para uma avó que vai ficar com os netos alguns dias
em agosto

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Deixei um saco com comida para os miúdos (meninos). Arroz sem glúten, massa sem glúten,
bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos
Andes.
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Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem
chocolates. Nem leite com chocolate.
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Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de
cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E
cenoura biológica.
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Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada
de forma sustentável.
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Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica.
Ou um abraço.
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O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos
últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais
recentes.
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Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire
o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos
(meninos) tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de
mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim,
dê-lhe um abraço.
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O iPad é a única coisa eletrônica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que
não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudamos de psicólogo e o
outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do
cérebro onde se constroem as emoções. Como ficamos baralhados, arranjamos um
terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
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Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos
velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso,
ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não
queremos brinquedos de plástico.
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Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes
uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
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Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e
brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico
da irmã, não há problema.
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Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos
limitar a identidade de gênero dos nossos filhos.
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Há um saco com sabonete natural e champô (xampu) à base de plantas medicinais
sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
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Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para
a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
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Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito.
O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o
cérebro e para a digestão.
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Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao
tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem
para cima dela.
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Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor, não esqueça isso.
E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim
passa de forma mais eficaz.
PS
1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
PS.2:
Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não
use fita-cola, que isso tem plástico.
Resposta da avó que ficou com os netos alguns dias nas
férias!
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Olha, filha, não sei se percebi bem os recados que me deixaste. Dizias que a
Matilde não come arroz, mas houve um dia em que ela quis provar do arroz de
frango que fiz para mim e para o teu pai e gostou. E pediu para repetir. Duas
vezes. Já não me lembro se vocês são vegetarianos ou não, se os miúdos comem
carne às vezes ou só as terças e quintas, mas ela pareceu tão consolada que no
dia seguinte fiz mais. E também gostou do sarrabulho.
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Não lhes dei bolos, como pediste. Mas o teu pai não leu os recados. E ele deu.
Todos os dias ao fim da tarde iam dar um passeio com o avô e o cão e passavam
por casa da tia Idalina, que lhes dava uns biscoitos. Só soube isto no fim das
férias. Mas acho que os biscoitos são muito bons. Depois lhe peço a receita
para te dar. Mas ela não usa cá açúcar amarelo. Não há disso na aldeia.
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Comeram iogurtes e tivemos de comprar mais queijo porque eles acabaram num
instante o que tínhamos cá em casa. Já não me lembro se podiam comer queijo ou
não ou se era o leite de vaca que não podiam beber. Mas como é difícil arranjar
leite de cabra, compramos do outro na mercearia e não nos chateamos com isso.
Não te chateies tu também.
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Não brincaram com o iPad. Enquanto estiveram cá na aldeia nem lhe mexeram. Mas
adormeciam a ver televisão. Dizias uma coisa qualquer sobre ecrãs à noite, mas
eu não percebi bem.
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Houve algumas birras. E numa delas o João fartou-se de chorar. Ele disse que ia
ligar-te, mas o teu pai disse-lhe para ir mas é jogar à bola e estar calado e a
coisa resultou.
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Não lhes comprei brinquedos de plástico na feira, como tu disseste. E eles
ficaram amuados comigo e não quiseram voltar à feira mais nenhum dia, o que foi
uma chatice. Que raio de ideia, filha. Isso não correu muito bem.
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O champô (xampu) que mandaste para eles, aquele das plantas medicinais,
cheirava mesmo mal. Tem paciência, mas lavei a cabeça dos teus filhos com o meu
xampu. É bem mais barato do que o teu. Andas a gastar uma fortuna numa coisa
malcheirosa, filha.
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As toalhas de algodão armado ao pingarelho que tu mandaste são tão fofinhas e
estavam tão bem arrumadas que as deixei estar no sítio. Tive medo de as
estragar. Os teus filhos tomaram banho todos os dias e limparam-se às toalhas
que havia cá em casa. E não lhes caiu nenhum pedaço de pele. Acho que fiz tudo
bem.
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Querias que lhes desse três abraços por dia. Nuns dias dei mais, noutros não
dei nenhum. E houve um em que me apeteceu dar um tabefe à Matilde, porque
estava a fazer uma fita, mas depois acalmou.
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Não houve cá abraços a árvores. Esqueci-me. E houve um dia em que o Pedro caiu
da árvore do quintal e fez uns arranhões. Acho que não tinha vontade nenhuma de
dar abraços ao tronco.
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Aquela coisa de o João vestir as saias da Matilde é que me pareceu esquisito.
Ele nunca pediu para vestir a roupa da irmã. Eu achei isso bem e fiquei
contente.
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Todas as noites ouviram música, como pediste, mas não foi o CD dos monges
tibetanos, que isso irritava o teu pai. Ouviam a música dos autofalantes da
festa. Não querias o Despacito, mas ouviram isso umas dez vezes por dia. E o
Toy também. E o Tony Carreira e o Emanuel.
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Só deves ver este papel quando acabares de tirar as coisas dos sacos dos
miúdos. Deixei isto no fundo da mochila do Pedro de propósito. Assim, antes de
saberes das coisas que não fiz como tu querias, viste os teus filhos e viste
como estavam bem alimentados e cuidados.
PS:
não precisas de colar isto na porta do frigorífico. Não quero que gastes
fita-cola. Se tiveres alguma dúvida, telefona-me. É isso que as mães fazem: atendem
ao telefone às filhas para responder a dúvidas sobre os netos.
Autor dos textos: Paulo Farinha, jornalista português,
em Notícias Magazine, 02.09.2017
Paulo
Farinha nasceu em Lisboa, em 1975. Jornalista, licenciado em Ciências
da Comunicação, com uma pós-graduação em Jornalismo Internacional, é atualmente
editor executivo da revista Notícias Magazine, suplemento do Jornal de Notícias
e do Diário de Notícias.