sábado, 27 de setembro de 2025

O dia Dele

 Lourenço Diaféria

Todos estranhamos quando ele entrou na classse naquele lamentável estado. Havia pouco, estacionara a moto no pátio, por um triz não atropelando um gato que se deixava ficar aturdido pelo estampido do cano de escapamento aberto. Subira as escadas displicentemente ‒ foi o que disseram várias testemunhas ‒ e, ao passar pelo saguão dos alunos, emitira um arroto. Mais adiante, encontrou-se com sua turma. Atirou ao chão os livros, sentou-se sobre eles, e puxou um cigarro sem marca. 

‒ Tem fogo aí? 

O da gangue da Biologia sacou do bolso um isqueiro, atirou por cima da cabeça da colega de Química. 

‒ Onde vamos barbarizar hoje? 

‒ Vamos pegar o pessoal da 226-B. 

‒ Sou mais a 125-C. Eles estão precisando de uma boa lição. 

‒ Não perdem por esperar ‒ respondeu, dando uma tragada funda. 

Levantou-se, amarrou os cadarços do tênis. Cuspiu na parede. Levantou o polegar. Como faziam os imperadores romanos para os gladiadores na arena. 

Foi então que o pudemos ver bem naquele triste estado. A gravata cinzenta, que era quase um componente fixo de seu uniforme diário, havia sido arrancada e estava amarrada à cintura. O guarda-pó, completamente imundo, estava dobrado junto com os cadernos. A camisa sobrava fora das calças. E as calças pareciam pertencer um hipotético náufrago que teria soçobrado na explosão de um navio pirata. 

Começou por chutar a carteira do aluno que lhe ficava à frente. 

‒ Abram os cadernos. 

Obedecemos. Sentimos em seu olhar uma ponta de cinismo e desafio, muito comum em pessoas que têm pais implicantes e fazem questão de demonstrá-lo, a propósito, ou sem nenhum propósito. 

‒ Vamos fazer a prova do mês. 

Do fundo da classe elevou-se um abafado murmúrio de desgosto, tímido e tenso. Ele ergueu o rosto com óbvio sentido de cortar na raiz qualquer protesto ou palpite. 

‒ ... Vimos na aula anterior a diferença da fosforilação nos cloroplastos e mitocôndrias. Creio que todos entenderam. Como hoje não estou com nenhuma disposição. Pois a noite passada fiquei enchendo a cara e fui dormir de madrugada, vocês me façam o favor de dissertar sobre o fenômeno da plasmólise, enquanto ficarei no fundo da classe, mascando meu chiclete de frutas e tirando uma pestana. 

Breve silêncio. Arrematou: 

‒ E não se atrevam a me acordar. Hoje não estou bom do fígado. 

Um dos nossos levantou a mão: 

‒ Posso fazer uma observação? 

‒ Não, senhor. Ponha-se no seu lugar. Comece a escrever. 

‒ Mas o senhor não avisou que haveria prova. Ninguém se preparou. 

‒ Já disse que não me aborrecessem. Matéria dada é matéria a cobrar. 

O murmúrio cresceu, agora solidário entre nós. 

‒ Não é justo. O senhor costuma sempre avisar com antecedência... 

‒ Estou careca de saber disso. Aviso, e depois vocês ficam me pedindo nota. Hoje vamos usar processo inverso. Não aviso, e exijo que vocês façam prova limpa, correta, irretocável. 

‒ Mas... 

‒ Se vocês não forem compreensivos, chamarei meus pais, eles virão à escola fazer publicamente uma reclamação contra os alunos que tenho. Ou então pedirei transferência para uma escola onde os alunos não sejam tão cacetes e obtusos. Papai e mamãe conhecem o diretor, são amicíssimos dele. Vocês não imaginam o que eles podem aprontar. Vamos, mãos à obra. 

Ficamos ainda um tempo a encará-lo. Por que teria mudado? Geralmente é uma pessoa cordata, acessível, pacifica, tolerante. Dá-nos sempre a impressão de que depende de nós para viver, para sobreviver, para sustentar a mulher e os filhos. Mas hoje... Engraçado. Está parecendo um dos nossos. Está fazendo valer seus direitos. O que lhe terá acontecido na cabeça? 

Mais tarde, ele recolheu as provas e, sem se despedir ‒ ao contrário do que faz normalmente ‒ abandonou a sala, foi juntar-se à sua turma, os da Biologia, da Matemática, da Química, das Letras Clássicas. Ficaram fazendo algazarra nos corredores. Até que nós perdemos a paciência, chamamos o bedel para pôr cobro à esculhambação. 

Mas o bedel* se recusou a interromper, alegou que, ao menos uma vez no ano, o professor também tem seu dia de dar o troco aos alunos. 

(Jornal da tarde, São Paulo, 15.10.1982)

 *Bedel: inspetor-de-alunos.

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