Paulo Setúbal
Minha mãe não vacilou: resolveu, ali mesmo, que eu partiria para Campos do Jordão. Ó minha brava e corajosa mãe... O filho ainda carecia de alguns meses de clima? Pois haveria de ir. Ir de qualquer jeito. Bem sabia ela, a boa da velha, que o dinheiro se esgotara em nossa casa. Bem sabia que a vida em Campos do Jordão era caríssima. Pouco importa! O filho haveria de ir. Mas ir como? Minha mãe não vacilou: abriu sua antiga cômoda, vasculhou-me os guardados, e, com surpresa para mim, retirou de em meio a velhas bugigangas uma caixinha de veludo azul. Havia na caixinha um anel com bonita pedra. Aquele anel fora um presente com que meu pai a mimoseara. Minha mãe, até ali, guardara-o com ciúme e enamoradamente. Era a última lembrança que lhe restava da passada opulência. Era agora, em seu desbarato, a só riqueza que sobejava à viúva sem ajuda.
Mas a viúva era intemerata; saiu e vendeu o anel. Com o dinheiro da venda eu parti para Campos do Jordão. Ó, minha brava e corajosa mãe…
Hoje, corridos tantos anos, ao recordar-me desse pequeno mas tão enternecedor detalhe, sobem-me aos olhos irreprimíveis, lágrimas grossas e comovidas. Lágrimas brotadas com quentura do coração confrangido que me bate em descompasso no peito. E evoco-te neste momento, mãe, evoco-te aqui, com orgulho e com admiração, a ti que foste, tão só e tão desassistida, o sustentáculo e a vida de nove filhos que se agarravam às tuas saias.
Vejo-te ainda, neste mesmo momento, vejo-te lá, na rua das Flores, na nossa modestíssima casa da rua das Flores (número 23, recordas-te?) em que, portas adentro, a sós com o teu Deus, a sós com o Cristo que te aliviava e soerguia, tu, intrépida e valorosa, venceste aperturas que se não contam. Foi a fé que te valeu naqueles transes, mãe.
(...)
P.S. No seu discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras, Paulo Setúbal (1893-1937) fez um sentido preito de homenagem à sua extremosa mãe:
“Deixai, pois, senhores acadêmicos, que o meu coração voe para a casa modesta do bairro sem luxo, entre no quarto do oratório, ajoelhe-se diante da velha branquinha, beije-lhe as mãos e, na brilhante noite engalanada deste triunfo, diga-lhe por entre lágrimas: minha mãe, Deus lhe pague!”.

uma história que a vida conta!
ResponderExcluirE essa história se passou com o acadêmico Paulo Setúbal.
ExcluirPaulo Setúbal, paulista de Tatuí, órfão aos quatro, anos foi advogado e romancista. Suas obras mais conhecidas são Alma Cabocla e Maluquices do Imperador.
ResponderExcluirAmigo Deraldo, obrigado por mais esta informação.
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