quinta-feira, 22 de outubro de 2026

As voltas dos ponteiros no relógio

 Carpinejar

Na infância, comunicávamo-nos com nossos amigos pelas visitas. 

Aparecíamos. Sem hora marcada. 

Ou para jogar futebol, ou para pular corda, ou para arremessar pião e bolitas, ou por tédio mesmo, para emprestar a solidão e empreender uma expedição pelo bairro, achando o que fazer junto. 

Assumíamos o risco da viagem perdida. Algumas vezes ninguém nos atendia. E regressávamos com a porta na cara. Pensávamos em tentar mais tarde. Não levávamos para o lado pessoal o fato de caminhar com monte ou pegar uma outra condução para ir de novo. Não sofríamos com a repetição. Não havia preguiça. 

Batíamos palmas, assoviávamos na frente do portão, gritávamos o apelido de quem procurávamos, alongando a última sílaba. 

A família do amigo provavelmente nos odiava. Nem tanto pela algazarra comum nos 70, que servia como campainha informal, mas porque sempre interrompíamos o almoço ou o planejamento espartano do dia. 

Quando avistávamos uma alma se mexendo na janela, nossa pergunta não mudava: 

‒ Fulano pode sair? 

Nada acontecia de imediato. Amargávamos o suspense. 

‒ Espera aí! 

Sequer éramos convidados a entrar. A gurizada medonha se mantinha de pé na rua. Não desfrutava dos privilégios de gente grande, dos vendedores de enciclopédia, de cosméticos, de frutas. 

Aguardávamos no meio-fio da calçada. 

O amigo precisava terminar o tema escolar antes. Ou lavar a louça. Ou arrumar sua cama e organizar sua escrivaninha. Ou tomar banho. Ou recolher as necessidades do cachorro no pátio. Ou varrer o quintal. Os pais aproveitavam nossa presença para cobrar tarefas domésticas e pendências. Para recuperar o atraso nas responsabilidades. 

Não testemunhávamos o que estava sendo solicitado nos bastidores. Pelo tempo excedido, adivinhávamos que existia uma exigência em vigor: um pedágio para a liberdade inusitada. 

Acabávamos como pretextos perfeitos. 

O filho queria se divertir? Então que cumprisse primeiro o que tinha prometido. 

Melhor a série de atividades do que estar de castigo, que consistia numa prisão domiciliar, de prazo indefinido, por causa de notas baixas, ou mau comportamento com o irmão, ou quebra de um objeto de valor. 

O castigo alheio nos obrigava passar lá todo santo dia para descobrir se o colega já estava liberado. 

Naquela época, criança brincava com criança. Adultos não nos entretinham. Deveríamos nos virar entre nós. Não se via pai ou mãe dividindo passatempos com o seu rebento. Não nos misturávamos. Não sentávamos com eles para Super Trunfo ou Banco Imobiliário. Eles se mostravam ocupados demais para se interessar pelo nosso ócio. 

Quando o amigo vinha em nossa direção, esquecíamos a areia da ampulheta, as voltas dos ponteiros no relógio. 

A felicidade da parceria apagava o sacrifício. 

Corríamos, e escutávamos ao fundo o eco materno, pouco a pouco enfraquecido pelo som de nossos Kichutes: 

‒ Fiquem por perto! 

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Crônica de Fabrício Carpinejar,

 no jornal Zero Hora, outubro de 2026.

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Duas peças

 Luís Fernando Veríssimo

 

Pai e Filha, 1951, 52, por aí. 

Pai – Minha filha, você vai usar... isso? 

Filha – Vou, pai. 

Pai – Mas aparece o umbigo! 

Filha – Que que tem? 

Pai – Você vai andar por aí com o umbigo de fora? 

Filha – Por aí, não. Só na praia. Todo mundo está usando duas-peças, pai. 

Pai – Minha filha... Pelo seu pai. Pelo nome da família. Pelo seu bom nome. Use maiô de uma peça só. 

Filha – Não quero! 

Pai – Então este ano não tem praia! 

Filha – Mas pai! 

Filha – Pai, vou usar maiô de uma peça. 

Pai – Muito bem, minha filha. Gostei da sua independência. Por que ser como todas as outras? Uma peça. Ótimo. Você até vai chamar mais atenção. 

Filha – Só não decidi ainda qual das duas, a de cima ou a de baixo. 

******* 

Luís Fernando Veríssimo. Zoeira. 5ͣ  edição. Porto Alegre: L&PM, 1987. Pág. 67.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Nada mais importa

 Marquinhos PQD* e Arlindo Cruz 

Nada mais importa,

se a solidão vier bater na sua porta,

se um novo amor fizer chover na sua horta,

faça o favor de ser feliz. 

Meu coração tão infeliz,

diz que nada mais importa,

se a saudade no teu peito não suporta,

é o nosso adeus escrito certo em linhas tortas,

eu quis amar, você não quis. 

E tanto faz se o seu olhar entristeceu e derramou,

pois este pranto você  fez por merecer,

e o meu olhar, de tão sofrido, já secou,

e o que eu chorei só me ajudou a te esquecer.

Seu amor não valeu o que aconteceu. 

Nada mais importa,

nasceu torto e ninguém mais desentorta,

quando o mal é na raiz, a gente corta.

Foi assim que eu aprendi. 

Meu coração tão infeliz me diz

que nada mais importa,

se a saudade o teu peito não suporta

é o nosso adeus escrito certo em linhas tortas

eu quis amar, você não quis. 

E tanto faz se o teu olhar me entristeceu e derramou,

pois este pranto você fez por merecer

e o meu olhar, de tão sofrido, já secou

e o que eu chorei só me ajudou a te esquecer.

seu amor não valeu o que aconteceu. 

Nada mais importa.

Nasceu torto e ninguém mais desentorta,

quando o mal é na raiz a gente corta,

foi assim que eu aprendi. 

Nada mais importa,

pois agora já é tarde, Inês é morta.

Tô legal, meu coração já não comporta

mais um pingo de ilusão. 

Nada mais importa,

nossa rima já não faz nenhum sentido,

nosso caso tá pra lá de resolvido,

aprendi outra lição... 

******* 

P.S.: Escute essa música nas vozes do cantor Reinaldo ou do próprio autor: Marquinhos PQD.

Marquinhos PQD – O Globo 

Marquinhos PQD: Nome completo: Marcos de Souza Nunes; 

Nascimento: 1ͦ. de janeiro de 1959, no Rio de Janeiro (criado em Realengo, na Zona Oeste); 

Apelido “PQD”: Veio de seu tempo como paraquedista do Exército Brasileiro, onde serviu no batalhão Dompsa, que é a sigla para Batalhão de Dobragem, Manutenção de Paraquedas e Suprimento pelo Ar (ou Companhia/Batalhão DoMPSA) do Exército Brasileiro. realizando manutenção e dobragem de paraquedas. Seu número era 33446, do turno 1980/1; 

Marquinho PQD iniciou a carreira musical em 1983, quando o grupo Fundo de Quintal gravou o samba “Fase de Amor”, composta por ele junto com Chiquinho e Fernando Piolho. 

Falecimento: Faleceu em 29 de setembro de 2025, aos 66 anos, no Rio de Janeiro. 


As cortinas do espetáculo

 Nílson Souza

(...) 

Cenário: o menino, a bola e a parede: 

‒ Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba! 

A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto. 

‒ Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! ‒ acrescenta com igual agilidade verbal. 

E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito. 

‒ Prrriiiii! 

Retorna para o locutor improvisado: 

‒ Penalidade máxima! ‒ grita. 

Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti: 

‒ Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta... 

Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.

‒ Isolou! Isolou! ‒ grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo. 

‒ Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade! 

Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair: 

‒ Craque! Esse é craque! ‒ diz para si mesmo. 

Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora: 

‒ No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem? 

Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha pra cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego. 

‒ Fim de jogo! ‒ exclama, desapontado. 

Mas ainda encontra ânimo para um fecho solene: 

‒ Fecham-se as cortinas do espetáculo! 

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(Do jornal Zero hora, 20 de outubro de 2026)

Noel Rosa:

 A história por trás do sorriso do poeta

Caricatura – Arquivo do  O Globo

Na Rua Teodoro da Silva, em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, ficava a casa onde nasceu, em 11 de dezembro de 1910, Noel Rosa. Hoje, o antigo imóvel deu lugar a um prédio, e a memória daquela residência sobrevive nos registros históricos. 

Noel nasceu em uma família de classe média. Seu avô era médico, sua avó tocava piano, seu pai tinha uma loja e sua mãe tocava bandolim. Mas qual seria o destino daquele menino: médico ou artista? Noel escolheu a música e ajudou a mudar a história do samba. 

O pesquisador Ricardo Cravo Albin destaca um aspecto importante de sua trajetória: Noel representava também a presença de jovens brancos de classe média na música popular, num período em que esse universo era associado principalmente a artistas de origens humildes e compositores negros e mestiços. 

Mas a história de Noel também foi marcada por uma dificuldade física. 

Durante o parto, o uso do fórceps provocou um afundamento em seu maxilar. Ele passou por operações na infância, mas o problema persistiu. E foi aí que apareceu uma das características mais marcantes de sua personalidade: a capacidade de rir de si mesmo. 

Em vez de permitir que sua condição o definisse, Noel fazia piadas sobre a própria aparência e brincava com as pessoas ao seu redor. Seu humor, por vezes sarcástico, revelava uma inteligência afiada e uma maneira singular de enfrentar as adversidades. 

Noel Rosa morreu em 4 de maio de 1937 aos 26 anos, mas deixou uma obra que atravessou gerações. Talvez sua grandeza também esteja nisso: ele transformou em arte sua maneira de observar o mundo, sem perder a ironia, a leveza e a capacidade de rir da própria vida. 

Por trás do grande compositor, havia um homem que não permitiu que suas limitações se tornassem maiores do que seu talento. 

******* 

Piada de Noel Rosa sobre ele mesmo: “Eu não tenho do que me queixar!”

Ricardo Cravo Albin é um advogado, jornalista, historiador, crítico, radialista e musicólogo brasileiro, sendo considerado um dos maiores pesquisadores da Música Popular Brasileira. Sua maior obra é o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, com cerca de sete mil verbetes e referência na área musical.

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Garoto safado

 

A diretora de uma escola rural do interior de uma cidade nordestina, chama o pai de um aluno para reclamar do seu filho, personagem de um fato desagradável acontecido no colégio: 

‒ Bom dia, diretora, porque eu estou sendo chamado aqui, o que é que o sem-vergonha lá de casa aprontou agora? 

‒ Estou chamando o senhor aqui, é que o seu filho foi apanhado com duas meninas dentro do banheiro da escola. 

‒ Tá no sangue, puxou o pai. E o que ele estava fazendo de tão grave assim, dentro do banheiro, com essas duas meninas? 

‒ Ele estava se maquiando durante o período de aula!

Nomes bíblicos

 Por Ricardo Salles

Os nomes abaixo são bíblicos; a maioria vem do hebraico ou do aramaico, línguas do antigo Testamento. Veja o seu significado provável. 

01. Abel ► filho (tem provável origem remota assíria [aplu,‛filho’ ou suméria [ibila, ‛filho’]. 

02. Adão ► homem (do hebraico adam, idem).   

03. Ana ► misericórdia (do hebraico hanna, idem; parece ser redução de hananyah, ‛Javé compadeceu-se’, que, por sua vez, é o étimo de Ananias). 

04. Ariel ► leão de Deus (do hebraico ‛ariel’ [idem, em que o elemento ari-[redução de aryeh] significa ‛leão’). 

05. Débora ► abelha (do hebraico d’borah, idem). 

06. Esaú ► peludo (do hebraico ‛echaw’, idem). 

07 Filipe ► amador de cavalos (termo de origem grega, Phílippos, formado dos elementos philo-, radical de gostar, amar, e hippos, ‛cavalo’). 

08. Jonas ► pomba (do hebraico yonah, idem). 

09. Mateus ► presente de Deus (é, na realidade, a forma grega do hebraico Mattai, redução de Mattenai, ‛presente, dádiva de Deus’; há outros antropônimos de origem grega com o mesmo significado, como, por exemplo, Teodoro, formado dos elementos theos, ‛Deus’ e doron, ‛dom’). 

10. Paulo ► pequeno (do adjetivo latino paulus, -a, -um, ‛pequeno, pouco considerável’; é o nome latino do soldado Saulo, perseguidor dos cristãos, convertido depois do episódio da visão da luz no caminho de Damasco). 

11. Raquel ► ovelha (do hebraico rakhel, idem). 

12. Salomão ► prosperidade (do hebraico ch’lomo, derivado de uma forma que significa prosperidade naquele idioma). 

13. Sara ► princesa (do hebraico charah ou charay, conforme a fonte, que propriamente significa ‛soberana’). 

14. Susana ► lírio (Souzanna é forma grega do hebraico chúchan, ‛lírio’). 

15. Tomás ► irmão gêmeo (do aramaico tomá, ‛gêmeo’ que, em grego, foi traduzido como Dídimo [‛gêmeo’], nome pelo qual também é conhecido esse apóstolo de Cristo; Tomé é a forma galega, muito usada em Portugal). 

Da Seleções do Reader’s Digest, dezembro de 2018)