terça-feira, 30 de junho de 2026

Aconteceu na Academia

 

Caricatura de Di Cardoso

Empertigado em seu fraque engomado, Machado de Assis abre a primeira reunião da Academia Brasileira de Letras. 

“Investindo-me no cargo de presidente, quisestes começar a Academia pela consagração da idade...” 

No fundo da plateia, alguém grita: 

“Cala a boca, ô crioulo!”. 

Machado fica puto nas pantufas. 

“Quem foi que falou? Hein? Foi você, Joaquim Nabuco?” 

“Ora, meu caro Machado, eu seria incapaz de tal impropério!”, responde o diplomata, historiador e jornalista. 

“E você, Ruy Barbosa? Foi você?” 

“Como eu poderia cometer tal desfaçatez, árbitro das letras, filósofo do romance, joalheiro do verso e mágico do conto?” 

O Bruxo do Cosme Velho bufa, resignado, e retoma o discurso de posse:  

“A Academia nasce com a alma nova e naturalmente ambiciosa...” 

Mas lá do fundo vem de novo a voz provocadora: “Preto não pode subir no tijolo que já quer fazer discurso!”. 

Dessa vez o escritor fica deveras irritado. 

“Parou! Parou! Quem foi? Foi o espertinho do Bilac?! Hein, Olavo? Repete isso na minha frente que eu te dou um tapão na orelha que tu vai ouvir estrelas, vagabundo!” 

Alguém cantarola lá no fundo: 

“Preta, preta, pretinha/ Eu ia lhe chamar/ Enquanto corria a barca...” 

“Assim não dá, porra!”, esbraveja Machado. 

“É você, Aranha? Tô ligado que tu é cheio de graça, ordinário! Tu tá me tirando, mano?! Não sabe onde mora o perigo, não, ô seu pleiba do caraio? O tambor vai girar procê, tá ligado?!” 

Ruy Barbosa, o braço apoiado na cadeira, enquanto a mão sustenta o imenso cabeção, comenta com o Visconde de Taunay:  

“Ô crioulo difícil...” 

Ao que Taunay, abrindo um largo sorriso desdentado, complementa: “Tchan!”  

******* 

Do livro:

 “Histórias jamais contadas da literatura brasileira”,

de Edson Aran 

Edson Aran inventa causos divertidos de expoentes da literatura brasileira: Machado de Assis, Olavo Bilac, Oswald de Andrade e Tomaz Gonzaga são personagens do livro 'Histórias jamais contadas da literatura brasileira. 

O livro “Histórias jamais contadas da literatura brasileira”, do escritor, jornalista, cartunista e roteirista Edson Aran, pode ser opção para quem está à procura de algo leve para enfrentar o estresse. Mineiro de Cássia, que mora em São Paulo há 30 anos, ele diz que se propôs a desmistificar  “os astros das letras pátrias”. 

Por meio de anedotas e crônicas, Aran cria histórias com Pero Vaz de Caminha, José de Anchieta, Gregório de Matos, Gonçalves Dias, Castro Alves, Machado de Assis, Ruy Barbosa, José de Alencar, Lima Barreto, Oswaldo Cruz, Monteiro Lobato, Euclides da Cunha, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos e Carlos Drummond de Andrade.

Orora analfabeta

Composição: Gordurinha, Belizário Gomes

 Canta Jorge Veiga 

Mas é que eu arranjei uma dona boa lá em Cascadura,
Grande criatura, mas não sabe ler
Nem tampouco escrever.
Ela é bonitona, bem feita de corpo
E cheia da nota,
Mas escreve gato com “j”
E escreve saudade com “c”.

Ela disse outro dia que estava doente
Sofrendo do “estrombo”,
Levei um tombo, caí durinho pra trás,
Isto assim já é demais.
Ela fala “aribu”, “arioprano” e “motocicreta”.
Diz que adora feijoada “compreta”.
Ela é errada demais!
Vi uma letra “O” bordada na blusa,
Falei é agora:
Perguntei seu nome, ela disse é  “Orora”
E sou filha do “Arineu”.
O azar é todo meu.
 

******* 

A canção, que brinca de forma bem-humorada com o analfabetismo e erros ortográficos, foi eternizada na voz do sambista Jorge Veiga (lançada originalmente em 1959) e também ganhou regravações marcantes, como a do cantor Jards Macalé. 

“Orora Analfabeta”, de Jorge Veiga, utiliza o humor para abordar o contraste entre a beleza e a falta de instrução da personagem principal. A letra faz piada com o analfabetismo, um tema sensível, mas o faz de maneira leve e sem agressividade, refletindo o estilo descontraído do samba malandro de Veiga. Ao citar que Orora “escreve gato com 'j' e escreve saudade com 'c', a música evidencia erros típicos de quem não teve acesso à educação formal, usando esses exemplos para criar situações engraçadas e aproximar o ouvinte do cotidiano brasileiro dos anos 1950.A canção também se destaca pelo uso de palavras distorcidas, como “estrombo” (estômago), “aribu” (urubu), “arioprano” (aeroplano) e “motocicreta” (motocicleta), reforçando o tom popular e cômico. O nome “Orora” e a confusão ao bordar a letra “o” na blusa são detalhes que constroem uma personagem carismática, alvo de brincadeiras por sua simplicidade. No final, o narrador menciona o “azar” de se envolver com ela, mas mantém o tom leve, sem ressentimento, apenas ressaltando o contraste entre expectativa e realidade. Assim, “Orora Analfabeta” é um retrato divertido e crítico de um Brasil popular, onde o samba serve tanto para entreter quanto para comentar, de forma sutil, as desigualdades sociais.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

O Goleiro

Luiz Coronel 

O goleiro é um eremita

sozinho sob as traves.

É um pacato cidadão.

Súbito é pássaro. Ave. 

Sua casa é uma tapera

em patética solidão.

Jogam todos com os pés.

Só ele joga com as mãos. 

Tem um destino de Átila,

o goleiro em seus confins.

Onde ele pisa é chão raso.

Não cresce grama. Capim. 

Por que não dorme na rede

enquanto o jogo acontece?

Não é possível. Há riscos.

A bola de repente aparece. 

Ser goleiro é ser do contra.

Ele observa. Avalia. Mede.

O golo que todos procuram

por sua função, ele impede. 

Ele salta do desamparo

com a fúria de um profeta.

Com que ímpeto o goleiro

chuta o tiro de meta! 

Se a bola vem de escanteio,

querem arrombar a porta.

Há tumulto em seus domínios.

É chuva de pedra na horta. 

Para conter as torcidas,

os guardas forma paredes:

o suplicio de um goleiro,

um frango nos fundo das redes. 

São duas horas da manhã.

 

Você está dormindo. 

O seu quintal está trabalhando. 

O gambá está a três quintais de distância, terminando as lesmas e os caracóis que a chuva desta noite fez sair. A suindara está pousada num galho desde meia-noite, imóvel, e já caçou três vezes sem que nada ao redor a ouvisse. O morcego sobrevoa sua varanda há uma hora, capturando os mosquitos que você não vai ver amanhã. 

As minhocas subiram à superfície às centenas e estão puxando as folhas mortas para dentro da terra ‒ a mesma compostagem que você faz com um garfo, elas fazem com a boca todas as noites. 

O sapo-cururu está imóvel na composteira, a boca aberta, capturando tudo que passa ao alcance. 

Todas as noites, o ano inteiro, essa equipe trabalha sem salário, sem barulho, e sem que você perceba. 

Como apoiá-los sem precisar vê-los: 

Se você tiver muro ou cerca sem passagem, deixe uma abertura rente ao chão ‒ gambás precisam circular entre quintais para encontrar alimento. Um gambá confinado num único espaço esgota os recursos rapidamente. 

Não aplique pesticidas à noite ‒ produtos aplicados no fim do dia ainda estão ativos quando os animais noturnos começam a caçar na grama úmida. 

O morcego sai do mesmo lugar todo entardecer ‒ se você vê um morcego aparecer no crepúsculo debaixo de uma telha ou numa fresta, é o abrigo dele. Não tampe entre março e outubro. 

Deixe a composteira aberta e úmida ‒ é o restaurante preferido do sapo-cururu e do gambá. 

E se um gambá aparecer no seu quintal à noite: apague a luz e deixe-o trabalhar. 

Ele está de serviço. 

Enquanto você dorme, seu quintal emprega um turno da noite.

 *******

Do blog Bondade para Todos os Seres Vivos


domingo, 28 de junho de 2026

Iluminados

 Ivan Lins

O amor tem feito coisas

Que até mesmo Deus duvida.

Já curou desenganados,

Já fechou tanta ferida.

 

O amor junta os pedaços

Quando um coração se quebra.

Mesmo que seja de aço,

Mesmo que seja de pedra.

 

Fica tão cicatrizado

Que ninguém diz que é colado.

Foi assim que fez em mim,

Foi assim que fez em nós

Esse amor iluminado.

sábado, 27 de junho de 2026

Recado a Lula

 Ruy Castro

Lula por Fraga – em ZH

Às vezes, pela maneira levemente brusca com que me refiro a Bolsonaro neste espaço, alguns de seus devotos me acusam de fazer vista grossa para as bandalheiras de Lula, por quem teria sido hipnotizado. Sem que isso tenha a menor importância, informo que almocei várias vezes com ex-presidente (Juscelino), bebi com outro (Jânio) e tenho dois outros como confrades na ABL* (Sarney e FHC). De calças curtas e dedo no nariz, estive também a dois metros da cama, no Catete, onde Getúlio se sentou para dar aquele tiro no peito. Foi poucos meses depois do dito tiro, assim que abriram o quarto ao público, e saí de lá assobiando. Devo ser difícil de hipnotizar. 

Quanto a Lula, a única vez em que o vi de perto foi nos anos de 1980, no antigo balcão do café no aeroporto Santos Dumont. Ele não me conhecia e eu não tinha nada a lhe perguntar, com o que cada qual tomou seu café e em seguida o avião. Mas, se isto servir de conforto para os bolsonaristas, saibam que, a partir de agora, estou de olho em Lula. Ele que não me venha com falsetas. 

Se Lula se atrever a tentar manipular as instituições, corromper o Exército e criar condições para um golpe, denunciá-lo-ei de pronto. Se, no caso de uma pandemia, recusar-se a fornecer ao povo medidas de proteção e deixar morrer 700 mil brasileiros, não o deixarei em paz. E se entregar ministérios essenciais como a Saúde, a Educação e o Meio Ambiente a rematados pilantras, nunca vou parar de atormentá-lo. 

Se eu souber que Lula fez do MEC um quiosque apara a venda de Bíblias, que abarrotou as Forças Armadas com próteses penianas e comprimidos de Viagra e que sua mulher recebe cheque de homens estranhos, aí é que ele não me escapa mais. Quanto a seus filhos, que experimentem condecorar milicianos e matadores e comprar mansões com dinheiro de rachadinhas lavado em lojas de chocolates. 

Lula, portanto, que fique avisado. 

******* 

* ABL → Academia Brasileira de Letras 

O texto “Recado a Lula” refere-se à famosa coluna publicada pelo escritor e jornalista Ruy Castro no jornal Folha de S.Paulo em 9 de novembro de 2023, intitulada originalmente “Estou de olho em Lula”. 

No texto, o autor direciona um recado direto aos bolsonaristas e críticos do atual presidente, afirmando que, a partir daquele momento, estaria de olho no homem. 

Ruy Castro deixa claro que sua postura não seria de apoio cego, mas sim de vigilância constante, avisando que não daria “boa vida” ou carta branca ao mandatário.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Saldo negativo

 Fernando Correia Pina*

Dói muito mais arrancar um cabelo de um europeu

que amputar uma perna, a frio, de um africano. 

Passa mais fome um francês com três refeições por dia

que um sudanês com um rato por semana. 

É muito mais doente um alemão com gripe

que um indiano com lepra. 

Sofre muito mais uma americana com caspa

que uma iraquiana sem leite para os filhos. 

É mais perverso cancelar o cartão de crédito de um belga

que roubar o pão da boca de um tailandês. 

É muito mais grave jogar um papel ao chão na Suíça

que queimar uma floresta inteira no Brasil. 

É muito mais intolerável o xador de uma muçulmana

que o drama de mil desempregados em Espanha. 

É mais obscena a falta de papel higiênico num lar sueco

que a de água potável em dez aldeias do Sudão. 

É mais inconcebível a escassez de gasolina na Holanda

que a de insulina nas Honduras. 

É mais revoltante um português sem celular

que um moçambicano sem livros para estudar. 

É mais triste uma laranjeira seca num kibutz hebreu

que a demolição de um lar na Palestina. 

Traumatiza mais a falta de uma Barbie de uma menina inglesa

que a visão do assassínio dos pais de um menino ugandês. 

E isto não são versos; isto são débitos

numa conta sem provisão do Ocidente. 

******* 

* Fernando Correia Pina, poeta português, nascido em 1954. Formado em História, vive em Portalegre, região do Alto Alentejo, junto à fronteira com a Espanha. Portalegre tem cerca de 16 mil almas. Pina é um barnabé municipal lotado no Arquivo Histórico local.) 

O texto utiliza hipérboles e imagens chocantes para fazer uma dura crítica social, destacando como o mundo globalizado e a mídia ocidental tratam com muito mais comoção e revolta os pequenos problemas do chamado “Primeiro Mundo” do que as graves tragédias humanitárias e desigualdades que atingem os países periféricos e o Sul Global.

A era da overdose de respostas

 Túlio Milman

Outro dia, no meio de um jantar com amigos, alguém perguntou em que ano tinha estreado um determinado filme. Antes que qualquer um terminasse de pensar, já havia três celulares no ar e a resposta em dois segundos. Conversa encerrada antes de começar. Parece trivial. Mas tem algo aí que merece muita atenção. 

Estudos em neurociência mostram que a curiosidade ativa no cérebro zonas semelhantes às ativadas pela dor. É por isso que sentimos aquela coceira mental diante de uma dúvida: é literalmente desconforto. E quando a resposta chega, a sensação de alívio e de prazer é real. E é boa. Esse mecanismo nos fez evoluir por milênios. A curiosidade nos empurrou a explorar, descobrir e criar. O problema é que isso foi desenhado para um mundo em que as respostas eram escassas. 

Hoje, com inteligência artificial disponível a um toque, a resposta virou commodity. Abundante, instantânea, quase sem custo. Estamos vivendo uma espécie de vulgarização da pergunta: por que ficar com a dúvida se em segundos ela some? É cada vez mais comum estar no meio de uma conversa e pensar: espera, vou perguntar para a IA. E aí a conversa para. E a dúvida vira resposta rápida e prazer instantâneo, mas superficial. 

O resultado é uma overdose de curiosidade satisfeita. Não estou dizendo que isso é ruim. É extraordinário ter acesso a esse nível de conhecimento. Mas se o prazer vem da resposta fácil, nossa tendência natural é buscar cada vez mais respostas fáceis e parar de tolerar a dúvida por tempo suficiente para pensar nela de verdade. 

O que perdemos quando deixamos de conviver com a dúvida? A resposta que fermenta, que nos acompanha por dias, que nos faz conversar, especular e errar no caminho costuma gerar algo que a resposta instantânea raramente entrega: elaboração, conexão e insight genuíno. 

Vamos precisar aprender a fazer curadoria da nossa curiosidade. Escolher conscientemente o que merece nossa atenção de verdade. Porque nem toda resposta que chega rápido vale o que custa em atenção. Ou em perda de conexão com a potência gerada pela curiosidade profunda. 

(Coluna do jornal Zero Hora, 25 de junho 2026)

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Senhor, dá-me tempo!

 

Dá-me tempo para ler,

ouvir música

e risos de crianças. 

Dá-me tempo para ver o belo

e escrever o que me vem à mente. 

Dá-me tempo para levar água

à ressequida esperança. 

Dá-me tempo para ver nascer

a semente por mim plantada. 

Dá-me tempo para agradecer

a tanta gente que me ajudou. 

Dá-me tempo para brincar com as tintas

e matar essa fome faminta de vida. 

Dá-me tempo para sonhar de dia

o que de noite jamais se sonhou. 

Dá-me tempo para abraçar a montanha,

correr na praia, beijar o mar,

apanhar flores no campo. 

Dá-me tempo para ver em cada pirilampo

um pedacinho de estrela a brilhar. 

Dá-me tempo para sentir a alegria,

ver a luz e as cores de  tantas coisas lindas da Terra. 

Mas, se nada disso for possível,

obrigado, meu Deus,

muito obrigado pela existência do amor!

Reserve tempo

 

Reserve tempo para trabalhar,

este é o preço do ÊXITO. 

Reserve tempo para pensar,

esta é a fonte do PODER. 

Reserve tempo para divertir-se,

este é o segredo da JUVENTUDE. 

Reserve tempo para ler,

esta é a base da SABEDORIA. 

Reserve tempo para sempre, que for possível, estar junto dos amigos.

este é o caminho da FELICIDADE. 

Reserve tempo para sonhar,

este é o meio de ligar a uma estrela, o carro que viaja na TERRA. 

Reserve tempo para amar e ser amado,

este é o privilégio dos DEUSES. 

Reserve tempo para ser útil aos outros,

esta vida é demasiado curta para que sejamos EGOÍSTAS.            

Reserve tempo para rir,

esta é e música da ALMA. 

Reserve tempo para estudar,

pois este é o único caminho dos VENCEDORES. 

Estudar! 

Estudar! 

Estudar sempre!

domingo, 21 de junho de 2026

Vacinas que protegem de doença respiratórias

 Sofia Lungui

Vírus influenza 

Além de proteger quem recebe a vacina, o imunizante contra influenza, vírus causador da gripe, também contribui para diminuir a circulação do vírus. 

A vacina aplicada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) protege contra três cepas: duas do tipo A (H1N1 e H3N2), e uma do tipo B. A campanha é prioritária para crianças, gestantes e idosos. Em redes privadas, pode-se aplicar o imunizante tetravalente. A dose costuma custar cerca de R$100,00. 

O pico de circulação do vírus ocorre normalmente entre março e maio. Por isso, o ideal é se vacinar antes disso, para garantir proteção durante o inverno. Mas a imunização traz benefícios o ano todo, e a vacina é indicada para todas as idades. 

‒ A influenza exige atualização anual para todo mundo, especialmente idosos e pessoas imunocomprometidas. A resposta da vacina declina ao longo do tempo, reduzindo a resposta imune, por isso é preciso tomar uma dose ao ano. 

Covid-19 

Apesar das mutações do vírus, os imunizantes disponíveis seguem eficazes contra as formas graves da doença. As vacinas nunca acompanham com exatidão a versão mais recente do vírus em circulação, mas mantêm proteção consistente contra hospitalização e morte, geralmente entre seis e 12 meses após a dose. 

No Brasil, a vacinação contra a covid-19 integra o calendário nacional para gestantes, idosos e crianças de seis meses a cinco anos. Grupos prioritários, como imunocompremetidos, trabalhadores de saúde, indígenas, quilombolas e pessoas com doenças crônicas também têm indicação de reforços periódicos. Em Porto Alegre, o imunizante está disponível gratuitamente na Clínica da Família Moab Caldas, na Clínica da Família IAPI, no Centro de Saúde Santa Marta, no Centro de Saúde Modelo e na Unidade de Saúde Tristeza. 

Para o restante da população adulta sem comorbidades, caso a pessoa já tenha tomado três doses, não há mais recomendação de atualização.  

Vacina contra bronquiolite (VSR) 

A vacina contra o Vírus Sincicial Respiratório (VSR) previne infecções provocadas por esse vírus, que é uma das principais causas de bronquiolite em bebês e também pode levar idosos à internação. O imunizante contribui para prevenir pneumonia e o agravamento de doenças cardíacas ou pulmonares. No Brasil, o VSR é responsável por cerca de 75% dos casos de bronquiolite e 40% das ocorrências de pneumonia em crianças menores de dois anos. 

Na rede pública, o principal público alvo são mulheres grávidas, a partir da 28ͣ  semana da gestação. A vacinação protege não apenas as mães, mas também os bebês recém-nascidos. Não há restrição de idade para a mãe, e a orientação é tomar dose única a cada nova gestação. 

Idosos, portadores de doenças crônicas e imunosssuprimidos também podem fazer a vacina contra VSR disponível na rede privada para reduzir o risco de casos graves de doenças respiratórias. O custo médio é de 1,5 mil. 

Pneumocócicas 

A vacina pneumocócicas conjugada 20-valente (VPC20 ou pneumo 20), antes só encontrada na rede privada, agora estará disponível nos postos de saúde no RS. O novo imunizante protege contra 20 sorotipos da bactéria Streptococcus pneumoniae, principal causadora de pneumonia e meningite. As doenças são as que mais causam hospitalizações, sequelas e óbitos em crianças pequenas. 

Além das crianças de até cinco anos. A vacina também será oferecida via SUS aos povos indígenas sem histórico de imunização com vacinas pneumocócicas conjugadas, idosos acamados ou institucionalizados e pessoas com condições clínicas especiais atendidas através da Rede de Imunobiológicos Especiais do governo estadual. 

Idosos e pessoas com comorbidade ou imunossupressão também são mais vulneráveis e podem buscar a rede privada, onde a dose custa cerca de R$ 500.00. Há outros tipos da vacina com valores abaixo de R$ 100,00 nas clínicas, como a VPP23. A Unimed Porto Alegre oferece vacinação gratuita contra pneumonia para beneficiários idosos que façam parte do programa Viver Bem. 

Do caderno Vida do jornal Zero Hora,

20 de junho de 2026  

sábado, 20 de junho de 2026

A cigarra

 

A cigarra não come suas plantas. 

Ela canta porque só tem cinco semanas para viver. 

Deixa ela cantar. 

Passou de dois a cinco anos embaixo da terra se alimentando de raízes, mudou de casca quatro vezes, subiu à superfície, se agarrou ao primeiro tronco que encontrou e rompeu seu exoesqueleto. O que você escuta nesses meses é tudo o que verá dela acima da terra. 

Só os machos cantam e cantam para chamar parceira. Cinco semanas para encontrar fêmea, acasalar e morrer. As fêmeas depositam ovos em ranhuras finas de galhos jovens ‒ a árvore fecha a ferida sem problema. 

Não são praga. 

Enquanto isso, as cigarras alimentam sabiás, bem-te-vis e lagartixas. 

Seus túneis de ninfa oxigenam o solo. 

Se você encontrar uma presa numa janela, numa piscina ou no chão do quintal, segure-a com cuidado pelas laterais das asas e coloque-a num galho na meia-sombra. 

Só isso é o que ela precisa.

Carta aberta dos profissionais da Rádio Nacional

  Demitidos pela ditadura*

Logo após o golpe civil-militar de 1º de abril de 1964, começaram as perseguições em todo território nacional. O macartismo tomou conta até dos meios de comunicação com os dedos-duros apontando colegas como “comunistas” para estarem bem como os novos donos do poder. No rádio, dois nomes surgem em evidência como delatores: os dos apresentadores César de Alencar e Flávio Cavalcanti, apontados um e outro como responsáveis pela demissão, em um primeiro momento, de 149 funcionários da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, muitos deles arrolados posteriormente em Inquérito Policial Militar como participantes de uma suposta célula do PCB na emissora. 

Não era preciso provar, bastava fazer a acusação, que os militares encarregados do inquérito cuidavam do resto. Ainda que o resultado final fosse a absolvição, os radialistas, a essa altura, já tinham perdido seus empregos, sem condições de retorno à profissão, num campo de trabalho restrito e, de certa maneira, controlado pelo Ministério das Comunicações, que podia aplicar sanções às emissoras, suspendendo temporariamente as transmissões e até cassando seu alvará de funcionamento. 

Entre os profissionais da Rádio Nacional estão Oduvaldo Viana (pai), o criador da radionovela brasileira, encontrava-se entre as primeiras vítimas. Foi demitido da Rádio Nacional num “listão” que incluía também Heitor dos Prazeres, Ghiaroni, Mário Lago, Jararaca e Dias Gomes. As novelas de Oduvaldo continuaram sendo retransmitidas pela Rádio Nacional, mas o nome do autor foi omitido, configurando-se em apropriação de direitos autorais. Oduvaldo Viana Filho teve censurada a sua obra-prima, “Rasga Coração”, pelo que a divulgação do texto era feita em serões literários. 

******* 

*A “Carta aberta dos profissionais da Rádio Nacional demitidos pela ditadura” refere-se à mobilização histórica de repúdio e ao manifesto lançado pelos artistas e jornalistas perseguidos logo após o golpe de 1964. Em abril de 1964, a sede da emissora no Rio de Janeiro foi ocupada por militares. A repressão demitiu sumariamente 36 funcionários na primeira “lista de expurgo”, número que logo alcançou 67 nomes de profissionais sob a acusação de subversão e comunismo. 

A carta aberta e os manifestos elaborados pelos demitidos exigiam o fim da perseguição e a retratação do Estado pelas cassações arbitrárias. Anos depois, em 1980, os profissionais ainda vivos que integraram o movimento de resistência foram oficialmente reintegrados aos quadros da emissora. 

Em 23 de julho de 1964, foi expedido um decreto demitindo da Rádio Nacional os seguintes funcionários: Heitor dos Prazeres, Dalísio Machado, Edmo do Vale, Elias Haddad, Gerdal Renner dos Santos, Iracema Ferreira Maia, Jorge Neves Bastos, José Rodrigues Calasans (o Jararaca), José Marques Gomes, Mário Lago, Penha Marion Pereira, Rodnei Gomes, Severino do Brasil Manique Júnior, Antônio Ivan Gonzaga de Faria, Adelaide Andrade Teixeira, Epaminondas Xavier Gracindo (Paulo Gracindo), Fernando Barros da Silva, Francisco de Assis Pires, José Palmeira Guimarães, Jairo Argileu de Carmo e Silva, José Geraldo da Luz, João Anastácio Garreta Prates, Jorge Viana da Silva, Mário Farias Brasini, Newton Marin da Mata, Oduvaldo Viana, Ovídio Chaves, Paulo Grazioli, Sérgio Moura Bicca, Vanda Lacerda, Alfredo de Freitas Dias Gomes, Antônio Teixeira Filho, José Gomes Talarico, João de Sousa Lima, João Fagundes de Meneses e Helmicio José Fróis. As investigações continuaram e o resultado foi o de 67 funcionários afastados e 81 demitidos.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Você sabia?

 (Por Marcelo Duarte – autor do livro “O Guia dos Curiosos)

No passado, o ano era dividido em apenas duas estações: veris (bom tempo, estação da floração) e hiems (mau tempo, estação do frio). O Diccionário Etimológico de la Lengua Castellana, de Juan Corominas, diz que o sistema de quatro estações foi adotado a partir do século XVII. Derivados do latim, o nome das estações significam: 

Primavera Þ de primo vere, quer dizer princípio da boa estação;

Verão Þ de veranus tempus, significa tempo da frutificação;

Outono Þ de tempus autumnus, é o mesmo que tempo de ocaso;

Inverno Þ de tempus hibernus, quer dizer tempo de hibernar. 

A Primavera é responsável também por outra pequena confusão comemorativa. É que no Brasil tem duas datas para homenagear a árvore. No Norte e no Nordeste do país a comemoração é feita na última semana de março. A data, chamada de Festa Anual da Árvore, foi instituída pelo presidente Castelo Branco, por meio de um decreto-lei, em 24 de fevereiro de 1965. A escolha foi baseada nos fatores climáticos da região, pois coincide com o início das chuvas. Nas outras regiões do Brasil, o Dia da Árvore é celebrado em 21 de setembro, que precede o início da primavera. 

O primeiro governo a oficializar o Dia da Árvore foi o de Nebraska, nos Estados Unidos. A comemoração passou a ser feita no dia 22 de abril. Ela coincidia com o aniversário de J. Morton, que incentivou os moradores do Estado a plantar árvores para mudar a paisagem da região. O Brasil foi o primeiro a contrariar o padrão internacional, preferindo homenagear a árvore durante o período de chuvas ou a entrada da nova estação em todo o país. 

Hoje em dia, a primavera é chamada também de “estação das flores”. E, se você estiver pensando em presentear alguém, flores e livros combinam muito bem.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Troca de lado Comigo?

 

Autores: (Koka Pereira/ Gera SP/ Edu Batata) 

Arranjos: Rildo Hora 

Quer falar de vitimismo,

Troca comigo de lado.

Se não lhe causa prejuízo,

Troca comigo de lado.

Sinta na pele o que eu sinto,

Depois venha me falar.

Se mi mi mi não é conflito,

Troca de lado comigo.

Não estrague minha festa,

Sinhô, sinhazinha, ôôô...

Esse tempo já passou, ôôô...

Não faça da minha alegria

Um grão de areia em seu deserto,

Racista, fascista, panaca se enxerga...

Em minha alforria mando eu!

Não desdenha do meu sofrer,

Meu suor inundou o mar,

Nessa sua arrogância e intolerância

Irá se afogar.

Não suporta me ver feliz,

Do que é meu quer se apropriar,

Mas não aguenta um dia o peso

Da pele que vem de além-mar.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O salto para a morte

 

A ponte retratada na charge acima não representa apenas um local físico. Ela simboliza uma sociedade em que acontecimentos humanos são cada vez mais transformados em imagens, conteúdos e espetáculos para consumo coletivo. 

Na cena, uma pessoa ocupa o centro da ação, enquanto celulares ocupam o centro da atenção. Esse contraste revela uma característica marcante do mundo contemporâneo: a tendência de observar a realidade através das telas. Em vez de vivenciar diretamente os acontecimentos, muitas vezes nos tornamos espectadores preocupados em registrar, compartilhar e consumir imagens. 

Essa reflexão dialoga com as ideias do filósofo Guy Debord, autor de A Sociedade do Espetáculo. Para Debord, as relações humanas passam a ser mediadas por representações, fazendo com que a imagem adquira mais importância do que a própria experiência vivida. Nesse contexto, o valor de um acontecimento deixa de estar apenas no que ele significa e passa a estar também em sua capacidade de atrair atenção, engajamento e visibilidade. 

Entretanto, a crítica presente na charge não se dirige à tecnologia em si. Celulares e redes sociais podem informar, educar, mobilizar e conectar pessoas. O problema surge quando a busca por registros e compartilhamentos se sobrepõe à reflexão, à responsabilidade e à percepção da dimensão humana dos acontecimentos. Quando isso ocorre, corre-se o risco de transformar experiências reais em meros produtos de consumo instantâneo. 

Assim, a imagem convida o observador a questionar sua própria relação com a cultura da exposição permanente. Em uma época em que quase tudo pode ser filmado, publicado e viralizado, torna-se cada vez mais importante preservar a capacidade de olhar para além das telas. Afinal, uma sociedade que observa tudo como espetáculo pode acabar perdendo justamente aquilo que torna cada acontecimento significativo: sua humanidade. 

(Do blog: Em cada Ser)

A Ponte do Esqueleto, de onde uma jovem de 21 anos morreu no sábado, 13 de junho de 2026, após ser lançada sem estar presa à corda de segurança durante um salto de rope jump, na zona rural entre Limeira (SP) e Cordeirópolis (SP), acumula uma série de acidentes nos últimos anos. 

Desativada para tráfego de veículos há 30 anos, a estrutura tem cerca de 40 metros de altura e é conhecida por receber atividades de esportes de aventura, como ciclismo e salto em queda livre. 

O rope junp é uma modalidade que usa cordas estáticas sem elasticidade, e após a queda faz um movimento de balanço, como um pêndulo. No bungee jump, modalidade mais conhecida, a corda elástica faz a pessoa cair e quicar para cima e para baixo repetidas vezes.

P.S.: Dos três funcionários que equiparam a lançaram a moça da ponte, nenhum deles notou que ela estava sem a corda de proteção para atenuar a sua queda. Um erro primário e fatal.

Em que prestar atenção? 

Evandro Schütz, gerente técnico da Abeta, elaborou um checklist com pontos essenciais. 

► Confira se a empresa tem CNPJ e atuação formalizada. Segundo o especialista, isso aumenta as chances de que seja uma operação regularizada. 

► Peça certificados, comprovações de cursos dos condutores, alvarás e apólices de seguro. Não deve haver receio em solicitar esses documentos antes da contratação. 

► Observe se os riscos são comunicados antes da atividade. A ausência de orientação pode indicar falhas nos protocolos de segurança. 

► Verifique o estado dos equipamentos. Capacetes sujos, cordas desgastadas e coletes danificados são alertas. 

► Preste atenção às instruções da equipe. As empresas devem explicar claramente como a atividade será realizada, o que está sendo feito, quais as etapas que estão sendo realizadas e onde o participante está sendo fixado. 

► Em atividades verticais, deve haver redundância de segurança, como duas cordas ou dois mosquetões. 

► Confirme sempre o encaixe dos equipamentos antes do início da atividade, como cintos, cordas e mosquetões. 

(Do jornal Zero Hora, 17 junho de 2026)

A corda, fatalidade 

Às vezes, a vida é um salto. 

Você fecha os olhos, entrega o corpo, entrega a alma, entrega amor e acredita que alguém também fez a parte dele. 

Acredita que alguém conferiu a corda. Só acredita porque confiar é mais fácil do que desconfiar. 

E então fecha os olhos e salta. 

Muitas vezes sem conferir se está tudo seguro, confiando a vida nas mãos de outros. 

Só que a vida também tem suas “cordas”. 

Tem gente que entrega o coração sem conferir caráter. Entrega sonhos sem medir intenções. Entrega segredos sem pesar lealdades. Entrega a própria paz na mão de quem mal sabe carregar a própria. 

E depois despenca. 

Porque confiou a vida nas mãos de quem não se importa. 

Porque há pessoas que sorriem enquanto te empurram. Há pessoas que não se preocupam. Há pessoas que te levantam só para te ver cair. 

Confiar cegamente é isso. Se jogar. E permitir que te joguem. 

Porque nem todo mundo cuida. Nem todo mundo ama. Nem todo mundo tem responsabilidade com a vida que toca. 

O problema é que, muitas vezes, a queda não mata o corpo. Mata a inocência. Mata a fé. Mata a paz. Mata a coragem de acreditar de novo. Mata o amor nos outros. Mata o amor-próprio. 

Por isso, antes de se lançar, seja no amor, na amizade, nos negócios, na vida... 

Acorda! 

Olhe para a corda. Veja se ela existe. Veja se está presa. Veja se quem a segura merece segurar. Assegure-se de que existe reciprocidade. 

Porque há quedas das quais, tragicamente, ninguém volta. 

E há outras em que, mesmo voltando, a alma fica para sempre lá no chão. 

Texto da internet sem autoria

Aventuras, likes e horrores 

Oscar Bessi 

A morte de uma jovem de apenas 21 anos durante um salto de rope jump em Limeira chocou o país. Não se trata de apenas mais uma tragédia para as tristes e absurdas estatísticas brasileiras; trata-se de um evento que exige que nos coloquemos no lugar dessa família e façamos uma reflexão profunda. Em poucos segundos, o que deveria ser uma experiência de adrenalina e diversão transformou-se em uma cena de horror. 

O mais perturbador, contudo, vai além do erro fatal de não prenderem as cordas de segurança. O que assombra é a sequência de falhas humanas que permitiu o desfecho. Havia pessoas organizando o salto, pessoas assistindo, pessoas filmando. Mas ninguém percebeu o detalhe mais importante: a ausência do equipamento que separava a aventura da morte. Em uma época em que tudo precisa ser registrado em tempo real para as redes sociais, a atenção ao essencial parece ter ficado em segundo plano. A pressa de aparecer nos torna cegos ao fundamental. A pressa de aparecer para o mundo virtual nos torna tragicamente cegos ao fundamental no mundo real. 

Precisamos discutir, urgentemente, a banalização do risco. A busca por experiências cada vez mais radicais tem atraído jovens e adultos para atividades que prometem emoções intensas, muitas vezes sem a fiscalização adequada ou estruturas compatíveis com o perigo envolvido. No local da tragédia, segundo informações divulgadas, a prática ocorria em uma área onde já havia proibição devido à insegurança da estrutura. Ainda assim, a atividade continuou acontecendo normalmente ‒ até que a fatalidade se impôs da forma mais cruel. 

É a velha lógica brasileira da tolerância ao improviso: enquanto nada acontece, os riscos são solenemente ignorados e o poder público dorme em berço esplêndido. Somente após a morte da jovem surgiram anúncios de medidas rigorosas, restrição de acesso e promessas de demolição. Por que somente agora? A prevenção, que deveria ser a regra, é sistematicamente substituída por uma reação. Sempre tardia, sempre reativa. 

O episódio de Limeira não é isolado. Assistimos rotineiramente a acidentes em parques de diversão com falhas de manutenção, mortes em trilhas sem controle de segurança e fatalidades em atrações turísticas onde a supervisão foi insuficiente. E, por trás de cada um desses cenários, há alguém lucrando. 

A aventura tem seu valor e a busca por emoções faz parte da natureza humana. Mas absolutamente nada vale mais do que a vida. A morte precoce desta jovem é um alerta doloroso de que segurança não é mero detalhe, não é burocracia desnecessária e muito menos um obstáculo para um like. A segurança é, justamente, o que permite que a aventura termine em lembrança, e não em luto. 

Do Correio do Povo, 20 de junho de 2026

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Copa literária

 Rodrigo Celente

Escalamos 15 jogadores, entre eles vencedores do Nobel, que exibem a mesma genialidade com a caneta e a chuteira. 

A maior Copa do Mundo da história ‒ com 48 seleções e três países-sede (EUA, Canadá e México) ‒ também pode ser jogada com as palavras. Enquanto a bola rola nos gramados, a literatura resolveu fazer a sua própria convocação. 

Selecionamos representantes de todos os continentes, campeões mundiais e vencedores de Nobel, misturando potências do futebol e gigantes da escrita. 

O estilo literário de cada autor dita a sua função tática no gramado. Romancistas de fôlego ocupam posições que exigem resistência; contistas e poetas jogam na velocidade e no passe curto. 

É dessa intersecção entre a estética do drible e o peso da palavra que nasce a Copa literária. 

 1 Goleiro: Miguel de Cervantes (Espanha) O goleiro vive no limite entre a realidade do gol e o milagre da defesa impossível. Da Mancha ninguém passa. 

 2 Lateral-direito: Machado de Assis (Brasil) Joga com a cabeça erguida e antecipação irônica. Domina o “olhar oblíquo” para desarmar o ponta adversário na base da psicologia e da elegância. 

 3 Zagueiro direito: Thomas Mann (Alemanha) Uma muralha de solidez germânica. O autor de A Montanha Mágica constrói uma defesa intransponível através do fôlego e da imposição física. 

 4 Zagueiro esquerdo: Marcel Proust (França) O zagueiro do tempo e do espaço. Enquanto o atacante tenta correr, Proust o envolve em uma teia de minúcias e desacelera o jogo. 

 5 Lateral-esquerdo: Nadine Gordimer (África do Sul) Uma lateral de forte apoio social e atenta à realidade do campo. A Nobel sul-africana traz para a ala esquerda a precisão de quem corta linhas adversárias com rigor. 

 6 Primeiro volante: Franz Kafka (República Tcheca) O cão de guarda. Cria um labirinto defensivo no meio-campo. O adversário cai em um processo sufocante de faltas táticas e cercamentos inexplicáveis. 

 7 Segundo volante: Jorge Luis Borges (Argentina) O volante cerebral que enxerga as infinitas bifurcações do campo. Seus passes geométricos transformam o meio-campo em biblioteca de jogadas ensaiadas. 

 8 Armador: William Shakespeare (Inglaterra) O dono do time, mestre em ditar o drama e a comédia da partida. Shakespeare distribui o jogo e rege o elenco porque entende a alma humana. 

 9 Ponta-direita: Fernando Pessoa (Portugal) Confunde os marcadores porque ninguém sabe qual heterônimo está com a bola. Em lance corre com a fúria de Álvaro de Campos; no outro, tabela com a calmaria de Alberto Caeiro. 

10 Centroavante: Ernest Hemingway (Estados Unidos) Estilo direto, sem firulas ou adjetivos. Hemingway vai direto ao gol. Aguenta a pancada dos zagueiros e decide a partida com um único chute seco. 

11 Ponta-esquerda: Gabriel García Márquez (Colômbia) A velocidade do realismo fantástico. Gabo corre pela esquerda flutuando sobre o gramado, com dribles que desafiam as leis da física. 

Banco de reservas 

Juan Rulfo (México): o reserva imediato para o meio-campo. Entra quando o jogo precisa ficar cadenciado, silencioso e denso. 

Yukio Mishima (Japão): atacante focado no sacrifício. Dá agressividade ao ataque. 

Eduardo Galeano (Uruguai): o ponta lírico, mestre das narrativas curtas. Incendeia a partida pelo lado esquerdo com paixão latino-americana. 

Katherine Mansfield (Nova Zelândia): atacante de transição rápida. Precisa de apenas um lampejo para definir o jogo no detalhe psicológico. 

Margaret Laurence (Canadá): zagueira firme. Entra quando o time precisa de resiliência e profundidade na defesa. 

(Do jornal Zero Hora, 15 de junho de 2026)

domingo, 14 de junho de 2026

Adivinhas

 

O que, o que é,
Voa, voa, não tem asa,
Leva a vida a assobiar,
Sopra, sopra, não tem boca,
Tem pé e vive no ar?
 

O vento 

O que é, o que é,
Está no meio do começo,
Está no começo do meio,
Estando em ambos assim,
Está na ponta do fim?
 

A letra “m” 

O que é, o que é,
Quem faz nunca vai querer,
Quem compra não quer usar,
Quem usa não pode ver,
Quem vê não vai desejar?
 

Caixão de defunto 

O que é, o que é,
Vive em cima da mesa,
Costuma matar a fome,
Compra-se para comer,
Ninguém mastiga nem come?
 

O prato 

 O que é, o que é,
Uma árvore bem frondosa,
Doze galhos, simplesmente,
Cada galho, trinta frutas
Com vinte e quatro sementes?
 

O ano, os meses, os dias e as horas 

Qual é o nome de pessoa que do inverso tirando a primeira letra, é um astro luminoso? 

Raul e luar 

Tenho duas sílabas, faço parte da matemática, mas invertido, me encontram nas flores e nas plantas? 

Somar e ramos 

Um nome com duas sílabas que se usa para ensinar ou confirmar algo, mas quando invertido significa um ato litúrgico de muita importância no catolicismo? 

Assim e missa 

Na matemática todos de mim precisam, mas quando me tiram a primeira letra, passo a ser nome de pessoas? 

Somar e Omar 

Um nome próprio de mulher, invertido também é pássaro? 

Eva e ave

Um outro caso de amor improvável

 

Morreram juntos, abraçados, olhando o poente, cada um numa cadeira. Ela olhava para o céu azul da Vila Rica, onde nascera, numa manhã de agosto há mais de 80 anos. Ele, olhando para as bombachas de favos, esverdeada pela erva, quando  a cuia escorregou da mão. Ele parou de respirar e a companheira, de susto, decidiu acompanhá-lo. “Ainda bem”, disseram dias depois na venda do Doralício. “Um não podia ficar sem o outro”, emendou um gurizote de voz rouca. Mas dom Lagarto, que ouvia a charla, fez sinal para que se calassem e disse: 

“Deus sempre sabe o que faz. Sei bem dessa história, por isso vou contar. 

Foi uma linda história de amor, talvez a mais bonita que esta terra tenha visto. Cada um abriu mão de seus talentos natos para ficarem juntos. Dolores era uma menina ainda quando foi violentada por um desconhecido no Potreirinho de Dentro, depois do Rincão das Gamelas. Engravidou e os irmãos a expulsaram de casa, barriguda, sem nada. Ela passou vários dias escondida no mato, envergonhada, mas foi encontrada por Athaíde, na época recém-formado em veterinária, boa cepa, filho de João Constante, um fazendeiro lá da Serrinha, passando a Caneleira. Ele recolheu a menina, que mais parecia um bicho, levou-a para uma tapera no fundo da propriedade da família e lá cuidou dela até a guria ter o bebê. Isso só se foi saber depois. 

Diariamente, Athaíde saía para galopear potros, observar o desenvolvimento de novas cruzas bovinas, recolher espécies nativas de plantas, e pedia que ninguém se aproximasse da tapera velha, pois estava fazendo pesquisas e não queria perturbação para as animais. E assim, levava alimentos e pouco a pouco Dolores foi recuperando o viço. Quando nasceu o guri, Vitório, Athaíde tomou a decisão de contar à família o caso e anunciou seu casamento com Dolores. Foi um Deus nos acuda, não aceitaram e o pai decidiu dar-lhe sua parte na herança. Athaíde não se dobrou, fez de Dolores uma esposa participativa. Ela correspondeu, terminou os estudos e se tornou a melhor dançarina do CTG. Muitos torceram o nariz para aquela moça miúda, mas esbelta, alta e que dançava como uma apaixonada mulher da Andaluzia. 

Passados uns anos, a família de Athaíde voltou atrás, os convidavam para visitas, tentavam uma aproximação, mas eles aceitavam de forma comedida, Athaíde tinha prosperado como produtor rural e pesquisador. Dolores virou célebre por suas coreografias inovadoras de danças folclóricas. Ambos receberam convites para trabalhar longe, mas foram convictos, nunca iam se separar. Uma empresa norte-americana mandou um telegrama para Athaíde quando suas pesquisas ganharam o mundo. Um coreógrafo paulista chegou a ir pessoalmente convidar Dolores para uma companhia famosa de danças. Tiveram mais dois filhos, um casal, que vive no estrangeiro. Só Vitório ficou e segue aqui. 

Nos últimos anos, Vitório administra os negócios. Os velhos eram vistos mateando, fazendo passeios até o fundo da estância, onde Dolores construiu, ao lado da sanga, uma capelinha de pedra. Era o lugar onde viveu quando fora escorraçada. Vejam como é o amor, não tem modelo, é inesperado, improvável. Dois seres tão diferentes se encontraram por acaso, numa situação adversa. De minha parte, acho que mostraram a todos que a vida pode ser braba, mas é preciso coragem para enfrentá-la.” 

Texto de Paulo Mendes, em Campereada,

Correio do Povo, junho de 2026