segunda-feira, 30 de setembro de 2024

Gaúcho pelo-duro

 

É um termo espanhol, usado para designar a miscigenação do índio com o branco, tanto pelo espanhol como pelo português. 

Ocorreu na faixa pampeana que cobre Argentina, Uruguai e Rio Grande do Sul, os índios minuanos e charruas principalmente as índias, que em alguns casos eram atraídas por artefatos fabricados pelos brancos, as índias adoravam espelhos, pentes, roupas, calçados e como não tinham dinheiro trocavam por sexo. 

Dessa mistura nasceu o mestiço com o cabelo grosso e eriçado, que foi chamado de Pelo-Duro. Termo que foi sendo deteriorado como sinônimo de gaúcho grosso, rude, sem educação. 

Na verdade, o gaúcho trouxe a índole charrua ou minuana, que é de ser solitário, andarilho, andarejo que andava pelos campos, ora com uma viola atravessada o que causou com o tempo o ditado nas estâncias de quem tocava violão era vagabundo. 

Sem se dar conta de tais discriminações, de que o violão ou a viola, era um artefato do branco que o índio adotou, como ser cavaleiro e ir onde o gado está. Pois o cavalo e o gado também foi uma introdução do branco em terras do Brasil. O gado vacum chegou aqui pelos jesuítas lá pelos meados de 1634. 

Com a chegada do aramado, as cercas impediram o gaúcho de andar solto pelos campos, ficando ali e aqui sem eira nem beira, achegado em estâncias, dormindo ao relento, matando ovelha e deixando os restos no campo. 

Pois foi as cercas que fizeram ele se achegar nas estâncias e aceitar ser peão, pois continuava a estar junto de quem gostava, o cavalo e o gado. A noitinha, lá no galpão, pegava seu violão e cantava para a lua. 

Esse é o pelo-duro, uma palavra conjunta, que forma o gaúcho mestiço, pregado na terra com capim, não sabe gostar de outra coisa, se tirado do campo, fica triste nas vilas e olha para o mato e o campo sentindo uma saudade sem tamanho. 

Fonte: Prof. Beraldo Lopes Figueiredo. 

(Do Porteiras do Rio Grande)

Reflexão!

 

Não volte para onde um dia você foi feliz, é uma armadilha da melancolia, tudo terá mudado e nada será igual, nem mesmo você. 

Não tente procurar as mesmas paisagens, nem as mesmas pessoas, elas não estarão lá, o tempo joga sujo, e terá se encarregado de destruir tudo o que um dia o fez feliz. 

Não volte para o lugar onde um dia você foi feliz, mantenha-o sempre na sua memória, como era, mas não volte... 

Não volte ao passado, você já o conhece, a vida continua e há novos caminhos para percorrer, novos lugares para visitar e outras pessoas que nos esperam, e uma delas, com certeza, irá nos amar por toda a nossa vida... 

(Texto de autor desconhecido)

domingo, 29 de setembro de 2024

Pai, começa o começo...

 

Quando eu era criança e pegava uma tangerina para descascar, corria para meu pai e pedia: 

– Pai, começa o começo! 

O que eu queria era que ele fizesse o primeiro rasgo na casca, aquele mais difícil e resistente para as minhas pequenas mãos. Depois, sorridente, ele sempre acabava descascando toda a fruta pra mim. Mas, outras vezes, eu mesmo tirava o restante da casca a partir daquele primeiro rasgo providencial que ele havia feito. 

Meu pai faleceu há muito tempo e não sou mais criança. Mesmo assim, sinto grande desejo de tê-lo ainda ao meu lado para, pelo menos, “começar o começo” de tantas cascas duras que encontro pelo caminho. 

Hoje, minhas “tangerinas” são outras. Preciso “descascar” as dificuldades do trabalho, os obstáculos dos relacionamentos com os amigos, os problemas no núcleo familiar, o esforço diário que é a construção do casamento, os retoques e pinceladas de sabedoria na imensa arte de viabilizar filhos realizados e felizes, ou então, o enfrentamento sempre tão difícil de doenças, perdas, traumas, separações, mortes, dificuldades financeiras e, até mesmo, as dúvidas e conflitos que nos afligem diante de tantas decisões e desafios que enfrentamos. 

Em certas ocasiões, minhas tangerinas transformam-se em enormes abacaxis… 

Lembro-me, então, que a segurança de ser atendido pelo papai quando lhe pedia para “começar o começo” era o que me dava a certeza que conseguiria chegar até ao último pedacinho da casca e saborear a fruta. 

O carinho e a atenção que eu recebia do meu pai me levaram a pedir ajuda a Deus, meu Pai do Céu, que nunca morre e sempre está ao meu lado. Meu pai terreno me ensinou que Deus, o Pai do Céu, é eterno e que Seu amor é a garantia de nossas vitórias. 

Quando a vida parecer muito grossa e difícil, como a casca de uma tangerina para as mãos frágeis de uma criança, lembre-se de pedir a Deus: “Pai, começa o começo!”. Ele não só “começará o começo”, mas resolverá toda a situação para você. 

Não sei que tipo de dificuldade eu e você estamos enfrentando ou encontraremos pela frente. Sei apenas que vou me garantir no Amor Eterno de Deus para pedir, sempre que for preciso: “Meu Pai, começa o começo.” 

(Autor desconhecido)

Oração da Paz

 Clóvis Tavares

Querido Jesus, sei que és o Príncipe da Paz e desejas que todos nós vivamos em paz com todos, com alegria nos corações. 

Por isso, Amado Senhor, eu Te suplico que me ajudes a ser sempre um pequenino mensageiro de Tua Divina Paz. 

Que eu nunca leve tristeza aos outros. 

Que eu nunca perturbe alguém com palavras tristes ou maldosas. 

Que eu não zombe nunca de quem erra ou de quem é fraco. 

Que eu nunca provoque desarmonia no meu lar, nem na minha escola, nem em parte alguma.

Pelo contrário, Bondoso Jesus, que eu seja sempre humilde portador de pequenas alegrias e sinceros estímulos para os que choram e sofrem. 

Que eu possa, na lembrança de Teu Amor por nós, consolar os que não têm alegria na vida. 

Que eu consiga, com Tua proteção, tranquilizar, com uma palavra amiga e mansa, os que se encontram revoltados ou aflitos. 

Que eu carregue sempre comigo, Senhor, uma sementezinha de Tua Doce Paz e possa semeá-la onde existir sofrimentos, tristezas ou desarmonia. 

Tudo para glória de Teu Amor. Assim seja. 

******* 

Da obra “Meu livrinho de orações”  (preces infantis)

sábado, 28 de setembro de 2024

Recados de uma mãe

para uma avó que vai ficar com os netos alguns dias em agosto

 

• Deixei um saco com comida para os miúdos (meninos). Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes. 

• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate. 

• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica. 

• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável. 

• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço. 

• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes. 

• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos (meninos) tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço. 

• O iPad é a única coisa eletrônica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudamos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficamos baralhados, arranjamos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos. 

• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico. 

• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço. 

• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da irmã, não há problema. 

• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de gênero dos nossos filhos. 

• Há um saco com sabonete natural e champô (xampu) à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo. 

• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles. 

• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão. 

• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela. 

• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor, não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz. 

PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo. 

PS.2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico. 


Resposta da avó que ficou com os netos alguns dias nas férias!

• Olha, filha, não sei se percebi bem os recados que me deixaste. Dizias que a Matilde não come arroz, mas houve um dia em que ela quis provar do arroz de frango que fiz para mim e para o teu pai e gostou. E pediu para repetir. Duas vezes. Já não me lembro se vocês são vegetarianos ou não, se os miúdos comem carne às vezes ou só as terças e quintas, mas ela pareceu tão consolada que no dia seguinte fiz mais. E também gostou do sarrabulho. 

• Não lhes dei bolos, como pediste. Mas o teu pai não leu os recados. E ele deu. Todos os dias ao fim da tarde iam dar um passeio com o avô e o cão e passavam por casa da tia Idalina, que lhes dava uns biscoitos. Só soube isto no fim das férias. Mas acho que os biscoitos são muito bons. Depois lhe peço a receita para te dar. Mas ela não usa cá açúcar amarelo. Não há disso na aldeia. 

• Comeram iogurtes e tivemos de comprar mais queijo porque eles acabaram num instante o que tínhamos cá em casa. Já não me lembro se podiam comer queijo ou não ou se era o leite de vaca que não podiam beber. Mas como é difícil arranjar leite de cabra, compramos do outro na mercearia e não nos chateamos com isso. Não te chateies tu também. 

• Não brincaram com o iPad. Enquanto estiveram cá na aldeia nem lhe mexeram. Mas adormeciam a ver televisão. Dizias uma coisa qualquer sobre ecrãs à noite, mas eu não percebi bem. 

• Houve algumas birras. E numa delas o João fartou-se de chorar. Ele disse que ia ligar-te, mas o teu pai disse-lhe para ir mas é jogar à bola e estar calado e a coisa resultou. 

• Não lhes comprei brinquedos de plástico na feira, como tu disseste. E eles ficaram amuados comigo e não quiseram voltar à feira mais nenhum dia, o que foi uma chatice. Que raio de ideia, filha. Isso não correu muito bem. 

• O champô (xampu) que mandaste para eles, aquele das plantas medicinais, cheirava mesmo mal. Tem paciência, mas lavei a cabeça dos teus filhos com o meu xampu. É bem mais barato do que o teu. Andas a gastar uma fortuna numa coisa malcheirosa, filha. 

• As toalhas de algodão armado ao pingarelho que tu mandaste são tão fofinhas e estavam tão bem arrumadas que as deixei estar no sítio. Tive medo de as estragar. Os teus filhos tomaram banho todos os dias e limparam-se às toalhas que havia cá em casa. E não lhes caiu nenhum pedaço de pele. Acho que fiz tudo bem. 

• Querias que lhes desse três abraços por dia. Nuns dias dei mais, noutros não dei nenhum. E houve um em que me apeteceu dar um tabefe à Matilde, porque estava a fazer uma fita, mas depois acalmou. 

• Não houve cá abraços a árvores. Esqueci-me. E houve um dia em que o Pedro caiu da árvore do quintal e fez uns arranhões. Acho que não tinha vontade nenhuma de dar abraços ao tronco. 

• Aquela coisa de o João vestir as saias da Matilde é que me pareceu esquisito. Ele nunca pediu para vestir a roupa da irmã. Eu achei isso bem e fiquei contente. 

• Todas as noites ouviram música, como pediste, mas não foi o CD dos monges tibetanos, que isso irritava o teu pai. Ouviam a música dos autofalantes da festa. Não querias o Despacito, mas ouviram isso umas dez vezes por dia. E o Toy também. E o Tony Carreira e o Emanuel. 

• Só deves ver este papel quando acabares de tirar as coisas dos sacos dos miúdos. Deixei isto no fundo da mochila do Pedro de propósito. Assim, antes de saberes das coisas que não fiz como tu querias, viste os teus filhos e viste como estavam bem alimentados e cuidados. 

PS: não precisas de colar isto na porta do frigorífico. Não quero que gastes fita-cola. Se tiveres alguma dúvida, telefona-me. É isso que as mães fazem: atendem ao telefone às filhas para responder a dúvidas sobre os netos. 

Autor dos textos: Paulo Farinha, jornalista português,

em Notícias Magazine, 02.09.2017 

Paulo Farinha nasceu em Lisboa, em 1975. Jornalista, licenciado em Ciências da Comunicação, com uma pós-graduação em Jornalismo Internacional, é atualmente editor executivo da revista Notícias Magazine, suplemento do Jornal de Notícias e do Diário de Notícias.


sexta-feira, 27 de setembro de 2024

Epidemia de apostas eletrônicas

 Carpinejar

Testemunhamos uma epidemia das bets (apostas eletrônicas) no país. Deixamos acontecer. É a colheita é a inadimplência.          

Sempre tive consciência da potência da tentação. É quase irrefreável nossa compulsão para gabaritar resultados, começando pelo nosso próprio time. Todo mundo anseia ser profeta e dominar o futuro. 

Assim como você ganha, você perde. E o hábito faz você perder muito. Chega um momento em que não assimila mais quanto gastou. 

Não vejo saída. Quando você acerta, sua ambição é atiçada, e aplica o lucro em novas transações. Quando você erra, sua culpa é ativada, e busca recuperar o prejuízo com a reincidência. 

Afora a ansiedade e o pânico que resultam da apuração dos resultados. 

O azar venceu a sorte e atingiu a parcela mais carente da população. Até o Banco Central se mostra receoso com o aumento de 200% nas movimentações financeiras das apostas. 

É óbvio que a oferta de fácil enriquecimento atrairia quem mais precisa. 

Em agosto (2024), os beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em bets via Pix. O montante destinado às empresas de apostas corresponde a 20% do valor total repassado pelo programa no mês. 

Dos 20 milhões de beneficiários, 5 milhões realizaram apostas no mês passado. O valor gasto por pessoa foi R$ 100,00 enquanto se recebe R$ 681,09 com o Bolsa Família, liquidando 14,68% da verba suplementar. Bolsa Família virou Bolsa Bet. 

Se o programa do governo federal tem o propósito de tirar milhões de famílias da fome, as apostas eletrônicas as colocam de volta na linha da pobreza. 

Para ter direito ao Bolsa Família, a principal regra é que a renda de cada pessoa da família seja  de, no máximo, R$ 218 por mês. Ou seja, quem pratica as apostas, em média, compromete metade dos seus ganhos reais. 

O rombo parece ser muito mais grave, já que não estão sendo contabilizadas apostas feitas por cartões de débito ou crédito. A radiografia exata do cenário exigiria um complexo cruzamento de dados. 

O que é evidente é que amargamos uma epidemia, a legalização do cassino no celular, insuflada por uma paixão nacional: o futebol. 

Proibimos o jogo do bicho, máquinas caça-níqueis, mas consideramos normal adivinhar número de escanteios, de gols, de expulsões, numa infinidade de prodigiosas casualidades em uma partida. 

A sociedade vem despertando desse pesadelo ‒ espero que não seja tarde demais! ‒, percebendo o lado perverso da atividade. Já se nota um empenho que une governo e segmentos sociais para regulamentá-la e criar mecanismos que evitem o descontrole, capaz de ameaçar o sustento e a sanidade dos lares com o crescente endividamento. 

Desde já, devemos tomar providências: aclarar os meios de pagamento, garantir transparência tributária, responsabilizar as empresas. Desse modo, estabeleceremos uma assepsia do setor e eliminaremos a possibilidade de lavagem de dinheiro e outras práticas criminosas. 

Agora só quero entender quem sustentará a reabilitação do vício de milhões de pessoas. Não se emerge de uma intoxicação psicológica sem acompanhamento. Não se sai sozinho do fundo do poço, sem uma escada. 

(Do jornal Zero Hora, 27.09.2024)

Normas para uma boa redação

 

01. Ler as instruções da prova, verificando o que se pede (narração de um fato, descrição ou uma dissertação) e o número de linhas pedida (geralmente 25 linhas).

02.  Ler o(s) texto(s) ou a frase pedida com atenção. 

03. Levantar as ideias básicas, distinguindo-as das acessórias, exemplos, etc. 

04. Fazer o levantamento das ideias próprias, considerando que elas devem ser um desenvolvimento das encontradas no texto. (evite repetir frases do texto). 

05. Trabalhar, mentalmente, com as ideias próprias, tentando imaginar, mais ou menos, como será a redação no seu aspecto global. 

06. Distribuir as ideias em termos de introdução, desenvolvimento e conclusão. 

07. Fazer o rascunho da redação, ler mais de uma vez, observando se as ideias que colocou no texto fazem sentido. 

08. Revisar o rascunho, procurando observar a estrutura, a organização dos parágrafos, o encadeamento das ideias, a correção gramatical e a adequação ao tema pedido. 

09. Escrever a redação final, observando a letra legível, as margens, o número de linhas. 

10. O tema sempre deve ser respeitado, sob pena da redação receber uma nota baixa, ou até mesmo um zero. 

Observação final: 

Fique sempre bem informado, leia revistas, jornais diários, assista a notícias nos telejornais diários da TV. Também fique atento ao que está acontecendo no mundo: problemas políticos e climáticos. Seja um cidadão consciente! 

Boa redação!


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

Uma má interpretação

 Céfalo e Prócris

Céfalo e Prócris por Marques de Oliveira, 1879 

Céfalo, um belo jovem que amava verdadeiramente sua esposa Prócris, rejeitava outras mulheres que o procurava, pois era totalmente devotado ao amor que sentia por ela. Prócris havia dado a ele dois presentes ganhos pela deusa Diana para serem usados na caça: um cachorro, que era o mais veloz de todos e uma flecha, que jamais erraria seu alvo. 

Durante suas caças, na floresta, quando o sol estava a pico, Céfalo deitava numa sombra sobre a relva para se refrescar e descansar. Toda vez que ele descansava, dizia: “Vem, brisa suave, vem e refresca o meu peito, vem e mitiga o calor que me faz arder.” 

Certa vez, alguém passou por perto, ouviu o que Céfalo dizia e contou para Prócris, que duvidou e disse que só acreditaria na traição se visse a cena. 

Então, esperou Céfalo sair para a caça e o seguiu. Enquanto Céfalo descansava, Prócris, escondida em um arbusto, ouviu as mesmas palavras que ele sempre dizia e começou a chorar e fez um barulho nos arbustos com seu movimento. 

Céfalo pensou que era um animal selvagem e lançou sua flecha, que acertou Prócris. Quando Céfalo percebeu que havia ferido sua amada com o presente que ela mesma lhe havia dado, fez de tudo para que ela não morresse, porém de nada adiantou. 

Prócris morreu dizendo a Céfalo: “Imploro-te que, se algum dia me amaste, se já alguma vez mereci a bondade de tuas mãos, meu marido, faças este meu último desejo: não te cases com essa odiosa Brisa.” 

Tiago Dantas 

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Ao conhecer, ler e observar os mitos, eles nos trazem algo que ainda hoje nos transmite situações que são vivenciadas pela humanidade através dos tempos. 

O mito de Céfalo e Prócris pode nos levar a refletir muito sobre julgamentos, má interpretações, a própria inveja da felicidade alheia, precipitação sobre algo que não lhe diz respeito, fofocas e todas as demais atitudes que se tomam sem serem bem pensadas e dignas da verdade, todo cuidado é pouco quando se trata de falar da vida do outro, de julgamentos precipitados. 

quarta-feira, 25 de setembro de 2024

A andorinha

 Luiz Vilela

(...) 

Não esperaria mais, que elas podiam voar. Havia seis pousadas agora, juntas. Apontaria numa: às vezes podia errar e acertar na outra perto. Colocou a pedra no couro. Fez a pontaria. O coração começou a bater depressa, contou até dez, apontou, apontou, e deu a estilingada. No primeiro instante viu confundidos as pancadas de seu coração e o voo assustado das andorinhas ‒ e então gritou “acertei!” “acertei!” vendo uma andorinha despencando rente ao poste. Quis logo correr a ela, mas estancou lembrando-se de repente que talvez ela não estivesse morta, pelo jeito de cair ainda parecia viva, teria de se aproximar com cuidado, senão ela poderia fugir. Vira bem onde ela caíra: no monte de capim seco ao redor do poste. Ele acertara e ela estava lá, talvez morta, talvez viva ainda. Pôs outra pedra no estilingue e aproximou-se. Ao curvar-se sobre o capim viu atônito a andorinha voar e deu a estilingada a esmo; viu-a voando rasteiro rente à parede do armazém, e correu a procurar outra pedra que só achou ao fim de alguns minutos; colocou-a no estilingue e correu para a andorinha. 

Podia agora vê-la inteiramente: ela estava encolhida no chão, no ângulo formado pelo armazém e uma pilha de tijolos velhos; era uma andorinha de asas muito pretas e luzidias. Não parecia que ia tornar a voar: uma de suas asas estava estirada sobre o chão, e a cabecinha levemente erguida. Ela estava deitada, estava caída, como se não pudesse firmar-se. Pensou que ela talvez estivesse apenas tonta; talvez a pedra só tivesse atingido de raspão e ela fosse voar a qualquer instante. E se ele errasse a próxima pedrada, ela podia assustar-se e desta vez voar para o céu, para longe ‒ e ele teria perdido tudo, perdido a grande sorte que tivera naquela tarde, acertando pela primeira vez. 

Mas era engraçado: vendo o pássaro ali no chão, à sua frente, pertinho, não tinha vontade de dar a estilingada. Era muito diferente vê-lo em cima do fio, o peito erguido, a cabecinha destacando-se contra o azul do céu. Ali embaixo, caído no chão, encolhido contra a parede escura e suja do armazém, tão fácil de acertar, ele não tinha mais aquela vontade violenta de dar a estilingada. E era engraçado também como ele estava calmo, como seu coração não estava batendo doidamente. 

Caminhou devagar para ela, o estilingue em punho, esperando apenas o primeiro movimento dela para desferir a pedrada. Mas ela não se movia. Talvez não estivesse apenas tonta; talvez estivesse ferida, tão ferida que não podia mover-se. Chegou bem perto: ela encolheu-se um pouco mais contra a parede, mas não fez ameaça de voar; havia qualquer coisa: ela não voaria. Afrouxou o estilingue e ficou olhando. Percebeu o medo no olhinho que piscava, sentiu-se poderoso e cruel diante da insignificância e fragilidade do pássaro. Estava ali sem fuga, sem voo, sem distância, sem erro, o que seria seu primeiro pássaro ‒ por que não dava logo a pedrada mortal? Por que não o matava?  

Agachando-se, estendeu a mão devagar para não assustá-la, e então segurou-a: ela não se debateu: e antes que abrisse os dedos para olhar, sentiu a umidade e compreendeu que era sangue: a pedra havia acertado de cheio. E então teve raiva; teve raiva de si mesmo, do domingo, e do que fizera; teve raiva; teve raiva de sua astúcia, sua espera, sua alegria, e agora sua impotência: sabia que a andorinha ia morrer, sabia que ela ia morrer e que não podia fazer nada.  

Do livro “O Violino e outro Contos”, de Luiz Vilela

terça-feira, 24 de setembro de 2024

Malba Tahan

 

Nome: Júlio César de Mello e Souza (pseudônimo: Malba Tahan); 

Vida: viveu 79 anos (1895 ‒ 1974), a maior parte no Rio de Janeiro; 

Formação: Colégio D. Pedro II, Escola Normal do RJ, Escola Politécnica do RJ (engenheiro civil). 

O personagem Malba Tahan 

No início do século, era bastante difícil de os autores nacionais conseguirem publicar qualquer coisa: os livreiros e os donos de jornais tinham medo de ficar no prejuízo. Assim, procurando-se lançar-se como escritor, Mello e Souza resolveu criar uma figura exótica e estrangeira, o Malba Tahan, e passar como tradutor dos contos e livros desse. 

Ao ler os Contos das Mil e Uma Noites, ainda menino, havia se apaixonado pela cultura árabe. Partindo desse conhecimento, e melhorando-o com outras leituras e inclusive curso de árabe, construiu seu personagem. Sua criação era uma rara figura: nascido em 1885 na Arábia Saudita, já muito moço fora nomeado prefeito de El Medina pelo emir; depois, foi estudar em Istambul e Cairo; aos 27 anos, tendo recebido grande herança do pai, saiu em viagem de aventuras pelo mundo afora: Rússia, Índia e Japão. Em cada aventura, Malba Tahan sempre acabava envolvendo-se com algum engenhoso problema matemático, que resolvia magistralmente. 

O sucesso dessa ideia de Mello e Souza foi imediato e ele acabou escrevendo dezenas de livros para seu Malba Tahan:  A Sombra do arco-íres (seu livro predileto), Lendas do Deserto, Céu de Allah, etc., etc. e o muito famoso O Homem que Calculava (que além de ter sido traduzido para várias línguas, vendeu mais de 2 milhões de exemplares só no Brasil e está na 42a edição). 

Hoje, o valor pedagógico dessa obra é reconhecido até internacionalmente. Não menos meritória de aplausos é a criatividade entretenedora dos livros de Mello e Souza; o grande escritor Jorge Luiz Borges colocava-os entre os mais notáveis livros da Humanidade. 

O Professor Mello e Souza 

Além de produzir essa vasta obra literária (Malba Tahan), Mello e Souza encontrou tempo para escrever vários livros de Matemática e Didática da Matemática. 

sozinho: Geometria Analítica, Trigonometria Hiperbólica, Funções Moduladas, etc. 

com colaboradores: Irene de Albuquerque, Euclides Roxo, J. Paes Leme, etc. 

Podemos destacar os seguintes aspectos de sua obra didática: 

foi um crítico severo da didática usual dos cursos de matemática da primeira metade deste século (conta-se episódios de violentas discussões que travou em congressos e conferências). 

foi um pioneiro: 

no uso didático da História da Matemática; 

na defesa de um ensino baseado na resolução de problemas não-mecânicos; 

na exploração didática das atividades recreativas e no uso de material concreto no ensino da Matemática. 

Não podemos deixar de mencionar que foi um dos primeiros a explorar a possibilidade do ensino por rádio e televisão. Lamentamos, por outro lado, sua insistência em divulgar idéias associadas à Numerologia. 

Escolas onde atuou 

Provavelmente deve seu interesse pelo ensino ao pai e mãe, ambos professores de primeiro grau. Começou a lecionar cedo: aos 18 anos, ensinava nas turmas suplementares no Colégio D. Pedro II. Os cargos mais importantes que teve foram: 

catedrático na escola Nacional de Belas Artes; 

catedrático na Faculdade Nacional de Arquitetura; 

catedrático no Instituto de Educação do RJ (ex-Escola Normal do RJ). 

Museu Malba Tahan 

Está para ser inaugurado na cidade paulista de Queluz, onde Mello e Souza viveu sua infância. Após sua morte, sua família doou para essa cidade todo o acervo de Malba Tahan (biblioteca, documentos, objetos pessoais, etc.). 

Dia da Matemática

Ficamos sabendo, através do Prof. Antônio J. Lopes Bigode, que a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro ‒ comemorando o centenário do nascimento de Mello e Souza em 6 de maio de 1995 ‒ criou o Dia da Matemática, a ser celebrado todos os 6 de maio. 

Teatro baseado em Malba Tahan

Referências: 

depoimento de Mello e Souza ao Museu da Imagem e Som; 

Maria T. Calheiros - Malba Tahan. Jornal Leitura, SP, 1991. 

O Prof. Marcelo Ribeiro tem, na Internet, um site dedicado a Malba Tahan, o qual contém uma bibliografia completa da obra de Mello e Souza, bem como outros detalhes biográficos. 

(Universidade Federal do Rio Grande do Sul)

segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Histórias de avarentos*

 

O avarento e o espelho 

Rico e incorrigível avarento foi, certa vez, consultar um zaddik**. Este o levou até a janela que dava para a rua e, apontando para fora, perguntou: 

‒ O que estás vendo através deste vidro? 

‒ Muita gente ‒ respondeu o ricaço ‒. Vejo crianças que brincam, homens que passam, mendigos que estendem a mão. 

O zaddik conduziu-o até diante de grande espelho e de novo interrogou: 

‒ E agora, o que está vendo nesse vidro? 

‒ Agora, vejo-me só a mim ‒ gracejou o avarento. 

Pontificou, então, o zaddik: 

‒ Repara nisto, meu amigo, na janela, há vidros; e o espelho também é de vidro. Mas o vidro do espelho está coberto de uma tênue camada de prata e, por causa desse revestimento, deixas de ver os outros e só enxergas a ti próprio. 

A tua alma, à semelhança do espelho, traz um revestimento de prata. E esse revestimento jamais permitirá que a tua vista alcance os teus amigos e os teus companheiros. 

******* 

A bolsa perdida 

Um rico avarento perdera a bolsa e anunciou que recompensaria generosamente quem a encontrasse. Aparecendo-lhe um pobre com a bolsa perdida, o avarento contou e recontou o conteúdo e, por fim, exclamou: 

‒ Faltam aqui cem rublos! Vai-te embora, homem! Esperas ainda, depois desta fraude ignóbil, que eu te dê uma gratificação? 

O outro, ferido por tal calúnia, pois não tocara no dinheiro, queixou-se ao zaddik local. O zaddik, que era muito acatado e gozava de alto prestígio, mandou vir à sua presença o sovina e interrogou-o: 

‒ Quanto havia na bolsa que perdeste? 

‒ Quinhentos rublos ‒ respondeu ousadamente o ricaço. 

Voltando-se para o pobre, o zaddik perguntou: 

‒ E quanto há na bolsa que encontraste? 

‒ Quatrocentos rublos ‒ confirmou humildemente o homem. 

‒ É claro, então ‒ decidiu o zaddik, dirigindo-se novamente ao avarento ‒ que esta bolsa não é a que perdeste. Devolvei-a, portanto, a que a achou; ele a guardará, até aparecer o verdadeiro dono. 

(Do livro “Lendas do Povo de Deus”, de Malba Tahan)

* Avarento é um adjetivo que caracteriza uma pessoa que é obcecada por acumular dinheiro e bens materiais, e que não é generosa. É apegada ao dinheiro de forma excessiva. Não faz caridade. É incapaz de partilhar com os outros. 

** Zaddik é um líder espiritual judaico. 

Fazer acontecer

 

Um jovem foi procurar emprego numa grande empresa de comunicações. Passou na entrevista inicial e ia encontrar-se com o diretor para a entrevista final. O diretor viu o seu currículo e achou-o excelente, perguntou: 

‒ Recebeste alguma bolsa de estudo para a escola? 

O jovem respondeu: 

‒ Não senhor. 

‒ Foi o teu pai que pagou os teus estudos? 

‒ Sim, foi.

‒ Onde trabalha o teu pai? 

‒ O meu pai é ferreiro. 

O diretor pediu ao jovem para lhe mostrar as mãos. O jovem mostrou um par de mãos macias e perfeitas. 

‒ Já ajudaste o teu pai no trabalho dele? 

‒ Nunca, meu pai sempre quis que eu estudasse e lesse mais livros. Além disso, ele consegue fazer o trabalho melhor do que eu. 

O diretor disse: 

‒ Tenho um pedido: quando fores para casa hoje, vai lavar as mãos do teu pai e, depois, vem ver-me amanhã de manhã. 

O jovem sentiu que a possibilidade de conseguir o emprego era alta. Quando voltou para casa, perguntou ao pai se lhe permitia lavar as suas mãos. O pai sentiu uma mistura de emoções e mostrou as mãos ao filho, que as lavou, lentamente. 

Foi a primeira vez que notou as mãos enrugadas do seu pai tinham muitas cicatrizes e contusões tão dolorosas, que a sua pele estremeceu quando lhes tocou. Foi a primeira vez que o jovem reconheceu o que significava para este par de mãos, trabalhar todos os dias para poder pagar os seus estudos. 

Os hematomas nas mãos foram o preço que pagou pela educação, pelas atividades escolares e pelo seu futuro. 

Depois de limpar as mãos do pai, o jovem ficou em silêncio e começou a arrumar e limpar a oficina. 

Naquela noite, pai e filho conversaram por muito tempo. 

Na manhã seguinte, o jovem foi ao escritório do diretor. O diretor notou lágrimas nos olhos do jovem, quando lhe perguntou: 

‒ Podes dizer-me o que fez e o que aprendeu ontem, na tua casa? 

O rapaz respondeu: 

‒ Lavei as mãos do meu pai, quando terminei, fiquei na oficina, limpei-a toda. Agora sei o que é apreciar e reconhecer que, sem o meu pai, eu não seria quem sou hoje. Ao ajudar o meu pai hoje, percebi como é difícil fazer algo sozinho. Passei a apreciar a importância e o valor de ajudar a família. 

O diretor disse: 

‒ Isto é o que eu procuro na minha empresa. Quero contratar alguém que possa apreciar a ajuda dos outros, uma pessoa que saiba a dificuldade que os outros têm, para fazer as coisas, e que não coloca o dinheiro como seu único objetivo na vida. Estás contratado. 

Uma criança que foi mimada, protegida e geralmente teve sempre o que quis, desenvolve uma mentalidade de “Eu tenho o direito” e colocar-se-á sempre em primeiro lugar, ignorando os esforços dos pais. 

Se somos este tipo de pai protetor, estamos mesmo a demonstrar amor ou estamos a destruir os nossos filhos? 

Podes dar ao teu filho uma casa grande, boa comida, aulas de informática, e assistir a filmes em ecrã grande. Mas, quando estiveres a lavar o chão ou a pintar uma parede, por favor, deixa-o experimentar isso também. 

Depois de comer, eles que lavem a louça com os irmãos e irmãs. Não é porque não tens dinheiro para contratar alguém para fazer isto, é porque queres amá-los da maneira certa. Não importa quão rico és, apenas queres que entendam. Um dia o teu cabelo vai ser totalmente branco, como o pai deste jovem. O mais importante é que o teu filho aprenda a apreciar o esforço de viver nas dificuldades e aprender a capacidade de trabalhar com os outros para conseguir fazer acontecer. 

(Autor desconhecido)

sábado, 21 de setembro de 2024

Minha casa

A minha casa era simples, pequena, mas tinha o necessário. A televisão em preto e branco e as cadeiras de madeira na sala acolhiam sorrisos e olhares atentos. As refeições eram simples, mas maravilhosas para quem entrava faminta, com os pés empoeirados e exaustos de tanto brincar na rua. As brincadeiras eram simples. Eu brincava descalça e tossia muito à noite, mas acordava vivinha da silva pronta pra correr de novo. 

As roupas eram muito simples e suficientes. Os brinquedos eram também muito simples. As bonecas de pano (chamavam-se bruxinhas) feitas por minha avó. Como eu as amava! A casinha de boneca toda mobiliada de caixas de fósforo, sabão em pó e creme dental. Latinhas de leite em pó, pneus, tudo ganhava valor com imaginação. As frutas não lembro de serem compradas. Tirávamos dos pés do nosso quintal, do quintal dos vizinhos, do sítio dos meus avós, da rua. 

A vida era simples, inexplicavelmente simples. E éramos inexplicavelmente felizes. 

Desconfio que a felicidade mora é nessas singelezas. Que ela não liga para sofisticação, sabe? Ela gosta é da modéstia de viver sem pretensão. É criança que exige pouco e aproveita muito. 

Rachel Carvalho

Uma pequena grande lição

 

Um filho levou o seu pai idoso a um restaurante para jantar. Com a fragilidade que a idade traz, o pai lutava para segurar os talheres, fazendo a comida cair sobre a camisa e as calças. O ambiente encheu-se de olhares julgadores, desconforto pairava no ar, mas o filho permaneceu sereno. Com uma paciência infinita e um carinho silencioso, ele ajudava o pai a cada passo. Após a refeição, levou-o ao banheiro, limpou cuidadosamente seu rosto, ajustou suas roupas e penteou, com ternura, os seus cabelos brancos. Colocou os óculos de volta no lugar, e, juntos, caminharam em direção à saída. 

Quando estavam prestes a partir, um senhor se levantou e, com uma voz firme, mas gentil, perguntou: 

‒ Não achas que deixaste algo para trás? 

O filho, confuso, olhou ao redor e respondeu: 

‒ Não creio que tenha deixado algo... 

O homem sorriu com sabedoria e disse: 

‒ Deixaste aqui uma lição para todos os filhos, e uma esperança para todos os pais. 

O restaurante mergulhou em profundo silêncio. 

Aquele momento carregava um poder mágico indescritível. Não há honra maior do que cuidar daqueles que, um dia, cuidaram de nós. Os nossos pais e anciãos, que se sacrificaram tanto, merecem muito mais do que respeito – merecem nosso amor incondicional e nossa devoção. 

Carrega essa lição em teu coração: Ama profundamente os teus pais, valoriza cada instante, e jamais esteja ocupado demais para retribuir o cuidado que um dia lhe foi oferecido. 

Essa é a verdadeira grandeza da vida! 

(Texto de “Sobre Literatura”)

sexta-feira, 20 de setembro de 2024

O gaúcho e o pago

 Leandro Staudt

O 20 de Setembro é mais do que uma comemoração da Revolução Farroupilha. A guerra de 1835 a 1845, que dividiu o Rio Grande do Sul, ainda causa divergências. Entendo que o feriado de (20 de setembro) é o momento de celebração do gaúcho, dos pontos que nos unem, dos costumes e do orgulho do nosso pago. 

Pelo sotaque, somos facilmente identificados. Nem precisamos de pilcha ou da cuia de chimarrão. O gaúcho e a gaúcha carregaram com orgulho a sua origem. O gentílico pode até virar apelido. 

Nem sempre foi assim. Vocês já devem ter ouvido várias versões para a origem da palavra “gaúcho”. O termo era depreciativo. Em outros tempos, era uma forma de rebaixar o individuo na sociedade. 

No livro Nativismo – um Fenômeno Social Gaúcho (Bastos Produções), o folclorista Luiz Carlos Barbosa Lessa cita que “à margem da sociedade pastoril desenvolveu-se de um lado e outro da fronteira luso-espanhola a casta de índios vagos, favorecida pelo boi que lhes assegurava a subsistência e pelo pingo que lhes dava mobilidade”. 

O gaúcho é individuo que surgiu da mescla dos povos indígenas e estrangeiros. Babosa Lessa escreveu que “pelo viver despreocupado, de gáudio ou gozo, deram-lhe os espanhóis inicialmente o nome de gaudério”. Em outro momento, “colonos da Ilhas Canárias trazidos para Montevidéu passaram a chamá-los pelo nome que, lá, definia os habitantes autóctones: guanches”. 

O folclorista destacou a anotação de um integrante da comissão demarcadora de limites do tratado de 1777. José de Saldanha descreveu em seu diário que gauches era uma “palavra espanhola usada neste país para designar vagabundos ou ladrões do campo que matam os touros chimarrões, tiram-lhes o couro e vão vender ocultamente nas povoações”. 

Com o tempo, os peões e até os patrões das estâncias passaram a ser denominados gaúchos. O termo deixou de ser pejorativo. 

O gaúcho é conhecido pelo apego ao pago. No latim, pagus significa aldeia ou lugar pequeno. Barbosa Lessa escreveu que “o pago não se correlaciona a nenhum agrupamento político regular, tal como os distritos, subdistritos ou quarteirões”. O território é formado por “algumas casas de estâncias e respectivos galpões, bem como os ranchos de posteiros e agregados”, além de “alguma casa de comércio” e “um bolicho, modesta bodega”. Como regra geral, “precisa incluir um cemitério”. O 20 de Setembro é o dia de todos os gaúchos, no pago ou longe. 

(Do Almanaque Gaúcho, do jornal Zero Hora, setembro de 2024)

quarta-feira, 18 de setembro de 2024

A Noite Santa

 Selma Lagerlöf 

(1858 – 1940)

Naquela noite um pobre saiu a implorar auxílio batendo de porta em porta: 

– Socorrei-me, boas almas! Em minha casa acaba de nascer uma criança e eu preciso acender o lume para aquecer minha esposa e o pequenino. Dai-me um pouco de brasa, pelo amor de Deus! 

Mas era alta noite. Toda a gente estava a dormir, e ninguém lhe respondia. De repente, o homem avistou, ao longe, um clarão e, caminhando para lá, encontrou uma fogueira acesa, e em volta dela um rebanho de carneiros brancos dormindo, e um velho pastor a guardá-los, também mergulhado no sono. 

Quando o homem que andava em busca de brasas chegou ao pé dos carneiros, a bulha dos seus passos acordou três canzarrões que dormiam aos pés do pastor. 

As largas bocas dos rafeiros abriram-se para ladrar; mas nenhum som saiu delas. O homem notou que o pelo dos ferozes animais se eriçava e que as suas presas aguçadas luziam ao clarão da fogueira. E todos três se atiraram assanhados contra ele. Um abocanhou-lhe uma perna, outro a destra, e o terceiro segurou-lhe a garganta; mas as mandíbulas dos molossos ficaram inertes, e o homem não foi mordido. 

Quis ele então aproximar-se mais do fogo, para de lá tirar algumas brasas. Mas os carneiros eram tantos e estavam deitados tão juntinhos, que não havia como passar por entre eles. Foi-lhe forçoso pisá-los para avançar; e nenhum deles acordou, nem se mexeu. 

Quando o homem chegou ao pé da fogueira, o pastor, que dormitava em sua enxerga de peles, ergueu-se impetuoso e irado. Era criatura ruim e mal-encarada. Ao ver ali o desconhecido, agarrou, lesto, uma enorme pedra e arremessou-a contra ele. O perigoso seixo partiu direto ao homem; quando, porém, ia atingi-lo, desviou-se e foi espatifar-se no chão. 

Então, o homem, aproximando-se do pastor, falou-lhe assim: 

– Compadece-te de mim, amigo, e deixa-me levar algumas brasas. Em minha casa acaba de nascer uma criança e eu preciso acender o lume, para agasalhar minha esposa e o pequenino. 

O primeiro impulso do pastor foi o de uma recusa cruel; pensou, porém, nos cães que não tinham ladrado nem mordido, nos cordeiros que não tinham fugido, na pedra que não tinha querido ferir o homem. E sentiu um terror vago, indefinível. 

– Leva o que quiseres – respondeu secamente. 

Ora, o lume estava agora quase a apagar-se. Nem ramos a arder, nem achas grandes. Só havia um monte de brasas miúdas, e o homem não tinha pá, nem qualquer coisa em que pudesse levá-las. Ao ver isto, o pastor repetiu: 

– Podes apanhar as brasas que quiseres! 

Mas no íntimo regozijava-se maldoso, certo de que o homem não podia levar um braseiro nas mãos nuas. Mas o outro abaixou-se, afastou as cinzas, tomou de um certo número de carvões incandescentes e pô-los numa aba da esfarrapada túnica. E as brasas não lhe queimaram as mãos, não lhe queimaram a véstia e ficaram a brilhar nelas como rútilos rubis. E o desconhecido partiu. 

O pastor, vendo tudo isto, disse de si consigo: 

– Mas, que noite é esta, em que os cães não mordem, e os carneiros não se espantam, e a pedra não fere, e as brasas não queimam? 

Foi ao encalço do homem e interrogou-o: 

– Que noite é esta, em que até as próprias coisas se mostram inclinadas ao amor e à piedade? 

O homem respondeu: 

– É a noite de Natal, meu amigo. Jesus Salvador acaba de nascer…

******* 

O conto “A Noite Santa de Dezembro” é reproduzido do livro “Lendas do Céu e da Terra”, de Malba Tahan, 12ͣ. edição, Editora Conquista, RJ. Título original: “A Noite Santa”. Título inicial em inglês: “The Holy Night”. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Minha mãe

 Paulo Setúbal

Minha mãe não vacilou: resolveu, ali mesmo, que eu partiria para Campos do Jordão. Ó minha brava e corajosa mãe... O filho ainda carecia de alguns meses de clima? Pois haveria de ir. Ir de qualquer jeito. Bem sabia ela, a boa da velha, que o dinheiro se esgotara em nossa casa. Bem sabia que a vida em Campos do Jordão era caríssima. Pouco importa! O filho haveria de ir. Mas ir como? Minha mãe não vacilou: abriu sua antiga cômoda, vasculhou-me os guardados, e, com surpresa para mim, retirou de em meio a velhas bugigangas uma caixinha de veludo azul. Havia na caixinha um anel com bonita pedra. Aquele anel fora um presente com que meu pai a mimoseara. Minha mãe, até ali, guardara-o com ciúme e enamoradamente. Era a última lembrança que lhe restava da passada opulência. Era agora, em seu desbarato, a só riqueza que sobejava à viúva sem ajuda. 

Mas a viúva era intemerata; saiu e vendeu o anel. Com o dinheiro da venda eu parti para Campos do Jordão. Ó, minha brava e corajosa mãe… 

Hoje, corridos tantos anos, ao recordar-me desse pequeno mas tão enternecedor detalhe, sobem-me aos olhos irreprimíveis, lágrimas grossas e comovidas. Lágrimas brotadas com quentura do coração confrangido que me bate em descompasso no peito. E evoco-te neste momento, mãe, evoco-te aqui, com orgulho e com admiração, a ti que foste, tão só e tão desassistida, o sustentáculo e a vida de nove filhos que se agarravam às tuas saias. 

Vejo-te ainda, neste mesmo momento, vejo-te lá, na rua das Flores, na nossa modestíssima casa da rua das Flores (número 23, recordas-te?) em que, portas adentro, a sós com o teu Deus, a sós com o Cristo que te aliviava e soerguia, tu, intrépida e valorosa, venceste aperturas que se não contam. Foi a fé que te valeu naqueles transes, mãe. 

(...)

P.S. No seu discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras, Paulo Setúbal (1893-1937) fez um sentido preito de homenagem à sua extremosa mãe: 

 Deixai, pois, senhores acadêmicos, que o meu coração voe para a casa modesta do bairro sem luxo, entre no quarto do oratório, ajoelhe-se diante da velha branquinha, beije-lhe as mãos e, na brilhante noite engalanada deste triunfo, diga-lhe por entre lágrimas: minha mãe, Deus lhe pague!”.

domingo, 15 de setembro de 2024

O “Teu’ e o “Meu”

 

Vamos encontrar entre os homens que vivem pelo mundo quatro tipos bem definidos. Apontemos, em primeiro lugar, o tipo vulgar. Este diz a cada instante: 

‒ O que é meu é meu; o que é teu é teu. 

Há ainda o excêntrico ‒ que se compraz com as confusões ‒ Dele ouvimos esta afirmação sem cabimento: 

‒ O que é meu é teu; o que é teu é meu. 

Ao lado do excêntrico pode viver o santo. E santo é aquele que não se prende aos bens materiais. O seu lema é de renúncia: 

‒ O que é meu é teu; o que é teu é teu. 

Não esqueçamos, porém, do quarto tipo; é o perverso. Proclama o perverso com o coração a transbordar de egoísmo e avidez: 

‒ O que é meu é meu; o que é teu é meu! 

(Misha) 

Do livro “Lendas do Povo de Deus”, de Malba Tahan