Caricatura de Di Cardoso
Empertigado em seu fraque engomado, Machado de Assis abre a primeira reunião da Academia Brasileira de Letras.
“Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia pela consagração da idade...”
No fundo da plateia, alguém grita:
“Cala a boca, ô crioulo!”.
Machado fica puto nas pantufas.
“Quem foi que falou? Hein? Foi você, Joaquim Nabuco?”
“Ora, meu caro Machado, eu seria incapaz de tal impropério!”, responde o diplomata, historiador e jornalista.
“E você, Ruy Barbosa? Foi você?”
“Como eu poderia cometer tal desfaçatez, árbitro das letras, filósofo do romance, joalheiro do verso e mágico do conto?”
O Bruxo do Cosme Velho bufa, resignado, e retoma o discurso de posse:
“A Academia nasce com a alma nova e naturalmente ambiciosa...”
Mas lá do fundo vem de novo a voz provocadora: “Preto não pode subir no tijolo que já quer fazer discurso!”.
Dessa vez o escritor fica deveras irritado.
“Parou! Parou! Quem foi? Foi o espertinho do Bilac?! Hein, Olavo? Repete isso na minha frente que eu te dou um tapão na orelha que tu vai ouvir estrelas, vagabundo!”
Alguém cantarola lá no fundo:
“Preta, preta, pretinha/ Eu ia lhe chamar/ Enquanto corria a barca...”
“Assim não dá, porra!”, esbraveja Machado.
“É você, Aranha? Tô ligado que tu é cheio de graça, ordinário! Tu tá me tirando, mano?! Não sabe onde mora o perigo, não, ô seu pleiba do caraio? O tambor vai girar procê, tá ligado?!”
Ruy Barbosa, o braço apoiado na cadeira, enquanto a mão sustenta o imenso cabeção, comenta com o Visconde de Taunay:
“Ô crioulo difícil...”
Ao que Taunay, abrindo um largo sorriso desdentado, complementa: “Tchan!”
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Do livro:
“Histórias
jamais contadas da literatura brasileira”,
de Edson Aran
Edson Aran inventa causos divertidos de expoentes da literatura brasileira: Machado de Assis, Olavo Bilac, Oswald de Andrade e Tomaz Gonzaga são personagens do livro 'Histórias jamais contadas da literatura brasileira.
O livro “Histórias jamais contadas da literatura brasileira”, do escritor, jornalista, cartunista e roteirista Edson Aran, pode ser opção para quem está à procura de algo leve para enfrentar o estresse. Mineiro de Cássia, que mora em São Paulo há 30 anos, ele diz que se propôs a desmistificar “os astros das letras pátrias”.
Por meio de anedotas e crônicas, Aran cria histórias com Pero Vaz de Caminha, José de Anchieta, Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Machado de Assis, Ruy Barbosa, José de Alencar, Lima Barreto, Oswaldo Cruz, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade.


















