quarta-feira, 3 de setembro de 2025

O que o chimarrão nos ensina

 

Roda de chimarrão e churrasco – Joseph Lutzenberger 

O chimarrão é parceria, é para ser celebrado em bando, da esquerda para a direita. 

O chimarrão é feito para girar. Você não pede chimarrão, ele é oferecido. 

O silêncio é concordância. Você só diz “obrigado” quando não quer mais. 

O chimarrão nos ensina que não estamos sós. Não nascemos para o confinamento, para o isolamento. 

O chimarrão nos mostra como nos ajudamos, como vivemos em grupo, como abrimos o nosso coração contando histórias, como tudo sucede ao redor das canções de nossa terra. 

Ainda vamos voltar a rir. Ainda vamos voltar a ser leves. A dor um dia será lembrança finda, a ferida um dia será cicatriz fechada, a enchente um dia será marca na parede. 

Não agora, não hoje, não amanhã. Um dia! Depois dos helicópteros e barcos. Depois do mutirão. Depois dos rodos e das pás. Depois do cimento e da tinta. Depois da reconstrução dos ninhos. 

Não podemos nos esquecer do chimarrão. É o nosso fogo reinventado. 

O chimarrão significa a família, amizade, confidência. 

Não tem solenidade, não tem cerimônia, não tem exigência, não tem que pagar prenda, não depende de convite, é apenas puxar uma cadeira e se aprochegar. 

Quem é de fora passa a ser parte do círculo. O circulo cresce conforme as visitas e jamais se quebra. Uma vez no círculo, você não é mais posto de lado. 

O chimarrão é respeito, tradição, apego às raízes. 

Não mata somente a sede, mas a fome de estar junto. 

Na roda, nenhuma pessoa é melhor do que a outra, a companhia nos torna melhores. Por isso, você deve segurar o chimarrão com a mesma mão que cumprimenta: a mão da sinceridade, da palavra firmada, do pacto, do acordo, da promessa, da confiança. 

Não há inverno que o esfrie. Não há verão que espante o hábito. 

Alguém aquecerá a água, alguém carregará a térmica. É um trabalho de equipe, de igualdade, de complemento. 

O chimarrão é o mate amargo que fica doce pelo convívio. 

A mateira é nossa mochila no desespero ou na exaltação, permitindo que a nossa bebida aconteça em qualquer lugar, em qualquer situação, em qualquer estrada, em qualquer momento.

Toma-se para relaxar. Toma-se para reagir. Toma-se para pensar. Toma-se para decidir. 

É um vício e um apoio, é uma virtude e um conselho. 

Nunca deixamos ninguém morrer com a cuia na mão. Que ela siga em frente. Que continue rodando, cumprindo o seu destino, reiniciando ciclos.  

O chimarrão será sorvido até ficar lavado. Até escurecer a erva. Até anoitecer. Até surgirem as estrelas no céu do Rio Grande. 

Todos precisam fazer o mate roncar antes de passá-lo adiante. Só o entregamos depois do ronco. Nunca bebemos a vida pela metade. Nunca sucumbimos. Somos incansáveis mateando desde cedo, desde sempre. 

Existem aqueles que acordam com o café, e existimos nós no mundo, nós que sonhamos com o chimarrão.  

(Do jornal Zero Hora, 10 de junho de 2024)

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