Lourenço Diaféria
Todos estranhamos quando ele entrou na classse naquele lamentável estado. Havia pouco, estacionara a moto no pátio, por um triz não atropelando um gato que se deixava ficar aturdido pelo estampido do cano de escapamento aberto. Subira as escadas displicentemente ‒ foi o que disseram várias testemunhas ‒ e, ao passar pelo saguão dos alunos, emitira um arroto. Mais adiante, encontrou-se com sua turma. Atirou ao chão os livros, sentou-se sobre eles, e puxou um cigarro sem marca.
‒ Tem fogo aí?
O da gangue da Biologia sacou do bolso um isqueiro, atirou por cima da cabeça da colega de Química.
‒ Onde vamos barbarizar hoje?
‒ Vamos pegar o pessoal da 226-B.
‒ Sou mais a 125-C. Eles estão precisando de uma boa lição.
‒ Não perdem por esperar ‒ respondeu, dando uma tragada funda.
Levantou-se, amarrou os cadarços do tênis. Cuspiu na parede. Levantou o polegar. Como faziam os imperadores romanos para os gladiadores na arena.
Foi então que o pudemos ver bem naquele triste estado. A gravata cinzenta, que era quase um componente fixo de seu uniforme diário, havia sido arrancada e estava amarrada à cintura. O guarda-pó, completamente imundo, estava dobrado junto com os cadernos. A camisa sobrava fora das calças. E as calças pareciam pertencer um hipotético náufrago que teria soçobrado na explosão de um navio pirata.
Começou por chutar a carteira do aluno que lhe ficava à frente.
‒ Abram os cadernos.
Obedecemos. Sentimos em seu olhar uma ponta de cinismo e desafio, muito comum em pessoas que têm pais implicantes e fazem questão de demonstrá-lo, a propósito, ou sem nenhum propósito.
‒ Vamos fazer a prova do mês.
Do fundo da classe elevou-se um abafado murmúrio de desgosto, tímido e tenso. Ele ergueu o rosto com óbvio sentido de cortar na raiz qualquer protesto ou palpite.
‒ ... Vimos na aula anterior a diferença da fosforilação nos cloroplastos e mitocôndrias. Creio que todos entenderam. Como hoje não estou com nenhuma disposição. Pois a noite passada fiquei enchendo a cara e fui dormir de madrugada, vocês me façam o favor de dissertar sobre o fenômeno da plasmólise, enquanto ficarei no fundo da classe, mascando meu chiclete de frutas e tirando uma pestana.
Breve silêncio. Arrematou:
‒ E não se atrevam a me acordar. Hoje não estou bom do fígado.
Um dos nossos levantou a mão:
‒ Posso fazer uma observação?
‒ Não, senhor. Ponha-se no seu lugar. Comece a escrever.
‒ Mas o senhor não avisou que haveria prova. Ninguém se preparou.
‒ Já disse que não me aborrecessem. Matéria dada é matéria a cobrar.
O murmúrio cresceu, agora solidário entre nós.
‒ Não é justo. O senhor costuma sempre avisar com antecedência...
‒ Estou careca de saber disso. Aviso, e depois vocês ficam me pedindo nota. Hoje vamos usar processo inverso. Não aviso, e exijo que vocês façam prova limpa, correta, irretocável.
‒ Mas...
‒ Se vocês não forem compreensivos, chamarei meus pais, eles virão à escola fazer publicamente uma reclamação contra os alunos que tenho. Ou então pedirei transferência para uma escola onde os alunos não sejam tão cacetes e obtusos. Papai e mamãe conhecem o diretor, são amicíssimos dele. Vocês não imaginam o que eles podem aprontar. Vamos, mãos à obra.
Ficamos ainda um tempo a encará-lo. Por que teria mudado? Geralmente é uma pessoa cordata, acessível, pacifica, tolerante. Dá-nos sempre a impressão de que depende de nós para viver, para sobreviver, para sustentar a mulher e os filhos. Mas hoje... Engraçado. Está parecendo um dos nossos. Está fazendo valer seus direitos. O que lhe terá acontecido na cabeça?
Mais tarde, ele recolheu as provas e, sem se despedir ‒ ao contrário do que faz normalmente ‒ abandonou a sala, foi juntar-se à sua turma, os da Biologia, da Matemática, da Química, das Letras Clássicas. Ficaram fazendo algazarra nos corredores. Até que nós perdemos a paciência, chamamos o bedel para pôr cobro à esculhambação.
Mas o bedel* se recusou a interromper, alegou que, ao menos uma vez no ano, o professor também tem seu dia de dar o troco aos alunos.
(Jornal da tarde, São Paulo, 15.10.1982)
*Bedel: inspetor-de-alunos.

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