domingo, 6 de setembro de 2026

Pacto com a Felicidade

 

De hoje em diante, todos os dias ao acordar, direi:

Eu hoje vou ser Feliz!

Vou lembrar de agradecer ao sol

Pelo seu calor e luminosidade.

Sentirei que estou vivendo, respirando. 

Posso desfrutar de todos os recursos da natureza gratuitamente.

Não preciso comprar o canto dos pássaros,

Nem o murmúrio das ondas do mar.

Lembrarei de sentir a beleza das árvores, das flores.

Vou sorrir mais, sempre que puder.

Vou cultivar mais amizades e neutralizar as inimizades.

Não vou julgar os atos dos meus semelhantes ou companheiros.

Vou aprimorar os meus. 

Lembrarei de ligar para alguém para dizer que estou com saudades!

Reservarei minutos de silêncio

Para ter a oportunidade de ouvir.

Não vou lamentar nem amargar as injustiças,

Vou pensar no que posso fazer para diminuir seus efeitos.

Terei sempre em mente que um minuto passado, não volta mais.

Vou viver todos os minutos proveitosamente. 

Não vou sofrer por antecipação prevendo futuros incertos,

Nem com atraso, lembrando de coisas

Sobre as quais não tenho mais ação.

Não vou pensar no que não tenho e que gostaria de ter,

Mas em como posso ser feliz com o que possuo,

E o maior bem que possuo é a própria vida. 

Vou lembrar de ler uma poesia e de ouvir uma canção,

Vou dedicá-las a alguém.

Vou fazer alguma coisa para alguém, sem esperar nada em troca,

Apenas pelo prazer de ver alguém sorrir.

Vou lembrar que existe alguém que me quer bem,

Vou dedicar uns minutos de pensamento para os que já se foram

Para que saibam que serão sempre uma doce lembrança,

Até que venhamos a nos encontrar outra vez. 

Vou procurar dar um pouco de alegria para alguém,

Especialmente quando sentir que

A tristeza e o desânimo querem se aproximar.

E quando a noite chegar, vou olhar para o céu,

Para as estrelas e para o luar e

Agradecer aos Anjos e a Deus, porque...

Hoje Eu fui Feliz!

 Autoria desconhecida

Meus interesses?

Deixem-os pra lá.

 Martha Medeiros 

Aviso aos candidatos à presidência e demais cargos públicos. Sou uma mulher branca e heterossexual. Minha família pagou meu colégio e a faculdade. Na juventude, pude me exercitar, estudar idiomas, viajar. Fui criada em meio a livros, filmes e teatro. Nenhum homem jamais levantou a mão para mim. 

Tenho plano de saúde e previdência privada. Trabalho há 45 anos. Minhas duas filhas estão criadas. Vivo no meu próprio país, nunca tive que abandoná-lo para fugir da fome ou de uma guerra. Se eu me apertar, aciono minha rede de contatos. Deveria votar em quem defende os meus interesses? Os meus??? 

Meus interesses foram atendidos desde o dia em que nasci ‒ aliás, antes mesmo de eu nascer, pois minha mãe teve condições de realizar os exames de pré-natal. 

Preciso do governo infinitamente menos do que aqueles que ainda lutam por seus direitos básicos. Tenho 65 anos de privilégios. Voto por quem tem 3 anos e é cuidado por um irmãozinho de 9, enquanto a mãe realiza serviços domésticos na casa dos outros ‒ aos sábados, inclusive. Voto por quem tem 12 e teve que sair da escola para ajudar na renda familiar. Voto por quem tem 24 e ainda não conseguiu o primeiro emprego. Voto por quem mora em encostas, por quem sofre violência, por quem mal sabe escrever. 

Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim. 

Voto em quem pode impedir a escalada do retrocesso, da ignorância e da irresponsabilidade de indivíduos que nunca conceberam um projeto social de inclusão e negam evidências científicas. Voto em qualquer um que, em vez de ser um entreguista lambe-botas, defende nossa independência e democracia, em vez de tratar o Brasil como sucursal dos Estados Unidos. Obviamente, quem assumir em janeiro vai cometer erros e será cobrado, como acontece em todas as gestões de todas as nações. Mas não contem comigo para dar poder a quem nunca demonstrou compaixão por homens e mulheres que dependem de um governo consciente. O mercado importa, o agro importa, a economia importa, o empresariado importa, desde que beneficiem também a população, e não apenas suas bolhas. 

Minhas angústias emocionais, conhecidas como white people problem, atenuo com amigos, leitura e terapia, sob um teto sólido e com a certeza de que almoçarei amanhã. Desejo, claro, ver meus impostos bem investidos, a valorização da cultura, o meio-ambiente preservado e a corrupção combatida, mas sem esquecer o principal: nunca iremos decolar enquanto o Brasil for um dos países mais desiguais do mundo. É o nosso problema maior, que origina tantos outros. 

Portanto, nobres candidatos, obrigada pelas considerações, mas deixem para lá meus interesses. Vocês têm mais com o que se preocupar. 

(Do caderno donna, do jornal Zero Hora, 05.09.2026)

sábado, 5 de setembro de 2026

As dez músicas mais censuradas

Durante o Regime Militar no Brasil

 

Durante o Regime Militar no Brasil

10. “Eu quero é botar o meu bloco na rua”, de Sérgio Sampaio. 

09. “Pare de tomar a pílula”, de Odair José.    

08. “Mosca na sopa”, de Raul Seixas. 

07. “Que as crianças cantem livre”, de Taiguara. 

06. “Meu novo sapato”, de Paulinho da Viola. 

05. “Comportamento Geral”, de Gonzaguinha. 

04. “Pra não dizer que não falei de flores”, de Geraldo Vandré. 

03. “Acorda, amor”, de Julinho de Adelaide* (Chico Buarque). 

02. “Cálice”, de Chuço Buarque e Milton Nascimento. 

01. “Apesar de você”, de Chico Buarque. 

* Chico Buarque usou um codinome inventado porque as músicas com críticas políticas diretas eram proibidas ou cortadas pelos censores do regime. 

Outra lista de musicas censuradas 

As dez músicas mais marcantes que enfrentaram a censura durante o Regime Militar no Brasil (1964–1985) tornaram-se símbolos de resistência, liberdade e denúncia contra a repressão política e moral da época. 

01. Apesar de Você (1970) – Chico Buarque: Um dos maiores hinos de resistência, a música foi liberada inicialmente por os censores não perceberem a crítica direta ao autoritarismo, mas acabou banida e recolhida das lojas após o sucesso popular. 

02. Pra não dizer que não falei das flores (1967) – Geraldo Vandré: Conhecida como “Caminhando”, virou o hino da resistência estudantil e da oposição, o que levou à perseguição e ao exílio de seu autor. 

03. O Bêbado e a Equilibrista (1979) – João Bosco e Aldir Blanc (gravada por Elis Regina): Considerada o hino não oficial da anistia, a letra lamentava o exílio de artistas e pedia a volta dos banidos pelo regime. 

04. Cálice (1973) – Chico Buarque e Gilberto Gil: Usava uma metáfora religiosa (“Pai, afasta de me esse cálice”) para driblar a censura e falar sobre o silenciamento e a opressão, sendo integralmente proibida na época. 

05. Tiro ao Álvaro (1973) – Adoniran Barbosa e Elis Regina: Canção barrada pelos censores sob a justificativa de “ofensa ao vernáculo” (por usar o português coloquial e popular de São Paulo), embora carregasse um tom subversivo informal. 

06. Que as crianças cantem livres (1963) – Taiguara: De autoria do artista mais censurado do período, a faixa foi vetada por expressar anseios de liberdade e críticas sociais profundas. 

07. Meu novo sapato (1976) – Paulinho da Viola: Teve a circulação vetada devido ao duplo sentido da letra, que a censura interpretou como uma alusão velada aos militares e à rigidez do governo. 

08 Alegria, Alegria (1967) – Caetano Veloso: Teve versos questionados e enfrentou forte patrulhamento dos censores por misturar rebeldia juvenil, comportamento e críticas veladas ao moralismo da época. 

09. Acender as velas (1965) – Zé Keti: Retratava a dura realidade e o abandono das periferias urbanas, sendo vista pelo regime como propaganda negativa da realidade social brasileira. 

10. Eu quero é botar meu bloco na rua (1972) – Sérgio Sampaio: O refrão de forte apelo à autonomia pessoal e à liberdade individual soou incômodo para as autoridades do início dos anos 70, resultando em vigilância e restrições ao cantor. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Carta ao Inquilino

 

Senhor morador: 

 

Gostaria de informar que o contrato de aluguel que acordamos há bilhões de anos atrás está vencendo. Precisamos renová-lo, porém temos que acertar alguns pontos fundamentais: 

01 ‒ Você precisa pagar a conta de energia.

Está muito alta! Como você gasta tanto? 

02 ‒ Antes eu fornecia água em abundância; hoje não disponho mais desta quantidade. Precisamos renegociar o uso. 

03 ‒ Por que alguns na casa comem o suficiente e outros estão morrendo de fome, se o quintal é tão grande? Se cuidar da terra vai ter alimento para todos! 

04 ‒ Você cortou as árvores que dão sombra, ar e equilíbrio. O sol está quente e o calor aumentou. Você precisa replantar novamente! 

05 ‒ Todos os bichos e as plantas do imenso jardim devem ser cuidados e preservados. Procurei alguns animais e não encontrei. Sei que quando aluguei a casa eles existiam... 

06 ‒ Não vi os peixes que moram nos rios e lagos. Você pescou todos? Onde estão? 

07 ‒ Precisa verificar que cores estranhas estão no céu! Não vejo o azul! 

08 ‒ Por falar em lixo, que sujeira! Encontrei objetos estranhos pelo caminho... isopor, pneus, plásticos e muitas outras sujeiras que encontrei nos oceanos.

09 ‒ Você notou que as geleiras estão derretendo principalmente por causa do aquecimento global, que aumenta a temperatura média da Terra devido ao excesso de gases do efeito estufa na atmosfera. Tome cuidado!

10 ‒ E por último, uma advertência: o Oceano Pacífico está mais quente principalmente devido à forte atuação do fenômeno climático El Niño combinado com o avanço contínuo do aquecimento global, cuja causa é a emissão excessiva de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera devido às atividades humanas, conforme explica a Nações Unidas. 

Bom... é hora de conversarmos. Preciso saber se você ainda quer morar aqui. Caso afirmativo, o que você pode fazer para cumprir o contrato? Gostaria de ter você sempre comigo, mas tudo tem um limite. Você pode mudar? Aguardo respostas e atitudes... 

Sua casa, 

A Terra

O discurso do velhinho

 

Essa também se passa numa pequena cidade do interior gaúcho, numa época de eleições municipais. Um senhor, pequeno comerciante da comunidade, sorridente e simpático, começa, timidamente, o seu discurso para uma pequena plateia de curiosos na pacata pracinha da cidade: 

‒ Meus senhores, minhas senhoras, povo desta comunidade! 

Alguém, no meio do pequeno grupo, grita só de sacanagem: 

‒ Cala a boca, velho! 

O senhor para de falar, encara a pequena plateia e diz alto e convicto de suas palavras: 

‒ Meu futuro correligionário, ser velho é uma condição que vai além da idade cronológica, envolvendo construções sociais, psicológicas e biológicas, entendeu? Mas como eu ia dizendo... 

Mais uma vez, um desocupado grita bem alto: 

‒ Não incomoda, ancião! 

‒ Meu jovem, ser ancião abrange tanto a ideia de maturidade e sabedoria ligada à idade avançada quanto o papel de liderança espiritual e comunitária, vê se aprende esta lição. Volto ao meu discurso, meus senhores e minhas senhoras... 

Novamente, um gaiato grita no meio das poucas pessoas presentes no local: 

‒ Cala a boca, decrépito! 

O velhinho responde, encarando a galera: 

‒ Meu amigo, se ser decrépito é referir-se ao estado de decadência física, mental ou estrutural extrema, geralmente causado pelo envelhecimento avançado ou por profundo desgaste natural, eu não sou nada disso. Falei! 

O velho candidato começa a ficar impaciente e nervoso. Seu rosto já está ficando vermelho de raiva. Então, ele recomeça a sua fala: 

‒ Mas como eu ia dizendo, se não for mais uma vez interrompido, meus senhores e minhas senhoras! 

Quando um sacana resolve pegar pesado com o velhinho: 

‒ Cala a boca, velho brocha! 

O idoso, que já tinha esgotado todo o seu repertório de argumentos bonitos, encara a plateia, olha bem para o sacana e descarrega sua cólera, agora sem medir as suas palavras: 

‒ Velho brocha! Brocha é a puta que o pariu!

domingo, 30 de agosto de 2026

Histórias de bola

 

Da bola* 

Luis Fernando Veríssimo 

A bola pode ser qualquer coisa remotamente esférica. Até uma bola de futebol serve. No desespero, usa-se qualquer coisa que role, como uma pedra, uma lata vazia ou a merendeira do seu irmão menor, que sairá correndo para se queixar em casa. No caso de se usar uma pedra, lata ou outro objeto contundente, recomenda-se jogar de sapatos. De preferência os novos, do colégio. Quem jogar descalço deve cuidar para chutar sempre com aquela unha do dedão que estava precisando ser aparada mesmo. Também é permitido o uso de frutas ou legumes em vez da bola, recomendando-se nestes casos a laranja, a maça, o chuchu e a pera. Desaconselha-se o uso de tomates, melancias e, claro, ovos. O abacaxi pode ser utilizado, mas aí ninguém quer ficar no golo. 

*******

* Parte de uma crônica de LFV, que dá dicas para pelada de garotos de arrabalde, que jogavam felizes, numa era antes dos jogos eletrônicos, em campinhos de qualquer cidade pobre do Brasil. 

A Bola 

Luis Fernando Veríssimo 

O pai deu uma bola de presente ao filho. Lembrando o prazer que sentira ao ganhar a sua primeira bola do pai. Uma número 5 sem tento oficial de couro. Agora não era mais de couro, era de plástico. Mas era uma bola. 

O garoto agradeceu, desembrulhou a bola e disse “Legal!”. Ou o que os garotos dizem hoje em dia quando gostam do presente ou não querem magoar o velho. 

Depois começou a girar a bola, à procura de alguma coisa. 

– Como e que liga? – perguntou. 

– Como, como é que liga? Não se liga. 

O garoto procurou dentro do papel de embrulho. – Não tem manual de instrução? 

O pai começou a desanimar e a pensar que os tempos são outros. Que os tempos são decididamente outros.  

– Não precisa manual de instrução. 

– O que é que ela faz? 

– Ela não faz nada. Você é que faz coisas com ela. 

– O quê? 

– Controla, chuta… 

– Ah, então é uma bola. 

– Claro que é uma bola. 

– Uma bola, bola. Uma bola mesmo. 

– Você pensou que fosse o quê? 

– Nada, não. 

O garoto agradeceu, disse “Legal” de novo, e dali a pouco o pai o encontrou na frente da tevê, com a bola nova do lado, manejando os controles de um videogame. Algo chamado Monster Baú, em que times de monstrinhos disputavam a posse de uma bola em forma de blip eletrônico na tela ao mesmo tempo que tentavam se destruir mutuamente. O garoto era bom no jogo. Tinha coordenação e raciocínio rápido. Estava ganhando da máquina. 

O pai pegou a bola nova e ensaiou algumas embaixadas. Conseguiu equilibrar a bola no peito do pé, como antigamente, e chamou o garoto. 

– Filho, olha. 

O garoto disse “Legal”, mas não desviou os olhos da tela. O pai segurou a bola com as mãos e a cheirou, tentando recapturar mentalmente o cheiro de couro. A bola cheirava a nada. Talvez um manual de instrução fosse uma boa ideia, pensou. Mas em inglês, para a garotada se interessar.

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Bedeu

 

O suingue que nasceu em Porto Alegre e ganhou o Brasil 

Quando a gente fala de Black Music, Samba-Rock e Suingue no Rio Grande do Sul, existe um nome que não pode jamais ser esquecido: Bedeu. 

Jorge Moacir da Silva, o nosso Bedeu, nasceu em Porto Alegre em 4 de dezembro de 1946, no ambiente cultural da antiga Ilhota, região da Cidade Baixa marcada pela presença e pela resistência da comunidade negra. 

Ainda criança, aos seis anos, já tocava pandeiro e ganhou o apelido de “Bedeu do Carnaval” ‒ apelido que acabou se transformando no nome artístico que entraria para a história da música brasileira. E que história! 

Bedeu foi muito mais do que um cantor. Foi compositor, violonista, percussionista e um dos grandes criadores do suingue gaúcho, aquela mistura irresistível de samba, rock, balanço, percussão e influências da música negra que ganhou uma identidade própria nas pistas e nos bailes de Porto Alegre. 

Nos anos 1960, Bedeu já estava envolvido com grupos de baile e experiências musicais que misturavam samba e rock. Mais tarde, sua passagem por São Paulo abriu uma porta importante: suas composições começaram a ser gravadas por grandes nomes da música brasileira. 

E aqui está uma das grandes curiosidades de sua trajetória: 

Bedeu teve suas composições gravadas por artistas como Wilson Simonal, Jair Rodrigues, Bebeto, Dhema, Neguinho da Beija-Flor e Os Originais do Samba. 

Sua parceria com Alexandre Rodrigues e Leleco Telles produziu algumas das páginas mais bonitas do suingue brasileiro. 

Entre suas composições estão verdadeiros clássicos como: Minha Preta, Nêga Olívia, Grama Verde, Kid Brilhantina, Guerreiro, Tá na Hora, Menina Carolina, Saudades de Jackson do Pandeiro, Pau-Brasil, Skuliba, Negona. 

E não estamos falando apenas de músicas que ficaram esquecidas no passado. 

Mais de 40 composições de Bedeu foram identificadas em gravações de diferentes artistas e grupos, mostrando o tamanho de sua influência. Sua obra chegou às vozes de nomes como Bebeto, Wilson Simonal, Jair Rodrigues, Os Originais do Samba, Branca di Neve, Neguinho da Beija-Flor, Fernanda Abreu, Clube do Balanço e Ultramen, entre muitos outros. 

Pau Brasil ‒ um capítulo à parte 

Em 1975, de volta a Porto Alegre, Bedeu se uniu a Alexandre Rodrigues, Leleco Telles, Cy, Leco do Pandeiro e Nêgo Luiz para formar o Pau Brasil. 

Ali estava nascendo algo muito especial. 

O grupo juntou guitarra, baixo, bateria e uma poderosa percussão afro-brasileira, criando uma sonoridade que carregava o samba, mas conversava com o rock e com a música negra que estava movimentando o mundo. 

Em 1978 veio o álbum “O Samba e Suas Origens”, considerado por pesquisadores uma das obras mais completas do suingue negro produzido no Sul. 

No ano seguinte, “Pau Brasil”, de 1979, continuou essa história. 

E os discos chegaram às pistas de dança de São Paulo e de outras regiões, mostrando que aquele som que vinha de Porto Alegre tinha força para ultrapassar fronteiras. 

E quem viveu os bailes sabe... 

Bedeu não fazia música apenas para se ouvir. Era música para dançar. Era o balanço da guitarra, o peso da percussão, o vocal, o ritmo e aquele “molho” que fazia a pista responder. É por isso que sua obra encontrou um lugar tão especial nos bailes negros. Em Porto Alegre, essa música ganhou um nome próprio: Suingue. 

E Bedeu foi um dos seus maiores representantes. O pesquisador Mateus Mapa considera Bedeu e a geração do Pau Brasil parte fundamental da formação do samba-rock/suingue do Sul, movimento que nasceu da convivência entre músicos, escolas de samba, clubes sociais negros e bailes da cidade. 

Bedeu foi nacional 

Talvez essa seja uma das partes mais importantes de sua história. Durante muito tempo, falar de música brasileira significava olhar quase exclusivamente para Rio e São Paulo. 

Mas Bedeu mostrou que Porto Alegre também tinha uma voz negra forte, criativa e original. Ele saiu do Sul, dialogou com o eixo nacional, teve suas músicas gravadas por grandes artistas e ajudou a colocar o suingue gaúcho no mapa da música brasileira. 

E o mais bonito é que essa influência não terminou com sua partida. “Grama Verde”, por exemplo, ganhou nova vida com a Ultramen. “Kid Brilhantina” ficou conhecida também na voz de Branca di Neve. “Saudades de Jackson do Pandeiro”, parceria com Luís Vagner, foi posteriormente gravada pelo Clube do Balanço. Sua obra continuou viajando de geração em geração. 

Um artista que merece ser lembrado 

Bedeu morreu em 5 de agosto de 1999, aos 52 anos. Partiu cedo demais. Mas deixou algo que o tempo não conseguiu apagar: uma obra. Uma obra que continua sendo tocada, dançada, regravada e redescoberta. 

Em 1998, recebeu o Prêmio Açorianos de Música – Destaque Especial, reconhecimento importante de sua cidade. E existe uma imagem que talvez resuma tudo: 

Aquele menino que começou tocando pandeiro na Porto Alegre de outros tempos cresceu, atravessou fronteiras, encontrou grandes músicos brasileiros, criou clássicos, colocou o suingue gaúcho nas pistas e deixou uma marca profunda na música negra brasileira. 

Bedeu não foi apenas parte da história. Bedeu ajudou a escrever essa história. E para nós, que amamos Black Music, Charme, Samba-Rock e Suingue, revisitar Bedeu é muito mais do que matar a saudade. É reconhecer nossas raízes. É lembrar de uma época em que o LP girava, a agulha descia, o salão começava a ferver e bastavam os primeiros acordes para todo mundo saber: Agora tem suingue! 

Bedeu vive na música. Bedeu vive nos bailes. Bedeu vive na memória. Bedeu vive no suingue de Porto Alegre. 

Post de Pires Índio 

P.S.: Escute, na internet, o CD “Bedeu – Swing Popular Brasileiro” – 1998 – CD completo.