O bairro da capital que homenageia o Rio de Janeiro
Giovanna Reis
Nos
anos 1930, o engenheiro Oswaldo Coufal
decidiu recriar, na zona Sul de Porto Alegre, um pedaço do Rio de Janeiro.
Batizou ruas, avenidas e o próprio loteamento com nomes cariocas, criando às
margens do Guaíba a Ipanema gaúcha.
O
projeto urbanístico do bairro fez parte de um movimento maior, que buscava
criar o destino ideal para quem não podia viajar até as praias do Litoral na
temporadas de verão ou mesmo nos fins de semana, já que, na época, o trajeto
podia durar mais de um dia. Não à toa, as ruas do bairro também carregam nomes
de praias do litoral do Rio Grande do Sul, como Atlântida, Capão da Canoa e
Tramandaí.
A
tradição de aproveitar os dias quentes no Balneário Ipanema persistiu por
décadas. Prejudicadas pela distância e pelas dificuldades de acesso às praias
oceânicas, milhares de famílias encontravam nas águas do Guaíba sua principal
alternativa de lazer. O Correio do Povo
retratou esse cenário no início dos anos 1970 ao escrever que “quem não foi ao
Atlântico, procurou o Guaíba”. Segundo a reportagem, as praias do bairro
recebiam multidões de crianças e famílias nos dias de sol.
Fotos
e registros da época mostram a extensa faixa de areia disputada por banhista.
Além do banho de lago e dos pedalinhos, a orla reunia passeios de bicicletas,
partidas de vôlei e praticantes de natação que aproveitavam para se refrescar e
praticar esportes.
A
paisagem que faz de Ipanema um dos principais cartões-postais de Porto Alegre
ainda preserva o encanto visual, mas a relação com as águas já não é a mesma.
Atualmente, os monitoramentos de balneabilidade realizados pelo Departamento
Municipal de Águas e Esgotos (Dmae) classificam a praia como imprópria para
banho, embora ela continue sendo frequentada pela população.
A
diferença é lembrada pelo professor, historiador e morador do bairro desde 1940
Harry Rodrigues Bellomo. Em depoimento publicado na dissertação “O Veraneio de
Antigamente”, ele recorda que as águas eram limpas o suficiente para ver os
peixes, em uma época na qual “o Arroio Capivara ainda não poluía a praia”.
Com
o crescimento urbano, esse arroio passou a receber águas contaminadas por
esgoto doméstico antes de desaguar no Guaíba, contribuindo para a degradação ambiental
da região e para o fim de uma era para os veranistas porto-alegrenses.
Mas
nem sempre o Arroio Capivara esteve associado à poluição. No início da década
de 1930, quando a região ainda era conhecida como Passo do Capivara, suas águas
irrigavam plantações e abasteciam as propriedades rurais que ocupavam aquela
parte da Zona Sul de Porto Alegre. Enquanto bairros vizinhos, como Tristeza,
Pedra Redonda e Cavalhada, já se desenvolviam, o bairro Ipanema permanecia
pouco ocupado, de acordo com a pesquisa “História dos bairros de Porto Alegre”.
Entre
as propriedades da região estava a chácara de veraneio do comerciante português
Antônio Francisco de Castro,
conhecido como Comendador Castro.
Construído no fim do século XIX, o casarão da família (foto abaixo) ainda resiste na rua que
hoje leva seu nome e é um dos poucos remanescente daquele período. Após a morte
do comendador, em 1929, parte das terras foi vendida por seus herdeiros a
Oswaldo Coufal, que daria início ao loteamento do Balneário Ipanema.
O Planejamento
Engenheiro,
Oswaldo Coufal pretendia transformar uma área ainda essencialmente rural em um
balneário planejado às margens do Guaíba. Baseado no conceito de
“Cidade-Jardim”, o projeto previa ruas largas, calçadas e arborizadas, amplas
avenida e a “promessa de se transformar na mais agradável estação de veraneio
da população”, segundo a historiadora Janete Machado.
Os
terrenos eram vendidos em prestações sem juros, com anúncios publicados nos
jornais destacando justamente a proposta de um espaço de lazer moderno para os
porto-alegrenses.
A
inspiração vinha da Cidade Maravilhosa, o Rio de Janeiro, onde costumava passar
férias com a família. Foi dessa admiração que surgiram o nome Ipanema e a
escolha de ruas que homenageiam bairros cariocas, como Leblon, Gávea, Flamengo
e Leme.* Em 1938, a prefeitura de Porto Alegre oficializou os nomes escolhidos
por Oswaldo Coufal e seus sócios.
O
sucesso do Balneário Ipanema não ficou restrito às temporadas de verão. A
partir da década de 1950, muitos veranistas passaram a construir casas para
morar definitivamente no bairro, atraídos pela tranquilidade, pela proximidade
com o Guaíba e pela qualidade de vida oferecida na Zona Sul.
Consolidação como bairro valorizado
Com
o crescimento residencial, Ipanema passou a atrair médicos, advogados,
empresários e outros profissionais liberais, consolidando-se como um dos
bairros mais valorizados de Porto Alegre. O antigo balneário deu lugar a um
bairro predominantemente residencial, mas preservou características que o
tornaram conhecido ao longo do século passado. Hoje, Ipanema reúne cerca de
13,7 mil habitantes, o equivalente a 0,97% da população de Porto Alegre. É
também um dos bairros mais envelhecidos da capital. Com aproximadamente 48% dos
moradores com 60 anos ou mais, e figura entre os de maior renda média por
domicílio, de 6,94 salários mínimos, de acordo com informações do Observa POA.
A
relação com a natureza, que ajudou a moldar a história de Ipanema, continua
presente no cotidiano. A orla do Guaíba segue atraindo caminhantes, corredores
e ciclistas, enquanto áreas verdes do entorno permanecem no centro dos debates
sobre o futuro do bairro.
Em
junho deste ano (2026), moradores da Zona Sul realizaram uma caminhada na orla
de Ipanema em defesa da Mata do Espírito Santo, uma das últimas áreas
remanescentes de Mata Atlântica na região. O grupo protesta contra um projeto
de loteamento habitacional previsto para uma área de cerca de 13 hectares entre
os bairros Ipanema e Espírito Santo, demonstrando que, quase um século depois
da criação do balneário, a preservação de sua paisagem natural continua
mobilizando a comunidade.
(Do jornal Zero Hora, 9 de agosto de
2026)
P.S.:
A primeira rua para quem tem acesso à praia de Ipanema, quando foi lançado a
venda dos terrenos, chamava-se Rua
Ipanema. Com a morte da esposa de Oswaldo Coufal, Dea Coufal (1904-1967), uma importante figura benemérita e
assistente social de Porto Alegre. Ela fundou em 1939 o Educandário Soa João
Batista, criado inicialmente para acolher crianças com deficiências e sequelas
de poliomielite, ela dá, atualmente, nome a uma tradicional rua do bairro, de Rua
Ipanema para Rua Dea Coufal.
* Outras praias que dão nomes
às ruas do bairro:
Rua Atlântida, Rua Capão da Canoa, Rua Cassino, Avenida Tramandaí, Rua Cidreira, Rua Porto Calvo, Rua Torres, Avenida Guaíba.
Dea e Oswaldo Coufal
Praia de Ipanema - Porto Alegre RS - 2026