segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Pequena fábula sobre as coações psicológicas

 

Estavam o Medo e a Inquietação conversando sobre as banalidades do Mundo (isto é, sobre a Vida), quando apareceu a Indiferença com aquele jeitão dela. E contou a novidade. 

‒ Já sabem o que vão adotar no trânsito desta cidade? 

Sem ser convidada, a Ignorância, num pulo, deu a resposta: 

‒Não, não sabemos. O que é? 

A indiferença falou, indiferente: 

‒ Ah, uma coisa velha: a tal coação psicológica. Agora com cassetetes. 

O Medo arregalou os olhos ‒ como só ele sabe fazer ‒ e comentou: 

‒ Credo! Mas isto não deixa hematomas? 

‒ Não me interessa, falou a Indiferença dando de ombros, como só ela sabe fazer. 

A Inquietação remexeu-se lá no canto dela e suspirou: 

Coação psicológica... É o tipo do eufemismo que dói. 

Aí a Ignorância ignorou mais ainda: 

‒ O que vamos fazer, hein? 

A Dúvida, que já estava por ali, espreitando, levantou-se um pouco. Mas não disse nada, por via das dúvidas. 

O Medo tomou coragem e abriu a boca para não falar besteira: 

‒ Isso não vai ser bom. O terrível nas coações psicológicas é a falta de psicologia com que são aplicadas!

Resolveram, todos, então, consultar a Precaução. Assim saberiam que atitude tomar. 

A Precaução nem abriu a porta. Pediu a senha lá de dentro. 

Como a senha não custava nada, deram, e entraram para a grande conversa. 

Ao fim da grande conversa, a Precaução deu apenas um conselho: 

‒ Digam pra essa tal coação psicológica para o cassetete aguardar na fila, que têm outras esperando na frente. 

E bateu a porta. 

A turma quase pediu o dinheiro de volta, porém como não havia pago coisa nenhuma, foi embora. De consolo, só a nova companhia da Insegurança. 

Moral: Às vezes a precaução não evita acidentes, mas sempre goza nossos temores.

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(Do livro “Punidos venceremos”, do Fraga)

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