Quando
a gente fala de Black Music, Samba-Rock e Suingue no Rio Grande do Sul, existe
um nome que não pode jamais ser esquecido: Bedeu.
Jorge
Moacir da Silva, o nosso Bedeu,
nasceu em Porto Alegre em 4 de dezembro de 1946, no ambiente cultural da antiga
Ilhota, região da Cidade Baixa marcada pela presença e pela resistência da
comunidade negra.
Ainda
criança, aos seis anos, já tocava pandeiro e ganhou o apelido de “Bedeu do
Carnaval” ‒ apelido que acabou se transformando no nome artístico que entraria
para a história da música brasileira. E que história!
Bedeu foi muito mais do que um cantor. Foi compositor, violonista,
percussionista e um dos grandes criadores do suingue gaúcho, aquela mistura
irresistível de samba, rock, balanço, percussão e influências da música negra
que ganhou uma identidade própria nas pistas e nos bailes de Porto Alegre.
Nos
anos 1960, Bedeu já estava envolvido
com grupos de baile e experiências musicais que misturavam samba e rock. Mais
tarde, sua passagem por São Paulo abriu uma porta importante: suas composições
começaram a ser gravadas por grandes nomes da música brasileira.
E
aqui está uma das grandes curiosidades de sua trajetória:
Bedeu teve suas composições gravadas por artistas como Wilson Simonal, Jair
Rodrigues, Bebeto, Dhema, Neguinho da Beija-Flor e Os Originais do Samba.
Sua
parceria com Alexandre Rodrigues e Leleco Telles produziu algumas das páginas
mais bonitas do suingue brasileiro.
Entre
suas composições estão verdadeiros clássicos como: Minha Preta, Nêga Olívia,
Grama Verde, Kid Brilhantina, Guerreiro, Tá na Hora, Menina Carolina, Saudades
de Jackson do Pandeiro, Pau-Brasil, Skuliba, Negona.
E não estamos falando apenas
de músicas que ficaram esquecidas no passado.
Mais
de 40 composições de Bedeu foram identificadas em gravações de diferentes
artistas e grupos, mostrando o tamanho de sua influência. Sua obra chegou às
vozes de nomes como Bebeto, Wilson Simonal, Jair Rodrigues, Os Originais do
Samba, Branca di Neve, Neguinho da Beija-Flor, Fernanda Abreu, Clube do Balanço
e Ultramen, entre muitos outros.
Pau Brasil ‒ um capítulo à parte
Em
1975, de volta a Porto Alegre, Bedeu se uniu a Alexandre Rodrigues, Leleco
Telles, Cy, Leco do Pandeiro e Nêgo Luiz para formar o Pau Brasil.
Ali estava nascendo algo
muito especial.
O
grupo juntou guitarra, baixo, bateria e uma poderosa percussão afro-brasileira,
criando uma sonoridade que carregava o samba, mas conversava com o rock e com a
música negra que estava movimentando o mundo.
Em
1978 veio o álbum “O Samba e Suas Origens”, considerado por pesquisadores uma
das obras mais completas do suingue negro produzido no Sul.
No ano seguinte, “Pau
Brasil”, de 1979, continuou essa história.
E
os discos chegaram às pistas de dança de São Paulo e de outras regiões,
mostrando que aquele som que vinha de Porto Alegre tinha força para ultrapassar
fronteiras.
E quem viveu os bailes sabe...
Bedeu
não fazia música apenas para se ouvir. Era música para dançar. Era o balanço da
guitarra, o peso da percussão, o vocal, o ritmo e aquele “molho” que fazia a
pista responder. É por isso que sua obra encontrou um lugar tão especial nos
bailes negros. Em Porto Alegre, essa música ganhou um nome próprio: Suingue.
E
Bedeu foi um dos seus maiores representantes. O pesquisador Mateus Mapa
considera Bedeu e a geração do Pau Brasil parte fundamental da formação do
samba-rock/suingue do Sul, movimento que nasceu da convivência entre músicos,
escolas de samba, clubes sociais negros e bailes da cidade.
Bedeu foi nacional
Talvez
essa seja uma das partes mais importantes de sua história. Durante muito tempo,
falar de música brasileira significava olhar quase exclusivamente para Rio e
São Paulo.
Mas
Bedeu mostrou que Porto Alegre também tinha uma voz negra forte, criativa e
original. Ele saiu do Sul, dialogou com o eixo nacional, teve suas músicas
gravadas por grandes artistas e ajudou a colocar o suingue gaúcho no mapa da
música brasileira.
E
o mais bonito é que essa influência não terminou com sua partida. “Grama
Verde”, por exemplo, ganhou nova vida com a Ultramen. “Kid Brilhantina” ficou
conhecida também na voz de Branca di Neve. “Saudades de Jackson do Pandeiro”,
parceria com Luís Vagner, foi posteriormente gravada pelo Clube do Balanço. Sua
obra continuou viajando de geração em geração.
Um artista que merece ser lembrado
Bedeu
morreu em 5 de agosto de 1999, aos 52 anos. Partiu cedo demais. Mas deixou algo
que o tempo não conseguiu apagar: uma obra. Uma obra que continua sendo tocada,
dançada, regravada e redescoberta.
Em
1998, recebeu o Prêmio Açorianos de Música – Destaque Especial, reconhecimento importante
de sua cidade. E existe uma imagem que talvez resuma tudo:
Aquele
menino que começou tocando pandeiro na Porto Alegre de outros tempos cresceu,
atravessou fronteiras, encontrou grandes músicos brasileiros, criou clássicos,
colocou o suingue gaúcho nas pistas e deixou uma marca profunda na música negra
brasileira.
Bedeu
não foi apenas parte da história. Bedeu ajudou a escrever essa história. E para
nós, que amamos Black Music, Charme, Samba-Rock e Suingue, revisitar Bedeu é
muito mais do que matar a saudade. É reconhecer nossas raízes. É lembrar de uma
época em que o LP girava, a agulha descia, o salão começava a ferver e bastavam
os primeiros acordes para todo mundo saber: Agora tem suingue!
Bedeu
vive na música. Bedeu vive nos bailes. Bedeu vive na memória. Bedeu vive no
suingue de Porto Alegre.
Post de Pires Índio
P.S.:
Escute, na internet, o CD “Bedeu – Swing Popular Brasileiro” – 1998 – CD completo.