O juiz fitou o homem que acabara de disparar contra o presidente egípcio Anwar Al Sadat e perguntou, sem elevar a voz:
‒ Por que você o matou?
‒ Porque ele era seglar.*
O silêncio que se seguiu pesava mais que a sentença.
‒ O que significa “seglar”? ‒ insistiu o juiz.
O assassino engoliu em seco.
‒ Não sei.
Em outra sala, outro julgamento. O réu tentara matar o escritor Naguib Mahfouz.*
‒ Por que o esfaqueou?
‒ Porque escreveu um romance contra a religião.
‒ Você leu o livro?
‒ Não.
Em um terceiro tribunal, mais um homem, acusado de assassinar o intelectual Farag Fouda.*
‒ Por que você o matou?
‒ Porque ele não tinha fé.
‒ Como sabe?
‒ Está nos livros dele.
‒ Em qual livro?
Silêncio.
‒ Eu não sei. Nunca os li.
‒ Por quê?
O homem baixou a cabeça, como quem confessa o que o mundo inteiro já sabe.
‒ Eu não sei ler nem escrever.
Três julgamentos. Três mortes. Um único padrão. Matava-se por ideias que não se compreendiam. Condenava-se por palavras que jamais foram lidas. Odiavam-se conceitos que nem sequer se sabiam definir. Não era convicção. Era repetição. Não era fé. Era eco. Não era certeza. Era obediência cega.
A violência não nasceu do pensamento. Nasceu da sua ausência. O ódio não se propaga pelo conhecimento. Espalha-se onde o conhecimento não chega.
E toda vez que uma sociedade abdica de educar, não produz apenas ignorantes.
Produz armas humanas: pessoas que não sabem por que atiram, mas estão dispostas a fazê-lo. Este é o preço invisível da ignorância. E, invariavelmente, quem o paga é alguém que nada fez para merecer.
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* Muhammad Anwar Al Sadat (1918-1981) foi um militar e político egípcio, presidente do seu país de 1970 até seu assassinato em 1981. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz de 1978. Foi membro fundador do Movimento dos Oficiais Livres, com Gamal Abdel Nasser.
* Seglar: não religioso.
* Naguib Mahfouz (1911-2006) foi um célebre escritor egípcio, o primeiro árabe a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura de 1988, reconhecido por suas obras ricas em realismo e por explorar a condição humana e as transformações sociais do Egito no século XX. Sobreviveu a uma tentativa de assassinato por extremistas religiosos na década de 1990, um evento que afetou sua saúde e sua escrita posterior.
* Farag Fouda (1945-1992) foi um proeminente professor, escritor, jornalista e ativista egípcio, conhecido por seu forte secularismo e oposição ao fundamentalismo islâmico, sendo assassinado em 1992 por extremistas do grupo al-Jama’a al-Islamiyya após ser acusado de blasfêmia por clérigos de al-Azhar, tornando-se um símbolo da luta entre secularismo e extremismo religioso no Egito.

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