terça-feira, 30 de novembro de 2021

Um poema e uma prosa

 A lua foi ao cinema

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
 

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
 

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
 

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
− Amanheça, por favor!
 

Paulo Leminski 

Extravagância

Eu sonhei que estava numa pizzaria pedindo uma pizza meio calabresa, meio extravagância. E o garçom ainda me perguntava se a metade extravagância era com cebola ou não. 

Acordei e pensei: extravagância tem mesmo nome de um tipo de pizza, não tem? Escritor adora trabalhar e brincar com as palavras. É que tem algumas que parecem significar outra coisa. 

Por exemplo: paralelepípedo. Nada a ver com a pedra que o consagrou. Pra mim, paralelepípedo é uma micose que dá entre os dedos dos pés. O senhor tem pomada para paralelepípedo? 

Alpendre não tem cara de varanda. Para mim alpendre é um sujeito que está estudando alguma coisa nova, um aprendiz naquilo. Não liga não, que ele ainda é um completamente alpendre no assunto. 

Urticária, tá na cara que é uma vingança terrível. Podia esperar tudo de você, meu amor, menos essa inesperada urticária. 

E península? Sabe o que é península? Remédio para urticária. O senhor tome uma península depois do almoço e outra depois do jantar. Península-C. 

Carcará pode ser passarinho lá no nordeste, mas na minha cabeça sempre foi e sempre será inflamação no ouvido. Fale mais alto, que estou com um carcará desgraçado no ouvido esquerdo. 

Agora pense na palavra travesseiro. Travesseiro é aquele homem que conduz a balsa nos rios. 

Canivete, é óbvio: é o sujeito que só tem uma perna. É canivete desde pequeno. 

Documento não tem nada a ver com papel algum. Documento é a cara que a pessoa fica quando surpreendida em delito. Encontramos o elemento completamente documento. 

E o leitor, depois ler este texto anexo (anexo significa completamente sem apetite) pense um pouco no significado das palavras coitado e enfezado. E não vá se enfezar quando descobrir o que realmente significam. 

Palavras, palavras, palavras, já dizia Shakespeare (que significa marca de geladeira). Aliás, comprei uma Shakespeare de oitocentos litros. 

Mário Prata

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Duas qualidades

 

Gratidão 

Um casal israelense elogiou emotivamente seu único filho. A audiência na sinagoga ouviu com simpatia enquanto o casal falava sobre o caráter do jovem, sua apreciação pela vida, e profunda devoção à Terra Santa. Pouco depois de seu 19º aniversário, ele foi brutalmente assassinado enquanto defendia seu amado país. Em memória ao filho, os pais fizeram uma generosa doação à sinagoga que frequentavam. 

Após a apresentação, uma mulher na audiência voltou-se ao marido e sussurrou: “Vamos doar a mesma quantia pelo nosso filho.” 

“O que está dizendo?” perguntou o marido. “Nosso filho não perdeu a vida!”

“Por isto mesmo!”, respondeu a mãe. “Vamos fazer caridade porque ele foi poupado.”

Ajuda

Um menino pequeno estava se esforçando para mover um pesado armário, mas o móvel não cedia. Ele empurrava e puxava com toda sua força, mas não conseguia movê-lo nenhum centímetro. O pai, que ali chegava, parou para observar os esforços vãos do filho. Finalmente perguntou: 

- Filho, está usando toda a sua força?

- Sim, estou! gritou o garoto, exasperado.

- Não, disse calmamente o pai, você não está. Você não me pediu para ajudá-lo.

Fogão à lenha

 Mais saudade… Já esse texto eu vivi… 

Eduardo Chaves

O fogão de lenha aceso era um altar. A lenha queimava, perfumando o ar com o cheiro das resinas que a madeira chorava através de suas gretas. O fogo avermelhava os rostos. A prosa era sempre sobre coisas de antigamente que todos já conheciam. “Pai, conta daquela vez que, pra visitar a mamãe, você atravessou a enchente do rio num tacho do engenho de cana puxado por uma corda…” A conversa era só uma desculpa para estar juntos. As palavras tinham carne. Na cozinha, diante do fogo, o silêncio era bem-vindo. Só contemplar o fogo já bastava. Era um silêncio carnudo, cheio de ser, tranquilo e feliz. O fogo incendiava a imaginação. Um espaço com um fogo aceso é um espaço aconchegante. As sombras não param. Movem-se ao sabor da dança das chamas. O fogo tranquiliza a alma, espanta os medos. 

A chapa quente do fogão era lugar para uma cafeteira de ágata. Quando não o café, um chá de folha de laranjeira. Minha amiga Maria Alice, nascida em Mossâmedes, Goiás, viveu a cozinha como eu vivi. Toda noite era igual. Ela conta: “A mãe dizia: ‘Vou é lá fora apanhar umas folhas de laranjeira pra fazer um chá pra nós…’ O pai advertia: ‘Mulher, você vai é ficar estuporada. Está com a cara quente do calor do fogo e vai sair na friagem? Vai acabar de boca torta…’ Ela nunca seguiu a advertência do marido e nunca ficou de boca torta. 

São Paulo, 2 de Março de 2010.

domingo, 28 de novembro de 2021

Palavras (portuguesas) em vias de extinção

 

Uma história para o dia 27 de maio,

escrita em 2003... relê-la aquece-me o coração... 

Vinha eu no outro dia, Avenida da Liberdade abaixo, a caminho do Rossio, quando, qual não foi o meu espanto, dei de caras com a minha tia Suzete. A tia Suzete tem quase 80 anos e quando lhe perguntei o que andava a fazer por aquelas bandas ela respondeu-me: “Olha, filha, vou ali beber uma ginja!”. 

“Só a tia Suzete, mesmo”, pensei eu. E comecei a lembrar-me de quando era pequena. a tia Suzete sempre foi uma mulher muito forte, nos dois sentidos, física e espiritualmente, é daquelas mulheres à moda antiga, cantava fados aos fins-de-semana nos clubes de Campolide. Pois, quando eu era pequena, a minha mãe, por vezes, deixava-me em casa dela, mas eu fazia sempre um berreiro, não sei bem por quê, até gostava muito dela, sobretudo quando ela me dizia: “Toma lá 100 merréis, filha, (entenda-se, cem mil reis) para ires comprar um raja” - e sempre que a vejo, lembro-me desta frase. porque é que já não dizemos cem mil reis parece-me óbvio, mas raja... por que raio deixamos de dizer raja? quando é que ficou decidido que começaríamos a dizer gelado? E com este encontro com a tia Suzete comecei a lembrar-me de outras palavras que caíram em desuso. O resultado foi uma enxurrada de frases e palavras que me lembro de ouvir na infância e que, com o passar o tempo, ficaram esquecidas. 

Na verdade, o que eu gostava mesmo, era de ir para casa da avó Maria que me incutia algumas responsabilidades, como a de eu ir à padaria da Mercedes; dizia-me muitas vezes: “Olha, filha, leva 50 mérreis para ires ao pão, guarda-os na algibeira, fica atenta à demasia, podes ficar com o que sobejar para comprares um caramelo” - e a Mercedes perguntava-me: “O que é que quer esta freguesa?” E eu sentia-me crescida. Mas a avó Maria, no meio de tanta bondade, também tinha crises de fúria e, às vezes (quase nenhumas), também se zangava e dizia-me: “Sai daí, não te empoleires! olha que dás uma queda e ainda levas uma galheta por cima”. Em casa da minha avó, onde passei muito tempo, até aos sete anos, as coisas tinham outros nomes: a televisão era o aparelho, o rádio era a telefonia, às fotografias chamávamos retratos e aos anúncios reclames. Os meus pais, quando chegavam ao fim da tarde, perguntavam-me se tinha feito os trabalhos da escola e a minha avó, que estava sempre do meu lado, dizia: “Deixa a miúda”, ao que o meu pai respondia: “Se isto agora é assim quando fores grande não tens o canudo”. 

Gostava tanto desses dias em casa da avó Maria, ela dedicava-me todo o seu tempo. De manhã levava-me à escola na Rua das Trinas, depois ia buscar-me para o almoço, às vezes fazia-me açorda, era a minha comida preferida, e gritava lá do fundo da cozinha: “Queres primeiro a sopa ou o conduto?” E da parte da tarde, deixava de ter tempo para ela, porque eu queria fazer tudo... e agora penso, como é que uma pessoa de 7 anos e outra de 55 podem ter tanta coisa para conversar 12 horas por dia? Tinha muita paciência, ela... às vezes punha-me em cima do sofá aos pulos, naquela altura chamávamos maple e ela, da sua máquina de costura gritava: “Olha que isso ainda vai pr'o galheiro, arre!”. Nos dias de sol no inverno, ela vestia-me o kispo, apanhávamos a carreira 28 e lá íamos as duas para o Jardim da Estrela, ao fim da tarde voltávamos para casa e ela dizia-me: “Senta-te aí, que a avó traz-te uma bucha”, e lá ficava eu a ver os bonecos animados, como ela lhes chamava... e aquele conforto para mim era tudo. 

E hoje em dia, já ninguém passa a infância com os avós, não há tempo para passar tardes à janela, já não se salta à corda nem ao elástico, já não se joga aos berlindes, ao pião ou ao ioiô e muito menos nos lembramos destas palavras. Eu não consigo lembrar-me quando deixei de as utilizar, nem por quê (muito possivelmente porque mudei de escola e deixei de ir para casa da avó Maria). E lá fui eu, perdida nestes pensamentos, até a Praça do Comércio, a pensar se será este o verdadeiro sentimento português, o da saudade. Então, dei meia volta, e fui à espinheira beber uma ginja. 

Publicado por J.

O General

 

É de manhã, lá vem o General,
A tropa espera imóvel, perfilada,
Para a continência matinal
Àquela autoridade, engalanada.
 

É assim que ocorre todo dia:
O General sorri e cumprimenta
Àqueles que o veem como um guia
E lhe dão o poder que o sustenta
 

Um dia, tudo irá terminar,
Perdendo ele o poder que ostenta
Vai pra sua casa, descansar...
 

Esquecer que houve mudanças, ele tenta,
Mas ele não é nada, então pra que lutar,
Pois se nem o jornaleiro o cumprimenta?
 

Clarival Vilaça

30/05/98

sábado, 27 de novembro de 2021

Nomofobia

 

Nomofobia é o medo irracional de ficar sem o seu telefone celular ou ser incapaz de usar o telefone por algum motivo, como a ausência de um sinal, o término do pacote de dados ou a carga da bateria. 

Nomofobia: o que é, sintomas e como evitar. 

Dr. Gonzalo Ramirez 

Clínico Geral e Psicólogo

A nomofobia é um termo que descreve o medo de ficar sem contato com o celular, sendo uma palavra derivada da expressão inglesa “no mobile phone phobia”. Este termo não é reconhecido pela comunidade médica, mas tem sido utilizado e estudado desde 2008 para descrever o comportamento de dependência e os sentimentos de angústia e ansiedade que algumas pessoas demonstram quando não têm o celular por perto. 

Normalmente, a nomofobia é identificada principalmente em pré-adolescentes e adolescentes, já que são os que mais consomem esse tipo de tecnologia e permanecem mais tempo nas redes sociais. 

Por ser uma fobia, nem sempre é possível identificar a causa que leva as pessoas a sentir ansiedade por estar longe do celular, mas em alguns casos, esses sentimentos são justificados com o medo de não conseguir saber o que está acontecendo no mundo ou de necessitar de assistência médica e não ter como pedir ajuda. 

Principais sintomas 

Alguns sinais que podem ajudar a identificar que se tem nomofobia incluem: 

● Sentir ansiedade quando se fica muito tempo sem usar o celular; 

● Necessitar fazer várias pausas no trabalho para utilizar o celular; 

● Nunca desligar o celular, mesmo para dormir; 

● Acordar no meio da noite para ir ao celular; 

● Carregar frequentemente o celular para garantir que se tem sempre bateria;

 Ficar muito chateado quando se esquece o celular em casa; 

● Verificar o telefone frequentemente para ver se tem notificações; 

●Ansiedade quando está em um ambiente sem sinal de internet; 

● Levar o carregador de telefone para todos os lugares por medo da bateria acabar. 

Além disso, outros sintomas físicos que parecem estar associados aos sinais nomofobia são os de vício, como aumento do batimento cardíaco, sensação de transpiração excessiva, agitação e respiração rápida. 

Uma vez que a nomofobia ainda está sendo estudada e não é reconhecida como um transtorno psicológico, ainda não existe uma lista fixa de sintomas, existindo apenas vários formulários diversos que ajudam a pessoa a entender se pode ter algum nível de dependência para com o celular. 

O que causa a nomofobia 

A nomofobia é um tipo de vício e fobia que foi surgindo lentamente ao longo dos anos e que está relacionada com o fato de os celulares, assim como outros aparelhos eletrônicos, se terem tornado cada vez menores, mais portáteis e com acesso à internet. Isso significa que cada pessoa está contatável o tempo inteiro e pode também ver o que está acontecendo à sua volta em tempo real, o que acaba gerando um sentimento de tranquilidade e de que não se está perdendo nada de importante. 

Por isso, sempre que alguém fica longe do celular ou de outra forma de comunicação, é comum o medo de estar perdendo algo importante e de não se estar facilmente contatável caso surja uma emergência. É aí que surge a sensação conhecida como nomofobia. 

Como evitar a dependência 

Para tentar combater a nomofobia existem algumas orientações que podem ser seguidas todos os dias: 

● Ter vários momentos durante o dia em que não se está com o celular e se dá preferência para conversas frente a frente; 

● Diminuir progressivamente o uso do celular; 

● Não utilizar o celular nos primeiros 30 minutos após acordar e nos últimos 30 minutos antes de dormir; 

● Colocar o celular para carregar numa superfície longe da cama; 

●Desligar o celular durante a noite. 

Quando já existe algum grau de dependência, pode ser necessário consultar um psicólogo para iniciar terapia, que pode incluir vários tipos de técnicas para tentar lidar com a ansiedade gerada pela falta do celular, como ioga, meditação guiada ou visualização positiva. 

(Do Blog TuaSaúde) 


sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Dicas práticas para beber espumantes

 

O espumante é uma bebida coringa. Combina com diferentes ocasiões − com praia, com um jantar mais elaborado ou com um happy hour com os amigos. Além de ser flexível quando o assunto é harmonização. 

A melhor maneira de encontrar seu estilo de espumante favorito é provando. Conversamos com Maurício Roloff, do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), sobre o ABC dos espumantes e separamos algumas dicas para quem está aprimorando o paladar.

Primeiro, abra a garrafa 

A maneira mais fácil é segurar a garrafa com as duas mãos, posicionando uma na rolha e outra na base da garrafa. O mais fácil é torcer a garrafa, e não a rolha. Assim é preciso empregar menos força na tarefa. Deixe para torcer a rolha só no final, quando ela já estiver quase saindo, para controlar o barulho do espocar. A etiqueta formal pede que a abertura de um espumante aconteça sem que se faça barulho, ou o menos possível, e também diria para não sacudir a garrafa. O importante mesmo é garantir uma boa experiência, e um pouco de barulho atrai a atenção e convida as pessoas para compartilhar um brinde, então não é de todo mal. 

O melhor espumante é aquele que você gosta

Preste atenção principalmente em categorias de doçura (seco/meio-seco/doce), método de elaboração (Charmat/Tradicional/Moscatel) e preço (aquele que caiba no seu bolso). Identificando seus parâmetros favoritos, fica mais fácil acertar na escolha. Na dúvida, anote os rótulos que você mais gostou. 

Beba sempre gelado

Quanto mais leve o espumante, mais gelado ele deve estar. Para acertar a temperatura (o ideal é ficar entre 6 C e 10 C), use um balde de gelo ou ice bag para refrescar as garrafas. Coloque o espumante em bastante gelo e um pouco de água (até cobrir o rótulo) dentro do recipiente por 20 minutos antes de servir. 

Geladeira só em último caso 

A geladeira não é amiga dos vinhos. A temperatura é irregular, há trepidação e o aroma dos alimentos pode impregnar na garrafa ou na rolha e atrapalhar a degustação. Evite também usar o freezer, pois pode congelar a rolha. 

Guarde o espumante em local fresco

As regras para conservar são as mesmas de um vinho: as garrafas devem ser mantidas em um local arejado, de temperatura fresca e constante (em torno de 15 C é o ideal), sem incidência de luz. A maior parte dos espumantes disponíveis no mercado são feitos para serem bebidos logo, então só estoque garrafas em casa se tiver o hábito de degustar com frequência ou já tiver previsão de consumir. 

Garrafa deitada ou de pé?

O melhor é deixar a garrafa deitada, assim a rolha fica sempre em contato com a bebida, tendo menor risco de a cortiça ressecar e permitir que entre ar na garrafa. Mas essa regra vale principalmente para garrafas que permanecerão guardadas por muito tempo, o que não é o caso da maior parte dos espumantes. 

A taça faz toda a diferença

Há taças que favorecem a expressão do perlage (como chamamos a formação de bolhas na taça – já pode anotar esse termo). Outras, nem tanto. Em geral, taças de cristal são melhores para a degustação mais especializada. Peças de vidro não são problema, desde que transparentes. Cálices coloridos são bons apenas em situações descontraídas, em que não há a intenção de analisar seriamente o que se está bebendo. E uma das últimas modas do setor são as taças de acrílico, coloridas. Elas permitem uma degustação bem informal, sendo ideais para situações como beira de praia ou de piscina, piqueniques e encontros com os amigos. 

Sobrou espumante na garrafa, e agora?

Os espumantes são mais difíceis de serem mantidos com qualidade depois de abertos do que outros vinhos, basicamente pela rápida perda de gás das garrafas depois de abertas. Há algumas tampas especiais que selam o gargalo para segurar as bolhas (perlage), mas elas não garantem uma sobrevida muito longa. O tempo máximo de conservação depois de aberto é de um dia para o outro. Isso não quer dizer que o que sobrou deva ir pelo ralo. O restante da garrafa pode ser usado em substituição a vinhos brancos nas receitas. 

(Em Zero Hora, fevereiro de 2016) 

Navegar é preciso

 

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: 

“Navegar é preciso; viver não é preciso”. 

Quero para mim o espírito desta frase,

transformada a forma para a casar com o que eu sou: 

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.

Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.

Só quero torná-la grande,

ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo. 

Só quero torná-la de toda a humanidade;

ainda que para isso tenha de a perder como minha.

Cada vez mais assim penso. 

Cada vez mais ponho na essência anímica do meu sangue

o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir

para a evolução da humanidade. 

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. 

Fernando Pessoa 

Nota: “Navigare necesse; vivere non est necesse” − latim, frase de Pompeu, general romano, 106-48 a.C., dita aos marinheiros, amedrontados, que recusavam viajar durante a guerra, cf. Plutarco, in Vida de Pompeu.

O verbete não foi encontrado

 Saint-Clair Mello

Dia desses, ao parar o carro numa vaga demarcada no estacionamento do shopping, soltei uma palavra muito usada em minha terrinha natal que não consta de nenhum dicionário. A vaga não era paralela às demais, mas em um ângulo diferente, oblíquo, por estar entre duas colunas. Então a Jane achou estranha a posição em que estacionara o veículo e me perguntou se estava correta. Eu disse que sim e acrescentei: 

− A vaga é de vangüê! (Usei o banido e injustiçado trema, para que o leitor saiba exatamente a pronúncia do vocábulo.) 

Perguntei a ela, então, se em Miracema, sua terra, também se usava isso. 

É preciso informar aqui ao distinto leitor que Miracema* e Bom Jesus do Itabapoana** distam cerca de cem quilômetros entre si, o que pode determinar usos particulares de nossa mesma língua. Mas não era o caso. Lá também se usa tal palavra. 

E veio, em seguida, pela força da memória que me resta, o seu sinônimo, também não dicionarizado: revesguete (com /e/ fechado em todas as sílabas e também com a pronúncia do /u/). 

Veja, caro leitor, que para enviesado, quer dizer, de viés, usamos com frequência vanguê e revesguete. Desta forma, um olhar de soslaio é um olhar de vanguê ou de revesguete. Sair de fininho de uma situação embaraçosa também significa, por metáfora, sair de revesguete ou de vanguê. A bola que se chuta e sai pela tangente, não indo na direção pretendida pelo jogador, é uma bola de vanguê ou de revesguete. A peça mal encaixada num conjunto é porque entra de revesguete ou de vanguê. 

Aí fico a me perguntar por que os dicionários, que sempre vivo consultando para encontrar esse tipo de registro, numa busca pela validação da linguagem que falamos, nunca deram muita confiança para nosso jeitão caipira de usar a bela língua de Camões, Vieira, Drummond, Bandeira, Torga, Leminski, Caetano, Chico, Eça, Machado e Abrunhosa. 

E os exemplos não ficam só nesses. 

O leitor haverá de saber, por acaso e sorte, o que é caracaxento? Ou calibrina? Camulaia? Briguelo? Cachimbau? Funicado? Miserento? Balango e balangar? Bitelo? Gibaita? Escabufado? Gafurinha? Esgulepar e esgulepado? Puaia? Istrudia? Mironga? Remandiar? Maxambomba? Marom? Preca? Cabrunco? Baleba? Lambreta? Pois essas são algumas das palavras que usamos com frequência para nomear, qualificar e representar as mais diversas coisas, qualidades e situações do dia a dia. 

Alguns poucos desses vocábulos até aparecem em um ou outro dicionário; às vezes com a acepção diferente da que lhe é atribuída, como marom, por exemplo, que para nós é a saborosíssima cocada assada. Caracaxento é áspero. Já calibrina é sinônimo de aguardente, assim como camulaia. Briguelo nomeia o boneco do teatro de marionetes. Cachimbau é a outra denominação do peixe conhecido como cascudo. Funicado, corruptela de fornicado, significa “em maus lençóis”; talvez uma forma branda a evitar o uso do termo fodido. Miserento é miserável, no sentido moral da acepção e não no econômico. Balango e balangar são as formas usadas em lugar de balanço e balançar. Bitelo e gibaita significam muito grande, não apenas grande. Escabufado é mal-arranjado, desajeitado. Gafurinha nomeia o cabelo muito embaraçado, de difícil penetração de pente. Istrudia equivale a “em outro dia atrás” e deve ser corruptela da forma arcaica estoutro dia. Mironga nomeia uma espécie de pudim de pão, embora seja um pouco diferente deste. Remandiar também é forma paralela de remanchear, ou remanchar, com o mesmo sentido. Maxambomba é o nome que se dá ao carrossel de parque de diversões equipado com cadeirinhas. Preca e cabrunco são formas de xingamento, empregadas sobretudo diante de situação adversa ou de difícil transposição, e revelam profunda contrariedade do usuário. Baleba é a prosaica bola de gude. Lambreta é/era o nome que damos/dávamos para sandália de dedos. 

Já puaia merece um parágrafo à parte. O termo começou a ser usado em expressões como dar puaia ou comer puaia, lá por volta dos anos sessenta do século passado. Ele se presta a identificar situações em que o falante, por meio de palavras de falso elogio, pretende conseguir algo favorável do ouvinte. Nesta situação, ele dá puaia no outro. Se o ouvinte, sem perceber a intenção do falante, acredita naquelas palavras, ele come a puaia. Há alguns conhecidos vaidosos na comunidade local, muito sensíveis a aceitar esses falsos elogios: são os comedores de puaia. 

Bom Jesus do Itabapoana, por essa expressão, é conhecida como a cidade da puaia. Houve um cidadão, aliás, com certos parafusos frouxos no juízo, que dizia que na cidade só o sino da igreja não comia puaia. Assim mesmo por estar com a boca para baixo. 

Qualquer dia, para suprir a lacuna, ainda faço um glossário completo das palavras e expressões usuais na nossa terra. Só de birra, de pirraça!

Cabrunco! 

******* 

*  Miracema é um município localizado na Região Noroeste Fluminense, no Estado do Rio de Janeiro, no Brasil.

** Bom Jesus do Itabapoana é um município brasileiro situado no norte do estado do Rio de Janeiro. 

P.S. Na verdade, descobri também, quando preparava a dissertação de mestrado, que várias dessas palavras, embora não dicionarizadas, são encontradas no Nordeste, como vi em um dos livros de Câmara Cascudo, de cujo título me esqueci. (Saint-Clair Mello)

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

O poema de um imigrante

 

Quando olhei para o mar e divisei, ao longe, o nada na linha do horizonte, meu corpo estremeceu, meus pensamentos se embaralharam. Fui tomado por um certo pavor, por uma indecisão. Afinal, eu estava deixando toda a minha vida para trás: os meus pais, os meus amigos, amores de adolescência, as conversas na praça, os passeios após a missa. 

Senti uma dor muito forte no peito, minha boca ficou seca e o suor umedeceu as mãos. 

Agarrei-me a alguma coisa no navio. Baixei a cabeça, procurei respirar fundo, e arrisquei: mais uma vez olhei para a imensidão das águas, tentei equilibrar-me colocando as mãos nos bolsos do meu casaco puído, mantive-me firme, parecia querer assumir uma posição de orgulho e desafio. 

Por alguns instantes, vieram-me à mente coisas que aprendera no pouco tempo em que estive na escola. Lembrei dos heróis da minha terra, recordei a luta do meu povo, a esperança de uma vida melhor jamais abandonada pela minha nona. 

E comecei a sentir um vigor, uma força, uma convicção: Sim, eu iria para o Brasil, iria enfrentar o desconhecido, iria deixar tudo para trás. Com o meu suor, com o meu empenho, construiria uma nova vida. Não, não importavam os sofrimentos e os percalços que poderiam ocorrer. Eu honraria minhas origens. Eu seria o filho de Amabile e de Domenico. 

Certamente, não enfrentei nem mais nem menos do que os meus compatriotas. Fui explorado, queriam que eu trabalhasse como um escravo; fui enganado, recebi montanhas pedregosas por vales verdejantes; fiquei doente, quase morri. Trabalhei como um insano. Mas jamais desisti. 

E hoje, abraçando os meus netos, não deixo de achar tudo muito interessante. Venci, superei obstáculos. E, o mais importante, sou um homem com uma emoção que poucos podem sentir: Amor por duas pátrias. 

(Giovanni Tuigo) 

Poema aos italianos:

 “Oração dos descendentes” 

Senhor Deus,
Protetor dos mais fracos
Sofredores e oprimidos,
Obrigado por ter guardado
Os nossos antepassados queridos…

Que vieram da terra nostra
Tão querida e distante,
Buscar desse lado do oceano
Um novo Horizonte…

Plantando belas flores
Num jardim abandonado,

Dando vida a tantos campos
Onde o sofrimento foi enterrado…
Essa gente tão diferente
Com vozes altas e cantaroladas,
Escondia dentro do peito
As feridas nunca cicatrizadas…

Assim o tempo foi passando
Como moinho moendo lembranças,
Naqueles rostos escorria o suor
Transformado em esperanças…

A luta incansável do dia a dia
Embaixo do sol e da chuva,
Os pés que sustentavam o corpo
Também amassavam a uva…

Para fazer o santo vinho
Que afogava as tristes mágoas,
Trazidas pelos navios
Fazendo riscos nas águas…

Hoje nós fazemos de volta
Aquele incerto roteiro,
Com a mesma coragem
Daqueles bravos guerreiros…

Que nos dão tanto orgulho
Há muitos e muitos anos,
Que Deus abençoe a todos
Descendentes de italianos.
 

Por Braz Gardini, ítalo-brasileiro, poeta e escritor. É autor também de “Ser italiano é...”. 

Apaixonado pelas coisas da Itália, ele contribui com belos textos para os descendentes de italianos. 

(Do blog Italianismo)

Cuidado com áudios e selfies

 

A crise global de confiança é um tema a ser enfrentado 

(...) 

O Paixãogate* não é um fenômeno isolado, mas um efeito colateral altamente nocivo de uma crise de confiança turbinada, em grande parte, pelas redes sociais e aplicativos de propagação de mensagens, que perenizam desabafos e bravatas. Em uma mesa de bar, passariam batidos e seriam esquecidos imediatamente. 

Hoje, até mesmo bater uma foto ao lado de alguém** em uma festa é uma atitude de risco, ainda mais se esse alguém for exposto publicamente. Se daqui a cinco anos ele for acusado de qualquer coisa, a foto poderá ser usada contra você. 

Não se trata, no caso de Paixão*, apenas de futebol, mas sim de algo muito maior e mais importante em uma sociedade, seja no seu aspecto social, político ou econômico. A crise global de confiança é um tema a ser enfrentado. Sem que pessoas acreditem umas nas outras e nas instituições, construir futuro é praticamente impossível. Para isso, a dimensão privada das relações precisa ser valorizada e cuidada. Logo, os dedos em riste deveriam, agora, estar apontados para outro lado. 

Túlio Milman, em Zero Hora. 

*Paulo Paixão, preparador físico do S. C. Internacional, fez inconfidências particulares a um “amigo”, via celular, e esse “muy amigo” colocou a conversa nas redes sociais, fazendo com que Paixão pedisse demissão do Inter. 

** No final de 2017, vi muita gente, no Rio de Janeiro, fazendo selfies ao lado do político Jair Bolsonaro... daqui a alguns anos, não sei no que isso vai dar...

Cuidado que vaza 

Nilson Souza

Brocardos, brocardos... Quando alguém lembra que o peixe morre pela boca dificilmente está falando de pescaria. Também poderia estar dizendo − com o auxílio de outro provérbio popular − que em boca fechada não entra mosca. As duas expressões querem dizer a mesma coisa: nascemos com dois ouvidos e uma só boca, ouça mais e fale menos para não se incomodar. 

Em tempos digitais, cabe acrescentar mais uma advertência: controle os dedos e os cliques, pois tudo que disser, digitar ou retransmitir poderá ser usado contra você. Mais sinteticamente ainda: cuidado que vaza. 

Os juízes de todas as instâncias gostam de repetir uma antiga máxima do direito romano: o que não está nos autos não está no mundo. Ou seja: para que alguém seja condenado, é preciso que as provas do crime estejam no processo. Pois a comunicação instantânea inverteu esta máxima: o que vai para a web vai para o mundo. Quem passa mensagem para um amigo, por mais amigo que seja, deve ter consciência de que está se expondo aos olhos da multidão. 

Não que os amigos sejam traíras, como se diz no futebol, que é onde busquei inspiração para este comentário depois do vazamento do áudio do preparador físico do Internacional. Nunca se esqueça de que o seu melhor amigo também tem um melhor amigo e pode não ser você. Nem sempre há maldade na disseminação de um comentário indiscreto. Às vezes, nesta relação de confiança entre pessoas que se amam e se respeitam, ele cai na caixa de alguém que sequer conhece o primeiro autor. 

Também não se pode descartar a maldade, evidentemente, ainda mais quando existe paixão envolvida − o que é corriqueiro no futebol. No fim das contas, quem sai no prejuízo é o ingênuo que abriu demais a boca ou acreditou que estava falando somente com uma pessoa. Nas chamadas redes sociais, não existe tête-à-tête − que é a expressão francesa consagrada para nominar uma conversa particular entre duas pessoas. 

A rede é o mundo. E o mundo, como na sentença jurídica, passa a ser a verdade. Palavra dita e flecha lançada jamais voltam atrás, diz outro brocardo. Pior ainda quando a palavra vira flecha. 

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(Do jornal Zero Hora, novembro de 2021)

terça-feira, 23 de novembro de 2021

Beleza Pura

 

Compositores: Cláudio Jorge e Luiz Carlos da Vila 

Eu cheguei no fim da missa, não ouvi todo o sermão,
Mas eu parto da premissa que mais vale a oração.
Tenho fé que a procura do melhor pros dias meus,
É estar beleza pura e acreditar em Deus. (bis)
 

Pros desenganos eu sei onde vou rezar.
Os velhos panos eu sei onde costurar.
Pra tudo existe remédio, se não remediado está,
Aqueles momentos de tédio eu jogo no mar.
 

Ainda creio e sei o que é bom pra mim.
Se ainda não veio, o melhor virá por fim.
Se a vida é um desafio, confio na minha canção
E vou levando na fé do meu coração.
 

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P.S. A melhor interpretação dessa música está, na voz de Joyce Cândido, está na internet e no CD “O Bom e o Velho Samba Novo”.

Joyce Cândido da Costa (Assis, SP, em 2 de janeiro de 1983) é uma cantora brasileira. 

Joyce estudou piano no Conservatório de Carlos Gomes, em Marília, São Paulo; estudou balé e teatro na Fundação Artística de Londrina (Funcart), formou-se em música pela Universidade Estadual de Londrina e passou dois anos em Nova Iorque, na Broadway Dance Center, Alvim Ailey e Steps on Broadway. 

“Panapaná” CD gravado em 2006 foi seguido de “O Bom e Velho Samba Novo” em 2010, pela Biscoito Fino, com show de lançamento no teatro Teatro Rival, no Rio de Janeiro, dirigido por Bibi Ferreira.

Para eu ou para mim?

 

Para eu ou para mim? O uso do pronome “eu” ocorre quando o mesmo é o sujeito da oração, já o pronome “mim” é usado como complemento, ou seja, é o objeto da oração. 

Usamos o pronome do caso reto (eu, tu, ele (a), nós, vós, eles (as)) quando nos referimos ao sujeito da oração. Já os pronomes oblíquos tônicos (mim, ti, ele (a), nós, vós, eles (as)) fazem papel de objeto e surgem após uma preposição: para mim, de mim, por mim, e assim por diante. 

Veja um exemplo:

a) Ela trouxe o presente para eu desembrulhar.
b) Ela trouxe o presente para mim.

Observe que na primeira oração temos duas orações: Ela trouxe o presente/para/ eu desembrulhar. “Eu” aqui é sujeito do verbo “desembrulhar”. 

Já na segunda oração, “mim” é complemento e, portanto, objeto indireto (uma vez que vem depois da preposição).

Na dúvida sempre faça uma pergunta ao verbo: se a resposta tiver um sujeito, então é pronome do caso reto, caso contrário, será objeto. Observe:

a) Ela trouxe o presente: quem trouxe? Ela.

b) Para eu desembrulhar: quem desembrulha? Eu.

A lógica é simples: geralmente, quando há dois verbos, também haverá dois sujeitos.

Outros exemplos: 

a) Se for para eu ficar, então ficarei! (ficar > sujeito eu; ficarei > sujeito eu)

b) Ele disse para eu ficar. (disse > sujeito ele; ficar > sujeito eu)

c) Ele não disse nada para mim. (disse > sujeito ele; objeto indireto > para mim)

d) Para mim, ele está fazendo de conta que não sabe de nada. (fazendo > sujeito ele; sabe > sujeito ele; para mim > objeto indireto) 

Atenção: Verifique se há preposição + pronome + verbo porque, nesse caso, o pronome em questão será do caso reto. Se houver preposição + pronome, sem o verbo, então, já sabe, caso oblíquo! 

Entre eu e você ou entre mim e você? 

A forma correta é entre mim e você. → Entre eu e você está errado. 

Após a preposição entre não pode ser utilizado o pronome pessoal reto eu, porque os pronomes pessoais retos assumem a função de sujeito. O uso de você está correto porque é um pronome pessoal de tratamento, bem como o senhor e a senhora. 

É comum surgirem equívocos no uso dos pronomes pessoais, principalmente os do caso oblíquo. Contudo, uma dica importante fará com que não haja mais dúvidas a respeito desse assunto: 

De acordo com a norma culta, após as preposições emprega-se a forma oblíqua dos pronomes pessoais. 

Veja: 

1. Isso fica entre eu e ela. (Errado)

1. Isso fica entre mim e ela. (Certo) ou
2. Isso fica entre mim e ti.
 

Formas corretas: 

entre mim e você;

entre mim e vocês;

entre mim e a senhora;

entre mim e o senhor;

entre mim e ti;

entre mim e ele;

entre mim e elas. 

Formas erradas:

entre eu e você;

entre eu e vocês;

entre eu e a senhora;

entre eu e o senhor;

entre eu e tu;

entre eu e ele;

entre eu e elas. 

Exemplos com entre mim e você: 

Nunca mais haverá confiança entre mim e você.

Nosso filho pode se sentar entre mim e você.

Esta decisão deverá ser tomada entre mim e você.

O cortador de pedras

 

Quando nada parece ajudar,

eu vou e olho o cortador de pedras,

martelando sua rocha talvez cem vezes,

sem que nem uma só rachadura apareça. 

No entanto,

na centésima primeira martelada,

a pedra se abre em duas

e eu sei que não foi aquela a que conseguiu,

mas todas as que vieram antes... 

(Jacob Riis, 1849-1914)

Jacob August Riis (3 de maio de 1849, Dinamarca − 26 de maio de 1914, USA) ficou marcado na história como um dos fundadores do fotojornalismo e de toda uma escola de profissionais empenhados em usar a fotografia para intervir sobre a realidade social. Além disso, também foi pioneiro no uso do flash na fotografia.

segunda-feira, 22 de novembro de 2021

O camelô do amor

 Vinicius de Moraes

Parai tudo o que estais fazendo, homens de gravata e sem gravata, funcionários burocráticos e deambulantes, mercadores e fregueses, professores e alunos, íncubos e súcubos  e escutai o que eu vos tenho a dizer. 

Chegai-vos a mim e vinde ver toda a beleza que estou vendendo a preço de banana! Homens da Cifra e da Sigla, de Toga e de Borla-e-Capelo, de Fardão e de Sobrepeliz: esquecei por um momento vossas conjunturas e aproximai-vos de olhar sincero e coração na mão. 

É favor suspender por alguns minutos a partida. Senhor Juiz Armando Marques! Conserva-te assim, o pé no ar, meu bom Pelé, qual fantástico dançarino. Feras da Seleção: atenção! Alerta, aviadores do Brasil! Capitães de mar: estamos no ar! 

A postos, emissoras em cadeia! Câmaras de cinema e televisão: ação! Estações de rádio e radioamadores: ligai os receptores! Atenção, Intelsat quatro... três... dois... um... 

Aqui fala o poeta, o jogral, o menestrel, o grande Camelô do Amor! 

O Amor tonifica o cabelo das mulheres, torna-os vivos e dá-lhes um brilho natural. Mise en plis? Só de Amor! nada melhor que divinos cafuriés para as moléstias do couro cabeludo! 

Olhos opacos? Amores fracos! Olhos sem brilho? Amor-colírio! Olhos sem cor? Amor! O Amor branqueia a córnea, acende a íris, dilata as pupilas cansadas. E ainda dá as mais belas olheiras naturais. Dois beijos, dois minutos: dois olhos claros de veludo! 

O Amor limpa de rugas a fronte das mulheres, elimina os pés-de-galinha e acrescenta lindas covinhas ao sorriso. Tende sempre em mente: o Amor coroa as mulheres de pesados diademas invisíveis. Amai, coroas! A mulher que ama reinventa o Paraíso. A mulher que é amada move-se majestosamente! 

O Amor pitanguiza o nariz das mulheres, torna-os frementes, com delicados tiques, particularmente nas asas. Narizes gordurosos, com propensão a cravos e espinhas? Muitas, muitas festinhas contra o nariz amado! 

O Amor horizontal é melhor e não faz mal. Bocas rosadas, frescas, palpitantes? Beijos de amor constantes! As bocas mais beijadas são mais bem lubrificadas. Só isso dá à sua boca o máximo! 

Qual Nardem, qual Rubinstuff ! − morte às pomadas! Pomadas, cremes, só de Amor, amadas! Pele jovem e macia? Amai, se possível, todo dia: e ante o esplendor de vossa pele há de ruborizar-se a madrugada. 

Juventude noite e dia? − Carne sem banha! Ela tem mais freguesia? − Sempre se banha! Aliás, uma coroa - Que coisa boa! Bem que ela tem seu lugar. E... sabor de loucura! 

O Amor estimula extraordinariamente a higiene bucal, pois como todos sabem, a água-e-sal é o composto químico da saliva, que consequentemente se ativa, impedindo a halitose e tornando a carícia palatal! 

Se é de Amor, é bom! Não sabe aquela que não põe desodorante? Perdeu o marido e hoje não pega nem amante... Sim, cuide o substrato de suas asas, anjo meu, mas nada de exagero... Uma axila sem cheiro pode levar um homem ao desespero. E não bobeie, não dê bola, não se iluda: um homem ama uma axila cabeluda! Siga o exemplo da mulher italiana: não usa lâmina e é mulher superbacana. Ponha um tigre debaixo do braço! 

E basta de pastas, ó tu que levas o leite contigo − bom até a última gota! Se amares, o sangue circulará melhor em tuas glândulas mamares, e consequentemente terás seios sinceros, autodidatas, substantivos! Algo mais que o Amor lhe dá... 

Casamento serve bem ao grande e ao pequeno. Serve bem à beça! Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que viaja ao lado seu. Pois, no entretanto, eu lhe digo: quase ela fica a perigo... Salvou-a um justo himeneu. Alivia, acalma e reanima! Todo homem que chega em casa deve levar beijos mil: da mãe e da menininha. E como é bom ter seu amor junto ao corpo... É a pausa que refresca... Quem a casar se mete, repete! 

Um mínimo de cirurgias plásticas, dietas patetas e essas ginásticas fantásticas... Vivei e amai ao Sol! Para aquele que ama, vossos senões são poesia. Nada mais lindo que as feiurinhas da mulher amada! 

Por isso, eu grito aqui: regulador? − besteira! A saúde da mulher está em ser boa companheira. Não há pílula para a percanta que se preza. Seja mulher! conserve o seu sorriso! valha o quanto pesa! Use o auge da bossa e namore o quanto possa: na praça, na praia, no prado - no banco que está ao seu lado! 

Eu sempre digo, e faço figa do que diga seu melhor, muito melhor que óleo de fígado. Porque, além de excitar o metabolismo basal, para o vago-simpático é o tônico ideal! 

Eis seu mal: não amar. Daí, decerto, a causa dessas suas tonteiras, dessas náuseas... Ame king-size! E se lembre sempre o espetáculo começa quando a senhora chega! Quem não é o maior tem que ser o melhor! Por isso, espere um pouco, por favor... E repita comigo, assim... A-m-o-r! 

Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 31/12/1969

domingo, 21 de novembro de 2021

4 sintomas incomuns de câncer de mama que podem gerar alertas

 

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), aproximadamente 2,3 milhões de mulheres foram diagnosticadas com câncer de mama no mundo em 2020. Esse é o tipo de câncer mais incidente entre mulheres, e o autoexame das mamas é essencial para o diagnóstico precoce da doença. 

Segundo Karan Raj, médico que acumula mais de quatro milhões de seguidores no TikTok, apesar de caroços e protuberâncias serem os sintomas mais comuns de câncer de mama, existem outros sinais menos comuns que podem ser a chave para o diagnóstico da doença e requerem atenção. 

É importante atentar a qualquer detalhe fora do normal, pois o diagnóstico precoce é de extrema importância para aumentar as chances de sobrevivência de uma paciente. Confira quatro sintomas incomuns de câncer de mama com informações da “Women’s Health”: 

Pele franzida ou com ondulações 

“Isso geralmente ocorre devido a um nódulo mais profundo na mama que puxa a pele para dentro”, explica Karan Raj. 

Alergia ou irritação nos seios ou mamilo 

Ele explica que este sintoma é mais comum no câncer de mama inflamatório, que é um tipo de câncer que não causa caroços. 

Aparência de casca de laranja 

O médico esclarece que isso pode acontecer quando as células cancerosas bloqueiam os vasos linfáticos da pele. 

Secreção mamilar e outras mudanças repentinas 

“Se você notar alguma mudança repentina no mamilo, como secreção ou inversão, você deve realizar um exame”, alerta Karan. 

Junto a estes sintomas incomuns é importante também verificar se há nódulos ou áreas em que a pele esteja espessa. Perceba também se existe uma mudança no tamanho ou formato de seus seios ou caroços ou inchaços nas axilas. 

O autoexame é a melhor forma de conhecer as próprias mamas, pois elas podem ter uma aparência diferente em diferentes momentos da vida. Karan Raj ainda enfatiza que, no caso de incertezas, o melhor a se fazer é consultar um médico o mais rápido possível. 

(Na coluna Saúde da Mulher na revista IstoÉ, novembro de 2021)


Sou do Beco da Vila

 (Rap)*

Sou do Beco da Vila

E daí?

Sou gente,

Gente que sente

A discriminação e o preconceito

Pela cor, raça ou pobreza.

Sou pobre sim,

Negro ou branco,

Sou sofrido,

Mas curto a vida,

Que beleza!

Meu pai é ervateiro

Colhe a erva-mate

Para o teu chimarrão.

Minha mãe cozinheira, dona de casa

E economista.

Sabe bem multiplicar pouco dinheiro

Pra mesa não faltar o pão.

Sou do Beco da Vila,

Da Vila Esperança,

E daí?

Meu sangue é vermelho (como o seu),

Tenho amor no coração (como você)

E sonho com o dia

Em que todos como irmãos

Possam a se abraçar e pegar juntos

Pra esse mundo melhorar,

Onde pobre ou rico,

Negro ou branco,

Livres de preconceitos,

Todo o cidadão tenha direitos. 

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Professora Neuza Marina Rodrigues 

* Esse rap (acima) faz parte de uma peça de teatro que a professora Neuza Marina Rodrigues escreveu para uma turma de alunos da quarta série. Muitos viviam em situação vulnerável, com idade entre 10 e 14 anos.

Como alcançar um milagre particular

 David Coimbra*

Uma das passagens do Novo Testamento de que mais gosto é quando Jesus caminha sobre as águas do Mar da Galileia. Os discípulos o esperavam num barco, era noite e eles não conseguiam enxergar direito. Vendo a cena daquele homem que vinha em sua direção andando por cima das ondas sem afundar, começaram a gritar de medo, achando que se tratava de um fantasma. Jesus acalmou-os: 

– Sou eu. Não tenham medo. 

Então, Pedro respondeu: 

– Senhor, se és tu, manda-me ir ao teu encontro caminhando sobre a água. 

E Jesus: 

– Vem! 

Pedro desceu do barco e saiu andando, mas o vento forte o assustou e ele começou a afundar. Gritou: 

– Socorro, Senhor! 

Jesus estendeu a mão e o puxou para cima, criticando-o: 

– Homem de pouca fé. 

O que é mais interessante nessa história é a participação de Pedro. Em primeiro lugar, duvido que ele quisesse confirmar que aquele que vinha de lá era Jesus, e não um fantasma. Ele sabia que era Jesus. O que ele queria era andar sobre as águas. Compreensível – andar sobre as águas deve ser uma delícia. 

Assim, Pedro desceu do barco e começou, todo feliz, a caminhar no mar. 

Experimentou uma sensação única, poderosa e, ao mesmo tempo, apavorante. Ele estava andando sobre as águas! Não era possível, mas estava! 

Neste momento de júbilo é que Pedro deve ter pensando: “Cara, mas se eu afundo aqui, no meio do mar, no escuro, eu morro na hora!” 

Isso fez com que hesitasse e, ao hesitar, a mágica se desfez. O milagre dependia da fé. Foi a crença de Pedro de que realmente poderia caminhar sobre as águas que moveu forças dentro dele suficientes para fazê-lo alcançar a façanha. 

Jesus passa grande parte do Evangelho ensinando a respeito do poder da fé. Se você acredita de verdade, reunirá confiança e segurança que o tornarão capaz de vencer. Mas tem de acreditar. Não pode vacilar por um segundo, como vacilou Pedro. 

Praticamente todas as religiões se baseiam nisso, uma mais do que todas as outras, a japonesa Seicho-no-ie. Segundo essa religião, você deve agradecer a Deus pela graça alcançada antes mesmo de ela ter sido alcançada. Minha avó, no fim da vida, se converteu à Seicho-no-ie e passava o dia inteiro murmurando: 

– Obrigado, Senhor. Obrigado, Senhor. Obrigado, obrigado, obrigado, obrigado, obrigado. 

Não sei se ela obteve o que queria, mas sei que aquilo lhe dava confiança e tranquilidade. 

(...) 

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* Parte de uma crônica de David Coimbra, em Zero Hora, novembro de 2021.