sábado, 3 de janeiro de 2026

Monólogo

 Barão de Itararé

Eu tinha doze garrafas de uísque na minha adega e minha mulher me disse para despejar todas na pia, porque se não... 

‒ Assim seja! Seja feita a vossa vontade, disse eu, humildemente. 

E comecei a desempenhar, com religiosa obediência, a minha ingrata tarefa. 

Tirei a rolha da primeira garrafa e despejei seu conteúdo na pia, com exceção de um copo, que bebi. 

Extraí a rolha da segunda garrafa e procedi da mesma maneira, com exceção de um copo, que virei. 

Arranquei a rolha da terceira garrafa e despejei o uísque na pia, com exceção de um copo, que empinei. 

Puxei a pia da quarta rolha e despejei o copo na garrafa, que bebi. 

Apanhei a quinta rolha da pia, despejei o copo no resto e bebi a garrafa, por exceção. 

Agarrei o copo da sexta pia, puxei o uísque e bebi a garrafa, com exceção da rolha. 

Tirei a rolha seguinte, despejei a pia dentro da garrafa, arrolhei o copo e bebi por exceção. 

Quando esvaziei todas as garrafas, menos duas, que escondi atrás do banheiro, para lavar a boca amanhã cedo, resolvi conferir o serviço que tinha feito, de acordo com as ordens da minha mulher, a quem não gosto de contrariar, pelo mau gênio que tem. 

Segurei então a casa com uma mão e com a outra contei direitinho as garrafas, rolhas, copos e pias, que eram exatamente trinta e nove. Quando a casa passou mais uma vez pela minha frente, aproveitei para recontar tudo e deu noventa e três, o que confere, já que todas as coisas no momento estão ao contrário. 

Para maior segurança, vou conferir tudo mais uma vez, contando todas as pias, rolhas, banheiros, copos, casas e garrafas, menos aquelas duas que escondi e acho que não vão chegar até amanhã, porque estou com uma sede louca... 

******* 

Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, também conhecido pelo falso título de nobreza de Barão de Itararé (1895 ‒ 1971), (“era duque mas por modéstia virei barão”) foi um jornalista, escritor e pioneiro no humorismo político.


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