segunda-feira, 2 de setembro de 2024

Textos poéticos de Eunice Ramos

Antes, era a bagunça de domingo, fogão aceso, chinelos virados e as paredes falavam. Tudo parecia estar no lugar: cortinas abertas, travesseiros no chão, pão na mesa, sol no papel, descanso na varanda.

É estranho quando a casa vai embora de nós, quando somos paredes frias e não há música tocando. 

Quando deixamos de amar nosso lugar, nossas coisas, as coisas que já são parte de nós. 

Casa é movimento, é o que vem dentro, tem a cor que os nossos olhos traduzem, tem o nosso jeito, as emoções que compartilhamos e um bocado das coisas que carregamos. 

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Por aqui, eu falo de força, esperança, reconstrução, alegria, dias bonitos, mas também falo de minhas fraquezas, minha dor, minhas limitações, minhas impossibilidades. 

E, hoje, eu virei puro oceano. 

Para quem não sabe, estou atravessando um dos momentos mais desafiadores de minha vida, com duas crianças pequenas pra cuidar praticamente sozinha, sem rede de apoio... Às vezes, fica difícil até respirar. Estou vivendo um dia de cada vez. 

Aninha (06 anos) fez esse desenho hoje e veio me mostrar.

Perguntei o que significava, e ela respondeu: 

“É você, mamãe, cansada, pensando em não ter filhos. Aí, você poderia ter tempo para fazer suas coisas, trabalhar...”. Essas palavras me atravessaram. 

Eu nunca disse isso pra ela, mas é assim que ela me vê. É essa leitura que ela fez/faz. Talvez, seja assim que vocês me veem: cansada. 

Fiquei sem chão. 

Como ter mil faces e ser outra pessoa no meio do caos? 

Hoje, eu só sou uma pessoa cansada. Como descansar, sozinha, com duas crianças pra cuidar e mil coisas para dar conta, sozinha? 

Jurei para mim que eu não postaria mais absolutamente nada sobre o que me aconteceu. Cansei de chorar e decidi assumir outro lugar, encontrar uma maneira de recomeçar. 

Mas, hoje, eu preciso de colo. 

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Nem sempre é fácil

Os ventos mudam, o tempo muda, e precisamos, infinitas vezes, recalcular a rota, inventar outros começos, reconstruir nosso ninho. 

Mas a gente aprende (às vezes, chorando, às vezes, sorrindo), a dançar na chuva, ensaiar um novo passo, cantarolar uma canção imaginária quando a vida não é mais festa e a música para de tocar. 

Há dores que nunca terminam, eu sei, mas que a gente consiga ajeitá-las num canto, abrir espaço pra entrada de brisa e sol e ser o que pudermos ser. 

Que a gente consiga achar graça nos dias, apesar dos nossos temporais. E forrar o chão de giz, colher flor, inventar jardins, achar beleza dentro da gente, e ser o que pudermos ser, apesar dos nossos temporais. 

Porque há “coisas” que nos deixam, nos causando um vazio sem fim, e há “coisas” que precisamos deixar pelo caminho, e ser o que pudermos ser, apesar dos nossos temporais... 

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Às vezes, eu não falo, mas eu sinto...
E quando eu não reclamo, não significa que não me incomoda.
Quando eu não choro, não significa que não esteja doendo.

Quando sorrio, não significa que minha vida esteja perfeita e que meus problemas não existem.

Às vezes, eu não falo, mas eu sinto.
Vê: passarinho na gaiola também canta.
A gente precisa olhar as pessoas mais devagar.

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Um dia, a estrada chega ao fim.

A louça fica na pia, a TV fica ligada, o livro fica aberto numa página que não será mais virada. 

A estrada chega ao fim.

Roupa no varal, lençol esticado, casa limpa, toalha sobre a cama, móvel no mesmo lugar. 

A estrada chega ao fim.Chinelos na entrada da porta, mesa posta, café frio na caneca, retrato empoeirado, lista na geladeira. 

A estrada chega ao fim.

Aqueles aos quais eu feri, continuarão a caminhar e, talvez, nem se lembrarão mais de mim. 

A estrada, a minha estrada, chega ao fim.

E virão novas primaveras, novos brotos surgirão e as estações continuarão mudando, sem mim. 

E haverá partidas e chegadas, encontros e despedidas, novos amores, novos amigos e reconstruções. A vida continuará, sem mim. 

E hoje, enquanto posso respirar, a minha prece mais bonita é: se nada levarei daqui, que eu saiba deixar boas memórias no coração das pessoas. 


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