Carpinejar
Testemunhamos uma epidemia das bets (apostas eletrônicas) no país. Deixamos acontecer. É a colheita é a inadimplência.
Sempre tive consciência da potência da tentação. É quase irrefreável nossa compulsão para gabaritar resultados, começando pelo nosso próprio time. Todo mundo anseia ser profeta e dominar o futuro.
Assim como você ganha, você perde. E o hábito faz você perder muito. Chega um momento em que não assimila mais quanto gastou.
Não vejo saída. Quando você acerta, sua ambição é atiçada, e aplica o lucro em novas transações. Quando você erra, sua culpa é ativada, e busca recuperar o prejuízo com a reincidência.
Afora a ansiedade e o pânico que resultam da apuração dos resultados.
O azar venceu a sorte e atingiu a parcela mais carente da população. Até o Banco Central se mostra receoso com o aumento de 200% nas movimentações financeiras das apostas.
É óbvio que a oferta de fácil enriquecimento atrairia quem mais precisa.
Em agosto (2024), os beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em bets via Pix. O montante destinado às empresas de apostas corresponde a 20% do valor total repassado pelo programa no mês.
Dos 20 milhões de beneficiários, 5 milhões realizaram apostas no mês passado. O valor gasto por pessoa foi R$ 100,00 enquanto se recebe R$ 681,09 com o Bolsa Família, liquidando 14,68% da verba suplementar. Bolsa Família virou Bolsa Bet.
Se o programa do governo federal tem o propósito de tirar milhões de famílias da fome, as apostas eletrônicas as colocam de volta na linha da pobreza.
Para ter direito ao Bolsa Família, a principal regra é que a renda de cada pessoa da família seja de, no máximo, R$ 218 por mês. Ou seja, quem pratica as apostas, em média, compromete metade dos seus ganhos reais.
O rombo parece ser muito mais grave, já que não estão sendo contabilizadas apostas feitas por cartões de débito ou crédito. A radiografia exata do cenário exigiria um complexo cruzamento de dados.
O que é evidente é que amargamos uma epidemia, a legalização do cassino no celular, insuflada por uma paixão nacional: o futebol.
Proibimos o jogo do bicho, máquinas caça-níqueis, mas consideramos normal adivinhar número de escanteios, de gols, de expulsões, numa infinidade de prodigiosas casualidades em uma partida.
A sociedade vem despertando desse pesadelo ‒ espero que não seja tarde demais! ‒, percebendo o lado perverso da atividade. Já se nota um empenho que une governo e segmentos sociais para regulamentá-la e criar mecanismos que evitem o descontrole, capaz de ameaçar o sustento e a sanidade dos lares com o crescente endividamento.
Desde já, devemos tomar providências: aclarar os meios de pagamento, garantir transparência tributária, responsabilizar as empresas. Desse modo, estabeleceremos uma assepsia do setor e eliminaremos a possibilidade de lavagem de dinheiro e outras práticas criminosas.
Agora só quero entender quem sustentará a reabilitação do vício de milhões de pessoas. Não se emerge de uma intoxicação psicológica sem acompanhamento. Não se sai sozinho do fundo do poço, sem uma escada.
(Do jornal Zero Hora, 27.09.2024)

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