domingo, 1 de novembro de 2026

50 frases de Vinicius de Moraes

 sobre o amor, a vida, a amizade e mais!


“Soneto da Felicidade”, “Garota de Ipanema” e “Rosa de Hiroshima” são apenas alguns dos maiores legados literários deixados por Vinicius de Moraes (1913-1980). Este versátil escritor foi um dos maiores poetas e compositores da música popular brasileira e seus versos continuam encantando gerações. Confira algumas das frases mais célebres deste inesquecível artista. 

Frases de Vinicius de Moraes sobre o amor 

Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.
 

Vinicius de Moraes (Soneto do Amor Total) 

O amor é o carinho,
É o espinho que não se vê em cada flor.
 

Vinicius de Moraes, Luis Enrique Bacalov, Toquinho (O Velho e a Flor) 

De tudo ao meu amor serei atento. 

Vinicius de Moraes, Capiba (Soneto da Fidelidade) 

Eu te peço perdão por te amar de repente. 

Vinicius de Moraes (Ternura) 

Quem de dentro de si não sai, vai morrer sem amar ninguém. 

Vinicius de Moraes, Baden Powell (Berimbau) 

Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. 

Vinicius de Moraes (Ausência) 

Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido. 

Vinicius de Moraes (Para uma Menina com uma Flor - Amigos Meus) 

Amar é triste
O que é que existe?
O amor.
 

Vinicius de Moraes, Nilo Queiroz (Ai de quem Ama) 

Hei de morrer de amar mais do que pude. 

Vinicius de Moraes (Soneto do Amor Total) 

Quem vai pagar o enterro e as flores
Se eu me morrer de amores?
 

Vinicius de Moraes (A Hora Íntima) 

Mas amar é sofrer, mas amar é morrer de dor. 

Vinicius de Moraes (Canto de Xangô) 

Mas tem que sofrer, mas tem que chorar, mas tem que querer pra poder amar. 

Vinicius de Moraes (Tempo de Amor) 

Beija até o fim as minhas lágrimas de dor, porque eu te amo, além do amor! 

Vinicius de Moraes (Além do Amor) 

Frases de Vinicius de Moraes sobre a vida 

Quem já passou por essa vida e não viveu,

Pode ser mais mas sabe menos do que eu. 

Vinicius de Moraes, Toquinho (Como Dizia o Poeta) 

A infância é uma gaveta fechada, numa antiga cômoda de velhas magias. 

Vinicius de Moraes (A infância é uma gaveta fechada, numa antiga cômoda de velhas magias) 

A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. 

Vinicius de Moraes, Baden Powell (Samba da Bênção). 

A vida é uma grande ilusão,
Sei lá, sei lá,
Só sei que ela está com a razão.
 

Vinicius de Moraes, Toquinho (Sei lá… a vida tem sempre razão) 

Aquela em cujos braços vou caminhando para a morte
Mas em cujos braços somente tenho vida?
 

Vinicius de Moraes (A Vida Vivida) 

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos
 

Vinicius de Moraes (Poema de Natal) 

…pois só da vida lhe poderão advir novos motivos para criar. 

Vinicius de Moraes (Arte e Síntese) 

Frases de Vinicius de Moraes sobre a beleza 

Ele é o mundo extremo de beleza e de todas as ideias passadas e futuras. 

Vinicius de Moraes (Ele é o mundo extremo da beleza) 

...eu resolvi desligar e buscar um pouco de beleza no mundo. 

Vinicius de Moraes (Jornal do Brasil) 

Não existe beleza maior
Do que o amanhecer.
 

Vinicius de Moraes (Rancho Das Namoradas) 

Eu vejo as imagens musicalmente rítmicas
Narrando a beleza suave de um drama de amor.
 

Vinicius de Moraes (Desde Sempre)

E disse que a visão da beleza era da poesia. 

Vinicius de Moraes (O Poeta da Madrugada) 

…ela se disputa em beleza com a lua de Copacabana. 

Vinicius de Moraes (Meu Deus, Não seja Lá) 

O beijo mais ardente
Para a beleza da tua boca em flor.
 

Vinicius de Moraes, Haroldo Tapajós (Canção para Alguém) 

Frases de reflexão de Vinicius de Moraes 

Eu sonho a poesia dos gestos fisionômicos de um anjo! 

Vinicius de Moraes (A Criação da Poesia) 

Teus sentimentos são poesia,
Teus sofrimentos, melancolia.
 

Vinicius de Moraes (A Mulher Que Passa) 

Porque o samba é a tristeza que balança e a tristeza tem sempre uma esperança. 

Vinicius de Moraes (Samba da Benção) 

De manhã, escureço. De dia, tardo. De tarde, anoiteço. De noite, ardo. 

Vinicius de Moraes (Poética I e Poética II) 

Por céus e mares eu andei,
Vi um poeta e vi um rei
Na esperança de saber
O que é o amor.
 

Vinicius de Moraes (O Velho e a Flor) 

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.
 

Vinicius de Moraes (Soneto de contrição) 

Frases de Vinicius de Moraes sobre a felicidade 

Depois da guerra vai haver fertilidade, vai haver natalidade, vai haver felicidade. 

Vinicius de Moraes (Para uma Menina com uma Flor - Depois da Guerra) 

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar

Vinicius de Moraes, Antonio Carlos Jobim (A Felicidade)

Os pássaros viviam na felicidade profunda de seus cantos 

Vinicius de Moraes (Transfiguração da Montanha) 

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor.
 

Vinicius de Moraes, Antonio Carlos Jobim (A Felicidade) 

Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.
 

Vinicius de Moraes (Minha Mãe) 

Nunca vi muito dinheiro
Trazer felicidade pra ninguém.
 

Vinicius de Moraes, Edu Lobo (Samblues do Dinheiro) 

Ipanema era só felicidade,
Era como se o amor doesse em paz.
 

Vinicius de Moraes, Toquinho (Carta ao Tom) 

E eu resolvi acabar porque já não sabia mais se aquela felicidade toda era felicidade mesmo, ou era neurose... 

Vinicius de Moraes (Os Culpados de Tudo) 

Frases de Vinicius de Moraes sobre a amizade 

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica…
 

Vinicius de Moraes (Soneto do Amigo) 

De que mais precisa um homem senão de um amigo pra ele gostar, um amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar - basta olhar. 

Vinicius de Moraes (Para uma Menina com uma Flor - Libelo) 

O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade.
 

Vinicius de Moraes (O Poeta) 

Era a ilha da amizade
Era o espírito do poeta
A buscar pela cidade
Minha louca mocidade.
 

Vinicius de Moraes (Lapa da Bandeira) 

Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade. 

Vinicius de Moraes (Para uma Menina com uma Flor - Amigos Meus)

Uma pedra a Pedro Nava
Nessa pedra uma inscrição:
“‒ deste que muito te amava
teu amigo, teu irmão...
” 

Vinicius de Moraes (Balada de Pedro Nava ‒ O Anjo e o Túmulo) 

Amigo, olhe
Que lindo som!
Amigo, é mole
É o pianinho do Tom.
 

Vinicius de Moraes, Carlos Lyra (Balanço do Tom) 

Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

Vinicius de Moraes (Soneto do Amigo) 

(Do Blog O Pensador

sábado, 31 de outubro de 2026

Aprendizado constante

Aos 9 anos, aprendi que minha professora só me perguntava quando eu não sabia a resposta.

Aos 10, aprendi que era possível estar enamorado de quatro meninas ao mesmo tempo. 

Aos 12, aprendi que, se tinha problemas na escola, tinha-os maiores em casa. 

Aos 14, aprendi que, quando meu quarto ficava do modo que eu queria, minha mãe mandava-me arrumá-lo. 

Aos 15, aprendi que não devia descarregar minhas frustrações em meu irmão menor, porque meu pai tinha frustrações maiores e a mão mais pesada. 

Aos 16, aprendi que os grandes problemas sempre começam pequenos. 

Aos 20, aprendi que nunca devia elogiar a comida de minha mãe, quando estava comendo algo preparado por minha mulher. 

Aos 27, aprendi que o diploma obtido não era a meta sonhada. 

Aos 28, aprendi que se pode fazer, num instante, algo que te pode doer a vida inteira. 

Aos 30, aprendi que, quando minha mulher e eu tínhamos uma noite sem as crianças, passávamos a maior parte do tempo falando delas. 

Aos 33, aprendi que as mulheres gostam de receber flores, especialmente sem nenhum motivo. 

Aos 34, aprendi que não se cometem muitos erros com a boca fechada. 

Aos 38, aprendi que, sempre que estou viajando, queria estar em casa, e sempre que estou em casa queria estar viajando. 

Aos 40, aprendi que podes saber que tua esposa te ama quando sobram duas bolachas e ela escolhe a menor. 

Aos 42, aprendi que se estás levando uma vida sem fracassos, não estás correndo os suficientes riscos. 

Aos 44, aprendi que podes fazer alguém aproveitar bem o dia, somente enviando-lhe um cartão postal. 

Aos 48, aprendi que netos e avós são aliados naturais.

Aos 55, aprendi que é absolutamente impossível tirar férias sem engordar cinco quilos. 

Aos 60, aprendi que é razoável desfrutar o êxito, mas não se deve confiar demasiado nele. Que não posso mudar o que passou, mas posso deixá-lo para trás. 

Aos 64, aprendi que a maioria das coisas pelas quais me preocupei, nunca ocorreu. 

Aos 68, aprendi que se esperas te aposentar para desfrutar a vida, esperaste demasiado tempo. 

Aos 70, aprendi que nunca se deve ir para a cama, sem resolver uma briga. 

Aos 72, aprendi que, se as coisas vão mal, não tenho por que ir com elas. 

Aos 76, aprendi que envelhecer é importante. 

Aos 80, aprendi que amei menos do que devia. 

Aos 82, aprendi que ainda tenho muito para aprender. 

Sempre estamos aprendendo algo novo, algo lindo, algo digno, como, por exemplo, que a paz não se consegue se realmente não se está disposto a perdoar por ela, entender qual é a verdadeira importância da família, da gente simples, da vida. 

Que apesar de todos termos diferentes qualidades, capacidades e habilidades, saibamos valorizar as que temos e possamos oferecê-las aos demais e aproveitar as que os outros nos podem brindar. 

Saber aceitar nossas limitações e não nos esquecermos de nossas metas, apesar de que muitas vezes pareçam muito longínquas e difíceis. Caminhar em sua direção é o primeiro passo para algo que nem sequer podemos imaginar. 

Realmente, não tem muita importância até que idade vivemos.

O importante é sentir que não a vivemos em vão.


sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Livro recomendado

 Salim, o Mágico

É um livro publicado em 1970 por Malba Tahan (pseudônimo do matemático e escritor brasileiro Júlio César de Mello e Souza). Lançado em 1970, o livro – uma fábula sobre a convivência pacífica entre diferentes religiões ‒ faz uma sátira da situação política do Brasil dos anos 1960 e da ditadura militar. 

O Enredo 

● O Protagonista: Salim é um homem humilde, temente a Alá e de profissão modesta ‒ trabalhava como cordoeiro (fabricante de cordas) em Damasco, na Síria, durante o século VIII (no contexto do califado de El-Walid). 

● A Ascensão Acidental: Sem nenhum conhecimento de ocultismo, gênios ou lâmpadas mágicas, Salim é empurrado pelo puro acaso a uma fantástica ascensão social. Por uma série de mal-entendidos e coincidências, ele passa a ser visto pelo povo e pela corte como o maior mágico e adivinho da Síria. 

● Honrarias e Regalias: Adorado pela população e estimado pelo governante (emir/califa), Salim desvenda “mistérios”, faz supostas profecias e ganha imensas riquezas. Entre as regalias satíricas que recebe do poder público está até mesmo um “camelo chapa branca” (um símbolo dos privilégios estatais). 

● A Sátira Política: Sob o disfarce de uma fábula oriental ambientada no Oriente Médio, o livro funciona como uma corajosa sátira política aos costumes da época e à ditadura militar brasileira dos anos 1970. A trama ironiza a bajulação, os esquemas de corrupção, as sinecuras (cargos fáceis e remunerados), os jogos de influência e o “jeitinho” institucionalizado. 

P.S.: O livro está entre os dez principais livros da Literatura brasileira. Leia, pois ele é muito bom!



O Pingo e a Pinga

 Sampaulo* ‒ chargista de Zero Hora

Quando a chuva pinga no meu pago 

E pela estrada eu venho no meu pingo, 

Me apeio à procura de algum gringo 

Dono de bolicho, quero um trago! 

Bebo pura a pinga, mas não pago 

E boto uma peleia com o gringo. 

Sai cara a pinga, mas nem um pingo 

De dinheiro na guaiaca eu trago! 

E enquanto ele grita: ‒ “Paga a pinga!” 

Eu pego pela goela o pobre gringo 

E, despacito, despacito, o apago. 

Depois, na garupa, levo a gringa 

Que vai pingando o pranto no meu pingo 

E eu, fedendo a pinga, pelo pago.

******* 

* Sampaulo foi o pseudônimo artístico de Paulo de Tarso Faria (1931–1999), um dos mais importantes e premiados cartunistas, chargistas e ilustradores brasileiros, consagrado especialmente no Rio Grande do Sul.

Tipos díspares: o jagunço e o gaúcho

 

O gaúcho do Sul, ao encontrá-lo nesse instante, sobreolhá-lo-ia comiserado. 

O vaqueiro do Norte é a sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos, não há equipará-los. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do Norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do Equador. Não tem, no meio das horas tranquilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, diserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.

As suas vestes são um traje de festa, ante a vestimenta rústica do vaqueiro. As amplas bombachas, adrede talhadas para a movimentação fácil sobre os baguais, no galope fechado ou no corcovear raivoso, não se estragam em espinhos dilaceradores de caatingas. O seu poncho vistoso jamais fica perdido, embaraçado nos esgalhos das árvores garranchentas. E, rompendo pelas coxilhas, arrebatadamente na marcha do redomão desensofrido, calçando as largas botas russilhonas, em que retinem as rosetas das esporas de prata; lenço de seda encarnado, ao pescoço; coberto pelo sombreiro de enormes abas flexíveis, e tendo à cinta, rebrilhando, presas pela guaiaca, a pistola e a faca ‒ é um vitorioso jovial e forte. O cavalo, sócio inseparável desta existência algo romanesca, é quase objeto de luxo. Demonstra-o arreamento complicado e espetaculoso. O gaúcho andrajoso sobre um pingo bem aperado está decente, está corretíssimo. Pode atravessar sem vexames os vilarejos em festa. 

Trecho do livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha

quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ladainha

 Texto de Lourenço Diaféria

Dizem que vai faltar açúcar, todo mundo corre a procurar o doce.

Dizem que vai faltar o óleo, todo mundo corre a procurar a fritura.

Dizem que vai faltar o trigo, todo mundo corre a procurar a broa.

Dizem que vai faltar o fubá, todo mundo corre a procurar o angu.

Dizem que vai faltar o ferro, todo mundo corre a procurar a treliça.

Dizem que vai faltar o cimento, todo mundo corre a procurar o concreto.

Dizem que vai faltar a água, todo mundo corre a procurar o balde.

Dizem que vai faltar o sarilho, todo mundo corre a procurar o poço.

Dizem que vai faltar o vinagre, todo mundo corre a procurar o vinho.

Dizem que vai faltar o vinho, todo mundo corre a procurar o copo.

Dizem que vai faltar a luz, todo mundo corre a procurar a vela.

Dizem que vai faltar a carne, todo mundo corre a procurar o bife.

Dizem que vai faltar o orégano, todo mundo corre a procurar a pizza.

Dizem que vai faltar a galinha, todo mundo corre a procurar a canja.

Dizem que vai faltar o peixe, todo mundo corre a procurar a moqueca.

Dizem que vai faltar a paz, todo mundo corre a procurar as armas.

Dizem que vai faltar o samba, todo mundo corre a procurar o pandeiro.

Dizem que vai faltar o sol, todo mundo corre a procurar a praia.

Dizem que vai faltar a chuva, todo mundo corre a procurar o chuveiro.

Dizem que vai faltar o dinheiro, todo mundo corre a procurar o banco.

Dizem que vai faltar o cometa, todo mundo corre a procurar a luneta.

Dizem que vai faltar o horóscopo, todo mundo corre a procurar a cartomante.

Dizem que vai faltar estrelas, todo mundo corre a procurar o firmamento.

Dizem que vai faltar eleições, todo mundo corre a procurar candidatos.

Dizem que vai faltar governo, todo mundo corre a procurar revoluções.

Dizem que vai faltar a liberdade, todo mundo corre a procurar prisões.

Dizem que vai faltar navios, todo mundo corre a procurar o porto.

Dizem que vai faltar os fatos, todo mundo corre a procurar boatos.

Agora: quando dizem que vai faltar vergonha, ninguém se toca, está todo mundo acostumado.

terça-feira, 27 de outubro de 2026

O Navio Negreiro, Tragédia no Mar (VI)

 Castro Alves

Existe um povo que a bandeira empresta

Pr'a cobrir tanta infâmia e cobardia!..

E deixa-a transformar-se nessa festa

Em manto impuro de bacante fria!...

Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,

Que impudente na gávea tripudia?

Silêncio. Musa... chora, e chora tanto

Que o pavilhão se lave no teu pranto!...

 

Auriverde pendão de minha terra,

Que a brisa do Brasil beija e balança,

Estandarte que a luz do sol encerra

E as promessas divinas da esperança...

Tu que, da liberdade após a guerra,

Foste hasteado dos heróis na lança,

Antes te houvessem roto na batalha,

Que servires a um povo de mortalha!...

 

Fatalidade atroz que a mente esmaga!

Extingue nesta hora o brigue imundo

O trilho que Colombo abriu nas vagas,

Como um íris no pélago profundo!

Mas é infâmia demais... Da etérea plaga

Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!

Andrada! arranca este pendão dos ares!

Colombo! fecha a porta de teus mares! 

São Paulo, 18 de abril de 1868.

Publicado no livro A cachoeira de Paulo Afonso: poema original brasileiro (1876). In: ALVES, Castro. Obra completa. Organização e notas Eugênio Gomes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 198. 

Antônio Frederico de Castro Alves, 14 de março de 1847 – 6 de julho de 1871, foi um poeta, dramaturgo e advogado brasileiro, considerado o principal representante da terceira geração do romantismo no Brasil. Ficou conhecido por seus poemas abolicionistas, que renderam-lhe a alcunha de “poeta dos escravos”.