segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Um dia

 

Um dia, você vai notar que há muitos pratos no armário. Muitos quartos na casa, e que a TV fica ligada só para passar o silêncio. 

Um dia, você vai descobrir como passar o seu dia... E você vai pensar no tempo em que 24 horas não eram suficientes. Onde você se trancou no banheiro para ter cinco minutos de descanso. Onde os brinquedos estavam por toda parte. Onde os copos sujos se acumularam na pia. 

Um dia, você vai sair de uma casa limpa, mas vazia. E você vai entender que essa velha bagunça... era amor em todos os lugares. Essa era a vida, a real, a dos seus filhos. E você estará pensando em todos aqueles momentos quando você disse uma vez: “Estou ansiosa para que eles cresçam...” 

Mas, naquele dia, você daria tudo para voltar. Apenas um dia, com barulho, desordem, risos, abraços roubados... Com eles, porque o silêncio retorna. A paz também. Mas o que era esse estressante tumulto? Era a mais bela forma de felicidade... 

(Fuxico Morais)

A máquina de escrever

 

Você sabia? 

A primeira máquina de escrever prática surgiu em 1868, fruto de uma revolução mecânica e de uma ideia quase por acaso! 

Christopher Latham Sholes, editor de jornal, teve a ideia ao adaptar uma máquina de numerar páginas para digitar letras. 

Com a ajuda de Soule, Glidden e Pratt, criaram a Sholes and Glidden, patenteada em 23 de junho de 1868. 

O modelo usava pedais como máquinas de costura e só digitava em maiúsculas. 

Em 1873, a fábrica de rifles Remington começou a produzir o equipamento, após a Guerra Civil dos EUA. 

Foi nesse projeto que nasceu o teclado Qwerty, padrão até hoje! 

Sholes vendeu a patente por falta de recursos, mas deixou um legado que mecanizou a escrita. 

De um experimento improvisado ao início da digitação moderna ‒ a escrita nunca mais foi a mesma! 

Portal Poético 

A máquina de escrever Sholes e Glidden (também conhecida como Remington nº. 1 foi a primeira máquina de escrever comercialmente bem-sucedida. Projetada principalmente pelo inventor americano Chistopher Latham Sholes, foi desenvolvida com a ajuda do colega impressor Samuel W. Soule e do mecânico amador Carlos S. Glidden. O trabalho começou em 1867, mas Soule deixou a empresa logo depois, substituído por James Densmore, que forneceu apoio financeiro e a força motriz por trás do desenvolvimento contínuo da máquina. Após várias tentativas de curta duração para fabricar o dispositivo, a máquina foi adquirida pela E. Remington and Sons no início de 1873. Um fabricante de armas buscando diversificar, a Remington refinou ainda mais a máquina de escrever antes de finalmente colocá-la no mercado em 1º de julho de 1874.

Durante seu desenvolvimento, esta máquina de escrever evoluiu de uma curiosidade rudimentar para um dispositivo prático, cuja forma básica se tornou o padrão da indústria. A máquina incorporou elementos que se tornaram fundamentais para o design de máquinas de escrever, incluindo uma placa cilíndrica e um teclado QWERTY de quatro fileiras. No entanto, várias deficiências de design permaneceram. A Sholes and Glidden só conseguia imprimir letras maiúsculas ‒ um problema corrigido em sua sucessora, a Remington nº. 2 ‒ e era uma “escritora cega”, ou seja, o datilógrafo não conseguia ver o que estava sendo escrito enquanto digitava. 

Inicialmente, a máquina de escrever teve uma recepção pouco entusiasmada por parte do público. A falta de um mercado estabelecido, o alto custo e a necessidade de operadores treinados retardaram sua adoção. Além disso, os destinatários de mensagens datilografadas consideravam a escrita mecânica, toda em letras maiúsculas, impessoal e até ofensiva. As novas tecnologias de comunicação e a expansão dos negócios no final do século XIX, no entanto, criaram a necessidade de correspondência rápida e legível, e assim as máquinas Sholes e Glidden e suas contemporâneas logo se tornaram acessórios comuns de escritório. A máquina de escrever é creditada por auxiliar a entrada de mulheres no mercado de trabalho administrativo, já que muitas foram contratadas para operar os novos dispositivos.

Mulheres Inteligentes

Gabriel Garcia Márquez

Quantos homens ouvi dizer que querem uma mulher inteligente em suas vidas! 

Gostaria de encorajá-los a pensar sobre isso. Mulheres inteligentes. Elas tomam decisões por si mesmas, têm seus próprios desejos e estabelecem limites. Você nunca será o centro da vida delas, porque ela gira em torno de si mesma. 

Uma mulher inteligente não será manipulada ou chantageada, ela não engole culpa, assume responsabilidades. 

Mulheres inteligentes questionam, analisam, argumentam, elas não estão satisfeitas, elas avançam. 

Essas mulheres tiveram vida antes de você e sabem que continuarão a tê-la quando você partir. Elas estão aqui para avisar, não para pedir permissão. 

Essas mulheres não procuram no parceiro um líder para seguir, um pai que resolverá suas vidas ou um filho para resgatar. Elas não querem segui-lo ou liderar o caminho para ninguém, elas querem andar ao seu lado. 

Elas sabem que a vida livre de violência é um direito, não é um luxo ou um privilégio.

Elas expressam raiva, tristeza, alegria e medo, porque elas sabem que o medo não as tornam fracas, da mesma maneira que a raiva não as tornam “masculinos”.

Essas duas emoções e as outras, juntas, a tornam humanas. 

E agora! Uma mulher inteligente é livre porque lutou por sua liberdade. Mas ela não é uma vítima, ela é uma sobrevivente. Não tente acorrentá-la, porque ela saberá como escapar. Lembre-se de que você já fez isso antes.

A mulher inteligente sabe que seu valor não está na aparência de seu corpo ou o que Ela faz com isso. Pense duas vezes antes de julgá-la por idade, altura, volume ou comportamento sexual, porque isso é violência emocional e ela sabe disso. 

Então… antes de abrir a boca para dizer o que você quer para uma mulher “inteligente” em sua vida, pergunte-se se você realmente é feito para se encaixar na dela.

domingo, 28 de setembro de 2025

Vale a pena ler de novo

 Para ver que não há golpe do bem

Concluído o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus da trama golpista de 2022, ainda ecoam os trechos mais marcantes dos votos dos ministros. Um deles não é de uma sumidade do mundo jurídico, mas de um dos maiores escritores que a humanidade já conheceu, o francês Victor Hugo. 

No livro História de um Crime, Victor Hugo narra uma tentativa de golpe de Estado, em referência à dissolução da Assembleia Nacional Francesa por Luís Napoleão Bonaparte (Napoleão III), em 1851. O suposto diálogo entre um integrante da força armada e uma autoridade que resiste ao golpe é uma ode à democracia ‒ ou a reafirmação de que não existe “golpe do bem”. Vale a pena ler de novo: 

“‒ Mas isso que você me propõe é um golpe de Estado. 

‒ Você acredita nisso? 

‒ Sem dúvida. Nós somos a minoria e seríamos a maioria. Nós somos uma porção da Assembleia e agiríamos como se fôssemos a Assembleia inteira. Nós, que condenamos a usurpação, seríamos os usurpadores. Nós, os defensores da Constituição, afrontaríamos a Constituição. Nós, os homens da lei, violaríamos a lei. É um golpe de Estado. 

‒ Sim, mas um golpe de Estado para o bem. 

‒ O mal feito para o bem continua sendo mal. 

‒ Mesmo quando ele tem sucesso? 

‒ Principalmente quando ele tem sucesso. Porque então se torna um exemplo e vai se repetir.” 

******* 

Da coluna da jornalista Rosane de Oliveira,

no jornal Zero Hora, setembro de 2025

A trilha da longevidade

 Do Instituto Moriguchi

Fundado em 1994 em Veranópolis, RS, O Instituto Moriguchi nasceu da visão do médico e geriatra Emilio Hideyki Moriguchi, PHD em medicina pela Universidade de Tokai, no Japão. Desde então, virou referência nacional em pesquisas e práticas voltadas ao envelhecimento, unindo ciência e cotidiano para promover saúde, qualidade de vida e longevidade. 

O instituto trabalha de forma interdisciplinar para transformar a maneira como a sociedade encara o processo de envelhecer. Mais do que acrescentar anos à vida, a missão é acrescentar vida aos anos ‒ com autonomia, vitalidade e propósito. 

Para o doutor Moriguchi, os maiores medos dos brasileiros em ralação à velhice ainda estão ligados às doenças e ao tabu que envolve esse período da vida. Ele reforça que o convívio social e o papel da família são pilares para reduzir inseguranças: 

‒ Idosos podem enfrentar os receios com boas companhias, família e amigos. Ninguém envelhece bem sozinho. 

O Instituto estruturou a Trilha da Longevidade, um guia prático inspirado em hábitos de vida saudáveis e sustentáveis, que unem ciência, tradição e sabedoria popular. O caminho para envelhecer bem passa por: 

● Espiritualidade ou religiosidade sem preocupação com a finitude. 

● Sono de qualidade à noite e pequeno repouso após o almoço. 

● Envolvimento e sentimento de pertencimento na comunidade. 

● Amizades sólidas, presentes e leais. 

● Reconhecimento e respeito como fonte de sabedoria para os mais jovens. 

● Alimentação com vegetais, frutas e proteínas orgânicas. 

● Consumo de frutas de pomar ou silvestres em todas as estações. 

● Ovos, leite, derivados e proteína animal produzidos de forma tradicional. 

● Não fumar ou manter-se livre de vícios. 

● Prevenção e diagnóstico precoce com acompanhamento médico. 

● Manejo equilibrado do estresse e das preocupações. 

● Sentimento de importância no trabalho, incluindo o doméstico. 

● Atividade física de baixa e média intensidade. 

● Propósito de vida, metas e planos para o futuro com sustentabilidade. 

● Convivência familiar ativa e incentivadora. 

● Consumo disciplinado e regular de água, mesmo sem sede. 

● Uva Isabel como fruta, passa, geleia ou suco, pela riqueza em resveratrol. 

● Verduras e legumes da própria horta ou em trocas com vizinhos, sempre orgânicos.  

Do Caderno Vida do jornal Zero Hora, 28.09.2025  

sábado, 27 de setembro de 2025

Uma fábula de economia

 

Vivia um velho numa estrada onde vendia cachorro-quente. Não ouvia rádio nem lia jornal, mas era um excelente vendedor. Por isso, o movimento aumentava e o negócio também. Tanto, que comprou um fogão maior para produzir mais e chamou o filho, recém-saído da faculdade para auxiliá-lo. 

O filho disse: 

‒ Pai, tu tens sabido das notícias? A situação econômica está muito ruim. O mundo está em depressão. O desemprego aumenta, as vendas desabam. Vai ser um desastre! 

O velho raciocinou: 

‒ Meu filho é formado, ouve rádio, lê jornais. Ele sabe das coisas. 

E tomou uma decisão. Reduziu para a metade a compra de pão e salsicha e retirou as placas de propaganda. Do dia para a noite as vendas caíram drasticamente. E o velho disse: 

‒ Meu filho, você está certo. Realmente estamos no meio de uma recessão...

O dia Dele

 Lourenço Diaféria

Todos estranhamos quando ele entrou na classse naquele lamentável estado. Havia pouco, estacionara a moto no pátio, por um triz não atropelando um gato que se deixava ficar aturdido pelo estampido do cano de escapamento aberto. Subira as escadas displicentemente ‒ foi o que disseram várias testemunhas ‒ e, ao passar pelo saguão dos alunos, emitira um arroto. Mais adiante, encontrou-se com sua turma. Atirou ao chão os livros, sentou-se sobre eles, e puxou um cigarro sem marca. 

‒ Tem fogo aí? 

O da gangue da Biologia sacou do bolso um isqueiro, atirou por cima da cabeça da colega de Química. 

‒ Onde vamos barbarizar hoje? 

‒ Vamos pegar o pessoal da 226-B. 

‒ Sou mais a 125-C. Eles estão precisando de uma boa lição. 

‒ Não perdem por esperar ‒ respondeu, dando uma tragada funda. 

Levantou-se, amarrou os cadarços do tênis. Cuspiu na parede. Levantou o polegar. Como faziam os imperadores romanos para os gladiadores na arena. 

Foi então que o pudemos ver bem naquele triste estado. A gravata cinzenta, que era quase um componente fixo de seu uniforme diário, havia sido arrancada e estava amarrada à cintura. O guarda-pó, completamente imundo, estava dobrado junto com os cadernos. A camisa sobrava fora das calças. E as calças pareciam pertencer um hipotético náufrago que teria soçobrado na explosão de um navio pirata. 

Começou por chutar a carteira do aluno que lhe ficava à frente. 

‒ Abram os cadernos. 

Obedecemos. Sentimos em seu olhar uma ponta de cinismo e desafio, muito comum em pessoas que têm pais implicantes e fazem questão de demonstrá-lo, a propósito, ou sem nenhum propósito. 

‒ Vamos fazer a prova do mês. 

Do fundo da classe elevou-se um abafado murmúrio de desgosto, tímido e tenso. Ele ergueu o rosto com óbvio sentido de cortar na raiz qualquer protesto ou palpite. 

‒ ... Vimos na aula anterior a diferença da fosforilação nos cloroplastos e mitocôndrias. Creio que todos entenderam. Como hoje não estou com nenhuma disposição. Pois a noite passada fiquei enchendo a cara e fui dormir de madrugada, vocês me façam o favor de dissertar sobre o fenômeno da plasmólise, enquanto ficarei no fundo da classe, mascando meu chiclete de frutas e tirando uma pestana. 

Breve silêncio. Arrematou: 

‒ E não se atrevam a me acordar. Hoje não estou bom do fígado. 

Um dos nossos levantou a mão: 

‒ Posso fazer uma observação? 

‒ Não, senhor. Ponha-se no seu lugar. Comece a escrever. 

‒ Mas o senhor não avisou que haveria prova. Ninguém se preparou. 

‒ Já disse que não me aborrecessem. Matéria dada é matéria a cobrar. 

O murmúrio cresceu, agora solidário entre nós. 

‒ Não é justo. O senhor costuma sempre avisar com antecedência... 

‒ Estou careca de saber disso. Aviso, e depois vocês ficam me pedindo nota. Hoje vamos usar processo inverso. Não aviso, e exijo que vocês façam prova limpa, correta, irretocável. 

‒ Mas... 

‒ Se vocês não forem compreensivos, chamarei meus pais, eles virão à escola fazer publicamente uma reclamação contra os alunos que tenho. Ou então pedirei transferência para uma escola onde os alunos não sejam tão cacetes e obtusos. Papai e mamãe conhecem o diretor, são amicíssimos dele. Vocês não imaginam o que eles podem aprontar. Vamos, mãos à obra. 

Ficamos ainda um tempo a encará-lo. Por que teria mudado? Geralmente é uma pessoa cordata, acessível, pacifica, tolerante. Dá-nos sempre a impressão de que depende de nós para viver, para sobreviver, para sustentar a mulher e os filhos. Mas hoje... Engraçado. Está parecendo um dos nossos. Está fazendo valer seus direitos. O que lhe terá acontecido na cabeça? 

Mais tarde, ele recolheu as provas e, sem se despedir ‒ ao contrário do que faz normalmente ‒ abandonou a sala, foi juntar-se à sua turma, os da Biologia, da Matemática, da Química, das Letras Clássicas. Ficaram fazendo algazarra nos corredores. Até que nós perdemos a paciência, chamamos o bedel para pôr cobro à esculhambação. 

Mas o bedel* se recusou a interromper, alegou que, ao menos uma vez no ano, o professor também tem seu dia de dar o troco aos alunos. 

(Jornal da tarde, São Paulo, 15.10.1982)

 *Bedel: inspetor-de-alunos.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Eu sou a lagartixa…

 

Não me mate! 

Eu sou sua guardiã invisível enquanto você dorme tranquilo, eu caço baratas, aranhas, moscas e até escorpiões. 

Sou inofensiva, discreta e só quero proteger sua casa. 

Talvez você nunca saiba, mas já eliminei o perigo que poderia te assustar. 

Deixe-me viver! 

Eu sou parte do equilíbrio da natureza e uma amiga que você nem imaginava ter. 

******* 

A lagartixa serve como um excelente controlador biológico de pragas domésticas, alimentando-se de insetos indesejáveis como mosquitos, moscas, baratas, aranhas, traças e até escorpiões. Ao consumir esses animais, ela ajuda a reduzir a presença de pragas urbanas, incluindo vetores de doenças como o Aedes aegypti, sendo assim, uma aliada inofensiva e benéfica para o ambiente doméstico. 

As lagartixas costumam andar pelas paredes das residências à procura de alimentos, podendo ser traças, aranhas, insetos e mosquitos. Esses animais não fazem mal aos seres humanos, não mordem e nem transmitem doenças.

Frases impagáveis do Barão de Itararé

 

O que se leva desta vida é a vida que a gente leva. 

A criança diz o que faz, o velho diz o que fez e o idiota o que vai fazer. 

Os homens nascem iguais, mas no dia seguinte já são diferentes. 

Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo. 

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda. 

Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância. 

Não é triste mudar de ideias, triste é não ter ideias para mudar. 

Mantenha a cabeça fria, se quiser ideias frescas. 

O tambor faz muito barulho, mas é vazio por dentro. 

Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo. 

Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado. 

De onde menos se espera, daí é que não sai nada. 

Quem empresta, adeus. 

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos. 

O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro. 

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades. 

A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana. 

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato. 

Precisa-se de uma boa datilógrafa. Se for boa mesmo, não precisa ser datilógrafa. 

O fígado faz muito mal à bebida. 

O casamento é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso. 

A alma humana, como os bolsos da batina de padre, tem mistérios insondáveis. 

Eu Cavo, Tu Cavas, Ele Cava, Nós Cavamos, Vós Cavais, Eles Cavam. Não é bonito, nem rima, mas é profundo… 

Tudo é relativo: o tempo que dura um minuto depende de que lado da porta do banheiro você está. 

Nunca desista do seu sonho. Se acabou numa padaria, procure em outra! 

Devo tanto que, se eu chamar alguém de “meu bem”, o banco toma! 

Viva cada dia como se fosse o último. Um dia você acerta… 

Tempo é dinheiro. Paguemos, portanto, as nossas dívidas com o tempo. 

As duas cobras que estão no anel do médico significam que o médico cobra duas vezes, isto é, se cura, cobra, e se mata, cobra. 

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim, afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato. 

Em todas as famílias há sempre um imbecil. É horrível, portanto, a situação do filho único. 

Negociata é um bom negócio para o qual não fomos convidados. 

Quem não muda de caminho é trem. 

A moral dos políticos é como elevador: sobe e desce. Mas em geral enguiça por falta de energia, ou então não funciona definitivamente, deixando desesperados os infelizes que confiam nele.

Uma questão gramatical

 

O vocábulo “calor”, afinal tem ou não acento? 

Mas se não tem por que aquele gramático afirmou numa roda que o calor do Rio de Janeiro se acentua cada vez mais? 

E, por que se acentua mais no Rio que em São Paulo? 

E por que não se trata a sério da unificação ortográfica da palavra? 

A sério e friamente?

quarta-feira, 24 de setembro de 2025

O fígado indiscreto

 Monteiro Lobato

Que há um Deus para o namoro e outro para os bêbados está provado ‒ a contrario sensu. Sem eles, como explicar tanto passo falso sem tombo, tanto tombo sem nariz partido, tanta beijoca lambiscada a medo sem maiores consequências afora uns sobressaltos desagradáveis, quando passos inoportunos põem fim a duos de sofá em sala momentaneamente deserta? 

Acontece, todavia, que esses deuses, ao jeito dos de Homero, também cochilam, e o borracho parte o nariz de encontro ao lampião, ou a futura sogra lá pilha Romeu e Julieta em flagrante contato de mucosas petrificando-os com o clássico: “Que pouca vergonha!…” 

Outras vezes acontece aos protegidos decaírem da graça divina. 

Foi o que sucedeu a Inácio, o calouro, e isso lhe estragou o casamento com a sinharinha Lemos, boa menina, a quem cinquenta contos de dote faziam ótima. 

Inácio era o rei dos acanhados. Pelas coisas mínimas avermelhava, saía fora de si e permanecia largo tempo idiotizado. 

O progresso do seu namoro foi, como é natural, menos obra sua que da menina, e da família de ambos, tacitamente concertadas numa conspiração contra o celibato do futuro bacharel. Uma das manobras constou do convite que ele recebeu para jantar nos Lemos em certo dia de aniversário familiar comemorado a peru. 

Inácio barbeou-se, laçou a mais famosa gravata, floriu de orquídeas a botoeira, friccionou os cabelos com loção de violeta e lá foi de roupa nova lindo como se saíra da forma naquela hora. Levou consigo, entretanto, para mal seu, o acanhamento ‒ e daí proveio a catástrofe. 

Havia mais moças na sala, fora a eleita, e caras estranhas, vagamente suas conhecidas, que o olhavam com a benévola curiosidade a que faz jus um possível futuro parente. 

Inácio de natural mal firme nas estribeiras, sentiu-se já de começo um tanto desmontado com o papel de galã à força que lhe atribuíam. Uma das moças, criaturinha de requintada malícia, muito “saída” e “semostradeira”, interpelou-o sobre coisas de coração, ideias relativas ao casamento e também sobre a “noivinha” ‒ tudo com meias palavras intencionais sublinhadas de piscadelas para a direita e para a esquerda. 

Inácio avermelhou e tartamudeceu palavras, desconchavadas, enquanto o diabrete maliciosamente insistia: “Quando os doces, seu Inácio?” 

Respostas mascadas, gaguejadas, ineptas, foram o que saiu de dentro do moço, incapaz de réplicas jeitosas, sempre que ouvia risos femininos em redor de si. Salvou-o a ida para a mesa. 

Lá, enquanto engoliam a sopa, teve tempo de voltar a si e arrefecer as orelhas. Mas não demorou muito no equilíbrio. Por dá cá aquela palha o pobre rapaz mudava-se de si para fora, sofrendo todos os horrores consequentes. A culpada aqui foi a dona da casa. Serviu-lhe dona Luísa um bife de fígado sem consulta prévia. 

Esquisitice dos Lemos: comiam-se fígados naquela casa até nos dias mais solenes. 

Esquisitice do Inácio: nascera com a estranha idiossincrasia de não poder sequer ouvir falar em fígado. Seu estômago, seu esôfago e talvez seu próprio fígado tinham pela víscera biliar uma figadal aversão. E não insistisse Inácio em contrariá-los: amotinavam-se, repelindo indecorosamente o pedaço ingerido. 

Nesse dia, mal dona Luísa o serviu, Inácio avermelhou de novo e novamente saiu fora de si. Viu-se só, desamparado e inerme ante um problema de inadiável solução. Sentiu lá dentro o motim das vísceras; sentiu o estômago, encrespado de cólera, a exigir, com império, respeito às suas antipatias. Inácio parlamentou com o órgão digestivo, mostrou-lhe que mau momento era aquele para uma guerra intestina. Tentou acalmá-lo a goles de clarete, jurando eterna abstenção para o futuro. Pobre Inácio! A porejar suor gelado nas asas do nariz, chamou a postos o heroísmo, evocou todos os martírios sofridos pelos cristãos na era romana e os padecidos na era cristã pelos heréticos; contou um, dois, três e glug! engoliu meio fígado sem mastigar. Um gole precipitado de vinho rebateu o empache. E Inácio, de olhos arregalados, imóvel, esperou a revolução intestina. 

Em redor a alegria reinava. Riam-se, palestravam ruidosamente, longe de suspeitar o suplício daquele mártir posto a tormentos de uma nova espécie. 

‒ Você já reparou, Miloca, na “ganja” da Sinharinha? – disse uma sirigaita de “beleza” na testa. – Está como quem viu o passarinho verde… – e olhou de soslaio para Inácio. 

O calouro, entretanto, não deu fé da tagarelice; surdo às vozes do mundo, todo se concentrava na auscultação das vozes viscerais. Além disso, a tortura não estava concluída: tinha ainda diante de si a segunda parte do fígado engulhento. Era mister atacá-lo e concluir de vez a ingestão penosa. Inácio engatilhou-se de novo e ‒ um, dois, três: glug! ‒ lá rolou esôfago abaixo, o resto da miserável glândula. 

Maravilha! Por inexplicável milagre de polidez, o estômago não reagiu. Estava salvo Inácio. E como estava salvo, voltou lentamente a si, muito pálido, com o ar lorpa dos ressuscitados. Chegou a rir-se. Riu-se alvarmente, de gozo, como riria Hércules após o mais duro dos seus trabalhos. Seus ouvidos ouviam de novo os rumores do mundo, seu cérebro voltava a funcionar normalmente e seus olhos volveram outra vez às visões habituais. 

Estava nessa doce beatitude, quando: 

‒ Não sabia que o senhor gostava tanto de fígado, disse dona Luísa, vendo-lhe o prato vazio. Repita a dose. 

O instinto de conservação de Inácio pulou em guarda. E, fora de si outra vez, o pobre moço exclamou, tomado de pânico: 

‒ Não! Não! Muito obrigado!… 

‒ Ora, deixe-se de luxo! Tamanho homem com cerimônias em casa de amigos. Coma, coma, que não é vergonha gostar de fígado. Aqui está o Lemos, que se pela por uma isca. 

‒ Iscas são comigo, confirmou o velho. Lá isso não nego. Com elas ou sem elas, nunca as enjeitei. Tens bom gosto, rapaz! Serve-lhe, serve-lhe mais, Luísa. 

E não houve salvação! Veio para o prato de Inácio um novo naco ‒ este formidável dose dupla. 

Não se descreve o drama criado no seu organismo. Nem um Shakespeare, nem  Conrad ‒ ninguém dirá nunca os lances trágicos daquela estomacal tragédia sem palavras. Nem eu, portanto. Direi somente que à memória de Inácio acudiu o caso da Nora de Ibsen na Casa de boneca, e disfarçadamente ele aguardou o milagre. 

E o milagre veio! Um criado estouvadão, que entrava com o peru, tropeçou no tapete e soltou a ave no colo de uma dama. Gritos, rebuliço, tumulto. Num lampejo de gênio, Inácio aproveitou-se do incidente para agarrar o fígado e metê-lo no bolso. 

Salve! Nem dona Luísa, nem os vizinhos perceberam o truque ‒ e o jantar chegou à sobremesa sem maior novidade. 

Antes da dançata lembrou alguém recitativos e a espevitadíssima Miloca veio com Inácio. 

‒ A festa é sua, doutor Inácio. Nós queremos ouvi-lo. Dizem que o doutor recita admiravelmente. Vamos, um sonetinho de Bilac. Não sabe? Olha o luxinho! Vamos, vamos! Repare quem está no piano. Ela… Nem assim? Mauzinho... Quer decerto que a Sinharinha insista?… Ora, até que enfim! A Doida de Albano? Conheço sim, é linda, embora um pouco fora da moda. Toque a Dalila, Sinharinha, bem piano… assim... 

Inácio, vexadíssimo, vermelhíssimo, já em suores, foi para o pé do piano onde a futura consorte preludiava a Dalila em surdina. E declamou a Doida de Albano. 

Pelo meio dessa hecatombe em verso, aí pela quarta ou quinta desgraça, uma baga de suor escorrida da testa parou-lhe na sobrancelha, comichando qual importuna mosca. Inácio lembra-se do lenço e saca-o fora. Mas com o lenço vem o fígado, que faz plaf! no chão. Uma tossida forte e um pé plantado sobre a infame víscera, manobras do instinto, salvam o lance. 

Mas desde esse momento a sala começou a observar um extraordinário fenômeno. Inácio, que tanto se fizera rogar, não queria agora deixar o piano. E mal terminava um recitativo, logo iniciava outro, sem que ninguém lhe pedisse. É que o acorrentava àquele posto, novo Prometeu, o implacável fígado… 

Inácio recitava. Recitou sem música, o Navio negreiroAs duas ilhasVozes da ÁfricaO Tejo sereno. 

Sinharinha, desconfiada, abandonou o piano. Inácio, firme. Recitou O Corvo de Edgar Poe, traduzido pelo senhor João Kopke; recitou o Quisera amar-te, o Acorda donzela; borbotou poemetos, modinhas e quadras. 

Num canto da sala sinharinha estava chora ‒ não chora. Todos se entreolhavam. Teria enlouquecido o moço? 

Inácio, firme. Completamente fora de si (era a quarta vez que isso lhe acontecia naquela festa) e farto já de recitativos de salão, recorreu aos Lusíadas. E declamou. As armas e os barões, Estavas, linda Inês, Do reino a rédea leve, o Adamastor ‒ tudo! 

E, esgotado Camões, ia-lhe saindo um “ponto” de Filosofia do Direito ‒ A escola de Bentham ‒ a coisa última que lhe restava de cor na memória, quando perdeu o equilíbrio, escorregou e caiu, patenteado aos olhos arregalados da sala, a infamíssima víscera de má sorte. 

O resto não vale a pena contar. Basta que saibam que o amor da sinharinha morreu nesse dia; que a conspiração matrimonial falhou; e que Inácio mudou de terra. Mudou de terra porque o desalmado major Lemos deu de espalhar pela cidade inteira que Inácio era, sem dúvida, um bom rapaz, mas com um grave defeito: quando gostava de um prato, não se contentava de comer e repetir ‒ ainda levava escondido no bolso o que podia.

Homem de sorte

 

Era um dia de grande prêmio no Jóquei Clube e, nesses dias de altas cavalarias, a assistência costuma ser maior do que o prêmio. 

Muito antes de começar os preparativos para a primeira corrida, já as arquibancadas e as gerais estavam repletas desses cavalheiros que conhecem melhor a árvore genealógica de um cavalo de corrida do que a dos seus próprios antepassados. 

A essa hora, também Ernesto Boaventura, metido democraticamente num lotação, rodava a toda velocidade em direção ao hipódromo. O chofer que o conduzia, em promiscuidade com um sargento da Polícia Militar, da infantaria; a esposa de um funcionário público; um estudante de Filosofia da Universidade Católica e um músico ‒ trombonista da Banda Municipal; ‒ o chofer, fazendo mentalmente os seus cálculos, chegou à conclusão de que, se apertasse o acelerador, ainda poderia fazer três viagens-lotação. 

Todos os desastres de automóveis verificam-se por imprudência ou imperícia. E a maior imprudência que um motorista pode cometer na direção de um carro, é imprimir uma velocidade excessiva à sua viatura. E foi essa a imprudência que o chofer que conduzia Ernesto Boaventura cometeu naquela tarde turística. A derrapagem na curva foi espetacular. O veículo capotou, indo contra um poste da iluminação e ferindo gravemente a todos os passageiros. Isto é, a todos menos um, cuja boa sorte estava proclamada no próprio nome de Boaventura. 

De fato, dentro de alguns minutos, chegava, tilintando uma assistência, abrindo caminho entre a multidão de curiosos e levando os feridos para o Hospital de Pronto Socorro, enquanto Boaventura, depois de sacudir o casaco e limpar a manga com o lenço, dirigiu-se para o prado, chegando a tempo de comprar algumas “poules” no favorito, que chegou em último lugar. No páreo seguinte, consultou os catedráticos, fez os seus cálculos, mas de nada adiantou. O seu prejuízo foi total. E assim foi até a última carreira do programa. 

Quando se retirava, abatido, arruinado, sem um níquel, aproximou-se um amigo, que soubera da catástrofe do automóvel e dá-lhe um abraço, dizendo: 

‒ Parabéns! Você escapou milagrosamente, é mesmo um homem de sorte! 

E Boaventura, muito triste, rasgando as “poules”, respondeu: 

‒ É verdade! Eu tenho mesmo muita sorte. Mas só para desastre... 

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(Do Almanhaque do Barão de Itararé de 1955)

terça-feira, 23 de setembro de 2025

O anúncio

 

O dono de um pequeno comércio, amigo do grande poeta Olavo Bilac, abordou-o na rua: 

– Senhor Bilac, estou precisando vender o meu sítio, que o senhor tão bem conhece. Será que o senhor poderia redigir o anúncio para o jornal? 

Olavo Bilac apanhou o papel e escreveu. 

“Vende-se encantadora propriedade, onde cantam os pássaros ao amanhecer no extenso arvoredo, cortada por cristalinas e marejantes águas de um ribeirão. A casa banhada pelo sol nascente, oferece a sombra tranquila das tardes, na varanda”. 

Meses depois, topa o poeta com o homem e pergunta-lhe se havia vendido o sítio. 

– Nem penso mais nisso, ‒ disse o homem ‒ quando li o anúncio é que percebi a maravilha que tinha! 

Às vezes, não descobrimos as coisas boas que temos conosco e vamos longe atrás de miragens e falsos tesouros. 

Valorize o que você tem, a pessoa que está ao seu lado, os amigos que estão perto de você, o emprego que Deus lhe deu, o conhecimento que você adquiriu, a sua saúde, o sorriso, enfim tudo aquilo que nosso Deus nos proporciona diariamente para o nosso crescimento espiritual.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Uma mensagem positiva

Um famoso palestrante começou um seminário numa sala com 200 pessoas,
segurando uma nota de R$ 100,00. Ele perguntou:
 

- Quem de vocês quer esta nota de R$100,00?

Todos ergueram a mão...

Então ele disse: 

- Darei esta nota a um de vocês esta noite, mas primeiro, deixem-me fazer isto...

Aí, ele amassou totalmente a nota. E perguntou outra vez: 

- Quem ainda quer esta nota?

As mãos continuavam erguidas... 

E continuou: 

- E se eu fizer isso... Deixou a nota cair ao chão, começou a pisá-la e esfregá-la. 

Depois, pegou a nota, agora já imunda e amassada e perguntou: 

- E agora? Quem ainda vai querer esta nota de $100,00?

Todas as mãos voltaram a se erguer.

O palestrante voltou-se para a plateia e disse que tinha ensinado uma lição. Não importa o que eu faça com o dinheiro, vocês continuaram a querer esta nota, porque ela não perde o valor. Esta situação também acontece com a gente. Muitas vezes, em nossas vidas, somos amassados, pisoteados e ficamos nos sentindo sem importância. Mas, não importa, jamais perderemos o nosso valor. Sujos ou limpos, amassados ou inteiros, magros ou gordos, altos ou baixos, nada disso importa! Nada disso altera a importância que temos!  O preço de nossas vidas não é pelo que aparentamos ser, mas pelo que fazemos e sabemos! 

Agora reflitam bem e procure responder a estas perguntas:

1 ‒ Nomeie as 5 pessoas mais ricas do mundo.

2 ‒ Nomeie as 5 últimas vencedoras do concurso Miss Universo.

3 ‒ Nomeie 10 vencedores do prêmio Nobel.

4 ‒ Nomeie os 5 últimos vencedores do prêmio Oscar, como melhores atores ou atrizes.

Como foste? Mal, né? Difícil de lembrar? 

Não te preocupes. Ninguém de nós se lembra dos melhores de ontem. Os aplausos vão-se embora! Os troféus ficam cheios de pó! Os vencedores são esquecidos!

Agora responda a estas perguntas: 

1 ‒ Nomeia 3 professores que te ajudaram na tua verdadeira formação.

2 ‒ Nomeia 3 amigos que já te ajudaram nos momentos difíceis.

3 ‒ Pensa em algumas pessoas que te fizeram sentir alguém especial.

4 ‒ Nomeia 5 pessoas com quem transcorres o teu tempo.

5 ‒ Pensa, em pelo menos uma pessoa, que ajudou na profissão que agora tens na vida.

Como foste? Melhor não é verdade?

As pessoas que marcaram a nossa vida não são as que têm as melhores credenciais, com mais dinheiro, ou os melhores prêmios. São aquelas que se preocupam contigo, que cuidam de ti, aquelas que, de algum modo, estão contigo. 

Reflita um momento: 

A vida é muito curta! Tu em que lista estás? Não sabes? Permita-me te dar uma ajuda: Tu não estás entre os famosos,  mas estás entre aqueles que eu me lembro com carinho para que leia esta modesta mensagem.

Prece do Gaúcho

 

Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e com a licença do Patrão Celestial. Vou chegando, enquanto cevo o amargo das minhas confidências, porque, ao romper da madrugada e ao descambar do sol, preciso camperear por outras invernadas e repontar do Céu a força e a coragem para o entrevero do dia que passa. 

Eu bem sei que qualquer guasca bem pilchado de faca, rebenque e espora, não se afirma nos arreios da vida, se não se estriba na proteção do Céu. Ouve, Patrão Celestial, a oração que Te faço, ao romper da madrugada e ao descambar do sol. 

Tomara que todo o mundo seja como irmão! Ajuda-me a perdoar as afrontas e não fazer aos outros o que não quero para mim. Perdoa-me, Senhor, porque rengueando pelas canhadas da fraqueza humana, de quando em vez, quase sem querer, eu me solto porteira-fora... 

Eta potrilho xucro, renegado e caborteiro... Mas eu Te garanto, Meu Senhor, quero ser bom e direito. Ajuda-me, Virgem Maria, primeira prenda do Céu. Socorre-me São Pedro, capataz da estância gaúcha. Para fim de conversa, vou Te dizer, meu Deus, mas somente para Ti: que Tua vontade leve a minha de cabresto para todo o sempre e até a querência do Céu! Amém.

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Composta e indulgenciada por Dom Luiz Felipe de Nadal.

Dom Luiz foi bispo de Uruguaiana e morreu em acidente aéreo em 1963.

Sempre foi ligado ao movimento tradicionalista gaúcho.

domingo, 21 de setembro de 2025

O lenço do gaúcho

 

Desde o inicio da colonização do atual território do Rio Grande do Sul, o lenço acompanhou a evolução da indumentária gaúcha, tornando-se parte essencial. 

No Inicio as tribos indígenas, que habitavam nossas terras, especialmente os Charruas, Jaros e Minuanos, prendiam os cabelos compridos com tiras de imbira ou couro de pequenos animais (vincha). 

Com a chegada dos padres Jesuítas, foram então introduzidos os tecidos aqui na província, e ao confeccionarem suas roupas, como sempre sobravam algumas retalhos, trocaram as tiras de imbira, pelas de tecidos. 

Com a chegada das colonizações espanhola e portuguesa surge o costume de cortar os cabelos, não sendo assim mais necessário o uso da fita de tecido, porém o tecido tinha outras utilidades como limpar o suor do rosto, tornando-se indispensável para o dia-dia. 

Com o tempo, então desce da cabeça para o pescoço, no começo com as pontas para trás, então entendemos que o lenço de pescoço não surgiu como um adorno, mas sim da evolução da vincha. Uma Outra versão, seria a evolução do lenço-gravata usado nas cortes europeias e simplesmente copiado pelo gaúcho. 

Sua maior afirmação ocorreu quando foi adotado politicamente como designativo de cor partidária, e até o modo de atá-lo ao pescoço, surgindo assim o lenço gaúcho atado no pescoço e solto ao peito, passando a ser instrumento de identificação, de companheiros ou inimigos eram reconhecidos a distância pela cor dos lenços. 

O lenço que os Farrapos usaram não tinha grande representação política, porém usavam preferencialmente o lenço vermelho, atado de maneira própria como símbolo de seu grupo. 

Eram lenços de seda, estampados no centro com emblemas e legendas, celebrando os feitos, e ficaram conhecidos como “lenços farroupilhas”, dos quais existem alguns exemplares hoje em museus. 

No início da Revolução de 1893, os republicanos ou Pica-paus usavam o lenço de cor verde, significando a cor do positivismo, porém, com o tempo utilizaram o lenço de cor branca e enfrentaram os federalistas ou maragatos que usavam o lenço vermelho (Gumercindo Saraiva, líder maragato, que tinha sua origem no Partido Blanco do Uruguai, usava o lenço branco). Em 1923, o lenço vermelho identificava os maragatos (revolucionários) e o lenço branco identificava os chimangos (governo). 

O lenço preto significa o luto, uma vez que, durante as revoluções os soldados não podiam deixar de guerrear pela morte de um parente ou ente querido, por isso, atavam um lenço preto em seu pescoço e seguiam a cumprir sua sina. 

Atualmente, além das cores tradicionais, temos os lenços enxadrezados conhecidos também por “carijós”, encontram-se nas cores vermelho e branco, e eram usados nas revoluções como símbolo de isenção política. 

Fonte: Paulo Mena Pesquisador


As dez canções mais importantes do Rio Grande do Sul

 

Ativistas da cultura gaúcha e comunicadores destacam a importância das canções selecionadas. A maioria é praticamente uma declaração de amor ao pago e enaltece a força dos festivais nativistas. É uma plylist obrigatória. 

As 10 escolhidas 

● 1ͦ  “Céu, Sol, Sul, Terra e Cor” 

● 2ͦ  “Querência Amada” 

● 3ͦ  “Canto Alegretense” 

● 4ͦ  “Eu Sou do Sul” 

● 5ͦ  “Guri” 

● 6ͦ  “Batendo Água” 

● 7ͦ  “Negrinho do Pastoreio” 

● 8ͦ  “Hino ao Rio Grande” 

● 9ͦ  “Desgarrados” 

● 10ͦ  “Veterano” 

A vencedora 

Céu, Sol, Sul, Terra e Cor 

Leonardo 

Eu quero andar nas coxilhas

Sentindo as flexilhas das ervas do chão,

Ter os pés roseteados de campo

Ficar mais trigueiro com o Sol de verão. 

Fazer versos cantando as belezas

Desta natureza sem par

E mostrar para quem quiser ver

Um lugar para viver sem chorar.

(E mostrar para quem quiser ver) 

É o meu Rio Grande do Sul

Céu, Sol, Sul, terra e cor,

Onde tudo o que se planta cresce

E o que mais floresce é o amor.

É o meu Rio Grande do Sul

Céu, Sol, Sul, terra e cor

Onde tudo o que se planta cresce

E o que mais floresce é o amor.

(Onde tudo o que se planta cresce) 

Eu quero me banhar nas fontes

E olhar horizontes com Deus

E sentir que as cantigas nativas

Continuam vivas para os filhos meus. 

Ver os campos florindo

E crianças sorrindo, felizes a cantar

E mostrar para quem quiser ver

Um lugar pra viver sem chorar.

(E mostrar para quem quiser ver)

(Um lugar pra viver sem chorar) 

É o meu Rio Grande do Sul

Céu, Sol, Sul, terra e cor

Onde tudo o que se planta cresce

E o que mais floresce é o amor. 

É o meu Rio Grande do Sul

Céu, Sol, Sul, terra e cor

Onde tudo o que se planta cresce

E o que mais floresce é o amor.

Onde tudo o que se planta cresce

E o que mais floresce é o amor.

(Do jornal Zero Hora, 20 de setembro de 2025)

sábado, 20 de setembro de 2025

Artigos de fé do gaúcho

 

Muita gente anda no mundo sem saber pra quê: vivem porque veem os outros viverem. 

Alguns aprendem à sua custa, quase sempre já tarde pra um proveito melhor. Eu sou desses. 

Pra não suceder assim a vancê, eu vou ensinar-lhe o que os doutores nunca hão de ensinar-lhe por mais que queimem as pestanas deletreando nos seus livrões. Vancê note na sua livreta:

01° Não cries guaxo: mas cria perto do teu olhar o potrilho pro teu andar.

02° Doma tu mesmo o teu bagual; não enfrenes na lua nova, que fica babão; não arrendes na minguante, que te sai lerdo.

03° Não guasqueies sem precisão nem grites sem ocasião, e sempre que puderes passa-lhe a mão. 

04° Se és maturrango e chasque de namorado, mancas o teu cavalo, mas chegas; se fores chasque de vida ou morte, matas o teu cavalo e talvez não chegues. 

05° A maior pressa é a que se faz devagar. 

06° Se tens viajada larga não faças pular o teu cavalo; sai ao tranco até o primeiro suor secar; depois ao trote até o segundo, dá-lhe um alce sem terceiro e terás cavalo para o dia inteiro. 

07° Se queres engordar o teu cavalo, tira-lhe um pelo da testa todas as vezes da ração. 

08° Fala ao teu cavalo como se fosse à gente. 

09° Não te fies em tobiano, nem bragado, nem melado; pra água, tordilho; pra muito, tapado; mas pra tudo, tostado. 

10° Se topares um andante com arreios às costas, pergunta-lhe ‒ onde ficou o baio?... 

11° Mulher, arma e cavalo do andar, nada de emprestar. 

12° Mulher, de bom gênio; faca, de bom corte; cavalo, de boa boca; onça, de bom peso. 

13° Mulher sardenta e cavalo passarinheiro... alerta, companheiro!... 

14° Se correres eguada xucra, grita; mas com os homens, apresilha a língua. 

15° Quando dois brincam de mão, o diabo cospe vermelho... 

16° Cavalo de olho de porco, cachorro calado e homem de fala fina... sempre de relancina... 

17° Não te apotres, que domadores não faltam... 

18° Na guerra não há esse que nunca ouviu as esporas cantarem de grilo... 

19° Teima, mas não apostes; recebe, e depois assenta; assenta, e depois paga... 

20° Quando estiveres pra embravecer, conta três vezes os botões de tua roupa... 

21° Quando falares com homem, olha-lhe para os olhos; quando falares com mulher, olha-lhe para a boca... e saberás como te haver... 

Que foi? 

Ah! quebrou-se a ponta do lápis?

Amanhã vancê escreve o resto: olhe que dá para encher um par de tarcas! 

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(Do livro “Contos Gauchescos”, de J. Simões Lopes Neto)

Glossário 

Guaxo: diz-se do animal amamentado com leite que não é o materno. 

Potrilho: nome que se dá ao potranco com menos de um ano de idade. 

Bagual: potro recém-domado, cavalo novo, arisco. 

Enfrenar: pôr o freio, substituir o bocal pelo freio em animais que se amansam. 

Guasquear: fustigar com a guasca, ou com outro açoite (relho) qualquer. 

Maturrango: individuo que monta mal o cavalo, que é mau cavaleiro. 

Chasque: pessoa que leva recado, mensageiro. 

Tobiano: diz-se do cavalo cujo pelo apresenta manchas branca em fundo escuro ou vermelho. 

Bragado: que tem malhas ou machas brancas atravessadas na barriga. 

Tordilho: diz-se do cavalo que tem pelos salpicado de preto e branco. 

Baio: cavalo com pelo amarelo cor de ouro. 

Passarinheiro: diz-se do cavalo que tem a mania de passarinhar, cavalo que move a cabeça dum lado para outro, impedindo, assim, que lhe ponham o freio ou o buçal, ou lhe toquem nas orelhas. 

Apresilhar: prender com presilhas. 

Relancina: repentinamente, de relance. 

Apotrar: ficar bravio como o potro, embravecer, zangar-se. 

Tarca: pedaço de pau ou de couro em que se anota, com pequenos cortes, o numero de animais marcados durante o dia.