segunda-feira, 30 de março de 2026

Anatomia de um narcisista

 

► Fora de casa é carismático e exemplar. 

► Usa o seu charme como ferramenta de controle. 

► Inverte a sua culpa para a vítima. 

► Minimiza as dores e os sentimentos alheios. 

► É um controlador disfarçado de protetor. 

► Tem duas versões na ponta da língua: a pública e a privada. 

► Precisa parecer perfeito para não ser responsável. 

► Sempre manipula suas narrativas. 

► Nunca assume seus erros, a culpa sempre é do outro. 

► Sempre usa o silêncio, ameaça ou vitimização como estratégia. 

► Desqualifica o outro emocionalmente. 

► Isola qualquer mulher das redes de apoio. 

► Faz a vítima duvidar da própria percepção dos fatos. 

Narcisistas não constroem relações. 

Eles constroem imagens. 

@SingularHeart

A lenda de Narciso, da mitologia grega, conta a história de um jovem de beleza extraordinária, filho do rio Cefiso e da ninfa Liríope, que desprezava seus pretendentes. Amaldiçoado após esnobar a ninfa Eco, Narciso apaixonou-se pelo próprio reflexo em uma fonte, definhando de amor e morrendo à beira da água, transformando-se na flor de narciso. 

Narcisista é alguém com um padrão de grandiosidade, necessidade excessiva de admiração e falta de empatia pelos outros. Eles possuem uma imagem idealizada e falsa de si mesmos, usada para esconder uma profunda insegurança e vazio interno. Geralmente arrogantes, buscam validação constante e podem ser manipuladores em relacionamentos. 

Matemática curiosa

 

Veja o que acontece se multiplicarmos 37 por múltiplos de 3:

3 x 37 = 111
6 x 37 = 222
9 x 37 = 333
12 x 37 = 444
15 x 37 = 555
18 x 37 = 666
21 x 37 = 777
24 x 37 = 888
27 x 37 = 999

Agora veja isto:

111.111.111 x 111.111.111 = 12.345.678.987.654.321

Veja este trapézio:

1 x 9 + 2 = 11
12 x 9 + 3 = 111
123 x 9 + 4 = 1111
1234 x 9 + 5 = 11111
12345 x 9 + 6 = 111111
123456 x 9 + 7 = 1111111
1234567 x 9 + 8 = 11111111
12345678  x 9 + 9 = 111111111

E este outro trapézio:

1 x 8 + 1 = 9
12 x 8 + 2 = 98
123 x 8 + 3 = 987
1234 x 8 + 4 = 9876
12345 x 8 + 5 = 98765
123456 x 8 + 6 = 987654
1234567 x 8 + 7 = 9876543
12345678 x 8 + 8 = 98765432
123456789 x 8 + 9 = 987654321

E este outro:

0 x 9 + 8 = 8
9 x 9 + 7 = 88
98 x 9 + 6 = 888
987 x 9 + 5 = 8888
9876 x 9 + 4 = 88888
98765 x 9 + 3 = 888888
987654 x 9 + 2 = 8888888
9876543 x 9 + 1 = 88888888
98765432 x 9 + 0 = 888888888
987654321 x 9 - 1 = 8888888888
9876543210 x 9 - 2 = 88888888888 

Agora cá pra nós... quem foi o cara que inventou isso?

domingo, 29 de março de 2026

Manchetes sensacionalistas

 

“Fábrica de artefatos de couro doa 200 bolsas de estudo.”

“Pescador ilegal é condenado na Primeira Vara.”

“Sorveteiro diz a sua namorada que só está a fim de tirar uma casquinha.”

“Loja de velas promove queima de estoque.”

“Anão adolescente é condenado duas vezes pelo juizado de menores.”

“Dermatologistas estão sentindo a crise na própria pele.” 

“Queda de luneta na cabeça faz astrônomo ver estrelas.” 

“Velho reformado, antes de apertar o pescoço da sua mulher até a morte, suicidou-se.” 

“Um surdo-mudo foi morto por um mal-entendido verbal.” 

“Ferido no joelho, ele perdeu a cabeça.” 

“Acidente entre quatro caminhões fere um.” 

“O ultraleve caiu antes de pousar.” 

“Moça passa mal, foi comida.” 

“Ferido nos testículos, chegou ao hospital de saco cheio.” 

“Carro capota com 4 pessoas e uma mulher.”

“Salário dos pobres sobe mais do que dos ricos.”

“Fátima Bernardes deixa Bonner para fazer programa.” 

“Crise na indústria farmacêutica: OB está no buraco; absorvente está no vermelho; camisinha está no pau e fralda está na merda.” 

“Trump quer metais raros brasileiros e Lula diz que ele só pode levar ferro.” 

“Casal morto reconheceu o bandido.” 

“Meninas do futebol feminino do Brasil dão de quatro.” 

“Supermercado passa a vender só os buracos do queijo.” 

“Preço do litro de leite faz brasileiro optar por beber gasolina.” 

“Preço alto do leite faz pet shops passarem a vender vacas.”

“5G chega a Brasília, mas os políticos levam uma parte e só sobra 3G.” 

“Recordista mundial, que já comeu 110 cachorros-quentes em 10 minutos, se aposenta após perder a fome.” 

“Homem espanta ladrão de casa com frigideira: “Me deve uma nova.”

“Cachorro viaja 100 Km para morder seu ex-domo que o abandonou.” 

“Fumei um jornal e trago boas notícias.” 

“Após ter a energia cortada, um homem retirou a escada e deixou o técnico da companhia de energia pendurado no poste.”

“Homem no meio do tiroteio leva facada pelas costas.” 

“Galã da Globo assume que é gay, mas nenhum gay assume que agora é macho.”

Albert Einstein e seu motorista

 

Conta-se que, nos anos vinte, quando Albert Einstein começava a ser conhecido por sua Teoria da Relatividade, era com frequência solicitado pelas Universidades a dar conferências. Como não gostava de dirigir, mas o automóvel era muito mais cômodo para seus deslocamentos, contratou os serviços de um motorista. 

Depois de vários dias de viagem, Einstein comentou com o motorista, como era aborrecido repetir a mesma coisa todas as vezes. 

– Se quiser, disse-lhe o motorista, posso substituí-lo por uma noite. Ouvi sua conferência tantas vezes que posso recitá-la palavra por palavra. 

Einstein concordou e, antes de chegar ao lugar seguinte, trocaram suas roupas e Einstein tomou a direção. 

Chegaram à sala onde se ia celebrar a conferência e, como nenhum dos acadêmicos presentes conhecia Einstein, não se descobriu a farsa. O motorista expôs a conferência, que havia ouvido tantas vezes Einstein repetir. 

Ao final, um professor na audiência lhe fez uma pergunta. O motorista não tinha a menor ideia de qual poderia ser a resposta, mas teve uma fagulha de inspiração e respondeu: 

– A pergunta que o senhor me faz é tão simples, que meu motorista, lá no fundo da sala, a responderá.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Tipos de burocratas

 

Burocrata Isaac Newton → Comandado pela “Lei da Inércia”, o burocrata Isaac Newton dança conforme a música. Nunca questiona nada, não sendo a favor nem contra a burocracia, muito pelo contrário. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo” é o seu lema. E se uma maçã lhe cai na cabeça, não reflete, manda publicar no Diário-Oficial.

Burocrata Itaipu → É uma verdadeira barragem, represando todo o trabalho do grupo. Só abre um escoadouro em caso de emergência, quando os funcionários que comanda  estão  à  beira  de um ataque de nervos. Vítima de suas próprias convicções, quase sempre está afogado em um rio de papéis.

Burocrata Trainee → Sujeito jovem, esforçado, cheio de boa vontade. Mal adentrou ao serviço público e esmera-se em aprender a burocracia a fundo. “São duas carimbadas e meia, chefe?”; “Não, rapaz, já te disse que são duas carimbadas e ¼”. 

Burocrata Camaleão → Bom de conversa sustenta ares de modernizador e ilude os menos esclarecidos com comentários inteligentes e atitudes aparentemente dinâmicas. Mas quando testado, entrega o ouro, aparecendo o burocrata por baixo do disfarce. É conhecido também como burocrata “galã”, já que nenhum  documento dispensa seu autógrafo.

Burocrata Cabeça de Bacalhau → Na repartição todo mundo sabe que ele existe, mas ninguém vê. É um tipo misterioso, difícil, parente de gente muito importante, amigo de políticos muito influentes. Nas raras vezes em que aparece no local de trabalho, comporta-se como uma alma penada, distribuindo olhares vazios e criando um clima de medo. 

Burocrata Multihomem → Com seus olhos de lince e tentáculos de polvo se faz presente em todos os cantos e trabalhos da repartição. Quando algum funcionário pensa que vai escapar e concluir seu trabalho, eis que surge este, como do nada, determinando novas e absurdas exigências.

Burocrata Enciclopédia → Sabe toda a legislação na ponta da língua. Domina decretos, portarias e instruções normativas na palma da mão. Estatutos então, é capaz de citar até as vírgulas dos artigos. Infelizmente a vastidão de tais conhecimentos e sua extrema lealdade a eles, acabou lhe trazendo um sério problema. Como a legislação (1) contradiz a legislação (2), que é revogada pela legislação (3) e ressuscitada pela legislação (4), nosso superdotado burocrata “enciclopédia”  ele  encontra-se  imóvel, paralisado, vítima da “Buromielite”.

Burocrata Dom Corleone → Comporta-se como o Poderoso Chefão. É pródigo em distribuir ordens impertinentes e não admite ser contrariado. Também não hesita em punir funcionários diante de qualquer deslize. Não raramente o seu despotismo afeta também a sua inteligência: “Quem foi o energúmeno que autorizou isto aqui?” ‒ esbraveja ‒  “O senhor mesmo, chefe!” ‒ esclarece o funcionário. 

Burocrata High Tech → Especialista em informática, desenvolve intrincados sistemas e programas capazes de acumular uma astronômica quantidade de informações e um infindável número de controles.  Se as informações servem para alguma coisa e os controles são realmente necessários, já é outra história.

Burocrata Roberto Carlos → Gosta de valorizar “Detalhes”. Cada palavra, cada vírgula, cada centímetro de papel é uma questão de vida ou morte. Tudo tem que estar milimetricamente perfeito.  É capaz de recusar um documento pela falta de um hífen e de patrimoniar até o papel higiênico da repartição.

Burocrata Teatro Grego → Encena uma tragédia quando qualquer burocracia deixa de ser cumprida. Suas frases favoritas são: “Quero ver quem é que vai se responsabilizar por isso? E Nem quero pensar nas consequências”. Lê o Diário Oficial como se fossem as sagradas escrituras, fazendo cada artigo parecer uma profecia. Até o índice é motivo de inquietação.

Burocrata Percussionista → Passa o dia todo carimbando. Seu local de trabalho é um pedaço de escrivaninha cercado de carimbos por todos os lados. Possui de todos os tipos e para todas as finalidades: carimbo para autenticar, carimbo para anular, carimbo-datador, carimbo de aviso, carimbo de controle, carimbo de juntada, carimbo de separada, carimbo de desquitada, carimbo-mestre, carimbo-aluno, carimbo-cruz, carimbo-credo, carimbo-carimbo...

Burocrata São Tomé → Ressabiado ao extremo, desconfia de tudo e de todos. Na verdade, às vezes não acredita nem no que vê: “Será quem está aqui na fotografia é a senhora mesmo?” – pergunta olhando detidamente o documento: “Claro, idiota, não reconhece a própria esposa?” − responde irritada a mulher.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Como dar um comprimido a um gato

 Em 14 facílimos passos! 

Veja como é fácil!

01. Pegue o gato e o coloque em seu braço esquerdo como se estivesse segurando um bebê. Posicione o dedo indicador e o polegar da mão esquerda em cada canto da boca do gato. Pressione levemente para que ele abra a boca. Tão logo isto aconteça, coloque o comprimido em sua boca. Permita que o gato feche a boca e engula a pílula. 

02. Pegue a pílula do chão e o gato detrás do sofá. Encaixe-o no seu braço esquerdo e repita o processo. 

03. Apanhe o gato no quarto e jogue fora o comprimido encharcado. 

04. Pegue um novo comprimido, coloque o gato em seu braço esquerdo e segure as patas traseiras com a mão esquerda. Force-o a abrir a boca e empurre o comprimido até a garganta com o indicador. Feche a sua boca imediatamente e conte até 10 antes de soltá-lo. 

05. Apanhe o comprimido de dentro do aquário e o gato de cima do guarda-roupa. Peça ajuda a um amigo. 

06. Ajoelhe-se no chão com o gato preso firmemente entre os joelhos, segurando suas quatro patas. Ignore os grunhidos emitidos pelo gato. Coloque uma espátula de madeira o mais fundo que puder. Deixe o comprimido escorregar pela espátula e esfregue a garganta vigorosamente. 

07. Apanhe o gato que está grudado no trilho da cortina e pegue outro comprimido. Lembre-se de comprar uma nova espátula e remendar a cortina. Cuidadosamente enrole o gato numa toalha de modo que apenas sua cabeça fique de fora. Peça para o amigo mantê-lo assim. Dissolva o comprimido em pouco de água, abra a boca do gato com o auxílio de um lápis e despeje o líquido em sua boca. 

08. Veja na bula do remédio se ele é nocivo para seres humanos. Beba um pouco de água para se acalmar. Faça um curativo no braço do amigo e limpe o sangue do tapete com água morna e sabão. 

09. Busque o gato no vizinho. Pegue um novo comprimido. Bote o gato dentro do armário da cozinha e feche a porta, mantendo a cabeça do gato para o lado de fora. Abra sua boca com o auxílio de uma colher de sobremesa. Jogue o comprimido pra dentro da boca com o auxílio de um estilingue. 

10. Vá até a garagem e apanhe uma chave de fenda para colocar a porta do armário no lugar. Coloque uma compressa fria nos arranhões do seu rosto e cheque quando tomou pela última vez a vacina antitetânica. Jogue a camiseta fora e pegue outra em seu quarto. 

11. Chame o corpo de bombeiros para pegar o gato do alto da árvore do outro lado da rua. Peça desculpas ao vizinho que se machucou tentando desviar-se do gato. Pegue o último comprimido do frasco. 

12. Amarre as patas dianteiras nas traseiras com a corda do varal e prenda o gato no pé da mesa de jantar. Coloque luvas de jardinagem. Abra a boca do gato com uma chave inglesa. Coloque o comprimido seguido de um pedaço de filé mignon. Segure a cabeça dele na vertical e derrame meio copo de água para ajudá-lo a engolir o comprimido. 

13. Peça ao seu amigo para levá-lo ao pronto socorro mais próximo. Sente-se tranquilamente enquanto o médico sutura seus dedos e braços e remove partes do comprimido que ficaram encravadas no seu olho direito. Pare na primeira loja de móveis no caminho de casa e encomende uma nova mesa de jantar. 

14. Procure um veterinário que faça atendimento a domicílio.  

quarta-feira, 25 de março de 2026

A índia que amava a Lua

Muitos e muitos anos atrás, vivia Iapuna, uma jovem índia do povo Tupi. 

Ela era uma garota alegre, que gostava de passear pela floresta, de brincar com os animais, de nadar nos rios com seus irmãos. Mas, quando a noite começava a chegar, gostava de ficar sozinha, deitada na grama, admirando as estrelas, a Lua, o céu distante.

Certa noite, a Lua estava mais brilhante do que nunca. Seus raios penetravam entre as árvores da floresta e envolvia tudo com uma luz intensa, mágica. Iapuna lembrou-se então das histórias contadas pelos velhos índios da tribo sobre a Lua. Uma delas dizia que as estrelas eram jovens índias levadas ao céu pela Lua. 

‒ Ah! Como eu gostaria de ser uma das estrelas do céu! – pensou Iapuna. ‒ Poderia ficar sempre perto da Lua e abraçá-la! 

Aos poucos, esse desejo foi tomando conta de Iapuna e ela não pensava em mais nada, a não ser subir ao céu para abraçar a Lua. 

Certa noite, ela foi passear na beira de uma lagoa. Não havia vento a água estava calma, quase parada. E, bem no meio da lagoa, brilhava o reflexo da Lua cheia! 

Quando viu aquilo, Iapuna ficou enlouquecida de alegria. Era ela, a sua amada Lua que enfim chegara para levá-la ao céu! 

Sem pensar em mais nada, mergulhou e pôs-se a nadar em direção ao reflexo da Lua. Mas, quanto mais nadava, mais distante parecia estar o brilho da Lua. Iapuna foi ficando cansada. Finalmente, conseguiu se aproximar da sua amada Lua e quis abraçá-la. Mas, sem força nos braços, começou a afundar e seu corpo desapareceu nas águas da lagoa. 

Toda a aldeia chorou a morte da linda Iapuna. 

Lá no céu, a Lua, que tudo observava, ficou triste com o destino de Iapuna. E já que não pôde transformá-la em uma estrela do céu, resolveu fazer dela uma estrela das águas. Por isso, transformou-a e uma linda planta, que passou a ser chamada de vitória régia. 

É uma planta bonita e grande, que se fecha durante o dia e se abre quando a noite chega, para receber o abraço da Lua, como sempre sonhou a jovem índia Iapuna.

 

******* 

Douglas Tufano “Histórias da terra e do céu: 

lendas indígenas do Brasil”

terça-feira, 24 de março de 2026

Era uma vez...

 

O Fogo, a Água e a Confiança entraram juntas em uma floresta e o Fogo disse: 

‒ Se eu me perder, procurem a fumaça, porque onde há fumaça, há fogo! 

A Água disse: 

‒ Se eu me perder, procurem a umidade, pois onde há umidade, há água! 

Então, a Confiança disse: 

‒ Se eu me perder, não me procurem, pois quem me perde, não irá me encontrar nunca! 

Moral da história: 

A Confiança é muito valiosa, mas uma vez perdida... Nunca mais!

segunda-feira, 23 de março de 2026

O único animal

 (Texto de Luís Fernando Veríssimo)

O homem é o único animal que ri dos outros. O Homem é o único animal que passa por outro e finge que não vê. É o único que fala mais que o papagaio. É o único que gosta de escargot (fora, claro, o escargot). É o único que acha que Deus é parecido com ele. 

E é o único...

que se veste...

que veste o os outros...

que despe os outros...

que faz o que gosta escondido...

que muda de cor quando se envergonha...

que se senta e cruza as pernas...

que sabe que vai morrer...

que pensa que é eterno...

que não tem uma linguagem comum a toda a espécie...

que se tosa voluntariamente...

que lucra com os ovos dos outros...

que pensa que é anfíbio e morre afogado...

que tem bichos...

que joga no bicho...

que aposta nos outros..

que compra antenas...

que se compara com os outros. 

O homem não é o único animal que alimenta e cuida das suas crias, mas é o único que depois usa isso para fazer chantagem emocional. 

Não é o único que mata, mas é o único que vende a pele. 

Não é o único que mata, mas é o único que manda matar. 

E não é o único que voa, mas é o único que paga para isso... 

Que constrói casa, mas é o único que precisa de fechadura... 

Que constrói casa, mas é o único que passa quinze anos pagando... 

Que foge dos outros, mas é o único que chama isso de retirada estratégica... 

Que trai, polui e aterroriza, mas é o único que justifica... 

Que engole sapo, mas é o único não faz isso pelo valor nutritivo... 

Que faz sexo, mas é o único que faz um boneco inflável da fêmea... 

Que faz sexo, mas é o único que precisa de manual de instrução. 

A Linguagem do Amor

 Casa-te

 

Fico triste quando não te vejo. Casa-te, por que não? E vem viver comigo. Eu te farei tão feliz quanto possa. Não precisarás trabalhar muito; e, quando estiveres cansada, poderás recostar em meu colo e eu cantarei para que descanses... Tocarei para ti uma melodia ao violino quantas vezes me pedires e tão bem quanto eu possa; e largarei de fumar, se o quiseres... Creio que eu sempre seria muito bom para ti, porque te amo muito. Não te farei trazer água e madeira, nem alimentar o porco, nem ordenhar a vaca, nem ir aos vizinhos pedir leite emprestado. Queres te casar?

(Carta de um pretendente norte-americano, século XIX) 

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domingo, 22 de março de 2026

O galo operário

 É dura a vida no campo

No poleiro do galinheiro, na pequena propriedade rural de uma cidade do interior gaúcho, uma galinha, veterana, sacode o velho galo que dorme um sono profundo: 

‒ Acorda, homem! Tá na hora do trabalho! Te mexe! 

Ele, então, salta do poleiro cambaleante, com a galinha azucrinando nos seus ouvidos: 

‒ Anda logo, senão tu vais perder a hora! Apura, vamos! 

O galo se empoleira na cerca da casa, e emite um som para acordar toda a família: 

‒ Cócóricóóóó! 

O dono da propriedade comenta com a sua velha esposa: 

‒ Este velho galo não falha nunca! Animal responsável tá aí, sabe sempre a hora de fazer o seu serviço. 

******* 

De uma tirinha de Sávio Moura, no Correio do Povo, março de 2026

A quem quiser me excluir ou me cancelar,

 vou ajudá-lo:

• Sou a favor do apoio social. 

• Bandido bom é bandido ressocializado (para crime hediondo sou a favor da prisão perpétua). 

• Criminosos de colarinho branco também são bandidos (e, talvez, sejam os piores). 

• Pedofilia é crime, e penso que é hediondo. 

• Sou pró-família (independentemente da constituição desta). 

• Sou contra a erotização de crianças, mas a favor da educação sexual. 

• Sou a favor de acabar com todo e qualquer privilégio da classe política, militar e jurídica. 

• Cotas devem existir para pessoas desfavorecidas social e economicamente. 

• Direitos humanos é direito de todos os humanos e, se não fosse por eles, não seríamos uma sociedade. 

• Professores, profissionais da saúde e policiais deveriam receber mais do que deputados e senadores. 

• O Brasil é um país laico e todas as religiões merecem respeito. 

• O feminismo existe para defender e proteger a mulher, e quem acha o contrário é, no mínimo, mal intencionado. 

• Racismo é crime abominável. 

• Sou contra o aborto (mas a favor da sua descriminalização). 

• Somos todos iguais, porém é notório o preconceito ainda enraizado em nossa sociedade. 

• Sou a favor de políticas que beneficiem as minorias. 

• Meritocracia só existe pra quem tem dinheiro (no Brasil). 

• Sobre os gays, não deveria nem ser tema de debate político, porque orientação sexual não define caráter. 

• E essa nova geração está precisando estudar mais, para não cometer erros como a antiga cometeu. 

Marcos Malfatti

Soneto

 

O soneto é uma forma poética que se mantém viva na literatura há quase 800 anos, desde que os poetas da escola siciliana fizeram projeção de sua estrutura ‒ eficaz em termos de comunicação de um conteúdo estético, sonora como poucas no seu ritmo e nas suas rimas. Giacomo Lentini (1210-1260) é tido como seu criador. O estilo fez sucesso e foi seguido no século XIV por Dante (1265-1321) e Petrarca (1304-1374), que o estabilizaram e difundiram. 

A forma breve, fixa, sonora (sonetto em italiano significa pequenos sons, pequena canção) fácil de decorar por seu metro decassílabo e pela musicalidade de suas rimas, atingiu praticamente todos os países e segue firme até hoje. Não cabe aqui historiar a evolução do soneto, mas lembrar que com o seu uso e abuso vieram as variações, que foram muitas, principalmente a partir do Romantismo, Parnasianismo e Simbolismo, com a adoção do verso de 12 sílabas. No Modernismo a liberdade métrica foi atingida com a adoção de versos de métricas variada, e versos livres. Antes disso, já havia acontecido a alteração do soneto dito inglês, popularizado por William Shakespeare (1564-1616), que era composto por três quartetos e um dístico. 

No Brasil o soneto começou a ser utilizado no Barroco, tendo como modelos Petrarca e Camões (1524-1580), e atingiu o Modernismo com Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), Vinicius de Moraes (1913-1980), Mário Quintana (1906-1994). Na contemporaneidade muitas foram as transformações do soneto, fiquemos para breve análise com dois exemplos notáveis de transformação lúdica da norma: Paulo Henrique Britto (1951) e Ricardo Silvestrin (1963). 

(...) 

Parte da matéria de José Eduardo Degrazia, poeta, escritor e tradutor, para o Caderno de Sábado, março de 2026, no Correio do Povo. 

Resumindo 

O soneto é uma forma poética fixa de origem italiana (século XIII), composta por 14 versos, geralmente organizados em quatro estrofes: dois quartetos (quatro versos cada) seguidos de dois tercetos (três versos cada). Clássicos, utilizam versos decassílabos (10 sílabas) ou alexandrinos (12 sílabas) com rimas estruturadas, popularizados por Francesco Petrarca e Luis de Camões.

Francesco Petrarca

sábado, 21 de março de 2026

Emprego dos pronomes demonstrativos

 

este, esse, aquele

00. Emprego dos demonstrativos: este – esta ‒ estes – estas – esse – essa – esses ‒ essas e suas variações: aquele ‒ aquela ‒ aqueles – aquelas: isto ‒ (só no singular) ‒ isso (só no singular): aquilo (só no singular).

O emprego dos pronomes demonstrativos e suas variações se efetua a partir dos seguintes critérios:

01. Em relação ao espaço: (= à proximidade ou afastamento das diferentes pessoas gramaticais) (= perto de mim ‒ perto de ti ‒ longe de nós). 

Observe as frases:

a) Balconista, quero comprar este terno que estou admirando. (perto da pessoa que fala = eu/mim) 

b) Dá-me esse açucareiro que está perto de ti, Marina. (perto da pessoa com quem se fala = tu/ti) 

c) Maria, conheces aquele senhor que está do outro lado da rua? (longe da pessoa que fala e da pessoa com que se fala = eu/tu = nós) 

Agora, devemos traçar as normas básicas para o emprego dos pronomes demonstrativos.

Usa-se: 

a) este (a): para algo que está aqui perto de mim (pronome pessoal) eu.

b) esse (a): para algo que está perto de ti (pronome pessoal) tu.

c) aquele (a): para algo que esteja longe de nós, isto é, de mim e de ti.

02. Em relação ao TEMPO: (presente, passado recente, passado mais afastado)

a) Este ► refere-se ao tempo atual, que está transcorrendo: (este dia ‒ esta semana ‒ este mês ‒ este ano ‒ esta década)

Esta noite de hoje está muito agradável.

Nesta semana irei ao cinema.

b) Esse ► refere-se a um tempo passado e, de preferência, não muito afastado:

Há duas semanas, fui para a fazenda de meus avós; esses dias foram muito felizes.

c) Aquele ► refere-se a um tempo anterior bem mais afastado:

Em 1945, naquele ano terminou a Segunda Guerra Mundial.

03. Em relação aos termos de uma ORAÇÃO ou PERÍODO:

a) Este refere-se ao termo mais próximo, isto é, ao nomeado em segundo lugar; e aquele indica o mais afastado, isto é, o enunciado em primeiro lugar.

Duas criaturas são dignas de admiração; os jovens e os velhos; estes, (os velhos) por sua experiência; aqueles, (os jovens) por seu idealismo.

b) Este indica a ideia que vamos mencionar, e esse se refere a uma ideia já referida.

Prestem muita atenção nesta frase, porque ela exemplifica isso que eu expliquei há pouco.

sexta-feira, 20 de março de 2026

12 Lições de Vida

 de uma Professora Aposentada

01. ► Toda criança difícil está pedindo algo que não sabe nomear. 

02. ► O aluno que mais me deu trabalho é o que mais me visita ainda hoje. 

03. ► Não existe criança burra, temos que incentivar o que ela gostaria mais de aprender. 

04. ► Elogie o esforço do aluno, não o resultado, positivo ou negativo. 

06. ► Incentivar a leitura, desde pequeno, vale mais que brinquedo caro. 

06. ► Não compare: cada semente tem seu tempo para germinar. Assim também é o aluno. 

07. ► Educação que fica para sempre, o aluno só aprende pelo exemplo. 

08. ► Disciplina sem afeto cria medo. 

09. ► O professor que mais o marcou, acreditava muito em você. 

10. ► Errar e admitir que errou ensina mais do que 100 aulas. 

11. ► Ensine os alunos para o mundo que eles irão enfrentar. 

12. ► Eu ainda, até hoje, sinto falta de alunos entrando barulhentos em minha sala de aula. 

(De um desenho feito por IA)

quinta-feira, 19 de março de 2026

Cuidado com psicopata!

 

(...) 

Esse distinto sentimento, o da compaixão, é subestimado. Poucas vezes é levado em consideração quando as pessoas vão avaliar outras pessoas. Quando você, leitor, escolheu seu cônjuge, chegou a cogitar se ele tem compaixão? Ele é capaz de sentir a dor do outro? Comove-se com a desgraça alheia? Ou para ele tanto faz? Cuidado: você estar dormindo ao lado de um psicopata. 

Esse pode ser, também, um critério sábio para a escolha de políticos. O seu candidato se importa com as outras pessoas? Ele realmente se comove com a infelicidade do outro? Ou ele só quer se manter no poder e destruir seus adversários? 

Compaixão. Pense nisso na próxima eleição. 

(Parte de uma crônica de David Coimbra, junho de 2021)

quarta-feira, 18 de março de 2026

A Nova Igreja

 

Um belo dia, um ignorante inteligente veste um manto ou põe um livro embaixo do braço e vai para as praças públicas proclamar aos quatro ventos que é um enviado de Deus. 

Em tom eloquente, o mensageiro anuncia que um anjo lhe apareceu em sonhos e deu-lhe a missão de avisar a todos que em breve, do céu, virão grandes castigos, dos quais só estarão a salvo aqueles que o seguir, contribuindo para formação do reino de Deus aqui na terra. 

Que o salvador virá na cauda de um cometa e arrebatará os eleitos, levando os batizados para o céu. Dentro de pouco tempo, essa nova igreja já arrasta uma multidão para os seus cultos e muito dinheiro para seus cofres. 

A congregação cresce tão rápido que um só pastor já não atende às necessidades da nova comunidade. Aí, o primeiro se proclama bispo e sagra o segundo, que ordena o terceiro, que promove o quarto, que nomeia o quinto. 

Assim, se forma o clero de homens e mulheres que regerão os destinos da nova comunidade, inclusive com poderes para sagrar e ordenar novos clérigos e pastores que serão os arautos da palavra de Deus, os quais irão expulsar demônios, fazer curas, batizar e servir de intermediários entre deus e os pecadores. 

Se você se perguntar, quem lhes deu a missão de pregar o Santo Evangelho e o poder para batizar? Certamente vão responder que foi o próprio Deus. 

Com o dinheiro arrecadado, o grupo compra carros de luxo para os membros, alugam ou compram canais de televisão e rádio. Constroem ou alugam barracões cada vez maiores para acomodar número dos seguidores que aumenta dia a dia. 

A nova igreja vai muito bem, até que alguém descobre que os lucros não estão sendo distribuídos em partes iguais conforme o combinado. A desigualdade no rateio provoca o cisma, os lesados abandonam a congregação e cada um dos dissidentes funda a sua própria igreja. 

Jhon Macker 

Recanto das letras

terça-feira, 17 de março de 2026

Biografia do Mestre Cartola

 

Nascido na rua Ferreira Vianna, no Catete, em 11.10.1908, era o primogênito dos oito filhos do casal Sebastião e Aída. Apesar de ter recebido o nome de Agenor, foi registrado como Angenor de Oliveira. Mas esse fato ele só viria a descobrir muitos anos mais tarde, ao tratar dos papéis para seu casamento com Dona Zica, nos anos de 1960. A partir de então, para não ter que providenciar a mudança do nome no cartório, passou a assinar oficialmente seu nome como Angenor de Oliveira. Ainda na infância, mudou-se com a família para o bairro das Laranjeiras, onde entrou em contato com os ranchos União da Aliança e Arrepiados. Neste último, tocava um cavaquinho que lhe fora dado pelo pai quando tinha somente 8 ou 9 anos de idade. Seu entusiasmo por esse rancho era tanto que, mais tarde, ao participar da fundação da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, em abril de 1929, sugeriu que aquela agremiação tivesse as mesmas cores do rancho Arrepiados: verde e rosa. Desde então, essas duas cores passaram a formar um símbolo dos mais reverenciados no mundo do samba. 

Na verdade, soube depois por Carlos Cachaça, que existira no Morro da Mangueira um antigo rancho de carnaval com o nome de Caçadores da Floresta, cujas cores eram exatamente o verde e o rosa. Em 1919, foi morar no Morro da Mangueira, aos 11 anos de idade. Sua família passava, então, por dificuldades financeiras. Pouco depois, começou a travar amizade com um outro morador da Mangueira, Carlos Cachaça, seis anos mais velho, e que se tornaria, além de amigo por toda a vida, o seu parceiro mais constante em dezenas de sambas. 

Fez o curso primário. Após a morte de sua mãe, abandonou os estudos para trabalhar, ao mesmo tempo em que se inclinava para a vida boêmia. Durante a adolescência trabalhou numa tipografia e também como pedreiro. Vem daí o apelido com que se tornaria reconhecido como um dos grandes nomes da Música Popular Brasileira: enquanto trabalhava nas obras de construção, para que o cimento não lhe caísse sobre o cabelo, resolveu passar a usar um chapéu- de- coco que os colegas diziam parecer mais uma cartolinha. Assim, começou a ser chamado de “Cartola”. Nessa época, conheceu Deolinda, mulher sete anos mais velha, casada e com uma filha de dois anos. Certa vez, se sentiu doente e Deolinda, vizinha do barraco ao lado, se oferece para cuidar dele. Os dois acabam se envolvendo. Tinha na época apenas 18 anos e estava morando sozinho. Decidem viver juntos e Deolinda deixa o marido, levando a filha que o compositor irá criar como sua. Sob seu teto e de Deolinda, Noel Rosa foi se abrigar algumas vezes, à procura de um refúgio tranqüilo, como contam João Máximo e Carlos Didier em “Noel Rosa, uma biografia”. 

Participou da formação do Bloco dos Arengueiros, em 1925, que viria a ser o embrião da Mangueira. Em 1946, aos 38 anos de idade, contraiu meningite e ficou impossibilitado de continuar a trabalhar por um longo tempo. Com a morte de Deolinda, deixou o Morro da Mangueira, afastando-se do mundo do samba, por cerca de dez anos. Conseguiu trabalhos modestos, como o de lavador de carros e vigia de edifícios. Era esse o seu ofício, em meados dos anos 1950, num edifício em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro. Numa noite de 1956, em que resolveu beber um café num botequim próximo ao edifício onde trabalhava, encontrou o escritor Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) que imediatamente o reconheceu. Ao ver o compositor naquele macacão, molhado, o escritor decidiu ajudá-lo. Na ocasião, era dado como desaparecido ou mesmo morto, por muitos de seus conhecidos e admiradores. O reencontro com Sérgio Porto foi definitivo para a retomada de sua carreira como músico e compositor. 

Começou a participar de programas na rádio Mayrink Veiga e depois foi trabalhar como contínuo no jornal Diário Carioca, por recomendação do cronista e pesquisador Jota Efegê. Empregou, anos depois, como contínuo do Ministério da Indústria e Comércio e teve uma casa em terreno doado pelo Governo do Estado da Guanabara. No início dos anos 1960, vivendo com Eusébia Silva do Nascimento, a Zica, abriu com ela o restaurante Zicartola, num casarão na Rua da Carioca, no Centro do Rio. A iniciativa contou com o apoio financeiro de empreendedores considerados “mangueirenses de coração”, como o empresário Renato Augustini. A receita para o sucesso do estabelecimento, que se tornaria uma página importante na história da música popular brasileira, era das mais simples e saborosas. Na cozinha, D. Zica comandava o tempero do feijão que lhe tornou famosa, enquanto ele fazia as vezes de mestre de cerimônias, propiciando o encontro entre sambistas do morro e compositores e músicos de classe média. No Zicartola, por exemplo, Paulinho da Viola começou a cantar em público. 

Em 1978, transferiu-se da Mangueira para uma casa em Jacarepaguá, mas sempre voltava para visitar os amigos no morro onde crescera e se tornara famoso. Em 1979, descobriu que estava com câncer, doença da qual viria a morrer no ano seguinte, aos 72 anos de idade, em 30.11.1980. Após o velório na quadra da Estação Primeira de Mangueira, seu corpo foi sepultado no Cemitério do Caju. Durante os anos seguintes, viriam homenagens póstumas, discos e biografias que o confirmariam como um dos maiores nomes da música popular brasileira. Quando soube que o compositor se encontrava doente o poeta Carlos Drummond de Andrade escreveu crônica no Jornal do Brasil na qual dizia: “A delicadeza visceral de Angenor de Oliveira (e não Agenor, como dizem os descuidados) é patente quer na composição, quer na execução. Como bem me observou Jota Efegê, seu padrinho de casamento, trata-se de um distinto senhor emoldurado pelo Morro da Mangueira. A imagem do malandro não coincide com a sua. A dura experiência de viver como pedreiro, tipógrafo e lavador de carros, desconhecido e trazendo consigo o dom musical, a centelha, não o afetou, não fez dele um homem ácido e revoltado. A fama chegou até sua porta sem ser procurada. O discreto Cartola recebeu-a com cortesia. Os dois conviveram civilizadamente. Ele tem a elegância moral de Pixinguinha, outro a quem a natureza privilegiou com a sensibilidade criativa, e que também soube ser mestre de delicadeza.

segunda-feira, 16 de março de 2026

Oração da Mulher

 

Senhor, me ajude a nunca desistir de ser mulher.

Coloque um espelho no meio do meu caminho entre a lavanderia,

o supermercado, o sapateiro...

E que, ao me olhar, eu goste do que vejo. 

Não deixe que eu passe uma semana sem usar batom bem vermelho,

uma bota bem alta ou um jeans bem justo.

Proteja meus cabelos do vento, os brinco e anéis dos olhares invejosos.

Nunca deixe faltar na minha vida comédias românticas e boas depiladoras. 

Se eu tiver vontade de chorar, faça com que eu chore um dilúvio.

E que tenha saído de casa sem pintar o olho.

Para cada dia triste, me dê uma vitrine com sapatos lindos. 

Já que eu nunca pedi milagres,

faça que minha celulites sejam ao menos discretinhas.

Dê-me saúde, tempo livre, e silêncio...

E que nunca falte perfume na minha bolsa. 

Nos engarrafamentos,

faça com que eu ligue o rádio e esteja tocando minha música preferida.

Dê-me forças para comer mais saladas, mais frutas.

Cegue meus olhos para as sujeiras dos cantos.

Ajude para que eu chegue do trabalho inteira. 

Em dias difíceis, dê-me persistência para seguir na dieta.

Dê também firmeza para os seios...

Proteja minhas poucas horas de sono

e não me julgue mal caso eu não acorde na hora. 

Não deixe que minha testa fique tão franzida

a ponto de parecer uma saia plissada.

E eu, uma louca estressada.

Faça com que o sol seja meu personal trainer,

meu complexo de vitaminas, meu carregador de bateria...

Mas quando eu pedir um diazinho de chuva, não pergunte por quê. 

Para cada batata quente no trabalho, me dê um café recém-passado.

Entenda que, quando rezo para cancelarem uma reunião

(não é gastar reza à toa, pode ter certeza).

No meio de tudo isso, faça com que eu ache tempo para:

Virar namorada de novo, Ir ao cinema, Jantar fora,

Dormir abraçadinha... 

Ilumine o espelho do banheiro e proteja meus cremes e segredos...

Ajude a não faltar gasolina e não furar o pneu e,

por favor, afaste os motoqueiros do meu retrovisor. 

Senhor, por pior que seja o meu dia...

Faça com que ele termine,

e não eu.

Amém!

Amizade é outra coisa!

 

Amizade não é algo que o faz sair do chão e o transporta para lugares que você nunca viu.  

O nome disso é avião. Amizade é outra coisa. 

Amizade não é uma coisa que você esconde dentro de si e não mostra para ninguém. 

Isso se chama vibrador. Amizade é outra coisa. 

Amizade não é uma coisa que te faz perder a respiração e a fala. 

O nome disso é bronquite asmática. Amizade é outra coisa. 

Amizade não é uma coisa que chega de repente e o transforma em refém. 

Isso se chama sequestrador. Amizade é outra coisa. 

Amizade não é uma coisa que voa alto no céu e deixa sua marca por onde passa. 

Isso se chama pombo com diarreia. Amizade é outra coisa. 

Amizade não é uma coisa que você pode prender ou botar pra fora de casa quando bem entender. 

Isso se chama cachorro. Amizade é outra coisa. 

Amizade não é uma coisa que lança uma luz sobre ti, te leva pra ver as estrelas e te traz de volta com algo dele dentro de ti. 

Isso se chama alienígena. Amizade é outra coisa. 

Amizade não é uma coisa que desapareceu e que, se encontrado, poderia mudar o que está diante de você. 

Isso se chama controle remoto de TV. Amizade é outra coisa. 

Amizade? 

Amizade é outra coisa! 

É amor, é respeito, é parceria!