Composição: Gordurinha, Belizário Gomes
Mas é que eu arranjei uma
dona boa lá em Cascadura,
Grande criatura, mas não sabe ler
Nem tampouco escrever.
Ela é bonitona, bem feita de corpo
E cheia da nota,
Mas escreve gato com “j”
E escreve saudade com “c”.
Ela disse outro dia que
estava doente
Sofrendo do “estrombo”,
Levei um tombo, caí durinho pra trás,
Isto assim já é demais.
Ela fala “aribu”, “arioprano” e “motocicreta”.
Diz que adora feijoada “compreta”.
Ela é errada demais!
Vi uma letra “O” bordada na blusa,
Falei é agora:
Perguntei seu nome, ela disse é “Orora”
E sou filha do “Arineu”.
O azar é todo meu.
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A canção, que brinca de forma bem-humorada com o analfabetismo e erros ortográficos, foi eternizada na voz do sambista Jorge Veiga (lançada originalmente em 1959) e também ganhou regravações marcantes, como a do cantor Jards Macalé.
“Orora Analfabeta”, de Jorge Veiga, utiliza o humor para abordar o contraste entre a beleza e a falta de instrução da personagem principal. A letra faz piada com o analfabetismo, um tema sensível, mas o faz de maneira leve e sem agressividade, refletindo o estilo descontraído do samba malandro de Veiga. Ao citar que Orora “escreve gato com 'j' e escreve saudade com 'c', a música evidencia erros típicos de quem não teve acesso à educação formal, usando esses exemplos para criar situações engraçadas e aproximar o ouvinte do cotidiano brasileiro dos anos 1950.A canção também se destaca pelo uso de palavras distorcidas, como “estrombo” (estômago), “aribu” (urubu), “arioprano” (aeroplano) e “motocicreta” (motocicleta), reforçando o tom popular e cômico. O nome “Orora” e a confusão ao bordar a letra “o” na blusa são detalhes que constroem uma personagem carismática, alvo de brincadeiras por sua simplicidade. No final, o narrador menciona o “azar” de se envolver com ela, mas mantém o tom leve, sem ressentimento, apenas ressaltando o contraste entre expectativa e realidade. Assim, “Orora Analfabeta” é um retrato divertido e crítico de um Brasil popular, onde o samba serve tanto para entreter quanto para comentar, de forma sutil, as desigualdades sociais.

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