domingo, 11 de outubro de 2026

O dia que o Brasil rachou

 Martha Medeiros 

Irmandade era aquilo. Lula disputava com Collor, com Brizola, com Fernando Henrique, com José Serra, perdia, ganhava, e o povo sempre esperando mais, equilibrando-se entre dias melhores e dias piores, a política decepcionando como praxe. Mas ninguém jurava o outro de morte e todos gostavam de Chico Buarque. 

Até que amanheceu o dia 17 de abril de 2016, e durante a transmissão do julgamento do Impeachment da Dilma (Rousseff), um deputado (Jair Messias Bolsonaro) até então desconhecido fez uma homenagem a um torturador, e não a qualquer um, e sim àquele que supliciou a presidente, que foi obrigada a escutar essa afronta presencialmente. Ali foi cruzada uma linha civilizatória. 

Fosse um deputado com algum verniz, teria pedido desculpas no dia seguinte, alegando um excesso verbal no calor da hora, afinal, já tinha cumprido seu objetivo, ganhara os holofotes e as manchetes, não era mais um desconhecido. Em vez disso, ele fez de suas blasfêmias o símbolo de uma nova era e recebeu o apoio da metade da população, que logo o elegeria para o cargo máximo do Executivo. 

Os analistas políticos acharam por bem divulgar a rachadura como sendo entre a esquerda e a direita, assim ficava mais fácil escrever editorias e cada eleitor reconheceria o seu lado. Uma leviandade. A questão era ‒ e é ‒ mais profunda e mais incômoda. Tem nada a ver com economia em um canto do ringue, pautas sociais no outro. Tudo isso pode coexistir. O precipício se abriu devido à ruptura do que é moralmente aceitável, a tal linha civilizatória que nos separa da barbárie. Ao rompê-la, destranca-se a porta que conduz ao caos. Deixa de existir acordo de cavalheiros, compostura básica, respeito constitucional. A nação fica fraturada e refém de bandidos. 

A tortura é a falência da condição humana. Já lemos livros a respeito, vimos cenas no cinema, escutamos os depoimentos das vítimas, e o horror embrulha o estômago: só o que se quer é fugir do assunto. No rol dos crimes hediondo, matar fica em segundo lugar. Provocar dor física dilacerante em outro ser humano, sem chance de defesa, é um ato animalesco que difere a besta do homem. 

Eu seria louca se achasse que metade dos brasileiros relativiza a tortura. É óbvio que não. Mas somos seres psicológicos, manipuláveis, levados a sublimar. A ver coragem onde há covardia. A ver heroísmos onde há vileza. 

Naquele fatídico dia, parte do Brasil fez uma opção funesta ‒ fingir que aquilo não estava acontecendo dentro do Congresso Nacional. E assim chegamos ao hoje, em que fazemos de conta que estamos passando apenas por uma trivial briga de torcidas. Somos todos, essencialmente, pessoas boas. Porém, alguns tão “bons” que preferiram, diante daquele perigoso precedente, ignorar o que viram.   

Do caderno donna, do jornal Zero Hora,

de 11.10.2026. 

“Estarrecedor”. “Execrável”. “Deprimente”. Esses foram alguns dos termos usados por ativistas de direitos humanos ao comentarem a homenagem feita pelo deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) ao coronel Brilhante Ustra, o primeiro militar reconhecido pela Justiça brasileira como torturador. 

A menção foi feita durante a votação no processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, ocorrida na noite de domingo na Câmara dos Deputados. 

“Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra*, o pavor de Dilma Rousseff, pelo exército de Caxias, pelas Forças Armadas, pelo Brasil acima de tudo e por Deus acima de tudo, o meu voto é sim!” – foi o trecho final do discurso de Bolsonaro, em meio a vaias e aplausos.             

“Ver essa homenagem ao Ustra deveria chocar e entristecer a todos que prezam a democracia, independentemente da posição política”, afirmou à BBC Brasil Átila Roque, diretor-executivo da Anistia Internacional no Brasil. 

Durante o regime militar, entre 1970 e 1974, Ustra foi o chefe do DOI-Codi do Exército de São Paulo, órgão de repressão política do governo militar. Ali, sob o comando do coronel, ao menos 50 pessoas foram assassinadas ou desapareceram e outras 500 foram torturadas, segundo a Comissão Nacional da Verdade. 

P.S.: Carlos Alberto Brilhante Ustra (Major Tibirça), Santa Maria-RS: 26.7.1932 ‒ Brasília-DF: 15.10.2015, foi um militar brasileiro. Foi coronel da ativa do Exército Brasileiro e chefe dos centros de tortura e assassinato de pessoas que se opunham à ditadura militar, o DOI-CODI do II Exército, um dos órgãos atuantes na repressão política, durante o período da ditadura militar no Brasil.

Estrela do Mar

 Marino Pinto, Paulo Soledade.

 Canta Dalva de Oliveira

Um pequenino grão de areia,

Que era um pobre sonhador,

Olhando o céu viu uma estrela

E imaginou coisas de amor. 

Passaram anos, muitos anos,

Ela no céu e ele no mar.

Dizem que nunca o pobrezinho

Pode com ela encontrar. 

Se houve ou se não houve

Alguma coisa entre eles dois,

Ninguém soube até hoje explicar.

O que há de verdade

É que depois, muito depois,

Apareceu a estrela no mar.

*******

Esta canção foi uma marcha rancho de 1951, enorme sucesso, cantada por Dalva de Oliveira. Um dos autores foi Paulo Soledade, aviador e também do grupo dos cafajestes do Rio de Janeiro, uma turma que eu invejava imensamente aos 16 anos, porque aprontavam tudo e todas, eram ricos, comiam quem queriam, zoavam. Foi parceiro de Antônio Maria, Fernando Lobo e Vinicius de Moraes. Cafajeste e talentoso. Eu pensava: tem gente que tem tudo.

“Um pequenino grão de areia” é o verso inicial de “Estrela do Mar”, uma famosa marcha-rancho de Carnaval composta em 1951 por Marino Pinto e Paulo Soledade. 

Sobre a Canção 

Intérprete original: Ficou eternizada na voz de Dalva de Oliveira em 1951. 

Outras gravações marcantes: Já foi regravada por grandes nomes da MPB, como Maria Bethânia e Edson Cordeiro.             

Letra resumida: A música conta a história poética de um pequeno grão de areia que sonha e se apaixona por uma estrela no céu, um amor considerado impossível até o surgimento misterioso da “estrela do mar”. 

Outras Referências 

Teatro: A canção inspirou a fantasia musical infantil “O Pequenino Grão de Areia”, adaptada e encenada por companhias teatrais e pelo SESI-SP. 

Ouça a clássica interpretação de Dalva de Oliveira ou Maria Bethânia para a canção:


sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O prego de Satanás

 

Imagem da internet 

Não tenha medo de ler este texto

Um homem muito pobre estava disposto a fazer qualquer coisa para ficar rico. O diabo, aproveitando-se de sua ganância, apareceu e lhe fez uma proposta: 

‒ Eu lhe darei a mansão mais cara desta cidade e não lhe cobrarei nada. Apenas deixarei um prego fincado na parede. Toda a mansão será sua, mas o prego será meu. Você nunca poderá tocá-lo. Se tentar arrancá-lo ou ao menos encostar nele, será morto instantaneamente. 

O homem, deslumbrado com a oferta, hesitou por um momento, mas logo cedeu à tentação, motivado pela ganância. 

‒ Se eu aceitar, a mansão será minha ainda hoje! ‒ pensou consigo mesmo. 

Sem pensar duas vezes, ele aceitou o pacto. O diabo, então, fez com que ele rapidamente arranjasse muito dinheiro e, no mesmo dia, a mansão foi comprada. O homem nunca contou a ninguém sobre o acordo. Sua família e amigos desconfiaram de sua riqueza repentina, mas ele guardou seu segredo. 

Todas as manhãs, o diabo aparecia em sua porta para conferir se o prego continuava no mesmo lugar. 

Para comemorar sua nova vida, o homem decidiu organizar um grande banquete e convidou as pessoas mais importantes da cidade: o prefeito, o coronel da polícia e outras figuras influentes. No dia da festa, assim que todos os convidados chegaram, ele fechou a porta, orgulhoso de sua conquista. 

Porém, pouco depois, alguém bateu à porta. O homem foi atender e, para seu desespero, era o diabo, segurando uma sacola na mão. 

‒ Por favor, não apareça na frente dos meus amigos! ‒ implorou o homem. ‒ Eles não sabem do nosso pacto! Vá embora e volte quando eu estiver sozinho! 

O diabo sorriu e respondeu friamente: 

‒ Aquele prego é meu. Eu o uso quando quiser e como quiser. Agora, me dê licença. 

Sem esperar permissão, o diabo empurrou o homem e entrou na mansão diante de todos os convidados. Assustados, muitos ficaram paralisados, pois nunca haviam visto o diabo pessoalmente. Sem dizer uma palavra, ele foi até a parede onde estava o prego e pendurou nele a sacola que carregava. 

Logo, um fedor insuportável tomou conta do ambiente. Dentro da sacola havia um grande pedaço de carne podre, que começou a contaminar toda a mansão. O mau cheiro se espalhou rapidamente, tornando impossível permanecer ali. O banquete foi arruinado, e os convidados fugiram horrorizados. 

A partir daquele dia, o diabo passou a voltar diariamente, trazendo mais carne podre para pendurar no prego. O cheiro se tornou insuportável, impregnando cada canto da casa. O homem tentou de tudo para se livrar do tormento, mas nada adiantava. Por fim, foi obrigado a abandonar a mansão e voltar à vida de pobreza, arrependido, mas sem poder desfazer o pacto que havia selado. 

Nunca dê brecha ao diabo. Ele é sujo. 

Versão escrita por Isaías Bastos 

O Ensinamento Moral 

A história funciona como uma metáfora de que o mal não precisa de controle total da vida de alguém; basta uma “pequena brecha”, um vício tolerado, um ressentimento ou um pecado considerado inofensivo, uma promessa política demagógica, acreditar numa má pessoa e a desgraça está feita. 

As consequências: O que pareceu insignificante no começo acaba contaminando e destruindo todo o resto. 

A referência bíblica: A lição costuma ser associada a versículos como Efésios 4:27 (Não deis lugar ao diabo). 

“O Prego do Diabo” é uma conhecida ilustração moral e sermão cristão (frequentemente atribuído ao Presbítero André Sanchez e compartilhado por diversos pregadores). 

Por isso tome muito cuidado em quem você vai votar. Se o candidato for um golpista, um antidemocrático, um entreguista, um demagogo, uma pessoa que nunca fez um projeto político de importância na vida, que nunca trabalhou, como pode ter o destino de uma nação em suas mãos? 

Por favor, pelo Brasil,  por seus filhos, não ponha esse prego na sua parede!

P.S. A única casa conhecida cujo proprietário deixou o diabo colocar um prego na sua parede, viu 700 mil pessoas de sua família morrerem de Covid-19. O diabo, de brincadeira, receitou Cloroquina para falecerem mais rápido.

Ilusão à toa

  Johnny Alf 

Canta Gal Costa com a participação de Johnny Alf

Eu acho engraçado quando um certo alguém

Se aproxima de mim

Trazendo exuberância que me extasia.

Meu corpo treme,

Minhas mãos transpiram,

É o amor que eu guardo há muito

Dentro em mim.

É a voz do coração que canta assim: 

Olha, somente um dia longe dos teus olhos
Trouxe a saudade do amor tão perto,
E o mundo inteiro fez-se tão tristonho.
 

Mas embora agora eu te tenha perto,
Eu acho graça do meu pensamento
A conduzir o nosso amor discreto.
 

Sim, amor discreto pra uma só pessoa,
Pois nem de leve sabes que eu te quero
E me apraz essa ilusão à toa.
 

Mas, embora agora eu te tenha perto,
Eu acho graça do meu pensamento
A conduzir o nosso amor discreto.
 

Sim, amor discreto pra uma só pessoa,
Pois nem de leve sabes que eu te quero
E me apraz essa ilusão à toa.

Ilusão À Toa (participação de Jhonny Alf)”, interpretada por Gal Costa ao lado do compositor da música, explora o universo do amor platônico com sensibilidade e sutileza. A letra destaca como sentimentos intensos podem ser vividos em silêncio, transformando o sofrimento da paixão não correspondida em um prazer íntimo. O verso “E me apraz essa ilusão à toa” mostra que o desejo não revelado não traz angústia explícita, mas sim uma satisfação pessoal, quase cúmplice, com a própria fantasia. 

A canção adota um tom introspectivo ao descrever as reações físicas e emocionais do narrador diante da pessoa amada: “Meus olhos sentem / Minhas mãos transpiram”. O amor é vivido de forma “discreta pra uma só pessoa”, reforçando a ideia de que esse sentimento é guardado apenas para si, sem esperar reciprocidade. Composta por Johnny Alf, a música reflete a delicadeza típica de sua obra ao tratar do amor não correspondido, e ganha ainda mais profundidade na voz de Gal Costa, que ressalta as nuances de saudade e nostalgia presentes na letra. A colaboração entre os dois artistas intensifica a atmosfera sofisticada e sensível, tornando o amor platônico não só suportável, mas também belo e digno de celebração.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Futuro do pretérito

 Roger Lerina

(...) 

A aceleração crescente do tempo é uma característica da modernidade, contribuindo para a sensação atual de estarmos vendo a história passar voando na nossa frente ‒ ainda ontem a gente escutava música em fita cassete e recebia telegrama, lembra? No entanto, diferentemente da engenhoca criada pelo personagem vivido no cinema por Rod Taylor, a máquina do tempo da civilização ocidental* engatou marcha à ré afu no novo milênio. Direitos sociais, liberdades individuais e valores progressistas, arduamente conquistados ou ao menos almejados desde o Iluminismo, são frontalmente atacados por ideologias políticas e sistemas econômicos que tendem à hegemonia em boa parte do planeta. 

Por aqui a máquina do tempo virou montanha-russa: haja coração para aguentar a sucessão frenética de escândalos, imposturas, arbitrariedades e quejandos que a vida pública nacional nos apresenta no noticiário diariamente. No último domingo (4.10.2026), a partir da divulgação dos resultados eleitorais, entramos no trem fantasma deste parque chamado Brasil: as redes sociais e o debate público repercutiram as manifestações de candidatos terrivelmente antidemocráticos chancelados pelas urnas. Gente que vai para as ruas chicotear calçada, reverenciar ex-presidente golpista preso, elogiar torturador do regime militar, chamar indígena de canibal e declarar-se a maior inimiga mulher das feministas**. A nação zumbi está crescendo e talvez já não dê mais tempo de embarcar naquele carro que leva de volta para o futuro. 

Parte da crônica do título citado acima,

do jornal Zero Hora, de 8.10.2026 

*   Um cientista constrói uma máquina do tempo e decide viajar para o futuro. Ele acaba descobrindo que a humanidade foi dividida de duas formas, os da superfície são pessoas pacíficas e nos subterrâneos elas são deformadas e canibais. 

** Eduarda Campopiano, deputada mais votada pelo do PL de São Paulo declarou-se a maior inimiga das feministas e chamou indígenas de canibais. 

Aceita que dói menos

 Maria de Fátima Temer

Recebi há pouco uma mensagem que dizia: “Aceita que dói menos” e que me fez retornar aqui antes do que eu pretendia. 

Sim, eu aceito. Aceito porque sou democrata antes de tudo, despida de paixões partidárias ou da pequenez da política. Mas... dói menos? Ah, não dói menos, não. 

Dói-me a alma pensar naqueles que carregam o peso do abandono, podendo ser empurrados outra vez para a margem, sem o sopro de uma esperança, sem o direito de sonhar com um futuro onde possam crescer com dignidade. 

Dói ver o desamparo que ronda o que levou anos para ser construído: o Bolsa Família, que estende a mão a quem tanto precisa; o Fome Zero, que mais uma vez tirou nosso país da vergonha do Mapa da Fome da ONU; o Gás do Povo, que mantém aquecida a comida dos humildes. Dói pensar no teto do Minha Casa, Minha Vida; no alívio do Mais Médicos nas periferias e no silêncio do interior; na Farmácia Popular amenizando dores invisíveis; nos sonhos abertos pelo Prouni e pelo Fies, que viram jovens romperem o ciclo da miséria através do saber, e talvez sofram involução. 

Dói muito saber que os passos de tantas mulheres estão em via de ser vigiados pelo desrespeito e pelo silenciamento. 

Dói lembrar de meninas que faltaram à aula por lhes negarem o básico – distribuição de absorventes higiênicos para aquelas de baixa renda ‒, enquanto o peso do dinheiro encontrou rumo em milhares de comprimidos de Viagra nos quartéis e na facilitação fria de armas e munições circulando por aí, como se a vida valesse menos que o aço ‒ e que pode novamente ocorrer. 

Dói no peito pensar que a educação, a arte e o sopro da cultura, mais uma vez, possam vir a ser novamente assombrados com o risco de serem tratados como cinzas. 

Carrego comigo uma imensa preocupação ao antever o destino do Brasil, prestes a retroceder, mais uma vez, ao silêncio do último escalão entre as grandes potências mundiais. 

É um desalento ver o futuro desvanecer. Dói-me o risco de vermos nossas maiores riquezas naturais depredadas, sacrificadas em prol dos interesses pessoais de uma minoria indiferente. 

Dói testemunhar a manipulação consagrada como a engrenagem natural da nossa política. 

O silêncio sobre as urnas nestas eleições apenas confirma que a verdade mudou de lado por conveniência, e ninguém parece se importar se as urnas agora são, ou não, confiáveis! 

Mas o que me traz uma tristeza verdadeiramente infinita é perceber o deserto de entendimento em que caminhamos. Somos um povo cego para os próprios heróis, incapaz de reconhecer a grandeza de um verdadeiro estadista. 

Não, não dói menos. Dói o todo, dói a alma. 

*******

► Bolsa Família é um programa federal brasileiro de transferência direta e indireta de renda destinado a famílias em situação de pobreza e extrema pobreza.

O que o programa faz? 

● Combate à fome e à pobreza: Fornece auxílio financeiro em dinheiro para garantir segurança alimentar e alívio da vulnerabilidade social. 

● Integração de políticas: Une ações de assistência social, saúde e educação. 

Quem tem direito 

● Critério de renda: Famílias com renda mensal de até R$ 218 por pessoa (per capita). 

● Cadastro Único: É obrigatório estar inscrito e com os dados atualizados no Cadastro Único (CadÚnico), que serve como porta de entrada para o programa. 

Condicionalidades (Regras de permanência) 

Para continuar recebendo o benefício, as famílias devem cumprir compromissos nas áreas de saúde e educação: 

● Na Saúde: Manutenção da vacinação em dia e acompanhamento do estado nutricional das crianças, além da realização do pré-natal para gestantes. 

● Na Educação: Garantia de frequência escolar mínima para as crianças e jovens da família. 

► Fome Zero foi um importante programa e conjunto de políticas públicas criado no Brasil em 2003 pelo governo federal para erradicar a fome e a exclusão social. 

O que foi o programa: 

Estratégia ampla: Reuniu mais de 30 iniciativas governamentais para unir ações emergenciais (como distribuição de comida) a políticas estruturais de longo prazo. 

► Gás do Povo é um programa social do Governo Federal brasileiro criado para substituir o antigo Auxílio Gás e garantir a recarga gratuita de botijões de gás de cozinha (GLP de 13 kg) para famílias de baixa renda. 

Como funciona:● Substituição do auxílio em dinheiro: Em vez de repassar o valor em dinheiro diretamente na conta dos beneficiários, o programa fornece um vale digital para a retirada direta da recarga do botijão em revendas credenciadas. 

● Objetivo: Facilitar o acesso ao gás de cozinha e combater a pobreza energética, reduzindo riscos à saúde e à qualidade de vida de famílias que antes precisavam usar lenha ou carvão para cozinhar. 

● Retirada: O benefício pode ser movimentado por meio de aplicativos oficiais (como o Meu Social Gás do Povo), cartões sociais (como o do Bolsa Família ou da Caixa Econômica Federal) ou validação por SMS com o CPF. 

Quem tem direito: 

● Estar inscrito no Cadastro Único (CadÚnico) com os dados atualizados nos últimos 24 meses. 

● Possuir renda familiar per capita (por pessoa) de até meio salário mínimo. 

● Há prioridade para famílias que integram o programa Bolsa Família ou recebem o Benefício de Prestação Continuada (BPC), especialmente núcleos com maior número de integrantes. 

► Minha Casa, Minha Vida, um programa habitacional do governo federal brasileiro criado para facilitar a compra da casa própria por meio de taxas de juros reduzidas, subsídios e facilidades de financiamento. 

Principais Características do Programa: 

● O que é o benefício: O governo oferece subsídios (ajuda financeira que cobre parte do valor do imóvel ou da entrada) e juros menores que os do mercado tradicional. 

● Uso do FGTS: É possível usar o saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço para compor a entrada ou abater as prestações. 

● Quem pode participar: Famílias que compram o primeiro imóvel e se encaixam nos limites de renda bruta estipulados pelo programa (que podem alcançar até R$ 13.000,00, dependendo da modalidade e das regras vigentes). 

● Onde simular: Os contratos podem ser feitos por instituições financeiras parceiras, como você pode conferir diretamente no site oficial da CAIXA Minha Casa, Minha Vida. 

► Mais Médicos leva médicos a regiões prioritárias, remotas e de difícil acesso, complementando o atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde - SUS. Também promove a formação e qualificação dos profissionais, por meio de parcerias com instituições de ensino, com o objetivo de ampliar o acesso aos serviços de saúde em todo o território nacional. 

► Programa Farmácia Popular é uma iniciativa do Governo Federal que disponibiliza medicamentos, fraldas geriátricas e absorventes higiênicos de forma 100% gratuita para a população em farmácias da rede privada credenciadas. 

O que o programa oferece: 

● Medicamentos gratuitos: Mais de 40 itens para o tratamento de doenças comuns e crônicas, como hipertensão, diabetes, asma, osteoporose, colesterol alto, rinite, doença de Parkinson, glaucoma e anticoncepcionais. 

● Insumos de higiene e saúde: Fraldas geriátricas (para pessoas com incontinência) e absorventes higiênicos. 

Como funciona: 

● Gratuidade total: Desde fevereiro de 2025, todos os itens do catálogo do programa são fornecidos sem nenhum custo para o cidadão (o antigo sistema de copagamento foi extinto). 

● Quem tem direito: Aberto a qualquer cidadão brasileiro, sem exigência de comprovação de renda prévia ou de atendimento exclusivo pelo SUS. 

O que é necessário para retirar: 

● Receita médica válida. 

● Documento de identidade com foto e CPF. 

● Onde encontrar: Em farmácias particulares que exibem o selo “Aqui Tem Farmácia Popular”. 

► Prouni (Programa Universidade para Todos) é uma iniciativa do Governo Federal, criada pelo Ministério da Educação (MEC), que oferece bolsas de estudo integrais e parciais em instituições particulares de ensino superior. 

Tipos de bolsas: 

Bolsa integral (100%): cobre a totalidade do valor da mensalidade do curso.

Bolsa parcial (50%): cobre metade do valor da mensalidade (50%). 

Requisitos principais: 

Para concorrer às bolsas, o candidato deve atender aos seguintes critérios:

Escolaridade: Ter cursado o ensino médio completo em escola pública ou em instituição privada na condição de bolsista integral. 

Nota do Enem: Ter participado de uma das duas últimas edições do Exame Nacional do Ensino Enem, obtendo no mínimo 450 pontos na média das notas e não ter zerado a redação. 

Renda familiar: 

Para bolsa integral (100%): renda familiar bruta mensal de até 1,5 salário mínimo por pessoa. 

Para bolsa parcial (50%): renda familiar bruta mensal de até 3 salários mínimos por pessoa. 

Diploma: Não possuir diploma de nível superior. 

► Fies (Fundo de Financiamento Estudantil) é um programa do governo federal brasileiro, criado pelo Ministério da Educação (MEC), que financia cursos de graduação em faculdades particulares para estudantes de baixa renda. 

Diferente de uma bolsa de estudos, o Fies funciona como um empréstimo: o governo paga as mensalidades da faculdade durante o curso, e o estudante começa a quitar essa dívida após a conclusão dos estudos, de acordo com a sua renda. 

Como funciona: 

Financiamento: O programa cobre todo ou parte do valor das mensalidades em instituições privadas avaliadas positivamente pelo MEC. 

Juros zero: Para estudantes que se enquadram nos limites de renda exigidos, o programa oferece condições de juros zero. 

Pagamento posterior: As prestações do financiamento começam a ser pagas após a formatura, de forma proporcional à renda do profissional formado. 

Fies Social: Uma modalidade voltada a inscritos no Cadastro Único (CadÚnico), que destina percentual relevante de vagas e pode financiar até 100% dos encargos educacionais.  

E você, meu caro leitor,

gostaria que o povo brasileiro perdesse todas essa conquistas

de um governo humano e democrático?

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Quanto vale o meu voto?

 Cláudio Moreno    

O que caracteriza um povo civilizado? É grande a variedade de critérios que podemos adotar. Para os primitivos navegantes do mundo grego, ao chegarem a uma ilha desconhecida, o indício decisivo era a presença de campos cultivados − critério bem diferente, aliás, do que foi o adotado por um viajante inglês que, no século passado, acabou se perdendo numa trilha remota das montanhas dos Bálcãs: “Depois de caminhar por onze horas sem encontrar o mínimo vestígio de seres humanos, foi com alegria e com imenso alívio que pude ver, numa árvore, o corpo de um enforcado balançando na ponta de uma corda, pois isso me trouxe a certeza absoluta de que tinha chegado de novo à civilização”. Ora, para o autor desta coluna, prezado leitor, povo civilizado é o que acredita na importância de votar. 

Para justificar minha escolha, trago um incidente de 2.500 anos atrás, que já foi tema de uma crônica incluída no meu livro Cem Lições para Viver Melhor. Peço escusas ao leitor pela deselegância de citar a mim mesmo, mas não conheço exemplo melhor que o daquele teimoso capitão que ficou imortalizado na batalha de Plateia, quando Esparta e Atenas derrotaram os persas comandados por Mardônio. Eis a história: 

“Por vários dias, numa planície da Beócia, gregos e persas vinham se estudando à distância, aguardando o momento propício para atacar. Como a água estava escassa, o alto comando grego decidiu aproveitar a escuridão da noite e recuar seu exército para uma região mais rica em fontes e mananciais. Os atenienses receberam a ordem sem discutir, mas o mesmo não ocorreu entre os espartanos: Amonfareto, chefe de um batalhão, recusou-se a obedecer, dizendo que ele e seus homens estavam ali para enfrentar os bárbaros que ameaçavam sua pátria e não iriam partir sem lutar. Os chefes alegaram que isso já estava decidido, mas ele redarguiu, indignado: “Pois eu voto por ficar!” − e, abaixando-se, pegou uma pedra no chão e foi depô-la aos pés do comandante geral, exatamente como se votava nas assembleias de Esparta. 

Como ninguém queria deixá-lo para trás, começaram a discutir, tentando convencê-lo a partir. Enquanto isso, os atenienses, que tinham começado a retirada, detiveram-se alguns quilômetros depois, ao perceber que seus aliados espartanos não se moviam do lugar. Quase ao amanhecer, mandaram um mensageiro até lá; ele voltou perplexo, informando que todos estavam empenhados numa discussão interminável. 

Quando o dia raiou, os persas viram o campo grego praticamente deserto: avistaram apenas a retaguarda do exército espartano que, apesar dos protestos de Amonfareto, começava a se afastar lentamente por trás de uma colina. Mardônio ordenou que apenas a cavalaria partisse em seu encalço, mas os demais chefes persas, imaginando que os gregos tivessem se acovardado, abandonaram suas posições e avançaram desabaladamente, preparando-se, não para combater, mas para caçar fugitivos apavorados. O resto é história: os espartanos fizeram frente à primeira onda do ataque, os atenienses voltaram para socorrê-los e os exércitos desordenados de Mardônio sofreram uma derrota fatal.” 

O que o espartano queria? Apenas participar, com uma pedrinha que fosse, da marcha dos acontecimentos. Podia simplesmente acompanhar os outros, mas não quis renunciar ao direito de expressar sua opinião na assembleia − no que estava certo, pois seu voto terminou afetando o desenrolar da batalha. Essa saudável vontade de influir, de ter algum peso no curso da História, por ínfimo que seja, talvez seja a última ilusão que ainda me resta. Sei que muitos, por cansaço ou desencanto, já desistiram e parecem não mais se importar se o seu candidato mentiu, roubou ou traiu os princípios que jurava defender nas eleições passadas − mas eu me importo. Por pura teimosia. 

******* 

(Do jornal Zero Hora, setembro de 2022) 

P.S. Os gregos eram os povos atenienses e espartanos que viviam no mesmo país, a Grécia. Atenas e Esparta eram as principais cidades gregas, e cada uma tinha um poderoso exército que lutava unido contra o invasor persa. 

A Pérsia era o país invasor, e seu Exército era comandado pelo chefe persa Mardônio. 

O Exército espartano era comandado pelo chefe Amonfareto. 

O Exército grego era composto por tropas atenienses e espartanas.