quarta-feira, 24 de setembro de 2025

O fígado indiscreto

 Monteiro Lobato

Que há um Deus para o namoro e outro para os bêbados está provado ‒ a contrario sensu. Sem eles, como explicar tanto passo falso sem tombo, tanto tombo sem nariz partido, tanta beijoca lambiscada a medo sem maiores consequências afora uns sobressaltos desagradáveis, quando passos inoportunos põem fim a duos de sofá em sala momentaneamente deserta? 

Acontece, todavia, que esses deuses, ao jeito dos de Homero, também cochilam, e o borracho parte o nariz de encontro ao lampião, ou a futura sogra lá pilha Romeu e Julieta em flagrante contato de mucosas petrificando-os com o clássico: “Que pouca vergonha!…” 

Outras vezes acontece aos protegidos decaírem da graça divina. 

Foi o que sucedeu a Inácio, o calouro, e isso lhe estragou o casamento com a sinharinha Lemos, boa menina, a quem cinquenta contos de dote faziam ótima. 

Inácio era o rei dos acanhados. Pelas coisas mínimas avermelhava, saía fora de si e permanecia largo tempo idiotizado. 

O progresso do seu namoro foi, como é natural, menos obra sua que da menina, e da família de ambos, tacitamente concertadas numa conspiração contra o celibato do futuro bacharel. Uma das manobras constou do convite que ele recebeu para jantar nos Lemos em certo dia de aniversário familiar comemorado a peru. 

Inácio barbeou-se, laçou a mais famosa gravata, floriu de orquídeas a botoeira, friccionou os cabelos com loção de violeta e lá foi de roupa nova lindo como se saíra da forma naquela hora. Levou consigo, entretanto, para mal seu, o acanhamento ‒ e daí proveio a catástrofe. 

Havia mais moças na sala, fora a eleita, e caras estranhas, vagamente suas conhecidas, que o olhavam com a benévola curiosidade a que faz jus um possível futuro parente. 

Inácio de natural mal firme nas estribeiras, sentiu-se já de começo um tanto desmontado com o papel de galã à força que lhe atribuíam. Uma das moças, criaturinha de requintada malícia, muito “saída” e “semostradeira”, interpelou-o sobre coisas de coração, ideias relativas ao casamento e também sobre a “noivinha” ‒ tudo com meias palavras intencionais sublinhadas de piscadelas para a direita e para a esquerda. 

Inácio avermelhou e tartamudeceu palavras, desconchavadas, enquanto o diabrete maliciosamente insistia: “Quando os doces, seu Inácio?” 

Respostas mascadas, gaguejadas, ineptas, foram o que saiu de dentro do moço, incapaz de réplicas jeitosas, sempre que ouvia risos femininos em redor de si. Salvou-o a ida para a mesa. 

Lá, enquanto engoliam a sopa, teve tempo de voltar a si e arrefecer as orelhas. Mas não demorou muito no equilíbrio. Por dá cá aquela palha o pobre rapaz mudava-se de si para fora, sofrendo todos os horrores consequentes. A culpada aqui foi a dona da casa. Serviu-lhe dona Luísa um bife de fígado sem consulta prévia. 

Esquisitice dos Lemos: comiam-se fígados naquela casa até nos dias mais solenes. 

Esquisitice do Inácio: nascera com a estranha idiossincrasia de não poder sequer ouvir falar em fígado. Seu estômago, seu esôfago e talvez seu próprio fígado tinham pela víscera biliar uma figadal aversão. E não insistisse Inácio em contrariá-los: amotinavam-se, repelindo indecorosamente o pedaço ingerido. 

Nesse dia, mal dona Luísa o serviu, Inácio avermelhou de novo e novamente saiu fora de si. Viu-se só, desamparado e inerme ante um problema de inadiável solução. Sentiu lá dentro o motim das vísceras; sentiu o estômago, encrespado de cólera, a exigir, com império, respeito às suas antipatias. Inácio parlamentou com o órgão digestivo, mostrou-lhe que mau momento era aquele para uma guerra intestina. Tentou acalmá-lo a goles de clarete, jurando eterna abstenção para o futuro. Pobre Inácio! A porejar suor gelado nas asas do nariz, chamou a postos o heroísmo, evocou todos os martírios sofridos pelos cristãos na era romana e os padecidos na era cristã pelos heréticos; contou um, dois, três e glug! engoliu meio fígado sem mastigar. Um gole precipitado de vinho rebateu o empache. E Inácio, de olhos arregalados, imóvel, esperou a revolução intestina. 

Em redor a alegria reinava. Riam-se, palestravam ruidosamente, longe de suspeitar o suplício daquele mártir posto a tormentos de uma nova espécie. 

‒ Você já reparou, Miloca, na “ganja” da Sinharinha? – disse uma sirigaita de “beleza” na testa. – Está como quem viu o passarinho verde… – e olhou de soslaio para Inácio. 

O calouro, entretanto, não deu fé da tagarelice; surdo às vozes do mundo, todo se concentrava na auscultação das vozes viscerais. Além disso, a tortura não estava concluída: tinha ainda diante de si a segunda parte do fígado engulhento. Era mister atacá-lo e concluir de vez a ingestão penosa. Inácio engatilhou-se de novo e ‒ um, dois, três: glug! ‒ lá rolou esôfago abaixo, o resto da miserável glândula. 

Maravilha! Por inexplicável milagre de polidez, o estômago não reagiu. Estava salvo Inácio. E como estava salvo, voltou lentamente a si, muito pálido, com o ar lorpa dos ressuscitados. Chegou a rir-se. Riu-se alvarmente, de gozo, como riria Hércules após o mais duro dos seus trabalhos. Seus ouvidos ouviam de novo os rumores do mundo, seu cérebro voltava a funcionar normalmente e seus olhos volveram outra vez às visões habituais. 

Estava nessa doce beatitude, quando: 

‒ Não sabia que o senhor gostava tanto de fígado, disse dona Luísa, vendo-lhe o prato vazio. Repita a dose. 

O instinto de conservação de Inácio pulou em guarda. E, fora de si outra vez, o pobre moço exclamou, tomado de pânico: 

‒ Não! Não! Muito obrigado!… 

‒ Ora, deixe-se de luxo! Tamanho homem com cerimônias em casa de amigos. Coma, coma, que não é vergonha gostar de fígado. Aqui está o Lemos, que se pela por uma isca. 

‒ Iscas são comigo, confirmou o velho. Lá isso não nego. Com elas ou sem elas, nunca as enjeitei. Tens bom gosto, rapaz! Serve-lhe, serve-lhe mais, Luísa. 

E não houve salvação! Veio para o prato de Inácio um novo naco ‒ este formidável dose dupla. 

Não se descreve o drama criado no seu organismo. Nem um Shakespeare, nem  Conrad ‒ ninguém dirá nunca os lances trágicos daquela estomacal tragédia sem palavras. Nem eu, portanto. Direi somente que à memória de Inácio acudiu o caso da Nora de Ibsen na Casa de boneca, e disfarçadamente ele aguardou o milagre. 

E o milagre veio! Um criado estouvadão, que entrava com o peru, tropeçou no tapete e soltou a ave no colo de uma dama. Gritos, rebuliço, tumulto. Num lampejo de gênio, Inácio aproveitou-se do incidente para agarrar o fígado e metê-lo no bolso. 

Salve! Nem dona Luísa, nem os vizinhos perceberam o truque ‒ e o jantar chegou à sobremesa sem maior novidade. 

Antes da dançata lembrou alguém recitativos e a espevitadíssima Miloca veio com Inácio. 

‒ A festa é sua, doutor Inácio. Nós queremos ouvi-lo. Dizem que o doutor recita admiravelmente. Vamos, um sonetinho de Bilac. Não sabe? Olha o luxinho! Vamos, vamos! Repare quem está no piano. Ela… Nem assim? Mauzinho... Quer decerto que a Sinharinha insista?… Ora, até que enfim! A Doida de Albano? Conheço sim, é linda, embora um pouco fora da moda. Toque a Dalila, Sinharinha, bem piano… assim... 

Inácio, vexadíssimo, vermelhíssimo, já em suores, foi para o pé do piano onde a futura consorte preludiava a Dalila em surdina. E declamou a Doida de Albano. 

Pelo meio dessa hecatombe em verso, aí pela quarta ou quinta desgraça, uma baga de suor escorrida da testa parou-lhe na sobrancelha, comichando qual importuna mosca. Inácio lembra-se do lenço e saca-o fora. Mas com o lenço vem o fígado, que faz plaf! no chão. Uma tossida forte e um pé plantado sobre a infame víscera, manobras do instinto, salvam o lance. 

Mas desde esse momento a sala começou a observar um extraordinário fenômeno. Inácio, que tanto se fizera rogar, não queria agora deixar o piano. E mal terminava um recitativo, logo iniciava outro, sem que ninguém lhe pedisse. É que o acorrentava àquele posto, novo Prometeu, o implacável fígado… 

Inácio recitava. Recitou sem música, o Navio negreiroAs duas ilhasVozes da ÁfricaO Tejo sereno. 

Sinharinha, desconfiada, abandonou o piano. Inácio, firme. Recitou O Corvo de Edgar Poe, traduzido pelo senhor João Kopke; recitou o Quisera amar-te, o Acorda donzela; borbotou poemetos, modinhas e quadras. 

Num canto da sala sinharinha estava chora ‒ não chora. Todos se entreolhavam. Teria enlouquecido o moço? 

Inácio, firme. Completamente fora de si (era a quarta vez que isso lhe acontecia naquela festa) e farto já de recitativos de salão, recorreu aos Lusíadas. E declamou. As armas e os barões, Estavas, linda Inês, Do reino a rédea leve, o Adamastor ‒ tudo! 

E, esgotado Camões, ia-lhe saindo um “ponto” de Filosofia do Direito ‒ A escola de Bentham ‒ a coisa última que lhe restava de cor na memória, quando perdeu o equilíbrio, escorregou e caiu, patenteado aos olhos arregalados da sala, a infamíssima víscera de má sorte. 

O resto não vale a pena contar. Basta que saibam que o amor da sinharinha morreu nesse dia; que a conspiração matrimonial falhou; e que Inácio mudou de terra. Mudou de terra porque o desalmado major Lemos deu de espalhar pela cidade inteira que Inácio era, sem dúvida, um bom rapaz, mas com um grave defeito: quando gostava de um prato, não se contentava de comer e repetir ‒ ainda levava escondido no bolso o que podia.

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