quinta-feira, 25 de junho de 2026

A era da overdose de respostas

 Túlio Milman

Outro dia, no meio de um jantar com amigos, alguém perguntou em que ano tinha estreado um determinado filme. Antes que qualquer um terminasse de pensar, já havia três celulares no ar e a resposta em dois segundos. Conversa encerrada antes de começar. Parece trivial. Mas tem algo aí que merece muita atenção. 

Estudos em neurociência mostram que a curiosidade ativa no cérebro zonas semelhantes às ativadas pela dor. É por isso que sentimos aquela coceira mental diante de uma dúvida: é literalmente desconforto. E quando a resposta chega, a sensação de alívio e de prazer é real. E é boa. Esse mecanismo nos fez evoluir por milênios. A curiosidade nos empurrou a explorar, descobrir e criar. O problema é que isso foi desenhado para um mundo em que as respostas eram escassas. 

Hoje, com inteligência artificial disponível a um toque, a resposta virou commodity. Abundante, instantânea, quase sem custo. Estamos vivendo uma espécie de vulgarização da pergunta: por que ficar com a dúvida se em segundos ela some? É cada vez mais comum estar no meio de uma conversa e pensar: espera, vou perguntar para a IA. E aí a conversa para. E a dúvida vira resposta rápida e prazer instantâneo, mas superficial. 

O resultado é uma overdose de curiosidade satisfeita. Não estou dizendo que isso é ruim. É extraordinário ter acesso a esse nível de conhecimento. Mas se o prazer vem da resposta fácil, nossa tendência natural é buscar cada vez mais respostas fáceis e parar de tolerar a dúvida por tempo suficiente para pensar nela de verdade. 

O que perdemos quando deixamos de conviver com a dúvida? A resposta que fermenta, que nos acompanha por dias, que nos faz conversar, especular e errar no caminho costuma gerar algo que a resposta instantânea raramente entrega: elaboração, conexão e insight genuíno. 

Vamos precisar aprender a fazer curadoria da nossa curiosidade. Escolher conscientemente o que merece nossa atenção de verdade. Porque nem toda resposta que chega rápido vale o que custa em atenção. Ou em perda de conexão com a potência gerada pela curiosidade profunda. 

(Coluna do jornal Zero Hora, 25 de junho 2026)

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