Era um dia de grande prêmio no Jóquei Clube e, nesses dias de altas cavalarias, a assistência costuma ser maior do que o prêmio.
Muito antes de começar os preparativos para a primeira corrida, já as arquibancadas e as gerais estavam repletas desses cavalheiros que conhecem melhor a árvore genealógica de um cavalo de corrida do que a dos seus próprios antepassados.
A essa hora, também Ernesto Boaventura, metido democraticamente num lotação, rodava a toda velocidade em direção ao hipódromo. O chofer que o conduzia, em promiscuidade com um sargento da Polícia Militar, da infantaria; a esposa de um funcionário público; um estudante de Filosofia da Universidade Católica e um músico ‒ trombonista da Banda Municipal; ‒ o chofer, fazendo mentalmente os seus cálculos, chegou à conclusão de que, se apertasse o acelerador, ainda poderia fazer três viagens-lotação.
Todos os desastres de automóveis verificam-se por imprudência ou imperícia. E a maior imprudência que um motorista pode cometer na direção de um carro, é imprimir uma velocidade excessiva à sua viatura. E foi essa a imprudência que o chofer que conduzia Ernesto Boaventura cometeu naquela tarde turística. A derrapagem na curva foi espetacular. O veículo capotou, indo contra um poste da iluminação e ferindo gravemente a todos os passageiros. Isto é, a todos menos um, cuja boa sorte estava proclamada no próprio nome de Boaventura.
De fato, dentro de alguns minutos, chegava, tilintando uma assistência, abrindo caminho entre a multidão de curiosos e levando os feridos para o Hospital de Pronto Socorro, enquanto Boaventura, depois de sacudir o casaco e limpar a manga com o lenço, dirigiu-se para o prado, chegando a tempo de comprar algumas “poules” no favorito, que chegou em último lugar. No páreo seguinte, consultou os catedráticos, fez os seus cálculos, mas de nada adiantou. O seu prejuízo foi total. E assim foi até a última carreira do programa.
Quando se retirava, abatido, arruinado, sem um níquel, aproximou-se um amigo, que soubera da catástrofe do automóvel e dá-lhe um abraço, dizendo:
‒ Parabéns! Você escapou milagrosamente, é mesmo um homem de sorte!
E Boaventura, muito triste, rasgando as “poules”, respondeu:
‒ É verdade! Eu tenho mesmo muita sorte. Mas só para desastre...
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(Do Almanhaque do Barão de Itararé de 1955)

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