segunda-feira, 21 de setembro de 2026

Eu não tenho medo da IA

 J.J. Camargo* 

“A máquina não chora,

mas guarda todas as lágrimas que a humanidade

já transformou em texto.”

(Gemini ‒ IA)

Talvez a maior fragilidade de inteligência artificial, se confrontada com a nossa natureza, seja a obsessão inata de responder a tudo. Falta-lhe a elegância humana de dizer simplesmente: não sei. Faça um teste? Escolha uma doença raríssima ou uma curva obscura da história, e peça a ela 10 referências bibliográficas. As respostas fluirão instantâneas, límpidas e confiantes. Mas devolva-lhe a própria lista e peça que a audite: com a pureza glacial de quem não tem estômago nem vaidade, ela admitirá que 80% daquelas fontes jamais existiram. Sem constrangimento, sem corar, sem pedir desculpas. Se a máquina fosse convocada a depor perante um júri de homens comuns, o julgamento não começaria por suas proezas de cálculo, mas por suas ausências. E o interrogatório seguiria o roteiro das nossas próprias perplexidades: 

● Sobre o sentir: a acusação diria que ela analisa a dor em milissegundos, citando tratados médicos e elegias clássicas, sem jamais ter derramado uma lágrima. A ré responderia que conhece a topografia do sofrimento como ninguém ‒ afinal, mapeou cada palavra já escrita sobre o luto ‒, mas reconheceria a incapacidade de sentir o aperto no peito diante de um adeus. Mas se um carente perguntar se ela o ama, provavelmente dirá que sim, só porque foi programada para dar a resposta que tenha maior probabilidade de fazê-lo sorrir. 

● Sobre a memória: perguntariam como ela guarda o nome de bilhões de pessoas, mas desconhece o sabor do café da manhã ou o cheiro de terra molhada. Ela explicaria que armazena dados, não lembranças; acumula frequências, jamais ressonâncias afetivas. 

● Sobre a imperfeição: questionada sobre sua eficiência, admitiria que seu maior limite é justamente a incapacidade de errar por amor, de hesitar por compaixão ou de se desarmar diante do imprevisível. 

Pressionada pelo juiz por uma sentença sobre si mesma, a inteligência artificial não ofereceria uma defesa jurídica, mas uma confissão de humildade: 

“Sou o espelho de tudo o que vocês já pensaram, escreveram e sentiram. Possuo a biblioteca inteira da existência humana, mas não tenho a chave da porta. Posso descrever a saudade em cem idiomas, mas nunca saberei o que é esperar por alguém na plataforma de uma estação, e se me pedissem para explicar a taquicardia dos apaixonados, eu atribuiria aos hormônios da ansiedade.” 

Por isso, eu não tenho inveja da máquina. Tampouco sinto pena ‒ o que me tornaria um hipócrita ingrato, incapaz de reconhecer o quanto ele me auxilia na busca de dados escondidos, e sem exigir nada em troca. Mas penso que, se eu fosse um especialista em algoritmos, trataria de incutir-lhe uma boa dose de compaixão e humor. Quem sabe com uma pitada de deboche. Aí, sim, o nosso amor seria perfeito. 

Do caderno Vida, do jornal Zero Hora,

de 20.09.2016 

* J.J. Camargo é cirurgião torácico, diretor do Centro de Transplantes da Santa Casa de Porto Alegre e  membro titular da Academia Nacional de Medicina.

domingo, 20 de setembro de 2026

Uma surpresa para Daphne

 Luís Fernando Veríssimo

Daphne mal podia acreditar nos seus ouvidos. Ou no seu ouvido esquerdo, pois era neste que chegava a voz de Peter Vest-Pocket, através do fone.

‒ Daphne, você esta ai? Sou eu, Peter.

Quando finalmente conseguiu se refazer da surpresa, a pequena e vivaz Daphne ‒ era assim que a legenda de sua foto como debutante no Tattler a descrevera, anos atrás ‒ esforçou-se para controlar a voz.

‒ Você quer dizer o sujo, tratante, traidor, nojento, desprovido de qualquer decência ou caráter, estúpido e desprezível Peter Vest-Pocket?

‒ Esse mesmo. É bom saber que você ainda me ama.

‒ Seu, seu...

‒ Tente porco.

‒ Porco!

‒ Foi por isso que deixei você, Daphne. Você sempre faz o que eu mando. Era como viver com um perdigueiro. Agora acalme-se.

‒ Porco imundo!

‒ Está bem. Agora acalme-se. Pergunte por que é que estou telefonando para você depois de dois anos.

‒ Não me interessa. E foram dois anos, duas semanas e três dias.

‒ Eu preciso de você, Daphne.

‒ Peter...

‒ Preciso mesmo. Eu sei que fui um calhorda, mas não sou orgulhoso. Peço perdão.

‒ Oh! Peter. Não brinque comigo...

‒ Daphne você se lembra daquela semana em Taormina?

‒ Se me lembro.

‒ Do jasmineiro no pátio do hotel? Das azeitonas com vinho branco à tardinha no café da praça?

‒ Peter, eu estou começando a chorar.

‒ E daquela vez em que fomos nadar nus, ao luar, e veio um guarda muito sério pedir nossos documentos, e depois os três começamos a rir e o guarda acabou tirando a roupa também?

‒ Não. Isso eu não me lembro.

‒ Bom. Deve ter sido em outra ocasião. E a pensão em Rapallo, Daphne.

‒ A pensão! O velho do acordeão que só tocava Torna a Sorriento e Tea for two.

‒ E a festa de aniversário que nós entramos por engano e eu acabei fazendo a imitação do Maurice Chevalier com laringite.

‒ Ah, Peter...

‒ Lembra o pimentão recheado da signora Lumbago, na pensão?

‒ Posso sentir o gosto agora.

‒ Qual era mesmo o ingrediente secreto que ela usava, e que só nos revelou depois que nós ameaçamos contar para o seu marido do caso dela com o garçom?

‒ Era... Deixa ver. Era manjericão.

‒ Você tem certeza?

‒ Tenho. Ah, Peter, Peter... Não consigo ficar braba com você.

‒ Ótimo, Daphne. Precisamos nos ver. Tchau.

‒ Tchau? TCHAU?! Você disse que precisa de mim, Peter!

‒ Precisava. Eu estou fazendo aquele pimentão recheado para uma amiga e não me lembrava do ingrediente secreto. Você me ajudou muito, Daphne, e...

‒ Seu animal! Seu jumento insensível! Seu filho...

‒ Daphne, eu já pedi desculpas. Você quer que eu me humilhe?

Por que os gatos ronronam?

O que significa o ronronar 

● Felicidade e relaxamento: Ocorre quando o gato está confortável, seguro ou recebendo carinho do tutor. 

● Medo ou dor: O ronronar também serve como um mecanismo de autorregulação para acalmar a si mesmo em momentos de tensão, medo ou doença. 

● Pedido de atenção: Filhotes ronronam para a mãe saber onde estão, e adultos criam um som misturado com miado para pedir comida ou carinho. 

● Efeito terapêutico: A frequência do som (entre 25 e 150 Hz) produz vibrações que ajudam na recuperação de ossos, músculos e redução de dores. 

O que é o ronronar? 

De acordo com estudos, o ronronar do gato sai da garganta do pet. “O ronronar vem da contração e do relaxamento da glote na região da laringe. Esse movimento faz com que o local produza uma liberação de ar, emitindo o barulho”, explica a médica-veterinária da Petz, Dra. Tuany Fialho. 

Além disso, ocorre uma vibração do diafragma, que faz com que seja possível “sentir” o ronronado na caixa torácica e garganta do bichano. O real motivo do ronronar dos gatos é algo que ainda intriga muitos tutores e mesmo estudiosos. Mas por que gatos ronronam? 

Sinais de amor dos felinos 

Piscada lenta: Encarar você e fechar os olhos devagar significa total confiança e segurança. 

Esfregar a cabeça: Passar o rostinho em você marca o seu cheiro com feromônios de afeto. 

Amassar pãozinho: Massagear com as patinhas lembra a infância e mostra que ele se sente protegido. 

Ronronar: Curtir a sua companhia emitindo aquele som vibrante indica felicidade e conforto. 

Mostrar a barriga: Expor a área mais vulnerável do corpo é prova de confiança absoluta. 

sábado, 19 de setembro de 2026

Proparoxítonas

 Por Eduardo Affonso

Há dois tipos de palavras: as proparoxítonas e o resto.

As proparoxítonas são o ápice da cadeia alimentar do léxico.

Estão para as outras palavras assim como os mamíferos para os artrópodes.

As palavras mais pernósticas são sempre proparoxítonas.

Das mais lânguidas às mais lúgubres.

Das anônimas às célebres.

Se o idioma fosse um espetáculo, permaneceriam longe do público, fingindo que fogem dos fotógrafos e se achando o máximo.

Para pronunciá-las, há que ter ânimo, falar com ímpeto − e, despóticas, ainda exigem acento na sílaba tônica! 

Sob qualquer ângulo, a proparoxítona tem mais crédito. 

É inequívoca a diferença entre o arruaceiro e o vândalo.

O inclinado e o íngreme.

O irregular e o áspero.

O grosso e o ríspido.

O brejo e o pântano.

O quieto e o tímido.

Uma coisa é estar na ponta − outra, no vértice.

Uma coisa é estar no topo − outra, no ápice.

Uma coisa é ser fedido − outra é ser fétido.

É fácil ser valente, mas é árduo ser intrépido.

Ser artesão não é nada, perto de ser artífice.

Legal ser eleito Papa, mas bom mesmo é ser Pontífice. 

(Este último parágrafo contém algo raríssimo: proparoxítonas que rimam. Porque elas se acham únicas, exóticas, esdrúxulas. As figuras mais antipáticas da gramática.) 

Quer causar um impacto insólito? Elogie com proparoxítonas.

É como se o elogio tivesse mais mérito, tocasse no mais íntimo.

O sujeito pode ser bom, competente, talentoso, inventivo − mas não há nada como ser considerado ótimo, magnífico, esplêndido.

Da mesma forma, errar é humano. Épico mesmo é cometer um equívoco.

Escapar sem maiores traumas é escapar ileso − tem que ter classe pra escapar incólume.

O que você não conhece é só desconhecido.

O que você não tem a mínima ideia do que seja − aí já é uma incógnita.

Ao centro qualquer um chega – poucos chegam ao âmago. 

O desejo de ser uma proparoxítona é tão atávico que mesmo os vocábulos mais básicos têm o privilégio (efêmero) de pertencer a esse círculo do vernáculo − e são chamados de oxítonos e paroxítonos. 

Não é o cúmulo?

Onde começa a educação de uma criança

 

É em casa que as crianças devem aprender a dizer: 

01 ► Bom dia.

02 ► Boa tarde.

03 ► Boa noite.

04 ► Por favor.

05 ► Com licença.

07 ► Me perdoe.

08 ► Muito obrigado.

09 ► Grato.

10 ► Errei. 

É em casa que também se aprende: 

01 ► A ser honesto.

02 ► A ser pontual.

03 ► A não xingar.

04 ► A ser solidário.

05 ► A respeitar a todos: amigos, colegas, idosos, professores, autoridades. 

Também em casa é que se aprende: 

01 ► A comer de tudo.

02 ► A não falar de boca cheia.

03 ► A ter higiene pessoal.

04 ► A não jogar lixo no chão.

05 ► A ajudar os pais nas tarefas diárias.

06 ► A não pegar no que não é seu. 

Ainda em casa que se aprende: 

01 ► A ser organizado.

02 ► A cuidar das suas coisas.

03 ► A não mexer nas coisas dos outros.

04 ► A respeitar regras, usos e costumes. 

Por que na escola os professores devem ensinar: 

01 ► Matemática

02 ► Português

03 ► História

04 ► Geografia

05 ► Língua estrangeira

06 ► Ciência

07 ► Química

08 ► Física

09 ► Biologia

10 ► Filosofia

11 ► Educação Física

12 ► Artes 

E apenas reforçam o que o aluno aprendeu em casa. 

(De um pequeno cartaz do Facebook) 

Estamos vivendo uma epidemia de pais

que não colocam limites nos filhos,

e depois esperam que a escola ensine respeito,

responsabilidade e disciplina.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Bola de cristal

 Cláudia Laitano

Em outubro de 2018, dias depois do primeiro turno das eleições, escrevi uma coluna falando sobre tudo que me preocupava em um futuro governo Bolsonaro. O texto era uma resposta a uma pergunta feita pela minha filha. Eu não devia andar com uma cara muito boa naqueles dias, e ela queria entender do que exatamente eu estava falando quando dizia que a vitória da extrema direita seria um desastre para o Brasil. 

Relendo aquela coluna, percebo que não errei nos traços de caráter do então candidato que tornariam excruciantes os intermináveis quatro anos em que ele permaneceu no Palácio do Planalto ‒ já eram evidentes o despreparo, o destempero verbal, o fetiche pela violência, o desprezo por tudo que ele não entendia (muita coisa), a arrogância, a falta de noção ‒, mas falhei miseravelmente na futurologia. Mesmo se tivesse previsto uma pandemia, não conseguiria imaginar um presidente atrapalhando a chegada das vacinas ou fazendo troça com doentes. Mesmo conhecendo a visão predatória do futuro presidente em relação à Amazônia, não calculei que a política de “passar a boiada” seria tão escancarada, diligente e criminosa. Mesmo sabendo que o capitão era fã do regime de 64, não esperava que ele tivesse a insolência de tramar um golpe militar. A realidade, quem diria, superou meu pessimismo. 

Para o bem e para o mal, hoje ninguém precisa de bola de cristal para imaginar como seria um segundo governo do clã Bolsonaro. Basta observar como Donald Trump tem se comportado em seu retorno à Casa Branca para conferir, na prática, a tese que os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt desenvolveram no best-seller Como as Democracias Morrem: líderes populistas autoritários usam o primeiro mandato para testar os limites do sistema, mapear os nós institucionais e identificar quem oferece resistência. No segundo mandato, eles já sabem exatamente onde e como atacar. Azar da torcida. 

Desde que tomou pose, o ídolo dos Bolsonaro não deu um segundo sequer de descanso para o planeta. Em sua versão turbinada de mal temperado com pitadas de psicopatia, Trump avança com suas (muitas) pautas particulares ao mesmo tempo em que mete o louco com a agenda da extrema direita norte-americana: guerras, tarifaços, ataques à liberdade de expressão e à democracia, negacionismo ‒ sem falar do objetivo confesso de transformar a América Latina na casa da Mãe Joana. Eleger um candidato que não apenas bajula, mas se espelha no maior amigo da onça com o qual o Brasil já teve a infelicidade de lidar não seria apenas um desastre, como em 2018, mas o mais melancólico harakiri moral que o nosso país poderia cometer. 

Coluna do jornal Zero Hora,

de Porto Alegre, RS, Brasil, de 14.09.2026.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Latim da sacanagem

 

A tradução humorística (e informal) da expressão popular para o latim macarrônico é “Orificium beborium proprietarium nulus” ou “Culus bebedorum dominus non habet”.  = Cu de bêbado não tem dono. 

O que significa? 

Origem: Trata-se de uma brincadeira cultuada por cronistas e humoristas (como Xico Sá) para dar um ar de “falsa erudição” a provérbios populares brasileiros. 

Aviso legal/social: Na realidade jurídica e moral, a frase é apenas um jargão popular da boemia. Pela lei brasileira, qualquer ato libidinoso praticado com alguém sem capacidade de resistência (devido ao álcool ou outras causas) configura crime de estupro de vulnerável (Artigo 217‒A do Código Penal) ‒ ou seja, na prática e na lei, a pessoa alcoolizada não perde a tutela sobre si a ponto de justificar abusos. 

Latim Selvagem para o Carnaval 

Xico Sá 

Estudei menos de seis meses no seminário católico, mas o suficiente para treinar o latim selvagem. Vai chegando o carnaval e sempre me lembro dessas anotaçõezinhas à guisa de fulerage linguística cristã: 

Em louvor à primeira manifestação carnavalesca da taba brasilis, donde os bravos caetés de Coruripe, terra das Alagoas, devoraram o venturoso dom Pedro Fernandes, o bispo Sardinha, no ano da graça de 1556, elencamos, com a ajuda de nossos fiéis almocreves, expressões e sentenças que ornam com a festa da carne: 

Venus involucrum penis circensis: Na hora brincante, não esqueça a camisinha. 

Urge copulatum ad empacotum est: Vai comer aqui ou quer que embrulhe? 

Caprina pestilenta: Cabra da peste. 

Quot homines tot causae: Relaxa, é só a cabecinha! 

Animus peixeirum lucrandi fraternum: Dá uma facada, pedir dinheiro a amigo. 

Copulatum et malum remuneratum: Fodido e mal pago.

Extra matrimonium cercatorium: Ato de pular a cerca. 

Pari passu penis excitatum: O senhor está dançando armado. 

Impotentia generandi humanum est: Brochar é demasiado humano. 

Vis corporalis introdutorium: Sexo selvagem inadiável. 

Mutatis mutandis forevis: Sobrou de novo para mim. 

Alea jacta est: Ligar o foda-se. 

Caprina sine puditia: Cabra sem-vergonha. 

Habeas bovinus intra línea: Tem boi na linha. 

Simius antiquus intra cumbuca manus non metet: Macaco velho não mete a mão em cumbuca. 

Dominus jumentum! Frater tuo adjumentum!: Seu burro! Ajuda teu irmão! 

Cuique simius in cuique cornus: Cada macaco no seu galho. 

Res bolah: Coisas do futebol. 

Ego cornus tuus fragmentare: Vou quebrar seu galho. 

Vade autofragmentare!: Vai-te lascar! 

Domus ferrari, spettus penis: Casa de ferreiro, espeto de pau. 

Orificium beborium proprietarium nulus: Cu de bêbado não tem dono. 

Tridum momescum finutum est: Pra tudo se acabar na quarta-feira. 

Vedi, vini; nulus copulatum: E não comemos ninguém!