domingo, 30 de setembro de 2018

No que virou a política no Brasil


A situação política do país está mais do nunca em debate devido ao período eleitoral. Em outubro, os cidadãos irão às urnas escolher seus representantes através do voto direto. E assim como todos os setores da sociedade, a arte, nas suas diversas vertentes, também se posiciona criticamente devido a situação enfrentada no país.

Por isso nesta sexta-feira (31.9.2018), junto com o início da propaganda eleitoral gratuita, chegou as rádios de todo o país a música “Virou Linguiça”. Com letra de Rodrigo Bauer e música de João Luiz Corrêa, a composição, de uma maneira divertida e cômica, coloca a situação política do Brasil em debate.

“Nosso papel com essa música é mostrar a desvalorização que muitos políticos causam a classe que atitudes que não são nada dignas. Ao mesmo tempo queremos mostrar que é possível mudar e a oportunidade é agora”, fala Bauer.

A composição foi gravada nessa semana e tem interpretação de Mano Lima e João Luiz Corrêa. O projeto também conta com a participação do jornalista Giovani Grizotti.

A música também estará disponível na internet.


Virou Linguiça

João Luiz Corrêa e Rodrigo Bauer

Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
Levou-se a breca a vergonha e se acadelou a justiça.
Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
O velho fio de bigode hoje é uma barba postiça.

Na minha terra: malandragem, golpe baixo,
O famoso cambalacho, há quem chame de linguiça.
O sal esconde alguma coisa no tempero,
Mas eu sinto aquele cheiro inconfundível de carniça.
Um sete um, o caixa dois, a safadeza,
Lembra o nervo e a impureza que vão dentro da linguiça.

Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
Levou-se a breca a vergonha e se acadelou a justiça.
Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
O velho fio de bigode hoje é uma barba postiça.

Quem cobra a doma e entrega um flete aporreado,
Faz igual ao deputado que não vota por preguiça.
Quem vende um laço ramalhado e com defeito,
Não é melhor que o prefeito que desvia e desperdiça.
Quem fura a fila não é nada diferente,
Do político influente que ata a ponta da linguiça.

Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
Levou-se a breca a vergonha e se acadelou a justiça.
Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
O velho fio de bigode hoje é uma barba postiça.

E o bolicheiro que se escora na balança,
Fala em ética, esperança, em princípios e premissas.
Faz propaganda do que vende olhando teso,
E com o dedo rouba peso no granel e na hortaliça.
Esse país que é tão gigante, meu parceiro,
Hoje em dia, cabe inteiro numa volta de linguiça.

Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
Levou-se a breca a vergonha e se acadelou a justiça.
Virou linguiça, meu irmão, virou linguiça,
O velho fio de bigode hoje é uma barba postiça.


O lado folclórico e divertido do futebol



O Botafogo contratou um professor de matemática, para dar aulas aos jogadores. No primeiro dia, o mestre resolve explicar como se calcula percentagem e convoca Manga:
- Manga, você ganha 50 cruzeiros por mês. Se eu aumentar o seu salário para 100 você ficaria com...
- Contente!
O catedrático pediu as contas no mesmo dia.

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O folclórico lateral português João Pinto procurou o médico do Porto muito preocupado:
- Doutor, estou muito mal. Meu corpo inteiro dói!
- Mas como dói? – quis saber o clínico.
- Se eu ponho o dedo na cabeça, dói. Se eu ponho o dedo na barriga, dói. Encosto o dedo na perna, também dói...
- O doutor olhou, olhou e concluiu rapidamente:
- Você quebrou o dedo...

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Fanático por futebol, o boêmio inveterado chega em casa de madrugada, completamente bêbado, e encontra o filho esbaforido, vindo da cozinha:
- Pai, a mãe caiu na área!
- Se caiu na área é pênalti!

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Concentração do Flamengo, o lateral Fábio Baiano folheia a revista “Caras”.
Impressionado com as fotos de uma suntuosa mansão, comenta com Jamir:
- Como esse cara deve ter dinheiro! – diz apontando para o proprietário da casa.
- Você não o conhece? É o Abílio Diniz, dono do Pão de Açúcar! – responde Jamir. E o lateral, embasbacado:
- Nunca pensei que desse pra ganhar tanta grana com aqueles bondinhos...

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Dimba, atualmente ex-jogador; dizem as más línguas que quando jogava no Botafogo, os dirigentes o chamaram para uma conversa séria:
- Queremos trabalhar a sua imagem. Qual é o seu verdadeiro nome? Esse apelido de Dimba não pega bem.
- Meu nome é Editácio...
 Ficou Dimba mesmo.

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Nos duros tempos do Flamengo de Zico, Júnior e cia., até jogadores não tão famosos assim eram atração. No final de uma partida, o folclórico Peu (que era gago!) foi entrevistado por um repórter.
- E o jogo, Peu, o que você achou?
- E-eu, na-não achei na-nada. Mas o A-Adílio, no outro dia, a-achou uma a-aliança e uma co-correntinha de ouro!

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Um carro passa na rua levando Maradona, Canigia e Higuita. Que carro é esse?
Um camburão, claro.

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Vera Fischer e Maradona se encontram em um bar:
- Minha heroína!
- Meu crack!

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(Do livro “Deixa que eu chuto”, de Renato Maurício Prado)




sábado, 29 de setembro de 2018

Do “Livro dos Erros”

De Mário Goulart


A única vez em que Oswaldo Cruz usou gravata – que detestava – foi quando ganhou uma de sua sogra e, para ser gentil, se deixou fotografar com ela.


A rainha Vitória passeava pelo parque de Windsor e notou que a filhinha de seu cocheiro a observava. Aproximou-se dela:
- Sabe que eu sou?
- Sei sim – respondeu a menina. – A senhora é a pessoa que vai todos os dias no carro do papai.
  

A glória faz viver, nota Jimi Hendrix:
- É engraçado como a maioria das pessoas se apaixona pelos mortos. Quem morre, pode-se dizer, está feito para o resto da vida.


Diógenes sabia a idade mais conveniente para se casar:
- Quando se é jovem, é demasiado cedo. Quando se é velho, é demasiado tarde.


Bernard Shaw cumprimentou o amigo:
- Parabéns! Soube que vai se casar.
O amigo:
- Não vou mais. Terminei o noivado.
 Shaw:
- Pois parabéns mais uma vez!


Hilda Hilst falava para físicos e estudantes, numa aula na Unicamp. Na plateia, um físico coçava a virilha e gozava a escritora.
− A senhora acredita realmente na imortalidade da alma? – provocou.
Hilda:
− Eu acredito na imortalidade da minha alma, porque se o senhor continuar apenas rindo e coçando o saco seque constituirá uma alma.
  

Nos 20 (e em qualquer época) jogador de futebol pulava o muro da concentração e ia encher a cara na noite. Por isso, Carlito Rocha (com o Biriba, mascote do Botafogo), no comando da Seleção do Estado do Rio em 1943, depois de cada treino mandava distribuir manga aos atletas. Em seguida, reunia todos e avisava:
− Cuidado, manga com cachaça mata!
  

Eram tempos de censura e um dia o general Meira Mattos encontrou o cronista Rubem Braga:
- Por que o senhor não escreve mais?
Rubem:
- O senhor gostaria de ser corrigido por um sargento? Pois eu também sou um general das letras.
  

Em Londres, a encenação de Aída, de Giuseppe Verdi, estava um fiasco. Para completar, um camelo fez cocô em pleno palco. Sir Thomas Beecham, que dirigia a orquestra, comentou depois:
- O gesto é vulgar, mas que crítico de ópera!
  

O poeta Mário Chamie apresentava-se assim:
- Há mários que vêm para o bem.
E, admrador de Mário de Andrade, acrescentava:
- Dos mários, o menor.


Quem são eles?



Escrito por Bruno Hoffmann

Seja para escapar de perseguição política, se arriscar em estilos considerados menores ou só por brincadeira, ilustres brasileiros trataram de esconder a identidade real na hora de assinar suas obras.

Você sabe quem é Urbano, Boas Noites, Victor Leal e Inimigo dos Marotos? Certamente sabe, só não está ligando o nome à pessoa. É sob esses pseudônimos que personalidades como Di Cavalcanti, Machado de Assis, Olavo Bilac e dom Pedro 1º assinaram algumas de suas obras e escritos. E não foram só eles que se valeram do artifício. No Dicionário Literário Brasileiro, de Raimundo de Menezes, há registro de quase dois mil pseudônimos de escritores brasileiros.

Mas o que leva personalidades a sacrificarem seus nomes no momento de assinar o que fazem? Os motivos são diversos. Alguns viviam em momentos políticos tensos, e essa era a maneira de falarem o que desejavam, preservando a própria pele. Outros, para se aventurar em estilos artísticos considerados menores, ou fora do moral vigente, sem manchar o próprio nome. Havia ainda quem trocasse de nome por pura galhofa. É o caso de Aparício Torelly, que se tornou Barão de Itararé para conceder a si mesmo “uma carta de nobreza”.

Apesar das tentativas de se esconder sob nomes insuspeitos, não teve jeito. O Almanaque despiu a fantasia de grandes brasileiros que, anonimamente, criaram polêmicas, provocaram poderosos, maltrataram adversários e até receberam propostas de casamento. Histórias inusitadas e saborosas não faltam. Afinal, quando a identidade é preservada, a liberdade é total.

Presidiário pediu Nelson Rodrigues em casamento

Histórias amorosas e apimentadas de uma desconhecida Suzana Flag começaram a fazer sucesso nas páginas de O Jornal no fim da década de 1940. O folhetim diário Meu Destino É Pecar tornou-se o principal entretenimento das mulheres casadas, que destacavam o caderno do jornal comprado pelos maridos. Certa vez, um erro da gráfica fez com que o periódico não trouxesse a continuação da história do dia anterior. Duzentas senhoras invadiram a redação para tirar satisfação com o editor, exigindo saber logo como findaria a trama.

Mas não eram só as madames que tinham admiração por Suzana Flag. Era comum a cronista receber cartas de admiradores, algumas até com pedidos de casamento – certa vez, um presidiário apaixonado teria sugerido levar a moça ao altar. O público só começou a desconfiar da identidade da escritora quando a página de Suzana – nesta altura, já no Última Hora – acabou para dar lugar a outra coluna muito parecida: A Vida Como Ela É. Sim, para decepção dos apaixonados, Suzana Flag era Nelson Rodrigues.

O compositor erudito Guerra-Peixe também gostava de se aventurar pela canção popular. Mas anonimamente. O músico gravou discos como Jean Kelson e compôs sambas e boleros como Célio Rocha e Bob Morl.

Machado de Assis, ou Malvolio, ou Victor de Paula, ou Lélio...

Durante a vida, Machado de Assis escreveu muitos contos e artigos para a imprensa. Boa parte deles valendo-se de pseudônimos – desde o óbvio M.A. até o inusitado João das Regras. Sob esses nomes, o escritor criticou a imprensa, analisou costumes e defendeu o fim da escravidão. Conheça alguns dos muitos personagens por trás do Bruxo do Cosme Velho.

Para a revista O Espelho, em 1859, M.-AS. divulgou um evento que aconteceria, e citou a si mesmo, dizendo que haveria “poesia do sr. Machado de Assis, meu íntimo amigo, meu alter ego, a quem tenho muito afeto”.

Segundo o escritor Max Fleiuss, foi na Semana Ilustrada que Machado de Assis conquistou maior habilidade para fazer crônicas. Mas não queria saber de usar o próprio nome. Assinava Dr. Semana.

Como Victor de Paula, Machado publicou contos no Jornal da Família. Anos depois, confessou, ao lançar o texto em outro jornal: “Este escrito teve um primeiro texto, que reformei totalmente mais tarde, não aproveitando mais do que a ideia. O primeiro foi dado com um pseudônimo e passou despercebido”.

Para a seção Bons Dias, da Gazeta de Notícias, Machado criticava os fazendeiros favoráveis à permanência da escravidão. Mas era Boas Noites quem assinava os textos. Outros pseudônimos do Bruxo do Cosme Velho: Job, Platão, Lara, Manassés, Eleazar, Lélio, Malvolio.

Autor de sacanagem era respeitável funcionário público

Uma publicação apimentada embalou a imaginação dos jovens durante os anos 1950 e 1960. Eram revistas clandestinas com desenhos e textos de alto teor erótico. Quem assinava era um tal de Zéfiro. O autor tinha boa razão para esconder o nome real: Alcides de Aguiar Caminha era funcionário público. Sua identidade só foi revelada em 1990, numa histórica entrevista para a Playboy. A capa do disco Barulhinho Bom, de Marisa Monte, traz ilustrações de Alcides, ou Zéfiro.

Di Cavalcanti começou a carreira a inda adolescente, em 1914, como cartunista. Mas foi como ilustrador da revista Guanabara, em 1920, que começou a chamar a atenção. Porém, ninguém sabia de quem se tratava. Di assinava como Urbano, principalmente quando os temas de seu s traços eram políticos.

O Partido Comunista não gostava nada das atividades literárias de Pagu. Para driblar o partidão, a escritora passou a assinar seus contos como King Shelter.

Quando Alceu Amoroso Lima foi convidado para ser crítico literário em O Jornal, em 1919, decidiu mudar o nome para Tristão de Ataíde. À época, ele havia herdado do pai a fábrica de tecidos Cometa, e queria distinguir a atividade empresarial da literária.

Para ser músico, Braguinha virou passarinho arquiteto

O pai fazia questão que o rapaz cursasse Arquitetura. Disso não abria mão. Mas o que Braguinha queria mesmo era saber de música. Logo, o futuro autor de algumas das marchinhas mais emocionantes que conhecemos se tornaria integrante do Bando de Tangarás, ao lado de Noel Rosa e Almirante. E para fugir da marcação paterna, adotou um pseudônimo: João de Barro. Ironicamente, o pássaro arquiteto.

Articulista misterioso bombardeava inimigos de Pedro 1º

O reinado de dom Pedro 1º foi marcado por atribulações políticas entre o governo e opositores. Os inimigos do imperador às vezes recebiam respostas via imprensa – muitas vezes recaindo para a baixaria. Principalmente quando eram assinadas por Duente, Aristarco ou Inimigo dos Marotos. O autor por trás desses nomes era o próprio imperador. Num artigo para o jornal O Espelho, dom Pedro (ou, melhor, Aristarco) disparou contra um desafeto: “Ninguém é mais estrondoso em arrotar, mais forte em espumar e mais pequeno em argumentar”.

Maneco criou Jacinto para manter fama de macho

O jornalista Maneco Muller é considerado o precursor da moderna coluna social brasileira. Quando aceitou o cargo no jornal Correio da Manhã, porém, pediu ao editor para assinar como Jacinto de Thormes, personagem de um romance de Eça de Queirós. E justificou: “É que coluna social é coisa de veado”.

Primeira-dama caricaturista invertia o nome para se proteger

Ela é tida como a primeira mulher caricaturista do Brasil, mas há quem defenda que foi a primeira do mundo. Nair de Teffé não perdoava os poderosos com seus desenhos ácidos e debochados. Por ser mulher, filha de barão e mais tarde esposa do presidente Hermes da Fonseca, tinha razões de sobra para preservar seu nome nas caricaturas que publicava em periódicos como Fon-Fon, O Malho e Revista da Semana. Assinava como Rian – Nair de trás para frente.

Bilac usou pseudônimo para lançar literatura barata

Fim do século 19. Um escritor chamado Victor Leal se tornou popular por seu estilo ultrarromântico ao publicar três histórias em jornais cariocas. Destaque para O Esqueleto, de 1890. Como ninguém o conhecia, um ilustrador tratou de desenhá-lo como um sujeito magro, narigudo e que usava chapéu e monóculo. Na verdade, Victor Leal nunca existiu. Era um pseudônimo conjunto do jornalista Pardal Mallet, do dramaturgo Coelho Neto e dos escritores Aluísio Azevedo e Olavo Bilac. Era uma forma de todos sentirem-se livres para produzir “literatura barata”, de menor qualidade. É de Bilac – um parnasiano ferrenho – boa parte dos textos melosos de O Esqueleto.

Sérgio Porto criou não só Stanislaw, mas toda a sua família

Quando o jornalista Sérgio Porto foi convidado a ocupar o espaço da coluna de Jacinto de Thormes no Diário Carioca, em 1953, tratou de fazer a mesma exigência do antecessor: ter um pseudônimo. A intenção era ter liberdade total para escrever o que lhe desse na telha. E assim nasceu Stanislaw Ponte Preta, além de sua família, que incluía tia Zulmira – ermitã que costurava casaquinhos para órfãos de uma colônia de nudismo –, e Rosamundo das Mercês, o distraído, que um dia foi entregar roupas no casarão da família e esqueceu de voltar para casa. Mais tarde, Porto escondeu-se sob o personagem para publicar ácidas críticas à ditadura militar na seção Febeapá – Festival de Besteiras que Assola o País.

“O Chico Buarque está faturando no meu nome”

Em meados da década de 1970, as músicas de Chico Buarque dificilmente passavam pelo crivo da censura. O compositor então assumiu o pseudônimo Julinho da Adelaide para assinar Acorda Amor, retrato claro da perseguição política na época: Sonhei que tinha gente lá fora / Batendo no portão, que aflição / Era a dura, numa muito escura viatura... Julinho ainda comporia Jorge Maravilha e Milagre Brasileiro.

Mais tarde, Chico tratou de dar molho especial ao personagem. Numa entrevista a Mário Prata para o jornal Última Hora, “Julinho” disse não querer ser fotografado por ter cicatriz na testa, surgida após ser atingido pelo violão de Sérgio Ricardo durante o festival de música de 1967. E até falou mal de Chico: “O Chico Buarque está faturando no meu nome”.

Batalha que não aconteceu fez nascer o Barão de Itararé

Barão de Itararé é o pioneiro no jornalismo político com humor no Brasil. O pseudônimo pomposo de Aparício Torelly surgiu em 1930. As tropas de Getúlio Vargas ameaçavam sair do Rio Grande do Sul para tomar o poder. Os homens fiéis ao presidente Washington Luís prometiam resistir. E a imprensa anunciou que poderia haver “a batalha mais sangrenta da América do Sul” na cidade de Itararé, entre São Paulo e Paraná. Mas logo os envolvidos trataram de fazer acordos. As trocas de favores políticos evitaram a batalha. Aparício Torelly ironizou a situação, dizendo que não tinha sobrado nada para ele. “Eu fiquei chupando o dedo. Foi então que resolvi conceder a mim mesmo uma carta de nobreza. Então passei a Barão de Itararé, em homenagem à batalha que não houve.”

Em Almanaque Brasil da TAM


quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Que isso nunca mais volte a acontecer...

A ditadura em seu lugar

Museu chileno lembra que regime militar
é destino estúpido para uma nação.

Zeca Camargo*


(...)

Foi nela que embarquei numa manhã para o Museu da Memória e dos Direitos Humanos, a apenas quatro paradas de onde eu estava.

E o que encontrei foi mais do que uma lição de história.

Visitando suas bem desenhadas e bem montadas galerias, renovei minha certeza de que um governo tomado à força por um golpe militar é um dos destinos mais estúpidos que uma nação pode encontrar.

Documentado em enormes painéis, telões interativos, vídeos de reportagens – e depoimentos de personagens que são reais demais para você achar que “aquilo só acontece nos livros de histórias” −, o golpe de 1973, que fez do Chile sob comando do general Augusto Pinochet uma das maiores vergonhas recentes na luta pelos direitos humanos, está ali muito vivo. E fresco o suficiente para nos lembrar que um governo de truculência é a desgraça de um povo.

Ao mesmo tempo em que os rostos (e as vozes) de pessoas desaparecidas durante o regime militar chileno emocionam, o museu é tão bem montado que não deixa esquecer como é fácil que uma atrocidade dessas se instale.

Você pode visitar tudo apenas como uma curiosidade, mas quem vive numa realidade politicamente desesperada como a que hoje assola o mundo não consegue evitar as conexões com a atualidade e chegar à inevitável conclusão de que ninguém com um mínimo de educação e informação pode querer isso para seu destino. Nem para sua família, nem para seu país.

E este lugar está ali justamente para educar e informar.

Limitar a ditadura e o regime militar à bruteza da estrutura de concreto do Museu da Memória, em Santiago, parece então não apenas adequado, mas traz até certa esperança.

A de que nós nunca repitamos, ainda mais com a ajuda de algo tão precioso como nosso voto, os horrores de um passado que só pode nos trazer um futuro destituído de tudo que seguimos lutando até hoje para consolidar: o respeito ao ser humano.

*Jornalista e apresentador, autor de “A Fantástica Volta ao Mundo”

(Folha de S. Paulo, 20 de setembro de 2018)

Gauchinha Bem Querer

Tito Madi*


Rio Grande do Sul,
Vou-me embora sem amor.
Vou-me embora do Rio Grande,
Vou tão só com a minha dor.

Vou levar a lembrança comigo
De um amor que de olhares nasceu,
De um amor que depressa floriu,
Mas tão cedo morreu.

Rio Grande do sul,
Eu um dia voltarei
Pra rever o meu Guaíba,
Pra rever meu bem-querer.

E depois se ela ainda quiser,
Só nós dois a sonhar e a sorrir.
Rio Grande do Sul,
Vou chorar ao partir.

(Encerramento)

Vou me embora, prenda minha,
Gauchinha bem querer.

Toada que Tito Madi compôs quando participou de festejos promovidos pela Rádio Farroupilha de Porto Alegre. Ele mesmo a gravou pela primeira vez, na Continental, com orquestração e regência de Radamés Gnattali, em 4 de setembro de 1956, com lançamento em março-abril de 57 no 78 rpm 17.416-B, matriz C-3916. Gravações posteriores do Conjunto Farroupilha e da cantora Luely Figueiró confirmariam seu êxito. Direitos fonográficos reservados à Warner Music Brasil Ltda., uma empresa Warner Music Group. ISRC: BRWMB-9802656.

Luciano Goulart

Tito Madi compôs esta toada quando participou de festejos promovidos pela Rádio Farroupilha de Porto Alegre, e ele próprio a lançou em 1957, no lado B do 78 rpm que trouxe outro clássico seu, "Chove lá fora". Logo em seguida, o Conjunto Farroupilha a incluiu em seu repertório, gravando-a pela primeira vez na Odeon, em 18 de abril do mesmo ano, com lançamento em julho seguinte no 78 rpm n.o 14227-B, matriz 11711. O grupo faria novo registro da música em 1968. 

Samuel Machado Filho

P.S. Gravação está disponível na internet na voz do próprio compositor, Tito Madi

P.S. Essa música, também, está na internet interpretada pelo Conjunto Farroupilha. 

*Chauki Maddi (12 de julho de 1929 – 26 de setembro de 2018) – o cantor, compositor e pianista paulista conhecido pelo nome artístico de Tito Madi – morreu no início da manhã de hoje (26.9.2018), na cidade do Rio de Janeiro (RJ), vítima de pneumonia agravada por problemas renais.


Tito Madi — Foto: Reprodução / Capa de disco



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Aula de Português


Prof. Nelson Viana dos Santos

Entrou na sala quando os professores saíam para as classes. Procurava desviar o olhar dos colegas que, por outro lado, nada comentavam, simulando uma normalidade que não mais existia.

Como fazia há anos, apanhou o chaveiro e abriu a porta do armário de aço. Aquele frio aço envelhecido que guardava objetos conhecidos: algumas gramáticas marcadas pelo uso, giz, apagador, os diários do ano... Involuntariamente lembrou-se do poema de Drummond. Quisera ter aquele aço na alma para não sofrer como vinha sofrendo nos últimos dias. Pegou o necessário, fechou o armário e caminhou rumo à escada que conduzia ao andar superior. Um ou outro aluno, retardatário, subia às pressas, vencendo dois degraus de cada vez. Sentiu uma certa inveja daquela juventude, daquela adolescência confusa, mas cheia de energia e de sonhos. “És todo certeza. Já não sabes sofrer.” Drummond novamente. Mas ele sofria e, ao vencer o primeiro lanço, sentiu uma pequena vertigem. Seu corpo cansado, já envelhecido por anos e anos de trabalho, acusou o esforço despendido. Seus olhos ficaram nublados e um imenso cansaço fez com que buscasse o apoio da parede. Fraqueza na certa.

Nos últimos dias nada comera. Depois do enterro de Ana, um parente oferecera ajuda, quiseram levá-lo embora, mas ele recusara. Voltar para casa era penoso, mas mais difícil seria conviver com os parentes, verdadeiros estranhos que usavam o mesmo sobrenome. Tudo se resumia no seguinte: como suportar o que lhe restava de vida? Como suportar os outros?

Avançou pelo corredor como um autômato. Na verdade arrastava um corpo envelhecido e uma alma semimorta. Numa fração de segundo recordou seu início de carreira como professor de Português. Seus planos, seu entusiasmo. Trinta e tantos anos depois o entusiasmo desaparecera. Nos últimos anos, cada vez mais, sentia dificuldade de conviver com seus alunos e seus colegas mais jovens. Faltava paciência; a comunicação era difícil, poucos se interessavam por livros e ele, o professor, que deveria estimular o interesse da juventude pelos clássicos, já se sentia sem forças para lutar contra a impaciência dos alunos.

Nos últimos anos pensava muito na aposentadoria. Pretendiam mudar-se para o litoral, que Ana tanto amava, e envelhecer juntos. Não tiveram filhos, mais por causa dele − o que de certa forma revelava egoísmo de sua parte. Ana aceitara a decisão por amor a ele... Agora ela se fora e o passado não mais podia ser modificado.

Nesse momento deu-se conta que já estava na sala, atrás da mesa, olhando para os alunos com os dedos polegares e indicadores apoiados no tampo da mesa, seu velho costume. Disse bom-dia. Os alunos responderam e, sensíveis, esperaram o velho professor dizer alguma coisa. Aquele velho maçante por quem, no fundo, tinham uma grande estima. Por um momento passou os olhos pela classe; quarenta pares de jovens e brilhantes olhos esperavam, solidários, que o mestre tivesse forças para iniciar a aula.


terça-feira, 25 de setembro de 2018

Bolero



O bolero é um ritmo cubano que mescla raízes espanholas com influências locais de vários países hispano-americanos. Apesar de nascer em Cuba, tornou-se também bastante conhecido como canção romântica mexicana. O ritmo foi se modificando, tornando-se mais lento e desenvolvendo especialmente temas mais românticos. Têm tradição no bolero os seguintes países: Cuba, Porto Rico, República Dominicana, Colômbia, México, Peru, Venezuela, Uruguai, Argentina e Brasil.

O primeiro bolero surgiu na data de 1883, na voz do cubano José Sanchéz. Posteriormente o estilo também fez muito sucesso no México e depois por toda a América Latina. Sabe-se que o bolero influenciou o samba-canção, mambo (bolero-mambo), o chá-chá-chá e a salsa. Na República Dominicana, surgiu, na década de 1960, uma variante do bolero chamada bachata.

O mais célebre bolero mexicano é Bésame mucho, composto por Consuelo Velásquez (1941), e interpretado, entre outros, por: The Beatles, Plácido Domingo, Diana Krall, João Gilberto, Simone, Cesária Évora, Rosa Passos, Frank Sinatra. Em francês (adaptado por Francis Blanche em 1945): Dalida, Céline Dion, Arielle Dombasle, Michel Petrucciani, Marc Lavoine, Guy Marchand e Lili Boniche.

Em 20 de julho de 2012, foi feito pela primeira vez em Portugal um concerto que juntou o bolero da Colômbia e o Fado no mesmo palco, no Teatro São Luiz. Esse evento foi organizado pela embaixada da Colômbia em Portugal, que marcou a comemoração do dia nacional da Colômbia e contou com a fadista portuguesa Raquel Tavares e a bolerista colombiana Lucía Pulido.

(Da WikipédiA)

Mia, um bolero clássico de Armando Manzanero*

Mia


Mía
Aunque tú vayas por otro camino
Y que jamás nos ayude el destino
Nunca te olvides sigues siendo mía

Mía
Aunque con otro contemples la noche
Y de alegría hagas un derroche
Nunca te olvides sigues siendo mía

Mía
Porque jamás dejarás de nombrarme
Y cuando duermas, habrás de soñarme
Hasta tú misma dirás que eres mía

Mía
Aunque te liguen mañana otros lazos
No habrá quién sepa llorar en tus brazos
Nunca te olvides sigues siendo mía

Sí, siempre mía

Minha


Minha,
Ainda que tu vás por outro
caminho,
E que jamais nos ajude o
destino,
Nunca te esqueças que segues sendo minha.

Minha,
Ainda que com outro contemples
a noite,
E de alegria faça um esbanjamento,
Nunca te esqueças que segues sendo minha.

Minha,
Porque jamais deixarás de
nomear-me,
E quando dormires,
sonharás comigo,
Até tu mesma dirás que és
minha.

Minha,
Ainda que te unas amanhã a
outros laços,
Não terás quem saibas chorar em
teus braços,
Nunca te esqueças que segues sendo minha.

Sim, sempre minha.

* Armando Manzanero-Canché (caricatura abaixo) − nasceu Mérida, Yucatán em 7 de dezembro de 1935 − é um músicoe compositor mexicano, descendente dos Maias.


P.S. Escute esse bolero nas vozes dos seguintes cantores: Simone (cantora brasileira), Plácido Domingo (tenor espanhol), Luiz Miguel (cantor mexiacno) e na voz do próprio compositor: Armando Manzanero.


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Tatuagem



Tatuagem é uma canção escrita pelo cantor e compositor brasileiro Chico Buarque e pelo cineasta Ruy Guerra para a peça de ambos intitulada “Calabar: o Elogio da Traição”, escrita em 1973. A música Tatuagem revela o desejo que o sujeito tem de se dedicar profundamente a um outro. Entretanto o uso da tatuagem para a realização desse desejo pode revelar desejos não confessados. Uma vil forma de mostrar para o outro quem é o dono daquele corpo, o que estabelece uma forma de fidelidade entre as partes. Na música de Chico e tão bem interpretada por Bethânia, o caráter melancólico e fúnebre da letra revela algo que não se completou que não se consumiu pelo intenso desejo. Assim, mesmo havendo a consumação das partes o forte desejo não foi suprido e se exprime na melancolia e na produção da tatuagem na pele.

(Do Blog Clube de Leitura)

Tatuagem

Chico Buarque - Ruy Guerra/1972-1973
Para a peça Calabar de Chico Buarque e Ruy Guerra

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem,
Que é pra te dar coragem,
Pra seguir viagem
Quando a noite vem.
E também pra me perpetuar em tua escrava,
Que você pega, esfrega, nega,
Mas não lava…

Quero brincar no teu corpo feito bailarina,
Que logo se alucina,
Salta e te ilumina
Quando a noite vem.
E nos músculos exaustos do teu braço,
Repousa frouxa, murcha, farta,
morta de cansaço…

Quero pesar feito cruz nas tuas costas,
Que te retalha em postas,
Mas no fundo gostas,
Quando a noite vem...

Quero ser a cicatriz risonha e corrosiva,
Marcada a frio, ferro e fogo,
Em carne viva…

Corações de mãe,
Arpões, sereias e serpentes,
Que te rabiscam o corpo todo,
Mas não sentes…

Do Projeto 365 canções

Registrada no histórico disco Drama 3º ato (1973) - gravado ao vivo no Teatro da Praia, RJ, − “Tatuagem” apresenta todo o sentimento de um sujeito que quer se entranhar corpo adentro, do outro. O uso da tatuagem, como metáfora desta vontade, porém, esconde desejos inconfessos.

A tatuagem (como desenho permanente na pele, marcado a frio, a ferro e fogo) é também uma forma de mostrar aos outros quem é o 'dono' daquele corpo. A tatuagem estabelece uma relação de fidelidade entre os amantes. Porém, ao evocar a serpente, o sujeito indicia traições inconfessas.

Portanto, há um sedutor paradoxo quando o sujeito diz: “também pra me perpetuar em tua escrava”. No jogo/embate erótico (cruz nas tuas costas que te retalha em postas, mas no fundo gostas), afinal, quem é escravo de quem? Quem canta querer ser tatuagem ou quem é tatuado? Pouco importa.

É com estes pensamentos − de posse e de desejo absurdamente passionais − que a interpretação de Bethânia exibe a parte mais clara da alma do sujeito da canção. Bethânia toma para si o movimento serpenteante do sujeito na carne viva do outro.

Pétala por pétala, as rimas e as respirações (extremamente marcadas pela ênfase na consoante 'r') criam a imagem da bailarina brincando no corpo do outro.

“Tatuagem”, composta para a peça Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, na interpretação de Bethânia, em que cada letra é meticulosamente dita, cantada e ouvida, arrebata o ouvinte que, seduzido, se deixa tatuar.

A canção fica na memória da pele (como um canto de sereia, ou reduzido a um esconderijo tatuado) e, vira e mexe, em carne viva, nos lembra dos (des)domínios dos afetos.

Opiniões das mulheres:

Do que fala a música?

Adriana: “Fala da vontade de permanecer no corpo do ser amado, como tatuagem, seja ela bailarina, cruz, corações de mãe, arpões, sereias ou serpentes… e nunca mais sair: “que você pega, esfrega, nega, mas não lava…”

Raquel: “Fala do quanto a mulher quer se sentir importante na vida de um homem, ao passo de querer se comparar como uma tatuagem, uma cicatriz que deixam marcas eternas, pois mesmo tentando apagá-las, elas estão ali, mesmo que de forma diferente, meio apagadas, elas sempre vão estar ali…no fundo do coração do homem amado.”

Kássia: “Com maestria, Chico, o maior compositor brasileiro de músicas com o “eu feminino”, fala de uma relação de devoção, desejo e paixão de uma mulher…

Bruna: A canção foi escrita pela perspectiva de uma mulher que está loucamente apaixonada por seu namorado. Ela descreve esta paixão dizendo que quer se fixar no corpo dele “feito tatuagem”, se perpetuando em sua escrava.

P.S. Escute, na internet, essa música nas vozes de Chico Buarque ou de Elis Regina.

A gravação com Chico Buarque, está correta com a letra cantada pelo próprio autor. A gravação com a cantora Elis Regina, apesar de pequenas alterações quanto alguns pronomes que não existem na letra original, tem mais densidade dramática na interpretação na voz de uma grande cantora.

O contexto da canção na peça Calabar: O Elogio da Traição

Bárbara era como se fosse uma parte de Calabar, estava junto a ele. Quando Calabar morreu Bárbara se mostrou questionadora e tornou-se uma das principais vozes da peça. Ao tentar buscar justificativas para morte de seu amante, não deixou que a privassem em sua fala, fez questão de acusar e desmascarar homens que eram chamados de heróis, fez de sua fala seu protesto. A canção “Cala a boca Bárbara” evidencia bem essa questão, o que ela dizia era algo para ser calado. Bárbara parecia amar Calabar e jamais querer outro homem em sua vida, dizia que ele era uma marca permanente, que não seria esquecida e ela ficaria com ele eternamente, como é possível perceber na canção “Tatuagem”, que é cantada enquanto se desenrola as cenas da execução de Calabar:

Bárbara queria estar com Calabar para sempre, como tatuagem e cicatriz em seu corpo. Ao olhar por essa perspectiva, o amor de Bárbara se torna indubitável. Não há como duvidar do amor de Bárbara, que tem necessidade de se perpetuar mesmo depois da morte de Calabar. Por seu amante ela não tem medo de enfrentar os outros, de dizer verdades que estavam encobertas, de escancarar o que não estava às vistas.

A traição nas canções do musical Calabar
Miriane Pereira Dayrell Souto



domingo, 23 de setembro de 2018

Você sabe quais os meses que têm 30 e os que têm 31 dias

sem olhar no calendário?

Fecha a mão e a deixe do jeito que a figura mostra abaixo:

Veja as figuras abaixo:


Em seguida comece a contar, os calombos do osso, são meses com 31 dias e os para baixo é com 30, ou no caso de fevereiro (28 ou 29).


Resumindo

Feche o punho da mão esquerda, e comece a contar os meses, nas elevações e depressões formadas entre os 4 dedos (- o polegar), considerando as elevações(posição de cada dedo) como 31 e as depressões(posição entre dedos) como 30(ou 28/29, no caso de fevereiro), então, contando do indicador para o mindinho temos:


Nos ossinhos, meses de 31 dias (fundo braco), nas partes entre os ossinho, meses de 30 dias (fundo amarelo).

Posição Mês Dias

Dedo indicador: Janeiro → 31
Entre indicador e o médio: Fevereiro → 28/29
Dedo médio: Março → 31
Entre médio e anular: Abril → 30
Dedo anular: Maio → 31
Entre anular e mindinho: Junho → 30
Dedo mindinho: Julho → 31
(neste ponto, retorna-se ao indicador)
Dedo indicador: Agosto → 31
Entre indicador e médio: Setembro → 30
Dedo médio: Outubro → 31
Entre médio e anular: Novembro → 30
Dedo anular: Dezembro → 31




sábado, 22 de setembro de 2018

A difícil conquista do Alto Uruguai

Barbosa Lessa*


Imagem antiga da cidade de Frederico Westphalen/RS
Wilson Aleixo Ferigollo
  
Última região histórica do Rio Grande do Sul foi conquistada por um exército de administradores. Implantada a República no Brasil em 1889, os governantes gaúchos preferiram adiar o empenho em remover os dois mais sérios entraves ao progresso rio-grandense. O primeiro era a modernização do porto de Rio Grande, necessitado de um canal de embarque e desembarque não mais condicionado a frágeis catraias conduzindo os navios por entre o labirinto de crescentes areais. O segundo consistia na ligação de Porto Alegre com a outra margem do Rio Guaíba, de modo a integrar a Capital ao polo de Pelotas e Rio Grande. Se houvesse dinheiro para obras tão portentosas, talvez faltasse tecnologia.

Por outro lado, não faltava tecnologia para construção de estradas de ferro. E não faltavam, na Europa e nos Estados Unidos, grupos econômicos-financeiros provavelmente interessados em obter a concessão da exploração dos serviços ferroviários. Foi dada então a partida para a epopeia da conquista do Alto Uruguai, tendo por longínquo chamariz o Salto do Tucumã. A região do Planalto foi o cenário desse esforço, a partir da recém-fundada colônia de Ijuí.

A estrada Southern Brazilian conseguiu levar seus trilhos de Bagé até Cacequi, assim propiciando a ligação da Campanha com a estação mater de Santa Maria. A Compagnie des Chemins de Fer Sud Ouest Brésilien repetiu a dose, interligando a estação mater com o Planalto, através de Vila Rica (hoje Júlio de Castilhos), Tupanciretã, Cruz Alta e Passo Fundo.

Não se entenda, porém, que Passo Fundo seria a estação terminal da conquista. Pelo contrário: tornar-se-ia o marco inicial. O engenheiro Marcelino Ramos, a serviço da Companhia União Industrial do Brasil, jurou que em breve estaria ligando Passo Fundo ao Alto Uruguai, ao Oeste catarinense, ao Sertão paranaense e outros tantos lugares. E saltou dentro do mato uma potência internacional, a Compagnie Auxiliaire de Chemins de Fer au Brésil (subsidiária do sindicato multinacional Farquhar), como se dissesse: “Já que venci a concorrência para a construção das pontes e terminais da estrada Porto Alegre-Uruguaiana, dou uma mãozinha e vou construindo também esta ferrovia aqui ao norte do Planalto”.

Houve gente que começou trabalhando como operário no assentamento dos trilhos e terminou se assentando com lavouras à margem do avançante caminho. A estrada de ferro continuou avançando e foram lançadas as bases das necessárias estações. Os agricultores continuaram chegando das “colônias velhas” dos Vales e da Serra, entreverados com caboclos ervateiros. O agrimensor Severiano de Almeida preparou a sede para uma das maiores colônias, que se chamaria Paiol Grande (depois Boa Vista, finalmente Erechim). E não longe de Paiol Grande ele demarcaria a grande Fazenda Quatro Irmãos, destinada a judeus que estavam transmigrando da pioneira colônia Filipson, das bandas de Santa Maria.

Não havia perigo de se formarem bolsões étnicos, porque se incentivava sob todas as formas a miscigenação de alemães, italianos, poloneses, lusos, russos e quem mais quisesse pegar da enxada ou do instrumento artesanal.

Enquanto isso, respeitosamente, tratava-se de não atropelar os caingangues, os “bugres” em geral. Cerca de 2,8 mil remanescentes nativos foram encaminhados a reservas – só delas – em Nonoai, Palmeira e Serrinha, e se iniciou a implantação dos próximos toldos, de Guarita e Inhacorá.

O engenheiro Frederico Westphalen era o chefe da Diretoria de Terras e Colonização da Secretaria Estadual de Obras Públicas. Sozinho? Claro que não. No comando desse exército sem canhões estava um autêntico “marechal”, o engenheiro e humanista Carlos Torres Gonçalves, braço direito do presidente estadual Borges de Medeiros para as questões fundiárias. Ele exigiu que a cada família se desse um mínimo de 50 hectares e um máximo de 75 hectares. Planejou detalhadamente cada novo núcleo urbano, com estudo do relevo, reserva de área para crescimento, obras de saneamento, meios para que se evitem os inços da monocultura. Estavam “misturados” – tal como nas etnias – a erva-mate e o milho, a farinha de milho e a madeira bruta, o trigo e a madeira trabalhada, a farinha de trigo e a banha refinada, a alfafa e a serraria – sem falar da boia para o gasto. Se algum produto caía na cotação do mercado, havia outros para tirar o colono na garupa.

Gonçalves escreveu no Relatório das Obras Públicas de 1918: “A retirada de colonos deste para outros Estados é um fenômeno previsto, o mais tardar, para quando se esgotarem as terras devolutas de domínio público”. O futuro levaria prosperidade e união à região, a partir da soberba ponte metálica que interliga Marcelino Ramos e Porto União às novas “querências gaúchas” do Oeste catarinense, do Oeste paranaense, de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Essa é a explicação histórica dos tantos CTGs que hoje fervem por aquelas bandas.

(Do jornal Zero Hora, de novembro de 1997)

* Escritor, compositor e folclorista.


Luiz Carlos Barbosa Lessa (Piratini, 13 de dezembro de 1929Camaquã, 11 de março de 2002) foi um folclorista, escritor, músico, advogado e historiador brasileiro.



Baile da Coceira

 (Leonardo e Bruno Neber)


O assunto mais falado e comentado no rincão,
Foi de um índio que acabou com um fandango de galpão;
Dois punhados de pimenta ele jogou no salão,
Enquanto o povo dançava,
A poeira levantava e foi formando a confusão.

No começo não foi nada, mas a farra estava pronta,
Começaram a se coçar, no salão, de ponta a ponta.
Os espirros e a coceira começaram a tomar conta,
Foi coisa linda de ver,
Todo mundo se bater parecendo mosca tonta.

Coça, coça, coça aqui; coça ali e coça lá
Velhas, moças e rapazes, todo mundo a se coçar.
Coça, coça, coça aqui; coça ali e coça lá
E a coceira não passava e não paravam de espirrar.
Coça aqui e coça ali, coça ali e coça lá!

A coceira era tanta que o povo não resistiu,
Se largaram campo a fora e o salão ficou vazio.
Coceira igual aquela no rincão nunca se viu
Todo mundo em disparada,
Não enxergaram mais nada e caíram dentro do rio.

Tinha índio mergulhando de bombacha, bota e espora,
Todo mundo dentro dágua a se coçar na mesma hora.
Quem olhava parecia que eles tinham catapora
E a coceira não passava
Tinha gente que gritava:
− Me salve, Nossa Senhora!

Coça, coça, coça aqui; coça ali e coça lá,
Velhas, moças e rapazes, todo mundo a se coçar.
Coça, coça, coça aqui; coça ali e coça lá
E a coceira não passava e não paravam de espirrar.
Coça aqui e coça ali, coça ali e coça lá!

Eu estava numa moita morrendo de dar risada,
Pois fui eu quem provoquei toda aquela trapalhada.
O povo me descobriu e parei de fazer troça,
Me deram uns tapas nas ventas,
Me lavaram com pimenta e eu entrei no coça-coça.

* A gravação dessa música está na internet na voz de Ivon Curi.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Gaudério

Por Eduardo Bueno


Gaúcho, gravura de Francisco Stockinger

Todo mundo sabe o que significa “gaúcho”, mas ninguém sabe o que “gaúcho” quer dizer. A palavra evoca aventura, nostalgia, romance; recende a sangue, suor e poeira; ecoa o tropel de cavalos, o brado dos bravos, e o retinir de metais. Tem algo de épico e grandiloquente – mas arrasta para um turbilhão de imagens cambiantes e origens indeterminadas.

De onde surgiu o gaúcho? Os historiadores continuam atolados na areia movediça das polêmicas vãs. O gaúcho é berbere, árabe, oriental ou andaluz? O gaúcho é charrua, quíchua ou araucano? Ninguém sabe. O mais provável é que todas as opções sejam mais ou menos verdadeiras: o gaúcho é um mestiço forjado na fronteira – mescla elementos de várias nações indígenas com a complexa tradição luso-castelhana, por sua vez repleta de influência moura. No esforço para conjurar esse mosaico, já houve os que arriscassem uma definição, com mais ou menos felicidade: gaúcho, o centauro dos pampas, é meio touro, meio galo, quase uma mistura de índio com cavalo.

Mas o que, afinal, quer dizer gaúcho? A palavra, escrita pela primeira vez em 1743, vem do persa, do árabe, do sânscrito, do quíchua, do araucano ou do guarani? Ninguém sabe ao certo. De certo mesmo, só que surgiu quase como palavrão. Gaudério, changador, garrucho ou haragano – todos sinônimos de ‘gaúcho” – eram também sinônimos de vagabundo, vagamundo, ou “bagamundo”. Ladrões de gado, “guascas”, sem lei nem rei, que viviam dentro de suas camisas, debaixo de seus chapéus e em cima de seus cavalos.

Dentre as ervas daninhas que vingaram na selva das palavras, a flor mais bela foi colhida por Aurélio Porto, em 1946: “guaú”, do guarani “cantar tristemente”, mais “che”, do quíchua “gente, homem”; ou seja: “homem que canta triste”. Definição linda e poética – pena que errada. A origem mais provável remete ao araucano: “huagchu”, que virou “guacho” e quer dizer “filho que não conhece o pai”, ou “órfão”. Ou seja: o bendito fruto de uma união fugaz entre um aventureiro que passava com uma mãe indígena que se deixou seduzir. Um mestiço em um mundo em mutação.

Só que a lenda sempre importou mais do que a realidade: a transformação do gaúcho em peão (“peão”: aquele que anda a pé), o empenho dos estancieiros em suprimir o estilo de vida independente, a substituição da indumentária feita à mão por peças industriais, a opressão e a desordem – nada disso aparece na obra dos poetas e prosadores que cantaram o gaúcho.

Seja como for, lá está o gaúcho – só, altivo, melancólico. A cena toda tingida em tom crepuscular: um homem a cavalo, metido num poncho e sorvendo o mate, silhuetado no entardecer que se derrama sobre a vastidão do pampa. Gaúchos são sombras numa correnteza de grama na planície sem cercas nem porteiras, com o pé no estribo e o pé na estrada.

Ser gaúcho é um estado de espírito. Ser gaúcho é ser gauche na vida. Ser gaúcho é um destino – e quem disse foi Jorge Luis Borges.

(Texto de Zero Hora, setembro de 2018)

Glossário

Charrua: indivíduo dos charruas, uma das três grandes tribos indígenas, que habitavam parte do território do Rio Grande do Sul. Eram bravos guerreiros e nunca se submeteram à civilização e muito menos aos conquistadores.

Changador: aquele que faz changas ou carretos, carregador, changueiro.

Gaudério: aquele que acompanha qualquer pessoa, abandonando-a logo para seguir outra.

Haragano ou aragano: diz-se do cavalo que dificilmente se deixa agarrar. Mandrião, velhaco, vagabundo.

Guasca: nome que se dá ao gaúcho do campo, criado no interior, longe dos grandes centros. Sinônimo de valente, corajoso, bravo, forte e, sobretudo, rústico e de pouca cultura.

Guacho ou guaxo: diz do animal ou criança amamentada com leite que não é o materno.

Peão: trabalhador de estância.

(Do “Dicionário Gaúcho”, de Alberto Juvenal de Oliveira)