sábado, 31 de janeiro de 2026

Malandragem, dá um tempo...

 Bezerra da Silva

Vou apertar,

Mas não vou acender agora.

Vou apertar,

Mas não vou acender agora.

Se segura, malandro,

Pra fazer a cabeça tem hora.

Se segura, malandro,

Pra fazer a cabeça tem hora. 

É você não está vendo

Que a boca tá assim de corujão.

Tem dedo de seta adoidado,

Todos eles a fim

De entregar os irmãos.

Malandragem, dá um tempo,

Deixa essa pá de sujeira ir embora.

É por isso que eu vou apertar,

Mas não vou acender agora. 

Vou apertar,

Mas não vou acender agora.

Vou apertar,

Mas não vou acender agora.

Se segura, malandro,

Pra fazer a cabeça tem hora.

Se segura, malandro,

Pra fazer a cabeça tem hora. 

É que o 281 foi afastado,

O 16 e o 12 no lugar ficou.

E uma muvuca de esperto demais

Deu mole e o bicho pegou.

Quando os home da lei grampeia,

O couro come toda hora.

É por isso que eu vou apertar,

Mas não vou acender agora. 

Vou apertar,

Mas não vou acender agora.

Vou apertar,

Mas não vou acender agora.

Se segura malandro

Pra fazer a cabeça tem hora

Se segura malandro

Pra fazer a cabeça tem hora.

 *******

A música “Malandragem dá um tempo”, de Bezerra da Silva, tem no refrão o verso “Vou apertar, mas não vou acender agora”, uma alusão ao uso da canabis, alertando que o cigarro pode até ser preparado, mas fumá-lo, só no momento certo por tratar-se de uso de uma droga ilegal no nosso País.

A expressão “Vou apertar, mas não vou acender agora” é uma metáfora que sugere a necessidade de autocontrole e paciência, especialmente em situações de risco preparando um “baseado” para fumar. 

“Vou apertar, mas não vou acende agora” refere-se à preparação de um cigarrinho do capeta, mas, por ter gente estranha por perto, o melhor é ter paciência e só acender na hora certa, deixando o pessoal estranho ir embora...

Frases de Leon Eliachar

A mulher é uma coisa tão complexa que quando o homem chega a compreendê-la o jeito é abandoná-la.

A grande conquista da mulher é saber que pode ser conquistada a hora que quiser. 

Antigamente, quando um homem olhava para o tornozelo da namorada, era um audacioso. Hoje, um idiota. 

Vício é o que sempre estamos fazendo pela última vez. 

Pontualidade é a coincidência de duas pessoas chegarem com o mesmo atraso. 

Segredo é isso que vai rolando de ouvido em ouvido e volta sempre com mais detalhes. 

Há dois tipos de mulheres: a nossa e a dos outros. 

Quando um homem se casa passa a alimentar duas bocas e a calçar quatro pés. 

As mulheres são sempre muito queridas. Umas quando chegam; outras quando partem. 

A mulher ideal é a eventual. 

Procuro manter sempre o mesmo nível de humor, mas a culpa não é minha: têm dias que o leitor está mais fraco. 

Viver honestamente é fácil, difícil é viver desonestamente. 

O turfe não é jogo de azar. A gente joga sabendo que vai perder. 

O homem se casa para vencer a solidão; a mulher, para ficar só. 

O homem se casa para ficar em casa. A mulher para sair. 

O divórcio é uma chance que se dá ao indivíduo para errar outra vez. 

O casamento civil é o que ninguém vê; o religioso é onde todo mundo se vê. 

Herói é o sujeito que teve a sorte de escapar vivo. 

É sim, irmão ‒ convém não esquecer que o dinheiro não é tudo na vida. Tudo na vida é a falta de dinheiro. 

Algumas mulheres são contra o biquíni porque o biquíni é contra elas. 

Biquíni: Um pedaço de pano cercado de mulher por todos os lados.

Quando chega ao altar, a mulher diz o último 'sim' ao homem. 

As estatísticas não falham: para cada homem solteiro há sempre uma mulher casada. 

Mulher que se preza não mente: inventa verdades. 

Mais vale dois carros na contramão que uma mulher na mão. 

O homem se casa por descuido. A mulher, por precaução. 

O pior cego não é aquele que não quer ver: é aquele que não quer ser visto. 

Um homem prevenido vale por dois; dois homens prevenidos não sobra nenhum. 

Saca-rolha é esse instrumento que foi inventado pra empurrar a rolha para dentro da garrafa. 

A alegria do geômetra é ver o círculo pegar fogo. 

O que mais pesa em cima de um travesseiro é a consciência. 

Só uma coisa o homem faz questão de acompanhar durante toda a sua vida com verdadeiro carinho: a queda dos cabelos. 

Liberdade de imprensa é fácil. Difícil é ser jornalista livre. 

Sogra é esse parente afastado que se torna cada vez mais próximo. 

Como evoluiu a odontologia: cada dia se inventa um aparelho diferente pra provocar uma dor diferente. 

Pai moderno é uma ilha de afeto cercada de contas por todos os lados. 

Da discussão não nasce a luz, nasce a conta da luz. 

A grande luta dos anunciantes de sabão em pó é querer tornar o seu branco mais branco que o do outro. 

Pediatra é um sujeito de profissão difícil: tem de agradar as mães sem prejudicar a saúde das crianças. 

O sim mais caro do mundo o homem deposita na igreja e a mulher fica sacando o resto da vida. 

Agora que existe o parto sem dor, só falta inventarem a conta com anestesia.

Marido é um homem que passa a metade da vida procurando uma mulher e a outra metade tentando livrar-se dela. 

O chato da bebida não é o mal que ela nos pode trazer, são os bêbados que ela nos traz. 

Não são os cavalheiros que estão acabando, é o “h” que já não se usa mais.

Imagem de O Folha de Minas 

Leon Eliachar (Cairo, 12 de outubro de 1922 ‒ Rio de Janeiro, 29 de maio de 1987) foi um jornalista de humor e escritor brasileiro  nascido no Egito. 

Vida: 

Veio para o Brasil muito pequeno e viveu quase toda a sua vida no Rio de Janeiro. 

Jornalista desde os 19 anos de idade, trabalhou em diversos jornais e revistas, fixando-se, por último, no Última Hora, onde mantinha uma página com o título de Penúltima Hora. Justificava o nome da página com a legenda “um jornal feito na véspera”. 

Foi colaborador dos roteiros de dois filmes carnavalescos, e autor de programas de rádio e secretário da revista Manchete. Também foi colunista da revista O Cruzeiro. 

Em 1956 foi laureado com o primeiro prêmio na IX Exposição Internacional de Humorismo realizada na Europa, em Bordighera, na Itália. 

Segundo notícias da época, ele foi assassinado a mando de um rico fazendeiro paranaense com cuja esposa o autor vinha mantendo um romance. Leon morreu com um tiro no rosto, em seu apartamento e foi sepultado no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro. 

Bibliografia: 

O Homem ao Quadrado (1960)

O Homem ao Cubo (1963)

A Mulher em Flagrante (1965)

O Homem ao Zero (1967)

10 em Humor (1968), em conjunto com Millôr Fernandes, Stanislaw Ponte Preta, Fortuna, Ziraldo, Jaguar, Claudius, Zélio, Henfil e Vagn)

O Homem ao Meio (1979) 

Certa vez, Leon Eliachar escreveu: “Nunca cobicei a mulher do próximo: só a do afastado.” A última que ele cobiçou era de um fazendeiro bem afastado do Rio de Janeiro, Palmas, no Paraná. Mas isso não impediu que, conforme foi noticiado na época, o fazendeiro mandasse matá-lo, no Rio.


O complicado verbo doer

 

O verbo doer é defectivo e unipessoal, conjugando-se principalmente na 3ª pessoa (ele/ela/você/eles/elas) com formas como dói, doem, doía, doeu, doerá, pois não tem formas para 1ª e 2ª pessoas no uso comum (eu, tu, nós, vós), mas pode ser usado em sentido figurado com conjugação completa, sendo o gerúndio “doendo” e particípio “doído”.  

O verbo doer é conjugado principalmente na 3ª pessoa (ele/ela/você/eles/elas), pois é um verbo impessoal (ex: dói, doem), mas também pode ser usado em outros tempos e formas, como em “eu doo”, “tu dois” (presente), “ele doeu” (passado),  “eu doeria” (futuro do pretérito), e “ele doerá” (futuro do presente). É importante notar que a forma “doi” sem acento está errada no presente; o correto é dói, e é comum o uso com a preposição “em” (ex: dói em mim).  

Modo Indicativo (Uso Comum ‒ 3ª Pessoa) 

● Presente: ele/ela dói, eles/elas doem. 

● Pretérito Imperfeito: ele/ela doía, eles/elas doíam. 

● Pretérito Perfeito: ele/ela doeu, eles/elas doeram. 

● Pretérito mais-que-perfeito: ele/ela doera, eles/elas doeram. 

● Futuro do Presente: ele/ela doerá, eles/elas doerão. 

● Futuro do Pretérito: ele/ela doeria; eles/elas doeriam. 

Modo Subjuntivo 

● Presente: que ele/ela doa; que eles/elas doam. 

● Pretérito imperfeito: se ele/ela doesse; se ele/ela doessem. 

● Futuro: Quando ele/ela doer; quando eles/elas doerem. 

► Outras formas: 

Não existe o Modo Imperativo afirmativo e negativo. 

► Infinito impessoal: 

● doer ele/ela; doerem eles/elas.  

● Gerúndio: doendo (ex: “Minha cabeça está doendo muito”). 

● Particípio: doído (ex: “Meu calo tinha doído muito”).  

●Verbo Pronominal (Figurado) 

Em sentido figurado, pode ser usado como “doer-se”, permitindo conjugação completa:  

Presente: Eu me doou, tu te doaste, ele se doeu, nós nos doemos, vós vos doeis, eles se doem (ex: “Ela se doeu das ofensas”).

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Laboratório do mal

 Carpinejar

Há um laboratório do mal acontecendo na fuça dos pais, em plataformas de jogos que permitem chats, filmagens e compartilhamentos de arquivos. 

Adolescentes são enfeitiçados por desafios. Desafios malignos. Quanto mais inconcebíveis, maior a projeção do protagonista. 

É a fase da necessidade de provar valor e serem admitidos pelos grupos. Por gratuidade, motivos fúteis, rifam a sua segurança para acatar missões de automutilação, de nudez e de agressões. 

Não se interessam em ouvir a voz de cima, mas apenas a de quem está ao lado, a de quem integra a mesma faixa etária e frequenta os mesmo lugares. 

Ainda que saibam que são amados pela família, querem a cobiçada idolatria dos seus pares, custe o que custar: novatos buscando desesperadamente a inserção. 

Confundem coragem com irresponsabilidade. Inibem a empatia e censuram o instinto protetivo diante da dor física ‒ a sua e a do outro. 

“Você não é capaz disso?” é uma provocação que adoece. Compromete a saúde emocional e anula para sempre, de modo irreparável, o futuro de alguém numa época decisiva de formação. 

Ambientes digitais normalizam e ‒ o mais grave ‒ premiam a violência. 

Não se pode ser casualidade o aumento na incidência de maus tratos a cachorros comunitários. Será que não vigora uma maldade orquestrada pelos esgotos da web? De repente, aparecem relatos de tortura absolutamente vil de animais inocentes, vulneráveis, que perambulam pelas ruas, ocasionando uma descrença radical na espécie humana. 

Surgem detalhes de boçalidade que lembram rituais planejados, com encenações de sacrifício, poder e submissão nada espontâneas. São espancamentos que fazem Laranja Mecânica, filme de denúncia da minha geração, de Stanley Kubrick, parecer produto do jardim de infância. 

Não temos noção da quantidade de jovens que tiram a própria vida por chantagem, constrangimento e ameaças desse universo paralelo. 

Plataformas começam como nichos do mercado de games, e extrapolam a sua natureza original ao oportunizar a interação irrestrita dos mais distintos assuntos, numa selvageria que não guarda nenhum parentesco com liberdade. Abrem caminho para a disseminação, sem filtro, de pornografia e de mensagens racistas, homofóbicas, misóginas e neonazistas. 

Alguns fóruns são criptografados, adotam linguagem cifrada, garantem anonimato, funcionam por câmaras de eco e se fecham em comunidades exclusivas. Todos os ingredientes operam como catalisadores da crueldade. 

Participar deles vira status. Passam a ideia de que poucos aguentam a experiência, estimulando a ruptura das fronteiras da sanidade e criando uma elite das inconsequências no submundo dos bytes. 

Aqueles que sofrem bullying ou acreditam carregar um defeito imperdoável tornam-se presas fáceis para a manipulação. Jogam no lixo os princípios e o caráter recebidos no lar pelos bitcoins da aceitação, da popularidade ilusória. 

O celular é o mais inofensivo dos perigos. O que existe dentro do entretenimento tende a ser pior. 

(Do jornal Zero Hora, de 30.01.2026)

Justiça pelo Orelha

 

Minha gente, é necessário

Punição e providência,

Na maldade que se esconde

Por trás de uma adolescência.

Tortura contra um animal

Não pode ter negligência.

 

Isso é um grave sinal,

Não pode ser ignorado,

Nem visto como inocência,

É crime qualificado.

Adolescência não apaga

Nada do que fez de errado.

 

Maltratar cão indefeso

É grande perversidade.

Rompe o limite do humano,

Fere toda a humanidade.

Mostra cedo que é capaz

De ofender a sociedade.

 

É assim que nasce o algoz,

Que não treme e nem recua.

A maldade, quando é solta,

Gera raízes na rua.

Quem tira a vida de um bicho,

Amanhã destrói a tua. 

Edileide Leite

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

O cachorro de todos os cachorros

 Fabrício Carpinejar

Não tem como não se sentir minúsculo, um grão de areia, ao supor o tamanho do sofrimento do cão Orelha, mascote da Praia Brava (Florianópolis, SC), de 10 anos, espancado por adolescentes e encontrado agonizando numa mata no dia 15, sem chance de sobrevivência. Por causa da gravidade dos ferimentos, acabou submetido à eutanásia. 

Um cão é esperança de vida em qualquer lugar. 

Orelha se mostrava feliz, desfrutava de sua casinha a céu aberto, saltava para cumprimentar quem o chamasse pelo apelido, mantinha o pelo brilhante e viçoso, com as vacinas custeadas entre os moradores. Não era de ninguém, era de todos, de guarda comunitária, símbolo da hospitalidade do bairro. 

Dócil e brincalhão, descendia do pedigree da afabilidade. 

Eu imagino que ele pensou que aquela turma lhe daria carinho, que brincaria com ele, que ofereceria comida, que disputaria corridas, que soltaria um graveto no ar para ele se exibir e trazer de volta. 

Não achou que se tratava de uma emboscada. Porque ele esperava o melhor das pessoas. Porque ele se deitava para receber cócegas. Porque ele rodopiava em torno de um afago no couro, de um contato de quem desejasse a sua presença, mesmo que por alguns minutos. Enrolava-se facilmente nas pernas, puxando um carrossel de faro e delicadeza. 

Mas o bando maldito e cruel vinha do inferno. Mais do que vandalismo, parecia buscar sangue, divertir-se com o sangue de um inocente, praticando uma maldade desprovida de idade. 

Os jovens ainda devem ter assobiado para que Orelha se aproximasse. Fingido entusiasmo. Dissimulando simpatia. Com risos falsos pregados no rosto. Para trair mortalmente sua lealdade. 

Quando enfim ele chegou, inconsciente do que viria a acontecer, abanando o rabo, curioso e esperançoso, foi cercado, foi chutado, foi atingido por pauladas, em pura e insana covardia. 

É de acreditar que Orelha ganiu por ajuda, vulnerável e frágil, idoso, sem condições de se defender, com mais língua do que dentes, com mais pelúcia nas patas do que garras. Nem assim contou com piedade. 

Quantas crianças desapareceram dentro daquele cachorro? Quantos vizinhos e conhecidos o procuraram em vão em seu cantinho? Quantas ondas se fizeram apressadas no mar para lavar suas feridas? Quantos castelos e ilusões se desmancharam de repente pela violência do vento e das águas na orla? 

A praia é pública, o coração é público, o assassinato é público. 

Seu pungente latido não se cala. Seu latido é voz gritando. 

Não duvido que os agressores tenham filmado as atrocidades para se gabar com os amigos (torturar um animal é engraçado?), não duvido que possuam cachorros em suas casas, não duvido que estudem em escolas caras, não duvido que pertençam a famílias influentes, não duvido que ostentem uma fachada de normalidade, não duvido que sejam enviados para longe e fujam de suas responsabilidades. Não duvido de coisa alguma, mas tudo dói. 

A justiça não pode se ausentar. 

Orelha não morreu porque confiou demais. 

Morreu porque topou com gente que deixou de ser gente há muito tempo. 

******* 

Coluna do jornal Zero Hora, Porto Alegre (RS), 28/01/26. 

Meu nome é trabalho

 Arlindo Cruz, Sombrinha e Franco

Meu nome é trabalho,

Mas eu tô pegado

Afim de um cascalho,

Vou pra todo lado.

Tenho cinco pirralhos

Chorando um bocado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

 

Já fui pedreiro, carpinteiro,

Motorneiro e até motorista.

Já fui copeiro, fui caseiro,

Jornaleiro e até jornalista.

Meti os peitos, fiz tudo direito,

Sou advogado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!


Mecanó, datiló, estenógrafo eu sou.

Maquinista, copista, analista de computador.

Fui profeta, atleta, poeta

E até professor formado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

 

Toco viola e sei jogar bola também.

Levei sacola, vendi mariola no trem.

Carreguei padiola, preguei meia-sola,

Não tenho um vintém furado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

 

Meu nome é trabalho,

Mas eu tô pegado

Afim de um cascalho.

Vou pra todo lado,

Tenho cinco pirralhos

Chorando um bocado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

 

Já fui burocrata, fui tecnocrata,

Vendi ouro e prata adoidado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

 

Como psicólogo e fonoaudiólogo

Eu fui logo elogiado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

 

Eu não sou de roubar, eu não sou marajá

E nem sou de chegar atrasado.

Vê se quebra o galho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

 

Eu não quero ser doutor, nem ser embaixador

E nem governador do Estado.

Meu nome é trabalho, doutor,

Tô desempregado!

Me arranja um trabalho, doutor,

Tô desempregado!

******* 

P.S. Escute essa música, na internet, com o grupo Fundo de Quintal. 

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Eu colheria mais flores

 Don Herold 

(9 de julho de 1889 - 1ͦ  de junho de 1966) 

Foi um humorista, escritor, ilustrador 

e cartunista estadunidense.

É claro que não se pode desfritar um ovo, mas não há lei que proíba de pensar no assunto. 

Se eu pudesse recomeçar minha vida, tentaria cometer mais erros. Viveria mais despreocupado. Seria mais fútil do que fui nesta jornada. Sei de poucas coisas que eu tomaria a sério. Eu seria menos higiênico. Iria a mais lugares. Escalaria montanhas e nadaria em mais rios. Tomaria mais sorvetes e comeria menos cereais. Teria mais preocupações reais e menos preocupações imaginárias. 

Vocês compreendem, eu fui um desses sujeitos que levam uma vida prudente e sadia, hora após hora, dia após dia. Tive meus bons momentos, mas se eu pudesse fazer tudo de novo, teria mais desses momentos, muitos mais. Nunca vou a lugar algum sem um termômetro, um gargarejo, uma capa de borracha e um pára-quedas. Se eu pudesse fazer tudo de novo, viajaria com menos bagagem. 

Talvez seja tarde demais para um cachorro velho desaprender os velhos truques, mas talvez uma palavra de menos juízo venha a servir de alguma ajuda para uma geração futura, ajudando-a a cair em algumas das ciladas que eu evitei. 

Se eu pudesse recomeçar minha vida, daria menos atenção às pessoas que pregam o esforço contínuo. Neste mundo de especialização, nós temos, naturalmente, uma superabundância de indivíduos que nos clamam que levemos a sério sua própria especialidade. Dizem-nos que temos de aprender Latim ou História, senão seremos uns desgraçados, arruinados, reprovados, fracassados. Depois de uns doze ou mais desses protagonistas terem exercido sua ação sobre um espírito jovem, é provável que o deixem com sérias dificuldades para a vida. Queria que eles me tivessem convencido de que Latim e História eram divertidos. 

Procuraria mais professores que incentivassem o descanso e os divertimentos. Felizmente tive alguns assim, e acho que foram eles que me impediram de levar a breca completamente. Foi com eles que aprendi a colher as poucas e míseras flores que colhi pelo caminho ingrato da vida. 

Se eu pudesse recomeçar minha vida, começaria a andar descalço desde o começo da primavera, e continuaria até o fim do outono. Mataria aula mais vezes, jogaria mais bolinhas de papel nos professores. Teria mais cachorros. Deitaria mais tarde. Teria mais namoradas. Pescaria mais. Iria mais ao circo. Iria a mais bailes. Andaria em mais cavalinhos de pau. Seria despreocupado o mais possível, ou pelo menos, até ter alguma preocupação – em vez de procurar adiantadamente. 

A seriedade provoca mais erros do que a alegria. Os atritos da vida de uma família vêm, em geral, mais nos momentos de grande seriedade do que nos momentos de alegria. Para dar um exemplo em ponto grande: como seria melhor se as nações, em vez de declararem guerras, declarassem festivais internacionais! 

Num mundo em que toda a gente parece obcecada pela gravidade da situação, eu me levantaria para cantar a leveza da situação. Pois eu concordo com Will Durant em que “a jovialidade é mais sábia do que a sabedoria”. 

Duvido, entretanto, que eu cause muito dano com o meu credo. A oposição é bastante forte. Há muita gente séria tentando fazer com que todo o resto do mundo fique sério também. 

Seleções do Reader´s Digest – Fevereiro de 1954

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

O método socrático

 

O mais falado importante método didático foi nos dados por Sócrates: a maiêutica, ou seja, o parto das ideias. 

Sócrates era um filósofo peripatético, isto é, dava aulas caminhado com os seus discípulos. Quando alguém he perguntava: 

- Mestre, o que é a liberdade? 

Sócrates devolvia a pergunta ao discípulo: 

- O que você acha que seja a liberdade? 

O aluno dava a sua resposta pessoal, logo outro emendava com outro conceito e todos os discípulos entravam na pergunta dando as suas opiniões, até formarem um consenso da resposta. 

Sócrates dizia que as resposta de todas as coisas estão dentro de nós, bastava extraí-las para fora como um parto de idéias. Daí o termo maiêutica. 

Criada por Sócrates no século IV a.C., a maiêutica é o momento do “parto” intelectual da procura da verdade no interior do Homem. 

A autorreflexão expressa no nosce te ipsum − põe o Homem na procura das verdades universais que são o caminho para a prática do bem e da virtude. 

A maiêutica é um método que consiste em “parir” ideias complexas a partir de perguntas simples e articuladas dentro de um contexto (assunto). 

Maiêutica é um método de ensino socrático no qual o professor se utiliza de perguntas que se multiplicam para levar o aluno a responder às próprias questões. É uma técnica de ensino fantástica, que atinge resultados excelentes. Tem a vantagem de funcionar como verdadeiro exercício mental para o aluno, que, utilizando seus próprios conhecimentos, desenvolve a capacidade associativa, otimizando recursos na estruturação de mecanismos de raciocínio lógico. Também funciona muito bem para bebês.

O processo da maiêutica pode começar, por exemplo, quando a criança de dois anos pergunta aos pais alguma coisa que já sabe. Frequentemente, crianças pequenas fazem esse tipo de questão. Basta aos pais devolver a pergunta e a criança responderá com um sorriso feliz por constatar que sabe a resposta. Quando faz isto, não está testando os pais ou divertindo-se. Está simplesmente abordando um objeto com uma região do cérebro no qual ele não está registrado. Digamos que está encarando o objeto sob outro ponto de vista. Ao receber de volta a questão, a criança faz um esforço e, utilizando de recursos associativos, descobre a região da mente onde definira o objeto e responde à própria pergunta. Questões mais elaboradas exigem mais de uma pergunta para atingir o objetivo. A maiêutica, do mesmo modo que a síntese, deve trilhar o caminho lógico, mas, ao contrário desta, pode partir do complexo para o simples, se se utilizar de recursos apropriados. A maiêutica, por ser um processo elaborado, necessita de um pouco de esforço e talento dos pais, como tudo que vale a pena na vida. 

O que é peripatético? 

Em 335 a.C., depois da morte de Filipe da Macedônia, Aristóteles voltou para Atenas. Lá, próximo ao templo de Apolo Lício e das Musas, ele fundou sua escola, que ficava próximo a uma colunata coberta, chamada em grego perípatos, por ser esse o local de encontro dos alunos com o mestre, a escola aristotélica ficou conhecida como peripatética. 

Peripatético é aquele que ensina caminhando, ao ar livre. Jesus Cristo era peripatético, pois todos os seus sermões foram dados andando com a multidão que sempre o acompanhava. 

Invenção do orelhão

 Leandro Staudt

Em fase de extinção, os orelhões fizeram parte do cenário urbano dos brasileiros a partir dos anos 1970. Eram a principal alternativa de comunicação para a maioria da população em tempos de linhas telefônicas limitadas e caras. O design icônico da cobertura dos telefones públicos foi desenvolvido pela arquiteta Chu Ming Silveira (1941-1997), funcionária da estatal Companhia Telefônica Brasileira (CTB). 

Nascida na China, ela chegou ao Brasil com os pais ainda na infância. Formada pela Universidade Mackenzie, passou a trabalhar na CTB. Quando chefiava o Departamento de Projetos, ficou encarregada de desenvolver a proteção dos telefones públicos. 

A arquiteta realizou três projetos. O modelo Orelhinha era menor, feito em acrílico, destinado a ambientes fechados. A Concha foi projetada para locais semiabertos, como postos de gasolina. O Orelhão precisava atender às condições mais desfavoráveis, ficando exposto ao sol, à chuva e aos ruídos urbanos. A inspiração foi o formato do ovo, segundo ela, “a melhor forma acústica”. 

O primeiro orelhinha foi instalado em 1971, nas dependências da CTB em São Paulo. Os orelhões chegaram às ruas do Rio de Janeiro e de São Paulo em janeiro de 1972. Ganharam apelidos (capacete de astronauta e tulipa), mas prevaleceu o nome orelhão. 

O jornal Diário da Noite, de São Paulo, publicou em fevereiro de 1972, que as novas estruturas, fabricadas em fibra de vidro, eram mais resistentes do que as anteriores, de acrílico e formato cilíndrico. 

O projeto do telefone público uniu estética e funcionalidade. Técnicos da CTB divulgavam que o usuário que mantinha a cabeça dentro do orelhão conseguia reduzir em até 75% o ruído externo. Desde o início da implantação, equipamentos sofreram com vandalismo e furtos 

Em Porto Alegre, o novo modelo de telefone foi apresentado em 10 de março de 1973. A Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT) instalou o primeiro na Praça da Alfândega, no Centro Histórico. 

A ligação inaugural foi feita por Firmo Bernardes, funcionário da CRT. Do outro lado da linha estava o seu chefe: 

‒ Presidente, está inaugurado o orelhão da Praça da Alfândega ‒ anunciou. 

Inicialmente, permitia longas conversas com uma única ficha, o que gerava reclamações de usuários devido à demora nas filas. Os aparelhos, mais tarde, também operaram com cartões. A popularização dos telefones celulares sepultou os telefones públicos. Testemunhamos o fim da Era dos Orelhões. 

(Do Almanaque Gaúcho, jornal Zero Hora, janeiro de 2026)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Palavras de honra

 Cláudia Laitano

Uma reportagem do New York Times comprovou o que até as molduras douradas da Casa Branca já haviam percebido: Donald Trump nunca falou tanto. Em relação ao primeiro mandato, seus discursos ficaram mais longos (e confusos) e suas entrevistas mais frequentes. Foram pouco mais de 800 mil palavras em 2017, contra quase 2 milhões em 2025. Uma comentarista do New Yorker chegou a usar o termo “logorreia” para se referir ao desarranjo verbal do presidente. 

Transformar o espaço público em um ambiente saturado de mentiras, discussões vazias e comentários que provocam indignação (e engajamento) é uma das táticas que Trump aprendeu com Steve Bannon, estrategista da extrema direita. Atacar sempre, negar tudo e nunca admitir uma derrota são os três mandamentos de Roy Cohn que o presidente adotou ainda na juventude (a relação de Trump com seu mentor foi retratada no filme O Aprendiz, de 2024). Acrescente-se a esse código de ética mefistofélico o narcisismo, que talvez seja inato, e esta explicada a compulsão do presidente em alugar os ouvidos do mundo ‒ soando ora como menino mimado, ora como alguém que perdeu o juízo e o senso do ridículo. 

Mesmo falando sem parar ‒ ou exatamente porque fala sem parar ‒ Trump é esquivo e escorregadio. Não é o caso de Stephen Miller. Pode-se dizer tudo sobre o homem de confiança do presidente, menos que ele esconde o jogo. Em uma entevista à CNN no começo do mês, Miller resumiu com clareza admirável a cosmovisão do chefe: “Vivemos em um mundo onde se pode falar o quanto quiser sobre formalidades internacionais e tudo mais, mas o mundo é governado pela força e pelo poder. Estas são as leis de ferro do mundo. Somos uma superpotência. E sob a presidência de Trump, vamos nos comportar como tal”. 

Palavras são como armas químicas. Lançadas no ar, têm efeito cumulativo. Vamos nos sentindo cada vez mais abatidos ‒ e não apenas por seu valor de face, mas pela forma como são ditas e pela visão de mundo que expressam. Se ninguém responde à altura, as palavras vão ficando mais desabusadas, avançando no terreno daquilo que até pouco tempo era indizível. Nessa guerra travada pelo domínio da linguagem, a fala do premiê canadense Mark Carney em Davos foi tão inspiradora como um desembarque na Normandia. Por alguns minutos tivemos um adulto na sala que não vive preso ao passado ou aos interesses de uma única tribo. Por alguns minutos, voltamos a acreditar que a lei do mais forte não é a única que existe ‒ muito menos a mais inteligente ou digna de respeito. 

(Do jornal Zero Hora, janeiro de 2026)

Cuidado com os raios

 

Como o raio afeta o corpo por dentro? 

Quando a descarga elétrica atravessa o corpo humano, ela pode interromper imediatamente o funcionamento do coração e do sistema respiratório. e do sistema respiratório. A parada cardiorrespiratória é a principal causa de morte em vítimas de raios. 

Além disso, o choque elétrico pode provocar: 

► lesões graves no cérebro e no sistema nervoso; 

► hemorragias cerebrais e acidentes vasculares; 

► queimaduras internas profundas, especialmente em regiões próximas aos ossos, que oferecem maior resistência à passagem da corrente elétrica; 

► ruptura de tímpanos devido à onda de choque sonora; 

► danos musculares extensos que podem levar à rabdomiólise, condição em que o tecido muscular se degrada e libera toxinas na corrente sanguínea, com risco de insuficiência renal. 

Mesmo pessoas que não são atingidas diretamente podem sofrer lesões. A eletricidade pode se propagar pelo solo a partir do ponto da queda do raio, as chamadas descargas laterais, ou atingir alguém indiretamente por condução em estruturas metálicas, água, fios elétricos e encanamentos. 

Uma característica particular dos acidentes com raios é que, muitas vezes, os danos internos são muito mais graves do que os sinais externos aparentam. A corrente elétrica tende a percorrer a  superfície da pele em um fenômeno conhecido como flashover, o que pode fazer com que a vítima pareça pouco ferida por fora, mesmo tendo sofrido sérios danos cardíacos e neurológicos. 

Por isso, toda pessoa atingida por um raio deve receber atendimento médico imediato, mesmo que esteja consciente. 

O que fazer ao presenciar um acidente com raio? 

Ao ver alguém ser atingido por um raio, a recomendação é acionar o socorro imediatamente. 

Diferentemente de outros acidentes elétricos, a vítima não retém carga elétrica e pode ser tocada com segurança. Em casos de múltiplas vítimas, há uma inversão do protocolo tradicional de emergência, deve-se priorizar primeiro quem parece estar sem pulso ou sem respiração, pois essas pessoas ainda têm boas chances de sobrevivência se receberem reanimação cardiopulmonar rapidamente. 

O uso de um desfibrilador externo automático (DEA), quando disponível, também pode ser decisivo. 

Como se proteger durante tempestades? 

A principal medida de proteção é buscar abrigo em locais fechados assim que houver sinais de tempestade elétrica. Raios podem cair a até 10 quilômetros de e distância da área onde está chovendo. 

Algumas recomendações importantes: 

► evitar áreas abertas, topos de morros, campos e praias; 

► não se abrigar sob árvores isoladas; 

► não permanecer em contato com estruturas metálicas;não entrar na água de rios, lagos ou mar; 

► dentro de casa, evitar contato com tomadas, torneiras, janelas e telefones com fio; 

► o abrigo mais seguro, se não houver construção por perto, é dentro de um veículo fechado, com portas e janelas fechadas. 

Se a pessoa estiver ao ar livre e sentir os pelos do corpo se arrepiarem ou a pele formigar, sinal de que um raio pode cair nas proximidades, a orientação é agachar-se, curvar o corpo para frente, com as mãos nos joelhos, evitando deitar no chão, o que aumenta a área de contato com a corrente que pode se espalhar pelo solo. 

Apesar de rara, a chance de ser atingido por um raio é estimada em cerca de uma em um milhão, a descarga elétrica atmosférica está entre os eventos naturais mais destrutivos para o corpo humano. 

(Parte de artigo da revista Veja, janeiro de 2026)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

A implacável lei do retorno

 Carpinejar

Tudo o que vai, volta.

Tudo o que você aplica na vida é um investimento secreto a dar rendimentos inesperados ou uma dívida envergonhada que cobrará juros abusivos.

Tudo que você faz para o outro é uma encomenda para si mesmo.

Quem esnoba, um dia ainda sentirá na pele o que é ser humilhado.

Quem fura a fila, um dia será passado para trás.

Quem rouba, um dia se verá sem nada.

Quem é avarento, um dia ainda conhecerá a escassez.

Quem se omite do socorro, um dia ainda penará pedindo ajuda.

Quem despreza os amigos, um dia ainda descobrirá o que é a solidão.

Quem nunca oferece um tempo para ouvir, um dia saberá como é o mais profundo silêncio.

Quem costuma deixar a sua família no vácuo, um dia ainda amargará aniversários sem ninguém por perto.

Quem ofende, um dia ainda será chamado daquilo que mais dói.

Quem desmerece os seus colegas, um dia ainda provará do veneno.

Quem desvaloriza o carinho, um dia ainda experimentará a grosseria no convívio.

Quem reduz o desabafo de uma pessoa a mero drama, um dia ainda será diminuído.

Quem é preconceituoso, um dia ainda acabará vítima da exclusão.

Quem foge de compromisso, um dia ainda mendigará para ficar junto.

Quem ignora mensagens, um dia ainda aguardará ansiosamente uma resposta.

Quem age por inveja, um dia carecerá de empatia.

Quem pisa nos seus pares para subir, um dia ainda terminará no mais completo isolamento.

Quem se esquiva dos momentos importantes, um dia não terá a quem contar suas experiências.

Quem só promete, um dia ainda será dependente de favor e fiado.

Quem desdenha do trabalho de alguém, um dia ainda se casará em vão.

Quem brinca com as expectativas alheias, um dia será descartado.

Quem quebra a confiança de um laço, um dia ainda suspeitará de qualquer coisa.

Quem espalha inverdades, um dia ainsa sofrerá com distorções do seu discurso.

Quem se cala por covardia, um dia ainda gritará por justiça.

Quem usa relações como moeda, um dia ainda receberá troco.

Quem abandona afetos no meio do caminho, um dia ainda será ultrapassado.

Quem atalha, um dia será o último.

Quem é indiferente, um dia ainda conversará com as paredes.

Quem adia encontros, um dia morrerá de saudade.

Quem não se mostra presente, um dia ainda arcará com ausências definitivas.

Quem não agradece, um dia ainda não será lembrado.

Quem chantageia, um dia ainda implorará por uma segunda chance.

Quem mente, um dia ainda perderá o seu lugar.

Quem não cumpre a sua palavra, um dia ainda terá a sua esperança torturada.

 

Sempre chegará a sua vez. Ainda que não seja agora. 

(Do jornal Zero Hora, janeiro de 2026)

Notícias a um amigo

 A coisa aqui tá preta

Chico  Buarque por Quinho

Meus caros amigos era o nome do disco. “Meus caro amigo” era a canção. Nascida de uma provocação ‒ enquanto o disco ganhava um título no plural, a canção foi batizada no singular ‒, a composição tinha por principal característica levar um recado direto a um amigo que estava exilado. Morando em Portugal, Augusto Boal pouco recebia notícias do Brasil e ‒ por isso mesmo – cobrou certa vez de Chico que lhe enviasse mais informações. O pedido foi atendido. 

Registrada numa fita cassete, a gravação chegou a Boal através de sua mãe, que foi a portadora e responsável pela entrega. Assim, “Meu caro amigo” foi ouvida em Portugal pela primeira vez durante um almoço na casa de Boal, em Lisboa, no bairro Campo Pequeno, onde o diretor teatral reuniu familiares e também amigos que se encontravam no exílio, dentre eles Darcy Ribeiro e Paulo Freire. “Falávamos de tristezas, e ouvimos um canto de esperança”, recordou o teatrólogo, anos depois, em depoimento para o livro Chico Buarque do Brasil. 

Choro acelerado marcado pela flauta de Altamiro Carrilho, a letra de “Meu caro amigo” começava com Chico pedindo desculpas ao destinatário por não poder lhe visitar ao mesmo tempo que justificava que sua intenção não era provocar ou atiçar velhas saudades. Reclamando da impessoalidade de um telefonema e desconfiando da lisura dos Correios ‒ naquela época, as cartas também eram censuradas ‒, Chico explicava que a melhor maneira de se comunicar seria mesmo tendo o disco como veículo: “Se me permite/ Vou tentar lhe remeter/ Notícias frescas nesse disco”. 

Do livro “O que não tem censura nem nunca terá”,

de Márcio Pinheiro. 

Meu caro amigo, me perdoe, por favor,
Se eu não lhe faço uma visita.
Mas como agora apareceu um portador,
Mando notícias nessa fita. 

Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol.
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. 

Muita mutreta pra levar a situação,
Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça,
Que a gente vai tomando e também sem a cachaça,
Ninguém segura esse rojão. 

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar,
Nem atiçar suas saudades.
Mas acontece que não posso me furtar
A lhe contar as novidades. 

Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol.
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. 

É pirueta pra cavar o ganha-pão,
Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro,
Que a gente vai fumando e também sem um cigarro,
Ninguém segura esse rojão. 

Meu caro amigo, eu quis até telefonar,
Mas a tarifa não tem graça.
Eu ando aflito pra fazer você ficar
A par de tudo que se passa. 

Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol,
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. 

Muita careta pra engolir a transação
E a gente tá engolindo cada sapo no caminho,
E a gente vai se amando que também sem um carinho,
Ninguém segura esse rojão. 

Meu caro amigo, eu bem queria lhe escrever,
Mas o correio andou arisco.
Se me permitem, vou tentar lhe remeter
Notícias frescas nesse disco. 

Aqui na terra, tão jogando futebol,
Tem muito samba, muito choro e rock'n'roll.
Uns dias chove, noutros dias bate sol,
Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta. 

A Marieta manda um beijo para os seus.
Um beijo na família, na Cecília e nas crianças.
O Francis aproveita pra também mandar lembranças,
A todo o pessoal, adeus! 

domingo, 18 de janeiro de 2026

Uma Lei injustiçada

 

(...) 

E é impossível não lembrar da Lei Rouanet, tão injustamente atacada. Na prática, a Lei é o grande alicerce de muitos desses projetos (culturais). Permite que empresas destinem parte de seus impostos a iniciativas culturais, sem aumentar gastos do poder público. Patrocinadores ganham visibilidade e engajamento, artistas têm a chance de realizar seus trabalhos; a população recebe cultura de qualidade. Quem critica, em geral, não entendeu ‒ ou prefere não entender. A demonização da Lei Rouanet nasce da desinformação e da politização rasteira. Sem ela, muitos dos espetáculos que hoje encantam plateias ‒ e aquecem economias ‒ simplesmente não existiriam. 

Parte da crônica “A roda que gira com arte”, de Zé Victor Castiel,

No Caderno Sábado do Correio de Povo, janeiro de 2026. 

******* 

Os fundamentos da Lei Rouanet (Lei nº 8.313/91) são o incentivo fiscal à cultura, permitindo que empresas e pessoas físicas destinem parte do seu Imposto de Renda para patrocinar projetos culturais aprovados pelo Ministério da Cultura (MinC), em troca de abatimento do imposto devido (4% para PJ e 6% para PF), fomentando a produção artística e gerando retorno econômico e social, através de mecanismos como patrocínio e doação, com regras claras para aprovação e execução dos projetos. 

Três mulheres e seus filhos

 

Versão cômica 

Paulo Coelho 

Três mulheres conversam sobre as qualidades de seus filhos. 

Diz a primeira: 

‒ Fico contente que ele tenha decidido seguir o sacerdócio: toda vez que entra em uma sala, as pessoas o olham com respeito e dizem: “Meu padre!” 

Os olhos da segunda brilham, e ela comenta: 

‒ Pois eu fico mais contente ainda em saber que meu filho não apenas seguiu o sacerdócio, como foi nomeado cardeal. Assim, quando entra em uma sala, as pessoas abaixam respeitosamente a cabeça, beijam sua mão, e dizem: “Sua Graça!” 

A terceira mulher permanece em silêncio. As outras duas se viram para ela e perguntam: 

‒ E o seu filho? 

‒ Bem, meu filho... Ele tem um metro e oitenta, é louro, tem olhos azuis. Toda vez que entra em uma sala, as pessoas olham umas para as outras e dizem: “Meu Deus!” 

A História Original 

(adaptada de uma parábola) 

Primeira Mãe: “Meu filho é tão alegre! Ele canta como os passarinhos, e seus passos são leves como os de uma fada.” 

Segunda Mãe: “O meu é forte e lindo! Ele corre e pula, enchendo a vida de energia e beleza.” 

Terceira Mãe (mais quieta): “O meu é um menino comum, não faz nada de especial.” 

Um velho, que as ouvia, interroga a terceira mãe: “Você não tem um filho?” Ela confirma que sim. Então, os meninos voltam. Um canta, outro pula, e o terceiro, o “normal”, corre e pega o pesado pote de água da mãe para levar para casa. 

A Moral da História 

O velho então explica: “Eu vi três meninos, mas apenas um filho.” A verdadeira qualidade não é o talento exibido (cantar, pular), mas a atitude de amor, serviço e responsabilidade, mostrando um caráter que respeita e cuida dos pais, ensinando que a essência de um bom filho reside em gestos de amor prático e na formação de um bom ser humano para as próximas gerações. 

Little Donald

 Martha Medeiros


Tenho acompanhado todas as análises sobre as ações do presidente-imperador, uma vez que os Estados Unidos influenciam nossa moeda, nosso mercado, nosso futuro. Mas não sou especialista em política, apenas uma aventureira na arte de especular sobre a condição humana. Daí que me interessa, mesmo, é imaginar a criança que Donald Trump foi. 

Informações biográficas falam de um menino “boca suja”, que teria ferido um professor ao jogar um apagador em seu rosto e que jogava bolo nos convidados de suas festas. Em razão da rebeldia, seu pai o tirou do colégio aos 13 anos e o internou em uma escola militar. Isso ainda diz pouco sobre sua infância, por isso divago por conta própria sobre como o pequeno Donald se sentia antes mesmo de ser um mocinho de 13 (ou um bandinho de 13). Meus devaneios voltam àquele Donald de calça curta, quarto filho de Fred e Mary, que só não foi a rapa do tacho porque veio outro irmão depois. Uma coisa se sabe: o pivetinho queria ser alguém. Horrorizava-se com a ideia de ser mais um (os obcecados em se tornar especiais para todo o universo, curiosamente, não conseguem se tornar especiais nem para dois ou três). “Um dia serei famoso”, profetizou. 

Qual o caminho mais rápido para se sentir “alguém”? Decidir destinos. Mandar. Nisso está incluída a pulsão para demitir. Basta revê-lo em ação no antigo programa O Aprendiz. Percebe-se o prazer íntimo com que eliminava os candidatos. Era, já naquela época, o mesmo tirano que hoje saliva ao expulsar imigrantes. Atualmente, com o dedo em riste (o gesto que mimetiza uma arma apontada), justifica seus atos usando uma linguagem de garoto iletrado. É só acompanhar seus pronunciamentos. “Fulano é mau”. “Não foi legal o que ele disse”. “Ele não devia ter feito o que fez”. O nível da argumentação dificilmente se aprofunda. Donaldzinho saiu do colégio cedo demais, coitado. A partir de então, aprendeu somente a olhar feio para os coleguinhas e a dar ordens. Afunda barquinhos, ameaça e captura inimigos, rouba o que é dos outros ‒ adora brincar de ser o dono do planeta. Justiça seja feita: lucra bastante com isso. 

Alguns idiotas o imitam, mas Donaldzinho não foge à regra dos bagunceiros notórios: ele atrai bajuladores e depois os despreza. Vai fazer 80 anos em junho* e continua o mesmo garoto problemático da escola, que seduz meninas para usá-las como troféus e que trata os mais sábios com desrespeito, mantendo o queixinho empinado, crente de que está abafando. A morte não lhe mete medo, criança não pensa em morte. Crescer, sim, lhe exigiria bravura. Trocaria fama por prestígio, mas esse upgrade nem lhe passa pela cabeça. Meninos que ocultam sua insegurança querem ser temidos, não amados. 

Do caderno donna, do jornal Zero Hora, janeiro de 2026. 

Donald Trump nasceu 14 de junho de 1946.