quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O cuidado necessário

Aline A. Moraes* 

Uma coisa que tem me chamado bastante a atenção nos últimos tempos é a quantidade de notícias envolvendo pessoas sendo atacadas por cães, especialmente pitbulls. 

E, antes que alguém interprete isso como uma crítica à raça: não, não é isso. 

Sempre fui e continuo sendo uma defensora dos animais. O que me incomoda é outra coisa: a falta de responsabilidade e de noção de alguns tutores.

 Um pitbull não é, automaticamente, um cão agressivo com seres humanos. 

Comportamento não é tão simples assim. Existe genética, socialização, ambiente, experiências anteriores, treinamento e, principalmente, manejo. Mas existe também uma questão que não podemos ignorar: é um animal extremamente forte e potente. E, quando alguma coisa dá errado, as consequências podem ser muito diferentes das de um cão de pequeno porte. 

Lembro de uma situação que vivi em um evento. Havia várias pessoas no local e muitas crianças correndo pelo pátio, brincando e fazendo aquela algazarra típica de criança. Em determinado momento, o pitbull dos proprietários se soltou da coleira e começou a correr pelo espaço, indo na direção das crianças, provavelmente interessado na bola com que elas estavam brincando. 

Eu, com toda a educação e tentando não soar invasiva, perguntei à tutora: 

“Será que não é perigoso? Ele não conhece essas crianças e pode se assustar com os gritos ou com algum movimento delas?”. 

Percebi que ela não gostou muito do meu questionamento. Ainda assim, chamou o marido e pediu que o cachorro fosse preso novamente. 

E eu fiquei pensando sobre isso. 

Talvez o cachorro realmente só quisesse brincar. Talvez jamais tivesse intenção de machucar alguém. Talvez fosse dócil, bem socializado e perfeitamente acostumado com crianças. 

Mas, e se não fosse? 

É justamente aí que, para mim, entra a responsabilidade do tutor. 

Ter um animal não significa apenas amá-lo. Significa também conhecer suas características, compreender seus limites, antecipar situações de risco e proteger o próprio animal e as outras pessoas. 

Não acho razoável colocar sobre uma criança, que está correndo e brincando, a responsabilidade de saber como se comportar diante de um cachorro que ela não conhece. Também não acho razoável esperar que todo mundo ao redor simplesmente confie na frase: “Ele não faz nada.” 

Porque não se trata apenas de saber se o seu cachorro é bonzinho. Trata-se de reconhecer que você conhece o seu animal, mas as pessoas ao redor não conhecem. E que, diante de um animal de grande força física, prevenção não é preconceito. É responsabilidade. 

Defender os animais também é defender uma guarda responsável. 

E, talvez, seja justamente essa a parte que algumas pessoas ainda não entenderam: amar o seu cachorro não significa achar que todos os outros precisam confiar nele. E reconhecer os riscos não significa demonizar uma raça. Significa simplesmente ter bom senso. 

Talvez minha lógica esteja torta. Mas, sinceramente, entre correr o risco de parecer exagerada e correr o risco de uma criança ser machucada, eu ainda prefiro pecar pelo excesso de cuidado. 

******* 

* Psicóloga

A Esposa de Machado de Assis

 

A Portuguesa Carolina Augusta Xavier de Novaes (1835-1904) foi esposa do escritor Brasileiro Machado de Assis de 1869 a 1904, ano da morte de Carolina. 

Eles se conheceram por intermédio do irmão de Carolina, o poeta Faustino Xavier de Novaes, após ela se mudar de Portugal para o Rio de Janeiro, aos 32 anos, cinco a mais do que Machado. No período, era incomum uma mulher solteira com essa idade, mas a decisão, nesse caso, era da própria Carolina, a quem sobravam pretendes. A portuguesa é descrita por Miguel-Pereira como “mulher feita, inteligente, desembaraçada, senhora de si, habituada, na casa paterna, ao trato dos intelectuais”. 

O namoro foi reprovado pela família de Carolina, pertencente à elite intelectual, enquanto Machado ainda não tinha grande reconhecimento social – na época, escrevia para jornais e trabalhava no Diário Oficial – e, mais importante, era mulato. 

“Na hierarquia social, Carolina se uniu, por escolha própria, a alguém de nível abaixo. Ela foi determinante para que ele tivesse estabilidade emocional e também transitasse entre intelectuais”, diz Luís Augusto Fischer, professor de literatura brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, autor do livro Machado e Borges (Arquipélago). 

Culta, os biógrafos escrevem que apresentou a Machado livros da literatura portuguesa e da literatura inglesa e outros clássicos, redefinindo o seu estilo literário para a maturidade. Além disso, teria revisado, retificado e passado a limpo seus textos, ajudando-o a escrever. Sua esposa torna-se sua enfermeira, quando necessário, pois Machado desde a infância sofria de epilepsia. 

Sem filhos, o escritor passou os anos seguintes terrivelmente abatido pela morte da companheira. Em carta enviada ao historiador Joaquim Nabuco dois meses após a perda, temos um fragmento dos sentimentos de Machado por Carolina. “Foi-se a melhor parte da minha vida, e aqui estou só no mundo. Note que a solidão não me é enfado­nha, antes me é grata, porque é um modo de viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava morrer antes dela, o que seria um grande favor”, escreveu ele ao amigo. 

Machado de Assis escreveu um soneto em homenagem à esposa, amplamente considerado a melhor peça de sua obra poética. Manuel Bandeira afirmaria, anos mais tarde, que é uma das peças mais comoventes da literatura brasileira. Chama-se "A Carolina": 

Querida! Ao pé do leito derradeiro,

em que descansas desta longa vida,

aqui venho e virei, pobre querida,

trazer-te o coração de companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

que, a despeito de toda a humana lida,

fez a nossa existência apetecida

e num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores - restos arrancados

da terra que nos viu passar unidos

e ora mortos nos deixa e separados;

que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,

pensamentos de vida formulados,

são pensamentos idos e vividos. 

Fonte: revista Cláudia, Editora Abril

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Atos gratuitos de amor

 

Pedi desculpas a um amigo com quem tinha sido agressiva. Custou um pouco, mas me deu muita alegria. 

Praticar atos gratuitos de amor, que tal? 

Disse ao meu marido que o amo. Não custou nada. 

Pus um bilhete na lancheira do meu filho dizendo como ele é especial. Não custou nada. 

Deixei uma lata de biscoitos de presente para o carteiro. Não custou nada. 

Dei minha vez na fila do supermercado. Não custou nada. 

Telefonei para meu irmão dizendo que estava com saudades. Ele também estava! 

Pedi desculpas a um amigo com quem tinha sido agressiva. Custou um pouco, mas me deu muita alegria. 

Enviei uma carta para o prefeito elogiando sua administração. Não custou nada. 

Levei flores e chocolates para um a tia velha. Não custou nada. 

Dei passagem para um carro no cruzamento e sorri para o motorista. Não custou nada e ele sorriu de volta. 

Comprei um presentinho para minha filha. Era uma coisa de nada, mas ela ficou feliz. 

Agradeci ao rapaz que embalou minhas compras. Ele ficou satisfeito. 

Dei um dia de folga ao meu assistente, mas lhe paguei. Custou só um pouquinho, mas nós dois ficamos contentes. 

Convidei uma amiga para um passeio e um cinema. Nós nos divertimos muito. 

Fiz uma massagem relaxante. Me senti maravilhosa! 

Atos gratuitos de amor? Como me fizeram bem! 

******* 

O texto mais conhecido atribuído a Sandy Ezrine no Brasil se chama “Atos Gratuitos de Amor”. Ele foi publicado originalmente na famosa coletânea de crônicas e contos motivacionais “Histórias para Aquecer o Coração 2” (título original: Chicken Soup for the Soul), dos autores Jack Canfield e Mark Victor Hansen. 

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Machado de Assis

 

01. Dados biográficos mais importantes: 

● Nascimento e morte: 1839 ‒ 1908, no Rio de Janeiro.

● Origem: mestiço, de família pobre, sem frequentar escolas.

● Empregos: jornalismo e funcionário público.

● Ascensão progressiva em círculos intelectuais.

● Autodidata (quem se instrui por si próprio, sem auxílio de professores).

● Casamento (feliz) com Carolina Augusta, representada por Dª. Carmo, personagem do livro “Memorial de Aires”.

● É um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, aclamado como primeiro presidente e presidente perpétuo. 

02. Obras: 

a) Romances: “Ressurreição” (1872), “A Mão e a Luva” (1874), “Helena” (1876), “Iaiá Garcia” (1878) ► romances da 1ª fase (Romântica). 

“Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881), “Quincas Borba” (1891), “Dom Casmurro” (1899), “Esaú e Jacó” (1904), “Memorial de Aires” (1908) ► romances da 2ª fase (Realista). 

b) Contos: “Contos Fluminenses” (1870), “Histórias da Meia-Noite” (1873), “Papéis Avulsos” (1882), “Histórias sem data” (1884), “Várias Histórias’ (1896), “Páginas Recolhidas” (1899), “Relíquias da Casa Velha” (1906). 

c) Poesia: “Crisálidas” (1864), “Falenas” (1870), “Americanas” (1875), “Ocidentais” (1901) incluída em “Poesias Completas”. 

d) Teatro: “Hoje Avental, Amanhã Luva” (1860), “Queda que as Mulheres Têm para os Tolos” (1861), “Desencantados” (1861), “O Caminho da Porta” (1863), “O Protocolo” (1863), “Quase Ministro” (1864), “Os Deuses de Casaca” (1866), “Tu, só Tu, Puro Amor” (1880), “Não Consultes Médico” (1896), “Lição de Botânica” (1906). 

Observação: As crônicas e os textos críticos de Machado de Assis não constam desta bibliografia, por terem sido reunidos em livros, quase todos, só depois da morte do autor. 

03. Livro mais importante: 

Dom Casmurro” ► Enredo: Bentinho era um menino a quem foi destinada, por promessa da mãe ‒ dona Glória ‒ uma vida religiosa, mas que não consegui assumi-la, devido à paixão que sentia por Capitu, sua vizinha. 

Graças à interferência de José Dias, agregado da casa, Bentinho sai do seminário. O namoro de Bentinho e Capitu se prolonga; o tempo passa. Bentinho se forma em Direito, estreita sua amizade com Escobar, ex-colega do seminário, e se casa com Capitu, a qual tem uma amiga, Sancha, que se casa com Escobar.

Então começa o conflito: Escobar morre num acidente. Julgando estranha a forma pela qual Capitu contempla o cadáver e lembrando-se da referência de José Gomes aos seus “olhos de ressaca”, “olhos de cigana, oblíquos e dissimulados”, Bentinho entrega-se ao sentimento do ciúme a ponto de planejar a morte da esposa e do filho ‒ Ezequiel ‒ que julga cada vez mais parecido com Escobar. 

O casal se separa, Capitu e Ezequiel morrem um ano depois e Bentinho, cada vez mais fechado em si mesmo, cada vez mais atormentado pelas dúvidas que nunca o abandonam, passa a ser chamado de “Casmurro”. Por isso, o nome do romance.

Contos de Machado de Assis

 

Biografia

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu em 1839, no morro do Livramento, Rio de Janeiro. De origem humilde, mestiço, começou a ganhar a vida como aprendiz de tipógrafo. Pouco se sabe de sua infância. Acredita-se que tenha frequentado, por algum tempo, a escola pública de primeiras letras. A realidade, porém, é que Machado de Assis foi sempre um autodidata.

Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novaes, que influenciou muito sua carreira. Ocupou vários cargos públicos e, juntamente com outros intelectuais, fundou a Academia Brasileira de Letras, sendo eleito seu presidente.

Bibliografia

Poesia: Crisálidas (1864); Falenas (1870); Americanas (1875); Poesias Completas (1901).

Romance: Ressurreição (1872); A Mão e a Luva (1874); Helena (1871); Iaiá Garcia (1878); Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881); Quincas Borba (1891); Dom Casmurro (1900); Esaú e Jacó (1904); Memorial de Aires (1908).

Conto: Contos Fluminenses (1870); Histórias da Meia-noite (1873); Papéis Avulsos (1882); Histórias Sem Data (1884); Várias Histórias (1896); Páginas Recolhidas (1899); Relíquias da Casa Velha (1906).

Escreveu ainda teatro, crônica e crítica.

O Conto Machadiano

Machado de Assis é autor de quase duzentos contos, o que o situa – pela quantidade do que escreveu – entre os melhores contistas mundiais. Houve também uma evolução do escritor a partir de suas histórias românticas, leves, para histórias mais densas, mais intrigantes.

A construção de um conto é, com certeza, muito mais difícil do que a construção de um romance, porque o conto:

► é uma narrativa curta e deve prender a atenção do leitor;

► deve ter um só conflito e este tem de ser muito interessante;

► deve conduzir o leitor para um único efeito, provocando-lhe tensão na leitura;

► deve manter um perfeito equilíbrio narrativo sempre;

► trabalha com poucas personagens, em tempo exíguo, em pequenos espaços.

Nesse sentido, Machado de Assis foi um contista extraordinário, pois soube manejar as regras do conto como ninguém.
 
Estrutura dos Contos

Foco Narrativo

Dos sete contos selecionados abaixo, um deles apresenta foco narrativo de primeira pessoa, técnica em que Machado de Assis sempre se revelou exímio: Missa do Galo.  Detalhe: não há narrador: Teoria do Medalhão. Os demais apresentam foco narrativo de terceira pessoa: A Cartomante, Pai contra Mãe, Um Homem Célebre, Cantiga de Esponsais e O Espelho; embora nesse último, a partir do momento em que se insere a narrativa encaixada de Jacobina, prevalece o discurso em primeira pessoa.

Tempo

Vale-se do tempo cronológico (uma noite, dia do aniversário do filho, época da escravidão,...). No entanto, em O Espelho, encontramos um trabalho interessante sobre o tempo. A narrativa apresenta a seqüência de ações cronologicamente, mas fundamenta com arte como se processa no indivíduo a ocorrência e a sensação do tempo psicológico.

Espaço

Machado, na construção do espaço em seus contos, age como se fosse um cenógrafo moderno, que apenas sugere o cenário com poucos elementos, somente aqueles indispensáveis para a ação e para que o espectador possa imaginar o local físico em que ela acontece.

Personagens

É na construção das personagens que o escritor dedica sua maior atenção, reunindo um a um seus pequenos gestos, seus mínimos pensamentos, suas contradições até que seu retrato seja patenteado ao leitor.

Estilo de Época

Entre as mais notáveis características desse estilo de época podemos mencionar a não idealização das personagens. Agora, podemos em uma narrativa encontrar personagens vulgares, com defeitos e imperfeições que estamos acostumados a ver nas pessoas que nos rodeiam. O materialismo e o anticlericalismo são comuns na maioria dos escritores. A temática é sempre contemporânea, evitando-se o medievalismo, o passado histórico. Em vez de valorizar as peripécias, a ação exterior, o escritor realista desenvolve uma maior preocupação com a ação interior, com a análise psicológica. O enredo torna-se moroso, mas é valorizado por uma grande preocupação formal.

Racionalismo, objetividade, visão crítica são posturas fundamentais para todo artista que pretenda ser realista.

Problemática e Principais Temas

O conto machadiano segue a tendência dos romances, mantém aquilo que chamamos de microrrealismo, ou seja, uma tendência à observação das minúcias psicológicas das personagens, uma constante tentativa de desvendar a alma humana, uma busca incansável de revelar o âmago dos gestos e atitudes que produzem essas criaturas dentro da sociedade. Por essa trilha desfilam certas figuras recorrentes, tais como o avaro, o enganador ou parlapatão, ou a mulher indecisa. Seu intuito não é aceitar qualquer idealização ou sentimentalismo, mas revelar o âmago, o íntimo mais opaco. Assim a verdade transparece, os defeitos se revelam, transparentes e dolorosos, como marcas de sua escritura pessimista. É a partir desses humanos defeitos que retiramos alguns dos principais temas que cercam alguns dos sete contos escolhidos abaixo.

A sedução amorosa e a insegurança dos envolvidos, marcados estes pelo clima de dúvida e de suspeita, ficam patentes no conto que pode ser considerado uma de suas obras-primas: Missa do Galo.

Em O Espelho, que pode ser considerado como um conto-teoria, Machado discorre sobre a influência do exterior (no caso um cargo) na alma de um indivíduo. Sem dúvida, é a representação do mundo da aparência (alma exterior) interferindo no mundo íntimo da personagem (alma interior).

Adultério torna-se temática única no conto tradicional: A Cartomante.

Pai contra Mãe

Narrado em   pessoa, personagens: Cândido Neves, Clara e Arminda. Época da escravidão. Temática: Cândido Neves era caçador de escravos fugitivos e estava sem dinheiro para sustentar a esposa e o filho pequeno. Decide entregar a criança à Roda dos Enjeitados, mas encontra uma escrava grávida, Arminda, e consegue prendê-la. Cândido agora pode sustentar os seus, mas a escrava é espancada pelo seu senhor e sofre um aborto.

Teoria do Medalhão

Não há narrador, personagens: Pai e filho.  No dia do aniversário de maioridade do filho, o pai aconselha o filho a adotar a profissão de Medalhão, repetindo o que todos já sabem, fugindo a tudo o que possa cheirar reflexão e originalidade.

Um Homem Célebre

Narrado em  pessoa, personagem: Pestana, cidade: Rio de Janeiro, Imperial. Temática: Pestana era um grande compositor de polcas, mas almejava ser compositor de um gênero musical mais nobre. Não se contentando com sua condição, termina a vida na miséria.

A Cartomante

Narrado em  pessoa. Personagens: Vilela, Rita e Camilo, cidade: Rio de Janeiro, Imperial. Temática: Focaliza um triângulo amoroso entre dois amigos e a esposa de um deles. A cartomante determina a tensão existente na relação. A traição é descoberta a despeito das “premonições” da cartomante.

Cantiga de Esponsais

Narrado em  pessoa. Personagem: Mestre Romão, cidade: Rio de Janeiro, final do século XIX. Temática: Mestre Romão, apesar de bom conhecedor, era incapaz de compor alguma peça, por menor que fosse. Ele sentia o impulso interior, mas não conseguia exprimi-lo em linguagem musical.

Missa do Galo

Narrado em  pessoa. Personagens: Nogueira e Conceição. Cidade: Rio de Janeiro, Imperial. Sala da casa de Conceição, próximo à meia-noite de Natal. Temática: O narrador (Nogueira) lembra, muitos anos mais tarde, uma conversa que teve com Conceição. O clima é, aparentemente, de sedução. Nogueira não sabe se Conceição pretendia seduzi-lo ou queria apenas conversar. 

O Espelho

Narrado em   e 3ͦ   pessoa. Personagem: Jacobina, o alferes. Local: se passa no Rio de Janeiro, no bairro de Santa Teresa, e narra um acontecimento do passado. O cenário do conto é a casa do sítio da tia Marcolina, que fica “a muitas léguas” da vila onde Jacobina vive.  Temática: Mostra o confronto aparência (alma exterior) versus essência (alma interior). Jacobina, o alferes, somente vê seu reflexo no espelho quando está fardado.


Assinatura de Machado de Assis


Cheiros e causos dos setembros de alvoroços

 Paulo Mendes

Era uma linda manhã de setembro, quando alguns clientes já haviam chegado ao bolicho. Alguns vizinhos vieram a pé, enquanto seu Neto tinha chegado em seu cavalo moro. O Lampião estacionara o jipe debaixo dos cinamomos, enquanto o Bibo viera de bicicleta, e o Surdinho, em um velho trator John Deere. Foi quando um casal de sabiás-laranjeira empreendeu um voo em dueto desde a tronqueira da cerca da Esquina Maboni, subiu aos ares em um bailado de negaceios de penas e bicos, passou por cima das taquareiras, realizou manobras acrobáticas sobre a antiga estrada real e enveredou num voo rasante em direção à porta da venda, onde entrou de supetão e pousou no balcão engraxado. Os amantes alados abriram as asas felizes e cantaram. Seu Turíbio fez menção de rir, mas se conteve e disse: 

‒ Chegou a primavera. 

Setembro sempre aspergia cheiros de graxa pingando nas brasas, havia um sorriso maroto no rosto dos moços que sonhavam nesta época com alguns amores proibidos. Nesta época, nós, os adolescentes, nos cortávamos com aparelhos de barbear dos pais, querendo ser adultos. As jovens estudantes retiravam dos cadernos pétalas perfumadas de flores e esperavam o ônibus  exalando cheiros de Cashemere Bouquet roubados das mães e avós. Os homens engraxavam botas, adelgaçavam cavalos e passavam em frente ao bolicho bem pilchados rumo aos desfiles e alvoroços. 

As senhoras vestiam roupas novas, enrolavam os cabelos, faziam máscaras e toucas, se enfeitavam e, à noite, se banhavam antes de se deitar. A proximidade da primavera inundava o ar de malícias, gritos de guerra, exaltações, fanfarronices e mitologias gauchescas. Meu tio Carrapicho aparecia montado numa petiça gateada e estendia causos de antigas tropeadas e histórias de assombrações, de domas de cavalos xucros e de noites de ronda. 

Depois das friagens do inverno, das geadas que a tudo tirava o viço, das chuvas guasqueadas nas tardes curtas, um sol ameno aparecia pelos oitões do rancheiro. O povo voltava a matear debaixo dos arvoredos, ligavam os rádios e, no bolicho, recomeçavam a jogar bochas, a atirar a tava, pediam a chave da mesa de Mini Snooker. À noite, os velhos puxavam a fumaça de palheiros bem sovados, coçavam as barbas brancas e começavam a ter pena de morrer. Voltavam os jogos de bola no campinho das rosetas, a mãe fazia de novo os assados no domingo. Eu lia contos de Simões Lopes Neto e ensaiava declamar de cor uns versos amorosos de Aureliano de Figueiredo Pinto. 

Setembro existia para nos lembrar que nem tudo era tristeza sobre a terra. Era um mês que chegava meio apaixonado, trazendo flores nos alforjes e milhares de esperanças na garupa. Em setembro, quando dormíamos, tínhamos a sensação de que navegávamos sozinhos numa jangada, como Ulisses, o grego, de volta para casa em busca de sua eternidade. 

(Da coluna Campereada, jornal Correio do Povo, 06.09.2026)

domingo, 6 de setembro de 2026

Pacto com a Felicidade

 

De hoje em diante, todos os dias ao acordar, direi:

Eu hoje vou ser Feliz!

Vou lembrar de agradecer ao sol

Pelo seu calor e luminosidade.

Sentirei que estou vivendo, respirando. 

Posso desfrutar de todos os recursos da natureza gratuitamente.

Não preciso comprar o canto dos pássaros,

Nem o murmúrio das ondas do mar.

Lembrarei de sentir a beleza das árvores, das flores.

Vou sorrir mais, sempre que puder.

Vou cultivar mais amizades e neutralizar as inimizades.

Não vou julgar os atos dos meus semelhantes ou companheiros.

Vou aprimorar os meus. 

Lembrarei de ligar para alguém para dizer que estou com saudades!

Reservarei minutos de silêncio

Para ter a oportunidade de ouvir.

Não vou lamentar nem amargar as injustiças,

Vou pensar no que posso fazer para diminuir seus efeitos.

Terei sempre em mente que um minuto passado, não volta mais.

Vou viver todos os minutos proveitosamente. 

Não vou sofrer por antecipação prevendo futuros incertos,

Nem com atraso, lembrando de coisas

Sobre as quais não tenho mais ação.

Não vou pensar no que não tenho e que gostaria de ter,

Mas em como posso ser feliz com o que possuo,

E o maior bem que possuo é a própria vida. 

Vou lembrar de ler uma poesia e de ouvir uma canção,

Vou dedicá-las a alguém.

Vou fazer alguma coisa para alguém, sem esperar nada em troca,

Apenas pelo prazer de ver alguém sorrir.

Vou lembrar que existe alguém que me quer bem,

Vou dedicar uns minutos de pensamento para os que já se foram

Para que saibam que serão sempre uma doce lembrança,

Até que venhamos a nos encontrar outra vez. 

Vou procurar dar um pouco de alegria para alguém,

Especialmente quando sentir que

A tristeza e o desânimo querem se aproximar.

E quando a noite chegar, vou olhar para o céu,

Para as estrelas e para o luar e

Agradecer aos Anjos e a Deus, porque...

Hoje Eu fui Feliz!

 Autoria desconhecida