. Todos os presentes tinham consciência de que haviam assistido ao vivo ao mais belo gol de suas vidas, um lance que acabou imortalizado no futebol mundial como o “gol de placa”. 

*Nenhuma emissora de TV presente no estádio registrou a imagem desse gol. 

(Do livro “Gol de placa”, de Edith Modesto)

E quem foi que idealizou a placa do gol 

“Eu não sou o autor da expressão ‘gol de placa’ no futebol, eu sou o autor da placa do gol e o Pelé o autor do gol que ganhou a placa. Eu que tive a ideia, eu que fiz a placa e paguei com o dinheiro do meu bolso e a instalei. A partir daquele dia, todo o pessoal dos jornais de rádio começou a utilizar a expressão e hoje é do vocabulário comum.” 

Joelmir Beting 

O jornalista Joelmiri Beting, que na época trabalhava no jornal O Esporte, ficou tão impressionado com o gol, que mandou fazer uma placa de bronze para colocar no saguão do estádio, com os dizeres: 

“Neste estádio, Pelé marcou no dia 5 de março de 1961 o tento mais bonito da história do Maracanã.” 

O ESPORTE

São Paulo

A placa foi descerrada uma semana depois no estádio, imortalizando o lance, o Rei e sua relação com o Maracanã. Desde então, todos os gols marcados com rara beleza são intitulados “gols de placa”. 

Piada de tenista

 

Você sabia que “LACOSTE” nasceu por causa de uma piada de tenista? 

Jean René Lacoste era um tenista apelidado de “o crocodilo”. Ele tinha um aspecto fraco para um atleta, devido ao seu corpo magro e baixa estatura. Seus saltos e movimentos bruscos, mas certeiros, deram-lhe a popularidade para lançar sua marca de roupa: “Lacoste”. Aqui está a história: 

René era filho de uma família francesa rica. Seus pais não tinham certeza de que ele se tornaria um tenista profissional devido às suas condições físicas, mas decidiram apoiá-lo na condição de se tornar campeão mundial. 

Alcançou os primeiros lugares em vários torneios na Europa, inclusive a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de 1924. Em um campeonato nos EUA em 1927, ele observou um acessório que o maravilhou completamente: uma mala de pele de crocodilo. Seu parceiro ofereceu-lhe de presente se ganhasse o jogo, mas, infelizmente, perdeu o encontro e brincou com a anedota. 

Um jornalista de Boston ouviu a história e decidiu chamar René de “Le Crocodile”, devido à sua forma agressiva de jogar e ao charme por aquela pasta. 

Naquela época, os jogadores de tênis usavam uma roupa “elegante”. Brincava-se com camisa, colete e calças de vestir. É preciso salientar que esse esporte era praticado pela alta sociedade. René mandou desenhar polos de algodão com colarinho de camisa social, e no bolso do peito, a imagem de um crocodilo verde com a boca aberta para substituir o seu uniforme antiquado. 

Em 1933, lançou sua marca de polos: “Lacoste” para atletas de tênis, golfe e vela. O nome da marca fazia jus ao seu sobrenome; e o pequeno crocodilo verde é símbolo da sua história, paixão pelo tênis e, talvez, por aquela piada sobre a pasta que nunca chegou a conseguir. 

(Do blog “Amigos do Brooklin”) 

Resumindo 

A Lacoste já nasceu desafiando a tradição: René Lacoste trouxe uma revolução para as quadras em forma de uma camisa polo flexível e leve, feita de algodão, indo contra as regras impostas aos jogadores de tênis. Foi assim que em pouco tempo a peça foi consolidada como um símbolo emblemático da elegância mundial. 

Apelidado de “Le Crocodile, René foi o fundador da marca e também a inspiração para o famoso logotipo. O crocodilo verde bordado no peito das peças Lacoste foi um dos primeiros símbolos a se tornar visível do lado de fora de uma roupa. Através de seu estilo esportivo minimalista e atemporal, a marca conquistou adeptos de diferentes perfis e estilos, ultrapassando as fronteiras das quadras de tênis e campos de golfe. Hoje, presente em todos os lugares, das quadras às ruas, a camisa polo assume, merecidamente, seu papel de versatilidade e atemporalidade.

sábado, 25 de maio de 2024

A Família

 Luiz Coronel

Família,

família,

um olhar de afagos

e pendências antigas.

A família é um barco.

Tormentos

e ventos

e um sobrenome nas quilhas.

(Veleja o barco

por distantes milhas.) 

Família

é uma ilha.

Um cardume

de ciúmes

em torno das pedras

que o tempo empilha.

Família

não é um coral de anjos

nem cães em matilha.

Família é gente.

E gente fala, cala, embala.

E humilha. 

Família,

crianças correndo

e uma lágrima

no rosto da filha. 

Um nome na lápide,

uma foto na festa,

uma emoção

que cada um compartilha.

E os potros do rancor,

quem encilha?

Que mistério sustém,

que trave,

forquilha? 

Família sobrevive

às separações

e partilhas. 

Família

é uma ilha.

Entre orquídeas e urtigas,

por acaso é o amor

que a faz que prossiga? 

Família

é uma ilha.

Sem ela estamos

no mar sem bússola,

num mato sem trilhas. 

(Do Correio do Povo, maio de 2024)

Dois poemas

 de Ricardo Silvestrin

A Invenção do abraço 

Há braços longos e curtos,

magros e gordos.

Há braços brancos e negros,

de velhos, de crianças.

Há braços de homens e de mulheres.

Há braços e braços.

Até que um dia alguém deu um passo...

diminuiu o espaço e fez do braço um laço.

Foi um sucesso, virou moda,

e hoje até na hora do fracasso...

se há braço, há abraço.



Quatro remadoras

Eram quatro remadoras,

todas no mesmo barco.

Duas no lado direito,

duas no lado esquerdo.

 

Levavam o barco no braço,

sempre com movimento perfeito,

giravam o remo na água

todas ao mesmo tempo.

 

Quem vê as quatro juntas

às vezes se pergunta:

“de onde tiram tanta força

aquelas quatro moças?”.

 

O barco já vai longe,

cruza a linha do horizonte.

Elas seguem sem parar,

inspiram e expiram o ar.

 

Quando chegam ao cais,

mesmo com todo o cansaço ‒

dessa vez foi demais!

‒ ainda resta força para o abraço.

 *******

Ricardo Silvestrin é autor dos livros de poesia Carta aberta ao Demônio, Sobre o que, Typographo, Metal, O menos vendido, Palavra mágica, entre outros. Na prosa, lançou Play, contos, e O videogame do rei, romance, ambos pela editora Record. Recebeu por cinco vezes o prêmio Açorianos de Literatura. É também compositor e vocalista e lançou o álbum SILVESTREAM. Mestre em Literatura pela UFRGS com a dissertação Manuel Bandeira, um poeta na fenda. 

sexta-feira, 24 de maio de 2024

Terezinha de Jesus

 Cantiga Popular

Terezinha de Jesus

De uma queda, foi ao chão;

Acudiram três cavalheiros

Todos os três, chapéu na mão. 

O primeiro foi seu pai,

O segundo, seu irmão.

O terceiro foi aquele

Que a Tereza deu a mão. 

Terezinha levantou-se,

Levantou-se lá do chão.

E sorrindo disse ao noivo:

Eu te dou meu coração! 

Da laranja, eu quero um gomo,

Do limão, quero um pedaço.

Da menina mais bonita

Quero um beijo e um abraço.

Para essa brincadeira, deve-se formar uma roda com todos os participantes, exceto um deles que será escolhido para ficar no centro da roda. Todos devem cantar a canção juntos, e quando terminar, outra criança é escolhida por ela e recomeça novamente a canção.

A música pode ser interpretada como uma metáfora para o amadurecimento e as etapas da vida de uma mulher. A queda de Terezinha pode simbolizar um momento de dificuldade ou uma transição para uma nova fase da vida. 

Ação de divertimento que colabora no desenvolvimento infantil. As brincadeiras possuem o objetivo de socializar e interagir com o meio. É por meio delas que as crianças expõem sua criatividade, habilidade e imaginação. Desde a infância esses aspectos são estimulados para promover a evolução durante toda a vida. 

O pássaro cativo

 

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.
 

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Por que é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?
 

É que, criança, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;

Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:
 

“Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;

Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!

Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi…

Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas…

Por que me prendes? Solta-me, covarde!

Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade…
Quero voar! voar!…”
 

Estas coisas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão, tremendo, lhe abriria
A porta da prisão…
 

Olavo Bilac – Poesias Infantis

PS: “Assim como o cavalo do telhado se transformou em símbolo de resistência e de heroísmo da tragédia climática, com louvor para a intervenção humana, a morte dos pássaros e dos demais animaizinhos cativos no interior do shopping (em Porto Alegre) alagado ficará como marca da nossa insensibilidade.” 

Acima, pequena parte de bela crônica de Nílson Souza, “Pelos pássaros afogados”, (Zero Hora de 21.05.2025) sobre uma loja famosa em todo o Brasil, que comercializa artigos para pets e animais pequenos, em que nenhum funcionário  teve a coragem de colocar as gaiolas dos pequenos animais em lugar mais alto da loja, e havia lugar, deixando-os que morressem afogados por falta de iniciativa. A direção do shopping os alertou que as águas do Lago Guaíba estavam subindo e havia grandes possibilidades de entrar no estabelecimento. O recado não foi ouvido.

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Em uma vistoria conduzida pela Polícia Civil, nesta quinta-feira (23 de maio), foram retirados 38 animais mortos (aves, roedores e peixes) em uma unidade da Cobasi em Porto Alegre. A loja de dois andares, localizada no subsolo de um shopping do bairro Praia de Belas, alagou com as chuvas e a alta do nível do Guaíba. 

GZH 

quinta-feira, 23 de maio de 2024

A importância das abelhas

 

Para produzir um único quilo de mel, uma abelha operária deve realizar um trabalho titânico: 

Visita cerca de 4 milhões de flores. 

Voando uma distância equivalente a dar a volta ao mundo quatro vezes. 

Isso implica um esforço enorme por parte dessas pequenas criaturas, que trabalham incansavelmente para coletar o néctar, processá-lo em mel e armazená-lo na colmeia. 

Já imaginou a quantidade de flores que uma colônia inteira de abelhas deve visitar para produzir o mel que consumimos? É um verdadeiro milagre da natureza. 

Aqui estão algumas informações adicionais que podem interessar-lhe: 

Toda abelha trabalhadora produz cerca de uma colher de chá de mel em toda a sua vida. 

São necessárias cerca de 2.500 abelhas operárias para produzir um quilo de mel. 

As abelhas são essenciais para a polinização de muitas plantas, o que contribui para a biodiversidade e a segurança alimentar. 

Vamos proteger as abelhas! Elas são fundamentais para o nosso planeta. 

(Do blog Amigos da Natureza)


Pum também dá histórias

 

Trolagem entre amigos

Numa roda amigos, alguém da turma acaba de soltar um “pum”, então cada um deles fala, sacaneando o autor do flato: 

‒ Não assopra não que eu como quente!

‒ Pelo grito e pelo berro, este c* já levou ferro!

‒ O som está bom, agora quero ver a imagem!

‒ Não desliga não que eu quero dar uma voltinha.

‒ Quando acabar o perfume, me dá o frasco. 

‒ Pelo som dessa buzina, já trabalhei nessa oficina. 

‒ Pelo som, acho que “ele” está me chamando... 

‒ Amigo, controla esse rabo nervoso! 

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Eram três irmãos: o Calaboca, o Respeito e o Pum. 

O Pum cometeu uma infração de trânsito, e o Calaboca e o Respeito foram soltá-lo da cadeia. 

O Respeito tinha medo da delegacia, então ficou na esquina. 

Calaboca entrou, e o Delegado perguntou: 

‒ Qual é o seu nome? 

Calaboca. 

‒ Que é isso? Cadê o respeito, moleque? 

‒ Ficou na esquina. 

‒ O que você veio fazer aqui? 

‒ Soltar Pum!

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Um sujeito chega do interior, e, próximo à rodoviária, é abordado por uma cigana, a qual lhe disse o seguinte: 

‒ Senhor, vou lhe fazer uma simpatia para fechar o seu corpo, custa só cem reais. 

A cigana começou a fazer uns gestos, umas caretas e uns passes de magia. Depois de alguns minutos, arrematou: 

‒ Pronto! Agora nada de mal lhe acontecerá, pois você está com o corpo totalmente fechado! 

No momento exato em que ela disse estas palavras, o caipira soltou um sonoro “pum” e exclamou: 

‒ Senhora, não vou pagar nada não! Parece que você não fechou meu corpo direito...