Estavam o Medo e a Inquietação conversando sobre as banalidades do Mundo (isto é, sobre a Vida), quando apareceu a Indiferença com aquele jeitão dela. E contou a novidade.
‒ Já sabem o que vão adotar no trânsito desta cidade?
Sem ser convidada, a Ignorância, num pulo, deu a resposta:
‒Não, não sabemos. O que é?
A indiferença falou, indiferente:
‒ Ah, uma coisa velha: a tal coação psicológica. Agora com cassetetes.
O Medo arregalou os olhos ‒ como só ele sabe fazer ‒ e comentou:
‒ Credo! Mas isto não deixa hematomas?
‒ Não me interessa, falou a Indiferença dando de ombros, como só ela sabe fazer.
A Inquietação remexeu-se lá no canto dela e suspirou:
‒ Coação psicológica... É o tipo do eufemismo que dói.
Aí a Ignorância ignorou mais ainda:
‒ O que vamos fazer, hein?
A Dúvida, que já estava por ali, espreitando, levantou-se um pouco. Mas não disse nada, por via das dúvidas.
O Medo tomou coragem e abriu a boca para não falar besteira:
‒ Isso não vai ser bom. O terrível nas coações psicológicas é a falta de psicologia com que são aplicadas!
Resolveram, todos, então, consultar a Precaução. Assim saberiam que atitude tomar.
A Precaução nem abriu a porta. Pediu a senha lá de dentro.
Como a senha não custava nada, deram, e entraram para a grande conversa.
Ao fim da grande conversa, a Precaução deu apenas um conselho:
‒ Digam pra essa tal coação psicológica para o cassetete aguardar na fila, que têm outras esperando na frente.
E bateu a porta.
A turma quase pediu o dinheiro de volta, porém como não havia pago coisa nenhuma, foi embora. De consolo, só a nova companhia da Insegurança.
Moral:
Às vezes a precaução não evita acidentes, mas sempre goza nossos temores.
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(Do livro “Punidos venceremos”, do Fraga)

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